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16º Festival de Dança de Joinville - 1998

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- Entrevista com Vasco Wellenkamps
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Três momentos do espetáculo "Dreiek" do Cia. Vacilou Dançou, último grupo convidado a se apresentar no Festival. (Fotos: Carlos Alberto da Silva)

O dom da dança

Criatura universal que não tem corpo nem rosto

Joel Gehlen
Editor do ANFestival

Oh Musas, quisera que as palavras tivessem o dom dessas pernas. A imagem que fica da dança é a expressão de contrários. Força e suavidade, movimento temperado por instantes inertes do corpo, luz pontuando a escuridão, música e silêncio.

Quem é que pode medir os insuspeitados dínamos que fazem Daniela Severian, Fernanda Diniz e Thomioka rodopiar com tanta agilidade e ostentando dulcíssimos sorrisos nos lábios em pleno vôo? Mas nada nelas sugere a força bruta com que se move a massa física. É como se, secretamente, burlassem as leis de Newton, e tornassem fácil o que é impossível. E de que ardis da mais profunda graça valeu-se Pollyana Ribeiro para, mergulhar a platéia encantada e silenciosa e cúmplice na mais célebre história de amor de todos os tempos? Todas pernas, todos os braços, todos o gestos que deram vida às Dianas, Esmeraldas, Basilios e Actheons, formam uma galeria de sensações que vão muito além da mais elevada possibilidade encantatória das palavras.

Nas apresentações modernas, pausa para a reflexão. Sem rupturas, estabelece-se a contrafação de opostos. O corpo já não almeja beleza, embora no tanto de estranheza que apresente, propicia um prazer íntimo e plena satisfação do belo. A inquietação, o reencontro com o há muito perdido, as dores mal cicatrizadas, as indisfarçáveis evidências, a lâmina da ironia num corte vertical. Todas as vozes reunidas nesta linguagem sem tradução. Da Babel dos gestos, emerge cristalina na alma a mensagem do poeta Valéry: "Que a dança faça nascer, pela sutileza dos traços, pela divindade dos ímpetos, pela delicadeza das pontas paradas, essa criatura universal que não tem corpo nem rosto, mas que tem dons, e dias, e destinos".


Festival passa
por reformulações

Uma comissão será formada para discutir mudanças

A 17ª edição do Festival de Dança de Joinville começa a ser pensada a partir de hoje. Esta é a promessa do presidente da Fundação Cultural, Edson Busch Machado e um desejo do prefeito Luiz Henrique da Silveira. A idéia é ganhar tempo e evitar problemas e equívocos típicos da correria de última hora. Além dos ajustes necessários na estrutura do próprio Centreventos Cau Hansen, onde foi realizado o festival este ano e fechamento de patrocínio com antecedência, há pelo menos intenção de mudar alguns tabus como a apresentação de abertura do festival.

Luiz Henrique já adiantou que, para o próximo ano a estréia contará com um espetáculo completo que seja apresentado por uma companhia também completa. A idéia é evitar os arranjos de última hora, os pas-de-deux, trechos coreográficos e peças pela metade. O público, agradece. Na avaliação que fez para o ANFestival, logo após encerrar-se a última noite competitiva, Luiz Henrique apontou dois problemas que serão evitados: a correria provocada pela inauguração do Centreventos - que concentrou todos os esforços da municipalidade - e a tardia aprovação da Lei do Mecenato, que só foi obtida na última hora, o que atrapalhou a captação de recursos. Exatamente por isso, o prefeito valorizou sobremaneira os patrocinadores: a Antarctica, o Bradesco Saúde e o importante apoio da TAM.

Artisticamente, Luiz Henrique considerou o festival deste ano superior ao anterior. Entretanto, promete mudanças, que não quis adiantar. Para avaliar que medidas devem ser tomadas, o prefeito anunciou a realização de um Brain Storm em, no máximo 15 dias, com especialistas convidados. A proposta é rediscutir erros e acertos. Por enquanto, a única decisão é que deve haver mudança. Cuidadoso, Luiz Henrique prefere delegar a este colegiado a decisão sobre as alterações necessárias. Quanto à aprovação da Lei do Mecenato (que permite à organização do festival captar recursos junto à iniciativa privada) ela deve ser obtida ainda no primeiro semestre para que, em seguida, consiga-se um patrocinador que permita dedicar o resto do tempo à composição artística do evento.

A profissionalização, com a terceirização de algumas tarefas - iniciada este ano - vai continuar. Luiz Henrique considera positiva a experiência desta edição em que a empresa Ápice foi responsável por parte da organização e estrutura do FDJ. Segundo o prefeito, a iniciativa "foi bem sucedida e terá continuidade". Para Edson Machado, houve prós e contras na tercerização. Como ponto negativo ele cita a venda de ingressos que precisa ser feita com mais antecedência, em mais pontos, mas fez a ressalva de que o atraso foi provocado pela demora na identificação dos patrocinadores. Todos os outros pontos passados à iniciativa privada como zeladoria, transporte e segurança foram aprovadas pelo presidente da FCJ.

Para o prefeito, o melhor espetáculo que viu nesta edição foi - com a ressalva de que sua preferência é pelo clássico - as apresentação das "meninas de ouro" no gala em homenagem aos personagens do livro "15 Anos de Dança no Brasil".

Edson Machado adianta que problemas detectados este ano como a má localização dos jurados e da imprensa, o nível de inclinação da platéia, fluxo de acesso do público ao auditório e a acústica, serão resolvidos. Outras questões cruciais como as noites longas também estão na pauta de mudança. Karen Busch, coordenadora técnica do evento, reconhece que o festival está muito grande, mas ao mesmo tempo a demanda é maior a cada ano. Ela adianta que uma solução é fazer apresentações separadas do júnior, à tarde, no pequeno auditório do Centreventos.

Quanto à formação de um conselho curador para elaborar o programa de grupos convidados - uma das medidas mais urgentes e necessárias na avaliação dos especialistas em dança - ainda não há perspectiva à vista. Mas um primeiro passo nesta direção pode ser dado com a criação de uma comissão, com representantes de todo o país, para trazer informações sobre o que está sendo realizado nos mais diferentes lugares. A decisão final continuaria sendo dos organizadores locais.

Números

O festival deste ano foi visto por um público de aproximadamente 80 mil pessoas. Sendo que 30 mil foram pagantes e o resto recebeu cortesias, além dos profissionais credenciados que também não pagaram ingressos. Segundo o coordenador financeiro, Aliatar José Cordeiro, a bilheteria rendeu R$ 150 mil de receita. Embora ainda não haja um balaço final, Aliatar calcula que o custo do festival não chegará aos R$ 3 milhões previamente previstos no orçamento. Num balanço da repercussão do evento na imprensa, o responsável pela assessoria de imprensa, Eli Diniz, enumerou que o festival ganhou 33 minutos de TV em rede nacional, incluindo citações em dois programas Globo Repórter, no Jornal Hoje, Vídeo show, além de programas especias na TVE e TV Cultura. Os grandes jornais como Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, O Globo, noticiaram o evento por mais de uma vez.


"O tempo"
Grupo VD Mascote, 1º lugar no Trio Livre, Amador 2
Foto: Carlos Alberto da Silva

Festival da transição

Suzana Braga
Crítica de Dança

Chega ao final o "festival do século" e já começa a ser pensado o "festival do milênio"ou seja, o próximo. Muita água rolou nesses 13 dias de dança com cerca de 50 horas de competições. Como sempre uma minoria feliz, os vencedores; e uma maioria descontente, os perdedores. Mas o descontentamento passa rápido e, ano que vem, estarão todos de novo aqui, com a técnica mais afiada, a criatividade exacerbada, prontos para entrar no palco. E os perdedores de hoje poderão ser os vencedores de amanhã.

Foi um festival estruturalmente tenso, uma das edições mais estressantes. O simples translado do megaevento de um ginásio de palco improvisado (o Ivan Rodrigues) para uma casa de espetáculos, o Centreventos Cau Hansen, já gera uma série de desacertos. Situações surpresas pegaram a todos, o que é absolutamente compreensível num primeiro ano de transição mas que deve ser reparado para o próximo.

Muitas observações são pertinentes para que todos tenham melhores condições de trabalho na 17ª edição do festival. Os jurados não tiveram uma boa visibilidade no local em que foram instalados, a imprensa idem; o palco precisa de um ciclorama neutro, que limite a profundidade; o som precisa de ajustes sérios, especialmente o som de retorno para o palco. Muitas vezes têm-se a impressão de que os bailarinos são antimusicais mas na verdade eles estão com cerca de um segundo de atraso no som que recebem, isso é muito; as salas de ensaios e aulas precisam de pisos adequados e o festival presisa ser enxugado. O número de participantes esse ano foi excessivo e alguns não mereciam estar no palco. A seleção de vídeos precisa ser mais rigorosa e criteriosa. Mas, com tudo isso, o festival foi muito bom.

A dança clássica, como já vem acontecendo há alguns anos, é a que mostrou maior evolução. Foram tantos os destaques que juntado todos se faria uma ótima companhia juvenil. O jazz evoluiu muito, perdeu a vulgaridade, está seguindo uma linha mais criativa e pesquisada. Nenhuma grande novidade no moderno/contemporâneo mas também nenhum grande susto, isso é bom. O que está acontecendo é que os grupos e os bailarinos estão nivelados, por cima, e isso não permite que tenhamos grandes surpresas, grandes impactos.

Noite do Ginga

Na última noite do festival, foram à cena os trios livres e o sapateado. Na primeira modalidade os destaques ficaram por conta do Grupo VD Mascote com a coreografia "A/O Tempo", de Carlota Portella com música de Astor Piazzolla. Trabalho limpo, bem estruturado que mereceu um indiscutível primeiro lugar no Amador II. Nos trios profissionais brilho o Ginga Cia. de Dança que já estava com sede de uma primeira colocação (havia recebido um terceiro lugar no conjunto e um segundo no solo). Conseguiu o ouro com o belo trabalho de Diógenes Antônio da Silva "Camile", o maior destaque da noite. A ressaltar ainda a qualidade do elenco do Ginga. A companhia está muito boa, com bailarinos de primeira linha, dentre eles a excelente Patrícia Ramires, em noite inspirada.

No sapateado a coisa complicou. Sem sonorização dentro de um espaço como o do Centreventos não é possível. Os concorrentes sofreram. Alguns dançaram sobre a percussão já gravada, mas ficou estranhíssimo, sem uniformidade. Mesmo assim, entre mortos e feridos salvou-se o Tap Factory, de São José dos Campos, com a peça " Ciclos", assinada por Steven Harper que faturou um merecido primeiro lugar no Amador I. A propósito, Steven Harper foi um dos convidados da noite, dançou acompanhado de "amigos do sapateado" e com a participação dos músicos Bruce Hary ( baixo) e Zé Carlos Ramon ( sax). Fez sucesso.

O outro grupo convidado foi a Cia. Vacilou Dançou, de Carlota Portella que apresentou o espetáculo "Dreiek" numa versão editada, especialmente para o festival. Com coreografias de Carlota, Henrique Rodovalho e Toni Rodrigues, o grupo mostrou um impecável profissionalismo, um elenco forte e versátil e um espetáculo de grande qualidade que não brilhou como merecia, pela iluminação insuficiente.

16º Festival de Dança de Jonville
Noticiário
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Presença

Dança continua em Joinville, depois do festival

Ana Francisca Ponzio
Crítica de dança

A dança promete marcar presença em Joinville, mesmo após o encerramento do 16º Festival. Dia 14 de agosto, o Centreventos Cau Hansen recebe o grupo Omsbrab, dirigido por Fernando Lee, coreógrafo paulista, cuja estética urbana fez sucesso em 1996 na Bienal da Dança da cidade francesa de Lyon, que dedicou seu tema ao Brasil naquele ano.

Depois do elenco de Fernando Lee, Joinville receberá uma das maiores estrelas do balé: Mikhail Baryshnikov, que dançará na cidade em novembro, em data a ser confirmada. O espetáculo comemora os 50 anos de Baryshnikov, que trocou a pirotecnia técnica por uma sabedoria que o torna mais completo como intérprete.

Ao contrário das estrelas que insistem em dançar papéis juvenis quando já não têm idade para tanto, "Misha" vem dançando coreografias feitas especialmente para ele e que exploram o melhor de sua maturidade. O programa da próxima temporada brasileira do bailarino é o mesmo que foi apresentado em Nova York, em janeiro passado.

A peça principal do programa chama-se "Heartbeat: MB", que permite ao público ouvir as batidas do coração do bailarino, enquanto ele dança. Isso ocorre graças a um aparelho elétrico, sem fio, utilizado por Baryshnikov no peito. A coreografia, de Sara Rudner, ex-bailarina solista do grupo de Twyla Tharp, tem a mortalidade como subtexto.

As demais coreografias do programa são: "Three Russian Preludes", de Mark Morris, e "Tryst", de Kraig Patterson, jovem coreógrafo cuja carreira vem sendo estimulada por Baryshnikov.

Novidades

Enquanto Misha não vem, Fernando Lee traz novidade ao público de Joinville. Ex-bailarino de grupos como o Stagium e o Balé da Cidade de São Paulo, Lee vem pesquisando nos últimos anos uma linguagem própria, baseada nos gestos e ritmos originados na cultura popular.

"Nosso país, rico em liberdades de expressão do corpo, seja através do futebol, das festas populares ou da própria língua, ainda não descobriu a riqueza do seu gingado na dança contemporânea. É vital dançar essa nova realidade brasileira, que retrata o homem urbanizado, em meio a uma salada cultural influenciada pela mídia e por tradições indígenas, africanas e européias", diz Lee.

Em Joinville, Lee apresenta "Brecht com br", ainda inédita na capital paulista. Protagonizada por três feirantes que encontram acidentalmente um livro de poesias do dramaturgo alemão Bertold Brecht, a peça mistura irreverência, humor e poesia. A música, ao vivo, é executada pelos próprios bailarinos em instrumentos rústicos, como caixotes de feira e tubos de PVC.

Débora Colker
vem dia 21

Ainda no embalo do Festival de Dança, depois da apresentação do OMSTRAB, de Fernando Lee, dia 14, data que marca a morte de Bertolt Brecht, a companhia carioca da bailarina e coreógrafa Débora Colker vem ao Centreventos Cau Hansen dia 21 de agosto para mostrar seu espetáculo, "Rota", dirigido pela própria Débora e produzido por J.E Produções, de Curitiba.

Sucesso indiscutível de público e crítica por onde passa, "Rota" explora as infinitas possibilidades da dança contemporânea e a presença em cena do maior símbolo da invenção humama, a roda. Esta é a terceira coreografia original da companhia carioca, que está em turnê pelo Brasil até abril do ano que vem.

Com cenografia de Gringo Cardia e figurinos de Yamê Reis, "Rota" descreve seu giro (e seu curso) em torno dos grandes eixos de sustentação do trabalho da coreógrafa Débora Colker, que faz uso do gesto, síntese do movimento, como elemento de expressão cênica, além da apropriação de movimentos de outras partes do corpo, e as reflexões sobre as forças que reagem a esses movimentos.

Rota" é dividida em 2 atos. O primeiro é de linhas negras, pontilhadas, retas, curvas, que riscam a eletrotela branca de 15 por 7 metros que serve de fundo ao palco. No cenário, que lembra também antigos mapas de navegadores, desenrolam-se os quatro movimentos do primeiro ato, que também faz uma homenagem às vertentes eruditas da música e da dança.

No segundo ato, logo que o pano se abre, aparece uma roda de 4,5 metros de diâmetro, o grande emblema deste espetáculo de Débora Colker. Uma luz de suaves contornos azuis toma de assalto o palco delineando as esculturas que compõem a imagem inaugural de Gravidade, uma de ferro, outra de corpos.

A apresentação da companhia de Débora Colker começa às 21 horas e os ingressos custam R$ 20,00, R$ 15,00, R$ 10,00 e R$ 5,00.


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