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Vitral falso, fascínio verdadeiro

Ex-operária da Tigre esculpe vidros coloridos que decompõem os feixes de luz à semelhança dos antigos vitrais

Hildy Vieira

Joinville ­ Seu encanto está nas cores. Mas não nas cores simples. Só a luz pode traduzi-las. Cada ângulo faz decompor os pequeninos raios, mostrando múltiplas nuanças. Dificilmente iguais. Sempre deslumbrantes aos olhos de quem observa. Sedução de uma arte cuja origem ninguém sabe precisar, que prende e transcende os sentidos, que transforma em prazer tudo que feflete. É assim a arte de Regina Radtke, 57 anos. A "dona Regina dos vitrais".

No início era apenas uma forma de distração para os anos da aposentadoria que se aproximava. Hoje, suas peças enchem de graça e cor os mais distintos ambientes. São lustres, quadros, portas, janelas, cachepôs (pequenos vasos) e outros objetos de decoração. Um trabalho antigo, criado por artesãos do período bizantino, praticada pela mesma operária que um dia pintou os graciosos leques fabricados pela empresa joinvilense Hansen, nos primórdios de sua existência.

Essa paixão pelo vitrô ­ palavra francesa que define as vidraças coloridas e translúcidas, usadas principalmente em janelas, da qual deriva o termo em português: vitral ­ começou por acaso. Ela conta que seu primeiro contato com a construção de vitrais foi através da TV. "Era uma novela. Tinha cada peça linda feita em vidros trabalhados! Fiquei encantada. Queria aprender como fazer aquilo". Conversando com uma amiga ela descobriu alguém que dava aulas sobre confecção de vitrais em Florianópolis. Fez as malas e foi para Capital.

Desenvolvido como uma alternativa à técnica original, o falso vitral, mais simples e menos dispendioso, se popularizou em artesanatos úteis e decorativos. O ateliê de dona Regina fica num pequeno quarto nos fundos da residência. Lá estão guardados os moldes dos vitrais que confecciona. Embora não utilize a técnica do vitral verdadeiro, cujas partes são fixadas com metal fundido, cada peça feita por ela também representa um delicado e paciente trabalho de contorno e pintura. As linhas são moldadas em massa do tipo epóxi, misturada com pó preto. Os filetes, cuidadosamente estendidos com a ponta dos dedos, vão sendo delineados com o auxílio apenas de uma pequena lâmina de metal. Depois de seca e repintada, a massa dá idéia de ferro retorcido fazendo junção entre pequenos vidros.

A etapa seguinte é a pintura, que irá proporcionar um efeito semelhante ao do vitral verdadeiro, isto é: a refração da luz em várias cores. A pintura leva em torno de 10 a 15 dias para secar. No caso de um lustre, as partes só são encaixadas após a secagem de todas as peças. Dona Regina diz que houve época em que chegou a fazer 30 lustres num mês. As idéias ela tira de revistas, manuais e até mesmo dos cenários das novelas. "Na casa da Custódia tem uma porção de vitrais", menciona, citando a personagem interpretada por Marília Pera, na novela global "Meu Bem Querer".

Dona Regina ainda trabalhava como operária quando começou a vender suas primeiras peças. Depois da aposentadoria ela passou a se dedicar integralmente à nova ocupação. Primeiro decorou toda a casa, depois resolveu participar da Feira de Artesanato de Joinville. Vendeu tudo que havia feito. Daí não parou mais. Fazia desde encomendas para donas de casa até modelos personalizados e exclusivos, solicitados por decoradores.

Hoje, embora ainda se ocupe dos vitrais, dona Regina divide-se entre outras atividades, não menos artísticas, por sinal. Uma delas é a pintura. Entre os vitrais que decoram a casa, também se pode apreciar dezenas de quadros em óleo sobre tela, alguns reproduzindo imagens semelhantes à de algum vitral por ela confeccionado. Nos dias ensolarados, a luz que invade os cômodos da casa produz feixes multicoloridos ao refletir nas peças ­ uma diversão para os olhos e uma distração para a alma.

Uma arte abandonada

Mesmo estando praticamente abandonada pelo grau de dificuldade e pelo custo de sua elaboração, a arte do vitral verdadeiro ainda seduz a imaginação dos homens. Numa mágica criteriosa e paciente, os pequeninos grãos de quartzo são transformados em painéis deslumbrantes.

Desde o início, essa arte esteve a serviço dos templos cristãos. Embora tenha se originado em Bizâncio, em seu desenho mais característico e em suas maiores realizações foi essencialmente uma arte da cristandade ocidental, encontrando a mais explêndida expressão no Oeste e Norte da Europa como elemento auxiliar da arquitetura gótica. As vidraças completas mais antigas estão na Catedral de Augsburg e datam de algum momento entre os anos 1050 e 1150.

A técnica comumente usada para a produção de vitrais pode ser descrita em grandes linhas. De início, o padrão desejado é desenhado em pequena escala. A partir desse esboço inicial, elabora-se em papel (em outras épocas empregava-se uma mesa ou prancha pintada de branco), um cartão em tamanho real. Nesse cartão as linhas a serem seguidas pelas "guias" são firmemente traçadas em preto, equanto as várias cores de vidro são indicadas por meio de letras. Então o vidro é cortado seguindo as linhas. A invenção da ponta de diamante, no século 16, tornou essa tarefa mais simples e mais precisa.

Os vitrais de qualquer tamanho são formados de painéis separados, mantidos no lugar por barras de ferro às quais se ligam por meio de fitas de chumbo ou, na época moderna, fios de cobre soldados às guias. Nas grandes vidraças dos séculos 12 e 13 (Cantuária, Chartres, Sens) o espaço é dividido por uma estrutura de ferro ­ "armadura" ­ que, além de colaborar para a resistência da janela contra a pressão do vento, acentua as linhas principais do desenho do vitral.

Os vários refinamentos introduzidos no decorrer do tempo tiveram em geral o efeito de tornar a arte mais fácil para quem a pratica, mas freqüentemente à custa da qualidade estética. No século 15 os vitrais começaram a desenvolver características mais pictóricas, imitando os efeitos próprios da pintura a óleo. O processo de mudança ignorou o caráter peculiar do vitral: os artistas esqueceram-se de que era a própria luz, passando através de um material colorido, o principal agente de sua arte. (Fonte: Dicionário Oxford de Arte).


Nana Caymmi
lança novo CD

Disco "Resposta ao Tempo" traz tema da minissérie "Hilda Furacão" e acaba com traumas da cantora

Rio de Janeiro - Nana Caymmi saboreia os ventos que andam soprando para o seu lado. Por aquelas coincidências da vida, o nome de seu mais novo CD, "Resposta ao Tempo", que está sendo lançado esta semana, parece cair como uma luva. Depois de amargar alguns traumas, quando viu há alguns anos músicas suas serem retiradas da abertura de duas produções da Rede Globo, a cantora quase "enfartou" quando viu "Resposta ao Tempo" como o carro-chefe da minissérie "Hilda Furacão". E não parou por aí: a sua interpretação de "Fascinação" (Fascination), também incluída no repertório do novo CD, abre a novela do SBT, batizada com o mesmo nome da música. "Imagina, eu, considerada uma cantora elitista, entrar em um canal popular. É a glória", vangloria-se.

"Resposta ao Tempo" foi a última música a entrar no disco. E nasceu de forma despretensiosa. Responsável pelos arranjos, pelas regências do CD, Cristóvão Bastos recebeu a missão de compor uma canção para Nana. "Ele fez duas ou três coisas que não estavam batendo", lembra. Até que ela ouviu o amigo dedilhar uma melodia no seu violão. "Eu perguntei que música era aquela e ele me disse que não sabia porque ainda a estava compondo. Saí dali correndo e telefonei para pedir ao Aldir (Blanc) que escrevesse urgente a letra, porque era o que faltava para fechar o disco", conta. O resultado a surpreendeu. "Quase tive um choque anafilático quando vi a letra", exagera. Ao que tudo indica, porém, o choque não foi só seu. Junto com a minissérie, a música estourou. "É o paraíso ter uma música na abertura de uma novela porque empurra o disco", comenta.

SABOR ESPECIAL

A alegria de Nana tem um sabor especial quando a cantora pensa nos dois episódios que a traumatizaram. Um deles foi com a novela "Tieta do Agreste". A cantora já tinha gravado a música de abertura da novela - uma parceria de seu irmão Danilo Caymmi com Paulo César Pinheiro - quando José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, mandou retirar a canção e substituí-la por uma outra, de Luís Caldas. A decepção foi tanta que Nana não se lembra do nome da música e não a canta em shows. O outro susto aconteceu com a minissérie "O Tempo e o Vento". O trabalho também já estava pronto quando recebeu a notícia de que sua gravação não seria incluída na abertura da produção porque "tinha muito baiano na trilha sonora" e a história era gaúcha.

Tantas histórias acabam entrando para o caderninho de piadas de Nana. Com o passar do tempo, ela conta essas e muitas outras histórias com bom-humor. Tudo, claro, de maneira irreverente e com uma língua afiada. "Estou tocando muito nas rádios porque caí na tal da Furacão", brinca.

Preferência por
compositores menos solicitados

O novo CD de Nana Caymmi é composto por 15 canções. Ela conta com a participação especial de Chico Buarque, em "Até Pensei", mais a de Erasmo Carlos, com quem faz uma dobradinha na canção "Não se Esqueça de Mim", e com o afilhado Emílio Santiago, em "Doralinda", uma composição de Cazuza com João Donato. Esta é a primeira vez que Nana grava uma música de Cazuza. O repertório é também composto por canções de Sueli Costa, Fátima Guedes, Ary Barroso, Guto Graça Mello/Nélson Motta e Gilberto Gil/Torquato Neto, entre outros.

Ela lamenta que algumas composições tenham ficado de fora, como uma canção de Lenine e outra de Márcio Proença. Diz preferir os compositores pouco solicitados para poder divulgar o seu trabalho.

"Quero ser porta-voz de compositores brilhantes. Estou sempre atenta ao poeta, porque isto é o nosso português", explica. Nana se define como uma educadora, que quer deixar um legado para outras gerações. Para isso, no entanto, não abre mão de seu estilo bem pessoal, que tem um quê de samba-canção, que ouvia quando criança nas feijoadas organizadas na casa de seus pais. "Onde boto a minha garganta, boto bolero."

Fazer concessões não consta da sua cartilha. Talvez por isso, nunca tenha recebido um disco de ouro em mais de 30 anos de carreira. Prefere ser assim do que gravar algo que considera mais comercial. "Não condeno ninguém que comete esses disparates", jura. Brincando, diz que não suportaria, a essa altura da vida, ser obrigada a ouvir bronca de amigos como Milton Nascimento, Ronaldo Bastos e Aldir Blanc. "Não tenho mais idade para ser fuzilada e todos esses poetas vão me crucificar", ri, soltando uma gargalhada. "O Aldir, então, fecha o bairro onde mora, a Muda, e não me deixa entrar", comenta. E aí tira do baú mais uma história: conta que estava em uma festa e pediu para colocarem uma música de Michael Jackson para dançar. "Quando o Aldir soube que eu tinha pedido isto ficou o maior clima", solta outra gargalhada.

Nana comenta que nos últimos tempos não tem ouvidos para outros cantores. "Tô que nem a Xuxa, lambendo a minha cria." Mas quando acontece de colocar som na caixa, confessa que seleciona. "Não vou sentar para ouvir axé music", entrega. Deixa escapar elogios a Adriana Calcanhoto, Leila Pinheiro e Zeca Pagodinho. E revela que a nigeriana Sade também tem lugar no seu exigente gosto. "Meu sonho é fazer um disco como o dela", exagera. "Vou pedir à Sueli (Costa) para fazer uma música para mim nos moldes da Sade", brinca, mais uma vez. "Aí, vou apanhar". E solta mais uma sonora gargalhada.


Obra de Jô Soares
levada às telas

Filme "O Xangô de Baker Street" vira superprodução

Rio - O filme "O Xangô de Baker Street", do cineasta Miguel Faria, é uma superprodução tanto pelo orçamento de US$ 8,5 milhões quanto pelo tempo de filmagem recorde, 15 semanas. A opinião é de Joaquim de Almeida, o ator português que está no Brasil para viver, na película, o detetive inglês Sherlock Holmes. O filme, uma adaptação do romance de mesmo nome escrito por Jô Soares, cuja história se passa no penúltimo ano do 2º Império, começou a ser rodado na cidade do Porto, em Portugal, e segue agora no Rio.

Uma série de crimes ocorre no Rio e D. Pedro II (vivido por Cláudio Marzo) chama o detetive inglês para resolvê-los. Aqui, Sherlock se apaixona pela mulata Ana Candelária. Ao mesmo tempo, a atriz Sarah Bernhard (na pele da portuguesa Maria de Medeiros) faz temporada no Brasil e conhece tanto Sherlock quanto o Marquês de Salles (Marcello Antony), um dândi do século passado que se esmera em exibir seu requinte afrancesado.

A grande dificuldade da produção é exatamente a época em que a história se passa, a penúltima década do século passado, quando o Rio se orgulhava de ser uma Paris tropical, tanto em sua arquitetura neoclássica quanto nos costumes. "Tivemos preocupação em reconstituir essa época, da mesma forma que o livro do Jô Soares, e isso encarece o filme", conta Miguel Faria. "O que se preservou no Rio, e no Brasil de um modo geral, foi a arquitetura colonial, do século 18, onde predominam as paredes brancas e as formas menos rebuscadas".

Para o diretor de arte, Marcos Flaksman, a essa dificuldade se soma outra: há boa quantidade de fotos do Rio do início do século 20, rica iconografia do século 18, mas a arquitetura e a forma urbana do Rio do fim do 2º Império existe muito mais em ilustrações de revista ou no imaginário brasileiro, por causa da obra de escritores como Machado de Assis ou Lima Barreto. "Então, temos de refazer o Rio não só como era, mas também parecido com o que as pessoas têm na imaginação", explica.

A figurinista Marília Carneiro tem uma outra dificuldade. "Temos de respeitar o figurino da época, com uma imagem que agrade ao público de 1998", conta ela. "Então, as divas como Sara Bernhard não podem ser mulheres gordas, cheias de celulite, como elas eram naquele tempo, e as roupas têm de seguir todos os detalhes da época".

Produção feita
em tempo recorde

A atriz Maria de Medeiros conta que teve pouco tempo para compor a atriz Sarah Bernhard. Ela procurou esquecer o mito e viver "a mulher viva e de raciocínio rápido que está nas biografias". Já Joaquim de Almeida faz um Sherlock mais despojado. "Ele não poderia ser o mesmo inglês circunspecto depois de apaixonar-se por Ana Candelária". Emendando o terceiro filme este ano, o ator não teve tempo de formar uma opinião sobre o jeito brasileiro de produzir cinema. "Só filmei dois dias no Brasil até agora, apesar de ter chegado há quase duas semanas". Por causa de uma incomum falta de sol durante todo esse tempo na cidade, o cronograma de gravação teve de ser alterado.

A presença de Maria de Medeiros e Joaquim de Almeida no elenco de "O Xangô de Baker Street" deve-se, em grande parte, a um acordo do Brasil com Portugal que permite co-produções entre os dois países. E, apesar de o governo português ter contribuído com US$ 150 mil dos US$ 8,5 milhões do orçamento do filme, o produtor Bruno Stroppiana acha que vale a pena. "Só pela participação desses atores se vê que essa cooperação vai além do dinheiro e se revela em oportunidades que se abrem para o filme".

O filme está sendo produzido em sociedade com a Sonny Columbia e tem patrocíonios por intermédio das leis do Audiovisual e Rouanet. "Mas o custo total não é coberto pelos patrocínios", explica Stroppiana: "Numa produção dessa ordem, até o estudo de sua viabilidade já implica gastos". Mesmo assim, "O Xangô de Baker Street" ficará pronto em tempo recorde. Com lançamento previsto para o segundo semestre de 1999, entre a idéia do filme e sua estréia, terão passado três anos.


Moacir Amâncio
publica terceiro livro de poesias

São Paulo - Moacir Amâncio está lançando o seu terceiro livro de poesias, "O Olho do Canário" (Musa Editora). A obra complementa seus dois volumes de poemas anteriores: "Do Objeto Útil", de 1992, pelo qual o escritor e jornalista recebeu o Prêmio Jabuti 1993, e "Figuras na Sala", de 1996. Na opinião do autor, não apenas complementa, mas evolui. "É um desdobramento, um avanço", diz.

Amâncio começou a publicar poesias em 1992, mas escreve-as há mais tempo. Os primeiros versos de "O Olho do Canário" foram para o papel no início dos anos 80. Após 15 anos maturando as palavras, o autor achou que os versos estavam prontos. "Vou no ritmo natural, até o momento em que o verso parece cristalizado", diz. Para ele, o tempo não é sinônimo de boa ou má qualidade. "Não se trata de mérito, apenas é assim."

ORDEM INVERSA

Nesses anos, Amâncio publicou um romance, uma novela e contos, numa ordem que ele admite inversa à da maioria dos escritores. "É engraçado, fiz tudo ao contrário", diz. Começou com textos narrativos e alcançou sua meta com a poesia. Descobriu não ser um romancista, tampouco gosta de lê-los. "Gosto da prosa poética", diz. Amâncio identifica na sua história "Mafagafolia", o ponto em que a linguagem se desestrutura em sua obra. Isso foi no início da década de 80.

"Nessa ação dramática o que menos interessa é a facilidade do enredo", escreve o lingüista e poeta Carlos Vogt na apresentação de "O Olho do Canário". "Nenhum verso é fácil, poema algum faz concessão ao óbvio." O autor ressalta que não procura dificultar ou esconder coisa nenhuma. "Para mim, estou explicando."

"O Olho do Canário" apresenta-se na forma de três poemas longos: "Oouoh", subdividido em três partes, "Crab at Random" e "Casa das Máquinas". Carlos Vogt, ainda na apresentação, avalia o volume como uma poesia de substantivos, num universo doméstico no qual cabem tigres, minotauros, jaguares, cometas, nuvens, rosas vertebradas, pássaros e grifos. "O poeta não crê na gratuidade dos elementos", acrescenta o lingüista.

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Bodas do demônio

Versão com cenas inéditas comemora 25 anos do aterrorizante "O Exorcista"

Luiz Carlos Merten
Agência Estado

São Paulo - O terror no cinema nunca mais foi o mesmo depois da célebre cena do assassinato na ducha em "Psicose". As mais de 70 posições de câmera que Alfred Hitchcock utilizou para apenas 45 segundos de filme revolucionaram a estética do gênero, mas foi preciso esperar mais 12 anos por "O Exorcista", de William Friedkin, para que o horror, degeneração do terror, virasse gore. A história da possessão demoníaca de Regan, narrada originalmente por William Peter Blatty em seu best seller homônimo, abriu as portas para que, nos anos 80, os efeitos das fantasias de horror se tornassem cada vez mais explícitos (e nojentos). Tudo começou com a baba e o vômito de Regan no filme de Friedkin.

Completam-se 25 anos de "O Exorcista". A data não está passando em branco. A Warner Home Vídeo está lançando no mercado, exclusivamente para venda direta ao consumidor, a versão especial comemorativa do aniversário. A fita dupla inclui o making of da produção, uma entrevista com o diretor e 11 minutos de cenas inéditas que, na época, foram consideradas muito chocantes e, por isso, ficaram de fora da edição do filme. Entre elas, a mais impressionante talvez seja a que mostra Regan, com pernas de inseto, descendo a escadaria da casa.

Cenas impressionantes não faltam ao filme, que, na época, arrecadou US$ 85 milhões somente no mercado americano. Era uma fábula de dinheiro que o tempo terminou tornando obsoleta. Hoje, Titanic rende US$ 1 bilhão nos Estados Unidos (US$ 1,8 bilhão em todo o mundo), mas há 25 anos as cifras não eram tão grandiosas e "O Exorcista" bateu o recorde de público da história do estúdio Warner, colocando-se entre as maiores bilheterias de todos os tempos. Não representa pouca coisa quando se considera que a Warner produziu, entre outros filmes, o cult romântico "Casablanca", de Michael Curtiz, com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, que ostenta o título de um dos filmes mais queridos (e vistos) de todos os tempos.

Para entender o impacto produzido por "O Exorcista" o espectador precisa reportar-se à época, 25 anos atrás. Hollywood havia enterrado fazia pouco o famoso Código Hays, que disciplinava o uso do sexo e da violência na tela. Desde os anos 60, os filmes já apresentavam enfoques mais realistas das relações sexuais e das explosões de violência, mas ainda persistiam zonas de sombra. A regra básica, para o cinema de terror, ainda era sugerir. Friedkin mostrou. Regan transforma-se num monstro repelente ao ser possuída pelo demônio. Diz obscenidades, masturba-se com o crucifixo e, numa cena, consegue girar a cabeça disforme sobre o resto do corpo, que permanece imóvel. Foram tantas as imitações, incluindo a paródia "A Repossuída", com a própria atriz Linda Blair, que o original terminou perdendo muito de sua força. Mas ainda é um filme assustador.

Ao assumir o projeto, Friedkin vinha do Oscar que recebeu por "Operação França", em 1971. O desenvolvimento posterior de sua carreira, especialmente filmes como "Parceiros da Noite" e "A árvore da Maldição", confirmou que ele era um embuste, mas em 1973 os críticos ainda o levavam a sério. Tinha a fama de ser um cineasta fascinado pelo mal, pelos infernos psíquicos que seus personagens criam para eles mesmos. Recentemente, tentou iniciar nova carreira com a versão, para TV, de "Doze Homens e uma Sentença" (que saiu em vídeo no País). Em "O Exorcista", rompendo de vez com a tradição hollywoodiana de só sugerir o terror uma fórmula aperfeiçoada pelo produtor Val Lewton nos anos 40 , realizou um espetáculo cheio de sangue e violência, em que a idéia do mal é pretexto para um show de efeitos especiais.

Nesta verdadeira estética do hiper-realismo que é "O Exorcista", Friedkin tenta dar sustentação psicanalítica à possessão de Regan. Sugere, superficialmente, um caso de dupla personalidade, a partir da situação familiar complicada da menina que se prepara para entrar na adolescência - mãe, interpretada por Ellen Burstyn, atriz de cinema, pai ausente. Mais interessante ainda, e é para isso que o espectador deve estar atento, o exorcismo praticado pelo velho padre Merrin (o bergmaniano Max Von Sydow) fracassa, forçando seu assistente mais jovem, o padre Karras (Jason Miller), a expulsar o demônio a socos. A partir daí, fica claro que a estética do terror de "O Exorcista" é mero pretexto para que Friedkin defenda a lei do porrete - o big stick , que os americanos tanto usaram na política deste século. O filme tem de ser (re)visto, assim, à luz não apenas das produções de terror, mas também de todas as fantasias belicistas que surgiram depois. O que era sombra deixa de sê-lo para iluminar tendências da produção massificada de Hollywood.

Prateleira

* Lançamentos da Europa Filmes em novembro: "Temporada de Caça", novo filme do diretor e roteirista Paul Schrader (de "Taxi Driver"); "Sub Down - Alerta Nuclear", aventura com Stephen Baldwin; "A Trégua", drama com John Torturro; "Anahy de Las Misiones", produção nacional com Paulo José e Marcos Palmeira; "Toda Nudez Será Castigada" e "O Casamento", dois filmes de Arnaldo Jabor.

* Novos filmes da Paris Filmes: "187 - O Código", drama com Samuel L. Jackson; "Caráter", último vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro; "Personalidade Dupla", suspense erótico com Jeff Fahey; "Ruby - Um Anjo em Nossas Vidas", comédia dramática com Dolly Parton; "Segurança Máxima", ação com Paul Michael Robinson.

* Como parte da estratégia da Blockbuster de conquistar cada vez mais as crianças oferecendo serviços diferenciados, a partir deste mês a empresa reduziu o valor de qualquer locação infantil para R$ 3,35. Além disso, a rede oferece aos seus consumidores mirins um espaço exclusivo nas lojas, com decoração especial e um acervo de fitas da Disney, que também podem ser adquiridas.


Brasil ganha homenagem em festival

Aniens, França - O renascimento do cinema brasileiro será objeto de uma homenagem no Festival Internacional de Cinema de Amiens de hoje a 15 de novembro, que vai acolher cineastas como Walter Salles e Carlos Reichenbach, aos mesmo tempo que serão vistos filmes do México, Chile e Espanha.

O renascimento do cinema brasileiro se acentuou há quatro anos no Brasil graças a um sistema fiscal vantajoso para os produtores, a uma descentralização regional da produção e a um maior desenvolvimento das co-produções entre cinema e televisão. Exemplo e resultado disso aconteceu no ano passado, quando o Brasil produziu cerca de 80 longas. Igualmente, o êxito nacional e internacional de filmes como "Central do Brasil" incentivou os meios cinematográficos.

Amiens (a 120 quilômetros ao norte de Paris) vai programar 13 filmes dos últimos cinco anos, além de 17 curtas e de reportagens brasileiras. Também haverá uma seção dedicada a Marcos Magalhães, um dos principais nomes do desenho animado brasileiro. Participarão do evento, além dos cineastas Reichenbach e Salles, Beto Brant e Ugo Giorgetti.



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