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Antena
Amanhece numa rua do paraíso
Orlando Alves
escritor
Um sol estranho, de diferentes calores e outras cores, todavia ainda
douradas, forçava as frestas da veneziana e por elas se metia no
quarto, criando sombras e iluminuras, reflexos e movimentos aparentemente
mágicos na parede e no teto do quarto em que acordei, forçando-me
a memória, a perscrutar vultos no quarto e a captar, de narinas abertas
e atentas, algum odor que me informasse onde é que eu amanhecia,
em que quarto estava. A cama de solteiro, o vulto negro de um aparelho de
som ao lado da janela, o furtivo movimento de uma sombra acusando o espelho
de um guarda-roupas na parede oposta delatavam-me o local, que já
se revelava a estridência de uma buzina. Eu estava acordando na casa
de minha irmã, em São Paulo. Depois da buzina, o "basso
contínuo" do som da cidade, como o respirar arfante de um imenso
animal, um zumbido rouco, pendente como o instante que antecede o trovão,
ou o ar ausente, no silêncio que antecipa o raio ou o bote de uma
fera, tudo isso situou-me, como se fosse um despertador óbvio e chato,
convocando-me à obediência de minha agenda. Deixei-me estar,
perdido no bricabraque das sombras no quarto, este finalmente transformado
no interior de um caleidoscópio em branco e preto, com todas as seiscentas
mil nuances intermediárias de cinzas e brumas. Pesava-me o ar que
eu respirava, como se fosse imperfeito, por excesso ou carência de
seus fluidos essenciais, e oprimia-me o ambiente estranho do quarto, no
qual eu me sentia como um invasor ou prisioneiro, sempre um alienígena,
que agora regressava, ainda que por poucas horas, a um meio que já
fora o meu, e que agora eu olhava com olhos muito críticos, sem condescendências
ou vestígios de algum remanescente amor. Havia, sim, uma saudade
de mim, feita de imagens reais ou idealizadas daquela cidade que agora,
sem tristezas, eu sentia ao meu redor, arfante como um animal indiferente
e potencialmente hostil. Fazia mais de uma década, que, na ânsia
de regressar a Joinville, eu deixara São Paulo. Num atalho imposto
por razões profissionais, eu passei dez anos no Rio de Janeiro, mas
agora já estava em Joinville. As viagens a São Paulo eram
por saudades e respeito aos meus parentes de lá, ou, como esta, por
obrigação de ofício.
O banho, naquela manhã, as cores cruas do banheiro, a aproximação
de vozes e de ruídos dos velhos sobrados geminados (desculpa, Marcos
de Castro, tuas ranzinzices cariocas com a língua portuguesa, falada
na Piratininga, jamais impedirão qualquer paulista ou paulistófilo
de chamar de sobrados ou sobradinhos às suas casas de dois andares,
geminadas ou não, com jardins fronteiros ou não) puseram-me
desperto. Até o quarto onde eu estava subia, provocativo, o odor
do café que minha irmã preparava, acelerando minha pressa
o ruído da mesa a ser posta para o desjejum, primeiro e penúltimo
encontro diário da família ao redor da mesma mesa. Não
obstante a imperiosa convocação para o café, não
pude deixar de deter-me, por instantes, a olhar para a rua, da janela. O
que eu via: através da galharia de uma figueira quatrocentona e decrépita,
plantada pelos 1900, quando da urbanização daquele bairro
destinado à classe média. Nos anos 80, quando lá estive
pela última vez, a sua decadência já era evidente. Era
um bairro de transição, agora formado por cortiços
e albergues, alguns sobrados renitentes como o de minha irmã e meu
cunhado, e a invasão medonha de tapumes e de andaimes, que, como
placentas de madeira, escondiam e gestavam os concretos dos prédios
de apartamentos, patéticos fetos da arquitetura e das explosões
populacionais urbanas. Mas havia uma vida ainda jacente, com teimosa ironia,
irrompendo em súbitos eventos nesses bairros, como instantes-testemunhas
da realidade das saudades. Por exemplo, uma horrível e barulhenta
briga de cortiço, entre barulhentas comadres, naquela zorra de mil
pardais, que mergulhavam dos beirais dos sobrados, para um único
e pequeno espaço, na calçada fronteira, onde um buraco deixava
nua a terra seca, em cuja poeira vinham os pardais a espojar-se no seu banho
de sol. As brigas e arreganhos dos bichinhos, o chilreio de suas mil gargantinhas
lembravam-me os domingos ensolarados nas praias, como do cinema-novo italiano.
Súbito, um carro os assustava e eles debandavam para logo voltar,
com as mesmas alegres brigas.
Na casa vizinha, o piano meio desafinado reiniciava seu concerto diário
de escalas desdentadas, tortas, angustiadas e frustrantes, enquanto a menininha
de trinta e tantos anos recordava seus sonhos musicais de virtuose. A carreira
musical cedo interrompida pelas exigências da vida, prosseguia na
sua esperança diária, guardada nos amarelados dentes de um
teclado de piano, nas escalas periclitantes e no momento doloroso do "finale",
com a patética apresentação do "Lago de Como"
ou do "Para Elisa". O piano entristeceu-me um tantinho mais e
distanciou-me, outro tanto, da cidade e do seu bairro. E do seu tempo. Num
caminhão de feira, com sua carga sacolejante e precariamente empilhada,
entre tábuas, ripas, lonas, repolhos e abóboras, três
ou quatro nordestinos apressavam-se para armar sua barraca numa rua próxima.
Antes, os que ali passavam eram os portugueses, italianos e japoneses. Agora,
só os nordestinos, como empregados. Os donos, porém, são
outros, talvez um remanescente feirante que ainda não tenha virado
comendador ou dono de loja no bairro da Liberdade.
Na esquina em frente, o jovem Saliba abria a mercearia, sob o olhar
do velho Saliba, que fiscalizava tudo com olhos de criador do filho e fundador
do negócio, que prosperava com a iniciativa do moço. Além
do leite e do pão, das manteigas e das mais simples e curiais necessidades
da vizinhança freguesa, o Beni Saliba oferecia variada vitualha de
produtos eleitos pelas gulas até então escondidas no bairro
e tinha reformado e iluminado a mercearia, deixando-a toda a exibir brancuras,
brilhos e limpezas. Sobretudo, tinha uma tábua dos queijos de Minas
dos mais seletos desta galáxia. Dos cremosos e brancos, dos mais
secos e maduros, dos "meia-cura", de inigualável odor e
macio sabor, até os fundidos amanteigados, sua seleção
incluía os de cabra e os de ovelha, e desconfio até os de
leite de camelas, se é que elas dão leite, e não só
corcovas cheias de areia e de gordura.
Ao descer as escadas, encontrei a mesa posta. Minha irmã, meu
cunhado e meus sobrinhos me esperavam, alegrando-me o dia e animando seu
próprio dia com suas mútuas presenças. Família!...
grata e preciosa possibilidade de fé, de conforto e de vida!... Eu
não diria, como se diz hoje, que "rolou um papo" sobre
isto e aquilo, entre nós, à mesa. Mais justo sou, ao dizer
que conversamos sobre isto e aquilo, desfrutando o encontro, onde planejamos
nova reunião familiar para festejar o aniversário de minha
mãe, em Joinville ou em São Paulo. Interrompeu-nos o estridente
grito do papagaio, no quintal, avisando que o dia já ia alto e devíamos
apressar-nos para enfrentá-lo.
Na rua do Paraíso, já subindo sua ladeira à cata
de um táxi que me levasse ao centro, encontrei as caras matinais
mais desconhecidas e desparecidas, que, caminhando apressadas e indiferentes,
em nada recordavam-me a cidade que fora minha, por mais de quarenta anos.
Aqui um cheiro, ali um teimoso canto de jardim numa casa à espera
de demolição, mais adiante a fachada de um casarão
decrépito, tudo dissolvia-se no ruído geral, e escondia-se
atrás dos tapumes, agredido pelas novíssimas poluições
urbanas e embaralhado pelas cores baratas e chamativas de uma efemeridade
apressada e novidadeira, nas tabuletas, vitrinas e luminosos de lojas de
brevíssima vida. A cidade ainda me parecia uma criatura arfante,
só que bem mais próxima e ameaçadora. E ela engoliu-me
logo, mas não antes que eu recordasse, já com saudades, do
café e do amanhecer, na casa de minha irmã. Animado com a
certeza de acordar, no dia seguinte, em Joinville, a minha cidade, morri
em paz naquele dia.

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