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Papa defende
diálogo entre fé e razão

João Paulo 2º divulgou encíclica ontem, um dia antes de completar vinte anos de pontificado

Roma - A última encíclica deste milênio e 13ª do papa João Paulo 2º, "Fides et Ratio" (Fé e Razão), alerta para a necessidade e urgência de recompor a colaboração entre teologia e filosofia. O documento, divulgado ontem no Vaticano pelo cardeal Joseph Ratzinger e pelo teólogo da casa pontifícia Georges Cottier, é uma posição firme da Igreja Católica diante do perigo de um vazio de ideais da sociedade moderna.

O texto, cujos trabalhos duraram 12 anos, propõe novamente o tema da relação entre fé e razão 120 anos após a encíclica do papa Leão 13, "Pai Eterno", que tratava da mesma questão. Seu conteúdo é dirigido aos bispos, mas principalmente filósofos, teólogos e homens de cultura que deverão encarregar-se de fazê-la chegar às pessoas comuns, para quem o texto é de difícil compreensão.

É, antes de mais nada, a exaltação da razão humana e de suas capacidades de indagar e de ser ponto de encontro e diálogo entre crentes e ateus que buscam as mesmas respostas fundamentais da vida: de onde viemos, quem somos e o que acontece após a morte. Afirma que fé e razão não são antagonistas e demonstra que não é possível separá-las, caso contrário há o risco de se eliminarem mutuamente.

Questões

O papa, em sua encíclica, escreve que as questões fundamentais sobre o significado da vida são colocadas ao longo da história pelos homens de culturas e raças diferentes e admite que cada uma delas tem dado respostas diferentes, todas com uma semente da verdade. "Meu pensamento vai para as terras do oriente", escreve o papa, "ricas em tradições religiosas e filosóficas muito antigas, em particular Índia, China, Japão e outros países da Ásia e da África".

"A razão, assim como a fé, se empobreceram e tornaram-se fracas uma diante da outra", diz o texto da encíclica de 155 páginas divididas em sete capítulos com data de 14 de setembro 1998. "A razão curvou-se sobre si própria tornando-se aos poucos incapaz de levantar os olhos para o alto e ousar a conquista da verdade do ser." Para João Paulo 2º, dessa situação surgiram várias formas de agnosticismo e de relativismo que fizeram com que a pesquisa filosófica se perdesse num ceticismo generalizado.

Para o filósofo e prefeito de Veneza, Massimo Cacciari, a nova encíclica do papa não analisa corretamente a situação da filosofia contemporânea. "Ela não é marcada por relativismo e niilismo mas é dirigida à busca da verdade", afirmou, comentando o documento papal. Cacciari, um dos filósofos mais respeitados da Itália, ressaltou ainda que o debate filosófico em torno da verdade prossegue há cerca de 20 anos mas que, "certamente, não pode partir da Revelação". "A Igreja Católica não deve procurar adversários de fachada porque o pensamento fraco não é levado em consideração seriamente por ninguém", declara.


Eleição em
78 foi surpresa

Com a capacidade física reduzida devido à idade e às doenças, mas com sua vontade intocada, o papa João Paulo 2º completa hoje 20 anos de pontificado disposto a conduzir a Igreja Católica ao terceiro milênio.

João Paulo 2º, o papa que mais tempo passou no Vaticano neste século e 13º da lista geral, tem de ocupar a posição por mais 11 anos para converter-se no pontífice de papado mais extenso nos 2.000 anos de história do catolicismo.

O papa, um candidato pouco considerado cuja eleição em 1978 surpreendeu o mundo, fez mais história e estabeleceu mais recordes do que muitos de seus antecessores, mas, com a imprensa moderna como cúmplice inocente, talvez tenha dividido os católicos mais do que qualquer outro papa.

Os católicos liberais ressentem a negativa de ordenar mulheres e a proibição de anticoncepcionais, dois temas sobre os quais o papa quase impossibilitou mudanças, e desejam uma Igreja mais democrática. Os conservadores o adoram como um mensageiro divino que tomou uma Igreja açoitada pelos ventos do liberalismo e a colocou novamente em um caminho mais teológico e direto do que nas décadas turbulentas de 60 e 70.

Peso

Apesar de tudo, ambas as partes admitem que João Paulo 2º é um protagonista de peso no cenário mundial, tendo contribuído para a queda do comunismo em seu país e em toda a Europa Oriental em 1989.

"Seu papel na libertação da Europa Oriental e a queda do comunismo e do império soviético o farão, na minha opinião, entrar para a história como o líder de mais destaque na segunda metade deste século", declarou o reverendo Tom Reese, um acadêmico progressista da Igreja Católica.

Homem de extraordinário intelecto, formidável força de vontade e intensidade de oração que beira o misticismo, Karol Wojtyla é um dos poucos papas dos tempos modernos que saiu da pobreza, e não dos privilégios.


Iugoslávia e Otan assinam
acordo de vigilância aérea

Belgrado - A Iugoslávia (Sérvia e Montenegro) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) assinaram ontem acordo de vigilância que permite vôos de reconhecimento de esquadrilhas de jatos da aliança atlântica sobre Kosovo - território de maioria albanesa subjugada pelos sérvios.

As operações serão iniciadas hoje, segundo funcionários do Pentágono, consultados por "The Wall Street Journal". "Pelo acordo, os iugoslavos desmantelarão lançadores móveis de mísseis, estações de radar e ninhos de artilharia antiaérea para permitir o livre trânsito de aviões U-2 (de reconhecimento) americanos, postos à disposição da Otan", acrescentou o diário nova-iorquino.

O acordo de vigilância integra outro mais amplo (a ser firmado hoje ou depois), destinado a fazer a Iugoslávia cumprir a resolução 1.199 do Conselho de Segurança da ONU, que exige dos iugoslavos cessar-fogo imediato em Kosovo, retirada total das tropas do território e início de negociações sérias com os albaneses étnicos sobre um novo status para a província.

O acordo mais abrangente inclui, além do reconhecimento, facilidades para o ingresso em Kosovo de 2 mil "verificadores" da Organização de Cooperação e Segurança para Europa (OSCE).


Prodi desiste de formar
novo governo na Itália

Roma - O presidente italiano, Oscar Luigi Scalfaro, iniciou ontem uma nova rodada de conversações com dirigentes políticos depois que o primeiro-ministro interino Romano Prodi fracassou em sua tentativa de formar um novo governo.

Scalfaro começou uma segunda rodada de consultas em menos de uma semana para encontrar um líder capaz de conseguir maioria na câmara baixa do Parlamento e formar o 56º governo italiano desde 1945, sem ter de recorrer a eleições antecipadas.

Prodi, que durante 28 meses encabeçou o segundo governo de maior duração desde a Segunda Guerra Mundial, informou previamente a Scalfaro sobre o seu fracasso em conseguir respaldo suficiente na Câmara dos Deputados.

"Disse ao presidente que a tarefa resultou impossível", afirmou Prodi, que parecia cansado, a jornalistas reunidos em frente ao Palácio do Quirinal, em Roma.

Massimo D'Alema, que lidera o maior partido no Parlamento (Democrata da Esquerda, ex-comunistas), surgiu como principal candidato para receber o mandato de Scalfaro.

O vice-primeiro-ministro interino Walter Veltroni disse que sua coalizão de centro-esquerda Oliveira (a qual pertence Prodi) concordou em apoiar o nome de D'Alema para a liderança de um novo governo. Os marxistas moderados também apóiam D'Alema.

Prodi renunciou na sexta-feira depois de perder por um voto uma moção de censura na Câmara dos Deputados devido ao orçamento para o próximo ano defendido por ele.

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Rússia

Netanyahu e
Arafat vêem acordo

Oroposta que está sobre a mesa é dos Estados Unidos

Washington - Após um encontro com o presidente Bill Clinton, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, viajaram ontem para o Centro de Conferências do Rio Wye, a cerca de 100 quilômetros de Washington, para tentar completar o histórico acordo de paz selado por Arafat e o ex-primeiro-primeiro israelense Yitzhak Rabin nos jardins da Casa Branca, em 1993. O presidente tinha planos de jantar com os dois líderes no local das conversações, ontem à noite.

As negociações iniciadas ontem devem ir pelo menos até domingo e têm a ambição de repetir os resultados da maratona de 18 dias de conversas que o presidente Jimmy Carter realizou no retiro presidencial de Camp David, em 1978, entre o presidente do Egito Anuar Sadat e o primeiro-ministro de Israel Menahen Begin. As negociações produziram um acordo de paz entre o Egito e Israel e abriram o longo e penoso caminho para uma solução negociada para o conflito entre árabes e judeus que começou meio século atrás, com a criação do Estado judeu no antigo território inglês da Palestina.

A proposta que está sobre a mesa é dos EUA. Ela prevê a retirada de Israel de mais 13% do território da Cisjordânia, que foram ocupados por suas tropas após uma guerra de seis dias com os vizinhos árabes, em 1967. Isso daria à Autoridade Palestina controle sobre 40% dos antigos territórios ocupados. Como contrapartida, Netanyahu quer garantias concretas de Arafat sobre a segurança dos judeus que se instalaram na Cisjordânia nos últimos trinta anos.

Os líderes israelense e palestino estão otimistas sobre a complementação do acordo de paz.


Presidente

Parlamento libanês
elege general Lahoud

Beirute - O Parlamento libanês elegeu ontem por ampla maioria o novo presidente da república, o general Emile Lahoud, um cristão maronita de 62 anos, atualmente no posto de comandante-chefe do Exército. A votação era apenas uma formalidade, pois Lahoud fora escolhido em 5 de outubro na reunião entre o atual líder do Líbano, Elias Hraui, e o presidente Hafez Assad, da Síria, cujos aliados são maioria no Parlamento libanês. Lahoud assumirá o mandato, de seis anos, no dia 24 de novembro.

França

Protesto estudantil
vira quebra-quebra

França - Grupos de jovens assaltaram e roubaram lojas, destruíram automóveis e feriram policiais ontem durante um enorme protesto do qual participaram 500 mil estudantes em Paris e outras cidades. A manifestação tinha como objetivo exigir do governo de coalizão de esquerda mais recursos financeiros para a educação nacional francesa. Na sua passagem, os manifestantes deixavam destruídos portões do metrô, vitrines, telefones públicos e automóveis incendiados.



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