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Músico executa novo repertório, que traz compositores brasileiros e espanhóis, principalmente
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Marcus Llerena
faz recital hoje na Lyra

Violonista consagrado no Brasil e exterior volta a tocar em Joinville

Sílvio Melatti

Joinville ­ Um mês depois do último recital clássico, o teatro da Harmonia-Lyra volta hoje a receber os poucos, dispersos e silenciosos amantes da música erudita. Agora, espera-se, com mais sucesso. Apresentando-se pela terceira vez em Joinville, o violonista Marcus Llerena sobe ao palco a partir das 21 horas para mostrar um repertório novo, que dá ênfase a peças escritas especialmente para o violão mas foge da linha puramente clássica. Toca até Pixinguinha (veja quadro).

Músico de naipe internacional, com prêmios e temporadas de sucesso na Europa e Estados Unidos, Marcus é do tipo raro de artista sem ego inflado. Dá muitas "canjas", e não se furta de tocar em saraus, ao lado de amadores. Conquista o público com uma bem dosada receita de simpatia e talento, sem deixar de dar vôos mais altos quando percebe que a platéia o acompanha. Seu ataque às cordas é vigoroso, mas soa limpo, sem a estridência de certos violonistas nervosos, o que demonstra uma técnica apurada com a ardente paciência dos anos.

Marcus mora num lugar paradisíaco, longe das luzes e ruídos da cidade. Seu sítio na região serrana do Rio é um templo para a música. Ali ensaia impulsionado pelo ar montanhês, propício às vibrações sonoras mais afinadas com o tom das aves canoras. O concerto de hoje, então, tem os ingredientes do sucesso, a não ser...

O vôo cego do morcego

A não ser que se repitam os lances de terror ocorridos há um mês, no recital do pianista Miguel Proença. Foi uma noite patética. Os 54 corajosos espectadores ficaram de respiração presa até o fim do concerto, presenteando Proença com um silêncio absoluto ­ mais por temor do que por respeito.

É que os inquilinos eternos da Lyra, os morcegos, atordoados com o som do piano (apesar dos ouvidos sensíveis, nada entendem de música), resolveram dar vôos rasantes sobre o palco, desviando a centímetros da cabeça do pianista. Aos poucos, as evoluções errantes alcançaram a platéia (nesse caso, felizmente rala).

Os animais pareciam compor um balé tétrico ao som do piano. Concentrado, o pianista nada via e agradecia o silêncio dos ouvintes. Negros acrobatas aéreos surgiam e sumiam na escuridão do teatro (a organização havia apagado erradamente todas as luzes, mantendo apenas um ponto luminoso no palco).

Para complementar o clima de filme de terror, o assoalho e a escada, feitas de madeira, rangiam mesmo diante do passo mais leve. Nos camarins, uma porta aberta batia. No alto, a hélice de um exaustor girava lentamente. O vento estufava as cortinas de quando em quando. Isso não é ficção. Há 54 testemunhas.

Ao final, perguntado sobre o assunto, Miguel Proença disse que não viu nada. Mas fez questão de mostrar o piano aos que ficaram para lhe cumprimentar: várias teclas estavam mudas, não respondiam. "Eu fiz milagre", declarou, sem saber dos outros detalhes dessa noite milagrosa.

Marcus Llerena não dependerá do piano velho da Lyra. Seu violão é especial, e não falha. E pode que as notas extraídas de um instrumento de cordas pulsadas não desperte os morcegos. Mas, se despertar, não será a primeira vez, e tanto violonista como pianista tocam de cabeça baixa.

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