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Antena
Mais Koans
Wilson Bueno escritor
Devo repetir ainda uma vez a explicação, koans são
pequenas estórias, fabulações paroxísticas com
que a "via" búdica exercita o caminho para o "insigth",
o desde sempre cruel paradoxo inatingível "caminho
do meio", ali, por exemplo, onde um copo vazio está cheio de
ar.
Há koans de toda espécie das longas e dramáticas
narrativas com que monges hindus ministram autênticas aulas-espetáculo
nas bibliotecas dos mosteiros aos microdiálogos de duas linhas capazes,
muita vez, de demolir uma escolástica. Há koans que nunca
foram registrados e estes são os que melhor intrigam os sábios,
pois mora neles, o mistério gozoso da vida, a senha e a chave, a
"fórmula" e o sinal que ao fim e ao cabo de nada valem
porque existindo, nunca existiram, e tendo, existido, jamais saberemos de
que sumo a alma deles e a decifração de seu caroço.
Dos koans que lograram alcançar o registro de diligentes mestres-escritas,
alguns deles, quem sabe os mais afiados, têm aparecido aqui com uma
constância e um empenho bem menos búdico do que merecem, pois
a constância e o empenho, sobretudo para o budismo zen, são
virtudes dispensáveis, ocas por dentro como todas as virtudes.
Aos koans, pois, está antimatéria, não duvidem,
capaz de rasgar o saber em dois.
O vôo dos pássaros
Mestre, por que os pássaros voam e o homem, que é
o melhor dos animais, não?
Justamente para desmentir que o homem seja o melhor dos animais.
E desmente?
Não, em hipótese alguma.
Por quê?
Porque o homem não deixa.
Ah.
O pomo da discórdia
Tarde da noite, o jovem monge é flagrado na cozinha do convento
tentando roubar um pedaço de pão:
Você aqui, a esta hora? pergunta-lhe outro jovem e
gordo monge adiantando a informação de que se encontra ali,
interrompendo o severo jejum noturno, exclusivamente para tomar um copo
d'água.
E se é água o que buscas, onde está o pão
de ontem guardado pelo mestre-cozinheiro?... pergunta o monge que
acaba de entrar, levantando o pano sobre a cesta vazia em cima de uma grande
mesa.
Ah, quer dizer então que em busca do pão de ontem
estás interrompendo o jejum e, além disso, exercitando vossa
gula, pequeno irmão? pergunta o monge redondo.
Não desejando de modo algum ver descoberta a transgressão,
o jovem monge é rápido, e certeiro:
Não, estou aqui atrás de um pequeno irmão
gordo que veio à cozinha atrás do pão de ontem, acaba
de escondê-lo debaixo da túnica, e agora procura por um copo
d'água.
Com a cara mais inocente do mundo, a se fazer completamente desentendido,
o monge, muito sério, não deixa por menos:
Que monge é este? Gordo? Comilão?... E, ainda por
cima, larápio?...
Você, ora. Você acusa, peremptório, o
monge que acabara de chegar.
Eu? Mas este pão de ontem que guardo, aqui na túnica,
não é o teu? Aquele mesmo que viestes roubar agora na calada
da noite?... Desentende de novo o monge gordo ensaiando passar o pão
de debaixo da túnica às mãos que já se abrem
para pegá-lo. Não, pequeno irmão. não
Afasta com um gesto as mãos famintas Este pão
não nos pertence. Nem a mim e nem a você. Façamos justiça
no convento. Vou deixá-lo na cela para que o roam os ratos.
E o mestre-cozinheiro quando der pela falta dele?
Simples diz, risonho e gordo, o gordo monge. Muito
simples: põe outro pra assar.
E sai pisando miudinho, protegendo o pão na rotunda barriga,
o sorriso inteiro no rosto grande feito um sol de meio-dia.
Asas do desejo
Só depois de esgotadas todas as tentativas para resolver sério
problema pessoal, o mestre-carpinteiro procura o "superior" do
convento, monge velhíssimo, desses em cuja natureza o Buda já
se fez pleno:
Mestre, voltam-me a assaltar as agulhas torturantes do sexo, este
enigma. Há cinco dias jejuo entoando os mantras e como a uma perseguição
obsedante, o desejo de mulher não me sai da cabeça.
A expressão a mais imutável e serena, os pequenos olhos
semicerrados, como que vendo fundo e melhor, o mestre cicia sua vozinha
de monge provavelmente centenário.
Já tentou pensar, então, num homem?
Mas homem não me provocaria nenhum desejo dessa ordem,
mestre replica, estupefato, o mestre-carpinteiro.
Justamente por isso, meu caro mestre-carpinteiro, justamente por
isso é que deves pensar um homem.
E se nem isso me fizer abandonar a idéia obsessiva de mulher?
Aí, então, se este realmente é seu desejo,
seja esperto, meu mestre-carpinteiro deixe de pensar nos dois
no homem e na mulher.
Asseveram os cronistas que, desde este preciso instante, e por muitos
e muitos anos, o mestre-carpinteiro pôde cantar e dançar para
a Buda, nas asas do vento a sua vida feliz de sábio, sem nenhum desejo
de homem pelo sexo de uma mulher.

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