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Serviços públicos investem
para evitar bug do milênio
Judiciário espera
inúmeras ações por falta de atualizações
Aline Falkel
Florianópolis - Na visão de especialistas, não
há mais tempo para se ajustar e o Brasil deve enfrentar o bug do
milênio com alguns setores bem preparados e outros sem prevenção
alguma, o que deve demandar no próximo ano uma série de ações
judiciais movidas por usuários de serviços que sofreram perdas
morais ou econômicas decorrentes de falhas. Antecipando-se aos problemas
que deverão surgir, mesmo para quem fez a adaptação
em seus computadores (não há garantia de que as alterações
previnam panes), o Instituto de Ciências Jurídicas de Joinville
(Incijur) reuniu profissionais especializados em Florianópolis, ao
final de novembro, para discutir os aspectos jurídicos e possíveis
saídas técnicas para contornar o problema.
O bug do milênio é um defeito de programação
que pode atingir os sistemas e equipamentos informatizados em que os campos
de representação de datas estão restritos aos dois
últimos dígitos do ano - as máquinas não reconheceriam,
portanto, os algarismos finais 00 do ano 2000. Legalmente não há
nenhuma obrigatoriedade de se realizar a prevenção no País,
como prevê a legislação de países como os Estados
Unidos. "Mas diante do problema esperado, a obrigatoriedade existe
sim, e empresas, órgãos públicos e prestadores de serviços
deveriam fazer o inventário de suas máquinas", argumenta
Marcelo Pereira Lobo, do Incijur.
Juridicamente, advogados e juízes apresentam um consenso ao defender
a premissa básica de que a responsabilidade é sempre do prestador
de serviço. "Se uma pessoa morre ou recebe a medicação
errada num hospital porque a máquina falhou, o órgão
é responsável e pode ser processado", ilustra Lobo, acrescentando
que a principal preocupação reside na área social.
Ele diz também que houve pouca divulgação do tema no
País, e aponta a carência de um órgão controlador
que fiscalizasse as medidas de prevenção, que em tese deveriam
ser tomadas por todos. "O setor público deveria ser exemplo
disso".
Efeitos
Mas uma pesquisa realizada em todo o País mostra que a cada 50
prefeituras apenas uma promoveu os ajustes necessários em seus sistemas.
"Ficou faltando mostrar no Brasil como uma pessoa comum, que não
possui ou trabalha com computador e máquinas, pode sofrer os efeitos
do bug", acrescenta o advogado paulista Renato Blum, autor do primeiro
livro sobre os aspectos jurídicos e econômicos do problema
no País, lançado em junho. "Se ela possuir conta bancária,
pode perder a capacidade de crédito se o sistema for danificado e
considerar, por exemplo, que ela está devendo para a instituição",
explica.
Ciasc fez as conversões
em 60 órgãos do governo
O processo de conversão dos sistemas nos 60 órgãos,
instituições e autarquias administrados direta e indiretamente
pelo governo estadual iniciou em junho de 1997. Dois anos e meio depois,
a Comissão bug 2000, criada especialmente para operacionalizar a
adequação, comemora a economia de R$ 20 milhões proporcionada
pelo emprego, no serviço, da mão-de-obra do quadro funcional
do Centro de Informática e Automação do Estado de Santa
Catarina (Ciasc), que executou as operações. Segundo o gerente
Administrativo do Ciasc e coordenador das adaptações ao bug,
Tadeu Luiz Gerent, este seria o montante necessário para a contratação
de consultoria na iniciativa privada.
Os servidores do Ciasc, que já garantiram a conversão
de todos os sistemas, estão com suas férias suspensas em dezembro
e janeiro, e uma equipe fará um plantão especial na virada
do ano que inclui o quadro da Comissão Estadual de Defesa Civil -
que tem sede junto ao Ciasc. O órgão vai auxiliar e prestar
atendimento visando a solução dos possíveis problemas
que possam surgir com o bug, em qualquer área ou setor de prestação
de serviço. "Mas podemos garantir que, na esfera da administração,
o Estado está bem preparado".
Adaptação
O Ciasc tratou especialmente da adaptação nos sistemas
corporativos e orientou as empresas a realizar o processo nos equipamentos
e softwares que não foram desenvolvidos pelo centro de automação
estadual. O trabalho foi dividido em três etapas - conversão,
testes das conversões e simulações das mudanças
de data aos finais de semana. "É o período em que consideramos
uma 'data impactante', mas não houve nenhum problema", diz Gerent.
Um dos testes mais importantes foi o que avaliou o funcionamento da Central
de Marcação de Consultas da Secretaria Estadual de Saúde,
equipamento já considerado isento de riscos, e que poderia não
reconhecer as consultas já agendadas para 2000.
A última prova está sendo realizada este final de semana,
no Sistema Comercial Integrado da Casan, responsável pela emissão
da fatura de consumo para os clientes. O Ciasc trabalhou, ao longo destes
dois anos, na conversão de 71 sistemas corporativos de grande porte,
21 mil programas e 10 milhões de linhas. O Plano de Contingência
do órgão, um planejamento exigido pelo governo federal aos
estados, inclui também geração própria de energia
e abastecimento de água em caso de problemas no fornecimento. O projeto
apresenta as soluções e alternativas para a continuidade dos
processos em caso de pane e já foi enviado à União.
(AF)
Municípios utilizaram
recursos próprios
Preocupação
maior é com possível ataque de vírus
Jaraguá do Sul - As prefeituras da microrregião do Itapocu
já estão prevenidas contra falhas nos sistemas de computadores.
Faltando menos de um mês para a virada do ano, o bug do milênio
não é sinônimo de preocupação para o diretor
de Informática da Prefeitura de Jaraguá do Sul, Marcílio
Legal. Segundo ele, a administração pública tem desenvolvido
seu próprios programas e a atualização já foi
feita. "Alteramos cinco mil programas para quatro dígitos e
agora é esperar", resume. Na avaliação de Legal,
o bug do milênio não é esse bicho de sete-cabeças.
"O cuidado maior deve ser com o possível ataque de vírus",
avisa, que aconselha não ligar o computador na virada do ano. O trabalho
de atualização dos programas foi realizado em quatro meses.
Na Prefeitura de Guaramirim a situação também está
sob controle. Pelo menos é isso que garante o secretário de
Administração, Rolf Antônius Júnior. Segundo
ele, os programas utilizados pela Prefeitura são terceirizados e
a empresa já reverteu todos, sem custo. "Os testes já
foram feitos e agora temos que cuidar com o ataque de vírus",
ressalta o secretário. A Associação Comercial, Industrial
e Agrícola de Guaramirim (Aciag) também está alertando
os empresários associados para que se previnam contra possíveis
problemas com o bug e para isso está disponibilizando um disquete
simulado do fenômeno, que pode ser adquirido com o gerente de produtos,
Rogério Souza Silva.
Em Massaranduba também já está tudo preparado para
a hora da virada. O secretário municipal de Administração,
Dionísio Kemczynski, disse que os programas foram revertidos para
quatro dígitos há dois meses, inclusive os testes já
foram feitos. Os programas utilizados pela Prefeitura de Massaranduba também
são terceirizados.
O chefe de gabinete da Prefeitura de Corupá garante que o município
está preparado para enfrentar o bug, mas admite que ainda aguarda
orientações da empresa contratada para instalar os programas.
"Vamos desligar os computadores na hora da virada para evitar vírus",
afirma. Em Schroeder a administração pública ainda
não reverteu todos os programas. A secretária municipal de
Finanças, Rosângela Buzzi, informa que falta pouco para completar
a atualização e isso será feito nos próximos
dias pela empresa prestadora do serviço.
Samae
Os programas do Sistema Autônomo Municipal de Águas e Esgotos
(Samae) já estão atualizados. A informação é
da responsável pelo setor de informática, Josie Bastos Kovaliuk.
Segundo ela, a empresa responsável deve fazer uma simulação
nos próximos dias, mas a princípio está tudo sob controle.
"Os programas estão preparados ", afirma.
Blumenau fez testes
com a rede bancária
Blumenau - Desde o primeiro semestre, os órgãos públicos
do município estão adotando medidas preventivas para o bug
e garantir a operacionalização normal de serviços a
partir de 2000. No Serviço Municipal de águas e Esgoto (Samae),
por exemplo, a tarefa ocupou 200 horas/homem/máquina na adequação
de sistemas e equipamentos. Os setores de serviços e folha de pagamentos
estão imunizados desde o final do primeiro semestre e neste segunda-feira,
o financeiro já passa a operar também com os programas devidamente
atualizados para a emissão de 62 mil faturas de consumidores, que
geram R$ 1,3 milhão mensais.
O chefe da divisão de informática do Samae, Sérgio
Treis, informa que antes de liberar a versão atualizada para funcionamento,
o programa do financeiro passou por testes com a rede bancários.
Também foram emitidas faturas paralelas.
Já o diretor do centro de processamento de dados da Prefeitura,
Eduardo Maroso, informa que todas 90% dos serviços de checagem de
manutenção nas secretarias foram concluídos. Um teste
final e global será efetuado até o dia 20 de dezembro. Na
educação, exemplifica, os programas foram corrigidos e as
matrículas e registros de 35 mil jovens atendidos na rede municipal
estão garantidos. Na saúde o serviço ainda está
em andamento nos sistemas de agendamento de consultas, contabilidade e folha
de pagamento, com previsão de ser terminado na próxima semana.
Computadores
novos são seguros
Lages - Técnicos de informática da Prefeitura garantem
que o bug não deverá afetar o funcionamento de setores como
educação, saúde, tributação e administração.
Há mais de cinco meses os softwares foram atualizados e não
haverá problemas de funcionamento, perda ou extravio de dados. Segundo
Leonardo Godinho de Oliveira, chefe da Central de Processamento de Dados
(CPD) da Prefeitura, a maior parte das 170 máquinas é nova
(da era Pentium) e já vem atualizada.
Criciúma prioriza setor
de tributação e cadastro
Prefeitura já verificou
o funcionamento na centra de agendamento da Secretaria da Saúde
Criciúma - Os contribuintes inadimplentes que estavam contando
com uma pane nos computadores da Prefeitura de Criciúma para ver
seus débitos apagados ficarão desapontados. O sistema de Tributação
e o Cadastro Imobiliário do município recebeu uma atenção
dos técnicos do setor de informática. "Não teremos
problemas com o bug do milênio, todos os programas e cadastros foram
checados", garante a analista de sistemas, Rochele Angulski.
A preocupação da Prefeitura começou há cerca
de oito meses, quando as máquinas mais antigas foram sendo substituídas
e os programas dos computadores atualizados. Três técnicos
em informática ficaram trabalhando diretamente com o assunto. "Também
procurarmos verificar como estavam trabalhando os nossos fornecedores",
explica Rochele.
Os técnicos tiveram que trabalhar rapidamente para melhorar a
central de agendamento de consultas da Secretaria de Saúde, que trabalha
com uma antecedência de dois meses. "No final de outubro já
estávamos marcando consultas para o próximo ano", lembra
a técnica. A Prefeitura de Criciúma tem mais de 70 computadores.
Além dos programas, também foram contratados serviços
de assistência técnica especializados.
A Betha Sistemas, de Criciúma, que comercializa softwares e
presta assessoria para prefeituras em todo o País, foi uma das contratadas
pelo município. São mais de 400 prefeituras atendidas pela
empresa. O coordenador de Desenvolvimentos da Betha, Guilherme Balsini,
acredita que cerca de 100 estão com alguns sistemas defasados.
"Muitas prefeituras têm equipamentos antigos e não
se prepararam para a chegada do bug", afirma. Para isso, a empresa
está trabalhando em ritmo acelerado nos últimos quatro meses,
tentando aprimorar programas que ainda estejam na forma antiga. "Vamos
conseguir resolver a maioria dos problemas", garante.
Priorizados
programas caseiros
Chapecó - O bug do milênio não preocupa o setor
de informática da Prefeitura de Chapecó. Como a estrutura
dos departamentos foi recentemente modernizada, os trabalhos dos técnicos
nos últimos seis meses têm se resumido à atualização
dos chamados programas próprios - aqueles desenvolvidos pelos funcionários
do município para a automatização do setor de tributos
- local por onde circulam a maioria das dívidas e das verbas públicas.
A mudança deve garantir um começo de ano tranqüilo
para o setor de tributos, que em fevereiro começa a cobrar o IPTU
2000 - o principal imposto municipal. Os trabalhos estão em fase
final de execução. Cerca de 97% dos mais 150 terminais interligados
já foram revisados e estão prontos para o ano 2000. Os outros
3% devem estar prontos até o próximo final de semana. Segundo
a diretora de informática da Prefeitura, Zilda Martins de Quadros,o
mais difícil foi a aplicação nos programas, das leis
de incentivo e de cobrança, que estão valendo a partir do
ano que vem.
Joinville troca
equipamentos
Joinville - A maioria dos governos estaduais e prefeituras começaram
tarde a dar importância ao bug. No governo federal, por exemplo, só
em novembro deste ano houve os últimos testes em sistemas importantes,
como o responsável pelo pagamento de aposentadorias. A Prefeitura
de Joinville, entretanto, começou mais cedo a tratar do assunto.
De outubro do ano passado para cá a Prefeitura realiza uma paulatina
troca de equipamentos, softwares e contratação de auditores
de informática. "O município já investiu R$ 400
mil para evitar o pane nos computadores e os prejuízos para a população",
admitiu o chefe de divisão de informática, Marcos Antônio
Lombardi.
A Prefeitura deu atenção especial à conversão
de todo sistema corporativo, formado pelos setores ligados em rede, como
o protocolo, cadastro técnico, ISS, IPTU, folha de pagamento, compras,
patrimônio, sistemas de administração, disque-prefeitura,
extintores e almoxarifado. Inclui nesse sistema os dispositivos de armazenamento,
transmissão e leitura de dados. "Todas essas áreas já
estão preparadas e as máquinas já foram testadas",
confirmou Lombardi. Apenas 5% dos setores de protocolo e orçamentos
estão na fase final de conclusão dos testes.
O setor de informática da Prefeitura está realizando testes
em toda a rede. Cinco técnicos foram destacados para se dedicar exclusivamente
ao assunto. Ao todo estão envolvidos 13 profissionais. Cem novos
computadores estão sendo comprados para substituir os terminais 486
e 586, incapazes de enfrentar o bug. Tanta preocupação tem
justificativa: 80% dos setores da Prefeitura são informatizados.
Ao todo são 142 computadores, 70% deles modelos mais antigos como
o 486 e o 586. A Defesa Civil está preparando um plano de contingência
para as áreas médicas, abastecimento de água e energia,
telecomunicações, transporte e segurança.
Investigado dinheiro
remetido para o exterior
Procurador já identificou
quatro "laranjas" atuando em SC
Jefferson Saavedra
Joinville - Sem alarde, um grupo de seis procuradores do Ministério
Público Federal (MPF) está investigando a origem de mais de
R$ 600 milhões remetidos ao exterior desde 1992. O montante saiu
de Santa Catarina através da contas CC-5 (conta utilizada para mandar
dinheiro para o exterior). A transferência de valores para o estrangeiro
não é crime, mas os procuradores querem descobrir se as transações
foram informadas ao fisco. O MPF também apura se não houve
a utilização de laranjas nas remessas, o que poderia comprovar
a lavagem de dinheiro.
Como as investigações estão na fase inicial, e
nenhum dos procuradores chegou a formalizar denúncias à Justiça
Federal, não estão sendo divulgados os nomes dos correntistas.
"Temos uma certa urgência nessas investigações,
mas ainda não temos conclusões. Podem ser transferências
legais, sonegação ou lavagem", alega a procuradora Ana
Maria Guerrero Guimarães, coordenadora da unidade criminal do Ministério
Público Federal em Santa Catarina. Ana Maria também está
interessada em uniformizar as apurações entre os procuradores.
Levantamento
Desde a segunda quinzena do mês passado, começaram a chegar
aos procuradores do Estado um relatório das contas CC-5. O levantamento,
elaborado pelo procurador da República em Cascavel (PR), Antônio
Celso Três, foi obtido junto ao Banco Central e informa todas as transações
acima de dez mil dólares. No caso de Santa Catarina, só serão
analisadas as operações envolvendo quantias superiores a R$
150 mil. Em uma investigação preliminar, Celso Três
identificou pelo menos quatro "laranjas" com atuação
no Estado.
Para apressar as investigações, a procuradora Ana Maria
está exigindo dados complementares ao Banco Central. "Ainda
faltam as datas das remessas. Sabemos o autor e os valores apenas",
alega. Pelo Estado, os procuradores estão adotando fórmulas
diferentes.
Em Joinville, o procurador João Francisco Bezerra de Carvalho
chegou a encaminhar alguns dados para a Justiça Federal, mas o processo
retornou ao Ministério Público na semana passada. Bezerra
de Carvalho está rastreando o envio de R$ 47,1 milhões, transferidos
ao exterior através de 21 contas.
O procurador de Chapecó, Cláudio Fontella, assim que recebeu
as contas, requisitou inquérito policial junto à Delegacia
da Polícia Federal de Dionísio Cerqueira. Na área de
abrangência do MPF em Chapecó, estão sendo investigados
quase R$ 5 milhões. Em Joaçaba, a promotora Sônia Cristina
Niche já está solicitando informações adicionais
ao Banco Central. Já Fábio Nesi Venzon, de Criciúma,
solicitou à Receita Federal as declarações de imposto
de renda das cinco empresas investigadas na região.
Sonegação fiscal
em 50% dos casos
O procurador Celso Antônio Três tem uma metáfora
para analisar o levantamento das contas CC-5. "Fui investigar um coelho
e encontrei uma manada de elefantes", brinca o responsável pelo
Ministério Público Federal em Cascavel. Entre 1992 e 1998,
U$ 124 bilhões deixaram o País. "É claro que muita
coisa é regular, mas pelo menos 50% envolvem sonegação
fiscal ou lavagem de dinheiro", alega Celso, que aponta o responsável.
"Houve conveniência, omissão e condescedência deliberada
do Banco Central. Um comportamento criminoso da direção do
BC", acusa.
Para Celso Três, as irregularidades poderiam ser identificadas.
"Eram situações óbvias. No Brasil, só se
escorcha quem é honesto", ataca. Ele chegou a denunciar dezenas
de laranjas, isto é, pessoas responsáveis por movimentações
incompatíveis com a renda. As CC-5 com origem fora da jurisdição
de Celso Três no Paraná foram enviadas para investigações
aos demais Estados, como ocorreu com Santa Catarina, por exemplo.
As CC-5 foram criadas pela carta circular número 5 do Banco Central
em 1969. O governo estava interessado em facilitar a movimentação
financeiras de empresas estrangeiras com investimentos no País. No
entanto, através delas, foi possível o envio de remessas ilegais
para o Exterior. Até os integrantes da CPI dos Bancos estão
investigando os autores dos depósitos nas CC-5. (JS)
Retorno para
atividades ilícitas
Um mala de dólares embarcada no aeroporto deixou se ser o mecanismo
de envio de remessas ao exterior há muito tempo. Não que a
tática tenha sido abandonada, mas o problema é que grande
parte do dinheiro obtido irregularmente, ou sonegado, precisa voltar ao
País. Uma vez lavado, o dinheiro pode ser utilizado em negócios
lícitos, e, obviamente, também impulsionar atividades ilícitas.
Na década de 30, a família do gângster Lucky Luciano,
nos Estados Unidos, estava interessada em investir a grana obtida com contrabando
em negócios legais. Os cassinos em Las Vegas eram a opção.
Mas como explicar a origem de vultosos investimentos? O dinheiro foi para
a Suíça e de lá voltou como empréstimos. Isso
mesmo, como tinham dinheiro do próprio Luciano em suas instituições,
os banqueiros suíços não viam problemas em conceder
empréstimos. O próprio termo "lavagem" nasceu nos
EUA: as máfias alegavam que suas redes de lavandarias eram responsáveis
pelo enriquecimento das famílias.
O crescimento do narcotráfico sofisticou a lavagem. Na década
de 80, autoridades fiscais européias descobriram que traficantes
colombianos montavam triangulações com vários bancos
e mantinham empreendimentos em vários pontos do globo.
Com a convenção de Viena, em 1988, dezenas de países
começaram a elaborar estratégias comuns de combate à
lavagem. No Brasil, um lei específica para o crime, a 9613, só
entraria em vigor dez anos depois. A principal preocupação
com a lavagem nem é a operação em si, mas o fato da
transação esconder um outro crime.
No ano passado, o Banco Central chegou a organizar um seminário
internacional para debater mecanismos de controle das remessas ao Exterior.
Do encontro, nasceu a idéia da criação de um departamento
específico dentro do BC para combater a lavagem. "Departamento
é bobagem. É só cumprir a lei e fiscalizar", rebate
o procurador Celso Três, baseado no fato de que toda remessa ao exterior
superior a dez mil dólares precisa ser informada do BC.
Mesmo que especialistas apontem uma cifra em torno de R$ 1 trilhão
envolvendo a lavagem de dinheiro, não é fácil chegar
aos criminosos. Embora a globalização praticamente tenha anulado
o conceito de nação dos capitais, os judiciários sofrem
com a territorialidade. Basta perguntar a um juiz o tempo gasto em tentativas
de ouvir um envolvido com residência no exterior.(JS)
Golpe detectado no Estado
A conexão Uruguai foi um dos golpes de lavagem de dinheiro detectados
pela Receita Federal em Santa Catarina. Nos três casos descobertos,
envolvendo pouco mais de R$ 5 milhões, os envolvidos deixaram Santa
Catarina por via terrestre e atravessaram a fronteira do Rio Grande do Sul
com o Uruguai. A moeda brasileira, em espécie, foi trocada por dólares
e depositada em bancos uruguaios.
Eram obtidas guias de importações no Ministério
da Indústria e Comércio do Uruguai e o pagamento seria feito
com dólares. Assim, o dinheiro voltava para o Brasil limpo, mas as
importações eram fictícias. Com um esquema semelhante,
só que envolvendo empréstimos pessoais, o ex-presidente Fernando
Collor de Mello tentou explicar a gastança da família no Brasil.
A chamada "Operação Uruguai" acabou complicando
ainda mais a situação de Fernando Collor de Mello. Por enquanto,
a Delegacia da Receita Federal em Santa Catarina está apenas se preparando
para auxiliar as investigações do Ministério Público
Federal. (JS)
AS REMESSAS INVESTIGADAS PELO MINISTÉRIO
PÚBLICO FEDERAL
- Florianópolis: 13 contas / R$ 30.328.937,38
- Lages: 4 contas / R$ 11.472.410,55
- Tubarão: 1 conta / R$ 273.016,92
- Criciúma: 4 contas / R$ 13.126.173,92
- Blumenau: 28 contas / R$ 322.424.192,77
- Joinville: 21 contas / R$ 47.147.477,34
- Joaçaba: 6 contas / R$ 171.852.925,41
- Chapecó: R$ 4.978.156,28
- TOTAL: R$ 601.603.290,16
AS CONTAS CC-5
A denominação é derivada da carta circular número
5, expedida pelo Banco Central em 1969. As contas são utilizadas
por pessoas ou empresas com residência ou sede fora do Brasil. Foram
criadas para facilitar a movimentação do capital estrangeiro
no País.
AS INVESTIGAÇÕES
- Os procuradores estã investigando se os depósitos nas
CC-5, que acabaram sendo enviados para o exterior, foram informados ao
Fisco e pagaram imposto
- No decorrer das investigações, os procuradores podem
sugerir a quebra do sigilo bancário e devassa fiscal nas empresas
dos envolvidos. Para essas tarefas, é necessária a autorização
da Justiça Federal
- Em caso de constatação de sonegação, os
acusados serão processados. Se forem detectados casos de lavagem,
isto é, o dinheiro depositado nas CC-5 teve origem em negócios
ilícitos, os autores serão enquadrados na lei 9613/98 e poderão
ter bens seqüestrados, correndo ainda o risco de prisão. No
Brasil, sonegação, mesmo que envolva remessas para o Exterior,
não é considerado crime de lavagem
- Em todo Estado, os procuradores devem encerrar a primeira fase das
investigações nos primeiros meses do ano 2000. Em caso de
denúncia, os processos correm na Justiça Federal
Morro da Cruz - Um dos locais mais bonitos
de Lages, o Morro da Cruz, receberá uma escadaria com 500 degraus,
uma referência aos 500 anos de descobrimento do Brasil. Na Sexta-feira
Santa, o monte chega a receber até 10 mil pessoas. Também
será construída uma cruz com 25 metros de altura, totalmente
iluminada.
Convênio 1 - Os alunos da Furb terão
seus projetos acadêmicos de planejamento colocados em prática,
a partir do convênio com o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano
de Blumenau.
Convênio 2 - O convênio poderá
ser assinado no próximo dia 13, às 14 horas, na reitoria.
O objetivo é o intercâmbio de informações para
o desenvolvimento de projetos com orientação.
Convênio 3 - Segundo o presidente do
Ippub, Alexandre Gevaerd, além de estimular os alunos da Furb, o
convênio também pode contribuir para reduzor os custos dos
projetos da Prefeitura.
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Polêmica |
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Hemosc não usa sangue de homossexual
ONGs denunciam discriminação
e ameaçam ir à Justiça
Silvia Pinter
Florianópolis - A direção da Instituição
Arco-íris de Prevenção à Aids e da Associação
das Travestis, de Florianópolis, devem entrar com uma ação
na Justiça contra o Centro de Hematologia e Hemoterapia de Santa
Catarina (Hemosc). Elas acusam a instituição de discriminação.
A coordenação das duas Organizações não-governamentais
(ONGs) entendem que a direção do Hemosc é preconceituosa
pelo fato de não aceitar doação de sangue de homossexuais.
Isso mesmo. Apesar de o Ministério da Saúde já
ter eliminado do seu vocabulário a expressão "grupo de
risco", o Hemosc ainda preserva a distinção, diz o diretor
de projetos do Arco-íris, Alexandre Martins, 28 anos. "Os critérios
do Hemosc para doação são baseados em conceitos morais
e não técnicos. Isso é uma ignorância",
observa Martins, mostrando panfletos do próprio centro onde consta
a prova de que homossexual não pode ser doador.
O folder intitulado "Doar para ser feliz", por exemplo, emunera
uma série de questões que inviabiliza a doação
de sangue. E dentre os 11 ítens está a polêmica: "não
é permitido doar sangue quem tiver comportamento homossexual ou bissexual".
A mesma orientação está no panfleto "Seja um doador
de felicidade", o mais recente material elucidativo elaborado pelo
Hemosc. A única diferença é que nesse panfleto há
um complemento: "não pode doar sangue quem teve contato sexual
com muitos parceiros sem camisinha (ou perservativo), ou com pessoa suspeita
de ser portadora do vírus da Aids".
O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados
do Brasil (OAB), Reinaldo Pereira e Silva, diz que esse material por si
só já motiva uma ação por dano moral. "Não
existe na Constituição nada que proíba alguém
de doar sangue. Isso que o Hemosc está fazendo é um desrespeito
muito grande", indigna-se Silva, lembrando que toda sangue tem que
ser submetido a um conjunto de exames. "E isso serve tanto para o sangue
de homessexuais como para heterossexuais. Essa prática me faz questionar
se o Hemosc está realmente fazendo os exames, ou se o sangue dos
heterossexuais está sendo repassado aos receptores sem a devida análise",
complementa.
Portaria ainda prevê distinção
Embora o Ministério da Saúde já tenha orientado
que não há mais grupo de risco, a portaria 1376/93 do governo
federal ainda prevê a distinção. O artigo 3 da medida
estabelece que "... devem ser incluídos no grupo de risco os
indivíduos que pertenceram ou pertencem a estabelecimentos penais,
colônias de recuperação de drogados ou de doentes mentais
e de outros tipos de confinamento obrigatório. Devem ser excluídos
indivíduos com história de pertencer ou ter pertencido a grupos
de risco para Sida/Aids, e/ou que seja ou tenha sido parceiro sexual de
indivíduos que se incluam naquele grupo".
Essa norma, porém, deve mudar, segundo a assessoria de comunicação
da Agência Nacional da Vigilância Sanitária, o Ministério
da Saúde. "Hoje a orientação é não
proibir a coleta entre os grupos de risco", diz a assessoria. (SP)
Explicações são contraditórias
Ao ser questionado sobre o assunto, o diretor do Hemosc, o médico
Teodoro Henrique Corrêa, disse a princípio que não aceita
sangue de homossexuais porque existe uma norma do próprio Ministério
da Saúde que proíbe doação de pessoas de vida
promíscua. "E é comum homossexuais terem mais de um parceiro",
diz. Mas ao ser lembrado que pessoas heterossexuais também podem
se relacionar com mais de um parceiro, o diretor mudou o discurso.
"Se a pessoa homossexual garantir que tem um parceiro fixo por
pelo menos cinco anos. E se o seu parceiro também não tiver
tido nenhum outro relacionamento neste período, a pessoa pode doar
sangue sem problemas", diz o médico, frisando que todos os
possíveis doadores passam por uma triagem e respondem, reservadamente,
a um questionário. E são com essas perguntas que se constata
se há promiscuidade
"E se alguém enganar ao responder o questionário,
é caso de polícia", diz Corrêa, garantindo que
todo sangue coletado é examinado antes de ir para o receptor. "O
problema é que existe a tal da janela imunológica (período
em que o organismo ainda não desenvolveu anticorpos para combater
o vírus, portanto no exame não acusa a existência da
doença)", acrescenta o diretor, referindo-se ao fato de que
pessoas que têm muitos parceiros, "como os homossexuais",
podem estar contaminadas e o exame não acusar. (SP)
"Se admitir que é, não pode"
Joinville - A portaria 1376/93, do Ministério da Saúde,
e que regulamenta a doação de sangue, está sendo considerada
por grupos ativistas como "preconceituosa". Para doar sangue,
a pessoa precisa responder a um formulário de 60 perguntas, entre
as quais se é homossexual ou se usuário de drogas injetáveis.
"Não há preconceito. É apenas uma garantia a mais",
garante a diretora geral do Hemosc de Joinville, Osenilda de Melo Carvalho.
Segundo ela, homossexuais não podem doar sangue. "Se admitir
que é, não pode. Seria a mesma coisa que uma pessoa gripada
querer doar", justificou.
Mesmo com a exigência, a diretora do Hemosc garante que o número
de doadores não vai cair. "Isso não influencia. O que
pode determina a diminuição é o medo da pessoa em fazer
os testes", completou. O questionário aborda questões
polêmicas, como a opção sexual, se a pessoa usa droga
injetável ou ainda se mantém relações sexuais
com mais de um parceiro. "Mas tudo é sigiloso, fica no anonimato.
Se o doador for homossexual, é orientado a desistir e dar uma desculpa
se alguém perguntar, como por exemplo, que estava gripado",
admitiu.
A portaria está sendo questionada no País. "Eles
fazem perguntas subjetivas, como o número de parceiros ou se o doador
já fez sexo com homossexual, mas não pergunta se ele pratica
sexo seguro", afirmou o secretário geral da Associação
Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis, Cláudio Nascimento.
"São questões preconceituosas, discriminatórias,
que insinuam que a relação homossexual é de risco,
anormal e doentia". As bolsas de sangue coletadas nos hemocentros passam
por uma média 10 tipos de testes, dois deles para detectar o HIV.
(Luis Fernando Assunção)
Blumenau muda critério de seleção
de doador
Exclusão foi substituída
por maior rigor na avaliação
Marli Rudnik
Blumenau - Até há poucos meses o material informativo
exposto no Centro Hemoterápico de Blumenau tinha uma frase discriminatória
sobre o perfil de doadores de sangue: "para proteger a saúde
do paciente você não deve doar sangue se (entre outros itens)
tiver hábitos homossexuais ou bissexuais". O diretor do centro,
José Maurício Xavier Carrenho, confirma que estes grupos eram
sumariamente rejeitados e sequer passavam pela triagem que antecede a coleta.
A mudança de critérios na seleção de doadores
ocorreu a partir do movimento liderado pela comunidade gay em todo o Brasil,
mas não significa que o sangue de homossexuais esteja sendo aproveitado.
Carrenho afirma que a reclamação de preconceito por parte
dos grupos gays foi bem fundamentada, criando a consciência de que
a atitude era discriminatória. No hemocentro de Blumenau o movimento
provocou uma mudança de critérios na triagem, que partiu da
exclusão total de grupos de minorias, para medidas mais rigorosas
de avaliação de comportamento e conduta em todos os candidatos
a doadores. "E também muita informação, dando
oportunidade às pessoas de se auto-excluirem voluntariamente e em
sigilo, caso se julguem em situação de risco", afirma.
Além da triagem prévia e subjetiva, o centro tem outros
critérios de seleção interna nos laboratórios,
que podem determinar a rejeição do sangue sob qualquer suspeita.
"Os critérios são comportamentais, clínicos, sorológicos,
psicológicos e físicos, que determinam uma triagem rigorosa
e genérica", afirma Carrenho, explicando que 20% do sangue é
rejeitado. "Há situações em que mesmo com sorologia
negativa, o sangue é rejeitado devido ao comportamento suspeito do
doador", justifica. O centro tem 68 mil doadores cadastrados e faz
1,2 mil coletas por mês, distribuindo sangue e derivados para 20 hospitais
da região.
Conquista
O simples fato de ser recebido no Centro Hemoterápico, mesmo
sem saber o destino do sangue doado, significa uma conquista para os homossexuais,
segundo o presidente do Grupo Gay de Blumenau, Adilson Fortunato. "Significa
o fim de uma discriminação absurda", afirma.
Fortunato já passou pelo constrangimento de ser impedido de doar
sangue devido a sua opção sexual. "Eu conheço
jovens heterossexuais que transam com três mulheres diferentes por
semana, sem camisinha, e podem doar sangue. Eu tenho parceiro fixo, sou
bem informado e só pratico sexo seguro, mas sou rejeitado",
reclama. "Uma vez a moça do hemocentro me disse que poderia
coletar meu sangue, mas jogaria no lixo assim que eu deixasse a sala".
Triagem clínica identifica risco
Lages - O Hemocentro de Lages (unidade local do Hemosc) segue as normas
da portaria 1.376, de 19 de novembro de 1993, do Ministério da Saúde,
documento que estabelece normas técnicas para coleta, processamento
e transfusão de sangue, componentes e derivados. Entre uma série
de informações pertinentes, tal portaria deixa claro que é
vedada a doação de pessoas que pertençam a grupos de
risco (termo atualmente substituído hoje por "comportamento
de risco").
A enfermeira Denise Krüger Köch, gerente técnica do
Hemocentro de Lages, explica que todos os doadores passam por uma "triagem
clínica" (ou seja, uma entrevista com médico ou enfermeira).
Nessa triagem são feitas cerca de 70 perguntas ao candidato a doador
de sangue com a finalidade de aumentar a segurança do líquido
que será colhido.
"Nessa entrevista, além de uma série de outras questões,
é perguntado se a pessoa tem comportamento de risco. Em caso afirmativo,
para proteger tanto o doador como o receptor, o sangue não é
coletado", explicou Denise Krüger Köch.
Ela entende que esses cuidados não podem ser rotulados de preconceito
ou discriminação. "É apenas por uma questão
de maior segurança e para tanto existe legislação específica
que estamos seguindo", explicou.
E a portaria deixa claro que por grupo de risco devem ser incluídos
os indivíduos que pertenceram ou pertencem a estabelecimentos penais,
colônias de recuperação de drogados ou de doentes mentais
e de outros tipos de confinamento obrigatório. O documento ainda
vai mais longe e determina a exclusão de pessoas com história
de terem pertencido aos chamados "grupos de risco". (Loreno Siega) |
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