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ACM quer Itamar
no senado sob condições
Fernando Henrique monta estratégia
com aliados
para desmobilizar ação do governador mineiro
Brasília - O governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB),
aceitou ontem o convite formulado pela Comissão de Assuntos Econômicos
(CAE) do Senado para explicar aos senadores os motivos da moratória
de 90 dias decretada nesta semana. O convite foi estendido ao ministro da
Fazenda, Pedro Malan, que ainda não confirmou presença. A
audiência com o governador mineiro está marcada para a próxima
quarta-feira e, na terça-feira, a comissão votará um
requerimento para que sejam convidados todos os governadores em exercício.
O presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), entretanto,
avisou que se Itamar Franco quiser fazer uma exposição à
CAE terá de dirigir-lhe uma solicitação, a não
ser que haja uma convocação da própria comissão.
"O governador Itamar, se quiser vir ao Senado, homem educado que é,
terá de pedir ao presidente do Senado", disse ACM, frisando
que a CAE "pode e deve" discutir esses problemas econômicos
do País. "Agora, convocação de governador é
uma coisa, mas trazer (um governador) porque um membro (da comissão)
quer ou telefonou para o governador, não. Isso não é
de bom tom e não existirá no Senado.", garantiu. "Todos
têm de entrar na casa alheia com licença".
O pedido foi formulado pelo líder do bloco de oposição
no Senado, Eduardo Suplicy (PT-SP), com o apoio do senador Jefferson Peres
(PSDB-AM). "Seríamos muito ingênuos para não perceber
que haverá um desdobramento sério desta crise", justificou
Peres. "Minas é um dos maiores Estados da federação,
governado por um ex-presidente da República", acrescentou. "Não
é do perfil do Itamar (Franco) curvar- se diante da pressão
do governo federal", disse.
CONTRA-ATAQUE
Preocupado com os desdobramentos políticos deste episódio,
o presidente Fernando Henrique Cardoso já montou uma estratégia
de contra-ataque para minimizar a importância política da moratória
decretada pelo ex-presidente Itamar Franco e manter o assunto na esfera
financeira. A orientação dada a seus aliados é mostrar
que cabe ao governador fazer um ajuste financeiro no Estado, já que
a renegociação que ele agora questiona implicou no repasse
de R$ 4 bilhões a título de subsídios pelo governo
federal.
O ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, será
o principal operador da reação do Palácio do Planalto
à investida do governador mineiro. Ele foi incumbido de articular-se
com os secretários de Fazenda dos Estados, para isolar Itamar Franco
no questionamento dos acordos firmados com a União.
Moratória derruba
bolsas e preocupa o FMI
São Paulo - O governo federal reagiu com firmeza à declaração
de moratória feita pelo governador de Minas, Itamar Franco. Como
o mercado esperava, o Ministério da Fazenda soltou uma nota dura
contra a atitude do ex-presidente, afirmando que honrará os compromissos
externos do País e que executará as garantias oferecidas pelo
governo mineiro. Mas não foi o suficiente para melhorar o clima do
mercado. O índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa)
fechou em queda de 5,13%, enquanto o índice futuro recuou 5,15%.
Em que pese algum exagero dos investidores, o fato é que Itamar pode
ter provocado um estrago considerável na imagem do País junto
a investidores estrangeiros.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) endossou ontem a reação
enérgica do governo federal à suspensão unilateral
por três meses do pagamento das dívidas de Minas Gerais com
a União. Um porta-voz do FMI disse que a instituição
nada tinha a acrescentar à nota divulgada pelo Ministério
da Fazenda sobre o assunto e indicou que o confronto entre Belo Horizonte
e Brasília não deve afetar a execução das metas
do programa de estabilização fiscal que o Brasil negociou
com o Fundo, porque a administração federal tem meios legais
para neutralizar os efeitos da moratória mineira. "Mas é
claro que seria melhor se não tivéssemos essa situação",
disse o porta-voz.
A preocupação que a ação de Itamar provoca
no FMI é compartilhada pelo Tesouro dos Estados Unidos, que teve
um papel central na montagem do crédito de US$ 41,5 bilhões
que a comunidade financeira internacional oficial ofereceu ao País
em outubro, em apoio à execução do penoso programa
de ajuste fiscal. O temor é com o impacto negativo que a moratória
de Itamar já provoca sobre a limitada confiança que os investidores
têm demonstrado em relação à economia brasileira.
A crise aberta pelo governador derrubou os papéis da dívida
brasileira e forçou uma baixa generalizada nas bolsas ontem.
A volta do capital externo às bolsas, tão ansiada desde
que 1999 começou, deverá sofrer um inevitável atraso.
Também se teme que as captações externas por parte
de empresas privadas sejam dificultadas, ou saiam mais caras, em função
do "risco Itamar". Inacreditavelmente, o revival de Inconfidência
Mineira derrubou as bolsas mundiais, temerosas de que o Brasil volte ao
olho do furacão, por eventualmente não cumprir as metas compromissadas
com o FMI. Minas Gerais foi citada de Wall Street a Zurique como fonte de
preocupação.
Prejuízo de Minas com calote
pode chegar a R$ 755 milhões
Rio - A moratória decretada pelo governador Itamar Franco pode
mais prejudicar do que beneficiar a população de Minas Gerais
e o próprio governo do Estado, caso o governo federal faça
cumprir todas as penalidades previstas no contrato de renegociação
da dívida, como tem ameaçado com insistência o ministro
da Fazenda, Pedro Malan. Nesse caso, o prejuízo financeiro de Minas,
ao longo dos 90 dias de moratória, é estimado em R$ 755 milhões.
Ontem mesmo o secretário do Tesouro Nacional, Eduardo Guimarães,
anunciou que, caso o governador mineiro mantenha sua decisão de não
pagar, no próximo dia 20, a prestação da dívida
refinanciada pelo Tesouro Nacional, o Estado deixará de receber uma
parcela do Fundo de Participação dos Estados (FPE) no mesmo
dia. "Quem sou eu para dizer que Minas não precisa pagar sua
dívida?", frisou.
A moratória não causará nenhum prejuízo
financeiro para o credor - a União - porque as cláusulas contratuais
garantem o recebimento integral da parcela de R$ 70 milhões que Minas
deveria pagar no dia 20 deste mês. Basta que o Banco do Brasil arreste
parte da arrecadação de janeiro do ICMS (em média R$
400 milhões/mês) e bloqueie a transferência de recursos
do Fundo de Participação de Estados e Municípios que,
no caso de Minas, tem se situado em R$ 35 milhões/mês, segundo
a Secretaria do Tesouro. Portanto, as garantias do contrato cobrem, até
com muita folga, o valor que deixa de ser pago com a moratória.
Prejuízo mesmo quem sofre é o governo Itamar Franco, porque
a taxa de juros incidente sobre todo o estoque da dívida - R$ 12
bilhões - salta imediatamente de 7,5% para 30% ao ano (taxa Selic).
Ou seja, nos 90 dias de moratória a dívida de Minas ganha
um acréscimo de R$ 675 milhões, só por conta do efeito
da diferença de taxa de juros. Mas o prejuízo é maior
do que isso porque o contrato estipula uma multa em caso de não pagamento,
que equivale a cinco vezes os juros incidentes sobre o valor que deixou
de ser pago.
Isso quer dizer que, caso o governo federal cumpra com rigor, na letra
da lei, as cláusulas do contrato negociado com o ex-governador Eduardo
Azeredo, o governador Itamar Franco levará para a população
de Minas pagar uma conta de R$ 755 milhões dos 90 dias da moratória
que ele decretou. Esse é o prejuízo financeiro.
Paraná
Lerner irá honrar
compromisso assinado
O governador do Paraná, Jaime Lerner (PFL), disse ontem que o
Estado tem feito "todo o esforço" para honrar o compromisso
com o governo federal, pelo qual renegociou uma dívida de R$ 520
milhões com a União. "A renegociação é
como lei, tem que ser cumprida", afirmou. O governador afirmou que
o Paraná pretende pagar em dia a amortização da dívida.
Por mês, são comprometidos R$ 2 milhões nessa operação.
Pernambuco
Jarbas não concorda
com método de Itamar
Recife - O governador Jarbas Vasconcelos (PMDB) condenou ontem a atitude
do governador de Minas Gerais, Itamar Franco, de decretar a moratória.
"Não será na base da ameaça e muito menos da retaliação
que vamos conseguir resolver os problemas dos Estados brasileiros, até
porque também são enormes as dificuldades do governo federal",
afirmou.

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Notas |
Rio de Janeiro
Garotinho apóia mas
não imita Itamar
Rio - O governador do Rio, Anthony Garotinho (PDT), defendeu ontem uma
posição conjunta em relação ao governo federal
para a renegociação da dívida dos Estados. No entanto,
Garotinho descartou a possibilidade, pelo menos por enquanto, de fazer o
mesmo que o governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB). "Não
vou levar o Estado a uma atitude de enfrentamento", afirmou ontem.
"Vamos dialogar enquanto for possível".
Rio Grande do Sul
Olívio quer repactuar
dívida dos Estados
Porto Alegre - O governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra
(PT), acha que os governadores oposicionistas devem apresentar, logo após
o encontro do dia 18, "uma política condensada, séria
e objetiva para repactuação das dívidas dos Estados
para com a União". Ele repetiu que se considera solidário
com o governador Itamar Franco mas não deve decretar moratória.
Mas não pagará os R$ 38 milhões da dívida com
o governo federal que vencem no dia 15.
Alagoas
Governador do PSB
não quer "peitar" FHC
Maceió - O governador de Alagoas, Ronaldo Lessa (PSB), esclareceu
ontem que não vai decretar moratória, mas apóia a decisão
do governador de Minas Gerais de suspender o pagamento de todas as dívidas
do Estado. "Eu não quero peitar o presidente Fernando Henrique
Cardoso; quero que ele aponte a saída para Alagoas superar a crise
em que se encontra", afirmou Lessa. |
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