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Cinema









História
Antigos egípcios adoravam o cão na forma de seu deus, Anubis

Cão também
leva vida de adulto

Comportamento de alguns "famosos" com relação aos seus bichos de estimação confirma a máxima de que o cachorro é o melhor amigo do homem

Ademir Fernandes
Agência Estado

A depressão não é uma exclusividade dos seres humanos. Acaba de ser lançado nos Estados Unidos o Clomicalm, um remédio antidepressivo para cães. Quando foi divulgada, a notícia chegou a ser motivo de brincadeiras, mas os veterinários consideram o problema sério. Segundo eles, os cães merecem tratamento especial nesse aspecto, inclusive quando chegam à terceira idade, como os homens.

Alguns donos dispensam tratamento mais do que especial a seus animais, como a atriz Mia Farrow, que levava sua cadelinha ao analista, e Suzana Vieira, que trata seu cão Rajá com acupuntura. E, para quem riu quando o ex-ministro Rogério Magri disse que o cão "é um ser humano como todos nós", é bom lembrar que o ex-presidente George Bush transformou sua cachorra Millie em "escritora".

Os especialistas ainda não se arriscam a afirmar com toda segurança se os cães sofrem exatamente de depressão. Preferem definir o problema como "síndrome da ansiedade da separação", que ocorre principalmente quando os donos deixam o animal sozinho.

Os males da terceira idade também afetam os cães, explica a veterinária Rita Ericson, da Clínica D'Amato, no Rio. Segundo ela, isso acontece quando o animal chega perto dos 8 anos de idade e então requer cuidados especiais, já que eles passam a sentir mais sono, os pelos embranquecem e o coração fica mais fraco. Nessa fase, é comum surgirem problemas como artrite, artrose, e bico-de-papagaio, entre outros.

Para os cães mais velhos, o Laboratório Pfizer acaba de lançar, também nos EUA, o Anypril, destinado ao tratamento de uma doença parecida com o mal de Alzheimer.

Tudo isso pode soar como novidade para as gerações de hoje, mas o biólogo John Allman, autor do livro "Evolving Brains", garante que os cães e os seres humanos têm ligações em comum há mais de 140 mil anos e evoluíram juntos.

PLANO DE SAÚDE

Recentemente, a atriz e cineasta Suzana de Moraes, filha do poeta Vinícius de Moraes, presenteou sua cachorra Isaura, de dois anos, com um plano de saúde lançado pela empresa Petplan. O plano inclui atendimento equivalente aos dos convênios para adultos, como consultas, internações, cirurgias e acompanhamento pós-operatório, e outras vantagens que não podem ser estendidas aos humanos por motivos óbvios, como a tosa, corte de unhas, banho e limpeza de ouvidos.

Às vezes, o animal acaba contraindo a doença de seus donos. Foi o que aconteceu com Millie, a cadelinha de Barbara e do ex-presidente George Bush. Os dois contraíram o Mal de Graves, de origem ignorada, e Millie também foi afetada. O xodó da família Bush deu a volta por cima e ainda "escreveu" um livro, o "Millie's Book", que vendeu mais de 500 mil cópias. Foi essa a fórmula que Barbara encontrou para descrever o dia-a-dia na Casa Branca, como se as observações fossem de Millie.

Se o que é bom para os americanos ainda é bom para o Brasil, vale lembrar, também, que a ex-deputada Dirce "Tutu" Quadros causou espécie aos repórteres quando visitou Tancredo Neves no hospital em Brasília, acompanhada de seu cachorro. Ela simplesmente garantiu que o animal entendia inglês.

Dondon, o cachorro da cantora Marlene, já trabalhou como artista de teatro - o que não chega a ser algo inédito, levando-se em conta que vários cães fizeram sucesso na TV e no cinema. Mas Peteleco, o cãozinho de Adoniran Barbosa, virou "compositor" - a música "Mãe, eu Juro" foi assinada em seu nome.

Mais recentemente, no começo de janeiro deste ano, a imprensa internacional noticiou que o pastor alemão Gunther IV foi agraciado pela condessa Carlota Liebenteins com uma fortuna de 200 milhões de dólares administrada por seus representantes legais, que abriram conta nas Bahamas.

O cão passa temporadas na Flórida e na Itália, conforme o clima, e poderá se transformar brevemente no dono da luxuosa mansão que o ator Sylvester Stallone colocou à venda em Miami, por US$ 27 milhões. Gunther passeia de BMW com motorista particular, gosta de nadar na piscina e, pelo menos por enquanto, não precisa tomar Clomicalm.


Terapias alternativas
para os bons companheiros

Cleide Cavalcante
Agência Estado

A escritora inglesa Diane Stein, formada em ciências pela Universidade Duquesne, defende a terapia holística para cães e outros animais domésticos. Em seu livro "A Cura Natural Para Cães & Gatos" (Editora Ground) ela expõe o trabalho de Linda Tellington-Jones, baseado na cura psíquica, com florais e acupuntura. Mais. Diane fala sobre os chakras (centros de energia) dos animais e de como eles regem a saúde do bicho.

Os métodos holísticos, afirma Diane, são sugeridos para evitar que pequenos males se agravem e a intenção não é substituir a indicação veterinária. Ela explica que os cães têm pelo menos cinco chakras maiores ativos e cerca de 21 secundários. "Partes diferentes do corpo são assessoradas por diferentes chakras, e a cura destinada a uma parte específica do corpo envolve trabalhar aquela área de energia e curá-la", anuncia. Assim como nos humanos, nos cães cada chakra também tem uma cor específica. Diane destaca que o primeiro passo na cura dos animais é aprender a comunicar-se com eles. É necessário, frisa, compreender a linguagem dos bichos.

No caso dos cães, as diferentes posições das orelhas e caudas têm significado específico. Um cão com a cauda totalmente erguida, por exemplo, demonstra confiança. "Antes de poderem entrar em comunicação com seus animais de estimação ou outros animais, é preciso que se reconheça a natureza espiritual deles, que é sua ligação com a Mãe Terra. Aos olhos dela toda a vida é uma só vida, e qualquer força que prejudique qualquer uma de suas criaturas fere todas elas", pondera.


Animal sagrado
para muitas civilizações

Imagens de cães na arte antiga são conhecidas e documentadas desde 5000 a.C, e o cão teria sido domesticado bem antes dos gatos. Foi considerado animal sagrado por muitas civilizações antigas. Para os chineses, era uma divindade da tempestade. Em diversas representações de deusas, estes animais também estavam presentes. "Hecade e Diana/Artemis com seus cães de caça, o deus egípcio Anubis e a deusa Bau, e Erinyes (deusas vingadoras gregas), a deusa Hel do submundo nórdico, e os pequenos cães Kalima nas Américas do Sul e Central e no México", verifica a escritora Diane Stein.

Ela lembra que quando o leão foi extinto na China, a imagem foi transferida para o cão pequinês, uma raça desenvolvida para imitar o leão. "Esses cães Foo, que eram animais de templo, são vistos freqüentemente na arte chinesa como guardiães e protetores das colheitas e dos portões do templo. Uma das 200 imagens da deusa Kwan Yin, que a representa derramando a água da vida de seu jarro sagrado na boca de um cão Foo, pode ser encontrada nas lojas de importação", informa.

Na Europa Central neolítica, o cão era associado à deusa Mãe e à árvore da Lua. "Os cães são os principais símbolos da deusa Lua em toda a Europa, no Egito e na Grécia. São associados à morte e ao submundo no Egito, Babilônia, Escandinávia, índia e Grécia". Também algumas sociedades faziam sacrifícios de cães em homenagens a seus deuses. De acordo com as pesquisas de Diane, Ísis era associada a Sirius ou Sothic, a Estrela Cão, no Egito. Para os astecas, a imagem do cão também era associada à de uma estrela.(C.C.)


Fernanda Montenegro
monta exposição sobre carreira

Rio - Ainda se recuperando da maratona dos cinco meses de divulgação do filme "Central do Brasil", a atriz Fernanda Montenegro dedica-se atualmente à organização de uma grande exposição no Museu de Arte Moderna comemorativa dos seus 70 anos, que completará em outubro, e do meio século de carreira, que fará no ano que vem.

A nova doutora honoris causa da Universidade do Rio de Janeiro - título recebido essa semana - lamenta a falta de uma diretriz para a educação e a cultura no País: "A última vez que tivemos um projeto cultural e educacional foi com Gustavo Capanema", comentou. Fernanda critica o mau hábito dos governos não darem continuidade a programas iniciados em gestões passadas. "Nunca se termina, nunca se sabe onde se vai chegar", analisa.

A primeira-dama do teatro e do cinema planeja levar a exposição, que será aberta no dia 21 de julho, para outras cidades. O material terá lembranças do que Fernanda realizou em cinema, televisão, publicidade e teatro, claro. Muitas fotos serão dos espetáculos que produziu ao lado do marido, Fernando Torres. Ela disse que, ao rever o material, teve a impressão de que está trazendo para o público "muita história e muitas estéticas diferentes". Há alguns anos, o casal Torres enviou para a Funarte cerca de dez mil documentos, que nunca vieram à público por causa de problemas administrativos.


SOS Alcatrão

Hermes Pinto

Já que tem ONG para tudo quanto é coisa, até para defender palmito, eu e um amigo estamos fundando uma em defesa dos fumantes. A frase de Mário Quintana, "Quem não fuma não tem vida interna", será o nosso lema. Já nos correram do local de trabalho, dos ônibus, aviões, restaurantes, bancos, enfim, nos tornamos uns párias. Tá na hora da reação.

Em primeiro lugar, que se saiba, nenhum fumante anda pelas ruas reclamando da emissão de gases dos veículos. Dia desses, vi um ônibus que despejou mais fuligem em uma só arrancada do que eu e meu Marlboro iremos emitir até o final da minha vida. Depois que erradicarem os fumantes, vão acabar com os carros e ônibus também?

Como podem nos ameaçar todos os dias com aquelas sentenças "O Ministério da Saúde adverte: fumar causa câncer, gripe, dor-de-cabeça, tuberculose, mal de Chagas, dengue, daltonismo, etc."? Nos deixem em paz. De que vale um cafezinho ou uma cervejinha sem o cigarrinho?

Outra coisa. O que será da medicina se acabarem com o cigarro? Vão culpar o quê pelas nossas mazelas? Tudo é culpa da nicotina. Desde o câncer no pulmão à unha encravada, passando pela coriza e cólicas de segunda-feira. Vão viver de que os médicos? Para quem não sabe, tudo que é bom tem seu preço. Você viajaria tranqüilo para o exterior se sua mulher fosse a Luana Piovani? Já pensou quanto não é o IPVA da Ferrari do Ronaldinho? Você lembra como acorda depois de uma feijoada com picanha ao óleo e caipirinha?

Nossa ONG não quer aumentar o número de fumantes, nem defende subvenções sociais, como a inclusão do Derby na cesta básica; somos apenas a favor do fim da encheção de saco. Querem transformar esse mundo no quê? Não se pode mais espancar os filhos quando eles destroem nossa coleção de latinhas de cerveja; já inventaram o pedágio e o estacionamento rotativo; o IPTU está ficando mais caro que o Imposto de Renda; enfim, é extorsão por tudo quanto é lado e agora mais essa.

Nós fumantes, temos de ter complexo de culpa por acendermos um mísero cigarrinho? Por que? Não se pode abrir uma revista que lá vêm as bobagens: cada cigarro fumado é menos cinco minutos de vida; pesquisadores ingleses descobriram que cigarros de filtros amarelos são causa da impotência entre os 47 e 53 anos de idade; o alcatrão faz cair cabelo e traz rugas para a testa, etc. Bando de retardados!

Vamos começar nossa contra-revolução invadindo cinemas. Depois será a vez dos aviões. Em poucas semanas vamos tomar os ônibus intermunicipais e não demoraremos muito para chegar até os hospitais. Resgataremos nossos mártires e lhes devolveremos a vida interna. Não se metam com a gente!


O Diálogo das Poéticas

Rodrigo Garcia Lopes prepara livro onde as poéticas, o tempo e a linguagem vibram em um único e desconcertante tom

GLEBER PIENIZ

Trinta e seis poemas e um desafio: editar um livro que, através de um diálogo entre formas distintas, refletisse a situação atual da poesia. Em dezembro do ano passado, o projeto rendeu ao poeta Rodrigo Garcia Lopes o primeiro lugar no concurso da Fundação Biblioteca Nacional do Rio: uma bolsa de R$ 4 mil para que publicasse sua obra, "Polivox". "Os poetas da atualidade estão em situação privilegiada, pois têm à disposição diversas possibilidades poéticas que já foram utilizadas", justifica Lopes, que também é jornalista (foi ex-editor do Anexo) e tradutor.

Além da premiação, dois outros fatos deixaram 1998 indelevelmente registrado no currículo do bardo paranaense. Seus poemas foram incluídos nas coletâneas "Outras Praias/Other Shores 13 Emerhing Brazilian Poets" e "Esses Poetas - Uma Antologia dos Anos 90", edição organizada por Heloisa Buarque de Hollanda. Lopes diz que "Polivox" deverá conter 80 poemas - boa parte já escrita, outra ainda em construção - e explica que as provas do livro precisam ser entregues à Fundação dentro de quatro meses.

TRÊS VOZES

Da pluralidade de vozes que dá nome à obra, Lopes flerta especialmente com as linguagens exploradas no último século: "Concretismo, dadaísmo, surrealismo, poemas longos... É um diálogo com poéticas e poetas", adianta. Parte desta aventura se explica na divisão interna do trabalho em três partes. A primeira delas leva o nome do livro e traz a polifonia expressa em versos de diferentes poemas. Em "Outravox", a segunda parte, Lopes invade o mundo de Satori Uso e publica as traduções para 12 ou 15 epigramas de Marcial, poeta crítico, apegado às linguagens de baixo calão, também conhecido como "Boca de Roma". "É outro desafio que lida também com a polifonia. Como dar voz para um poeta latino que escreveu há muito tempo atrás, em outra realidade, e que influenciou até mesmo Gregório de Mattos?", questiona.

Na terceira parte de "Polivox", "Experiências Extraordinárias", Lopes tenta provar que o poema longo e épico ainda é possível às vésperas do novo milênio, a despeito do desenvolvimento da internet e de novos meios de comunicação. O desafio, antecipa o poeta, é criar uma relação entre a poesia e as chances de descontinuidade que a multimídia oferece: associar imagens aos versos (ou vice-versa), estabelecer links e circular por ambientes - gráficos ou líricos - diferentes. "Sinto necessidade de forçar um pouco os limites para quebrar com visões determinadas de poesia, fazer disso um exercício de liberdade poética", explica.

Em fins de janeiro, Lopes voou para a Europa em busca de referenciais históricos para dar continuidade a "Polivox". Na francesa Charleville, esteve mais próximo de Arthur Rimbaud e, em Florença, de Dante Alighieri. A viagem de inspiração encerrou no início de março, depois de passar por Frankfurt, Berlim, Munique, Roma, Barcelona, Paris, Londres, a região de Provença e parte da Suíça. No retorno, a impressão que fica é de que a viagem trouxe mais informação e, conseqüentemente, mais confusão às idéias do poeta. "Ainda tenho que dar forma para o último poema. Uma forma ou não-forma, é só o que falta... talvez use os cut ups do (William) Burroughs, incorporando imagens, fotografias". Como certo, Lopes tem apenas uma bolsa de pesquisa pelo doutorado da UFSC no Arizona onde, desde maio, tem dissecado a poesia de Laura Riding, a etnopoesia, a poesia ancestral de índios norte-americanos e, por tabela, dos brasileiros.

Neste domingo, Anexo oferece um aperitivo de "Polivox" na forma de alguns poemas inéditos que irão compor o livro. A eles, Lopes acrescenta alguns comentários cujo teor - inquietação, satisfação e revelação - são mais convincentes que qualquer explicação a respeito do desafio de se escrever "Polivox". Na seqüência, Lopes apresenta os delírios poéticos-fotográficos da viagem de estudos à Europa, vertidos na linguagem quase confessional de um diário.

Memória e repetição (um minifesto)

Repetição é uma forma de mudança. Mudança é uma forma de vida. Vida é uma forma de repetição. E a mensagem passa a ser apenas o vestígio de uma contínua mudança. A dança do mesmo. Uma forma de repetição. Cada memória esgota-se ao mesmo tempo em que ocorre, e tudo o que temos são rastros, textos, que se acumulam sobre as águas - que não cessam. A idéia de uma presença persevera, mas de repente é mera ausência. A água, rio ao reverso, em sua transparência, não admite que o gelo a emudeça por inteiro. Silencioso duelo. No inverno, suas águas continuam a fluir, submersas, protegidas por ele. Pela pele e pelo gelo. Sob a transparente ausência das águas onde este ex-texto se excreve, como neve, se forma uma presença, alien a mim mesmo, embora invisível como vozes - à superfície. Que se transforma. Que se transcende. Assim como a queda d'água, cujo texto se celebra e se anula ao mesmo tempo. Sua escrita é uma forma de desaparição. Uma forma de vida, de mudança, de repetição. Como se escrita com limão, só se revela sob o sol. As informações se equalizam: há a impressão de que nada ocorre ali. Só o que temos, repito, são traços, trilhas no meio do mato, pistas falsas. Porém, por essa trilha milhares de olhares passam, gestos imperceptíveis, a cada instante. Eles conversam numa língua extinta, idioma do gelo; a língua das águas, dos viajantes. Mudos, eles olham o halo da lua (uma outra forma de repetição). Nada de novo nisso tudo: não tanto quanto num poema ainda não escrito. A estética do desaparecimento convida todas as formas de mudança, como o pensamento nômade de Nietzsche, eternamente repetindo seu retorno, que nada mais é que uma forma de desaparecimento. Uma ficção. Dança ritual da mente. Tatuagem fugaz. Memória da memória. Uma nova forma de repetição.

Comentário: Este poema em prosa, escrito em 1990, é uma súmula das minhas inquietações poéticas e filosóficas. Baseando-se no método da escrita minimalista de Gertrude Stein, ele reflete minhas leituras filosóficas da época (Deleuze, Thoreau), e a partir de minhas próprias caminhadas pelas regiões do Arizona (principalmente Sedona). Trata das relações entre repetição e diferença, linguagem e realidade, ser humano e natureza. Tenta mostrar, em sua própria articulação, como diz Marjorie Perloff, que a escrita é inevitavelmente repetição, "mas cada repetição revela algo mais".

Aqui
Imagens gritantes
No lento jardim do sentir --
Onde toda tarde tem sua chuva,
Toda chuva tem seu antes.
Agora o vento é uma luva.
O transe, onda no céu gigante.
Agora, drible seco que derruba
Qualquer idéia de instante.
 
Miragens distantes,
Corpo, ruínas de sentidos:
Como ter adormecido
Sem sequer ter sido?

Comentário: Poema de "desterro", escrito onde moro, no sul da Ilha, que traz (creio) uma crítica do "sentido" ­ e do sentido da própria vida ­ expondo em suas imagens algo "esquizofrênicas" e paradoxais ("imagens gritantes") o conflito entre a exuberância e "deslocamento" proporcionados pela paisagem do Pântano do Sul e a presença "desterrada" do ser humano neste ambiente. Fusão de corpo e paisagem, crítica ao tempo linear-aristotélica, promovendo a introdução de "outra lógica": a poética.

estrelas de sangue
& mar de pupilas
noite e seu manto, lento
rumor de astilhas
 
o baque na pele
é causa de vento ou
este
 
exemplo de pensamento
que editam as ilhas.
 
faz as estrelas
tremerem *
 
no coração, irmão do tambor, um imã.
ecoar na noite sem vento: sua sina.
 
estrelas de sangue
& mar de pupilas
 
Comentário: Este poema dialoga com a técnica de composição imagética, bem como a atmosfera "duende" dos poemas de Frederico Garcia Lorca, que descobri tardiamente (tive o prazer de ler suas obras completas há meses), fundindo com os dados e a realidade à minha volta (a paisagem do sul da Ilha). A idéia é transformar, rearranjar a linguagem de Lorca, repotencializá-la e ao mesmo tempo homenageá-la - idéia que foi seguida pelo poeta norte-americano Jerome Rothenberg em seu extraordinário "Lorca Variations". Na busca de uma "música do sentido".
ISTO

 

Isto,
 
eu
 
não sou o poeta
 
­ sou o poema
 
sendo escrito

 

Paisagem transparente

 

Neblina e montanha transam, conversam na manhã de chuva.
Mata espessa se adensa, estes ciprestes, alvos agora
 
Dos afetos kabuki da fumaça. A montanha respira, quase
some, sem
 
coragem de sugar o incorpóreo uma só vez.
Manchas de silêncio.
 
O mar, perto,
permanece à margem
(Como um sonho que não conseguimos lembrar)
enquanto
o corpo inquieta-se
com o ainda-não da mente
­ Escultura cinética. O olho
 
olha e vê, atento, ao que acontece
aqui,
entre escrito, neblina e montanha, neste momento.

Comentário: Mini-críticas irônicas ao senso-comum (que acredita que a linguagem é algo transparente, "natural". Contra a idéia de que o poema deva ser todas as vezes uma expressão do "eu" (herança do Romantismo) . A linguagem também pode ser considerada como um "ser" sempre em movimento, e que o poeta e o leitor são transformados em "outra coisa" durante esta experiência, mesmo que em breves momentos.

     
    Se rigores se desfazem como espumas
    e pássaros não recordam seus registros
    como siderar o mar, idéia que se esfuma
    sem a menor ponta de remorso,
    marcas de luta, porradas, ou mesmo isto?
     
    Ver só começa no instante
    em que (sem deixar pistas)
    A razão tira seu óculos e
    seu anti-sol cega nossas vistas.
     
    O sublime não é nada
    a literatura nada é
    -- e pode ser patética, até --
    se não for um olhar
    que transforme a paisagem
    em floresta significativa.
     
    Não experiência lida,
    mas percebida
    crítica da vida
     
    no que a brisa confirma
    a todo tempo
    em seu épico de gestos
    sutis, como quem, insistente,
    um império conquista.

Comentário: Creio que este poema seja já bastante auto-explicativo para um comentário. Lembrando que, em poesia, os poetas devem ter cuidado em não acabar transformando a idéia de "rigor", como difundiram os concretos, num limite à liberdade poética, num "rigor mortis".

    Escrito num hotel
    O que nos leva a escrever
    Se até o tempo, escrita da mente,
    Desmente estar ali para entreter
    Até o tempo se fechar, até a luz se resumir?
     
    O primeiro gesto que a detona
    É o eco da palavra que a devora
    Exibindo seu osso e seu recheio
    Como vem, de seu impulso dono -- ou dona.
     
    É para confundir os registros
    Que a luz num quarto se anuncia.
    E é para tornar-se ainda mais lúcida
    Que a mão, distraída, nos escreve. E pára.

Comentário: Este poema foi escrito num impulso só, num hotel em Curitiba. Embora ele tenha "acontecido", espontaneamente - seguindo o lema de Allen Ginsberg de "primeira idéia, melhor idéia" - ele reflete o equilíbrio entre forma & conteúdo que estou perseguindo. Reflete também minhas preocupações com as relações entre linguagem e realidade, de querer captar o movimento da mente em busca de "sentido", tentando passar para leitor um pouco da experiência de ler e escrever poemas.

    BRA
    abracadapalavra
    bracadapalavraa
    bracadapalavrab
    racadapalavrabr
    acadapalavrabra

Comentário: Um de meus raros poemas concretos, "Bra" foi escrito há poucos meses. A idéia é basicamente simples (mas inédita, pelo menos para mim): a partir da fórmula mágica "Abracadabra"' (lembrando que esta forma está entre as origens xamânicas da poesia) tece-se uma espécie de mantra entre sons e sentidos. A própria palavra, a partir de sua emissão, ou ocorrência na página, é aberta para que em sua sucessão novos sons e sentidos venham à tona. Repetição e diferença. Também é um toque aos que se aventuram na experiência da poesia: "abrir cada palavra", inspecioná-la, explorar seus sentidos ao máximo, suas ambigüidades, fazer as palavras irem além delas mesmas, como uma espécie de mágica.

    Os paradoxos do tempo (1)
    O futuro anda tão diferente.
    O movimento está parado.
    Nem parece que um dia
    Pensou que era passado
    e foi virar nostalgia.
     
    Nem me contem
    Nem lembrem que hoje
    Já fazia tempo e não fazia
    Um dia como ontem.

Comentário: É um poema "pós-moderno" em tempos de crash.

    Sobre uma linha de Jack Spicer
    ondas sob
    a lua
    cheia
    depois
    maré
    vazia
    tanto
    desperdício
    ninguém
    escuta
    mais
    poesia

Comentário: Jack Spicer é um poeta norte-americano contemporâneo. Sua linha inspirou-me a dedicar este poema ao mar e à situação da poesia em tempos de Tchan. do mar que vem tudo (inclusive a poesia da linguagem sonora das ondas).


Diário de viagem
26 de janeiro, terça-feira
Manhã, Mannheinn. Um diário que começa pelo meio, escrever sendo traçar linhas aéreas, em fuga, escreveu alguém. Nomadismo: viver e passar por lugares em movimento. Diásporas de silêncios. Essa é a idéia de um poema que incorpora e modifica a si mesmo enquanto desliza pelos olhos ativos do leitor.
 
Ritual nº1
 
chamam xamãs
 
se a letra
se levanta
 
& anda
até
aqui.
 
Seu movimento é seu sentido.
 
(Flashes na página branca)
 
Sonho: estou escrevendo uma série de telegramas estranhos, embaixo de uma nuvem de néon escrito GÖETHE LUFTHANSA. Sonho nº 1: um babuíno salta do poema e rosna: "Você precisa andar para escrever". Mannheinn: "terra dos homens" mas também das bombas aliadas, que quase a varreram do mapa. Como terá sido a experiência deste "filme"? Há imagem mais barroca que uma igreja barroca em ruínas? O livro com imagens da guerra: soldados sem face. Neva sobre a história. Tudo o que a memória reúne, a guerra arruína.
 
29 de janeiro, sexta-feira
Heildelberg. O passado salta no presente, o presente é uma polaróide daquele passado.
 
3 de fevereiro, quarta-feira
Amsterdã. "Na holanda esquina do MercadoNovo/ num pôr-de-sol flamengo/ um imigrante chinês/ cego & velho/ cruza a rua/ ajudado por um outro cego." Cena de Bruegel?
Esquinas de fumaça distrito das luzes vermelhas
casas tortas sobre canal bicicletas revoada de pombas junkies
negócios escusos madruga luminosos cães jazzistas
nas esquinas de neblina verde & vitrines obscenas
vende-se tudo história girassóis gente hojes hash - tudo
pelo preço de um céu fugaz - nas asas
do instante peyote das praças lotadas
letreiros zaum rápidos coffeshops
slogans absurdos
gente
nesses canais de nuvens verdes que nos alcançam
putas dadá na moldura de luz negra
túnel de tempo voraz.
 
PS.
No museu imperial holandês
visto antes
lembrado agora
o motto de Luis
Napoleão
 
DOE WEL
EN ZIE NIET ON
 
faça o bem
e não olhe para trás
 
 
6 de fevereiro, sábado
Trem para Florença. Digo a Lu: somos todos estrangeiros aqui. Sempre a caminho. Babel no papel: em movimento: um mix de registros, línguas, "formas de vida". Como este vagão. Como dizia Leminski: a sensação de despaisamento é o mais moderno dos sentimentos. Não foi Rimbaud que disse que "precisamos ser absolutamente modernos"? Cruzando os Alpes, pré-avalanches, até Florença. Sonho? Sabe-se lá. A paisagem desmancha-se ao menor toque de olhar. # Galeria Uffizi, com obras dos mestres florentinos: Da Vinci, Botticelli, Michelangelo, Cimabue, Giotto, Ucello. A persistência da "aura". Florença, onde a brisa é densa, onde a alma, por um tempo, suspira & pensa. A cidade de Dante & Guido Cavalcanti, feras do "doce estilo novo". Vespas nos atropelam nas ruas estreitas. PASSO CARRABILE REMOZIONE FORZATA, as placas do dep. de trânsito insistem em dizer. A névoa dos passantes não falam de ti, Beatriz, nem de nada. Amanhã, San Gimigniano, cidade ao sul de Florença, no coração da Toscana, primeiro exílio de Dante.
 
8 de fevereiro, segunda-feira
ROME
Roma rima com si mesma:
nela, amor, o passado
repete-se, retorna todo dia
na forma de ruínas
 
11 de fevereiro, quinta-feira
Veneza. Pasolini: "Morte não é/ a incapacidade de se comunicar,/ mas o fracasso de continuar sendo compreendido". Todo poema começa do zero. Localizo, quase por instinto, a Locanda Riva, onde passei (1984) quatro noites dormindo no sótão do hotel. Viver em hotéis é como viver num poema que é você, que nunca tem fim, sempre chegando ou saindo, como
 
14 de fevereiro, domingo
Zurique. Faz frio aqui! Café Dadá. Frio Dadá. Paisagem em Zig-Zag. Esta é uma homenagem a Tzara.
 
15 a 19 de fevereiro, segunda a sexta-feira
Nas ramblas do poema Barcelona, de um autor ainda não-nascido: Ciprestes de pedra, vergam-se/ "são as torres de Gaudi"/. A borboleta de pedra/ detalhe de ruína/ flutua// o poema sonha/ que é a borboleta/ barroca, moderna,/ da catedral de Gaudi". # O branco da paleta do jovem Picasso se desata: ondas. "Entre 63 e 65 o artista parece enlouquecer num desejo frenético de pintar - a ponto dele dizer que é a pintura é que faz dele o que ela quer". - O trem do pensamento é uma casa em movimento. Como seria um poema épico da percepção? A noção do poema como um hiperespaço, uma zona de turbulência invadida constantemente por vozes, modos de expressão, vocabulários, bombardeado por ""mensagens", mesmo imagens, seguido uma lógica de links, de zappings.
 
26 de fevereiro, sexta-feira
Haikai de Paris: beleza não é tudo disse um cego a um surdo.
No Louvre anoto informações sobre Thoth, o xamã de "Polivox": "inventor da escrita, patrono dos escribas, que aparece sob a forma de um babuíno ou Íbis".
 
28 de fevereiro, domingo
Charleville, cidade de Rimbaud. O velho moinho, à beira do Meuse, agora transformado em museu. A rua de onde ele fugia e voltava, metáfora do poema que viveu. Rimbaud é o inventor de uma poética do processo, fílmica, nomádica. Ele pôe em cheque a linguagem & a representação, muito tempo antes de nosso Cassino Global, de nossa Idade Mídia. A linguagem salta ao olhar e os olhos incorporam fala. # O madras etíope que ele usava no leito de morte.
5 de março, sexta-feira
Londres. Passeio onírico por lugares vividos em 1984, 24 horas sem dormir. Revisito lugares pessoas pubs esquinas sotaques cenas frases vozes quebradas parques flashes como partes de mim. A linguagem salta no olhar e olho passa a falar. # Um poema que incorporasse uma estrutura de sonho (não mera escrita automática). Onde seja mais difícil identificar um eu, sujeito, fixo. COMO SERIA POSSÍVEL HOJE UM ÉPICO DA PERCEPÇÃO? Princípio da incerteza: no ato de perceber, o que vê altera o que é visto (lê) (lido), e vice-versa. Nos aeroportos da mente, sempre é hora de partir. Ps. Processo, do latim processus = ir adiante, prosseguir. "Quanto está o dólar?" "Onde fica Kosovo?" Tzara: "A obra antiga me agrada pela sua novidade". Do mesmo modo, a obra nova é sempre ancestral. A guerra é antiga. Missão: a liga entre linguagem & visão, linguagem & realidade. "AS PALAVRAS SÃO MEUS OLHOS", sussurra Thoth.


Hebdomadário

A idade do tempo

José Silveira

Hoje faço anos. São tantos que perdi a conta. Digamos que sejam vinte. Vinte, não. Os leitores haveriam de desconfiar. É uma idade talhada aos arroubos, às mulheres, às fumaças voláteis da vida. Quem lê aos sábados estas melancolias e reflexões que sirvo na coluna sabe que estas idades têm fios brancos. Digamos, então, que sejam quarenta, idade provecta com a qual Nero pôs fogo em Roma, Brigitte Bardot começou a colecionar gatos, Fidel Castro empalmou Cuba.

Nossos aniversários eram alegres, ruidosos. Minha mãe punha o bolo no quintal, iluminava as árvores, ligava o gramofone que tocava um tango. Até hoje não sei por que um tango ao invés de um samba ou a "Marcha dos Marinheiros". Acho que era porque só tínhamos um disco. Assim, Carlos Gardel entrou em meus ouvidos antes de Noel Rosa e Carmem Miranda. A pouco e pouco o leitor vai intuindo e fazendo contas que o ajudem a apropriar-se de minha idade. Vou dar outra dica. Getúlio Vargas e o general Goes Monteiro entravam na história amarrando os cavalos da campanha, ao pé do obelisco, na praça Paris, no Rio de Janeiro. Meu tio Alfredo levou-me a ir ver a multidão que se movia, lenta e pesada, nas avenidas cintilando lenços vermelhos e fuzis.

Todos os anos, no dia 12 de junho, minha mãe me dava um pijama, obrigação noturna que me incomodava. Quando a luz de 25 velas se apagava, e ela se retirava do quarto, eu arrancava as duas peças coloridas e massacrantes, dormia em cuecas. No dia seguinte, apresentava-me à mesa do café, com o pijama passado, engomado, como saíra da fábrica. Dona Benedita, muito distraída, nunca deu pela fraude.

Vi o século nascer e o vejo agora morrer. A morte, essa leviana senhora, esqueceu-se de mim, e não vou enviar-lhe de mãos beijadas o meu CEP. Ela que se vire. Quando eu era jovem, a figura do velho arrebatava-me. Parecia ver em cada ancião o espectro de Maomé, em todo o esplendor de sua sabedoria e intrepidez. Eu me lembro de Juca Esteves, 100 anos sólidos, a touceira das barbas caídas sobre a sanfona que milongava amores proibidos. Juca morreu aos 110, e havia na sala sob os círios e a cera das velas mais mulheres que homens.

Hoje faço anos. São tantos que perdi a conta. Há dentro de mim um menino que não morreu, e é ele quem me empresta as pernas com as quais vim até aqui.

Manchetes AN

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Literatura


Um novo começo

Empresário catarinense lança livro que mapeia os relacionamentos e dá pistas de como encontrar a cara-metade

Cristiano Escobar Maia

Itajaí - Neste dia dos namorados ela ficou sozinha olhando a rua pela janela do apartamento. Chovia fino e a moça de cabelos curtos e ruivos não sabia o motivo de sua vida pessoal estar tão, digamos, tumultuada. Contou a um amigo por e-mail que o namorado a havia largado e agora queria voltar. Ela não sabia se o queria. Sempre achou que um companheiro ideal era aquele com quem você adora conversar. Assim, quando os dois ficarem velhinhos, teriam muitas coisas para falar.

A história tem uma ponta de verdade. A personagem existe. Mas o fato é que o sentimento da moça, de 22 anos, não é somente dela e muito menos exclusivo das mulheres. Por que não temos um companheiro ou companheira estável? No final das contas, a felicidade é o que todos buscam? Por que temos tanto medo do amor? E dos relacionamentos? Será que esse temor existe para todos? Essas perguntas encheram a mente de Geninho Goes, um executivo ligado ao mundo do turismo, mas que promove há alguns anos um encontro - o Singles, em Balneário Camboriú - somente para pessoas solteiras discutirem os motivos que as levaram a não quererem mais um relacionamento com outra pessoa. Desilusão? Não, é um pouco mais complexo que isso.

Para avaliar esse contexto, que segundo Goes é novo na história da humanidade, ele lançou, este mês, um livro sobre relacionamentos. Tem o sugestivo título (em letras garrafais vermelhas) "Encontrar Algúem". O subtítulo é generoso: "como vencer o grande desafio do terceiro milênio". Está nas livrarias e uma olhada honesta não tirará pedaço de ninguém. Além do que, o autor consegue reunir em algumas frases sentimentos comuns às pessoas sozinhas, por opção ou não.

O trabalho é dividido em 14 partes. Começa com uma análise correta sobre as mudanças nos relacionamentos neste final de século. Fala sobre o esfacelamento do núcleo familiar e a maior liberdade advinda com a instituição da separação como meio para o término de um relacionamento que não deu certo. Depois, com uma pitada de história, o autor demonstra, com um certo pessimismo, o ciclo inevitável das separações. "Não podemos ter medo de nos separarmos. Vivemos nos separando. A começar pelo nascimento, deixamos nossa mãe e um ambiente quente a aconchegante. As pessoas precisam se habituar a aceitar a separação, algo que sempre acontece em nossa vida", explica Goes. Depois, o autor dá alguns sugestões para evitar traumas nas separações.

No capítulo 6 Goes fala sobre "o macho do passado e o novo homem" e "a mulherzinha do passado e a nova mulher", tentando traçar um perfil sobre a evolução sentimental da humanidade com base nos solavancos causados desde a revolução industrial até a tecnológica. Segundo ele, as pessoas têm medo de se entregar umas as outras porque têm receio de sofrer. O autor fala isso de cadeira, pois tudo está solidamente baseada nas mais de 500 entrevistas que fez com pessoas que vivem sozinhas. Goes explica que mais de 70% delas estão sozinhas porque não encontraram o parceiro ideal. Até gostariam de ter um companheiro ou companheira, mas não conseguem encontrá-lo. Uma minoria, cerca 1/4 do total, está sozinha por opção.

Pobre coitado

O autor acredita que as pessoas precisam aprender a recomeçar. Ele sustenta, em seu livro, que é necessário esquecer as situações passadas e buscar um novo relacionamento. E, sobretudo, não se fazer de coitado. "Carregar o título de sofredor fará com que as pessoas te tratem como o próprio e aos poucos você será o sofrimento em pessoa. Não deixe que as coisas lhe abalem com tanta facilidade. Pense no imenso potencial que você tem para buscar a felicidade pessoal", diz o autor.

O interessante é que o autor não gosta nem de falar em "amor à primeira vista". Por quê? "Se você acredita em amor à primeira vista, lamento informar que será um pouco mais complicado encontrar alguém no novo milênio. Os últimos anos têm mostrado que a primeira atração entre as pessoas é física. Depois vem as afinidades culturais e intelectuais. Por último, as sexuais", comenta.

Neste ponto do livro o autor explica o abalo causado na cultura brasileira pelo "ficar" dos adolescentes. Com base em uma pesquisa feita nos encontros do Singles, ele demonstra que para um encontro ser sério é preciso em primeiro lugar a sinceridade (14,6%). Depois vem a honestidade (7,4%), cultura (5,8%), carinho (5,2%), companheirismo (5,2%), caráter (4,1%), inteligência (3,9%), boa aparência (3,6%), respeito mútuo (3,6%), fidelidade (3%), afinidade (2,7%), estabilidade financeira e emocional (2,7%) e, por fim, ser feliz (2,6%).

Goes analisa os resultados da pesquisa: "Em um encontro não é possível detectar a sinceridade e nem o companheirismo, mas de qualquer forma o encontro é o começo de tudo, porque você saiu do armário, se preparou para buscar e se livrou dos traumas da separação", comenta. O encontro é apenas o primeiro degrau da escada. Conhecer o outro e achá-lo sincero é o passo mais importante para ser feliz.

Ao contrário do que muito gente solteira pensa, a maioria dos relacionamentos, segundo Goes, terminam devido às pequenas coisas - traumas e situações constrangedoras que vão se acumulando dia após dia. É a toalha de mão fora do lugar, a roupa suja em cima da cadeira da sala, o controle da televisão perdido debaixo da cama, a pia do banheiro suja de pasta de dente. "Isso vai crescendo e crescendo e chega uma hora que não dá mais para agüentar. Ou a união acaba ou os dois viverão brigando e infelizes", sustenta,

A solução é simples, mas para os padrões dos relacionamentos entre mulheres e homens de hoje em dia, um pouco ousado: diálogo. Saber ouvir o outro e, sobretudo, aceitar o que ele diz e tentar mudar. "É preciso conversar, só assim um relacionamento não cai no marasmo. Se o casal não conversa, ficará em casa vendo televisão, serão estranhos dormindo debaixo do mesmo teto", finaliza. Mais informações sobre "Encontrar Alguém" pelo fone (047) 367-1119, ou pelo e-mail gwg@melim.com.br


Gugu Liberato
anuncia projetos

Apresentador se diz feliz no SBT, onde tem contrato até 2003, mas não esconde interesse em ter um canal próprio

Joana Rodrigues
Agência Estado

Com contrato com o SBT até o ano de 2003, Gugu Liberato confessa sua total satisfação com a emissora paulista e nega qualquer "assédio" da Rede Globo. No entanto, o apresentador confirma que tem alguns projetos em mente, como um novo programa para crianças. "Mas seria algo voltado para uma emissora educativa (tipo TV Cultura), sem nenhuma obrigação com a audiência, nada comercial", admite. Em entrevista, Gugu declara que a concorrência é uma vantagem para o telespectador: "É ele quem sai ganhando com informações cada vez mais precisas e reportagens cada vez mais bem elaboradas e editadas", salienta.

Entrevista
Gugu Liberato

O formato atual do "Domingo Legal" é o que lhe agrada?

Gugu Liberato - O formato atual me agrada, mas sou muito inquieto. Sempre estou criando coisas novas. Além disso, tenho alguns quadros (ou atrações) novos que pretendo colocar no ar com o tempo. Ainda neste primeiro semestre farei uma viagem para o exterior onde gravarei várias reportagens. Mas sempre prefiro manter um certo segredo sobre os locais e o assunto abordado. Como você pode notar, o programa de uma determinada semana nunca é igual ao da semana seguinte. Tudo depende dos acontecimentos da semana, pois sempre pauto a parte "quente" do programa na sexta-feira ou até no sábado.

Qual é o seu relacionamento profissional com Silvio Santos?

Gugu - Nós temos uma ótima relação. Nos falamos com regularidade, geralmente por telefone e outras vezes em reuniões periódicas. Silvio sempre analisa meus programas, faz comentários e qualquer mudança só ocorre em comum acordo entre nós dois. Meu compromisso com a audiência é de dar média de 15 pontos por domingo. Nunca fui cobrado pela emissora, ou pelo Silvio. Não tenho o compromisso de vencer todos os domingos.

Como você participa da produção do "Domingo Legal"?

Gugu - Minha função principal é a de apresentador. Mas pauto muitas matérias, pois leio muito, assisto aos noticiários, consulto temas pela Internet. Isso facilita muito, pois abre a cabeça da gente para novas idéias. Editar e produzir já não é comigo. Às vezes, altero alguns quadros complementando o tema, raramente cortando algo que já foi feito. Até porque minha equipe já está acostumada com meu estilo e acerta no ponto das matérias. Critérios para as mudanças têm a ver com os acontecimentos factuais.

O jornalismo está ganhando mais espaço no seu programa?

Gugu - Desde que passei a fazer o "Domingo Legal" ao vivo, adotei o jornalismo como prioridade máxima. A dosagem é feita de acordo com a quantidade de informações que conseguimos. Eu tenho certeza absoluta que assuntos "quentes" despertam a atenção do público. Aliás, é uma obrigação de qualquer comunicador trabalhar em função da informação.

Você continua achando que os telespectadores são carentes de notícias no domingo?

Gugu - Continuo. E por esse motivo continuo informando meu público. Acabou aquela coisa de que, no domingo, o telespectador era obrigado a esperar o "Fantástico" para saber das notícias. Hoje o jornalismo está presente não somente em meu programa, como também em jornalísticos de outras emissoras.

De que forma você acompanha o Ibope?

Gugu - Durante o programa sou informado sobre os resultados do "minuto a minuto".

Você confia na medição do Ibope?

Gugu - Acho ela confiável, porém, na minha opinião, deveria atingir um número maior de domicílios. Agora, como forma de amostragem, acho confiável sim.

A concorrência incomoda?

Gugu - A concorrência não incomoda. Ela motiva os profissionais e a emissora a investir mais em busca de bons resultados. Como conseqüência, vem a audiência e os bons resultados financeiros. Toda essa "briga" noticiada na imprensa, na verdade não acontece da maneira como é abordada. É claro que existe a batalha pelo furo, pelas atrações exclusivas. Caso contrário, teríamos programas "mornos", sem graça.

Até onde vai o folclore e a verdade sobre seus convites para ir para a Globo?

Gugu - Mais folclore do que verdade. Depois daquele episódio em 1991, quando assinei com a Globo, cheguei a marcar data para estréia e depois, por conta de um pedido do Silvio Santos, consegui retornar, nunca mais aconteceu nada de real. Aliás, pouca gente sabe mas, recentemente o Boni declarou para a revista "República" que, naquela ocasião Silvio Santos e o Roberto Marinho fizeram um acordo de cavalheiros para que um não tirasse profissionais do outro. Prova disso é que a Marluce ligou para o Silvio Santos antes de contratar a Fernanda Souza para a Globo. Todo o resto é folclore.

Em sua opinião, o que está faltando na tevê brasileira? E o que está sobrando?

Gugu - Falta um bom canal de notícias, empenhado em informar 24 horas por dia. Aliás, meu projeto caso venha a conseguir - um dia, talvez - é ter um canal próprio, e criar condições para um trabalho deste porte. Atualmente estou concorrendo a um canal em VHS em Curitiba. Mas não tenho previsão de quando isso estará definido.

Quais são seus planos para este ano?

Gugu - Sonho em criar novos projetos para TV (em termos de produção), sempre que possível em parceria com Silvio Santos. Quero ampliar a rede de Lojas do Gugu (atualmente com 13 filiais e quero chegar a 17 ou 20 até o final do ano). Estamos terminando de construir o Posto do Gugu (localizado na rodovia Castelo Branco), finalizar o projeto Fantasy Acqua Club e, principalmente, continuar me empenhando cada vez mais no programa. Se sobrar tempo - e eu espero que sobre - viajar um pouco.


Crônica

SOS Alcatrão

Hermes Pinto

Já que tem ONG para tudo quanto é coisa, até para defender palmito, eu e um amigo estamos fundando uma em defesa dos fumantes. A frase de Mário Quintana, "Quem não fuma não tem vida interna", será o nosso lema. Já nos correram do local de trabalho, dos ônibus, aviões, restaurantes, bancos, enfim, nos tornamos uns párias. Tá na hora da reação.

Em primeiro lugar, que se saiba, nenhum fumante anda pelas ruas reclamando da emissão de gases dos veículos. Dia desses, vi um ônibus que despejou mais fuligem em uma só arrancada do que eu e meu Marlboro iremos emitir até o final da minha vida. Depois que erradicarem os fumantes, vão acabar com os carros e ônibus também?

Como podem nos ameaçar todos os dias com aquelas sentenças "O Ministério da Saúde adverte: fumar causa câncer, gripe, dor-de-cabeça, tuberculose, mal de Chagas, dengue, daltonismo, etc."? Nos deixem em paz. De que vale um cafezinho ou uma cervejinha sem o cigarrinho?

Outra coisa. O que será da medicina se acabarem com o cigarro? Vão culpar o quê pelas nossas mazelas? Tudo é culpa da nicotina. Desde o câncer no pulmão à unha encravada, passando pela coriza e cólicas de segunda-feira. Vão viver de que os médicos? Para quem não sabe, tudo que é bom tem seu preço. Você viajaria tranqüilo para o exterior se sua mulher fosse a Luana Piovani? Já pensou quanto não é o IPVA da Ferrari do Ronaldinho? Você lembra como acorda depois de uma feijoada com picanha ao óleo e caipirinha?

Nossa ONG não quer aumentar o número de fumantes, nem defende subvenções sociais, como a inclusão do Derby na cesta básica; somos apenas a favor do fim da encheção de saco. Querem transformar esse mundo no quê? Não se pode mais espancar os filhos quando eles destroem nossa coleção de latinhas de cerveja; já inventaram o pedágio e o estacionamento rotativo; o IPTU está ficando mais caro que o Imposto de Renda; enfim, é extorsão por tudo quanto é lado e agora mais essa.

Nós fumantes, temos de ter complexo de culpa por acendermos um mísero cigarrinho? Por que? Não se pode abrir uma revista que lá vêm as bobagens: cada cigarro fumado é menos cinco minutos de vida; pesquisadores ingleses descobriram que cigarros de filtros amarelos são causa da impotência entre os 47 e 53 anos de idade; o alcatrão faz cair cabelo e traz rugas para a testa, etc. Bando de retardados!

Vamos começar nossa contra-revolução invadindo cinemas. Depois será a vez dos aviões. Em poucas semanas vamos tomar os ônibus intermunicipais e não demoraremos muito para chegar até os hospitais. Resgataremos nossos mártires e lhes devolveremos a vida interna. Não se metam com a gente!


Carlitos digital

Obra do genial Charles Chaplin é resgatada pela Continental em DVD

Luiz Carlos Merten
Agência

São Paulo - Quando Charles Chaplin morreu, no Natal de 1977, Gláuber Rocha estava em Salvador, preparando "A Idade da Terra". Por seu temperamento revolucionário, Gláuber não era muito de cultivar a tradição, mas fez uma exceção para o criador de Carlitos. Viu no fato um desafio simbólico para a civilização contemporânea. "Sua morte corresponde à morte do humanismo no século 20", escreveu. Talvez tenha sido um exagero, mas Chaplin foi mesmo grande, pela universalidade e humanismo de sua obra. Carlitos integra o patrimônio da humanidade. Parte de sua obra está sendo resgatada pela Continental em seu primeiro pacote em DVD.

Única distribuidora especializada em lançar clássicos de cinema em home vídeo no País, a Continental entra para o circuito do vídeo digital inovando. Além de recheados com biografias, filmografias, textos sobre os bastidores da época e opções de legendas, os lançamentos são abertos para o mundo todo

podendo ser vistos em qualquer DVD player. Evita-se, assim, que aquelas pessoas que compraram seus aparelhos na Europa, no Japão ou nos Estados Unidos tenham de fazer a decodificação dos mesmos. O pacote traz "Cidadão Kane", de Orson Welles, "A Dama Oculta", de Alfred Hitchcock, "O Picolino", de Mark Sandrich, com a dupla clássica Fred Astaire/Ginger Rogers, "Anjos de Cara Suja", de Michael Curtiz, e "Tempos Modernos", de Chaplin, mas o filé é mesmo o "Festival Mutual", volumes 1, 2 e 3, com os curtas do terceiro período da carreira de Chaplin.

Decorridos 22 anos de sua morte, Chaplin já foi suficientemente desmistificado sem perder a aura de gênio do cinema. Um livro, em especial - "Chaplin: Contraditório Vagabundo", de Joyce Milton, lançado no Brasil pela Ática -, mostra que, na realidade, ele estava mais para grande ditador do que para adorável vagabundo. Das mais de 500 páginas do livro sai o retrato implacável de um maníaco-depressivo que desprezava os amigos e colaboradores e destratava as mulheres. Joyce reuniu documentos para provar que tudo o que se dizia de mal de Chaplin era verdadeiro. Foi além, mostrando como ele foi manipulado pelos comunistas como um símbolo.

Bufão

Chaplin nasceu em Londres, em 1889. Pertencia a uma humilde família de atores de variedades. Ainda garoto, conheceu o inferno depois que o pai morreu e a mãe ficou louca. Mas nunca perdeu o gosto pelo humor, adquirindo certo renome numa trupe de pantominas. Em 1910 viajou para os Estados Unidos, onde se estabeleceu, dois anos mais tarde. Em 1913, foi contratado por Mack Sennett para os seus filmes cômicos (e curtos).

Entre 1914 e 1915, Chaplin fez dezenas de curtas para a empresa Keystone, quando foi descobrindo e lapidando as características de Carlitos, que ainda não aparece no formato como ficou conhecido mais tarde. Na evolução de sua carreira, parte do estilo bufão e um tanto disparatado da fase Keystone para o humanismo da fase Essanay, ainda em 1915, e o sentimentalismo que marcou sua produção na Mutual, em 1916. É essa fase que os DVDs da Continental recuperam. Foi a época da consolidação da popularidade de Chaplin, seguindo-se a fase da First National (1918-1922), em que o dramático e o patético se apóiam num sistema cômico tão perfeito quanto inesgotável - é a fase definitiva da consagração do gênio, que teve novos desdobramentos. Em 1919, formou, com outros três grandes de Hollywood - Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D.W. Griffith -, a United Artists, na qual produziu sua grande trilogia de tragédias cômicas ("Em Busca do Ouro", "O Circo" e "Luzes da Cidade"), prosseguindo na empresa até encerrar sua carreira com "A Condessa de Hong Kong" na Universal, nos anos 60.

Nada mais divertido do que assistir aos curtas da Mutual: "O Imigrante", "O Aventureiro", "O Balneário", "Rua da Paz", "O Conde", "O Vagabundo", "Carlitos Bombeiro", "Carlitos no Estúdio", "À Uma da Madrugada", "Casa de Penhores", "Carlitos no Armazém" e "Carlitos, o Patinador". Formam um belo programa que fica ainda melhor se o espectador também puder ver, em DVD, o sublime "Tempos Modernos", em que Carlitos é operário de uma fábrica, o que permite ao ator e diretor investir contra a mecanização e a desumanização da era industrial. Por suas posições consideradas de "esquerda", Chaplin esteve na mira dos macarthistas. Mas foram as paixões proibidas, e não a política, que o levaram para os relatórios do FBI. Neles, ele surge, na melhor das hipóteses, como um subversivo e, na pior, como um pedófilo que só se interessava por garotinhas com medo de que as mulheres maduras criticassem seu desempenho sexual.

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