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ANotícia
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Ofício das trevas

Mostra "Encefalogramas", que encerra hoje no Museu
de Arte de Joinville, propõe um mergulho profundo na mente
Fotos: Pena Filho |
Kolbtraça o
rito das trevas
Exposição
"Encefalogramas" revela o vigor da contemporaneidade
catarinense
Walter de Queiroz Guerreiro
Especial para Anexo
No
início eram as trevas. Na primeira grande sala os painéis
de Ricardo Kolb, fantasmagóricos, flutuam na escuridão.
Pequenas luzes permitem entrever as pinturas brancas, as figuras
acinzentadas, os resíduos enferrujados de metal, os fios
retorcidos, a sensação pesada que aflora aos sentidos.
Não existe seqüência de leitura, as associações
são livres, percorro-as buscando um elo, idas e vindas,
e a força da escuridão aliada à pintura
faz brotar os registros. Nada é definido, existe apenas
uma angústia crescente, do branco começam a crescer
formas indissolúveis ligadas à mente humana.
"Encefalogramas", proposta da exposição
é bem isso, um mergulho profundo na mente, do mal intrínseco
ligado à consciência na projeção de
fantasias do superego, do mundo interior do homem falando consigo
mesmo. É a perpétua comunicação de
uma célula, de um neurônio falando com outro, da
consciência como percepção subjetiva de milhões
e bilhões de células armazenando informações,
comunicando-se entre si, gerando aquilo que denominamos consciência.
É o portal de passagem dos mundos exterior e interior,
do mundo mental criado por nós e da realidade física
externa, do privado e do público. Por isso a proposição
será sempre um vislumbre, uma recriação
que nossa mente irá projetar, uma tese e um problema conceitual,
uma vez que a privacidade da mente é uma questão
epistemológica da qual jamais poderemos saber, apenas
intuir.
Existem as sensações de prazer e de dor, porém
a percepção é uma soma subjetiva de experiências,
sentimentos e sensações que os neurofisiologistas
designam como Qualia. O mundo externo parece algo para nós,
temos sensações, mas a experiência pessoal
é individual, imprecisa, relativa, ligada àqueles
bilhões de neurônios que compartilham nossa vivencia
de mundo.
O cérebro se comunica consigo mesmo, envia mensagens para
todo o corpo, resgata impressões da memória e do
mundo exterior, introjecta o irracional do dia-a-dia, reprocessa
as sensações e os desejos. Talvez um destes painéis
seja a metáfora disso mesmo, das barras de prisão
do corpo encarcerando a mente, de um mundo interior com o qual
nos comunicamos através de grades.
Os dois grandes painéis remetem aos hemisférios
cerebrais, as pontas soltas dos arames às sinapses, às
possibilidades imensas de recepção, quais antenas
sondando o lado daqui, um arquivo aberto pronto a receber mais
e mais dados, tentando processar e compreender o sentido da vida.
São neurônios, sinapses, fissuras, medula espinhal,
quiasmas, interligados, expostos, o hardware da máquina,
aqui e ali um vestígio do ser complexo, o contorno humano.
Máquina pensante
As emoções conflitantes conduzem à segunda
sala, concebida como seqüência de caixas-objeto, instalação
em que cada elemento é um instante de registro dessa máquina
pensante. A proposta de início remete à teoria
funcionalista da "caixa-preta", tratando a mente como
um sistema fechado em que não existiriam os Qualia, aquela
soma de impressões e reprocessamentos das imagens formadas,
em que os estados mentais teriam relações causais
diretas, entradas no sistema de um lado, saída do outro.
Entretanto, a primeira caixa-preta revela bem outra coisa: um
feixe de fios metálicos envolve um cristal de rocha, um
fio único destaca-se envolvendo um novelo emaranhado de
outros fios, abaixo um grosso fio elétrico já queimado
pelo tempo. O cristal está ali, exatamente nos lembrando
ser ele o estado intermediário entre o visível
e o invisível, nossa capacidade de clarividência,
cristal como símbolo da intuição, do conhecimento,
da consciência.
As caixas-preta interligadas contam fragmentos de uma história,
sem seqüência, como as mensagens de um sonho. Ficaram
ali os resíduos do dia, os anseios e frustrações,
as associações e fantasias recorrentes, a soma
das caixas interligadas gerando um sistema não-linear,
em que as partes produzem uma linguagem, uma mensagem. Há
imagens que se repetem, os pequenos feixes amarrados presentes
em toda a exposição, feixes de nervos e também
alusivos a um estar ligado, positivo como integração,
negativo como maldição de apresamento.
O feixe de gravetos queimados vai mais além, símbolo
da transitoriedade, da sucessão de vida e morte, do que
a mente significa para o corpo. Os fios paralelos que atravessam
várias caixas seriam os cordões neurais, ou as
linhas retas de um encefalograma inexitente, quando todos os
sinais vitais se extinguiram?
Um alienado
Numa caixa, de um lado uma página manuscrita, do outro
a fotografia de um alienado. Escrita, manifestação
visível do Verbo, palavras como força atuante,
a materialização da revelação, o
universo dos signos como manifestação material
da mente. Na outra extremidade, espremido no canto, a foto do
alienado, figura inquietante, o limite da palavra, o vazio existencial,
a ausência do saber e da cultura. Ele é o vácuo,
mas o vácuo necessário, pois se desligou da totalidade
humana e da vida material, vivendo no seu mundo interior, fora
de todas as normas da sociedade, atingindo a transcendência.
Aqui e ali crânios, sede do pensamento e representação
macrocósmica do homem, símbolo da morte física
e do renascimento espiritual, da mesma maneira que as vértebras,
transmutadas metaforicamente em latas enferrujadas, são
suportes da verticalidade da afirmação do self,
como totalidade da psique humana. O centro da instalação,
com seu amontoado de latas remete à essa vivissecção,
ao desmantelamento da psique, ao encefalograma como instrumento
de sondagem do mistério maior.
Kolb propõe assim uma percepção do irracional,
dos recônditos da mente armazenados no comportamento diário.
O transbordamento dessa caixa-preta é interminável,
porque uma associação leva a outra, uma imagem
a outra, como objetos resgatados do porão escuro da mente.
No ofício das trevas alguns devem velar, e da vigília
de Kolb sobrevivem os sonhos do lado escuro da existência.
- Walter de Queiroz Guerreiro, crítico de arte
O Quê: Exposição
do artista Ricardo Kolb Filho. QUANDO: Último dia.
ONDE: Museu de Arte de Joinville, rua 15 de Novembro,
1.400, Joinville, tel.: (0xx47). VISITAÇÃO:
Das 11 às 17h.
O túmulo mutilado de Oscar
Wilde
Vandalismo no corpo
de um anjo nu instalado na sepultura do escritor estimula reflexões
Luiz Mott
Especial para o Anexo
Um dos cartões turísticos de Paris é
nada menos que um cemitério - o célebre Père
Lachaise - onde estão os túmulos de grandes personalidades
da França e alguns estrangeiros - entre os mortos mais
famosos, Balzac, Bizet, Maria Callas, Chopin, Comte, Alphonse
Daudet, Delacroix, Heloísa e Abelardo, Alan Kardec, La
Fontaine, Molière, Yves Montand, Edith Piaf, Simone Signoret
e muitos outros.
No folheto distribuído aos visitantes, estão indicados
105 túmulos de gente famosa - cada túmulo mais
suntuoso que o outro, com esculturas dignas de qualquer museu,
mármores raros, capelinhas e capelonas com vitrais maravilhosos.
Muitos com corbeilles de flores ainda frescas oferecidas por
familiares ou admiradores. Quando visitei este que talvez seja
um dos cemitérios mais famosos do mundo, era outubro de
1998, começo do outono europeu, e as folhas amarelas e
avermelhadas das majestosas castanheiras formavam lindo tapete
por sobre o lajeado das intermináveis ruas e escadarias
do Père Lachaise. Fui ao cemitério com um destino
certo: visitar o túmulo de Oscar Wilde. Lá chegando,
fui direto à tumba 83, na avenue Carette, entre a Transversal
3 e a avenue Circulaire.
O túmulo é discreto, estilo moderno, comovente.
Um bloco enorme de pedra cinza, com um anjo nu, estilizado, esculpido
na parte superior, em posição horizontal, como
se estivesse voando. Este belo homem alado tem traços
que lembram uma escultura asteca, com uma discreta tiara na cabeça
composta com algumas figuras humanas. Tem o olhar sereno, direcionado
para o infinito.
No pé do túmulo, a simples inscrição:
Oscar Wilde. Alguns botões de rosa vermelha e um belo
ramo de lírios brancos eram a prova que o maior poeta
homossexual do fin-de-siècle continuava a ter fãs.
Na parte baixa do mausoléu, uma plaqueta adverte: "Não
desfigure o túmulo, protegido como monumento histórico,
restaurado em 1992". Apesar da advertência, fiquei
chocado com um abominável ato de vandalismo: o órgão
sexual do anjo estava mutilado, faltando-lhe parte do pênis
e o saco escrotal. Fiquei triste e indignado com tal violência.
E pus-me a refletir: o que teria levado alguém a decepar
o órgão sexual do anjo de Oscar Wilde? Teria sido
apenas um homófobo mais violento ou vários os mutiladores?
Pela gravidade dos danos, sou do parecer que foram muitos os
golpes e repetidos os golpeadores. Qual a razão desta
castração se outros anjos e anjinhos de túmulos
próximos, também nus, conservam sua genitália
intacta?!
Raiva
Seria por tratar-se do túmulo do mais famoso homossexual
da época vitoriana, e como tal, indigno de repousar em
paz lado a lado dos outros mortais? Mutilaram o sexo do anjo
por considerarem ofensivo estar esculpido de forma tão
realista um órgão, que no imaginário popular
representa a própria traição vivenciada
pelos homossexuais, pois em vez de usá-lo como "manda
a natureza" - comendo vaginas e reproduzindo novos seres
humanos - os "sodomitas" usam o ânus como local
de prazer e quando muito, ao fazerem uso do membro viril, metem
seus pervertidos falos nas bocas e canais retais uns dos outros?!
Destruíram a genitália do anjo-homem de Oscar Wilde
a golpes de pedra ou com alguma barra de ferro, imbuídos
da mesma raiva e com o mesmo sentido daqueles carrascos que,
quando matam um gay, decepam-lhe o pênis, metendo-o logo
em seguida dentro da própria boca do infeliz, como se
quisessem dizer: "Você que foi um falso ao corpo,
que traiu o sexo forte, preferindo dar as costas a outros machos,
fazer-se fêmea, terceiro sexo, efeminado, que tenha como
castigo ser castrado e a condenação de engolir
o membro que não soube respeitar!"
Emoção
Não sei se a plaqueta advertindo contra eventuais "desfigurações"
do túmulo foi colocada antes ou depois do vandalismo.
Suponho que tenha sido posterior, para evitar novas destruições.
Emocionado por estar diante dos restos mortais de uma das maiores
estrelas do panteão dos praticantes do "amor cujo
nome não ousavam mencionar" - expressão cunhada
por Lorde Douglas, o esbelto e ingrato amante deste poeta irlandês
- emocionado e ao mesmo tempo injuriado pela intolerância
homofóbica que persegue este autor maldito mesmo após
sua morte - tive ali mesmo uma inspiração que pretendo
tornar realidade: começar uma campanha internacional,
liderada pelo Grupo Gay da Bahia, com vistas à restauração
urgente do pênis do anjo de Oscar Wilde.
Ao rever os ensaios, no centenário da morte do poeta (3/11/2000),
creio que foi o próprio Wilde quem me psicografou esta
mensagem - aliás, bem no estilo de seu vizinho de cemitério
Alan Kardec...
Já que inegavelmente esta mutilação tem
um significado simbólico, prova do quanto a homofobia
é violenta, burra e verdadeiro atentado contra a humanidade
e a civilização, por outro lado, antevendo os ganhos
políticos para nossa causa, graças a uma campanha
internacional visando a cirurgia restauradora do sexo do anjo
de Wilde - e não venham me dizer que anjo não tem
sexo! - além de restaurar uma significativa obra de arte,
tal movimento haveria de chamar a atenção da sociedade
em geral para o ridículo de quantos ainda vêem o
sexo explícito como um atentado à moral e aos bons
costumes e ainda consideram o homossexual como um homem-castrado
ou a ser castrado, e indigna sua orientação sexual.
Se fosse a estrela de Davi de um túmulo de um herói
judeu que tivesse sido destruída, certamente sua restauração
seria vista como resgate dos direitos humanos e cidadania desta
minoria que tanto quanto os homossexuais, tem sido os bodes expiatório
dos totalitarismo fundamentalistas nestes dois mil anos de intolerância
judaico-cristã.
Restauração
Certamente não faltarão competentes restauradores
gays ou simpatizantes que se disporão graciosamente a
executar a importante cirurgia reparadora da genitália
do anjo de Oscar Wilde. Seria questão de consultar primeiro
a família ou descendentes de Jacob Epstein, o escultor
do mausoléu, para saber se teriam sugestão de nome
de algum expert, ou como se deveria melhor proceder nesta restauração.
Feita a consulta, que os escultores candidatos à execução
da operação regeneradora apresentassem in loco,
em gesso, o modelo de sua restauração, e um júri
nomeado pela Academie de Beaux Arts de Paris e conservadores
do Cemitério Père Lachaise julgariam o pênis
mais adequado, encarregando-se o vencedor de sua pronta execução.
O custo deste implante certamente será mínimo -
infinitamente menor do que o valor de uma verdadeira operação
transexual! - e o significado social e publicitário da
causa gay, haverá de ganhar excelente espaço e
simpatia na mídia mundial. Sem falar que o próprio
anjo e o principal interessado na história, Oscar Wilde,
hão de ficar mais do que agradecidos.
- Luiz Mott, professor titular do Departamento de Antropologia
da Universidade Federal da Bahia (UFBa) e presidente do Grupo
Gay da Bahia/ luizmott@ufba.br
Frases
O escritor Oscar Wilde (1854-1900) é tão conhecido
por suas frases engenhosas, citadas em todos os idiomas, e por
todos os motivos, como por sua obra.
Eis algumas delas:
Amar a si mesmo é
o começo de uma longa história de amor.
... ... ...
A única coisa
que nos permite viver é o sentimento da imensa inferioridade
dos outros, um sentimento que eu sempre cultivei.
... ... ...
Uma verdade deixa de
ser verdade quando ninguém acredita nela.
... ... ...
A arte má é
muito pior do que a ausência de arte.
... ... ...
A vida imita a arte
muito mais do que a arte imita a vida.
... ... ...
Os americanos se casam
cedo, as americanas se casam freqüentemente e se dão
sumamente bem.
... ... ...
Todos podem ter senso
comum, desde que não tenham imaginação.
... ... ...
Dar um conselho é
sempre uma besteira, mas dar um bom conselho é absolutamente
fatal.
... ... ...
O público é
muito tolerante, perdoa tudo, com exceção do gênio.
... ... ...
O jornalismo é
ilegível e a literatura não é lida.
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| Manchetes AN |
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| Leia também |
Salomão dissonante
no coro dos contentes
Poeta que visitou
Joinville não hesita em definir-se como um "outro,
estranho"
Dennis Radünz
Especial para Anexo
A lábia intempestiva do poeta Waly Salomão não
tem nenhum pudor de revirar, no túmulo, os mortos; mortos
que são os conceitos gastos, os localismos, esperanças
e medos vãos. Esse o impacto de sua fala no 5º Encontro
Catarinense de Escritores, em Joinville, no dia 24, com toda
a irreverência de um brasileiro de "sangue sujo",
baiano de ascendência síria que não hesita
em definir-se um "outro", estranho, diferente, e, em
conseqüência, dissonante no coro dos contentes.
Bacharel em direito, comparsa do poeta Torquato Neto na revista
"Navilouca" e autor de livros de poemas e letras de
canções (como "Vapor Barato", com Jards
Macalé, nas vozes de Gal, Zeca Baleiro, O Rappa), Waly
é um notório polemista na cultura brasileira, sempre
atento ao novo, sabiamente cáustico na sua escrita. "Poeta
mente demais", diz Salomão, citando Homero. "O
poeta não fala o que se chama verazmente verdade; o poeta
fala o que transcende o território chão, plano,
da prosa do mundo. O poeta fala o que se transforma, o que não
é fato, o que beira à fábula", diz
o autor de "Algaravias: Câmara de Ecos" (Ed.34),
livro de poemas detentor do prêmio Jabuti/1996.
Para o auto-intitulado "mascate de inutensílios"
é "um insulto considerar os poetas facilmente digeríveis,
ou facilmente integráveis, porque a verdade da qual é
constituída a fala deles é um território
de areia movediça".
Desconcertante? Exceto para quem tem ausente os versos de Pessoa
"o poeta é um fingidor,/finge tão completamente,/que
chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente"
ou para quem, alienado, mantém fechadas as portas da percepção.
Linguagem
Afinal, a linguagem, para Salomão, não é
o avesso da verdade que a sociedade falseia, antes "é
igual às malas de contrabandistas, que têm esconderijos,
ou similar às caixas chinesas, com uma caixa dentro de
outra que está dentro de outra... São muitos níveis,
afinal poesia não é assim interpretável
de uma só vez. "O discurso indefinível da
poesia faz com que, aos olhos dos poderes, o poeta viva sob suspeição.
Waly evoca o pensador existencialista Merleau-Ponty: "O
intelectual, mesmo não sendo traído ou não
dando nenhum sinal prévio de traição (a
não ser os capachos, claro, mas aí já é
outra situação) é sempre visto com desconfiança
pelo poder. Ele é aquele que não pode saber das
mumunhas, das tramóias". E mesmo Luiz Vaz de Camões,
"salvando a nado 'Os Lusíadas' era quase um nada
para o poder de Portugal'", exemplifica.
Assim, o poeta é o suspeito que suspeita: duvida do progresso,
por exemplo. Na visão de Baudelaire, o progresso está
no apagamento dos traços do pecado original, e "não
na luz elétrica, na escada rolante, no celular, no gravador,
em nada disso está o sinal do progresso", como explica
Waly, discutindo os mitos. "A poesia não tem lugar
asséptico para ser gerada. A poesia não gosta do
cheiro do éter, do cheiro dos lugares hospitalares, limpíssimos.
Ela gosta, como a linguagem gosta, dos lugares cheios de bacilos,
de vírus, de bactérias", define ele, entre
risos e o sotaque baiano de interiores áridos de Jequié.
"A linguagem poética gosta da perdição.
Todos os grandes poetas falam isso", enfatiza.
Sem medo, nem esperança, como diz, Waly Salomão
foi-se inventando na vida. Diz-se amante da incoerência
e prefere a pergunta às respostas: o poeta é o
senhor da linguagem ou a poesia é uma senhora que se apossa
do poeta? Quem há de definí-lo? Sábio, Salomão
vive imune a adjetivos. Seu verbo é vento, chuva, meteoritos.
O ronronar dos dólares
"As Panteras"
se vale de todos os meios possíveis para tornar a adaptação
do seriado de TV um megassucesso de bilheteria
Lola Aronovich
Especial para o Anexo
Eu me lembro pouco da série de TV dos anos 70 "As
Panteras". Lembro do ícone Farrah Fawcett e de seu
pôster, do logotipo do programa e de como, em todo episódio,
as destemidas detetives tiravam um capacete, um chapéu,
uma máscara, qualquer coisa que cobrisse aqueles frágeis
neurônios, e jogavam os cabelos de um lado pro outro, em
câmera lenta. Talvez eu tenha mudado, ficado menos ingênua,
ou talvez os tempos tenham se tornado mais cínicos. A
verdade é que, na época, a história de um
milionário que convoca três moças para defendê-lo
à distância não me causou o mal-estar do
filme recém-lançado.
"As Panteras" é uma bomba de efeito retardado.
Por baixo do barulho do ronronar dos dólares, vamos analisar
os aspectos mercadológicos. Uma produção
lucrativa atualmente tem de atrair, antes de tudo, meninos cuja
média de idade é nove anos. Então deve haver
muita ação, explosões, rachas, luta livre,
pancada, mais porrada, e diálogos que não disturbem
o transe. Mas é bom se o filme convoca também as
garotas. "As Panteras" coloca nas telas as moças
que aparecem em toda santa capa de revista que elas compram.
É um chamariz. As meninas sentem-se obrigadas a ir pra
aprender o que elas têm de ser quando crescer: no mínimo
20 quilos abaixo do peso normal, altas, bronzeadas, vaidosas,
maquiadas, arrumadas e sempre prontas pros seus homens. Os produtores
não são tolos, e pra abreviar a identificação,
unem corpo de mulher a comportamento de criança. As panteras
dão risadinhas sem motivo, são saltitantes como
pré-adolescentes. Umas gracinhas.
Dizem ser necessário usar mais músculos faciais
pra fazer uma careta do que pra abrir um sorriso. Neste sentido,
pude notar que a interpretação da Drew Barrymore
exigiu mais do que a da Cameron Diaz. Mas, nos releases, a gente
tem que ler as heroínas falando que sofreram para aprender
os truques de caratê, que foram cinco meses de treinamento
militar. Ó vida dura! Fiquei comovida. Quero sugerir aqui
o início da campanha "Adote uma Estrela Estressada".
Nas entrevistas à imprensa (que não sei se são
mais detestáveis que o filme - a competição
é árdua), o diretor-sigla McG diz que considerou
inúmeras atrizes pros papéis. Entre elas, a Gisele
Bündchen. Aí eu pensei: ué, a Gisele é
atriz? Bastou ver o filme para que minhas dúvidas se dissipassem.
Não saber atuar não é empecilho. Interpretar
pra quê, se a edição é tão
picotada que o rosto das moças mal aparece? Só
de vez em quando surge um close de milésimos de segundo.
O resto é dublê.
Critérios
Para que as panteras finjam ser inteligentes, critérios
comparativos são utilizados. Todos os homens do filme
possuem QI negativo de ostra, sem querer ofender as ostras. Outro
ponto mastigado nas declarações é que as
estrelas juntaram-se ao projeto por seu caráter feminista
(?). E que elas fincaram o pé para não usarem armas.
Claro, como a gente sabe, sem metralhadora não há
violência, imagina. Sem falar na violência hollywoodiana
típica: vê-se um belo castelo no alto da praia.
Neste exato momento, sabemos que é só uma questão
de tempo pra tudo voar pelos ares. São os americanos e
seu desejo de conhecer novas culturas - e destruí-las.
O treinador das lutas marciais é o mesmo mestre fu-manchu
de "Matrix". Logo, minha sugestão é:
reveja "Matrix", que ao menos continha uma convicção
subversiva de que tudo isso (incluindo esses filminhos acéfalos)
é uma fantasia que nos impede de ver a realidade. E a
realidade é que somos escravos de um sistema. Não
sou eu que estou falando, é "Matrix".
Porém, "As Panteras" também tem uma mensagem
pra passar, e não é só aquela de cunho machista.
Há o código capachista. As heroínas sonham
em olhar pro patrão. Elas se matam de trabalhar, não
têm vida pessoal, nunca recebem salário, jamais
reclamam, greve nem pensar, e amam um chefe que não mexe
uma palha por elas e que nem pra lhes dar ordens se dispõe
a encará-las. Entendo que o lema "labutar pra enriqiecer
o patrão" seja a tônica do capitalismo, mas
acho que podiam trocar o título do filme para "As
Pamonhas", sem detrimento do conteúdo.
Lola Aronovich é professora de inglês
e cinéfila (lola@netkey.com.br)
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