Joinville         -          Domingo, 3 de Dezembro de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  

















Ofício das trevas

Mostra "Encefalogramas", que encerra hoje no Museu de Arte de Joinville, propõe um mergulho profundo na mente
Fotos: Pena Filho

Kolbtraça o
rito das trevas

Exposição "Encefalogramas" revela o vigor da contemporaneidade catarinense

Walter de Queiroz Guerreiro
Especial para Anexo

No início eram as trevas. Na primeira grande sala os painéis de Ricardo Kolb, fantasmagóricos, flutuam na escuridão. Pequenas luzes permitem entrever as pinturas brancas, as figuras acinzentadas, os resíduos enferrujados de metal, os fios retorcidos, a sensação pesada que aflora aos sentidos. Não existe seqüência de leitura, as associações são livres, percorro-as buscando um elo, idas e vindas, e a força da escuridão aliada à pintura faz brotar os registros. Nada é definido, existe apenas uma angústia crescente, do branco começam a crescer formas indissolúveis ligadas à mente humana.
"Encefalogramas", proposta da exposição é bem isso, um mergulho profundo na mente, do mal intrínseco ligado à consciência na projeção de fantasias do superego, do mundo interior do homem falando consigo mesmo. É a perpétua comunicação de uma célula, de um neurônio falando com outro, da consciência como percepção subjetiva de milhões e bilhões de células armazenando informações, comunicando-se entre si, gerando aquilo que denominamos consciência. É o portal de passagem dos mundos exterior e interior, do mundo mental criado por nós e da realidade física externa, do privado e do público. Por isso a proposição será sempre um vislumbre, uma recriação que nossa mente irá projetar, uma tese e um problema conceitual, uma vez que a privacidade da mente é uma questão epistemológica da qual jamais poderemos saber, apenas intuir.
Existem as sensações de prazer e de dor, porém a percepção é uma soma subjetiva de experiências, sentimentos e sensações que os neurofisiologistas designam como Qualia. O mundo externo parece algo para nós, temos sensações, mas a experiência pessoal é individual, imprecisa, relativa, ligada àqueles bilhões de neurônios que compartilham nossa vivencia de mundo.
O cérebro se comunica consigo mesmo, envia mensagens para todo o corpo, resgata impressões da memória e do mundo exterior, introjecta o irracional do dia-a-dia, reprocessa as sensações e os desejos. Talvez um destes painéis seja a metáfora disso mesmo, das barras de prisão do corpo encarcerando a mente, de um mundo interior com o qual nos comunicamos através de grades.
Os dois grandes painéis remetem aos hemisférios cerebrais, as pontas soltas dos arames às sinapses, às possibilidades imensas de recepção, quais antenas sondando o lado daqui, um arquivo aberto pronto a receber mais e mais dados, tentando processar e compreender o sentido da vida. São neurônios, sinapses, fissuras, medula espinhal, quiasmas, interligados, expostos, o hardware da máquina, aqui e ali um vestígio do ser complexo, o contorno humano.

Máquina pensante

As emoções conflitantes conduzem à segunda sala, concebida como seqüência de caixas-objeto, instalação em que cada elemento é um instante de registro dessa máquina pensante. A proposta de início remete à teoria funcionalista da "caixa-preta", tratando a mente como um sistema fechado em que não existiriam os Qualia, aquela soma de impressões e reprocessamentos das imagens formadas, em que os estados mentais teriam relações causais diretas, entradas no sistema de um lado, saída do outro.
Entretanto, a primeira caixa-preta revela bem outra coisa: um feixe de fios metálicos envolve um cristal de rocha, um fio único destaca-se envolvendo um novelo emaranhado de outros fios, abaixo um grosso fio elétrico já queimado pelo tempo. O cristal está ali, exatamente nos lembrando ser ele o estado intermediário entre o visível e o invisível, nossa capacidade de clarividência, cristal como símbolo da intuição, do conhecimento, da consciência.
As caixas-preta interligadas contam fragmentos de uma história, sem seqüência, como as mensagens de um sonho. Ficaram ali os resíduos do dia, os anseios e frustrações, as associações e fantasias recorrentes, a soma das caixas interligadas gerando um sistema não-linear, em que as partes produzem uma linguagem, uma mensagem. Há imagens que se repetem, os pequenos feixes amarrados presentes em toda a exposição, feixes de nervos e também alusivos a um estar ligado, positivo como integração, negativo como maldição de apresamento.
O feixe de gravetos queimados vai mais além, símbolo da transitoriedade, da sucessão de vida e morte, do que a mente significa para o corpo. Os fios paralelos que atravessam várias caixas seriam os cordões neurais, ou as linhas retas de um encefalograma inexitente, quando todos os sinais vitais se extinguiram?

Um alienado

Numa caixa, de um lado uma página manuscrita, do outro a fotografia de um alienado. Escrita, manifestação visível do Verbo, palavras como força atuante, a materialização da revelação, o universo dos signos como manifestação material da mente. Na outra extremidade, espremido no canto, a foto do alienado, figura inquietante, o limite da palavra, o vazio existencial, a ausência do saber e da cultura. Ele é o vácuo, mas o vácuo necessário, pois se desligou da totalidade humana e da vida material, vivendo no seu mundo interior, fora de todas as normas da sociedade, atingindo a transcendência.
Aqui e ali crânios, sede do pensamento e representação macrocósmica do homem, símbolo da morte física e do renascimento espiritual, da mesma maneira que as vértebras, transmutadas metaforicamente em latas enferrujadas, são suportes da verticalidade da afirmação do self, como totalidade da psique humana. O centro da instalação, com seu amontoado de latas remete à essa vivissecção, ao desmantelamento da psique, ao encefalograma como instrumento de sondagem do mistério maior.
Kolb propõe assim uma percepção do irracional, dos recônditos da mente armazenados no comportamento diário. O transbordamento dessa caixa-preta é interminável, porque uma associação leva a outra, uma imagem a outra, como objetos resgatados do porão escuro da mente. No ofício das trevas alguns devem velar, e da vigília de Kolb sobrevivem os sonhos do lado escuro da existência.

  • Walter de Queiroz Guerreiro, crítico de arte

O Quê: Exposição do artista Ricardo Kolb Filho. QUANDO: Último dia. ONDE: Museu de Arte de Joinville, rua 15 de Novembro, 1.400, Joinville, tel.: (0xx47). VISITAÇÃO: Das 11 às 17h.


O túmulo mutilado de Oscar Wilde

Vandalismo no corpo de um anjo nu instalado na sepultura do escritor estimula reflexões

Luiz Mott
Especial para o Anexo

Um dos cartões turísticos de Paris é nada menos que um cemitério - o célebre Père Lachaise - onde estão os túmulos de grandes personalidades da França e alguns estrangeiros - entre os mortos mais famosos, Balzac, Bizet, Maria Callas, Chopin, Comte, Alphonse Daudet, Delacroix, Heloísa e Abelardo, Alan Kardec, La Fontaine, Molière, Yves Montand, Edith Piaf, Simone Signoret e muitos outros.
No folheto distribuído aos visitantes, estão indicados 105 túmulos de gente famosa - cada túmulo mais suntuoso que o outro, com esculturas dignas de qualquer museu, mármores raros, capelinhas e capelonas com vitrais maravilhosos. Muitos com corbeilles de flores ainda frescas oferecidas por familiares ou admiradores. Quando visitei este que talvez seja um dos cemitérios mais famosos do mundo, era outubro de 1998, começo do outono europeu, e as folhas amarelas e avermelhadas das majestosas castanheiras formavam lindo tapete por sobre o lajeado das intermináveis ruas e escadarias do Père Lachaise. Fui ao cemitério com um destino certo: visitar o túmulo de Oscar Wilde. Lá chegando, fui direto à tumba 83, na avenue Carette, entre a Transversal 3 e a avenue Circulaire.
O túmulo é discreto, estilo moderno, comovente. Um bloco enorme de pedra cinza, com um anjo nu, estilizado, esculpido na parte superior, em posição horizontal, como se estivesse voando. Este belo homem alado tem traços que lembram uma escultura asteca, com uma discreta tiara na cabeça composta com algumas figuras humanas. Tem o olhar sereno, direcionado para o infinito.
No pé do túmulo, a simples inscrição: Oscar Wilde. Alguns botões de rosa vermelha e um belo ramo de lírios brancos eram a prova que o maior poeta homossexual do fin-de-siècle continuava a ter fãs. Na parte baixa do mausoléu, uma plaqueta adverte: "Não desfigure o túmulo, protegido como monumento histórico, restaurado em 1992". Apesar da advertência, fiquei chocado com um abominável ato de vandalismo: o órgão sexual do anjo estava mutilado, faltando-lhe parte do pênis e o saco escrotal. Fiquei triste e indignado com tal violência.
E pus-me a refletir: o que teria levado alguém a decepar o órgão sexual do anjo de Oscar Wilde? Teria sido apenas um homófobo mais violento ou vários os mutiladores? Pela gravidade dos danos, sou do parecer que foram muitos os golpes e repetidos os golpeadores. Qual a razão desta castração se outros anjos e anjinhos de túmulos próximos, também nus, conservam sua genitália intacta?!

Raiva

Seria por tratar-se do túmulo do mais famoso homossexual da época vitoriana, e como tal, indigno de repousar em paz lado a lado dos outros mortais? Mutilaram o sexo do anjo por considerarem ofensivo estar esculpido de forma tão realista um órgão, que no imaginário popular representa a própria traição vivenciada pelos homossexuais, pois em vez de usá-lo como "manda a natureza" - comendo vaginas e reproduzindo novos seres humanos - os "sodomitas" usam o ânus como local de prazer e quando muito, ao fazerem uso do membro viril, metem seus pervertidos falos nas bocas e canais retais uns dos outros?!
Destruíram a genitália do anjo-homem de Oscar Wilde a golpes de pedra ou com alguma barra de ferro, imbuídos da mesma raiva e com o mesmo sentido daqueles carrascos que, quando matam um gay, decepam-lhe o pênis, metendo-o logo em seguida dentro da própria boca do infeliz, como se quisessem dizer: "Você que foi um falso ao corpo, que traiu o sexo forte, preferindo dar as costas a outros machos, fazer-se fêmea, terceiro sexo, efeminado, que tenha como castigo ser castrado e a condenação de engolir o membro que não soube respeitar!"

Emoção

Não sei se a plaqueta advertindo contra eventuais "desfigurações" do túmulo foi colocada antes ou depois do vandalismo. Suponho que tenha sido posterior, para evitar novas destruições. Emocionado por estar diante dos restos mortais de uma das maiores estrelas do panteão dos praticantes do "amor cujo nome não ousavam mencionar" - expressão cunhada por Lorde Douglas, o esbelto e ingrato amante deste poeta irlandês - emocionado e ao mesmo tempo injuriado pela intolerância homofóbica que persegue este autor maldito mesmo após sua morte - tive ali mesmo uma inspiração que pretendo tornar realidade: começar uma campanha internacional, liderada pelo Grupo Gay da Bahia, com vistas à restauração urgente do pênis do anjo de Oscar Wilde.
Ao rever os ensaios, no centenário da morte do poeta (3/11/2000), creio que foi o próprio Wilde quem me psicografou esta mensagem - aliás, bem no estilo de seu vizinho de cemitério Alan Kardec...
Já que inegavelmente esta mutilação tem um significado simbólico, prova do quanto a homofobia é violenta, burra e verdadeiro atentado contra a humanidade e a civilização, por outro lado, antevendo os ganhos políticos para nossa causa, graças a uma campanha internacional visando a cirurgia restauradora do sexo do anjo de Wilde - e não venham me dizer que anjo não tem sexo! - além de restaurar uma significativa obra de arte, tal movimento haveria de chamar a atenção da sociedade em geral para o ridículo de quantos ainda vêem o sexo explícito como um atentado à moral e aos bons costumes e ainda consideram o homossexual como um homem-castrado ou a ser castrado, e indigna sua orientação sexual. Se fosse a estrela de Davi de um túmulo de um herói judeu que tivesse sido destruída, certamente sua restauração seria vista como resgate dos direitos humanos e cidadania desta minoria que tanto quanto os homossexuais, tem sido os bodes expiatório dos totalitarismo fundamentalistas nestes dois mil anos de intolerância judaico-cristã.

Restauração

Certamente não faltarão competentes restauradores gays ou simpatizantes que se disporão graciosamente a executar a importante cirurgia reparadora da genitália do anjo de Oscar Wilde. Seria questão de consultar primeiro a família ou descendentes de Jacob Epstein, o escultor do mausoléu, para saber se teriam sugestão de nome de algum expert, ou como se deveria melhor proceder nesta restauração. Feita a consulta, que os escultores candidatos à execução da operação regeneradora apresentassem in loco, em gesso, o modelo de sua restauração, e um júri nomeado pela Academie de Beaux Arts de Paris e conservadores do Cemitério Père Lachaise julgariam o pênis mais adequado, encarregando-se o vencedor de sua pronta execução.
O custo deste implante certamente será mínimo - infinitamente menor do que o valor de uma verdadeira operação transexual! - e o significado social e publicitário da causa gay, haverá de ganhar excelente espaço e simpatia na mídia mundial. Sem falar que o próprio anjo e o principal interessado na história, Oscar Wilde, hão de ficar mais do que agradecidos.

  • Luiz Mott, professor titular do Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia (UFBa) e presidente do Grupo Gay da Bahia/ luizmott@ufba.br


Frases

O escritor Oscar Wilde (1854-1900) é tão conhecido por suas frases engenhosas, citadas em todos os idiomas, e por todos os motivos, como por sua obra.

Eis algumas delas:

Amar a si mesmo é o começo de uma longa história de amor.

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A única coisa que nos permite viver é o sentimento da imensa inferioridade dos outros, um sentimento que eu sempre cultivei.

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Uma verdade deixa de ser verdade quando ninguém acredita nela.

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A arte má é muito pior do que a ausência de arte.

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A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida.

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Os americanos se casam cedo, as americanas se casam freqüentemente e se dão sumamente bem.

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Todos podem ter senso comum, desde que não tenham imaginação.

... ... ...

Dar um conselho é sempre uma besteira, mas dar um bom conselho é absolutamente fatal.

... ... ...

O público é muito tolerante, perdoa tudo, com exceção do gênio.

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O jornalismo é ilegível e a literatura não é lida.

Manchetes AN

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Salomão dissonante
no coro dos contentes

Poeta que visitou Joinville não hesita em definir-se como um "outro, estranho"

Dennis Radünz
Especial para Anexo

A lábia intempestiva do poeta Waly Salomão não tem nenhum pudor de revirar, no túmulo, os mortos; mortos que são os conceitos gastos, os localismos, esperanças e medos vãos. Esse o impacto de sua fala no 5º Encontro Catarinense de Escritores, em Joinville, no dia 24, com toda a irreverência de um brasileiro de "sangue sujo", baiano de ascendência síria que não hesita em definir-se um "outro", estranho, diferente, e, em conseqüência, dissonante no coro dos contentes.
Bacharel em direito, comparsa do poeta Torquato Neto na revista "Navilouca" e autor de livros de poemas e letras de canções (como "Vapor Barato", com Jards Macalé, nas vozes de Gal, Zeca Baleiro, O Rappa), Waly é um notório polemista na cultura brasileira, sempre atento ao novo, sabiamente cáustico na sua escrita. "Poeta mente demais", diz Salomão, citando Homero. "O poeta não fala o que se chama verazmente verdade; o poeta fala o que transcende o território chão, plano, da prosa do mundo. O poeta fala o que se transforma, o que não é fato, o que beira à fábula", diz o autor de "Algaravias: Câmara de Ecos" (Ed.34), livro de poemas detentor do prêmio Jabuti/1996.
Para o auto-intitulado "mascate de inutensílios" é "um insulto considerar os poetas facilmente digeríveis, ou facilmente integráveis, porque a verdade da qual é constituída a fala deles é um território de areia movediça".
Desconcertante? Exceto para quem tem ausente os versos de Pessoa "o poeta é um fingidor,/finge tão completamente,/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente" ou para quem, alienado, mantém fechadas as portas da percepção.

Linguagem

Afinal, a linguagem, para Salomão, não é o avesso da verdade que a sociedade falseia, antes "é igual às malas de contrabandistas, que têm esconderijos, ou similar às caixas chinesas, com uma caixa dentro de outra que está dentro de outra... São muitos níveis, afinal poesia não é assim interpretável de uma só vez. "O discurso indefinível da poesia faz com que, aos olhos dos poderes, o poeta viva sob suspeição. Waly evoca o pensador existencialista Merleau-Ponty: "O intelectual, mesmo não sendo traído ou não dando nenhum sinal prévio de traição (a não ser os capachos, claro, mas aí já é outra situação) é sempre visto com desconfiança pelo poder. Ele é aquele que não pode saber das mumunhas, das tramóias". E mesmo Luiz Vaz de Camões, "salvando a nado 'Os Lusíadas' era quase um nada para o poder de Portugal'", exemplifica.
Assim, o poeta é o suspeito que suspeita: duvida do progresso, por exemplo. Na visão de Baudelaire, o progresso está no apagamento dos traços do pecado original, e "não na luz elétrica, na escada rolante, no celular, no gravador, em nada disso está o sinal do progresso", como explica Waly, discutindo os mitos. "A poesia não tem lugar asséptico para ser gerada. A poesia não gosta do cheiro do éter, do cheiro dos lugares hospitalares, limpíssimos. Ela gosta, como a linguagem gosta, dos lugares cheios de bacilos, de vírus, de bactérias", define ele, entre risos e o sotaque baiano de interiores áridos de Jequié. "A linguagem poética gosta da perdição. Todos os grandes poetas falam isso", enfatiza.
Sem medo, nem esperança, como diz, Waly Salomão foi-se inventando na vida. Diz-se amante da incoerência e prefere a pergunta às respostas: o poeta é o senhor da linguagem ou a poesia é uma senhora que se apossa do poeta? Quem há de definí-lo? Sábio, Salomão vive imune a adjetivos. Seu verbo é vento, chuva, meteoritos.


O ronronar dos dólares

"As Panteras" se vale de todos os meios possíveis para tornar a adaptação do seriado de TV um megassucesso de bilheteria

Lola Aronovich
Especial para o Anexo

Eu me lembro pouco da série de TV dos anos 70 "As Panteras". Lembro do ícone Farrah Fawcett e de seu pôster, do logotipo do programa e de como, em todo episódio, as destemidas detetives tiravam um capacete, um chapéu, uma máscara, qualquer coisa que cobrisse aqueles frágeis neurônios, e jogavam os cabelos de um lado pro outro, em câmera lenta. Talvez eu tenha mudado, ficado menos ingênua, ou talvez os tempos tenham se tornado mais cínicos. A verdade é que, na época, a história de um milionário que convoca três moças para defendê-lo à distância não me causou o mal-estar do filme recém-lançado.
"As Panteras" é uma bomba de efeito retardado. Por baixo do barulho do ronronar dos dólares, vamos analisar os aspectos mercadológicos. Uma produção lucrativa atualmente tem de atrair, antes de tudo, meninos cuja média de idade é nove anos. Então deve haver muita ação, explosões, rachas, luta livre, pancada, mais porrada, e diálogos que não disturbem o transe. Mas é bom se o filme convoca também as garotas. "As Panteras" coloca nas telas as moças que aparecem em toda santa capa de revista que elas compram. É um chamariz. As meninas sentem-se obrigadas a ir pra aprender o que elas têm de ser quando crescer: no mínimo 20 quilos abaixo do peso normal, altas, bronzeadas, vaidosas, maquiadas, arrumadas e sempre prontas pros seus homens. Os produtores não são tolos, e pra abreviar a identificação, unem corpo de mulher a comportamento de criança. As panteras dão risadinhas sem motivo, são saltitantes como pré-adolescentes. Umas gracinhas.
Dizem ser necessário usar mais músculos faciais pra fazer uma careta do que pra abrir um sorriso. Neste sentido, pude notar que a interpretação da Drew Barrymore exigiu mais do que a da Cameron Diaz. Mas, nos releases, a gente tem que ler as heroínas falando que sofreram para aprender os truques de caratê, que foram cinco meses de treinamento militar. Ó vida dura! Fiquei comovida. Quero sugerir aqui o início da campanha "Adote uma Estrela Estressada".
Nas entrevistas à imprensa (que não sei se são mais detestáveis que o filme - a competição é árdua), o diretor-sigla McG diz que considerou inúmeras atrizes pros papéis. Entre elas, a Gisele Bündchen. Aí eu pensei: ué, a Gisele é atriz? Bastou ver o filme para que minhas dúvidas se dissipassem. Não saber atuar não é empecilho. Interpretar pra quê, se a edição é tão picotada que o rosto das moças mal aparece? Só de vez em quando surge um close de milésimos de segundo. O resto é dublê.

Critérios

Para que as panteras finjam ser inteligentes, critérios comparativos são utilizados. Todos os homens do filme possuem QI negativo de ostra, sem querer ofender as ostras. Outro ponto mastigado nas declarações é que as estrelas juntaram-se ao projeto por seu caráter feminista (?). E que elas fincaram o pé para não usarem armas. Claro, como a gente sabe, sem metralhadora não há violência, imagina. Sem falar na violência hollywoodiana típica: vê-se um belo castelo no alto da praia. Neste exato momento, sabemos que é só uma questão de tempo pra tudo voar pelos ares. São os americanos e seu desejo de conhecer novas culturas - e destruí-las.
O treinador das lutas marciais é o mesmo mestre fu-manchu de "Matrix". Logo, minha sugestão é: reveja "Matrix", que ao menos continha uma convicção subversiva de que tudo isso (incluindo esses filminhos acéfalos) é uma fantasia que nos impede de ver a realidade. E a realidade é que somos escravos de um sistema. Não sou eu que estou falando, é "Matrix".
Porém, "As Panteras" também tem uma mensagem pra passar, e não é só aquela de cunho machista. Há o código capachista. As heroínas sonham em olhar pro patrão. Elas se matam de trabalhar, não têm vida pessoal, nunca recebem salário, jamais reclamam, greve nem pensar, e amam um chefe que não mexe uma palha por elas e que nem pra lhes dar ordens se dispõe a encará-las. Entendo que o lema "labutar pra enriqiecer o patrão" seja a tônica do capitalismo, mas acho que podiam trocar o título do filme para "As Pamonhas", sem detrimento do conteúdo.

Lola Aronovich é professora de inglês e cinéfila (lola@netkey.com.br)


 
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