Joinville         -          Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  

















Fé com método

Uma das fotos da exposição "A Última Lua do Império Guarany" mostra as ruínas de São Miguel, no lado brasileiro, uma das mais conservadas de todo o conjunto que se espalha pela Argentina e Paraguai

Retratos da aventura
em estado de ruína

Exposição que abre hoje na capital enfoca as missões jesuíticas no Sul

A fotógrafa gaúcha Edelweiss Bassis percorreu as ruínas das missões jesuíticas da América do Sul durante dois anos captando imagens que registram o que sobrou de um dos mais grandiosos episódios da história do Continente. Encantada pela saga dos jesuítas europeus que chegaram da Europa no século 17 para afirmar o catolicismo e catequizar os índios latino-americanos, ela produziu ao longo dessa andança um lote de 2 mil fotografias. Parte desse trabalho, composto por 48 imagens e batizado de "A Última Lua do Império Guarany", será exposto a partir de hoje no Espaço Lindolf Bell do Museu da Imagem e do Som (MIS).
Para produzir a série de fotografias, Edelweiss visitou as ruínas das missões de São Miguel Arcanjo (localizada no Noroeste do Rio Grande do Sul), San Ignácio Miní e Santa Ana (na Argentina) e Santíssima Trinidad del Parana, San Cosme y Damian e Jesus de Tavarangue (encravadas em território do Paraguai). As fotos registram igrejas e povoados do século 17 que abrigaram índios guarani e os missionários da Companhia de Jesus. Além de mostrar a grandiosidade do que restou dos empreendimentos, Edelweiss apresenta a quem não conhece esses conjuntos verdadeiras relíquias que, com exceção da missão de San Cosme y Damian, são todas tombadas como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.
Localizada no Sul do Brasil, a missão de São Miguel Arcanjo é considerada pela fotógrafa como uma das mais bem conservadas. Erguida a partir do início do século 17 e concluída quase cem anos depois, em seu interior chegaram a morar cerca de 7 mil índios. Fundada em 1685, a missão paraguaia de Jesus de Tavarangue é um templo imenso, com muros e pilares centrais de grande dimensão. Atualmente, passa por escavações arqueológicas e restauração das casas dos indígenas. Na parte argentina, a missão de San Ignácio Miní, erguida em 1610, é um marco dos conflitos que ocorreram a ocupação das missões no país.
A fotógrafa lembra que cada missão tinha dois ou três padres no meio de milhares de índios. Para não serem "devorados" por um universo tão grande de gente, os padres usavam diversas técnicas, como não tirar o poder dos caciques e não forçar os indígenas a mudar suas crenças de uma hora para outra. Para que não faltasse comida, as missões tinham enormes pomares, criações de gado e um conhecimento técnico que ia da agricultura à astronomia. Em 1750, existiam 30 missões jesuíticas na América do Sul. A partir desse período, temendo o crescimento dos empreendimentos e descontrole do poder que tinham sobre eles, os europeus começaram a desmontar os projetos, massacrando índios e padres.

Anos 50
Ex-modelo, Christine Fernandes, agora atriz, busca inspiração nas musas dos anos 50 para compor a enigmática Flávia Regina, em "Esplendor".  AN_Tevê 
O QUÊ: abertura da exposição de fotografias "A ÚLTIMA LUA DO IMPÉRIO GUARANY", de Edelweiss Bassis. QUANDO: hoje, às 19 horas; visitação até 29 de fevereiro, de segunda a sexta-feira, das 10 às 21 horas, sábados e domingos, das 17 às 21 horas. ONDE: Espaço Lindolf Bell do Museu da Imagem e do Som (MIS), anexo ao Centro Integrado de Cultura (CIC), av. Irineu Bornhausen, 5.6000, Florianópolis, tel.: (0 XX 48) 333-2166.


MEC investe R$ 252 mi
em livros didáticos este ano

Valor é para aquisição e distribuição de 73 milhões de unidades para 33 milhões de alunos no País

Brasília - O Ministério da Educação, através do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), investe neste ano R$ 252 milhões na aquisição e distribuição de 73 milhões de livros para este ano letivo. Cerca de 33 milhões de alunos do ensino fundamental matriculados em 170 mil escolas públicas no País inteiro terão acesso aos livros didáticos. Essa é uma prioridade do ministro Paulo Renato que, no próximo dia 7, abre o ano letivo, em Parintins, Amazonas. Na cerimônia de abertura, o ministro lança, ainda, a cartilha e o selo comemorativo do Programa Nacional do Livro Didático.
Fazer chegar às mãos dos alunos da rede pública de ensino fundamental livros didáticos de excelente qualidade, mesmo nos mais longínquos municípios do País, constitui o principal objetivo do Programa Nacional do Livro Didático. A opinião é da secretária-Executiva do FNDE, Mônica Messenberg, que esclarece: "Para atingir esse objetivo, é organizada uma verdadeira "operação de guerra", desde a inscrição, avaliação, compra e produção dos livros até a distribuição, envolvendo milhares de pessoas e gerando cerca de 200 mil empregos no setor editorial".
O FNDE, em parceria com os Correios, garante a entrega dos livros antes do início do ano letivo. Para não faltarem livros nas escolas, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) fornece os dados do censo escolar do ano anterior com projeção do número de matrículas a serem feitas eventualmente depois do censo. O fundo envia a quantidade de livros de acordo com essa projeção e remete ainda uma reserva técnica de 3% para as secretarias estaduais de Educação distribuírem às escolas novas que surgirem depois do censo escolar.

Os Números

Para este ano de 2000, 170 mil escolas públicas solicitaram e receberão 73 milhões de livros para 33 milhões de alunos matriculados no ensino fundamental (1ª a 8ª séries). O quantitativo de livros é o somatório dos sistemas centralizado e descentralizado. O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação comprou e entregou, de fato, 60 milhões de livros para todos os Estados, exceto São Paulo e Minas Gerais. Esses Estados optaram pela forma descentralizada, recebendo recursos do FNDE, ficando a cargo das secretarias estaduais de Educação o processo de aquisição e distribuição dos livros às escolas.
Para São Paulo, foram destinados R$ 26,4 milhões para aquisição e distribuição de 6,8 milhões de livros, enquanto Minas Gerais recebeu R$ 19,9 milhões para 5,6 milhões de livros.
Em 1999, foram investidos R$ 373 milhões na compra e distribuição de 109,1 milhões de livros para 33 milhões de alunos matriculados no ensino fundamental público. Esses livros são destinados para todos os estudantes da 1ª série (que são repostos anualmente), da 2ª a 4ª série (complementação, referente ao acréscimo de alunos matriculados de um ano para outro) e da 5ª a 8ª séries.

Distribuição

A distribuição é feita em todo o País com a supervisão de técnicos do FNDE, que verificam a produção dos livros juntos às editoras, supervisionam a remessa das obras pelos Correios e, finalmente, acompanham a distribuição nas escolas. Após a entrega pelos Correios, os livros passam a pertencer às escolas, devendo os de 2ª a 8ª séries ser reutilizados por três anos. Este ano foram cerca de 1.300 títulos de 26 editoras. As escolas públicas cadastradas no censo escolar de 1999 receberam livros didáticos das áreas de português, matemática, história, geografia e ciências para todos os alunos da 1ª série e, para os de 2ª a 8ª séries, complementações dos mesmos títulos escolhidos pelos professores.
Os últimos dados fornecidos pelos Correios dão conta de que 95% dos livros já estão nas escolas dos mais de cinco mil municípios do País, mesmo nos lugares de difícil acesso, onde os livros chegam de barco, bicicleta ou até mesmo em carro de boi. Em sete diasm finalizarão as últimas remessas.
Por conta do sucesso do livro didático, a Empresa de Correios e Telégrafos preparou um selo comemorativo: a estampa traz a reprodução do mapa do Brasil com os meios de transporte utilizados para a distribuição - o avião, o carro e o barco. Além disso, aparecem figuras de algumas crianças em idade escolar representando a diversidade das raças existentes no Brasil.


Diretor de "Macunaíma"
homenageado com mostra

Rio - Pela primeira vez no País, vão ser exibidas cópias recentemente restauradas das obras de Joaquim Pedro de Andrade, diretor do filme "Macunaíma". A mostra acontece no Rio, de hoje a 13 de fevereiro, no Museu de Arte Moderna (MAM), e em São Paulo, de 17 a 21 de fevereiro, na Cinemateca Brasileira.
O evento é promovido pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, Cinemateca Brasileira, MAM e faz parte do Grande Prêmio Cinema Brasil, criado para divulgar a mais nova fase do cinema brasileiro. A cerimônia que premiará os melhores do cinema nacional será realizada no próximo dia 12, em Petrópolis (RJ).
A mostra Joaquim Pedro de Andrade é uma homenagem ao cineasta, que faleceu em 1988, aos 56 anos. Em "Macunaíma" (1969), sua produção mais famosa, inovou a estética do Cinema Novo por incorporar elementos da chanchada e utilizar o tropicalismo para transfigurar fatos da vida política, que invadem o relato épico das andanças de Macunaíma entre figuras da mitologia popular brasileira. Filme emblemático, atualizou o legado do modernismo e estabeleceu a tão buscada relação do Cinema Novo com o grande público.
Além de "Macunaíma", poderão ser vistos os outros cinco longas de Joaquim Pedro: "Garrincha, Alegria do Povo" (1963), "O Padre e a Moça" (1965), "Os Inconfidentes" (1972), "Guerra Conjugal" (1975) e "O Homem do Pau-brasil" (1981).
Também será realizada uma palestra sobre os processos de realização e restauração - feita com recursos do Ministério da Cultura e da União Latina de Filme Documentário - dos filmes exibidos na mostra, ministrada por Alice de Andrade, filha do cineasta.


Concurso internacional
literário abre inscrições

Joinville - O 5º Concurso Internacional Literário de Outono está com inscrições abertas e recebe contos, poesias e crônicas até o dia 31 de março. Promovido pela Edições AG, o concurso selecionará trabalhos para a publicação em regime cooperativado do livro "500 Outonos de Poesia e Prosa". No ano passado, o concurso contou com a participação de escritores de Portugal, dos Estados Unidos e da Alemanha, conferindo caráter internacional à seleção.
Cada candidato pode concorrer com até quatro trabalhos em cada uma das categorias, desde que cada obra não ultrapasse quatro páginas numeradas, datilografadas ou digitadas em apenas um lado do papel, em espaço dois, assinadas com pseudônimo. O tema é livre. Em um envelope separado, o concorrente deve enviar breve currículo incluindo nome, pseudônimo, categorias nas quais concorre, endereço, telefone e e-mail para contato.
Potencial
Brasil.com atrai interesse de investidores: Crescimento do mercado da Internet no País faz com que grandes grupos invistam capital no setor  AN_Informática 
Trabalhos por e-mail serão aceitos apenas se enviados no corpo da mensagem (jamais em attached file), respeitado o limite de apenas um texto em cada transmissão. O currículo deve ser enviado em e-mail separado. Os resultados da seleção serão divulgados até o dia 25 de abril e os autores escolhidos serão contatados pela Edições AG para a publicação do livro, cuja impressão deve acontecer em julho.
Os trabalhos do 5º Concurso Internacional Literário de Outono devem ser enviados para a Estrada do Campo Limpo, 6903, cj.152 - São Paulo/SP - CEP 05.787-000 ou para os e-mails agiraldo@yahoo.com ou agiraldo@uol.com.br. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (0xx11) 3749-7152 ou em www.giraldo.org e www.geocities.com/Paris/9721.


Assassinato de Júlio César
narrado em tom policial

Roma - Um livro em forma de narrativa policial acaba de ser editado na Itália, despertando curiosidade entre os leitores ao reconstruir o assassinato de Júlio César, uma das figuras mais importantes da história romana. "Vinte e Três Punhaladas" é o título do livro de Furio Sampoli, da editora Guida, no qual o autor narra, com a ajuda de uma série de monólogos, cartas e confissões, o dia em que Júlio César foi assassinado.
O novo livro sobre Júlio César, glorioso conquistador da Gália, ditador com poderes soberanos, líder de um exército de devotos legionários, soma-se à lista de best-sellers recentemente publicados na Itália sobre um dos fundadores do poderoso império romano. Depois dos ensaios de Luciano Cánfora, Luca Canali e Martin Jahne, apareceu o curioso livro de Sampoli, que conta os fatos através de várias pessoas, em forma de romance policial, com a linguagem das testemunhas e conspiradores do assassinato.


Tenda dos milagres

Falta de qualidade e espécie de vale tudo na grade comprometem a programação da Rede TV!

Rodrigo Teixeira
TV Press

Três meses depois de sua estréia, decididamente a Rede TV! está longe de ser uma opção de qualidade. Ao contrário do que pregou quando entrou no ar a nova programação, em novembro, a emissora oferece atualmente uma das piores grades da tevê brasileira. Em seu curto período de existência, a Rede TV! enxugou a programação e demitiu funcionários, além de ameaçar não pagar os salários atrasados dos empregados que herdou da extinta Manchete. A balbúrdia por que passa a emissora pode ser flagrada logo que é sintonizada. Sem critérios e numa espécie de vale tudo, a Rede TV! virou abrigo de intermináveis programas de televendas e religiosos.
Só a Igreja da Graça ocupa três horas da programação, sem contar mais 60 minutos dedicados ao Ministério da Comunidade Cristã. Os pastores se sucedem no ar, pedindo para os espectadores não deixarem de pagar o dízimo. É por essas e outras que a Rede TV! parece cada vez mais um clone fajuto da Manchete. Até mesmo o "Cine Total", projeto interativo parecido com o "Intercine" da Globo, já foi descaracterizado. O precário acervo da Rede TV! impediu o esforçado Rubens Ewald Filho de levar o projeto adiante.
Os programas religiosos disputam espaço com vários programas de televendas. "Brasil TV", "Telemarketing" e "Brazil Connection" anunciam todo tipo de produto: facas que cortam pedra, aparelhos de ginástica e panelas de mil utilidades. O problema aumenta quando reprisam o mesmo produto várias vezes. Um exemplo é o aparelho eletrônico para exercícios localizados que tem Joana Prado, a Feiticeira, como garota propaganda. O paupérrimo slogan "não é feitiçaria, é tecnologia", anunciado pela vitaminada Feiticeira em trajes ínfimos, é transmitido a exaustão tanto à noite como de dia, o que demonstra que a Rede TV! não tem material suficiente e diversificado para preencher sua programação.
Na verdade, reprisar é o que mais a Rede TV! vem fazendo. As séries "Jeannie é um Gênio" e "A Feiticeira" são bons exemplos. Mesmo sendo exibidas entre 12h30 e 13h30, não deixam de ocupar o horário nobre da programação, entre 20 e 21 horas. Isso porque as séries americanas, que datam da década de 60, dão razoáveis índices de Ibope. Enquanto "A Casa é Sua", por exemplo, dificilmente passa dos dois pontos, as séries chegam a dar o dobro da audiência. Entre os programas produzidos pela emissora, "SuperPop", "Te Vi na TV" e "Interligado" são os que vêm tendo melhor retorno de Ibope. A produção comandada por Adriane Galisteu já atingiu picos de dez pontos, mesmo após ser enxugado em 30 minutos. Na verdade, os três programas são os únicos que continuam seguindo o objetivo inicial proposto pela emissora: interagir com o espectador, ter uma linguagem voltada para o público jovem e explorar um visual próximo ao das tevês a cabo, tanto nos cenários como nas vinhetas.
Vale do vinho
Além de enfeitar a paisagem, os parreirais garantem a uva e o vinho para o paladar dos visitantes que passam pelo Vale do Rio do Peixe.  AN_Turismo 
A prova de que a Rede TV! está longe de conseguir uma identidade própria é que a emissora não pára de anunciar mudanças e projetos. Valéria Monteiro vai produzir matérias em Nova York, após seu lugar ser ocupado por Meire Nogueira na "A Casa é Sua". O "TV Fama", após ser extinto, pode ressurgir remodelado em março. Paulo Ricardo deve ter um musical e Andréa Sorvetão um game show. Projetos sem a devida originalidade para melhorar a qualidade da programação da Rede TV!, que precisa urgentemente dar o passo básico e fundamental passo conquistar audiência: ter uma grade estável.

Manchetes AN

Das últimas edições de Anexo
09/02 - Em busca da memória de Alexander Lenard
08/02 - De reizinhos do lar a escravos do capital
07/02 - Charges comemoram 20 anos de anistia
06/02 - Os contornos dos passos de Cristo
05/02 - Dançando na velocidade do medo
04/02 - Cerimônias que a Ilha esconde
03/02 - O artista vai aonde o povo está

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Vanessa Rangel passa
na prova do segundo disco

"Mediterrâneo" mostra maturidade, equilíbrio e emplaca, de novo, faixa em novela global

REGIS MALLMANN

A cantora e compositora fluminense Vanessa Rangel ficou conhecida do grande público quando, há cerca de três anos, estourou com a música "Palpite", tema que embalou o enlace romântico dos personagens de Du Moskovis e Carolina Ferraz na novela global "Por Amor". O sucesso estrondoso rendeu o primeiro disco, prova de fogo para ver se Vanessa sobreviveria à síndrome da estréia que já engoliu muitas outras promessas do mercado fonográfico. Mas parece que a artista passou incólume pela barreira. É o que se vê pelo resultado de seu segundo trabalho, "Mediterrâneo", CD que a gravadora EMI colocou nas lojas de todo o País no começo de fevereiro.
Com 11 músicas - dez assinadas pela cantora - o disco repete o ritmo já consagrado em "Palpite" com um tom marcadamente romântico ao qual a voz cristalina da cantora imprime um charme todo especial. O destaque fica por conta das referências que ela faz ao rock de raízes mineiras: apesar de Vanessa ter nascido em Niterói, no Rio de Janeiro, confessa ter uma ligação muito próxima com o movimento musical que revelou talentos como Beto Guedes, Lô Borges, Flávio Venturini e Milton Nascimento, integrantes do Clube da Esquina. A afinidade justifica a escolha de "Paisagem da Janela" para integrar o repertório, surgindo em regravação que empresta um tom nostálgico ao trabalho.
Saudosismo à parte, o disco de Vanessa Rangel se firma mesmo é no pop, praia em que ela desenvolve melhor seus talentos de jovem compositora e cantora. Aos 28 anos, compõe desde a adolescência, quando ensaiou os primeiros passos na arte da música - por isso a marca tão forte dos mineiros que estavam no topo das paradas à época. Não foi logo, porém que ela caiu de cabeça no mundo musical. Primeiro formou-se em direito e trabalhou no Poder Judiciário até 1995, quando abandonou a área e decidiu dedicar-se somente à música. A sorte foi aliada quando ganhou espaço na trilha da novela das oito, primeiro passo para lançar-se à carreira profissional.

ENTRE TERRAS

O álbum "Mediterrâneo" ganhou este nome depois que Vanessa Rangel fez uma viagem à Espanha, no ano passado. Alguns dias em Valencia, cidade banhada pelo mar Mediterrâneo, trouxeram inspiração suficiente para a artista compor a canção que empresta o título ao disco. Ao descobrir o significado do nome - "entre terras, no meio de terras, interior" - achou que a palavra tinha tudo a ver com seu trabalho, marcadamente variado, com influências brasileiras, européias e norte-americanas bem definidas.
Para o novo disco, Vanessa conta mais uma vez com a sorte de ter uma música incluída em novela da Globo. Desta vez é "Avesso", que toca em "Vila Madalena", no horário das 19 horas. Destaque ainda para "Canção do Sol" e a debochada "Dial 190", uma abordagem sobre o cotidiano de violência urbana e a descrença que as pessoas têm na polícia e no governo. Para não tornar o repertório monótono, os arranjos levam guitarras, trompetes e trombones, instrumentos que dão um embalo diferente e bem característico ao CD, sem deixar os baixos, a percussão, o violão e os teclados de lado. "Mediterrâneo" ainda não é um disco definitivo, mas demonstra que Vanessa Rangel tem tudo para trilhar um caminho longo no cenário nacional.


Forró ganha nova roupagem
e tenta conquistar o Sul

As gravadoras tentam de todas as formas impor o forró em domínios além das fronteiras do Nordeste, onde esse ritmo é um dos mais executados em festas, rádios e televisão. Depois de ter conquistado São Paulo, terra onde "tudo se plantando dá", o gênero parece ganhar um espaço, apesar de bastante modesto, no Sul do País, região mais avessa às investidas de modismos desse tipo. Apostando nessa fatia de mercado, a BMG (nova distribuidora da Natasha Records) lança agora os dois primeiros CDs do Trio Forrozão, grupo que desde 1998 vem conquistando seguidores.
"Trio Forrozão" e "Agitando a Rapaziada" são verdadeiros retratos do forró, com repertórios que incluem desde clássicos do gênero até novos formatos para músicas próprias para animar quermesses ou qualquer outro tipo de festa popular. "Xote das Meninas" (de Zé Dantas e Luiz Gonzaga), "Capim Novo" (de Luiz Gonzaga e José Clementino) e "Zé Esteves" (de Caetano Veloso) são algumas das músicas que valem a pena e que remetem às raízes do estilo. Conta o folclore que o forró surgiu quando os soldados americanos estiveram no Rio Grande do Norte durante a Segunda Guerra Mundial, e foram convidados para as festas "for all" ("para todos"), expressão que aos ouvidos dos nordestinos virou forró. Apesar de conter composições de verdadeiras lendas, os dois discos são produtos destinados apenas para quem gosta do gênero. (RM)


Crônica

O ANO 2000, ANTES

Salim Miguel

Antecipação, premonição, previsão, oráculo, futurologia, tudo isso e muito mais nessa linha vem fascinando há séculos o ser humano, sempre tentando desvelar o amanhã. Mas sem dúvida, no campo das previsões catastróficas, Nostradamus continua imbatível, sendo as suas as que mais inquietam e atemorizam a humanidade, ressurgindo de quando em quando, especialmente em datas redondas. Veja-se o quanto se falou em fim do mundo às vésperas deste ano 2000.
Claro que Nostradamus não foi o primeiro, nem será o último a tentar prever o futuro, seja positiva ou negativamente. Bem antes dele temos o oráculo de Delfos. E mais perto de nós, os jogadores de búzios ou as cartomantes, para ficarmos apenas nesses dois exemplos.
Também na ficção pululam, mesmo antes da ficção científica, os que buscavam ver além do hoje - e mesmo o hoje pode ser imprevisível. Tome-se o caso de Julio Verne, que antecipou a chegada à Lua ou a descida ao fundo do mar com seu submarino. E dentro de outra perspectiva pode-se falar num Aldous Huxley, com seu "Admirável Mundo Novo" ou George Orwell, com seu "1984".
Se eu quisesse especular mais, poderia acrescentar que, para além da fantasia, da imaginação, pesquisadores e cientistas também contribuem para mexer com a imaginação e o inconsciente coletivo. Por vezes até acertam, errando. Graham Bell achava que o telefone era uma simples brincadeira e os irmãos Lumière afirmavam que o cinema não passava de uma distração de feira.
Tudo isso vem a propósito de uma limpeza, dessas que fazemos periodicamente, jogando no lixo recortes, que logo serão substituídos por outros. Só que, por maior que seja a quantidade do que queremos (ou precisamos) dispensar, pois estão atulhando a casa, a curiosidade é mais forte. Ficamos examinando, sempre com uma dúvida, uma interrogação, será que amanhã isso não me vai fazer falta? Mas a decisão (heróica ou precipitada ou ambas as coisas) já foi tomada. Amanhã, depois de depois de amanhã pode até vir o arrependimento; para fechar um texto, para colher uma informação, lá se foi no lixo aquilo de que precisávamos.
Chego agora, só agora, ao que pretendia nesta quintaferina conversa. No meio da papelada que ia ser dispensada, me deparo com ampla matéria sobre Emílio Salgari. Por certo os jovens de hoje não terão idéia de quem foi Salgari, que se tornou conhecido por seus romances de aventura. Seus livros emocionavam, levando o leitor para um mundo exótico, irreal, que excitava a imaginação. Ninguém estava preocupado com estilo, com forma, com estrutura narrativa. O que interessava era o enredo, as mirabolantes peripécias, implausíveis porém empolgantes.
Autor de mais de 200 romances entre compridos e curtos, o italiano mais lido do mundo, à frente de Dante e do pai de Pinocchio, isto no dizer de Paulo Mendes Campos, sempre viveu à beira da miséria e teve uma vida trágica que culminou no suicídio. Não é bem da vida do escritor e de sua obra que quero aqui falar. Mas de um romance de antecipação, intitulado "As Maravilhas do Ano 2000". Valho-me, para tanto, de matéria do já citado Paulo Mendes Campos, poeta e cronista. Como acabamos de entrar no referido ano, vale a pena ver de que maneira Salgari imaginou o novo século e milênio.
Salgari parte de um artifício nem tão novo. Em 1903, um inglês e seu amigo médico são congelados, para voltar à vida cem anos depois, em 2003. A verossimilhança pouco interessa. Interessa acompanhar as peripécias e de que maneira os dois se colocam num mundo tão diferente do que haviam deixado.
Primeira surpresa: deparam-se com um avião de quatro asas, que batem como a dos pássaros e que alcançam a espantosa velocidade de 150 quilômetros horários, voando a 150 metros de altura.
Segunda surpresa: em Nova York existem edifícios de até 30 andares, um despropósito.
Terceira surpresa: a televisão permite que os acontecimentos sejam captados no ato e retransmitidos de um hemisfério para outro.
Quarta surpresa: para não perder tempo na faina contínua, os operários se alimentam com dez minúsculas pílulas e as roupas são de fibras vegetais.
Mas as surpresas, para os dois transplantados de um século para outro, não se esgotam por aí. São poucos os operários, porque utilizam-se muitos autômatos, mas os lavradores e pescadores são muitos. Desde 1940 (como é que isto ainda não chegou aqui!) manadas de elefantes mecânicos fazem a limpeza das ruas, dos jardins, dos parques. A energia no Brasil, independente de usinas hidrelétricas, vem toda ela da Corrente do Golfo. Os presos não mais ocupam espaço na face da Terra, são mantidos em bolsões submarinos, explodidos ao menor sinal de rebelião. E para concluir (a matéria, já que o espaço acabou, não outras inventivas invenções), jatos d'água eletrizados são lançados contra manifestantes. Pelo que se deduz do texto do Paulo Mendes Campos, o romancista aprovava tais métodos, o que deve ter contribuído para a simpatia que despertava em Mussolini. É bom acrescentar que, na data, a comunicação com os marcianos já era coisa corriqueira. Quem desejar mais que vá ao livro... caso o encontre.

 
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