Joinville         -          Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  

















Viagem aos
mistérios da Amazônia

Raimundo e Mariléa Caruso preparam novo livro sobre expedição aos confins do Brasil

Ana Cláudia Menezes

Compreender a Amazônia, universo quase intocado e desconhecido dos brasileiros apesar de ocupar 60% do território nacional, foi o maior desafio de uma dupla de pesquisadores que se embrenhou entre agosto e outubro de 1996 nos mistérios da mata e da cultura amazônicas: o jornalista Raimundo Caruso e a geógrafa e professora Mariléa Leal Caruso. "Mais complicado ainda é saber o estão fazendo com ela", diz Caruso, mesmo depois de sua quarta viagem à região.
O resultado da pesquisa sairá até o final de março pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que já havia publicado em 1989 o livro de entrevistas "Franklin Cascaes ­ Vida e Arte ­ e a Colonização Açoriana", organizado por Caruso, ex-professor do curso de jornalismo da UFSC. A nova pesquisa da dupla, que já foi aos Açores e no ano passado viajou pelo litoral catarinense para traçar a sua ocupação, está concentrada em 480 páginas, incluindo entrevistas com cerca de 150 pessoas, entre elas historiadores, biólogos, políticos, indígenas, indigenistas, seringueiros, garimpeiros e pessoas comuns do povo que eles encontraram nos dez mil quilômetros percorridos de navio, ônibus e avião. "Dez mil quilômetros num universo como a Amazônia não significam nada", alerta Caruso.
Foi num barco no trajeto Belém-Macapá que Mariléa conheceu uma índia, professora em Oiapoque, cujo pai havia sido fundador do ponto mais setentrional do País. Foi na cidade também que o casal conheceu em 1996 o então candidato a prefeito João Neves da Silva, um índio cuja plataforma de governo era reintroduzir as frutas regionais na merenda escolar. Quando retornaram a Florianópolis depois da viagem, Mariléa e Caruso souberam pela televisão que o índio do grupo galibi-marworno havia sido eleito. "Recuperar a dieta indígena é algo como recuperar as origens da Amazônia", conta Caruso.
Para traçar um retrato da região menos conhecida dos brasileiros, Caruso e Mariléa contaram com o apoio de 29 pessoas que estudam a Amazônia, como o sertanista Orlando Villas Bôas, que na época ainda estava à frente da Fundação Nacional do Índio (Funai), do géografo Orlando Valverde, um dos maiores especialistas na região, e de João Pedro Stédile, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Para Caruso, o desconhecimento do Brasil em relação à Amazônia é proposital. "É um mundo desconhecido não por acaso. É um mundo omitido porque ali acontece um processo de saqueio, de 300 violências por minuto. E a população é mera espectadora", analisa.
Enquanto no exterior a televisão vende uma imagem romântica aos ecologistas, a realidade vivida pelas populações amazônicas é brutal. "O que se tenta fazer é transplantar para lá o modo de vida sulista. É um jogo violento junto a uma população cuja sabedoria está relacionada à vivência na selva. A Amazônia é uma história de crime não resolvida, não de uma paisagem a ser fotografada", critica o jornalista de 53 anos.
No livro, os pesquisadores expõem os exemplos de contradição encontrados lá. Na cidade de Santarém (PA), apesar de estar na foz de dois maiores dos rios do mundo, o Tapajós e o Amazonas, muitas vezes falta água para seus 250 mil habitantes. Nos currículos da faculdade de medicina das universidades federais não há nenhuma menção a disciplinas que tratam de doenças tropicais, como se estas não existissem. "O governo pode ou não colocar a Amazônia no currículo?", questiona Caruso.
Útil e espaçoso
O Renault Kangoo, que chega ao mercado no final do mês, destaca-se pelo amplo espaço interno e pela funcionalidade.  AN_Veículos 
A terra de ninguém em que foi transformada a Amazônia não tem bandidos nem mocinhos. "Há tanto o colonialismo interno, de empresários e governo, como o capital internacional, que desrespeita as culturas regionais", explica Caruso. O universo amazônico está tão distante da população brasileira que hoje se conhece mais Miami do que a sua própria realidade, que parece uma galáxia desconhecida. "São estrelas das quais não se conhece nada", finaliza o jornalista.

Trechos

"A impressão era que mal haviam passado uns poucos minutos da nossa partida de Belém, e já navegávamos por um obscuro e invisível labirinto de canais barrentos a oeste da ilha de Marajó ­ e vá saber agora a que distância estávamos de lugares com duas dúzias de casas de pintura descascada com os nomes de Curralinho, Baía das Bocas, São Miguel dos Macacos, Ilha dos Guaribas, Melgaço ou Vila Baturité ­ quando, pouco antes da meia-noite, caiu um violento temporal. Ouvimos que o motor foi desligado, e logo percebemos que o barco começou a girar, levado pela correnteza. (...) Éramos uns trezentos passageiros com destino a Macapá, de onde viajaríamos até Oiapoque, a longíngua fábula dos livros de geografia da infância, e a dois passos da Guiana Francesa".

Relato dos viajantes

"(...) Quando uma menina entra na puberdade, ela é presa num canto de uns dois metros. Ali não pode falar em voz alta e recebe apenas visitas das tias. A mãe, raramente. As tias ensinam então como é que se faz rede, o trabalho, tudo cochichado. Se ela tiver saudade de ver o sol, enfia o dedo na palha e olha a claridade lá fora e depois fecha outra vez. E o casamento é escolhido pelo pai, e é incontestável. Agora não tem o tabu da virgindade. Com catorze anos, uma menina tem relações com quem ela quiser. Mas se for mãe solteira ela mata o filho. É o espírito mau que está chegando na aldeia, porque ela nunca dirá quem é o pai. Na hora em que vai dar à luz ninguém fala nada, ninguém diz uma palavra, ela pega a 'redinha' dela e vai para a mata, estende a rede, faz um buraco em baixo para sepultar a placenta e dá à luz sozinha. Quando a criança nasce ela mata. Ninguém pergunta nada. Eu e meu mano Cláudio ficamos escondidos algumas vezes e quando ela dava o grito, íamos lá e roubávamos a criança. Alguns daqueles recém-nascidos vivem hoje aqui em São Paulo, na casa de famílias conhecidas".

Entrevista com o sertanista Orlando Villas Bôas


Dionisos apresenta
"Amor por Anexins" no Sesc

Espírito irreverente da peça de Artur Azevedo volta hoje aos palcos joinvilenses; grupo busca vaga no Circuito Catarinense de Teatro

Joinville - Depois de mais de 70 apresentações no currículo, a peça "Amor por Anexins", do Dionisos Teatro (em parceria com o grupo Arlequim), sobe ao palco do Sesc de Joinville, hoje à noite, com espírito de competição. Dirigida por Silvestre Ferreira, a montagem busca vaga na seleção de espetáculos para o Circuito Catarinense de Teatro, programa aberto a grupos que primam pela qualidade dos trabalhos e que buscam propostas criativas contrárias ao senso comercial, preservando a capacidade reflexiva e a possibilidade de resgate cultural.
Primeiro grande texto para o teatro na carreira de Artur Azevedo, "Amor por Anexins" é uma pequena peça concebida para ser apresentada à frente da cortina durante as demoradas trocas de cenário no extinto teatro de revista. Entre 1878 e 1906, Azevedo foi um dos autores teatrais mais festejados e encenados do País, criador irreverente definido pelo crítico Antônio Martins como "um grande aquarelista das coisas do seu tempo". Com entrada gratuita, a montagem do grupo Arlequim conta a história de Isaias, um velho de aparência pouco atraente que tenta conquistar o amor de Inês, viúva bela e interesseira. A aproximação é dificultada por um costume do qual Isaias não consegue abrir mão: fala quase todo o tempo através de ditados populares, os anexins.
Ferreira diz que a escolha do texto pelo grupo tem justificativa na bem elaborada dramaturgia e na temática, onde o folclore dos ditos populares faz pano de fundo para a resolução dos conflitos do personagem central. "Procuramos manter o texto original com uma montagem leve e de fácil mobilidade, para que pudesse tanto ser apresentada em teatros como em espaços alternativos da cidade", explica o diretor. O elenco traz Cleber Barat no papel de Isaias e Claudiane de Carvalho (indicada para melhor atriz no Festival Catarinense de Concórdia) como Inês. A trilha sonora foi composta especialmente por Guilhermo Santiago; a operação de som fica sob responsabilidade de Andréia Malena da Rocha e a luz, aos cuidados de Jomar Lúcio de Lima.
"Ao oferecer este trabalho para o Circuito Catarinense de Teatro do Sesc, o fazemos acreditando que a peça possa contribuir com o projeto, tanto pela maturidade que mais de 70 apresentações traz", lembra Ferreira, diretor, entre outras montagens, de "O Auto da Compadecida" (texto de Ariano Suassuna) e "O Sonho de uma Noite de Verão" (adaptação de William Shakespeare). "Amor por Anexis" tem entrada franca e inicia às 20 horas de hoje, no auditório do Sesc (rua Itaiópolis, bairro América).


Vídeo-palestras estimulam
reflexão sobre a dança

Florianópolis - Os iniciados e interessados em dança tem um bom programa para hoje, às 19h30, no Espaço Multimídia do Centro Integrado de Cultura (CIC), em Florianópolis, quando acontece o lançamento em Santa Catarina do projeto "Corpos que Falam". Amanhã o evento acontece em Lages. Desenvolvido pelo Centro de Estudos em Dança da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), o projeto vai trazer para as duas cidades uma série de vídeo-palestras com a finalidade de estimular a reflexão sobre a dança e as artes corporais. A abertura hoje, na Capital, apresenta vídeo palestra com Helena Katz, crítica de dança do jornal "O Estado de São Paulo". O tema de Helena é "Corpo como Mídia".
As vídeo-palestras acontecem de fevereiro a novembro de 2000, sempre na última quinta-feira do mês. Em Lages, na última sexta. O formato dos encontros segue uma padrão: primeiro é exibido um vídeo de dança ou artes corporais, depois o pesquisador ou artista fala sobre o tema em questão, e em seguida é aberto o debate com o público. As conferências são gratuitas e os participantes recebem certificados. Para a coordenadora do "Corpos que Falam" em Santa Catarina, Jussara Janning Xavier, o projeto vai estimular a crítica e contribuir para formação de público. A abertura em Lages será às 20 horas, na Fundação Cultural de Lages, com Maíra Spanghero e o tema "A Dança na Tela".
O projeto em Santa Catarina tem co-patrocínio da Fundação Catarinense de Cultura, do Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina, da Fundação Cultural de Lages e apoio da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).


Roy Kellermann expõe
obras em Blumenau

Blumenau - Quando céu e mar se confundem no mesmo horizonte azul, o que marca seus limites são as intervenções humanas, pontilhando o infinito com cores e óticas na imensidão. Foi inspirado no que se impõe ao natural que o artista plástico Roy Kellermann criou a série "Where the sky touches the sea" ("Onde o céu toca o mar"), seguindo as escolas neo-concretista e construtivista. Os 11 trabalhos em óleo estão expostos na Cultura Inglesa, escola de idiomas de Blumenau (rua Floriano Peixoto, 303), com visitação até 10 de março.
Ofensiva
Consumidor deixou de ser passivo, passando a cobrar mais os seus direitos e exigir mais das empresas.  AN_Economia 
Nesta série Roy Kellermann investe na ilusão de ótica, usando recursos como o degradê para criar formas geométricas e dar impressão de volume. Todos os quadros foram elaborados com o mesmo fundo, que representa céu/mar. No primeiro plano, os elementos são balões, pandorgas, aviões de papel e outros objetos que rompem o padrão. No processo de elaboração das formas, linhas divisórias demarcam os limites das sombras, sugerindo terceira dimensão através das cores e iluminação.


"Megatom" estréia
com gosto de requentado

Apesar da sensação de déja vu, Tom Cavalcanti alcançou 37 pontos no Ibope

André Bernardo
TV Press

O humorista Tom Cavalcante nunca escondeu o desejo de ter um programa próprio. No ano passado, chegou a se indispor com a alta cúpula da Globo depois de se despedir do "Sai de Baixo" no ar, sem que sua saída do programa tivesse sido confirmada. Descontente com a indisciplina do contratado, a Globo afastou o humorista do "Sai de Baixo", mas o liberou para dar início ao tão esperado projeto solo. Quase seis meses depois, ele está de volta com "Megatom", que estreou no domingo passado. Para não fazer feio, Tom foi buscar inspiração no próprio "Sai de Baixo", no qual interpretou o intrometido porteiro Ribamar por três anos e meio. Por conta disso, toda e qualquer semelhança entre os dois humorísticos não é mera coincidência. Desde a interação com o público do teatro até as já manjadas paródias musicais, passando pelos divertidos erros de gravação, "Megatom" parece uma reedição do "Sai de Baixo".
O indisfarçável ar de déja vu tem a ver também com o fato de o programa ser escrito por Cláudio Paiva, um dos responsáveis pelo sucesso do "Sai de Baixo". Em novembro do ano passado, Cláudio foi incumbido pelo diretor geral de criação da Globo, Daniel Filho, de assessorar o humorista na elaboração do "Megatom". Na bagagem, Cláudio levou também Bernardo Guilherme e Marcelo Gonçalves, dois egressos do dominical da Globo. É por essas e outras que a velha piada do sujeito que ordena ao outro que fique quieto e imite um cãozinho obediente aos gritos de "quieto!", "junto!" e "morto!" soa dispensável. Afinal, Caco Antibes já se cansou de fazer o mesmo com a pobre Magda no "Sai de Baixo".
Tom Cavalcante, no entanto, diz logo a que veio na abertura do programa. Nele, o humorista cearense se desdobra em um número incontável de clones até se aprontar para entrar em cena. Ao longo de quase 20 anos de carreira, Tom já contabiliza cerca de 40 personagens, 20 deles criados especialmente para o "Megatom". À primeira vista, Adriana, a típica "loura burra" que trabalha como meteorologista de uma emissora de tevê e sonha engravidar de um jogador de futebol, promete ser uma das mais engraçadas da nova geração. Dos antigos, o etílico João Canabrava, que marcou a estréia de Tom na "Escolinha do Professor Raimundo", continua imbatível. Aliás, o número em que ele contracena com o cantor Reginaldo Rossi e erra a letra da música "Garçom" foi um dos melhores do programa de estréia.
O horário em que o "Megatom" vai ao ar é que talvez não seja tão bom assim. Às quatro da tarde, o humorista tem de tomar cuidado para não recorrer a palavrões, piadas de duplo sentido e afins. Afinal, o objetivo do humorístico é agradar a pais e filhos na acirrada disputa pela audiência dominical. Por isso mesmo, os melhores momentos do "Megatom" foram aqueles em que Tom deixou o "roteiro" de lado e fez o que melhor sabe: o improviso. No quadro em que interpreta Carmela, a mãe de Adão e a sogra de Eva, Tom não conseguiu resistir ao sumário figurino utilizado pela atriz Isadora Ribeiro e brincou: "Isadora, você está maravilhosa!". Divertida também foi a hora em que o humorista entrou num arremedo de calhambeque e bronqueou ao não encontrar o papel com a "cola" no lugar em que havia deixado: "Puxa, tiraram o papel que eu ia ler daqui!".
O simples fato de oferecer uma opção de humor num dia infestado por programas de auditório já é um ponto a favor para Tom Cavalcante. Talvez por isso, "Megatom" tenha alcançado 37 pontos no Ibope contra apenas seis do SBT, que normalmente briga palmo a palmo no horário. O humorista só não pode transformar os textos que a equipe de roteiristas escreve numa camisa-de-força. Quando se propõe a falar sério ou a ler piadas no "teleprompter" do teatro, Tom Cavalcante chega a lembrar o João Kléber do "Te Vi na Tevê", da Rede TV!. Ao contrário da maioria dos artistas do gênero, Tom canta, dança, imita e faz graça. Não é à toa que ele tem uma banda à disposição no palco do Teatro Ópera, em São Paulo, para qualquer eventualidade. Afinal, fazer o que der na telha é o que o público espera sempre de um bom humorista.


Crônica

MAGRIELA

Salim Miguel

Praia da Cachoeira do Bom Jesus. Vai para vinte dias. Vinham do banho de mar minha mulher, três netos, uma neta, uma nora, um filho. Eis que se interpõe entre eles um bichinho, feio, miúdo, ágil, magro. Tentam afastá-lo. Em vão, aceleram o passo. Ele também. Recuam. O bichinho idem. Afinal se dão por vencidos e ele os acompanha até a casa. No dia seguinte já era o dono. Passeava por tudo, sala, copa, cozinha, quartos, meu escritório, investigando os livros, por trás dos discos, um dia se postou em cima da eletrola, por certo insatisfeito com a música que tocava. Todos se apaixonaram por ele, buscaram um nome. E só então se deram conta de que não era ele; era ela. Não sei quem se decidiu por Magriela ­ e Magriela ficou sendo.
Quando, quando? Meia-dúzia de dias depois? Um dos netos estava brincando com Magriela em uma das peças da casa, quando a neta se depara com Magriela no jardim. Impossível! Seria um clone? Talvez o bichano (será que já disse que era da família dos gatos de telhado?) rapidamente tivesse se deslocado da peça para o jardim, sem que a primeira criança se tivesse dado conta. Não! Eram mesmo dois, quase do mesmo tamanho, da mesma cor, pretos com pequenas manchas brancas (e aí fiquei sabendo, ignorante em gataria que sou, que enquanto os machos só podem ter duas cores, as gatas, mais vaidosas, ostentam até três). Este não pôde ser também incorporado, tinha dono, o menino Mateus, filho de uma vizinha, mas praticamente se transferiu para a nossa casa.
Sou obrigado, aqui, a interromper este relato partindo para outro paralelo. Gatos fazem parte da família. Minha mulher, Eglê, afirma convictamente que eles têm mais personalidade do que os cães, que logo, apodados "os melhores amigos do homem", se tornam bajuladores. Os gatos até podem se apegar às pessoas, porém jamais são submissos. Quem sou eu para contrariá-la.
Não tenho como falar de todos os que atravessaram nossa vida. Simbolizo-os em dois. Começo pela paradigmática Garota, que ditava regras na casa. Surgiu quando ainda morávamos no Rio de Janeiro, num apartamento na rua Senador Eusébio, Flamengo. De que maneira não sei. Poderia perguntar pra minha mulher. Prefiro deixar a coisa assim meio solta, evanescente. Surgiu. Se apossou de toda a família. Até eu, meio avesso a bichanos, acabei me entregando. Garota gostava de se postar à janela do apartamento e ficar observando o movimento. Certo dia, num descuido impensável naquele bicho de sete vidas e tão ágil, despencou. Sumiu. Em vão foi procurada. O que teria acontecido? Caíra em outra casa, fora atropelada, se apavorara e sumira? A busca durou dias. Todos já se conformavam, em meio a choradeiras, quando lá de baixo, de uma garagem em outro prédio, se ouvem miados. Eglê não teve dúvidas: são da Garota. E eu: onde se viu, reconhecer miados! Eram. Foi resgatada. E em 1979, quando retornamos para Florianópolis, lá estava ela no avião nos acompanhando.
Passou a levar uma vida dupla: verão nesta mesma casa de praia na Cachoeira do Bom Jesus; inverno no apartamento da Carvoeira. E em ambos logo se adaptou, tão ou mais rapidamente do que nós.
Garota era dada a aventuras, inclusive românticas. Teve vários casos e deixou numerosa prole. Na casa de praia sumia ­ sumiços rápidos. Mas no apartamento houve um episódio em tudo semelhante ao do Rio: ela despencou da janela, só que aqui nosso apartamento não dava para a rua, esteve dias sumida até que certa noite minha mulher ouve uns miados e de forma taxativa afirma: "É a Garota!". Desta vez não retruquei nem duvidei. Era.
Eis que certo dia, como sói acontecer com todos os mortais, a velhinha Garota se foi. Está enterrada no fundo do quintal, mas permanece numas fotos e na memória dos que a conheceram.
Antes de retomar minha historinha original, relato rapidamente só um episódio ligado a Karpovinho (claro que o nome é uma referência ao jogador de xadrez Karpov, famosíssimo na época), filho da Garota. Foi ele incorporado à família. Era imenso, todo preto, lustroso, malandrão e molenga ­ e tinha o desplante de escolher para suas intermináveis dormidas minha barriga, quando eu estava estirado lendo ou ouvindo música, conversando ou simplesmente pensando.
Em menos de vinte dias, Magriela já não fazia justiça ao nome, engordara, ela e seu clone, que passou a se chamar Magrielo. Os dois circulavam livremente pela casa, minha mulher já pensava num modo de levá-la para o apartamento.
Atriz nômade
Em seis anos de carreira, Joana Limaverde, a Marina de "Vila Madalena", já trabalhou em quatro emissoras.  AN_Tevê 
Faz hoje exatamente uma semana fomos, manhãzinha, debaixo de um temporal inigualável, levar nossa neta até o aeroporto. Na volta, lá estava Magrielo, insofrido, como quem busca algo. E Magriela, cadê Magriela? Foi procurada, em vão, pela casa, pelos arredores. Até que, num lado da casa, lá estava ela. Morta. Insondável o que pode ter acontecido. Na noite anterior, até quase meia-noite, estivera toda sestrosa, brincando com seu parceiro ou com as crianças.
Dela não temos fotos. Mas foi enterrada no fundo do quintal, quem sabe próxima da Garota. E por certo a memória de sua passagem tão curta entre nós suprirá as fotos.

Manchetes AN

Das últimas edições de Anexo
23/02 - Ele só quer causar polêmica
22/02 - Lições de pureza e rigor com Lívio Abramo
21/02 - O centenário do cineasta surreal
20/02 - Para não morrer de curiosidade
19/02 - Crise no cinema leva MinC a mudar regras
18/02 - "Por favor, qualquer coisa em português"
17/02 - Os círculos viciosos da avareza

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A grandeza do
The Clash no palco

Usina sonora do glorioso grupo punk mostra toda sua força no CD "From Here to Eternity"

Rubens Herbst

Joinville - "Nunca tinha visto nada como aquilo antes. Tenho visto milhares de bandas desde então e nada chega perto deles ao vivo, nada". (...) "O que eu vi naquela noite foi o mais excitante, alto e intenso concerto que já vi". Estes são alguns dos depoimentos presentes no encarte de "From Here to Eternity Live", primeiro disco ao vivo oficial da história do The Clash. De fato, só quem teve a sorte de ver a banda de perto pode testemunhar com precisão a tempestade sonora que devia promover o quarteto inglês num palco. Um pouco dessa fúria da natureza, no entanto, está a disposição neste singelo, porém essencial, CD de 17 faixas que chega agora às lojas.
Surgido em 1976, em Londres, o Clash formou com os Sex Pistols a principal dupla de ataque do punk britânico nos anos 70. Mas ao contrário de seus colegas, o grupo de Joe Strummer e Mick Jones continha lucidez suficiente para transformar suas canções em torpedos certeiros direcionados a governos, políticos, megacorporações e toda a sorte de instituição, pública ou privada, que de alguma forma explorava o homem comum e trabalhador. Nome recorrente em festivais beneficientes e panfletários, com seus membros não raro vestindo camisetas com slogans provocadores, as brigas eram quase inevitáveis nas apresentações da banda. A mensagem era pacífica, mas a música, jamais inofensiva.
"From Here to Eternity Live" dá uma clara demonstração desse poderio, ainda que suas faixas não sigam ordem cronológica e apresentem a banda em dois momentos distintos: no auge da carreira, no período 78-81, quando o baterista era Topper Headon, e em 82, quando era Terry Chimes quem segurava as baquetas e o fim já estava próximo. Retiradas de apresentações na Inglaterra e nos Estados Unidos - onde o quarteto enchia estádios e batia ponto nas paradas de sucessos -, as canções formam um painel bem definido do que era o Clash: uma banda furiosa e engajada, porém de grande apuro técnico e decidida a alargar os limites do punk rock, se aventurando por estilos diversos como o reggae, o bebop e o pop.
O disco é bom de arrancada. O início é demolidor, arremessando tijolos como "Complete Control", "London's Burning", "Clash City Rockers", "Capitol Radio" e seguindo nesse embalo até "I Fought the Law", clássico de Sonny Curtis gravado anteriormente por Bobby Fuller. Depois disso, o freio é acionado e o outro lado do grupo - aquele que ajudou a forjar a chamada new wave - aparece: as dançantes "Train in Vain" e "London Calling", os reggaes "Armagideon Time" e "Guns of Brixton", a funkeada "The Magnificent Seven", todas ganchudas e ferozes. Já o hit "Should I Stay or Should I Go" é a concessão ao mercado - afinal, o disco está aí para vender. Termina com "Straight to Hell", uma "balada" de espasmos guitarrísticos e espinha dorsal rhythm'n'blues com rasos sete minutos.
Mais do que um belo disco, "From Here to Eternity Live" pode ser o estopim que faltava para acender a febre "The Clash". Nomes como No Doubt, Silverchair e Rancid prestaram sua homenagem à banda no bom tributo "Burning London", lançado no ano passado, "Rock the Casbah" e "Should I Stay..." vivem nas listas radiofônicas e o relançamento da discografia da banda é uma possibilidade. Mas que tudo isso não sirva para trazer o Clash de volta aos palcos, como aconteceu com os Pistols. Estragaria a magia.

"From Here to Eternity Live", disco ao vivo do The Clash. Lançamento: Sony/Epic. Onde encontar: Rock Total Discos, rua Henrique Meyer, 68, fone (0xx47) 422-2788. Preço: R$ 23,90.


Banda Beijo faz folia
com outros estilos

REGIS MALLMANN

Florianópolis - Às vésperas do Carnaval, a Universal coloca no mercado o novo disco da baiana Banda Beijo, grupo que tem na espevitada vocalista Gil sua principal figura. É na cantora que são apostadas todas as fichas desse trabalho, que diz ao que veio até no nome. "Meu Nome É Gil" se transforma num CD em que a intérprete domina a cena, deixando a banda mesmo apenas como acompanhante das estripulias musicais apresentadas ao longo dos cerca de 50 minutos de gravação dominados pelo ritmo axé, com alguns rompantes em que ela decide navegar por outros estilos. O resultado surpreende porque mostra uma cantora afinada, que não necessita ficar gritando e mandando a galera pular para se fazer ouvir.
Essa versatilidade desconhecida de Gil acontece quando ela abre janelas para um estilo que não é nem um pouco relacionado ao que vem mostrando desde seu aparecimetno no cenário nacional. Numa tentativa de mostrar que é muito mais do que uma animadora de trios elétricos, ela leva ao disco um pouco de interpretação macia, por exemplo, para uma música que dificilmente alguém toparia cantar sem alterar o jeito com o que o próprio autor, Renato Russo, a apresentava. O resultado de "Tempo Perdido", com levadas suaves de bossa, faz de Gil uma promessa num outro universo.
Outra música que sai do circuito Carnaval da Bahia é "Deixa", assinada por Anderson Cunha e que revela um romantismo escondido quando canta "em plena multidão/sigo tua direção/nem lembro mais do que fiz/pra perseguir teu olhar..." Em entrevista ao Anexo, por telefone, Gil explica essa inclusão romântica num disco que é marcadamente "carnavalesco. "Era um desejo meu mostrar esse meu lado", diz, acrescentando que no caso de "Tempo Perdido" era uma vontade antiga. "Desde que eu cantava em bares, na noite de Salvador, dizia que um dia gravaria essa canção, que todos pediam para eu interpretar".
Gil acredita que nenhum artista deve parar no tempo, ficar fazendo eternamente a mesma coisa. "É preciso se reciclar", aponta. Essa versatilidade sempre se traduziu numa necessidade de variar o repertório. "Sempre fui uma cantora muito eclética", revela, justificando porque optou por colocar "outras coisas" no novo CD.

MAMONAS

Falando desse ecletismo, Gil aproveita para explicar o que a levou a incluir um pout-pourri de músicas dos Mamonas Assassinas - "Pelados em Santos", "Bois Don't Cry" e "Vira, Vira". "Antes dos Titãs terem gravado 'Pelados em Santos' eu já tinha essa idéia", adianta, afirmando que é uma homenagem justa a um grupo que "ficou na saudade do povo". Como homenagem pode ate ser válida, mas nada que não fosse dispensável num trabalho que, apesar do avanço por outras praias, vai ser lembrado mesmo é pelo ritmo axé. Talvez num outro trabalho, em que a cantora dedique-se de corpo e alma a outros estilos, consiga reconhecimento mais justo de críticos que costumam colocar todas as cantoras desse gênero num mesmo saco.

Outros lançamentos

"Josh's Blair Witch Mix" (vários) - Esta não é a trilha sonora de "A Bruxa de Blair", já que o filme nem trilha tinha. Para manter a aura de "filme-verdade", os produtores inventaram que a seleção foi tirada de uma fita encontrada no carro de Josh, um dos jovens que desaparecem durante a gravação de um documentário. Tirando a balela, a coletânea segura o clima de horror e angústia do longa, por meio de tecno fantasmagórico (Skinny Puppy, Public Image Ltd., Front Line Assembly, Meat Beat Manifesto) e rascunhos góticos (Lydia Lunch, Bauhaus, The Creatures, Tones on Tail). Mas é durante "God is God" (Laibach), "Beware" (Afghan Whigs) e "Haunted" (Type O Negative) que os calafrios são mais pronunciados (Roadrunner). (RH)

"Sub Suites" (Antoine Trauma) - Em pouco menos de 13 minutos, Antoine Trauma (Maxxx, vocalista da Iconoclásticos, em projeto solo) resolve uma sinfonia claustrofóbica, incômoda e nada convencional, dividindo-a em nove pequenas "Submission Suites" feitas de ruídos digitais, loops diversos de bateria eletrônica, saamples e vocais esparsos. É experimentalismo sônico na sua versão mais individualista, acessível apenas aos ouvidos iniciados - aqueles que podem até mesmo levar a sério a derradeira ironia de "Makushi's End" (Hipocampo). (Gleber Pieniz)

"The Best of Bond... James Bond 007" (Vários) - Do tema clássico do agente pela Monty Norman Orchestra à inconfundível Shirley Bassey em "Goldfinger" e "Diamonds are Forever", este é o melhor e mais atualizado apanhado de canções-título de 007. Fiel à filmografia, o disco também registra deslizes como "For Your Eyes Only" (com Sheena Easton) e "Nobody Does it Better" (com Carly Simon), mas prima pela sofisticação pura: de Louis Armstrong a Sheryl Crow, passando por Duran Duran, A-ha e até o canastrão Tom Jones, todos reverenciam Bond com aqueles arranjos requintados que enchem a sala - em casa ou no cinema - de eletricidade (EMI). (GP)

"Latino 2000" (Latino) - Latino voltou. A versão 2000 não parece o Cantinflas, continua não sabendo cantar e está atirando pra todo o lado: usa bases pesadas ("Suzana" e "Dancê"), violões ("Solidão é Demais") e até flerta com os breakbeats ("Chicletinho"). É quando abre a boca, no entanto, que Latino estraga tudo: em letra e interpretação, "Pega Ê", "Mulher Blau Blau" e "Só Quero com Você" falam por si. "Ninfetinha", o melô do papa-fetos, então, é trash! De pessoal, seu trabalho só tem a falta de talento. O resto são coisas emprestadas de Vinny, Amado Batista, Spandau Ballet, Roupa Nova e até (caso de "Reveillon") o finado Raulzito (Abril Music). (GP)  

"Ciganinha" (Sérgio Cardoso) - Velho conhecido dos programas e caravanas do Bolinha, o cantor paranaense (atualmente radicado em São Paulo) chega ao quarto disco entoando o amor em meio a romantismo brega, canções de levada country e arrasta-pés competentes. Os problemas de gravação, com flagrantes oscilações de voz e instrumentos, não chegam a atrapalhar, já que o objetivo desse tipo de música é animar bailões onde dançar, namorar e beber cerveja são palavras de ordem. E, afinal, o que "Feiticeira", "Vou Varar a Madrugada" e "Cinderela" ficam a dever aos grandes sucessos de Rio Negro e Solimões e quetais? (Independente). (RH)


Novo Oasis tem
pré-lançamento em Florianópolis

Joinville - Ao mesmo tempo em que aterrisa nas lojas do mundo inteiro, o novo disco da banda inglesa Oasis, "Standing on the Shoulders of the Giants" tem pré-lançamento neste final de semana em Florianópolis. Numa promoção conjunta com a Sony Music, a loja CD Company do calçadão da Felipe Schmidt abrirá especialmente neste domingo, entre 18 e 20 horas, para acabar com a ansiedade dos fãs do grupo. "Standing on the Shoulders of the Giants" tem colhido ótimas críticas na imprensa internacional e será lançado oficialmente no dia 28 de fevereiro.


Cinema

O curta-metragem "E no Meio Passa um Trem", que ganhou três kikitos no Festival de Gramado, vai representar o Brasil no Festival Internacional de Tampere, na Finlândia. Oitenta títulos, de cerca de 30 países, participarão do evento, que acontece entre 8 e 12 de março.

 
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