Joinville         -          Terça-feira, 4 de Janeiro de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  

















"Baguás", Os negros
reprodutores de São Miguel

No século 19, escravos eram executados se engravidassem escravas sem serem "credenciados"

Ozias Alves Jr
Especial o Anexo

Em março de 1844, um escravo negro de Três Riachos pagou com a vida por ter engravidado uma escrava de uma fazenda de São Miguel, Biguaçu. Parece absurdo, mas aconteceu. É o que conta Jaime Coutinho, 78 anos, um dos cidadãos mais antigos da comunidade de São Miguel, lembrando-se de antigas histórias contadas de geração a geração.

A execução do negro "Rafael" foi registrada e consta em vários livros sobre a história do município de Biguaçu. No entanto, no documento, não se informava o motivo da sentença do escravo. Os historiadores especulam que, para receber a pena capital, o escravo deve ter assassinado seu senhor. Errado, testemunha Jaime Coutinho. O escravo foi sentenciado à morte porque não era "baguá", isto é, o "garanhão" credenciado para engravidar escravas.

O infeliz teve o azar de o dono da escrava engravidada reclamar para seu senhor. Este último resolveu "dar uma lição" ao escravo Rafael. Sua condenação à morte serviria de exemplo aos outros escravos que viessem a "se engraçar" com as escravas sem a autorização dos donos delas.

Por que tamanho castigo? Os senhores de escravos da região de Biguaçu no século 19 pensavam que, se as escravas fossem engravidadas por escravos desobedientes, os filhos dessa união puxariam a índole do pai, isto é, tornar-se-iam desobedientes. Daí os senhores selecionarem os "machos" de suas escravas. Esses "garanhões" eram chamados de "baguás", informa Coutinho, lembrando de velhas histórias de sua mãe Maria da Rocha Linhares (dona Lola, 1900-1996) e outros parentes seus nascidos no século passado, hoje falecidos.

Negros de classe

No século 19, os negros não eram considerados gente. Tanto é que sequer tinham sobrenome. O costume é o mesmo de hoje com relação a cachorros, gatos e outros bichos. Por acaso, alguém dá sobrenomes aos animais? Sendo considerados "animais", os senhores faziam o mesmo que fazem hoje criadores de éguas de raça: não permitem que suas éguas sejam emprenhadas por "pangarés", mas por garanhões de alta linhagem escolhidos a dedo. Afinal, os criadores de cavalos de raça querem prole puro sangue tal como os senhores de engenho do século passado desejavam escravinhos fortes e obedientes como os pais "baguás".

Quem eram os "baguás"? Eram os "negros de classe", como eram chamados na época os escravos obedientes e serviçais. Cada senhor tinha seu(s) escravo(s) preferido(s). Estes escoltavam os senhores em suas andanças. Muitas vezes eram tão fiéis ao patrão que denunciavam os companheiros que tramassem alguma coisa contra o senhor. Por isso, os "negros de classe" gozavam de regalias. Não faziam o trabalho duro da roça como os outros escravos. Muitas vezes, em retribuição, o senhor dava a permissão ao "negro de classe" virar "baguá". Mas para ser "baguá" não bastava ser obediente. Era preciso também ser forte e robusto. Se o escravo fosse fiel e robusto, a promoção para "baguá" era rápida.

Segundo Jaime Coutinho, o ritual do "engravidamento" começava com o senhor mandando as escravas irem para o "mato". Logo depois chamava o "baguá". Dava o nome das escravas e ordenava: "Vá capinar com elas". Entendido o recado, o "baguá" partia para a "missão", embrenhando-se na mata atrás das escravas indicadas pelo senhor.

Não se sabe se as escravas resistiam ou cumpriam a "ordem" sem protestar. O fato é que, meses depois, os escravinhos nasciam. Conforme Coutinho, muitos dos filhos dos "baguás" eram vendidos para capitães de navios vindos da Argentina e Paraguai que paravam em São Miguel para abastecer-se de água, vinda de um aqueduto que avançava vários metros após a praia. As crianças eram trocadas por carne.

EXECUÇÃO

Beleza selvagem
A atriz Alessandra Negrini se despojou da sensualidade que a marcou em "Engraçadinha" para interpretar uma mulher forte na macrossérie "A Muralha".  AN_Tevê 
Rafael era um escravo de apenas 18 anos. Não se sabe os detalhes de como Rafael veio a conhecer e engravidar a escrava de São Miguel. Sabe-se, segundo Jaime, que o escravo saiu de sua fazenda de Três Riachos, subiu a serra, indo parar em São Miguel.

O escrivão esqueceu de mencionar o dia do enforcamento naquele março de 1844. A forca foi instalada no alto de um morro próximo à igreja matriz de São Miguel, ao redor de uma grande plantação de café. Nesse morro, fica hoje um belo casarão de propriedade da família Nass, do falecido farmacêutico de Biguaçu Helmut Nass.

A execução foi assistida pela população local. Muitos pais trouxeram seus filhos para assistir o "espetáculo", entre eles Thomé da Rocha Linhares, que levou seu filho Manoel, na época uma criança pequena. Thomé foi o primeiro superintendente de São Miguel (mais tarde Biguaçu), governando o município em 1833. Manoel é o avô materno de Jaime Coutinho. "Meu bisavó Thomé levou meu avô Manoel para assistir o enforcamento advertindo o filho a ser bonzinho", observa Jaime Coutinho.

A história sobre os "negros reprodutores" em São Miguel (hoje distrito do município de Biguaçu) é um tema inédito que nenhum historiador ainda explorou. Esse estudo dará, certamente, uma interessantíssima dissertação sobre a história da escravidão em Biguaçu, o quarto município mais antigo de Santa Catarina.

  • Ozias Alves Jr é jornalista.


"Castelo" dá arrancada no
último ano do milênio

Principal estréia brasileira, filme pode significar o primeiro passo para que o Ministério da Cultura atinja meta ambiciosa

Luiz Zanin Oricchio
Agência Estado

Uma das principais estréias do cinema brasileiro no ano 2000 ocorreu justamente no dia 1º: "Castelo Rá-Tim-Bum - O Filme", de Cao Hamburger, promete divertir as crianças sem aborrecer os adultos. Fórmula ideal (e dificilmente alcançada) pelos filmes infantis. De boa qualidade, bem lançado como está sendo, e com um pouco de sorte, "Castelo" pode dar início a uma boa arrancada para o cinema nacional neste último ano do milênio.

Esse bom começo seria o primeiro passo para que se alcance o objetivo do Ministério da Cultura para este ano: atingir 20% dos ingressos vendidos no País. Meta ambiciosa, quando se leva em conta os números dos anos anteriores: 5,15% em 1998 e cerca de 8,6% em 1999. No caso, os números não mentem. O cinema brasileiro tem avançado, ano a ano, e filmes não faltam para 2000.

O problema é outro. Alguns poucos títulos, de apelo popular porque estrelados por gente da TV, concentram grande parte da bilheteria. Para se ter idéia: "Simão, o Fantasma Trapalhão", com Renato Aragão, levou, sozinho, 1,6 milhões de pessoas ao cinema; "Zoando na TV", com a apresentadora Angélica, 900 mil; e "Orfeu", de Cacá Diegues, 980 mil.

Os outros todos ficam abaixo de 200 mil espectadores, como "Mauá, o Imperador e o Rei", de Sérgio Rezende, que, lançado em grande escala, fez 180 mil pagantes. Se no aspecto quantitativo a análise recomenda uma prudência otimista, no qualitativo as expectativas são melhores. Ocorrem, neste ano, estréias importantes, como "Lavoura Arcaica", de Luiz Fernando Carvalho; "Memórias Póstumas", de André Klotzel; "Amélia", de Ana Carolina; "Estorvo", de Ruy Guerra; e "Através da Janela", de Tata Amaral. Eles estão prontos ou em estágio avançado de finalização. Ninguém ainda os viu, com exceção das respectivas equipes técnicas. Mas pode-se apostar neles, ainda que toda aposta comporte risco de perda e decepção.

Promessas

"Lavoura Arcaica" tem sido cuidadosamente produzido por Carvalho para que seja uma adaptação à altura da obra-prima de Raduan Nassar, que refaz, à brasileira, a parábola do filho pródigo. Ruy Guerra ensaia uma versão radical do romance de Chico Buarque, reduzindo ao mínimo os diálogos e jogando todas as suas fichas na inventividade visual.

Depois de uma longa entressafra, a diretora Ana Carolina volta com "Amélia", relato ficcional da passagem da lendária atriz Sarah Bernhardt pelo País. Klotzel arrisca-se na recriação do romance de Machado de Assis, já adaptado anteriormente por Júlio Bressane. E Tata Amaral, em seu segundo longa-metragem, procura repetir o sucesso de crítica do primeiro, "Um Céu de Estrelas". Mais uma vez ela trabalha no universo fechado de personagens da classe média baixa paulistana.

Deve-se também prestar atenção nas "superproduções" brasileiras: "Villa-Lobos", de Zelito Vianna; "Chatô", de Guilherme Fontes; "Xangô de Baker Street", de Miguel Farias Jr.; e "Bossa Nova", de Bruno Barreto. Filmes caros, feitos para o grande público, mas que podem conciliar bilheteria com qualidade. A conferir.

Preço convidativo
Desde seu lançamento, em junho de 99, a Scénic RT 1.6 vem contribuindo para aumentar as vendas da Renault no Brasil.  AN_Veículos 
Há ainda outros filmes, em diferentes estágios de produção, que vão disputar o estreito mercado de exibição do ano: "Gêmeas e Eu", "Tu, Eles", ambos de Andrusha Waddington; "Cronicamente Inviável", de Sérgio Bianchi, "Amores Possíveis", de Sandra Werneck, "História do Grilo Feliz", desenho animado de Valbercy Ribas, "Um Certo Dorival Caymmi", de Aluísio Didier; "Hans Staden", de Luiz Alberto Pereira; "Milagre em Juazeiro", de Wolney Oliveira; "Cruz e Sousa, o Poeta do Desterro", de Sylvio Back; "Condenados à Liberdade", de Emiliano Ribeiro; "O Filme da TV", de Roberto Moreira; "Eu não Conhecia Tururu", de Florinda Bolkan; "A Terceira Morte de Joaquim Bolívar", de Flávio Cândido; "Brava Gente Brasileira", de Lúcia Murat; e "Sobras em Obras", de Michel Favre.

O cinema brasileiro pode chegar ao fim do milênio com cerca de 30 títulos lançados no circuito comercial. É uma perspectiva positiva. Mas não dá, antes da colheita, para afirmar se a safra será histórica. Isso só os filmes dirão.


Turma de Charlie Brown

Nova York - O cartunista norte-americano Charles Schultz disse "adeus" a seus seguidores na última tira da célebre série de histórias em quadrinhos "Peanuts", publicada ontem. Essa foi a despedida definitiva de Charlie Brown, Snoopy e todos os seus companheiros de aventuras.

O "alter ego" de Schultz foi precisamente Snoopy. O cão de orelhas caídas estava em sua casinha escrevendo um uma máquina. O texto é o seguinte: "Tive sorte. Desenhei Charlie Brown e seus amigos por quase 50 anos." A tira foi publicada ontem em diversos jornais dos Estados Unidos.

Schultz, de 77 anos, despediu-se dos quadrinhos após receber um diagnóstico de câncer de cólon.


Internet transforma
a leitura de jornais

Antoine Froidefond
France Presse

Paris - Será o ano 2000 o princípio do fim dos jornais? A informação através da imprensa escrita ainda tem vida longa, estimam os especialistas, mas a Internet está transformado totalmente a leitura e a função do jornalismo neste setor.

Criar um site na rede é hoje em dia etapa obrigatória para qualquer jornal importante. A maioria dos grandes jornais mundiais dispõe agora de equipes próprias para a redação de sua versão eletrônica. Michael Golden, primeiro vice-presidente da New York Times Company, acha que "não deve haver estratégias separadas para o papel, o audiovisual e a Internet".

No entanto, a web apresenta características muito diferentes das do jornal impresso. Antes de tudo, oferece uma grande quantidade de informações e, apesar de estar teoricamente dirigido ao maior número possível de leitores, como o jornal, um espaço eletrônico permite acesso a domínios muito especializados e cria, por isso mesmo, microclientelas de leitores.

Quando para o jornal o problema de espaço é crucial, na "Internet não existem limitações", indica Lorenz Lorenz-Meyer, chefe de redação a edição virtual da revista alemã "Der Spiegel", em um informe da Associação Mundial de Jornais (AMJ). A orientação do leitor no espaço eletrônico converteu-se numa "função crítica" por causa precisamente do volume de informações oferecido, acrescenta.

Em conseqüência dessa proliferação, um mesmo espaço eletrônico é freqüentado por públicos bem diferentes e que estão certos de encontrar muito mais informações sobre o tema que lhes interessa do que em um jornal impresso.

Além disso, alguns jornais apostaram na especialização, como o "Guardian", que oferece quatro espaços particulares (informações gerais, futebol, críquete e classificados). Em todos eles, somente 40% do conteúdo provêm da edição em papel, mas somente interessa a 10% dos leitores, explica, no mesmo informe da AMJ, Simon Waldman, um dos responsáveis pelas edições virtuais do jornal britânico. Ou seja, 90% dos leitores dos jornais na web são atraídos por informações que não figuram no jornal impresso.

A este público temático é preciso acrescentar os públicos étnicos ou geográficos. A web permite, de fato, chegar a leitores que se encontram no outro extremo do mundo. Os bretões emigrados consultam, por exemplo, o serviço eletrônico do "Télégramme de Brest" para ter notícias de sua região e seu povo.

Atualizadas

Outra diferença importante é que as informações difundidas pela rede podem ser atualizadas permanentemente. Em um jornal tradicional, a informação "envelhe como o papel", enquanto que "on-line" é um "meio em movimento", em permanente transformação, argumenta Bruno Giussani, cronista do "New York Times On Line", em um artigo publicado pela revista "Le Monde Diplomatique".

Outra transformação é a maneira que os artigos são lidos. Na Internet, o leitor pode clicar para obter textos em paralelo, passar para outros links e fazer comparações.

"O leitor é, portanto, livre para adotar uma leitura linear clássica ou efetuar um percurso individualizado e de acordo com seus desejos", indica Angelo Agostini, diretor do Instituto de Jornalismo da Bolônia (Itália).


Relação entre pais
e filhos abordada em livro

Júlio Gama
Agência Estado

Vida moderna, pais apressados, cada vez mais atarefados, atrás de mais dinheiro e, por conseqüência, mais distantes dos filhos: um descuido que muitos tentam compensar enchendo a criança de brinquedos caros. Foi observando uma cena exatamente como a descrita acima, que o jornalista e escritor Márcio Vassallo se inspirou para escrever seu segundo livro infantil, "O Príncipe sem Sonhos" (Editora Brinque-Book, 28 páginas, R$ 17,00). As ilustrações são de Mariana Massarani.

"O Príncipe sem Sonhos" conta a história de Thiago, que não consegue sonhar porque já tem tudo. "Mal o príncipe começava a sonhar, e pronto: os seus desejos se realizavam", escreve Vassallo. "Não chegavam nem a se tornar um sonho de verdade, daqueles que a gente cultiva com todo o cuidado, como uma semente preciosa, num jardim secreto, só nosso".

Súditos e amigos

E o pequeno príncipe tinha realmente tudo: uma coleção particular de unicórnios, dragões de estimação, fábricas de chicletes mágicos, tapetes voadores com piloto automático, amigos que gostavam dele, súditos que o serviam sem raiva, heranças e mais heranças. A resposta à angústia de Thiago estava no encontro dele com o seu avô, um bruxo aposentado que vivia longe das badalações do castelo.

Segundo Vassallo, a história de "O Príncipe sem Sonhos" nasceu quando, num dos shoppings mais sofisticados do Rio, ele viu um pai comprar seis brinquedos muito caros para o filho, um menino de oito anos. "O que mais me impressionou não foi a quantidade de brinquedos", conta o escritor. "Mas, quando o menino começava a namorar um brinquedo, o pai mandava a vendedora pôr na sacola e perguntava: 'Vai querer mais alguma coisa meu filho?'", continua. "Ele perguntava de um jeito carinhoso, mas apressado".

Ao final, o pai perguntou o valor da compra e assinou o cheque sem nem olhar para a cara do menino. "Enquanto isso, o garoto olhava para outras crianças, com um olhar meio parado e via que eles podiam sonhar em ter todos aqueles brinquedos, podiam sonhar com suas pequenas conquistas", resume Vassallo.

Feira

O primeiro livro infantil do escritor, "O Sapo Gazé e a Princesa Tiana", foi escolhido para fazer parte do catálogo de autores brasileiros na Feira do Livro de Bolonha, na Itália. "Adoro o texto do Márcio", diz a editora da Brinque-Book, Susana Tavares, que conheceu a história do príncipe publicada numa revista e achou que os dois livros do autor se completariam. "Um casa perfeitamente com o outro", diz.


Crônica

Terreno ruim

David Gonçalves

Poucos sabem o que se deu com uma família que habita o chapadão. Lá o chão é árido, quase nada dá; o milho mirradinho, o feijão mal brota e já queima. O sol arde. A miséria bate na porta e não arreda o pé: a danada gosta de terreno ruim. O povo que habita esta terra é gente miúda, magra, de olhos fundos e aparência cadavérica. Come lagarto, cobra venenosa e até caça lagartixas. O chão é cascalhento, o saibro é seco e amarelo. As cobras rastejam só durante a noite por causa do calor. Lá, quase não se vive e, por isso, vive-se de enfezado.

O velho era aleijado. Andava com dificuldade: apoiava-se numa lasca seca de madeira e assim labutava com a vida. Os filhos cresceram em estado de penúria, em torno de seis, cada um mais feio do que o outro; um até tem pêlos no corpo inteiro e anda encolhido, pulando, e não se sabe, ao longe, se é gente ou algum bicho. E pouco fala, senão grunhidos.

No meio do chapadão, há um lago; nas épocas de chuvas ele incha, engorda, os peixes proliferam, o que se dá apenas um mês por ano. Depois, o sol enxuga-o e deixa em areia e barro, catingando, que espanta até urubus afoitos. Pois os filhos, certo dia, quando o inverno principiou, e as águas tornam-se abundantes, decidiram levar o pai aleijado - que já era um traste e vivia caducando, de forma que era um fardo muito pesado - ao lago para andar de canoa e assim afundá-lo, pois a morte por imersão seria o caminho mais curto para passá-lo ao outro mundo.

- Pai - disse o filho mais velho -, nesta época do ano há muito peixe no lago...

- É sim, sempre teve... - murmurou o velho, a boca murcha, voz baixa.

- Vamos hoje ao lago. O ano será de fartura.

- Vamos sim, concordou o velho, a baba caindo pelos cantos dos lábios.

E assim foram. O pai e seus filhos. Andaram pelo chão árido dois dias, que mal absorvia a chuva rala, até que chegaram no local. Então o colocaram na canoa e quando estavam no meio das águas barrentas, jogaram-no de supetão. Mas as roupas do velho - puídas e ensebadas - não o deixaram afundar: ele flutuou, e pedia, desesperadamente, por socorro. Um de seus filhos, talvez o que o amasse muito, disse-lhe com muita ternura: "Pai, mergulha a cabeça, senão a gente vai ficar com remorsos".

Manchetes AN

Das últimas edições de Anexo
03/01 - Confissões de uma mulher madura
02/01 - "Dogma" reinterpreta a fé católica
31/12 - Ano 2000 é tema de livros para todos os gostos
30/12 - Bordando com 80 anos de experiência
29/12 - Homenagem aos doidos de pedra
28/12 - Abstrações de ex-arquiteto
27/12 - Morre o maestro Tibor Reisner

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Por uma televisão
de melhor qualidade

Especialista afirma que a programação precisa ser revista, com a união de sociedade e autoridades

Cleide Cavalcante
Agência Estado

Uma crítica aos atuais modelos de programação da televisão brasileira. Este é o tema central que Wagner Bezerra defende em "Manual do Telespectador Insatisfeito" (Editora Summus). Para ele, o momento exige uma profunda revisão de postura diante do papel social da TV. O pesquisador relaciona diversos aspectos negativos e positivos relacionados à TV, porém sinaliza para uma possibilidade de avanço deste importante e influente meio de comunicação, mas desde que haja mobilização conjunta da sociedade e de autoridades competentes.

Para Bezerra, a televisão é um mecanismo potente, capaz de desestruturar a família. Ele cita uma pesquisa com a qual constatou-se que 58% das famílias fazem as refeições e conversam com a TV ligada. Mais. "Sessenta e um por cento das novas gerações vêem mais TV durante as refeições. Ao dormir e acordar, em diversos casos, a TV gera a primeira e a última imagem do dia para milhões de pessoas, de um lado, pela informação canalizada pelos programas noticiosos, sugerindo a agenda dos temas principais que estarão presentes no cotidiano coletivo, e, de outro, pelo entretenimento, pela ficção das novelas e seus dramas intermináveis", destaca.

Segundo ele, o telespectador é um sobrevivente passivo de um mundo fictício, que não consegue perceber que "o sangue, o sexo ou o mau cheiro da violência que exala da TV pode o atingir de verdade". Mas, conforme Bezerra, a solução para não ser "contagiado" pelas emanações televisivas não é simplesmente desligar o aparelho de TV. O processo de qualificação da programação deve, sim, passar pela conscientização geral. "Esta é uma forma de pressionar aqueles que produzem os programas", afirma. Ele cita o artigo 220 da Constituição (parágrafo 3): "Compete a lei federal: Estabelecer meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no artigo 221 (...)" . "Artigo 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios: I - Preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; II - Promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua programação; III - Regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei; IV - Respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família".

Para Bezerra, campanhas tipo "Criança Esperança", da Rede Globo, "Teleton", do SBT, entre outras institucionais, comunitárias e beneficentes, são iniciativas isoladas que precisam ser intensificadas. "Quando se fala em papel social da TV e responsabilidade perante a sociedade, a primeira idéia que visualizamos é novamente o que anuncia a Constituição: '(...) a educação será prioridade', e entendemos como prioridade algo que está sempre em primeiro lugar", defende. "Nesse caso, o espaço dos programas ditos educativos deveria ser maior do que o das novelas, shows e filmes, por exemplo. Principalmente porque o que mais se vê como conteúdo destes é um misto de sexo, violência e desrespeito aos valores da família brasileira, incluindo-se os direitos da criança".

Citando uma afirmação do secretário nacional dos Direitos Humanos, José Gregory - "Não é preciso servir peixe podre para ter audiência" - Bezerra salienta que é perfeitamente viável a elaboração de uma programação de qualidade, com forte apelo popular, sem esbarrar na vulgaridade. "Como exemplo, temos a minissérie 'O Auto da Compadecida', exibida pela Rede Globo, que aferiu altos índices de audiência ofertando à população a cultura nordestina numa adaptação para TV do texto do poeta Ariano Suassuna", argumenta. Ele aponta a TVE Brasil e a TV Cultura como exemplos de parcerias de sucesso entre empresas públicas e privadas. "Estas emissoras têm conseguido implementar uma programação de qualidade, cuja maior concentração de público está nas classes D e E. O que nos permite imaginar que é viável produzir programas que consigam aliar a audiência, objetivo comum das emissoras e anunciantes, ao interesse público, resguardando a qualidade na programação e observando o que determina a Constituição quanto à função social da TV".

Pesquisa

Bezerra ressalta alguns trabalhos interessantes em seu livro, caso de uma pesquisa realizada em 23 países pelo professor Jo Grobel da Universidade de Utrecht, na Holanda. Os resultados: 44% das crianças não conseguem diferenciar a realidade do que vêem na telinha; as crianças passam 50% mais tempo vendo TV do que fazendo qualquer outra atividade fora da escola, como leitura, esporte, dever de casa, conversa com a família; em cada programa de uma hora exibido na TV, há entre cinco e dez ações violentas; o exterminador, interpretado pelo ator Arnold Schwazenegger no filme "O Exterminador do Futuro", é o principal herói de 88% das crianças. Cinqüenta por cento das que vivem em ambientes agressivos (guerra ou alto índice de criminalidade) gostariam de ser como ele; 47% das crianças que preferem conteúdo agressivo na mídia gostariam de se envolver em situações de risco.

O segundo levantamento, elaborado por uma organização não-governamental americana que cuida da educação de jovens, indica que: até os 12 anos, uma criança vai assistir em média a 8 mil assassinatos na TV; em 58% dos casos de violência mostrados pela TV a vítima não demonstra dor; em média, a cada hora em shows infantis, 26% são atos de violência; 75% das cenas de violência mostradas pela TV não têm como conseqüência punição por ato violento; em cada hora de TV os americanos presenciam 27 atos sexuais; 60% dos clipes da MTV mostram ao menos uma cena de violência.

Wagner Bezerra é especialista em políticas públicas pela Escola de Políticas Públicas e Governo da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É também publicitário, roteirista e diretor de programas de educação à distância, como "Plantão da Língua Portuguesa" e "TV Escola", da TV Educativa, do Rio de Janeiro.


Dercy Gonçalves dá o troco na Globo com novo programa

"Fala, Dercy" estréia no SBT como uma resposta da humorista a sua antiga emissora

Fernando Miragaya
TV Press

Para Dercy Gonçalves, a hora do revide chegou. Aos 92 anos, a veterana comediante promete soltar o verbo e seus famosos palavrões no "Fala, Dercy" e provar para a Globo que foi um desperdício deixá-la "encostada". Com sete décadas de carreira e depois de ficar sem aparecer no vídeo desde 98, Dercy estréia o novo programa semanal de uma hora no SBT hoje, às 22 horas, com bastante otimismo e ainda muito ressentida com a ex-emissora. Mesmo no horário nobre, a humorista acredita que vai dar uma resposta à Globo, emissora da qual saiu depois de 35 anos. "Estou satisfeita. Realizei a minha vontade de mostrar à Globo quem é a Dercy", desabafa.

A magoada humorista sempre fez questão de anunciar que queria trabalhar. Depois de cinco anos na Globo apenas fazendo esporádicas participações em programas como "Domingão do Faustão" e "Sai de Baixo", ela agora vai ter a oportunidade de provar sua disposição. "Nunca escondi que tenho necessidade de trabalhar e de ver esse trabalho exposto. Mas só me botavam para fazer participação merda", lamuria-se.

E trabalho não falta à comediante. Além de estrelar a atração semanal, Dercy Gonçalves assina o roteiro e participa ativamente de todo o processo de produção e direção. "Dei orientações até nos cenários e no guarda-roupa. Sou a chefe geral do programa e estou feliz com isso", valoriza Dercy. O envolvimento da humorista com o programa surpreendeu até mesmo ao diretor artístico do SBT, Eduardo Lafon. "Fiquei impressionado com a disposição de trabalho dela. É uma grande profissional", desmancha-se Lafon.

O estilo de Dercy, porém, provocou problemas no início. Ela conta que encontrou pessoas importantes da direção do SBT que não compreendiam a sua forma de trabalhar. A humorista dá sugestões sobre tudo e procura orientar a equipe para que o programa fique do seu jeito, o que acabou desagradando algumas pessoas dentro da emissora, acostumadas a uma rotina de trabalho diferente. "Mas passei o meu jeito e felizmente tudo correu bem", garante.

Coincidência ou não, o "Fala, Dercy", inicialmente previsto para estrear em novembro passado, foi adiado para janeiro. O programa também iria ser exibido aos domingos, mas a emissora achou melhor colocá-lo no horário nobre. Dercy garante que esse adiamento nada teve a ver com as diferenças iniciais entre ela e componentes da diretoria do SBT. "O programa só vai estrear agora pois é o Sílvio Santos quem decide. Porra, ele é imprevisível, não faz rodeios", avalia.

As desavenças de início podem ter sido motivadas também pelo estilo direto e sem papas na língua de Dercy. Quando não concorda com o trabalho, a humorista não pensa duas vezes em fazer críticas a quem quer que seja. Quando ainda estava na Globo, por exemplo, não titubeou em falar no "Domingão do Faustão" que ganhava "salário de paquita". Dercy não poupa nem mesmo as produções da nova emissora. Indagada se iria participar do humorístico "A Praça é Nossa", a comediante descartou de forma categórica: "Sou muito grande para 'A Praça'", detona.

Mas Dercy faz rodeios quanto ao novo programa. Ela não conversa muito sobre o "Fala, Dercy", limitando-se apenas a dizer que é uma produção de comédia e variada. "É um programa que nunca se viu no Brasil", exagera. A única certeza é que a atração semanal vai ter vários quadros nos quais Dercy interpreta diferentes personagens e contracena com outros atores. "É comédia, porra", tenta definir em poucas palavras a humorista.

Com seu inconfundível estilo desbocado, Dercy também tenta esconder a ansiedade com a estréia do programa. Para ela, não há grandes mistérios em fazer comédia na televisão. Já em relação à audiência, a humorista garante não estar nem um pouco preocupada com a neurótica guerra pelos índices do Ibope. "O SBT não estabeleceu metas de audiência. Ninguém nem esperava que uma mulher de 92 anos fosse estruturar todo um programa", gaba-se.

 
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