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ANotícia
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"Baguás",
Os negros
reprodutores de São Miguel
No século
19, escravos eram executados se engravidassem escravas sem serem
"credenciados"
Ozias Alves Jr
Especial o Anexo
Em
março de 1844, um escravo negro de Três Riachos
pagou com a vida por ter engravidado uma escrava de uma fazenda
de São Miguel, Biguaçu. Parece absurdo, mas aconteceu.
É o que conta Jaime Coutinho, 78 anos, um dos cidadãos
mais antigos da comunidade de São Miguel, lembrando-se
de antigas histórias contadas de geração
a geração.
A execução do negro "Rafael" foi registrada
e consta em vários livros sobre a história do município
de Biguaçu. No entanto, no documento, não se informava
o motivo da sentença do escravo. Os historiadores especulam
que, para receber a pena capital, o escravo deve ter assassinado
seu senhor. Errado, testemunha Jaime Coutinho. O escravo foi
sentenciado à morte porque não era "baguá",
isto é, o "garanhão" credenciado para
engravidar escravas.
O infeliz teve o azar de o dono da escrava engravidada reclamar
para seu senhor. Este último resolveu "dar uma lição"
ao escravo Rafael. Sua condenação à morte
serviria de exemplo aos outros escravos que viessem a "se
engraçar" com as escravas sem a autorização
dos donos delas.
Por que tamanho castigo? Os senhores de escravos da região
de Biguaçu no século 19 pensavam que, se as escravas
fossem engravidadas por escravos desobedientes, os filhos dessa
união puxariam a índole do pai, isto é,
tornar-se-iam desobedientes. Daí os senhores selecionarem
os "machos" de suas escravas. Esses "garanhões"
eram chamados de "baguás", informa Coutinho,
lembrando de velhas histórias de sua mãe Maria
da Rocha Linhares (dona Lola, 1900-1996) e outros parentes seus
nascidos no século passado, hoje falecidos.
Negros de classe
No século 19, os negros não eram considerados
gente. Tanto é que sequer tinham sobrenome. O costume
é o mesmo de hoje com relação a cachorros,
gatos e outros bichos. Por acaso, alguém dá sobrenomes
aos animais? Sendo considerados "animais", os senhores
faziam o mesmo que fazem hoje criadores de éguas de raça:
não permitem que suas éguas sejam emprenhadas por
"pangarés", mas por garanhões de alta
linhagem escolhidos a dedo. Afinal, os criadores de cavalos de
raça querem prole puro sangue tal como os senhores de
engenho do século passado desejavam escravinhos fortes
e obedientes como os pais "baguás".
Quem eram os "baguás"? Eram os "negros
de classe", como eram chamados na época os escravos
obedientes e serviçais. Cada senhor tinha seu(s) escravo(s)
preferido(s). Estes escoltavam os senhores em suas andanças.
Muitas vezes eram tão fiéis ao patrão que
denunciavam os companheiros que tramassem alguma coisa contra
o senhor. Por isso, os "negros de classe" gozavam de
regalias. Não faziam o trabalho duro da roça como
os outros escravos. Muitas vezes, em retribuição,
o senhor dava a permissão ao "negro de classe"
virar "baguá". Mas para ser "baguá"
não bastava ser obediente. Era preciso também ser
forte e robusto. Se o escravo fosse fiel e robusto, a promoção
para "baguá" era rápida.
Segundo Jaime Coutinho, o ritual do "engravidamento"
começava com o senhor mandando as escravas irem para o
"mato". Logo depois chamava o "baguá".
Dava o nome das escravas e ordenava: "Vá capinar
com elas". Entendido o recado, o "baguá"
partia para a "missão", embrenhando-se na mata
atrás das escravas indicadas pelo senhor.
Não se sabe se as escravas resistiam ou cumpriam a
"ordem" sem protestar. O fato é que, meses depois,
os escravinhos nasciam. Conforme Coutinho, muitos dos filhos
dos "baguás" eram vendidos para capitães
de navios vindos da Argentina e Paraguai que paravam em São
Miguel para abastecer-se de água, vinda de um aqueduto
que avançava vários metros após a praia.
As crianças eram trocadas por carne.
EXECUÇÃO
Beleza selvagem
A atriz Alessandra Negrini se despojou da sensualidade que a
marcou em "Engraçadinha" para interpretar uma
mulher forte na macrossérie "A Muralha".
AN_Tevê |
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Rafael era um escravo de apenas 18 anos. Não
se sabe os detalhes de como Rafael veio a conhecer e engravidar
a escrava de São Miguel. Sabe-se, segundo Jaime, que o
escravo saiu de sua fazenda de Três Riachos, subiu a serra,
indo parar em São Miguel.
O escrivão esqueceu de mencionar o dia do enforcamento
naquele março de 1844. A forca foi instalada no alto de
um morro próximo à igreja matriz de São
Miguel, ao redor de uma grande plantação de café.
Nesse morro, fica hoje um belo casarão de propriedade
da família Nass, do falecido farmacêutico de Biguaçu
Helmut Nass.
A execução foi assistida pela população
local. Muitos pais trouxeram seus filhos para assistir o "espetáculo",
entre eles Thomé da Rocha Linhares, que levou seu filho
Manoel, na época uma criança pequena. Thomé
foi o primeiro superintendente de São Miguel (mais tarde
Biguaçu), governando o município em 1833. Manoel
é o avô materno de Jaime Coutinho. "Meu bisavó
Thomé levou meu avô Manoel para assistir o enforcamento
advertindo o filho a ser bonzinho", observa Jaime Coutinho.
A história sobre os "negros reprodutores"
em São Miguel (hoje distrito do município de Biguaçu)
é um tema inédito que nenhum historiador ainda
explorou. Esse estudo dará, certamente, uma interessantíssima
dissertação sobre a história da escravidão
em Biguaçu, o quarto município mais antigo de Santa
Catarina.
- Ozias Alves Jr é jornalista.
"Castelo" dá arrancada
no
último ano do milênio
Principal estréia
brasileira, filme pode significar o primeiro passo para que o
Ministério da Cultura atinja meta ambiciosa
Luiz Zanin Oricchio
Agência Estado
Uma das principais estréias do cinema brasileiro no
ano 2000 ocorreu justamente no dia 1º: "Castelo Rá-Tim-Bum
- O Filme", de Cao Hamburger, promete divertir as crianças
sem aborrecer os adultos. Fórmula ideal (e dificilmente
alcançada) pelos filmes infantis. De boa qualidade, bem
lançado como está sendo, e com um pouco de sorte,
"Castelo" pode dar início a uma boa arrancada
para o cinema nacional neste último ano do milênio.
Esse bom começo seria o primeiro passo para que se
alcance o objetivo do Ministério da Cultura para este
ano: atingir 20% dos ingressos vendidos no País. Meta
ambiciosa, quando se leva em conta os números dos anos
anteriores: 5,15% em 1998 e cerca de 8,6% em 1999. No caso, os
números não mentem. O cinema brasileiro tem avançado,
ano a ano, e filmes não faltam para 2000.
O problema é outro. Alguns poucos títulos, de
apelo popular porque estrelados por gente da TV, concentram grande
parte da bilheteria. Para se ter idéia: "Simão,
o Fantasma Trapalhão", com Renato Aragão,
levou, sozinho, 1,6 milhões de pessoas ao cinema; "Zoando
na TV", com a apresentadora Angélica, 900 mil; e
"Orfeu", de Cacá Diegues, 980 mil.
Os outros todos ficam abaixo de 200 mil espectadores, como
"Mauá, o Imperador e o Rei", de Sérgio
Rezende, que, lançado em grande escala, fez 180 mil pagantes.
Se no aspecto quantitativo a análise recomenda uma prudência
otimista, no qualitativo as expectativas são melhores.
Ocorrem, neste ano, estréias importantes, como "Lavoura
Arcaica", de Luiz Fernando Carvalho; "Memórias
Póstumas", de André Klotzel; "Amélia",
de Ana Carolina; "Estorvo", de Ruy Guerra; e "Através
da Janela", de Tata Amaral. Eles estão prontos ou
em estágio avançado de finalização.
Ninguém ainda os viu, com exceção das respectivas
equipes técnicas. Mas pode-se apostar neles, ainda que
toda aposta comporte risco de perda e decepção.
Promessas
"Lavoura Arcaica" tem sido cuidadosamente produzido
por Carvalho para que seja uma adaptação à
altura da obra-prima de Raduan Nassar, que refaz, à brasileira,
a parábola do filho pródigo. Ruy Guerra ensaia
uma versão radical do romance de Chico Buarque, reduzindo
ao mínimo os diálogos e jogando todas as suas fichas
na inventividade visual.
Depois de uma longa entressafra, a diretora Ana Carolina volta
com "Amélia", relato ficcional da passagem da
lendária atriz Sarah Bernhardt pelo País. Klotzel
arrisca-se na recriação do romance de Machado de
Assis, já adaptado anteriormente por Júlio Bressane.
E Tata Amaral, em seu segundo longa-metragem, procura repetir
o sucesso de crítica do primeiro, "Um Céu
de Estrelas". Mais uma vez ela trabalha no universo fechado
de personagens da classe média baixa paulistana.
Deve-se também prestar atenção nas "superproduções"
brasileiras: "Villa-Lobos", de Zelito Vianna; "Chatô",
de Guilherme Fontes; "Xangô de Baker Street",
de Miguel Farias Jr.; e "Bossa Nova", de Bruno Barreto.
Filmes caros, feitos para o grande público, mas que podem
conciliar bilheteria com qualidade. A conferir.
Preço convidativo
Desde seu lançamento, em junho de 99, a Scénic
RT 1.6 vem contribuindo para aumentar as vendas da Renault no
Brasil.
AN_Veículos |
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Há ainda outros filmes, em diferentes
estágios de produção, que vão disputar
o estreito mercado de exibição do ano: "Gêmeas
e Eu", "Tu, Eles", ambos de Andrusha Waddington;
"Cronicamente Inviável", de Sérgio Bianchi,
"Amores Possíveis", de Sandra Werneck, "História
do Grilo Feliz", desenho animado de Valbercy Ribas, "Um
Certo Dorival Caymmi", de Aluísio Didier; "Hans
Staden", de Luiz Alberto Pereira; "Milagre em Juazeiro",
de Wolney Oliveira; "Cruz e Sousa, o Poeta do Desterro",
de Sylvio Back; "Condenados à Liberdade", de
Emiliano Ribeiro; "O Filme da TV", de Roberto Moreira;
"Eu não Conhecia Tururu", de Florinda Bolkan;
"A Terceira Morte de Joaquim Bolívar", de Flávio
Cândido; "Brava Gente Brasileira", de Lúcia
Murat; e "Sobras em Obras", de Michel Favre.
O cinema brasileiro pode chegar ao fim do milênio com
cerca de 30 títulos lançados no circuito comercial.
É uma perspectiva positiva. Mas não dá,
antes da colheita, para afirmar se a safra será histórica.
Isso só os filmes dirão.
Turma de Charlie Brown
Nova York - O cartunista norte-americano Charles Schultz disse
"adeus" a seus seguidores na última tira da
célebre série de histórias em quadrinhos
"Peanuts", publicada ontem. Essa foi a despedida definitiva
de Charlie Brown, Snoopy e todos os seus companheiros de aventuras.
O "alter ego" de Schultz foi precisamente Snoopy.
O cão de orelhas caídas estava em sua casinha escrevendo
um uma máquina. O texto é o seguinte: "Tive
sorte. Desenhei Charlie Brown e seus amigos por quase 50 anos."
A tira foi publicada ontem em diversos jornais dos Estados Unidos.
Schultz, de 77 anos, despediu-se dos quadrinhos após
receber um diagnóstico de câncer de cólon.
Internet transforma
a leitura de jornais
Antoine Froidefond
France Presse
Paris - Será o ano 2000 o princípio do fim dos
jornais? A informação através da imprensa
escrita ainda tem vida longa, estimam os especialistas, mas a
Internet está transformado totalmente a leitura e a função
do jornalismo neste setor.
Criar um site na rede é hoje em dia etapa obrigatória
para qualquer jornal importante. A maioria dos grandes jornais
mundiais dispõe agora de equipes próprias para
a redação de sua versão eletrônica.
Michael Golden, primeiro vice-presidente da New York Times Company,
acha que "não deve haver estratégias separadas
para o papel, o audiovisual e a Internet".
No entanto, a web apresenta características muito diferentes
das do jornal impresso. Antes de tudo, oferece uma grande quantidade
de informações e, apesar de estar teoricamente
dirigido ao maior número possível de leitores,
como o jornal, um espaço eletrônico permite acesso
a domínios muito especializados e cria, por isso mesmo,
microclientelas de leitores.
Quando para o jornal o problema de espaço é
crucial, na "Internet não existem limitações",
indica Lorenz Lorenz-Meyer, chefe de redação a
edição virtual da revista alemã "Der
Spiegel", em um informe da Associação Mundial
de Jornais (AMJ). A orientação do leitor no espaço
eletrônico converteu-se numa "função
crítica" por causa precisamente do volume de informações
oferecido, acrescenta.
Em conseqüência dessa proliferação,
um mesmo espaço eletrônico é freqüentado
por públicos bem diferentes e que estão certos
de encontrar muito mais informações sobre o tema
que lhes interessa do que em um jornal impresso.
Além disso, alguns jornais apostaram na especialização,
como o "Guardian", que oferece quatro espaços
particulares (informações gerais, futebol, críquete
e classificados). Em todos eles, somente 40% do conteúdo
provêm da edição em papel, mas somente interessa
a 10% dos leitores, explica, no mesmo informe da AMJ, Simon Waldman,
um dos responsáveis pelas edições virtuais
do jornal britânico. Ou seja, 90% dos leitores dos jornais
na web são atraídos por informações
que não figuram no jornal impresso.
A este público temático é preciso acrescentar
os públicos étnicos ou geográficos. A web
permite, de fato, chegar a leitores que se encontram no outro
extremo do mundo. Os bretões emigrados consultam, por
exemplo, o serviço eletrônico do "Télégramme
de Brest" para ter notícias de sua região
e seu povo.
Atualizadas
Outra diferença importante é que as informações
difundidas pela rede podem ser atualizadas permanentemente. Em
um jornal tradicional, a informação "envelhe
como o papel", enquanto que "on-line" é
um "meio em movimento", em permanente transformação,
argumenta Bruno Giussani, cronista do "New York Times On
Line", em um artigo publicado pela revista "Le Monde
Diplomatique".
Outra transformação é a maneira que os
artigos são lidos. Na Internet, o leitor pode clicar para
obter textos em paralelo, passar para outros links e fazer comparações.
"O leitor é, portanto, livre para adotar uma leitura
linear clássica ou efetuar um percurso individualizado
e de acordo com seus desejos", indica Angelo Agostini, diretor
do Instituto de Jornalismo da Bolônia (Itália).
Relação entre pais
e filhos abordada em livro
Júlio Gama
Agência Estado
Vida moderna, pais apressados, cada vez mais atarefados, atrás
de mais dinheiro e, por conseqüência, mais distantes
dos filhos: um descuido que muitos tentam compensar enchendo
a criança de brinquedos caros. Foi observando uma cena
exatamente como a descrita acima, que o jornalista e escritor
Márcio Vassallo se inspirou para escrever seu segundo
livro infantil, "O Príncipe sem Sonhos" (Editora
Brinque-Book, 28 páginas, R$ 17,00). As ilustrações
são de Mariana Massarani.
"O Príncipe sem Sonhos" conta a história
de Thiago, que não consegue sonhar porque já tem
tudo. "Mal o príncipe começava a sonhar, e
pronto: os seus desejos se realizavam", escreve Vassallo.
"Não chegavam nem a se tornar um sonho de verdade,
daqueles que a gente cultiva com todo o cuidado, como uma semente
preciosa, num jardim secreto, só nosso".
Súditos e amigos
E o pequeno príncipe tinha realmente tudo: uma coleção
particular de unicórnios, dragões de estimação,
fábricas de chicletes mágicos, tapetes voadores
com piloto automático, amigos que gostavam dele, súditos
que o serviam sem raiva, heranças e mais heranças.
A resposta à angústia de Thiago estava no encontro
dele com o seu avô, um bruxo aposentado que vivia longe
das badalações do castelo.
Segundo Vassallo, a história de "O Príncipe
sem Sonhos" nasceu quando, num dos shoppings mais sofisticados
do Rio, ele viu um pai comprar seis brinquedos muito caros para
o filho, um menino de oito anos. "O que mais me impressionou
não foi a quantidade de brinquedos", conta o escritor.
"Mas, quando o menino começava a namorar um brinquedo,
o pai mandava a vendedora pôr na sacola e perguntava: 'Vai
querer mais alguma coisa meu filho?'", continua. "Ele
perguntava de um jeito carinhoso, mas apressado".
Ao final, o pai perguntou o valor da compra e assinou o cheque
sem nem olhar para a cara do menino. "Enquanto isso, o garoto
olhava para outras crianças, com um olhar meio parado
e via que eles podiam sonhar em ter todos aqueles brinquedos,
podiam sonhar com suas pequenas conquistas", resume Vassallo.
Feira
O primeiro livro infantil do escritor, "O Sapo Gazé
e a Princesa Tiana", foi escolhido para fazer parte do catálogo
de autores brasileiros na Feira do Livro de Bolonha, na Itália.
"Adoro o texto do Márcio", diz a editora da
Brinque-Book, Susana Tavares, que conheceu a história
do príncipe publicada numa revista e achou que os dois
livros do autor se completariam. "Um casa perfeitamente
com o outro", diz.
Crônica
Terreno ruim
David Gonçalves
Poucos sabem o que se deu com uma família que habita
o chapadão. Lá o chão é árido,
quase nada dá; o milho mirradinho, o feijão mal
brota e já queima. O sol arde. A miséria bate na
porta e não arreda o pé: a danada gosta de terreno
ruim. O povo que habita esta terra é gente miúda,
magra, de olhos fundos e aparência cadavérica. Come
lagarto, cobra venenosa e até caça lagartixas.
O chão é cascalhento, o saibro é seco e
amarelo. As cobras rastejam só durante a noite por causa
do calor. Lá, quase não se vive e, por isso, vive-se
de enfezado.
O velho era aleijado. Andava com dificuldade: apoiava-se numa
lasca seca de madeira e assim labutava com a vida. Os filhos
cresceram em estado de penúria, em torno de seis, cada
um mais feio do que o outro; um até tem pêlos no
corpo inteiro e anda encolhido, pulando, e não se sabe,
ao longe, se é gente ou algum bicho. E pouco fala, senão
grunhidos.
No meio do chapadão, há um lago; nas épocas
de chuvas ele incha, engorda, os peixes proliferam, o que se
dá apenas um mês por ano. Depois, o sol enxuga-o
e deixa em areia e barro, catingando, que espanta até
urubus afoitos. Pois os filhos, certo dia, quando o inverno principiou,
e as águas tornam-se abundantes, decidiram levar o pai
aleijado - que já era um traste e vivia caducando, de
forma que era um fardo muito pesado - ao lago para andar
de canoa e assim afundá-lo, pois a morte por imersão
seria o caminho mais curto para passá-lo ao outro mundo.
- Pai - disse o filho mais velho -, nesta época
do ano há muito peixe no lago...
- É sim, sempre teve... - murmurou o velho,
a boca murcha, voz baixa.
- Vamos hoje ao lago. O ano será de fartura.
- Vamos sim, concordou o velho, a baba caindo pelos cantos
dos lábios.
E assim foram. O pai e seus filhos. Andaram pelo chão
árido dois dias, que mal absorvia a chuva rala, até
que chegaram no local. Então o colocaram na canoa e quando
estavam no meio das águas barrentas, jogaram-no de supetão.
Mas as roupas do velho - puídas e ensebadas - não
o deixaram afundar: ele flutuou, e pedia, desesperadamente, por
socorro. Um de seus filhos, talvez o que o amasse muito, disse-lhe
com muita ternura: "Pai, mergulha a cabeça, senão
a gente vai ficar com remorsos".
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| Manchetes AN |
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| Leia também |

Por uma televisão
de melhor qualidade
Especialista
afirma que a programação precisa ser revista, com
a união de sociedade e autoridades
Cleide Cavalcante
Agência Estado
Uma crítica aos atuais modelos de programação
da televisão brasileira. Este é o tema central
que Wagner Bezerra defende em "Manual do Telespectador Insatisfeito"
(Editora Summus). Para ele, o momento exige uma profunda revisão
de postura diante do papel social da TV. O pesquisador relaciona
diversos aspectos negativos e positivos relacionados à
TV, porém sinaliza para uma possibilidade de avanço
deste importante e influente meio de comunicação,
mas desde que haja mobilização conjunta da sociedade
e de autoridades competentes.
Para Bezerra, a televisão é um mecanismo potente,
capaz de desestruturar a família. Ele cita uma pesquisa
com a qual constatou-se que 58% das famílias fazem as
refeições e conversam com a TV ligada. Mais. "Sessenta
e um por cento das novas gerações vêem mais
TV durante as refeições. Ao dormir e acordar, em
diversos casos, a TV gera a primeira e a última imagem
do dia para milhões de pessoas, de um lado, pela informação
canalizada pelos programas noticiosos, sugerindo a agenda dos
temas principais que estarão presentes no cotidiano coletivo,
e, de outro, pelo entretenimento, pela ficção das
novelas e seus dramas intermináveis", destaca.
Segundo ele, o telespectador é um sobrevivente passivo
de um mundo fictício, que não consegue perceber
que "o sangue, o sexo ou o mau cheiro da violência
que exala da TV pode o atingir de verdade". Mas, conforme
Bezerra, a solução para não ser "contagiado"
pelas emanações televisivas não é
simplesmente desligar o aparelho de TV. O processo de qualificação
da programação deve, sim, passar pela conscientização
geral. "Esta é uma forma de pressionar aqueles que
produzem os programas", afirma. Ele cita o artigo 220 da
Constituição (parágrafo 3): "Compete
a lei federal: Estabelecer meios legais que garantam à
pessoa e à família a possibilidade de se defenderem
de programas ou programações de rádio e
televisão que contrariem o disposto no artigo 221 (...)"
. "Artigo 221. A produção e a programação
das emissoras de rádio e televisão atenderão
aos seguintes princípios: I - Preferência a finalidades
educativas, artísticas, culturais e informativas; II -
Promoção da cultura nacional e regional e estímulo
à produção independente que objetive sua
programação; III - Regionalização
da produção cultural, artística e jornalística,
conforme percentuais estabelecidos em lei; IV - Respeito aos
valores éticos e sociais da pessoa e da família".
Para Bezerra, campanhas tipo "Criança Esperança",
da Rede Globo, "Teleton", do SBT, entre outras institucionais,
comunitárias e beneficentes, são iniciativas isoladas
que precisam ser intensificadas. "Quando se fala em papel
social da TV e responsabilidade perante a sociedade, a primeira
idéia que visualizamos é novamente o que anuncia
a Constituição: '(...) a educação
será prioridade', e entendemos como prioridade algo que
está sempre em primeiro lugar", defende. "Nesse
caso, o espaço dos programas ditos educativos deveria
ser maior do que o das novelas, shows e filmes, por exemplo.
Principalmente porque o que mais se vê como conteúdo
destes é um misto de sexo, violência e desrespeito
aos valores da família brasileira, incluindo-se os direitos
da criança".
Citando uma afirmação do secretário nacional
dos Direitos Humanos, José Gregory - "Não
é preciso servir peixe podre para ter audiência"
- Bezerra salienta que é perfeitamente viável a
elaboração de uma programação de
qualidade, com forte apelo popular, sem esbarrar na vulgaridade.
"Como exemplo, temos a minissérie 'O Auto da Compadecida',
exibida pela Rede Globo, que aferiu altos índices de audiência
ofertando à população a cultura nordestina
numa adaptação para TV do texto do poeta Ariano
Suassuna", argumenta. Ele aponta a TVE Brasil e a TV Cultura
como exemplos de parcerias de sucesso entre empresas públicas
e privadas. "Estas emissoras têm conseguido implementar
uma programação de qualidade, cuja maior concentração
de público está nas classes D e E. O que nos permite
imaginar que é viável produzir programas que consigam
aliar a audiência, objetivo comum das emissoras e anunciantes,
ao interesse público, resguardando a qualidade na programação
e observando o que determina a Constituição quanto
à função social da TV".
Pesquisa
Bezerra ressalta alguns trabalhos interessantes em seu livro,
caso de uma pesquisa realizada em 23 países pelo professor
Jo Grobel da Universidade de Utrecht, na Holanda. Os resultados:
44% das crianças não conseguem diferenciar a realidade
do que vêem na telinha; as crianças passam 50% mais
tempo vendo TV do que fazendo qualquer outra atividade fora da
escola, como leitura, esporte, dever de casa, conversa com a
família; em cada programa de uma hora exibido na TV, há
entre cinco e dez ações violentas; o exterminador,
interpretado pelo ator Arnold Schwazenegger no filme "O
Exterminador do Futuro", é o principal herói
de 88% das crianças. Cinqüenta por cento das que
vivem em ambientes agressivos (guerra ou alto índice de
criminalidade) gostariam de ser como ele; 47% das crianças
que preferem conteúdo agressivo na mídia gostariam
de se envolver em situações de risco.
O segundo levantamento, elaborado por uma organização
não-governamental americana que cuida da educação
de jovens, indica que: até os 12 anos, uma criança
vai assistir em média a 8 mil assassinatos na TV; em 58%
dos casos de violência mostrados pela TV a vítima
não demonstra dor; em média, a cada hora em shows
infantis, 26% são atos de violência; 75% das cenas
de violência mostradas pela TV não têm como
conseqüência punição por ato violento;
em cada hora de TV os americanos presenciam 27 atos sexuais;
60% dos clipes da MTV mostram ao menos uma cena de violência.
Wagner Bezerra é especialista em políticas públicas
pela Escola de Políticas Públicas e Governo da
Universidade Federal do Rio de Janeiro. É também
publicitário, roteirista e diretor de programas de educação
à distância, como "Plantão da Língua
Portuguesa" e "TV Escola", da TV Educativa, do
Rio de Janeiro.
Dercy Gonçalves dá
o troco na Globo com novo programa
"Fala,
Dercy" estréia no SBT como uma resposta da humorista
a sua antiga emissora
Fernando Miragaya
TV Press
Para Dercy Gonçalves, a hora do revide chegou. Aos
92 anos, a veterana comediante promete soltar o verbo e seus
famosos palavrões no "Fala, Dercy" e provar
para a Globo que foi um desperdício deixá-la "encostada".
Com sete décadas de carreira e depois de ficar sem aparecer
no vídeo desde 98, Dercy estréia o novo programa
semanal de uma hora no SBT hoje, às 22 horas, com bastante
otimismo e ainda muito ressentida com a ex-emissora. Mesmo no
horário nobre, a humorista acredita que vai dar uma resposta
à Globo, emissora da qual saiu depois de 35 anos. "Estou
satisfeita. Realizei a minha vontade de mostrar à Globo
quem é a Dercy", desabafa.
A magoada humorista sempre fez questão de anunciar
que queria trabalhar. Depois de cinco anos na Globo apenas fazendo
esporádicas participações em programas como
"Domingão do Faustão" e "Sai de
Baixo", ela agora vai ter a oportunidade de provar sua disposição.
"Nunca escondi que tenho necessidade de trabalhar e de ver
esse trabalho exposto. Mas só me botavam para fazer participação
merda", lamuria-se.
E trabalho não falta à comediante. Além
de estrelar a atração semanal, Dercy Gonçalves
assina o roteiro e participa ativamente de todo o processo de
produção e direção. "Dei orientações
até nos cenários e no guarda-roupa. Sou a chefe
geral do programa e estou feliz com isso", valoriza Dercy.
O envolvimento da humorista com o programa surpreendeu até
mesmo ao diretor artístico do SBT, Eduardo Lafon. "Fiquei
impressionado com a disposição de trabalho dela.
É uma grande profissional", desmancha-se Lafon.
O estilo de Dercy, porém, provocou problemas no início.
Ela conta que encontrou pessoas importantes da direção
do SBT que não compreendiam a sua forma de trabalhar.
A humorista dá sugestões sobre tudo e procura orientar
a equipe para que o programa fique do seu jeito, o que acabou
desagradando algumas pessoas dentro da emissora, acostumadas
a uma rotina de trabalho diferente. "Mas passei o meu jeito
e felizmente tudo correu bem", garante.
Coincidência ou não, o "Fala, Dercy",
inicialmente previsto para estrear em novembro passado, foi adiado
para janeiro. O programa também iria ser exibido aos domingos,
mas a emissora achou melhor colocá-lo no horário
nobre. Dercy garante que esse adiamento nada teve a ver com as
diferenças iniciais entre ela e componentes da diretoria
do SBT. "O programa só vai estrear agora pois é
o Sílvio Santos quem decide. Porra, ele é imprevisível,
não faz rodeios", avalia.
As desavenças de início podem ter sido motivadas
também pelo estilo direto e sem papas na língua
de Dercy. Quando não concorda com o trabalho, a humorista
não pensa duas vezes em fazer críticas a quem quer
que seja. Quando ainda estava na Globo, por exemplo, não
titubeou em falar no "Domingão do Faustão"
que ganhava "salário de paquita". Dercy não
poupa nem mesmo as produções da nova emissora.
Indagada se iria participar do humorístico "A Praça
é Nossa", a comediante descartou de forma categórica:
"Sou muito grande para 'A Praça'", detona.
Mas Dercy faz rodeios quanto ao novo programa. Ela não
conversa muito sobre o "Fala, Dercy", limitando-se
apenas a dizer que é uma produção de comédia
e variada. "É um programa que nunca se viu no Brasil",
exagera. A única certeza é que a atração
semanal vai ter vários quadros nos quais Dercy interpreta
diferentes personagens e contracena com outros atores. "É
comédia, porra", tenta definir em poucas palavras
a humorista.
Com seu inconfundível estilo desbocado, Dercy também
tenta esconder a ansiedade com a estréia do programa.
Para ela, não há grandes mistérios em fazer
comédia na televisão. Já em relação
à audiência, a humorista garante não estar
nem um pouco preocupada com a neurótica guerra pelos índices
do Ibope. "O SBT não estabeleceu metas de audiência.
Ninguém nem esperava que uma mulher de 92 anos fosse estruturar
todo um programa", gaba-se.
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