Joinville         -          Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  


















Atentados
Rebeldes catarinenses provocam incêndio em 1914, iniciando a revolta contra o governo do País
Fotos: Reproduções AN

O messianismo que
ensangüentou o Contestado

Mesmo massacrados, os guerrilheiros de João Maria honraram o século catarinense com apelo místico, radicalismo e ousadia revolucionária

Paulo Ramos Derengoski
Especial para o Anexo

A duplicidade entre o fato e o argumento, entre o sono e o sonho, entre o real e o imaginário, entre o consciente e o inconsciente sempre foi uma característica dos apocalípticos, dos catastróficos, dos profetas do caos, dos adventistas do "Millenium". É só isso que os mantém suspensos entre o céu e a terra - entre o inferno e o paraíso.
Em todo o mundo, das várzeas lamacentas do Tibete aos abismos do delírio místico de Machu Pichu, atravessando os desertos ressequidos da Palestina ou as montanhas escarpadas do Tibete, as promessas messiânicas - seus paraísos e seus infernos - nunca se destinaram a indivíduos isolados, mas, sim, às grandes coletividades. Os messias são pretensiosos, abrangentes e totalizantes (e totalitários). O reino milenarista sempre foi - sempre será - um reino futuro: pelo qual se espera, em expectativa mística, em respeito, em genuflexão, em sofrimento, em dor e em purgação.
Mas o messianismo dos carrascais de Santa Catarina, que explodiu em revolta no início do século na região contestada ao Paraná, também olhava para o passado. Tinha saudades doentias dos tempos de ouro da monarquia, das barbas de dom Pedro 2º e tentava inutilmente reproduzir uma ilusória Idade Média, com suas legiões de molambentos a se arrastar nos pátios que rodeavam os burgos e os artesanatos.

Repressores
Tropas governamentais posam para foto: militares rechaçaram com vigor a revolta no Contestado; batalha fez mais de dez mil vítimas


Ao contrário de quase todos os movimentos messiânicos do mundo - e neste sentido se identifica com a poderosa saga de Antonio Conselheiro lá nos sertões do Cocorobó, nas margens esturricadas do Vaza Barris, no grande sertão de Canudos - a insurreição catarinense afirmou-se também como uma força prática, imediata, objetiva, radical, transformadora. E não apenas uma força passiva, de inércia, conformismo ou resignação. Essa a sua grande característica inovadora -e eu ousaria dizer: revolucionária. Daí também seu apelo místico tremendo e seu caráter extremamente violento para um povo bom e cordial como o nosso: mais de dez mil mortos, feridos ou estropiados.
Para os jagunços fanatizados do Contestado Paraná-Santa Catarina, a vinda próxima do reino milenarista não apenas coincidiria com o fim dos tempos, mas também significaria o restabelecimento do paraíso perdido sobre a face cruel de uma terra sempre varrida pelo inverno eterno da pobreza, do atraso, da ignorância e do desprezo. A insurreição religiosa do Contestado parecia-lhes a chuva da primavera depois das queimadas de agosto, fazendo rebrotar os campos limpos.
No entanto, quer queiram ou não, todo reino messiânico acaba por aspirar à eternidade. E mais: busca a forma absoluta, a salvação total, a pureza. E acabam por adquirir todos o mesmo aspecto totalitário. Primeiro surgem os profetas, depois vem a reencarnação do Verbo e, finalmente, os discípulos se agrupam em seita para o assalto aos céus trilhando os caminhos luminosos. E tem início a tragédia.
Por isso, todos aqueles que acreditam que o paraíso um dia possa ser estabelecido na face cruel da terra devastada, acabam por se ajuntar para atingir - por meio da ação - os benefícios que almejam. E como não conseguem transformar a realidade, enlouquecem à beira dos precipícios e das grotas do delírio místico. Ouvindo o vento que vem do passado...

Em guerra
Os jagunços avançam pelos campos do Contestado: insurreição religiosa contra a pobreza, o atraso, a ignorância e o desprezo do governo brasileiro

Flagelo de Deus

Os jagunços do Contestado, místicos e delirantes, nada mais fizeram do que dormir e sonhar sob a noite pesada do tempo. Sonharam e dormiram um viscoso sono de morte, durante o qual transformaram um caboclo andrajoso como eles mesmos num deus: "São" João Maria, o profeta dos carrascais. Seus pesadelos, dos quais nunca acordaram, estavam repletos de imagens fantasmagóricas, ao mesmo tempo ingênuas e cruéis, obsessivas e difusas, a voar sob uma atmosfera quase irrespirável. E quando acordaram - se é que acordaram - confundiram a realidade do mundo com suas horrorosas fantasias psíquicas.
Assim, durante a saga do Contestado, depois da irresistível ascensão de Adeodato, o surto messiânico descambou para o banditismo. Em delírios de grandezas, o rei dos carrascais, o imperador sertanejo das trovas, emboladas e entreveros, na verdade apressou o desmoronamento do universo milenarista e apocalíptico: ele próprio (paranóico total) chegou a se auto-intitular "o flagelo de Deus".
E concluo sobre o Contestado: em torno dos profetas sertanejos (João Maria e José Maria) constitui-se a congregação religiosa. Em torno dos organizadores (Elias de Moraes, Aleixo Gonçalves e Castelhano) constituíram-se os redutos da resistência. Mas ao redor do déspota (Adeodato) surgiu a desagregação.

Contra-ataque
Oligarquias do Estado da época recorreram a matadores para dar cabo dos rebeldes


O desmoronamento do mundo milenarista dos jagunços do planalto catarinense diante das bem armadas tropas de Setembrino de Carvalho e Estillac Leal arrastou na derrota os sonhos dos primeiros visionários (os "santos"), a esperança dos ingênuos (o "populacho") e a frustração dos desesperados (os "chefetes").
Os cablocos do Contestado catarinense viveram e morreram com ilusões. Esperando o dia do juízo final - do "Millenium" - da hora da morte. Daquele momento em que tudo é nada. Transcorridos setenta anos de sua revolta, eles continuam a empreitar a única terra que é dada aos errantes: o roçado da morte - o único que a eles compensou cultivar.
Pois ali eles próprios são adubo, semente e colheita.


Começa a primeira
edição do Artes da Catarina

Projeto vai levar atrações culturais aos balneários

Itapema - Começa esta noite, com a apresentação do grupo Engenho na Meia Praia, a primeira edição do projeto itinerante Artes da Catarina, parceria da Fundação Catarinense de Cultura (FCC) e do Serviço Social da Indústria (Sesi) que se propõe a levar atrações artísticas para espetáculos ao ar livre em balneários catarinenses durante o verão.
Cada uma das sete cidades incluídas no projeto terá apresentações às sextas, sábados e domingos, sempre às 20 horas. A atração de amanhã em Itapema será a peça teatral "A Farsa do Advogado Pathelin", do grupo Teatro Sim, Por Que Não?, e no domingo é a vez da banda Brasil Papaya. No próximo final de semana, o projeto estará em Balneário Camboriú, seguindo depois para São Francisco do Sul, Florianópolis, Piçarras, Penha e Navegantes, numa programação que se estende até o final de fevereiro.
O grupo Nosso Choro também faz parte do projeto, revezando-se com as demais atrações musicais. Cada grupo recebe R$ 1 mil por apresentação. Não serão cobrados ingressos e a expectativa é reunir a média de 8 mil pessoas por espetáculo.
Beleza selvagem
A atriz Alessandra Negrini se despojou da sensualidade que a marcou em "Engraadinha" para interpretar uma mulher forte na macrossrie "A Muralha". AN_Tev
O palco será uma carreta-baú do Sesi, com carroceria de 13,6 metros de comprimento, 4,2 metros de altura e 2,6 metros de largura, resultando em 30 metros quadrados de área livre. A estrutura está equipada com cenário, camarim e possui 10 mil watts de som e 35 mil watts de luz. Do custo de R$ 120 mil previsto para todo o projeto, R$ 41 mil serão desembolsados pela FCC. Ao Sesi cabe, além da cessão da carreta e do pessoal de operação, o pagamento dos direitos autorais e produção de parte do material promocional. As prefeituras das cidades envolvidas no projeto cuidam da hospedagem e alimentação dos grupos e disponibilizam pontos de luz e água nos locais da apresentações.
O diretor-geral da Fundação, Iaponan Soares, diz que o projeto atenderá a uma necessidade revelada por muitos turistas que visitam o Estado e que gostariam de ter mais opções culturais, especialmente no período noturno. "A parceria com o Sesi é nossa primeira experiência para preencher essa lacuna e, também, mostrar um pouco da cultura de Santa Catarina a quem escolhe o Estado para passar a temporada de verão", afirma Iaponan.


Livro apresenta fatos
pitorescos de Criciúma

Criciúma - Pequenos trechos da rica história de Criciúma, seus casos, personagens e fatos pitorescos, fazem parte do livro "Criciúma, Orgulho de Cidade! Fragmentos da História de seus 120 Anos", do jornalista Archimedes Naspolini Filho. O lançamento foi ontem, no calçadão do balneário Rincão, em Içara. A escolha pelo município vizinho é explicada: "O balneário foi fundado por criciumenses e o lançamento foi uma forma de homenagem", disse o autor.
Nas 226 páginas do livro, Naspolini relata as histórias que vem contando no programa sobre os 120 anos de fundação de Criciúma. O programa vem sendo apresentado na rádio Eldorado, em dois ou três minutos diários, desde o dia 1º de julho de 1999. A última história foi ao ar ontem, quando foram comemorados os 120 anos de fundação do município. "Tudo o que foi contado nos programas consta no livro", afirma Naspolini.
Mas, nem tudo o que consta na história foi possível publicar. "Quando estava concluindo o livro, já tinha material para iniciar outra publicação, e é isso que estou fazendo", informa ele. O segundo volume já está sendo produzido e deverá ser lançado até o dia 4 de novembro deste ano.
Para conseguir elaborar os textos, o jornalista conversou com descendentes das etnias que ajudaram a colonizar Criciúma, historiadores e pessoas da comunidade, e pesquisou em livros. "As histórias não foram dispostas em uma ordem cronológica, mas apresentam fatos interessantes", ressalta.
Um deles, registra o primeiro acidente rodoviário da cidade, em 1937, quando um carro-de-bois que transportava carvão atropelou seu condutor, Gabriel Benedet. "Ele sofreu várias fraturas e acabou morrendo. Esse pode ser considerado o primeiro acidente rodoviário da cidade", ressalta Naspolini. O livro R$ 15,00.


Publicação reúne orações
de pessoas de 31 países

Cleide Cavalcante
Agência Estado

Uma coletânea de orações de pessoas das mais diferentes crenças e culturas. Uma mensagem de esperança às vésperas do terceiro milênio. É a proposta de "Orações para Mil Anos - Sugeridas por Líderes e Pessoas de Visão de Todo o Mundo" (Ed. Cultrix), de Elizabeth Roberts e Elias Amidon.
Para eles, este novo tempo sugere algumas indagações: "O que o próximo milênio reserva aos humanos e a toda a vida na Terra? Será que a vida humana num dia ignorada realizará nosso potencial espiritual e criativo, ou será que esse mundo se tornará um lugar mecanizado e desumano, regido pelo medo e pela opressão? O que esperamos que seja verdadeiro? O que estamos dispostos a fazer para chegar à verdade?."
Os autores selecionaram orações de pessoas de 31 países, de cristãos, judeus, muçulmanos, hindus, budistas, jainistas, taoístas, confucionistas, maias, maoris, africanos, sioux, eyaks, aborígenes australianos e outros grupos étnicos e religiosos. Foram textos escritos especialmente para a obra. "Evidentemente, as orações se prestam perfeitamente para concentrar as intenções durante os muitos períodos de comemoração do milênio que ocorrerão durante o momento do milênio - os anos de 1999, 2000 e 2001. Essas contudo, são orações para mil anos, não apenas para três anos", argumentam.
Muitas das orações são testemunhos de sofrimento e de esperança. "Estou cheio de esperança com relação ao futuro", revela o arcebispo Desmond Tutu, que completa: "Apesar de haver muita coisa contrária a isso, o mundo está se tornando um lugar mais dócil e seguro. Trata-se do mundo de Deus - Ele está no comando.".


"Malhação" não convence
com tom politicamente correto

Discussão de questões sociais viram brinquedo de adolescente na novelinha da Globo

Fernando Miragaya
TV Press

Quando todos os recursos para aumentar a audiência de "Malhação" pareciam esgotados, os roteiristas da novelinha vespertina da Globo conseguiram mais um pseudo-gancho. Agora, o remodelado folheteen assumiu um discurso politicamente correto. Após cinco anos, os rostinhos bonitos e corpos esculturais da antiga academia resolveram estudar e só agora parecem ter tomado consciência dos problemas do País. Os alienados personagens, eternamente desocupados, se espantaram com os mendigos e, para se sentirem úteis, resolveram ajudá-los.
"Malhação", então, incorporou um espírito assistencialista. Tatiana e Rodrigo, papéis de Priscila Fantin e Mário Frias, lideram a turma de jovens na ajuda aos menos favorecidos. Tudo porque se depararam com a figura simpática do mendigo Calota, interpretado por Othon Bastos. Com ar ingênuo, jeito engraçado e uma calota de Fusca na cabeça, o sujeito conquistou os mauricinhos e patricinhas da trama. Para mostrar como são preocupados com as vítimas sociais, deram roupas, fizeram campanhas para arrecadar alimentos e até arranjaram um emprego para Calota no restaurante mexicano do Mocotó, vivido por André Marques.
O problema é que questões sociais tão sérias, como a mendicância e as populações de rua, são encaradas de forma displicente e sob uma visão bizonhamente simplista. Arrecadar alimentos e dar oportunidades de emprego são válidas como mensagens para o telespectador. Porém, em vez de debater o problema de uma forma menos superficial, os personagens de "Malhação" tentam apontar a causa principal para tais mazelas sociais. Uns acham que lhes faltam oportunidades. Outros dizem que são vagabundos que não querem saber de trabalho. A questão serviu de diversão e ocupação para a garotada. Virou um brinquedinho de classe média.
No entanto, o caráter assistencialista não vai parar por aí. "Malhação", que voltou a adotar a fórmula de uma história a cada semana, vai destacar outras questões sociais. A próxima é Karen, personagem de Karine Teles, uma adolescente viciada em drogas que chega ao colégio para provocar o assunto. Depois do Calota, a turma do colégio vai ter mais uma pessoa e uma preocupação para ocupar as mentes, que não sejam as partidas de pólo aquático ou os namoricos.
Mas tão ruim quanto assistir a problemas sociais serem tratados de forma caricata e superficial é ver o desperdício de alguns atores em "Malhação". É triste ver o talento de artistas como Maria Padilha, que faz a Alberta, Lilia Cabral, que interpreta a Cláudia, e o próprio Othon Bastos servir a uma novela sem rumo e sem atrativos. Até atores mais jovens como Giovanna Antonelli, que vive a professora Isa, Licurgo Spínola, que faz o Vitor, e Samara Felippo, como Érika, mereciam um destino melhor.
Na verdade, "Malhação" parece ter virado o purgatório dos atores globais. Coincidência ou não, Maria Padilha e Nuno Leal Maia, que interpreta o professor Pasqualete, foram parar na novela vespertina depois de rejeitarem personagens em outras produções da emissora. Cruel castigo. Pior ainda o que ocorreu com Samara Felippo. A bela morena vinha num crescendo. Estreou em uma novela das seis, "Anjo Mau", fez uma trama das sete, "Meu Bem Querer", e emendou em "Suave Veneno", novela das oito. Quando tudo levava a crer que a colocariam em um papel de destaque em outra trama, foi parar em "Malhação". Uma autêntica ducha de água fria.
Agricultura
Aumento nos preos e a renegociao das dvidas no garantiram melhoria da situao no campo. AN_Economia
Na verdade, quem precisa de assistência é "Malhação". Apesar dos esforços, a novela mal consegue ultrapassar os 20 pontos no Ibope. Além disso, parece tomate de feira e vive passando de mão em mão entre os diretores da Globo. Boninho, Roberto Talma e Ignácio Coqueiro já assinaram a direção do moribundo folheteen. Na última transformação de "Malhação", em outubro, assumiu Ricardo Waddington, prometendo uma história mais dinâmica. Nada mudou e agora o abacaxi vai parar nas mãos de Marcos Paulo, que promete uma mudança na trama a cada dois meses. Só para lembrar, "Suave Veneno" prometeu uma guinada a cada 30 capítulos. E deu no que deu.


Crônica

A memória nossa de cada um

Olsen Jr.

"Félix; Carlos Alberto, Vilson Piazza, Brito e Everaldo; Clodoaldo, Gérson e Rivelino; Jairzinho, Tostão e Pelé".
Ouvi a escalação da equipe brasileira que havia ganho o tricampeonato de futebol mundial no México em 1970. Entrei no lugar com o intuito de tomar um refrigerante. Explico: estava com muita sede e, se a cerveja conseguisse aplacá-la, eu não bebia tanto. Claro que a intenção era uma e a realidade, outra. Aproximei-me do balcão e o sujeito com a camisa do Botafogo do Rio de Janeiro pediu uma "loira gelada" e não resisti. Manda uma pra mim também, peço. A pessoa que nos atendeu, sorridente, simpática, se ufanava de possuir uma excelente memória. Segundo a mulher que trabalhava com ele, tudo não passava de mera decoração de nomes tirados dos jornais. "Sou Flamengo, disse, finalmente, mas aqui no bar não posso manifestar os meus gostos porque, enfim, tenho de atender todos igualmente". Era bom, pensei, contar com uma certa racionalidade até naquelas pequenas "coisas", num aprendizado que se faz aos poucos. Mas ele não se conteve. Quer ver só: "Raul; Leandro, Marinho, Moser e Júnior; Andrade, Zico e Adílio; Tita, Nunes e Lico". O que é isso? brincou o botafoguense ao meu lado. A escalação do Flamengo, campeão do mundo em 1981. Estava pensando no esquema tático 4-3-3, consagrado e repetido, quando o botafoguense provocou, "e o meu time?" Pediu e levou: "Cao; Moreira, Leônidas, Zé Carlos e Valtencir; Paulo Roberto e Gerson; Rogério, Roberto, Paulo César Caju e Jairzinho". A formação de 1968 foi a melhor que o Botafogo já possuiu. Teve o tempo do Garrincha, mas esta foi a melhor. Quando se referiu a 68, fiquei imaginando as passeatas dos estudantes e operários em Paris, no que ficou conhecido como "as barricadas do desejo", lideradas por um certo senhor Jean-Paul Sartre.
Que memória, hein! brinquei com o proprietário. Memória não senhor, respondeu, só tenho o primeiro ano do primeiro grau. É, concordou a mulher, ele decora tudo isso e fica aí "incomodando" os clientes. O homem se limitou a sorrir, certo de que aquela qualidade, chamassem pelo que chamassem, era dele, e usava-a como lhe aprouvesse. Quero saber do Bangu, sugeriu o botafoguense, e não esperou muito: "Ubirajara; Fidélix, Mário, Tido, Ari Clemente, Zózimo e Ocimar; Paulo Borges, Parada, Bianquine e Aladim". E antes que alguém perguntasse, adiantou, "foi o último título que o Bangu ganhou, em 1966". Foi o ano em que o Brasil perdeu a Copa do Mundo, pensei, na Inglaterra. Havia perdido para Portugal e Hungria. O artilheiro foi o jovem Eusébio, e Pelé fora caçado, implacavelmente, em campo. Como se adivinhasse os meus pensamentos, quando estava lembrando daquela Copa de 66, que tinha ouvido pelo velho rádio Telephunken lá de casa, em Chapecó, com uma narrativa empolgante e da qual ainda me traz alguma dor, porque, sem ver, restava imaginar, então acreditávamos nas palavras do locutor e também na "batalha" que deveria ter acontecido e até na "armação" para a Inglaterra levar o "caneco" em cima da Alemanha em uma prorrogação dramática e memorável. Mas estava pensando em Pelé, no atleta brilhante, quando ele me interrompeu, "a melhor equipe montada no Brasil, em termos de clubes, foi o Santos de 1962, campeão do mundo em cima do Milan, que era: Gilmar; Carlos Alberto, Ramos Delgado, Joel e Rildo; Zito e Mengálvio; Doval, Coutinho, Pelé e Pepe". Do lado de cá do balcão já estava começando a juntar gente. Todos maravilhados com a memória do atendente-proprietário. Talvez fosse uma forma de prender o cliente. O marketing estava dando resultado. Eu ainda dispunha de algum tempo, e fora acompanhar o despachante para fazer a vistoria do carro ali no Detran. Havia prometido que só pegaria o veículo quando estivesse com a papelada em dia. Ele, o despachante, é quem estava dirigindo, portanto, não havia "remorso" em tomar aquela cerveja naquela hora, naquele lugar, e me divertindo até com o que estava ouvindo. Mas, disse o proprietário do bar, "a minha habilidade, mesmo, é com números". E sem demora fez algumas demonstrações com divisões complexas, depois explicou qual era o "seu sistema". Ficamos levemente impressionados. Os números não eram tão divertidos. Ele pareceu, novamente, adivinhar o que me ia no cérebro e propôs: "Tudo bem, gosto de geografia, pode perguntar o nome de qualquer capital da Europa. Antes que alguém o fizesse, começou a despejar nomes... "até da Rússia, perguntem, qualquer uma"... Depois, esperou a mulher ir para a cozinha, me chamou num canto e disse: "Vou confessar uma coisa pro senhor: eu tinha um bar, antes de vir para cá, que ficava em frente de uma destas igrejas da Assembléia de Deus, aí um dos pregadores soube que eu gostava de ler, e me deu um livro de geografia de presente. Aí, enquanto esperava os clientes, ficava lendo e relendo aquele livro. Foi assim que aprendi. Depois, começaram a me trazer a revista "Placar"... ele ia continuar a explicação, mas a mulher já estava de volta. A cerveja estava terminando, e evidentemente estava na hora de falar do meu time, antes de pagar a conta. E o Internacional? - perguntei. "Grande equipe na década de 70, lembro daquela final em 1975 no Beira-rio contra o Cruzeiro. O Inter estava com: Manga; Cláudio, Marinho Perez, Figueroa e Vacaria; Caçapava, Batista e Falcão; Valdomiro, Dario e Lula". Antes que eu o parabenizasse, arrematou: "... e o Cruzeiro estava com: "Raul; Nelinho, Morais, Darci Menezes e Vanderlei; Dirceu Lopes, Piazza e Zé Carlos; Eduardo, Joãozinho e Palhinha". Quem mandou perguntar, pensei. Já tenho assunto para a minha crônica, me despedi, e afirmei que levaria o recorte do jornal.
Depois que saí, lembrei de um conto que havia lido quando criança que contava a história de um grupo de pessoas que ficara preso (devido ao mau tempo) em uma estalagem. Todos ficaram assombrados com a cultura de um dos passageiros, até que este confessou ser um ex-sentenciado e que na prisão havia um dicionário, um único volume, mas que só tinha a letra "P", e, portanto, ele era um especialista, ou acabara tornando-se um, mas somente na letra "P". Talvez o conto seja do Maupassant, assunto para outro dia.

Manchetes AN

Das últimas edições de Anexo
06/01 - Tradição açoria a revive os santos reis
05/01 - Guerreiro italiano passado em revista
04/01 - "Baguás", Os negros reprodutores de São Miguel
03/01 - Confissões de uma mulher madura
02/01 - "Dogma" reinterpreta a fé católica
31/12 - Ano 2000 é tema de livros para todos os gostos
30/12 - Bordando com 80 anos de experiência

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Criaturas japonesas
invadem os cinemas

Chega hoje às telas catarinenses "Pokémon - O Filme", desenho baseado em jogo de videogame que virou mania no mundo todo

Luiz Carlos Merten
Agência Estado

É um negócio que já movimentou, somente nos Estados Unidos, mais de US$ 2 bilhões. Calcula-se que, até o fim do ano, serão US$ 6 bilhões em todo o mundo. "Pokémon - O Filme", que chega hoje aos cinemas brasileiros, é mais do que um desenho para crianças. É um fenômeno que, a partir do Japão, vem fazendo a festa dos baixinhos em todo o mundo. Por isso mesmo, o produtor Norman J. Grossfeld está rindo à toa. Ele enumera dados que apontam "Pokémon - O Filme" como um marco na história da animação.
Nada a ver com criatividade. A qualidade técnica do desenho não deve preocupar os executivos da Disney, mas os números com certeza já repercutiram no império criado pelo pai de Mickey. Lançado em 3 mil cinemas americanos, Pokémon quase dobrou a arrecadação, no primeiro dia, de "O Rei Leão". Em cinco dias atingiu quase US$ 51 milhões, o melhor desempenho para um desenho animado de toda a história de Hollywood.
Grossfeld não cessa de elogiar seus parceiros japoneses, leia-se a Nintendo, que iniciou a febre em 1996, ao introduzir o software Pocket Monster, pequeno monstro, que deu origem ao nome Pokémon, na sua série de videogames portáteis, os chamados Game Boys. Criado por Satoshi Tajiri e Tsunekazu Ishihira, o game rapidamente passou a liderar o mercado de jogos eletrônicos do Japão, um dos mais competitivos do mundo. Daí saltou para a televisão (no Brasil, é apresentado pela Record no programa de Eliana) e, agora, para o cinema.
No caso, Grossfeld nem precisou se preocupar em criar o desenho. Ele comprou, por US$ 5 milhões, o desenho japonês de Kunihiro Yuyama e o adaptou para o gosto americano, numa versão remontada (por ele e Michael Haigney) para o Ocidente. Essa nova versão é a que será lançada no Brasil. A distribuidora Warner parte de um circuito mínimo de 200 salas, que espera ampliar para 300, mesmo que seja preciso retirar pontos de exibição de outras duas atrações voltadas para o público infantil - "Xuxa Requebra" e "O Trapalhão e a Luz Azul".
Para o produtor, o segredo do sucesso é simples. "Criança é colecionadora por natureza; adora colecionar coisas", diz Grossfeld. Há muito o que colecionar. Afinal, os pequenos monstros são em número de 150, com nomes estranhos como Pikachu, Dodrio, Gengar, Spearow, Chansey e muitos outros. Como se não bastassem todos esses bonecos, a febre já atingiu outras formas. Não apenas está espalhada por jogos eletrônicos, bonés, relógios, chaveiros, mochilas e toda uma parafernália de objetos, incluindo o CD, que está chegando às lojas, como também foi metamorfoseada em figurinhas que fazem a delícia da garotada. "Além disso, agradam tanto a meninos quanto a meninas", acrescenta Grossfeld, que vê nessa aceitação ampla a chave para o sucesso.

Prisioneiros da esfera

Pokémons são criaturas de vários tamanhos e poderes especiais que coexistem com os humanos. A aventura começa na cidade de Pallet, quando os meninos e meninas atingem a idade de 10 anos e ficam liberadas para tornar-se aprendizes de pokémon. Recebem para isso uma Pocket Ball, esfera que aprisiona o pokémon para que o aprendiz possa treiná-lo até ser reconhecido como mestre pelos pequenos monstros. O protagonista é um menino chamado Ash, cuja meta é capturar todas as criaturas e tornar-se o maior treinador de pokémons da história.
Não adianta insistir porque Grossfeld foge a toda polêmica. Acha um absurdo quando se diz que o desenho é violento ou antiecológico. Afinal, a garotada aprisiona os bichinhos na tal esfera, o que é um cerceamento da sua liberdade. "Tolice, é só um brincadeira que traz como resultado o amadurecimento da criança e a sua transformação de aprendiz em mestre", responde. Em muitas situações, o que ressalta é o cuidado dos personagens com seus bichinhos.
Grossfeld prefere falar sobre o que lhe parecem ser as características mais marcantes (e positivas) do fenômeno. "A estrutura do desenho é bem maniqueísta e acessível às crianças; e, depois, os monstrinhos têm um encanto todo especial, são muito carismáticos". Refutando a acusação de violência, argumenta que ela faz parte do universo infantil e chega a provocar, afirmando que Tom & Jerry são muito mais violentos e os pais adoram.
Ele não se furta a comentar um dos aspectos mais controversos da febre. Em 1997, após o lançamento do desenho animado no Japão, cerca de 700 crianças foram hospitalizadas depois de assistir a um dos episódios na TV. Elas sofreram ataques provocados pela explosão de flashes luminosos, em golpes desferidos contra Pikachu, o mais amado dos pokémons, e sua turma. Foi a primeira vez que se ouviu falar em Pokémon nos Estados Unidos e não de uma forma lisonjeira.
"Houve uma campanha negativa de marketing, mas a mania não apenas conseguiu sobreviver como até aumentou a curiosidade pelo fenômeno". Grossfeld acha que uma coisa dessas não poderia ocorrer no Ocidente. "O desenho foi adaptado para o gosto de nossas crianças", afirma. Entenda-se por isso adaptado para incentivar ainda mais o consumo. Grossfeld confirma que o segundo filme da série, "Revelation", já está em cartaz no Japão e também foi comprado, agora pagando mais caro, para distribuição no Ocidente. O terceiro, "Lord of the Unknown Tower", está em produção, com estréia prevista para junho. E também terá versão ocidental distribuída pela Warner.


Laços familiares são tema de "Nas Profundezas do Mar sem Fim"

É um daqueles filmes talhados para o mercado de vídeo e DVD - um drama familiar com formato de telefilme que o público das locadoras já descobriu e entrou para a lista dos mais retirados. "Nas Profundezas do Mar sem Fim" (lançamento da Columbia) está em quarto lugar entre os vídeos mais retirados e nono entre os DVDs. Inscreve-se na tendência que antigamente se chamava de "woman's picture", os filmes de mulheres. Nada de aventura e pancadaria, como nos filmes que o público masculino adora, mas o retrato delicado do sofrimento de uma mãe brutalmente separada do filho. Veja e, de preferência, conserve o lenço à mão para secar alguma lágrima furtiva.
Michelle Pfeiffer é a intérprete do papel. Ela também está em "A História de Nós Dois", cartaz de alguns cinemas de Santa Catarina. Já é mais do que tempo de fazer justiça à bela Michelle. A ex-caixa de supermercado há muito tempo deixou de ser apenas um rosto bonito. Dela não se pode dizer que sofra da síndrome de Marilyn Monroe, que lutou a vida inteira contra o preconceito que a rotulava como loira burra, tentando mostrar que era também uma atriz. Michelle não é Bette Davis nem Katharine Hepburn, mas faz tempo que ganhou credibilidade como atriz.
E nem precisou enfeiar-se (no caso dela, seria impossível) para convencer como a mãe de "Nas Profundezas do Mar sem Fim". O filme dirigido por Ulu Grosbard é uma adaptação do romance da jornalista americana Jacquelyne Mitchard. Michelle é Beth Cappadora. Quando o filme começa, ela está se despedindo do marido e, em companhia dos três filhos (dois meninos e uma menina), parte para outra cidade, onde se realizará a festa de reencontro da sua antiga turma na escola. Acontece uma tragédia: Beth deixa o filho menor aos cuidados do irmão por um minuto, apenas para resolver um problema na portaria do hotel. É o quanto basta. O menino desaparece.
Durante dez longos anos ela amarga a experiência de não saber onde ele está. E um dia, ao abrir a porta da própria casa, descobre nesse garoto desconhecido à sua frente que, sim, é ele. O que parece o final feliz é apenas o recomeço do drama. A família que conseguiu sobreviver a duras penas ao desaparecimento quase não consegue suportar o reaparecimento. Acirram-se os conflitos, os ressentimentos. É o que confere certa originalidade a uma trama que poderia ser banal e sentimentalóide.

Direção segura

Não é um desempenho para o Oscar (e Michelle nem chegou a ser cogitada para o prêmio). Mas ela passa para o espectador toda a vulnerabilidade de Beth. Mérito dela, claro, mas também do diretor Grosbard. Nascido na Béligica, ele emigrou para os Estados Unidos para trabalhar em teatro e cinema. Fez mais filmes ruins do que seria tolerável, mas a partir de determinado momento - "Confissões Verdadeiras", no começo dos anos 80 - começou a revelar qualidades até então insuspeitadas.
Elas prosseguiram com "Amor à Primeira Vista", aquele drama romântico com Meryl Streep e Robert De Niro. Chegam agora a "Nas Profundezas do Mar sem Fim". Grosbard confirma-se como um diretor que sabe orientar seus atores, especialmente as atrizes, para interpretações delicadas e sinceras. Não é só Michelle que está bem. Whoopi Goldberg também marca presença como a policial lésbica que dá apoio a Beth. Mulher, negra e homossexual, ela sabe tudo sobre o que é ser (ou sentir-se) marginalizada. Não é um filme sobre seqüestro, e sim sobre laços familiares, sobre o que aproxima e afasta as pessoas, sobre o amor (e a culpa) entre irmãos. Por isso mesmo, a solução para o drama vem por meio dos irmãos, quando eles transformam o jogo num exercício de vida. (LCM/AE)


Liberada a exibição do
filme "Dogma" no Brasil

Brasília - A secretária Nacional de Justiça, Elizabeth Syssekind, liberou o filme norte-americado "Dogma" para exibição no Brasil. "Dogma" tem sido criticado por entidades religiosas ligadas à Igreja Católica. A organização Tradição, Família e Propriedade (TFP), por exemplo, o acusa de profanação, principalmente por fazer a pop star Alanis Morissette interpretar o papel de Deus. O filme enfrenta tabus como a natureza de Deus e a virgindade de Maria. Há críticas, ainda, ao excesso das cenas de violência e uso de drogas.
A decisão do Ministério da Justiça seria publicada no "Diário Oficial" da União de ontem. A estréia do filme pode ocorrer ainda este mês. A única restrição imposta pelo Ministério da Justiça é que o filme seja exibido somente para maiores de 18 anos. "Nem se eu quisesse, não haveria meios do Ministério da Justiça impedir a exibição", disse a secretária. Desde que a proposta de liberação do filme começou a ser analisada, o governo recebeu dezenas de pedidos para sua proibição. A expectativa de técnicos do governo é de que a decisão possa gerar uma polêmica quase idêntica à levantada depois da liberação do filme francês "Je Vous Salue Marie", de Jean Luc Goddard, lançado em 1986, que provocou protestos. Entretanto, segundo a secretária, quem achar que a liberação não é justa poderá recorrer à Justiça.
O filme atualiza a eterna luta do bem e do mal usando Ben Affleck e Matt Damon como anjos caídos e Linda Fiorentino como uma descendente da linhagem de Cristo. O diretor disse que está querendo aproximar o Evangelho dos jovens. Para ele, as críticas em relação ao papel de Deus ser interpretado por uma mulher são um preconceito típico de uma sociedade machista, que não hesita em definir como falocêntrica.


Vídeo 1 - "Guerra nas Estrelas: Episódio 1 - A Ameaça Fantasma", que foi a segunda maior bilheteria desta lendária saga, invadirá agora o planeta em vídeo, de forma simultânea, no começo de abril. É a primeira vez que cinéfilos de todo o mundo poderão desfrutar ao mesmo tempo do lançamento de um filme em vídeo, diz um comunicado da Twentieth Century Fox Home Entertainment e Lucasfilm.

Vídeo 2 - Nos EUA, a fita estará nas lojas em 4 de abril. O novo episódio da mítica saga de George Lucas foi o maior sucesso comercial do cinema dos EUA em 1999. Com 430 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias dos EUA e do Canadá e 492 milhões no resto do mundo, "A Ameaça Fantasma" se tornou também a segunda maior bilheteria da história do cinema, só perdendo para "Titanic".

 
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