Joinville         -          Domingo, 9 de Janeiro de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  


















Cores, dores
e ferramentas do devir

Bienal do Mercosul que se encerra hoje em Porto Alegre flagra a inquietude técnica da arte atual

GLEBER PIENIZ

A 2ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul que encerra hoje em Porto Alegre, ao contrário da sua primeira edição, não se restringiu a um único tema. O curador geral Fábio Magalhães foi claro ao afirmar que a mostra deu ênfase aos aspectos contemporâneos da arte - atividade que está mais preocupada em aprofundar seus dilemas do que resolver direcionamentos temáticos. Mais de 120 de artistas do Brasil, Argentina, Colômbia, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia mostraram que estas contradições, se ainda não apresentam soluções satisfatórias, estimulam a criatividade a romper limites e a buscar novos padrões para estabelecer uma manifestação mais rica em valores para os próximos tempos.
Tunga, com "True Rouge", faz uma metáfora do corpo humano através de intrincada rede de telas, fios, esponjas, ganchos e garrafas. Na abertura da Bienal, o brasileiro fez escorrer entre estas peças da obra um líquido vermelho e pegajoso - fluidos vitais em atividade. Também ilustrando a vida (agora pela ótica social), a argentina Nora Aslan apresenta uma instalação composta de berços, luzes e um painel que expõe contrastes entre a ternura e a barbárie provocados pela violência. Contundente, "Ab-sur-do", constrói significado através de uma refinada ironia. Mais direto é Luiz Zerbini, cuja instalação em madeira e mármore reproduz o torso do artista e serve de tema para que a fotografia recrie seus detalhes na forma de uma orelha, de um bebê e de uma chupeta. Discreta, Lucia Koch faz com que seu "O Gabinete" em acrílico projete puras e geométricas cores de Mondrian sobre as pessoas que o visitam sob o sol da tarde. De uma das janelas desta instalação, é possível ver "Sky Drawing" (escultura gigante de Márcia Grostein) literalmente riscar o céu sobre o Guaíba com sua ponta fosforescente.
"Doador", de Élida Tessler, é um corredor cujas paredes foram forradas com ralador, computador, aspirador, coador e outros 223 objetos com nomes terminados em "dor", readymade (ou uma sátira?) levado às últimas conseqüências em número e conceito para compor uma das instalações mais lúdicas de toda a Bienal, tão divertida quanto as esculturas do colombiano Nadin Ospina em "El Bosque de los Ídolos": seus tótens têm a base esculpida segundo a estética indígena, mas as cabeças - nas figuras de Mickey, Minnie e Bart Simpson - são ícones da cultura pop. Igualmente irônica (embora com carga maior de acidez), em "Trofeos de Caza" a chilena Caterina Purdy destila sarcasmo contra as pessoas que usam peles, transformando carcaças de cândidas ovelhas em mochilas e bolsas de mão. A uruguaia Andrea Finkelstein em "Nobody Calls me by my Name" usa cerâmica e arame para criar exóticos objetos que, como a própria artista sugere, jamais serão chamados pelo nome (se é que possuem algum). Já o brasileiro Marepe denomina "A Bica" um verdadeiro labirinto em alumínio destinado a recolher a água das chuvas, criando um objeto de apurada simetria e despojada beleza.

PASSADO E PRESENTE

Em "Construções de Afeto", Divino Sobral constrói rosários, tótens e relíquias com o sebo, os pêlos e os cabelos do homem, materiais que deixam seu valor individual em segundo plano para resgatar conceitos coletivos como religiosidade e ancestralidade. O uruguaio Federico Arnaud reconstrói em "El Juego de los Milagros" a mesma ponte histórica através da religião fazendo de santos, crucifixos e ostensórios as figuras principais de objetos de uso contemporâneo como uma cadeira, um relógio e mesmo uma mesa de pebolim. Em "La Última Cena", a uruguaia Águeda Dicancro cruza a referência religiosa predominante com a abordagem filosófica, lembrando que tanto Sócrates quanto Jesus tiveram uma última refeição com seus seguidores. Para reconstituir estas despedidas, a artista usou vidro em uma mesa despedaçada e em 12 cadeiras separadas por um facho de luz que sugere, ao mesmo tempo, ausência e presença.
"El Punto de Vista", da uruguaia Rita Fischer, usa véus sobrepostos para esconder texturas e recortes, causando espanto em quem se aventurar com mais curiosidade para dentro de sua instalação de paredes vermelhas. Outro artista que provoca estranhamento é Flávio Emanuel com a instalação "Os Teleguiados", seqüência de sensações visuais e sonoras em uma sala de alvas paredes maculadas por insetos, asas de galinha e ovos aprisionados em arame, um mundo que pode ser percorrido por intrigantes carros com cérebro de boi guiados por controle remoto.

POTENCIAL CORPÓREO

O boliviano Zapata investe na pintura figurativa e acadêmica, mas sua abordagem para a série "Identidades Ajenas" apresenta resultados surpreendentes de volume, luz e forma, aproximando sua estética da arte contemporânea e da fotografia graças ao despojamento dos temas e à desconcertante simplicidade com que flagra seus modelos. Valia Carvalho, sua conterrânea, também faz do corpo temática, embora eleja a instalação como instrumento para resolver seus impasses na pintura, na fotografia e na escultura. "Yo soy, I am" é um dos ambientes mais desconfortáveis da Bienal e mostra a própria artista como protagonista de um processo de descontrução: centenas de fotos na parede dão significado às vaginas hemorrágicas expostas em uma velha cama cirúrgica, uma crítica à exploração do corpo feminino e à valorização pornográfica da beleza. Não tão rigoroso, mas tão surrealista quanto Dali, Marcelo Suaznabar centra a reflexão nas figuras de um cavalo e dos relógios no políptico em tela "Últimos Minutos". Ao contrário do artista espanhol, o pintor boliviano busca a essência das linhas e das formas, embora deva ao mestre todo seu catálogo de citações (incluindo objetos aleatórios, os numerosos seres humanos em tarefas específicas e os já citados relógios).
Show de interpretação
Matheus Nachtergaele empresta talento a padre Miguel em "A Muralha".  AN_Tevê 
Com o objetivo de estimular a reflexão individual sobre sonhos e projetos pessoais, o chileno Gonzalo Diaz propõe a arquitetura como metáfora. "Al Pie de la Letra" é a obra que ocupa a maior área da Bienal e remete a uma catedral em construção, colosso de madeira por onde o público pode perambular e sentir-se só, pequeno, abandonado. Concretizando o impossível, "A Escada" de Mauro Fuke faz referência direta aos planos e pontos de fuga imaginários de M.C. Escher e encontra nos trabalhos de Félix Bressan o seu equivalente no "mundo dos homens comuns". Ao contrário de Fuke e Diaz, que desafiam as possibilidades da arquitetura como matéria para a arte, Bressan encontra na descontrução de ferramentas do cotidiano o caminho para a descoberta de novas formas, tornando possível mesmo transformar uma sala em labirinto graças às espirais de uma picareta.


Rigor e instinto em fragmentos

Rodrigo de Haro é o representante de Santa Catarina na Bienal do Mercosul

GLEBER PIENIZ

Rodrigo de Haro é o único catarinense selecionado para a 2ª Bienal do Mercosul e, curiosamente, é autor da única obra que permanecerá exposta em Porto Alegre depois de encerrado o evento. "É o único trabalho definitivo da Bienal", resume o artista. "É a minha contribuição à paisagem urbana da cidade". "O Quinto Império", mosaico em cinco cenas confeccionado com fragmentos de cerâmica, ocupa uma área de 21 m2 no muro externo da Usina do Gasômetro (um dos três locais onde a mostra acontece) onde tem o privilégio ímpar de ser, também, a obra que dispensa catracas para ser admirada, pois fica na parte externa do prédio, às vistas de quem passa pela avenida Presidente João Goulart, inaugurando o Mural da América Latina.
Há mais de vinte anos trabalhando com mosaicos (a fase coincide com a chegada deste parisiense a Florianópolis, onde vive até hoje), De Haro considera "O Quinto Império" uma obra diferente daquela que está executando na reitoria da UFSC, um detalhe que salta aos olhos de quem considera o trabalho do artista na Bienal uma produção mais modesta ou menos detalhista do que aquela que o catarinense está acostumado a ver na Ilha. "Em Porto Alegre, quis experimentar uma coisa mais vazia, com menos detalhamento e mais sugestão", explica o autor. "O tema é uma fantasia com o mundo pré-colombiano, um quinto império como a visão americana idealizou".
"Passe para o outro lado" são as cinco palavras que interagem com as cinco cenas propostas por De Haro no mosaico. Ele explica que "as imagens vêm na seqüência do tarô" e têm significados específicos, partes de um todo que compõem uma narrativa de descoberta, transformação e redenção. O primeiro quadro ("a lanterna", diz o artista) representa a luz, o entendimento; o segundo, "o sinal", estabelece um contato, é a ponte, a comunicação. Na terceira cena, De Haro usa a figura de Anúbis ("o guia") para representar a idéia, o sentimento, a fidelidade. "A viagem" é o quarto quadro, um barco simbolizando deslocamento e mudança, uma transformação que conduz à quinta cena, "a totalidade", representada em mosaico na figura de um hermafrodita cósmico. "Neste mosaico, parte é elaboração, outra é instinto e improviso", confessa o autor.
De Haro lembra que a proposta de ocupar o muro lhe pareceu, a princípio, uma idéia perigosa. O artista conhece o estigma que aquele muro empresta a Porto Alegre e é até favorável à sua remoção. "Achei que se eu executasse um mural de 30 metros naquele muro eu estaria sendo conivente com a sua permanência", diz o catarinense. Fazer um mosaico menor, em uma área do muro alheia à aversão do porto-alegrense, foi a saída encontrada pelo artista, homem acostumado a coinciliar a arte, o folclore e a cultura acadêmica. "Acho mais adequado trabalhar com o mosaico porque, além de sermos grandes produtores de cerâmica, estabeleço um elo realista com a tradição popular", teoriza.


Picasso, Iberê Camargo e
Le Parc são homenageados

A segunda edição da Bienal de Artes Visuais do Mercosul presta homenagem, com exposições e curadoria especiais ao mestre catalão Pablo Picasso, ao multifacetado Iberê Camargo e ao visionário argentino Julio Le Parc. Cada um dos primeiros ganha um andar inteiro no Museu de Artes do Rio Grande do Sul. Le Parc, menos ortodoxo, tem espaço de destaque junto aos contemporâneos na Usina do Gasômetro.
A exposição "Picasso, Cubistas e a América Latina" tem curadoria de Fábio Magalhães e apresenta - além de 33 telas e gravuras de Picasso - obras de Portinari, Tarsila do Amaral, Brecheret, Barradas, Lipchitz, Di Cavalcanti, André Lothe, Pettoruti, Leger, Milton da Costa, Metzinger, Segall, Maria Leontina, Antonio Gomide, Rego Monteiro, Gleizes, Rivera e Obregon. Quem buscar nas telas expressão máxima de Picasso encontra "Mujer Acostada" e "O Atleta (Busto de Homem)" em meio a dezenas de gravuras, de onde se destacam as sátiras a Franco ("Sueño y Mentira de Franco") e a água forte "Pintor Delante de su Cuadro". Mais didática e representativa é a panorâmica sobre os cubistas na América Latina, mostra que destaca os painéis em têmpera de Portinari (nitidamente influenciado pelo Picasso do entre guerras) como "O Massacre dos Inocentes" e "O Pranto de Jeremias", as esculturas em bronze de Brecheret ("O Beijo" e "Três Graças") e a tela "Cavaleiro", de Lasar Segall.
Iberê Camargo ganha retrospectiva meticulosa e educativa na curadoria de Lisette Lagnado, que reconstrói a trajetória estética do artista gaúcho morto em 1994 através de seus ícones mais representativos: os carretéis (não por acaso o símbolo da 2ª Bienal). Telas, gravuras e desenhos revelam que os carretéis surgidos como tema no final da década de 50 não são para Camargo apenas objetos, mas elementos que deram estruturação e equilíbrio (às vezes profundo, noutras, frágil) à sua obra. Da planura e da simplificação da década de 50, passando pelas telas carregadas de preto da década de 60, pela redescoberta da cor e do gesto nos anos seguintes e chegando aos anos 80, quando a figura humana começa a brotar da geometria, o trabalho de Camargo acompanha nos desenhos e nas gravuras a mesma estética das telas, revelando um artista tenaz e disciplinado.
Argentino, Julio Le Parc mora há mais de 40 anos na França e suas 23 obras reunidas sob curadoria de Sheila Leirner dão à exposição um caráter inédito. Seu trabalho engloba os conceitos de cor, forma, espaço e movimento, questionando-os da mesma forma que são apresentados: integrados e livres das abordagens est;eticas tradicionais. Limpa, a arte de Le Parc usa e abusa das lentes, dos metais e dos espelhos em busca de respostas na ótica, na projeção, na distorção e na refração da luz, na ilusão das cores e na capacidade de movimento dos corpos, muitas vezes exigindo do público a intereferência necessária para que cada trabalho possa mostrar todo o seu potencial de significação. Brinquedos? Peças decorativas? Experimentos científicos? Cabe a cada um definir. O que é fato é que não há como ficar impassível frente aos convites do argentino. (GP)


Ciberarte mostra mais
dúvidas do que certezas

A mostra de arte e tecnologia "Ciberarte: Zonas de Interação", com curadoria de Diana Domingues, traz à Bienal o trabalho de 34 artistas de todo o mundo que vêem nas possibilidades crescentes da informática uma alternativa para mergulhos mais profundos no campo da criatividade. Ocupando todo o primeiro piso do Gasômetro, os trabalhos selecionados para a mostra provam que o domínio dos meios cibernéticos e virtuais ainda não dão autonomia suficiente ao artista (é possível sentir certa inocência no ar) e que a interatividade - maior atrativo da ciberarte - restringe as possibilidades de interpretação da obra quando deveria ampliá-la.
Salvam-se de pagar o preço do pioneirismo os brasileiros Kiko Goifman e Jurandir Müller com "Jack in Slow Motion" e "Valetes em Slow Motion", instalação e ambiente multimídia correspondente onde gavetas metálicas contêm objetos velhos, papéis e garrafas, numa clara alegoria ao sistema carcerário nacional. "9/4 Fragmentos de Azul", de Gilberto Prado, além de exigir um contato mais íntimo do público com a obra, oferece maior autonomia ao espectador e, por isso, dilata as possibilidades de interação. "Trans-e: My Body, my Blood", de Diana Domingues e o grupo de pesquisa Artecno da Universidade de Caxias do Sul (RS), é um ambiente intrigante, sensível à temperatura, ao movimento e à posição do espectador, oferecendo em troca imagens e sons hipnóticos armazenados na memória do computador, além de mover um líquido vermelho-sangue no interior de uma bacia colocada no centro da instalação.
Há, do outro lado, artistas cujas obras não rompem a barreira da demonstração, utilizando da ciberarte apenas o seu caráter de novidade. "Plants Growing", trabalho de Christa Sommerer e Laurent Mignonneau, condiciona ao contato do espectador com samambaias, avencas e cactos o surgimento de plantas na tela de um computador, dando ao público apenas o direito de frear/reiniciar o processo. O livro "Beyond Pages" do japonês Masaki Fujihata impressiona à primeira vista, mas oferece interatividade tão restrita que se torna quase uma demonstração em CD ROM. (GP)


Um olhar para
a dança do ano 2000

Criação da Escola do Teatro Bolshoi abre novas perspectivas para a arte no Estado

Sandra Meyer Nunes
Especial para o Anexo

Alguns acontecimentos ocorridos em 1999 no universo da dança catarinense abriram novas perspectivas que certamente nortearão o próximo. A dança suplantou qualquer expectativa e chegou a ser uma espécie de carro chefe do projeto político da maior cidade do Estado, e não pode ser considerado pouca coisa para a área. Os efeitos provocados desde o anúncio até a efetivação da vinda da Escola de Dança do Bolshoi para Joinville ganham várias dimensões. Só o fato de um projeto na área da dança puxar o trenó do discurso, e posterior realização, de um projeto político, em si, já pode ser considerado, no mínimo, extraordinário. Mesmo não sendo uma novidade de todo, já que o Festival de Joinville há tempos transformou-se na menina dos olhos do governo joinvilense, a dança conquista um feito invejável, considerando o espaço que esta vinha até então ocupando dentro dos projetos político-culturais no Brasil, e até mesmo na própria história da arte.
Ainda que considerada a mais antiga ou "universal" das artes, dentro da história que se aprende na escola, a dança ainda tem seu espaço a conquistar. As tais artes cênicas, ditas efêmeras, que contam a história do gesto, do movimento e da palavra falada em tempo presente, aguardam seu espaço devido dentro do ensino formal. As artes mais estudadas para testemunhar a evolução cultural são as chamadas artes de traço mais permanentes, tais como a pintura, arquitetura e escultura, assim como a literatura.
Mas a dança teve até momentos históricos em que seu espaço dentro das relações sócio-políticas era determinante. Dona de uma narrativa que se dá no corpo, e que mais se assemelha à poesia - com seus significados múltiplos - do que a prosa, "as danças", por que são muitas, são atos sociais, segundo Judith Hanna, que contribuem para o contínuo surgimento da cultura. A Corte de Luís 14, o Rei Sol, a exemplo, impunha ao cortesão o conhecimento não só das regras sociais e de etiqueta, mas da arte da dança. Quanto maior o domínio corporal, mais possibilidade de proximidade com o poder. Nascida no momento em que a dança se encontrava estreitamente ligada à vida de Corte, o balé chamava o homem a desempenhar o seu papel através dos seus gestos. A dança passou a ser uma forma de classificar e ordenar as relações de nobreza e espelhava a posição de poder em relação ao rei.
Guardadas as devidas proporções históricas, obviamente, (tais como o fato do próprio Rei Luis 14 ser bailarino), o balé clássico continua a exercer o seu fascínio e seu poder de sedução. A atual prefeitura de Joinville carregará para sempre, como estandarte, o feito de ter trazido a mítica Escola do Bolshoi à Joinville. Em recente artigo para este jornal, quando falava das boas perspectivas para o ano 2000, o prefeito Luiz Henrique da Silveira enumera quatro itens de sua gestão: crianças na escola, passagem única de ônibus para todos, pavimentação de ruas e as 80 vagas para alunos pobres proporcionadas pela Escola do Bolshoi no Brasil.
Mesmo que a Escola Bolshoi, na Rússia, passe por maus lençóis devido à falta de apoio estatal e o franqueamento de sua técnica e estética tornou-se condição de sobrevivência, e seus áureos tempos de perfeição técnica não sejam também os mesmos, a implantação da Escola, se mantida a excelência por ela conquistada, se converterá em grande impulso para a profissionalização da dança no Estado (e no País). Após uma história de 16 anos de Festival, está na hora de Joinville, como sede do mesmo, sedimentar um trabalho consistente nas áreas da criação artística e ensino da dança que faça jus ao investimento e mídia propagados pelo evento.

Curso ofuscado

O efeito causado pela vinda da Escola Russa foi tão avassalador para a dança em Joinville que outra iniciativa da mesma cidade, tão importante quanto a vinda do Bolshoi, a criação do Curso Superior de Dança da Univille, acabou eclipsada pela mesma. Passados os primeiros sintomas da febre Bolshoi, a iniciativa da Univille certamente ganhará seu espaço devido. Ainda dentro do ensino acadêmico, o Centro de Artes da Udesc implantou este ano um Curso de Pós-Graduação em Dança Cênica, à nível de especialização. O curso tem recebido alunos da capital e de todo o Estado, além de profissionais do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, cobrindo uma lacuna em relação à cursos desta natureza no País. Cabendo à universidade a formação teórico-prática e capacitação do pesquisador, tanto na área artística quanto pedagógica, estes dois cursos acadêmicos se convertem em significativos espaços criados para a profissionalização da dança no Estado.
Após uma bem sucedida turnê nacional com o espetáculo "In'Perfeito", aguardamos a estréia em março de "Violência", o novo trabalho do Grupo Cena 11, nossa mais destacada companhia de dança. Mas quem quiser assistir terá que se deslocar a São Paulo. Trata-se do espetáculo mais trabalhoso, segundo o coreógrafo Alejandro Ahmed, no que se refere à linguagem do corpo. As intenções da ações físicas tornaram-se mais fortes que a construção da forma, e a violência a que se referem não reside no que já nos é habitual. Há uma busca de violentar o ato que aparentemente se faz normal. Enquanto isso, Ahmed é convidado a coreografar para o Balé da Cidade de São Paulo, uma das companhias estatais mais importantes do País. Mais um sinal da credibilidade que o grupo vem alcançando no circuito profissional das artes cênicas brasileiras.
Outro fato também levou a dança a ocupar um espaço respeitável na mídia no ano passado. Trata-se dos editais do Centro Integrado de Cultura, em relação ao Espaço da Escola de Dança. Discussão acalorada, serviu para repensarmos o espaço público do CIC como fomentador da dança a nível estadual. A revitalização das oficinas e cursos se faz necessária, já que o governo, até então, não sensibilizou-se para a criação de companhias estatais. Talvez o mais oportuno seja, neste momento, o apoio, através de um processo seletivo, às companhias e grupos já atuantes, bem como o incentivo aos novos através de bolsas de pesquisa, formação profissional e projetos de apoio à montagem e circulação de espetáculos. Assim, abre-se maior espaço para a diversidade de propostas.
Este ano marcou também a revitalização da Aprodança, a Associação de Profissionais de Dança de Santa Catarina. Pela primeira vez a área da dança ocupa uma cadeira no Conselho Estadual de Cultura, representada pela entidade. Como meta para o próximo ano, o fortalecimento da representação em todas as regiões do Estado a fim de integrar cada vez mais os profissionais da dança. Despontando como mais um importante pólo da dança no Estado, está a cidade de Lages. À frente da Fundação Cultural e da Escola Municipal de Lages, Henrique Beling, lageano que fez carreira profissional como bailarino em companhias como o Ballet Stagium, tem desenvolvido propostas interessantes e abrindo perspectivas para a área na região serrana.
Fiat Brava
Desempenho do propulsor deixa a desejar e contrasta com o instigante visual do novo médio da Fiat no País.  AN_Veículos 
A Mostra Nacional de Dança de Florianópolis, organizada pela Fundação Franklin Cascaes, importante evento para o Estado, poderia ganhar um perfil mais definido e um acréscimo maior de qualidade se abrisse a outros produtos estéticos e propostas estruturais. A abertura à opiniões de profissionais, numa espécie de curadoria, a exemplo do que ocorre em qualquer grande evento, ajudaria a refletir melhor sobre o perfil da mostra, para que tenha um reconhecimento maior não só dos profissionais mais conceituados da área no Estado, mas também pela crítica nacional especializada. Se a Fundação estabelecesse uma agenda em parceria com outros eventos, a exemplo do que tem ocorrido entre festivais de Porto Alegre e Buenos Aires, teríamos a oportunidade de assistir companhias nacionais e internacionais de qualidade sem um ônus maior. Talvez aplacasse o imenso vácuo cultural a que somos ainda submetidos pelo não acesso aos grandes nomes da dança.

Apesar do reconhecimento,
grupos ainda carecem de apoio

A dança vem servindo à mídia propagadora dos chamados grandes feitos que a cidade de Joinville tão habilmente externaliza: o maior festival de dança do mundo, no maior centro eventos da América do Sul, e por aí vai. Felizmente a organização do festival este ano decidiu estabelecer mudanças através de uma comissão composta por profissionais da área. Os valores quantitativos e as taxas de grandeza, em si mesmo, não garantem a boa sobrevivência das coisas, seja na natureza ou na cultura. A atenção a certos valores qualitativos não podem ser mais desprezados frente ao crescimento surpreendente daquele que se tornou nosso mais importante evento de dança. A vinda este ano de companhias profissionais com seu elenco principal e apresentando obras completas já aponta para uma mudança de perfil.
Na área da criação, este ano revelou o potencial da coreógrafa florianopolitana Karina Barbi e dos integrantes do Grupo Kaiowas. Seus dois primeiros trabalhos já foram reconhecidos nos eventos em que participou, com especial destaque para o Prêmio Revelação Pesquisa Gestual no Festival de Dança de Uberlândia (MG), e no Prêmio IMBA-UAM, importante evento no México que premia composições coreográficas de dança contemporânea de grupos da América Central, América do Sul e Estados Unidos. O segundo trabalho criado pela coreógrafa, "8 Trigramas", baseado no I Ching, conquistou o primeiro lugar em sua categoria.
O esforço descomunal empreendido pelo grupo para buscar apoio financeiro a fim de atender ao convite formulado pelo evento mexicano atesta a falta de apoio a este tipo de demanda. É cada vez maior o reconhecimento de nossa dança a nível nacional e internacional e não temos uma política de apoio a este tipo de participação. Outros grupos, tais como o Ronda, com um trabalho de Zilá Muniz, outra coreógrafa que vem se revelando, o Khala, de Marcelo Cavalcanti, outro coreógrafo premiado, e o próprio Cena 11, que dispensa apresentações, se depararam como o mesmo problema: carecemos de uma política cultural interna mais abrangente, e que pense a arte estadual num contexto maior.
No âmbito municipal, a Fundação Franklin Cascaes poderia estabelecer uma política local para a dança além da promoção da Mostra Nacional de Dança, que acaba por catalisar todos os esforços de sua equipe de trabalho. A Fundação Catarinense de Cultura, no mínimo, deveria manter seus Editais de Estímulo à Montagem e Circulação de Espetáculos, suspensos há dois anos. Sem falsos paternalismos, porque já sabem da necessidade de se contar com o patrocínio do setor privado através das leis de incentivo, os profissionais da dança catarinense aguardam a manifestação do poder público, que não pode eximir-se de seu papel nesta parceria. Que os bons ventos do novo milênio que termina com o ano 2000 nos tragam boas novas. Da parte dos profissionais da dança, percebe-se que há seriedade de trabalho e consciência de seu papel na construção da cultura em nosso Estado.
Ah, por favor, os teatros TAC e CIC pedem socorro... e que alguém nos ouça! Além das instalações físicas com sérios problemas, os equipamentos técnicos são precários e irrisórios, assim como o treinamento do pessoal técnico, para aquela que, vaidosamente, se auto-intitula a "capital turística do Mercosul". E dá para separar turismo e cultura?

  • Sandra Meyer Nunes, crítica de Dança e professora do Ceart/Udesc


Denise Stoklos mostra
vozes dissonantes do Brasil

Espetáculo discute as mazelas do País através de textos inspirados em autores e figuras célebres que se indignaram contra as injustiças

Beth Néspoli
Agência Estado

Pátria é todo lugar que o forte escolher para morada. A frase do historiador latino Curcio Rufo serviu como uma espécie de farol para iluminar as escolhas da atriz Denise Stoklos ao selecionar os textos de "Vozes Dissonantes". A mais recente criação do Teatro Essencial estréia dia 12 em São Paulo dentro do projeto "1999..." e foi realizado especialmente para a comemoração dos 500 anos de Brasil.
Como o próprio título do espetáculo antecipa, Stoklos escolheu desafinar o coro dos contentes e falar de uma pátria não oficial, uma pátria que ainda não existe, mas poderia existir se tivessem sido ouvidas, no passado, vozes de gente como Tiradentes. Uma Pátria ou um Brasil que ela acredita possível, caso sejam ouvidas outras vozes, no presente, como a do geógrafo Milton Santos.
"Falo de uma Pátria-Brasil que existirá um dia, porque são muitos os que lutam por ela; na verdade, são muitos os que já habitam nela, porque nós que queremos uma transformação, que nos indignamos com a exclusão, não habitamos o mesmo Brasil dos que querem a estagnação e a manutenção das diferenças", afirma a atriz.
Stoklos começou a preparar "Vozes Dissonantes" há quase dois anos, por sugestão do embaixador Lauro Moreira, então presidente da Comissão Nacional para as Comemorações do 5º Centenário do Descobrimento do Brasil, ligada ao Ministério das Relações Exteriores. "Ele havia assistido na Espanha, por acaso, a 'Um Fax para Colombo', que fiz em comemoração ao descobrimento da América", contou a atriz. "Foi o primeiro espetáculo que criei com esse objetivo de comemorar - memorar em conjunto - e saiu muito político, exaltado", relembrou. Pois foi justamente essa capacidade de indignação que estimulou ao embaixador a convidá-la para criar "Vozes Dissonantes". E ele não se limitou ao convite, mas fez inúmeras sugestões de leitura para a atriz. "Ele sugeria Matias Aires ou padre Antônio Vieira, por exemplo, e eu corria atrás para ler".
Dois anos depois do convite, a comissão não existe mais - transformou-se num comitê executivo ligado agora ao Ministério dos Esportes e Turismo, mas a parceria está mantida e já rendeu o fruto desejado. No espetáculo que o público poderá agora conferir no palco, com exceção da definição de pátria do historiador Curcio Rufo, todos os textos foram extraídos de autores brasileiros, entre eles dom Hélder Câmara, Hélio Peregrino e Euclides da Cunha.
"Quando comecei a ler 'Os Sertões', especialmente para a peça, fiquei tão impressionada com o texto de introdução de Euclides da Cunha que liguei para o embaixador decidida a levar para o palco só aquele texto", lembra Denise. Ela mudou de idéia, porém o trecho escolhido saiu da introdução, antes mesmo do autor abordar a revolta de Canudos. De início, as revoltas brasileiras - sabinada, cabanada, Inconfidência Mineira - ocupariam um bom tempo do espetáculo de pouco mais de uma hora.
Mas isso mudou quando Denise se deparou com o trabalho do historiador Dirceu Lindoso. "Ele tem um texto extremamente crítico no que diz respeito à forma pela qual a historiografia oficial aborda as revoltas populares", diz. "Percebi, então, que se eu condensasse o que ele estava dizendo não precisaria mais relatar a historinha de cada revolta".
Felizmente, não seria possível dar conta de todas as vozes dissonantes de nossa história num único espetáculo. Depois de muito experimentar, Denise Stoklos decidiu abolir a ordem cronológica e optou por um espetáculo fragmentado, no qual ilumina por instantes alguns personagens ou incidentes de nossa história.

A via da emoção

A atriz considera "Vozes Dissonantes" uma etapa de seu trabalho muito diferente de "Um Fax para Colombo". "Falar da urgência de uma transformação de forma exasperada eu já realizei nesse primeiro espetáculo de aniversário do continente". Por isso, desta vez, ela prevê uma performance menos exaltada, mais poética, capaz de tocar o público pelo canal da emoção. "Teatro bom é teatro que emociona", afirma. "Todas as vezes que saí de um bom espetáculo, saí emocionada, com vontade de transformar tudo na minha vida".
O premiado Maneco Quinderé será o responsável pela iluminação, que terá papel importante nesse espetáculo, no qual figurinos e cenários devem seguir uma linha de despojamento. "Já disse mais de uma vez que, no meu teatro essencial, gostaria de atingir um ponto no qual eu não fizesse nenhum gesto e não dissesse uma única palavra e ainda assim fosse teatro", diz a atriz.
Em "Vozes Dissonantes" ela estará perto de realizar a primeira parte desse desejo. Claro que fará gestos no espetáculo, mas o desejo é que todos os elementos cênicos - cenário, figurino, trilha sonora e até mesmo o gestual da atriz - sejam despojados ao limite máximo e sirvam para reforçar o texto e, em nenhum momento, dispersar a atenção sobre ele. "Tive o privilégio de entrar em contato com textos maravilhosos, de vozes corajosas que querem relações mais justas e fraternas em nosso país", diz. "São textos que funcionam como mantras". Mantras que ela pretende dividir com os espectadores. "O teatro é uma atividade de medicina da alma; como no teatro grego, acredito que a representação deve ter a força de curar estados de alma não desenvolvidos", diz. "No caso do Brasil, o teatro deve poder curar a nossa grande dor, que é a falta de ação, a incapacidade de transformar indignação em resultados práticos".
Terminada a curta temporada brasileira de "Vozes Dissonantes", Denise partirá para os Estados Unidos, onde dará um curso de um semestre sobre a arte do solo teatral na Universidade de Nova York. Em maio, deve estrear no Teatro La Mamma sua mais nova performance, ainda sem nome, inspirada no trabalho da artista plástica Louise Bourgeois. Se tudo der certo, Denise levará o novo espetáculo, em junho, ao Festival de Teatro de Londrina.
Em sua edição do ano 2000, o Filo busca a integração entre as artes e também entre as artes e a cidade. "Ainda não está certo, mas talvez Louise crie uma de sua celas especialmente para servir de cenário ao espetáculo em Londrina"
revela Denise. Caso isso ocorra, a obra passaria a integrar o acervo de obras públicas da cidade.


Bufões, esses
pobres coitados em cena

"Gueto Bufo", espetáculo vencedor em Lages, ganha prêmio em Porto Alegre por seu retrato dramático da miséria cotidiana dos marginais

Eliane Lisbôa
Especial para o Anexo

"Gueto Bufo", premiado como o melhor espetáculo no último festival de Teatro de Lages (FETEL), recebeu nesse final de ano em Porto Alegre o prêmio açoriano de melhor espetáculo de 1999. Do mesmo modo, Daniela Carmona, que também dirige o trabalho, foi reconhecida como melhor atriz do ano em Porto Alegre por sua atuação na peça.
O espetáculo está centrado na figura do bufão, um personagem pouco estudado na história de nosso teatro, e que no entanto sempre ocupou um lugar de honra, revestindo-se de múltiplas formas, desde o arlequim da commedia dell´arte, passando pelo louco, inúmeras vezes explorado em Shakespeare, ou o bobo medieval.
Em "Gueto Bufo", o bufão nos aparece de modo absolutamente grotesco através da figura de duas mendigas, o refugo da sociedade, párias sem qualquer lugar nos espaços reservados à convivência humana. Exatamente porque à margem, o bufão pode se permitir tudo, é dono de si, livre para todas as inconveniências, pois não tem mais nada a perder. Qualquer gesto seu será sempre um gesto de afronta, sua própria existência, seus mulambos, sua figura suja e maltrapilha, serão sempre ofensivos. Pelo simples fato de estar ali, não lhe foi reservado nenhum espaço, a não ser o espaço do lado de fora, onde nós outros não estamos, e só lhe resta manter-se além da fronteira. Mas esta fronteira não delimita lugar algum para ele, já que o espaço de fora é um não-espaço, e nem as calçadas, nem os vazios sob as pontes, nem as marquises de edifícios públicos são lugares para se ficar, são pontos de passagem, onde se tolera-os, até que se decida expulsá-los dali.
As atrizes que assumem as personagens vêm de experiências distintas, mas paralelas: Daniela Carmona, de um trabalho de um ano junto à escola de Philippe Gaulier, um mestre do teatro francês, curiosamente radicado em Londres, e que já fez algumas incursões pelo Brasil, devendo retornar mais uma vez este ano. Junto a ele a atriz teve a oportunidade de participar de um atelier sobre o bufão; Claudia Sachs, de um ano de vivência junto à Escola de Jacques Lecoq, na França, com sua formação essencialmente voltada para o trabalho do clown. "Gueto Bufo" nasce da soma desses dois percursos e, claro, de experiência anterior com Maria Helena Lopes em Porto Alegre.
Daniela Carmona e Claudia Sachs dominam a cena, o espaço e os múltiplos personagens com que jogam, construídos a partir e sobre a própria figura dos bufões. Mínimos detalhes, simples adereços, bastam para nos revelar este outro mundo com o qual elas jogam, relendo o cotidiano de que não podem fazer parte, e por isso mesmo lançando sobre ele um olhar de tamanha sabedoria.
O jogo das duas atrizes aproxima-se do jogo dos clowns, com a figura da Vênus apoiando-se no jogo de sua parceira, Filó. O trabalho das duas é de tal modo entremeado que quase podemos dizer que uma não existiria sem a outra, que as duas personagens constróem um único e mesmo jogo, o da paródia à nossa sociedade, o da crítica profunda e feroz ao universo cômodo em que vivemos, e que se apóia nos que vivem à margem dele.

Idéias de mestre

O texto criado por Daniela Carmona inspira-se nos trabalhos de dramaturgia de Gaulier, mas tem fôlego próprio e sabe aproveitar as idéias do mestre para calcar a discussão numa realidade infelizmente muito nossa em sua crueldade e aspereza: a miséria cotidiana dos marginais de todos os bordos.
A figura grotesca das bufonas nos impede de rir simplesmente; tudo o que dizem vem revestido de um sentido crítico que não pode nos escapar, e qualquer sutileza, qualquer poesia, ganha ar de aberração, pois as figuras são horrendas, e, no entanto, conseguem ser líricas, conseguem nos fazer chorar. Elas têm graça, leveza no seu peso, singeleza e romantismo nos seus sentimentos, por baixo das figuras há um misto de medievalismo com uma construção atual da escória social a mais abjeta.
Figuras à margem, as bufonas em "Gueto Bufo" ganham lugar de protagonistas, e vão jogar com o mundo da sociedade que as excluiu. Jogadas para fora, sem um lugar de pouso, expulsas de um canto a outro, elas terminam por instalar-se na frente de uma igreja. E o padre já será pretexto para uma cena, parodiado na sua relação com uma de suas fiéis.
Sem braços, Vênus vaidosa joga seu charme para todos os homens que lhe aparecem no caminho. Seu grande amor foi encontrado morto numa vala, apodrecendo, com mais de dez tiros no rosto, e ela o vê hoje na estrela mais brilhante no céu, uma estrela que ele lhe deu de presente. Um trabalho que joga com a ironia e um humor brutal, falando do mundo de hoje, de nós mesmos, de onde estão os nossos párias, e o quanto de humano há neles, que nós esquecemos ou fingimos ignorar. Como afinal somos iguais e da exclusão nasce neles a compreensão apurada do que somos todos, é um retrato da sociedade como um todo que nós é apresentado, na nossa vaidade e futilidade, na nossa mentira e ilusão. Daí a ironia, daí o jogo ferino, daí a capacidade de compreender e falar na lucidez absurda dos loucos.
Com uma inteligência e crítica raramente vistas em nossos palcos, o trabalho conclui-se com uma cena fatal, reproduzindo os atos de agressão feitos aos mendigos em nossas ruas. Um momento de poesia e violência.
Único senão no espetáculo, a figura desse terceiro personagem que entra em cena para um único gesto. A ação do personagem é exagerada, excessivamente melodramática, aproximando-se dos dramas policiais ou de mistério em sua movimentação, no desejo de remarcar talvez a sua presença antes do ato de extermínio, o que acaba enfraquecendo a cena, e sobretudo desloca-a de tudo o que víramos antes.
Maxidesvalorização do real
Novas tensões surgirão a partir de março com tentativas de reajustes de preços e negociações salariais.  AN_Economia 
Mas o recado é dado, não saímos os mesmos do teatro. O nó na garganta, o soco na boca do estômago e a paixão pelo teatro misturam-se nesse jogo cênico que é mais que tudo um excelente trabalho de atrizes e um olhar atento e crítico a tudo que nos cerca.
"Gueto Bufo" é um desses trabalhos inesquecíveis que nos fazem acreditar na força e na importância do teatro. Um espetáculo digno que merece circular por muitos espaços. Não por acaso mantém-se em temporada desde março do ano passado em Porto Alegre, depois de ter participado da mostra APARTES de Jovens Talentos promovida pelo MEC em 1998, evento envolvendo profissionais das diferentes áreas das artes.

Manchetes AN

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06/01 - Tradição açoria a revive os santos reis
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A agressividade
vem do underground

Os lapsos de produção de "Se é pra Falar Mal...", estréia do Schnaps, não ofuscam as qualidades da banda joinvilense

GLEBER PIENIZ

Joinville - Ainda não é um registro formal, daqueles que constariam em uma discografia oficial do grupo, mas flagra - não sem atraso - a fase de afirmação do Schnaps como uma das bandas mais importantes da cena hardcore de Santa Catarina. Gravado no final de maio no Catharina Estúdio de Jaraguá do Sul, o single promocional "Se é pra Falar Mal..." chega agora às mãos do público, ainda que uma pequena quantia de CDs tenha sido prensada "apenas para divulgação", segundo o vocalista Alec Newlands. Este é o primeiro trabalho gravado pelo Schnaps como quinteto, uma nova formação com dois vocalistas que vem trabalhando desde o início do ano. É também a estréia em formato digital para a banda joinvilense, que já tem duas demotapes lançadas.
"Se é pra Falar Mal..." tem faixas suficientes (oito, mais uma vinheta fanhosa) para classificá-lo como um EP, mas sua duração (pouco mais de 16 minutos) o torna muito mais próximo do formato single. A própria embalagem do disco reafirma a proposta humilde do trabalho, feita apenas de cartão, com foto e arte em preto e branco, além do encarte confeccionado à base de fotocópia. Punk, muito punk para uma banda cuja agressividade do som e o vigor das performances são marcas registradas.
"Nosso som deixou de ser tão rápido para ficar mais pesado, com mais influências do metal", diz Alec. "Foi uma mudança natural: a nova formação começou a tocar junto, ficou bom e assim foi indo". Metade do disco é dedicada às músicas antigas do grupo, quando o Schnaps ainda era composto por Ricardo (vocal), Gordo (baixo), Amarelo (guitarra) e Thiago (bateria). A outra parte do single é feita de composições novas, crias da recente formação que incorporou à antiga trupe o vocalista Alec e deu à banda a possibilidade de trabalhar jogos de vozes num estilo "chama-responde" muito próximo do hip hop, um elemento que comunga perfeitamente com o som pesado, comprimido e - às vezes - minimalista do Schnaps.

Variações

O disco abre com "Eu Acredito", uma das músicas mais recentes do quinteto e que evoca influências de bandas como Prong e Helmet. "Alerta" faz parte dos trabalhos antigos e vem na seqüência com vocais menos agressivos, construindo um crossover com riff bastante tradicional - embora também admita a limpeza das guitarras. Minimalista, quase lacônica, a faixa título abre caminho para "Resto", um hardcore direto e cru na mesma linha de "Jornais Ambulantes" e "Inveja", ainda que esta última (uma das melhores faixas do disco, também da fase quarteto) seja entremeada por passagens que lembram a surf music e o rock dos anos 70.
Outro grande destaque do single, "Dia a Dia" se sobressai entre as músicas ora pela variação das guitarras e pela alternância de climas, ora pelo efeito peculiar que os vocais dobrados provocam. As vozes também fazem o diferencial de "Não Tente Fugir", mas surgem agora esquizofrênicas, ampliadas por megafone, fazendo companhia a uma linha melódica de baixo e guitarra influenciada pelo metal híbrido que um dia caracterizou o trabalho dos Ratos de Porão.
Mas nem só de acertos é feito "Se é pra Falar Mal...". Falhas na gravação do CD deixaram as guitarras sem peso e o baixo de Gordo (sempre arrasador ao vivo) sem pegada. Lapsos na edição das faixas deixaram muito tempo de silêncio entre uma música e outra e todo o trabalho de mixagem do disco poderia ter sido mais generoso com os volumes de todos os instrumentos. "Se é pra Falar Mal..." está sendo distribuído pelo Schnaps (rua Rodolfo Schmalz, 108 - Joinville/SC - CEP 89217-630), pela Grito Records (rua Minas Gerais, 123 - Jaraguá do Sul/SC - CEP 89254-010) e pela Abrigo Nuclear Records (Calçadão da Marechal, 399, sala 2 - Jaraguá do Sul/SC - CEP 89251-701).


Metallica transporta o rock para o universo clássico

REGIS MALLMANN

Florianópolis - A banda norte-americana Metallica prova em seu novo disco que o casamento entre o rock e o clássico é uma fórmula e tanto para se criar - ou reinventar - a boa música. Tocando seus maiores sucessos e um punhado de novas composições ao lado dos músicos da Orquestra Sinfônica de San Francisco, os roqueiros conseguiram fazer em seu novo disco, "S & M" ("Siymphony & Metallica"), uma incursão para um universo sonoro que mistura a harmonia de violinos, violas e violoncelos com guitarras, a leveza das flautas e oboés ao baixo, e a melodia sutil das harpas com o barulho quase ensurdecedor da percussão.
O resultado dessa união incomum é um trabalho vigoroso, que aposta em arranjos longos, alguns com quase 10 minutos de duração, mas que não chegam a enjoar por causa da sintonia perfeita entre os mais de 50 músicos da orquestra e os quatro integrantes do Metallica. Para que tudo isso não se transformasse num samba-do-criolo-doido era preciso alguém para botar ordem na casa. Michael Kamen, um dos mais respeitados compositores e produtores dos Estados Unidos, cumpre a tarefa com competência de mestre.
"S & M" é produto do encontro realizado em abril de 1999 no imenso palco do Berkeley Community Theater, com uma platéia formada por convidados e fãs, o que empresta ao disco uma ambientação calorosa, clima que não foi extinto na hora de editar o material, procedimento bastante comum e que na maioria das vezes priva o consumidor de uma boa parte da magia do trabalho. A condução de Kamen para essa verdadeira sinfonia é equilibrada. Ele não prende os músicos em uma fórmula única, deixando liberdade suficiente para que os de formação clássico e os roqueiros mostrem toda sua vitalidade musical, cada um dentro de seu gênero e conceitos.
Composto por dois CDs, o álbum abre com uma magistral interpretação de "The Ecstasy Of Gold", antológica criação de Enio Morricone, o mago das trilhas sonoras para o cinema, para o filme "Feios Sujos e Malvados". Com arranjo que remete o ouvinte para aquelas produções de faroeste espagueti italianas dos anos 60, Metallica e orquestra sinfônica fazem um introdução grandiosa para anunciar o que virá depois - 21 faixas, num total de 2 horas e 8 minutos de música.
Depois de Morricone, nos exatos 9 minutos e 34 segundos dedicados a "The Call Of The Ktulu", original do disco "Ride The Lightning", banda e orquestra começam efetivamente a desempenhar o repertório ilustrado por pérolas da carreira do grupo, um dos mais longevos do gênero. "Master Of Puppets", do disco homônimo, "Fuel", "The Memory Remains" e "Devil's Dance", gravadas em "Reload", e "Bleeding Me" e "Hero Os The Day", ambas de "Load", são os momentos mais marcantes do disco 1, que tem ainda a inédita "No Leaf Clover".
O segundo disco de "S & M" abre com "Nothing Else Matters" e se estende por por outras nove interpretações de sucessos e uma fresquinha, "Human", que, como a maioria das demais faixas do disco, é assinada por Lars Ulrich (bateria) e James Hetfield (guitarra, vocal), líderes da banda, completada por Kirk Hammet (guitarra) e Jason Newsted (baixo). Há 18 anos na estrada, o Metallica nunca tinha feito um trabalho do tipo "best of". Poderia ser apenas mais uma compilação, não fosse a apuradíssima produção e a idéia de levar para o universo clássico toda a fúria do rock, que fez do grupo um dos mais cultuados das últimas duas décadas. Tomara que esse vigor produza ainda outros presentes como "S & M".

"S & M", com Metallica e Orquestra Sinfônica de San Francisco. Lançamento: Universal. Onde encontrar: Rock Total Discos, rua Henrique Meyer, 68, fone (0xx47) 422-2788. Preço: R$ 31,90.

Lançamentos

"Enrique" (Enrique Iglesias) - Ainda colhendo os louros pelo sucesso estrondoso do single "Bailamos", que embalou a fracassada versão para o cinema do seriado de TV "James West", Enrique Iglesias retorna ao mercado com um disco onde entra de vez na dança. Sem abandonar o romantismo que vem pontuando sua carreira, o cantor aproveita-se do êxito em outra área sonora e faz um trabalho mais voltado para as pistas. "Enrique" abre com "Ritmo Total", onde faz referência ao Brasil. De olho num público variado e de países diferentes, o cantor aposta em versões em espanhol e inglês das músicas. Apesar do esforço, não consegue sair do lugar comum. (Universal). (RM)

"Reload" (Tom Jones) - Esperto o veterano cantor inglês. Depois de ressurgir em alto estilo na década passada, ele une sua voz de barítono a respeitáveis nomes do pop mundial (veteranos ou não) num disco pra lá de recomendável. Entre tantos bons momentos, há de se destacar os duetos com Stereophonics, Robbie Williams, Van Morrison e Portishead, além das versões de "Burning Down the House" (Talking Heads), com The Cardigans, e "Lust for Life" (Iggy Pop), com os Pretenders. Mas se nada disso prestasse, o CD ainda valeria por uma única faixa: a emocionante "I'm Left, You're Right, She's Gone", que Jones divide com James Dean Bradfield, líder dos Maniac Street Preachers. Divina é pouca. (Roadrunner). (Rubens Herbst)

"Marc Anthony" (Marc Anthony) - O relativo sucesso que faz nos Estados Unidos e a recente onda latina capitaneada por Ricky Martin que varreu as paradas mundiais credenciaram Anthony a ter seu quinto disco lançado no Brasil. Não que o cantor/compositor seja portoriquenho ou que ele faça salsa ou rumba, longe disso. Na verdade, Anthony dilui elementos da música latina em baladas açucaradas que nada ficam a dever a Celine Dion e Mariah Carey. Portanto, quem esperar algo sacolejante terá que se contentar com vocais derramados, orquestrações convencionais e um ou outro violãozinho para "dar o molho". Mas o bonito refrão e o acordeão executado por T-Bone Walk em "You Sang to Me" se sobressaem em meio a caretice. (Sony/Epic). (RH)

"Queens of the Stone Age" (Queens of the Stone Age) - O que no Kyus era sisudo e denso, o QOTSA tornou solto e expansivo, embora tenha mantido a maturidade. A estréia em disco da nova banda do guitarrista Josh Homme lembra muito seu saudoso grupo de origem (principalmente em "Regular John" e "Mexicola"), mas ameaça esta impressão com faixas que denunciam uma aproximação com o punk, com o som de Seattle ("You Would Know") e mesmo com a música pop ("If Only" e "How to Handle a Rope", por exemplo). É fazendo o mix perfeito destas duas faces distintas, no entanto, que o trio da Califórnia se supera, lapidando jóias do peso como "You Can't Quit Me Baby" e "Give the Mule What he Wants". (Roadrunner). (GP)

"One Amazing Night" (Vários) - Burt Bacharach fez o que de pior e o que de melhor existe em termos de música para o cinema e séries televisivas. É justo, portanto, que seja um time irregular de artistas a prestar-lhe homenagem em "One Amazing Night". Entre All Saints, Sheryl Crow e Barenaked Ladies, brilham as performances de Elvis Costello (com a óbvia "God Give me Strength"), de David Sanborn e George Duke (com a jazzy "Wives and Lovers"), além da presença de Bacharach executando "Alfie", sua canção preferida, ao piano. De resto, não dá pra levar a sério um disco em que Mike "Austin Powers" Myers interpreta "What's New Pussycat?" ou o Ben Folds Five destrói a clássica "Raindrops Keep Fallin' on my Head" com uma vozinha em falsete. (Abril Music). (GP)

"Monomania" (Iconoclásticos) - O trio gaúcho tem uma de suas bases sonoras solidamente fincada no gótico e na música eletrônica dos anos 80. A outra funde minimalismo e serialismo cyberpunk, dando a "Monomania", seu álbum de estréia, o viço que os dias de hoje exigem dos novos artistas. "Saturn's Hair", "Over Stress" e "Exercise One" (cover do Joy Division) atestam a fidelidade da banda aos climas analógicos soturnos, ao passo que "Trash Manitu" liga seu som ao mundo da tecnologia. De quebra, "Monomania" traz oito faixas bônus com material antigo da banda, mostrando que a combinação passado/presente não começou hoje para os Iconoclásticos. (Hipocampo). (GP)


1939 não deveria ter acabado

Ano foi um dos mais generosos para o cinema, com inúmeras salas, muitas produções de qualidade e vários clássicos

Lola Aronovich
Especial para o Anexo

Sessenta anos atrás, Hollywood andava a pleno vapor. A depressão ainda afetava o cotidiano, a Segunda Guerra estava prestes a começar, e o cinema funcionava como válvula de escape. Era um verdadeiro fenômeno. Em 1939, nos EUA, existiam mais salas de cinema do que bancos. A indústria do entretenimento era a décima primeira mais forte, maior, por exemplo, do que as cadeias de supermercados. Este número já diz tudo: 50 milhões de americanos iam ao cinema toda semana. Tanto que a soma de salas per capita era duas vezes superior a de hoje.
Antes de continuar, é importante observar que poucos lendo este artigo viveram este período. Mas isso não significa que a gente deva fechar os olhos a este que é considerado o ano dourado de Hollywood. Seis décadas se passaram, e o cinema nunca mais chegou perto de produzir tantas obras-primas em um só ano. É um contraste fascinante com a década de 90, eleita, por unanimidade, a pior da história da sétima arte. Aliás, atualmente, ninguém mais se refere ao cinema como uma arte sem esconder o sarcasmo no rosto. Porém, em 1939, esta indústria ainda era bem artística.
"Indústria" é a palavra certa pra se usar hoje, e nisto não era muito diferente 60 anos atrás. Era a época dos grandes estúdios, do cinema cujo autor era o produtor, dificilmente o diretor, dos contratos de ator que o obrigavam a interpretar vários papéis por temporada. Tal como hoje, em 1939 Hollywood também lançava 400 novos filmes por ano. A diferença é que então havia vários que valiam a pena.
Bette Davis, pra ficar em um só nome, estrelou quatro produções naquele ano. "Vitória Amarga", em que interpreta uma socialite mimada cuja vida está no fim, foi apenas um deles. Foi em 1939 que "Garbo riu", mais especificamente em "Ninotchka", uma comédia suprema sobre uma espiã comunista corrompida pelo luxo parisiense. Greta Garbo já era um mito antes desse filme, mas ele veio para consolidar a lenda.
Frank Capra também já era reconhecidamente consagrado. No entanto, ele dirigiu sua comédia mais famosa em 1939. "A Mulher Faz o Homem", com seu ator predileto, James Stewart, mostra a decepção de um jovem idealista ao se deparar com a corrupção no senado americano.
Só John Ford rivalizava com Capra pela posição de diretor mais popular, e então Ford lançou um John Wayne novinho em "No Tempo das Diligências". Este faroeste, um dos mais influentes de todos os tempos, retrata passageiros com personalidades diversas cruzando o Oeste dos EUA. Naturalmente, há um ataque de índios - lembre-se que os nativos são os vilões da história e os brancos, os mocinhos. Mesmo sendo uma obra fascista, permanece indiscutivelmente na galeria dos clássicos, assim como "Nascimento de uma Nação", de Griffith. É um daqueles filmes que moldaram o inconsciente coletivo americano.
E o que dizer de "O Mágico de Oz"? Pois é, também é de 1939. Judy Garland, então com 17 aninhos, cantando "Over the Rainbow", serve como referência? A sueca Ingrid Bergman arrasou em "Intermezzo", seu primeiro filme falado em inglês. A aparição mais notória de Joan Crawford nas telas daquele ano se deu em "As Mulheres", sobre a competição entre (mui) "amigas" para conquistar os corações dos homens.
O monstro sagrado Laurence Olivier (considerado um dos grandes atores do século - só Marlon Brando pode roubar seu posto) foi a Hollywood pela segunda vez para ser transformado em galã na adaptação da obra de Emily Bronte, "O Morro dos Ventos Uivantes", sobre um amor sem futuro na Inglaterra pré-Vitoriana. Este clássico fez tanto sucesso entre o público feminino que, nos meses seguintes, um terço das meninas nascidas em 39 receberiam o nome de Cathy, a heroína do filme.

Poucas estatuetas

Mas, acredite, nenhuma dessas produções teve muita sorte no Oscar. A estatueta de melhor ator foi para Robert Donat por "Adeus, Mr. Chips". Além dele, 1939 foi o ano de "Beau Geste", com Gary Cooper na Legião Estrangeira; de Marlene Dietritch em "Atire a Primeira Pedra"; de Howard Hawks dando um papel essencial a Rita Hayworth, ao lado de Cary Grant; de musicais de Busby Berkeley; do "Gunga Din" de George Stevens; de Katharine Hepburn afiando suas unhas no teatro; da adaptação definitiva do romance de Steinbeck para o cinema, em "Carícia Fatal"; de Hitchcock chegando a Hollywood; de Charles Laughton brilhando como o corcunda de Notre Dame....
Eram tempos ingênuos, quando patrões sem grande talento para a arte acertavam meio que sem querer. O chefão da MGM, Louis B. Mayer, recusou a entrada de Mickey Mouse em seu estúdio sob a alegação que "toda mulher tem medo de rato". Depois, o próprio, ao consultar seu subalterno Thalberg, rejeitou um certo drama sobre a Guerra da Secessão, já que esses "não rendiam um níquel sequer". Ahn, era "...E o Vento Levou".
Se este clássico dos clássicos tem um autor, ele é o produtor Selznick, genro de Mayer. Sua busca pela Scarlet O'Hara perfeita mobilizou a sociedade, testou todas as atrizes imprescindíveis da época e custou 100 mil dólares, mas atingiu uma repercussão incalculável. A lenda conta que o irmão do produtor conheceu Vivien Leigh, namorada de Laurence Olivier, e a levou para conhecer Selzick no dia em que queimavam Atlanta. A inglesa ganhou o papel e incendiou o imaginário do público, que via no casal o encontro ideal entre Scarlet e Heathcliff, o herói de "O Morro dos Ventos Uivantes".
O impressionante mesmo é que "...E o Vento Levou" foi apenas um dos clássicos feitos na Hollywood de 1939. Houve tantos outros que é fácil perder a conta. Agora analise comigo: quantas obras-primas você viu nesses últimos vinte anos? Certo, certo, sei que a comparação é injusta. Mas seria bom se 1939 não terminasse nunca, se fosse um ano constante a assombrar a produção cinematográfica atual, a lembrá-la de quando os americanos sabiam fazer cinema. Faz tempo, né? 60 anos...

Lola Aronovich (lola@netkey.com.br) é cinéfila e professora de inglês em Joinville

 
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