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ANotícia
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Cores, dores
e ferramentas do devir
Bienal do Mercosul
que se encerra hoje em Porto Alegre flagra a inquietude técnica
da arte atual
GLEBER PIENIZ
A
2ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul que encerra hoje
em Porto Alegre, ao contrário da sua primeira edição,
não se restringiu a um único tema. O curador geral
Fábio Magalhães foi claro ao afirmar que a mostra
deu ênfase aos aspectos contemporâneos da arte -
atividade que está mais preocupada em aprofundar seus
dilemas do que resolver direcionamentos temáticos. Mais
de 120 de artistas do Brasil, Argentina, Colômbia, Uruguai,
Paraguai, Chile e Bolívia mostraram que estas contradições,
se ainda não apresentam soluções satisfatórias,
estimulam a criatividade a romper limites e a buscar novos padrões
para estabelecer uma manifestação mais rica em
valores para os próximos tempos.
Tunga, com "True Rouge", faz uma metáfora do
corpo humano através de intrincada rede de telas, fios,
esponjas, ganchos e garrafas. Na abertura da Bienal, o brasileiro
fez escorrer entre estas peças da obra um líquido
vermelho e pegajoso - fluidos vitais em atividade. Também
ilustrando a vida (agora pela ótica social), a argentina
Nora Aslan apresenta uma instalação composta de
berços, luzes e um painel que expõe contrastes
entre a ternura e a barbárie provocados pela violência.
Contundente, "Ab-sur-do", constrói significado
através de uma refinada ironia. Mais direto é Luiz
Zerbini, cuja instalação em madeira e mármore
reproduz o torso do artista e serve de tema para que a fotografia
recrie seus detalhes na forma de uma orelha, de um bebê
e de uma chupeta. Discreta, Lucia Koch faz com que seu "O
Gabinete" em acrílico projete puras e geométricas
cores de Mondrian sobre as pessoas que o visitam sob o sol da
tarde. De uma das janelas desta instalação, é
possível ver "Sky Drawing" (escultura gigante
de Márcia Grostein) literalmente riscar o céu sobre
o Guaíba com sua ponta fosforescente.
"Doador", de Élida Tessler, é um corredor
cujas paredes foram forradas com ralador, computador, aspirador,
coador e outros 223 objetos com nomes terminados em "dor",
readymade (ou uma sátira?) levado às últimas
conseqüências em número e conceito para compor
uma das instalações mais lúdicas de toda
a Bienal, tão divertida quanto as esculturas do colombiano
Nadin Ospina em "El Bosque de los Ídolos": seus
tótens têm a base esculpida segundo a estética
indígena, mas as cabeças - nas figuras de Mickey,
Minnie e Bart Simpson - são ícones da cultura pop.
Igualmente irônica (embora com carga maior de acidez),
em "Trofeos de Caza" a chilena Caterina Purdy destila
sarcasmo contra as pessoas que usam peles, transformando carcaças
de cândidas ovelhas em mochilas e bolsas de mão.
A uruguaia Andrea Finkelstein em "Nobody Calls me by my
Name" usa cerâmica e arame para criar exóticos
objetos que, como a própria artista sugere, jamais serão
chamados pelo nome (se é que possuem algum). Já
o brasileiro Marepe denomina "A Bica" um verdadeiro
labirinto em alumínio destinado a recolher a água
das chuvas, criando um objeto de apurada simetria e despojada
beleza.
PASSADO E PRESENTE
Em "Construções de
Afeto", Divino Sobral constrói rosários, tótens
e relíquias com o sebo, os pêlos e os cabelos do
homem, materiais que deixam seu valor individual em segundo plano
para resgatar conceitos coletivos como religiosidade e ancestralidade.
O uruguaio Federico Arnaud reconstrói em "El Juego
de los Milagros" a mesma ponte histórica através
da religião fazendo de santos, crucifixos e ostensórios
as figuras principais de objetos de uso contemporâneo como
uma cadeira, um relógio e mesmo uma mesa de pebolim. Em
"La Última Cena", a uruguaia Águeda Dicancro
cruza a referência religiosa predominante com a abordagem
filosófica, lembrando que tanto Sócrates quanto
Jesus tiveram uma última refeição com seus
seguidores. Para reconstituir estas despedidas, a artista usou
vidro em uma mesa despedaçada e em 12 cadeiras separadas
por um facho de luz que sugere, ao mesmo tempo, ausência
e presença.
"El Punto de Vista", da uruguaia Rita Fischer, usa
véus sobrepostos para esconder texturas e recortes, causando
espanto em quem se aventurar com mais curiosidade para dentro
de sua instalação de paredes vermelhas. Outro artista
que provoca estranhamento é Flávio Emanuel com
a instalação "Os Teleguiados", seqüência
de sensações visuais e sonoras em uma sala de alvas
paredes maculadas por insetos, asas de galinha e ovos aprisionados
em arame, um mundo que pode ser percorrido por intrigantes carros
com cérebro de boi guiados por controle remoto.
POTENCIAL CORPÓREO
O boliviano Zapata investe na pintura figurativa e acadêmica,
mas sua abordagem para a série "Identidades Ajenas"
apresenta resultados surpreendentes de volume, luz e forma, aproximando
sua estética da arte contemporânea e da fotografia
graças ao despojamento dos temas e à desconcertante
simplicidade com que flagra seus modelos. Valia Carvalho, sua
conterrânea, também faz do corpo temática,
embora eleja a instalação como instrumento para
resolver seus impasses na pintura, na fotografia e na escultura.
"Yo soy, I am" é um dos ambientes mais desconfortáveis
da Bienal e mostra a própria artista como protagonista
de um processo de descontrução: centenas de fotos
na parede dão significado às vaginas hemorrágicas
expostas em uma velha cama cirúrgica, uma crítica
à exploração do corpo feminino e à
valorização pornográfica da beleza. Não
tão rigoroso, mas tão surrealista quanto Dali,
Marcelo Suaznabar centra a reflexão nas figuras de um
cavalo e dos relógios no políptico em tela "Últimos
Minutos". Ao contrário do artista espanhol, o pintor
boliviano busca a essência das linhas e das formas, embora
deva ao mestre todo seu catálogo de citações
(incluindo objetos aleatórios, os numerosos seres humanos
em tarefas específicas e os já citados relógios).
Show de interpretação
Matheus Nachtergaele empresta talento a padre Miguel em "A
Muralha".
AN_Tevê |
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Com o objetivo de estimular a reflexão
individual sobre sonhos e projetos pessoais, o chileno Gonzalo
Diaz propõe a arquitetura como metáfora. "Al
Pie de la Letra" é a obra que ocupa a maior área
da Bienal e remete a uma catedral em construção,
colosso de madeira por onde o público pode perambular
e sentir-se só, pequeno, abandonado. Concretizando o impossível,
"A Escada" de Mauro Fuke faz referência direta
aos planos e pontos de fuga imaginários de M.C. Escher
e encontra nos trabalhos de Félix Bressan o seu equivalente
no "mundo dos homens comuns". Ao contrário de
Fuke e Diaz, que desafiam as possibilidades da arquitetura como
matéria para a arte, Bressan encontra na descontrução
de ferramentas do cotidiano o caminho para a descoberta de novas
formas, tornando possível mesmo transformar uma sala em
labirinto graças às espirais de uma picareta.
Rigor e instinto em fragmentos
Rodrigo de Haro
é o representante de Santa Catarina na Bienal do Mercosul
GLEBER PIENIZ
Rodrigo de Haro é o único catarinense selecionado
para a 2ª Bienal do Mercosul e, curiosamente, é autor
da única obra que permanecerá exposta em Porto
Alegre depois de encerrado o evento. "É o único
trabalho definitivo da Bienal", resume o artista. "É
a minha contribuição à paisagem urbana da
cidade". "O Quinto Império", mosaico em
cinco cenas confeccionado com fragmentos de cerâmica, ocupa
uma área de 21 m2 no muro externo da Usina do Gasômetro
(um dos três locais onde a mostra acontece) onde tem o
privilégio ímpar de ser, também, a obra
que dispensa catracas para ser admirada, pois fica na parte externa
do prédio, às vistas de quem passa pela avenida
Presidente João Goulart, inaugurando o Mural da América
Latina.
Há mais de vinte anos trabalhando com mosaicos (a fase
coincide com a chegada deste parisiense a Florianópolis,
onde vive até hoje), De Haro considera "O Quinto
Império" uma obra diferente daquela que está
executando na reitoria da UFSC, um detalhe que salta aos olhos
de quem considera o trabalho do artista na Bienal uma produção
mais modesta ou menos detalhista do que aquela que o catarinense
está acostumado a ver na Ilha. "Em Porto Alegre,
quis experimentar uma coisa mais vazia, com menos detalhamento
e mais sugestão", explica o autor. "O tema é
uma fantasia com o mundo pré-colombiano, um quinto império
como a visão americana idealizou".
"Passe para o outro lado" são as cinco palavras
que interagem com as cinco cenas propostas por De Haro no mosaico.
Ele explica que "as imagens vêm na seqüência
do tarô" e têm significados específicos,
partes de um todo que compõem uma narrativa de descoberta,
transformação e redenção. O primeiro
quadro ("a lanterna", diz o artista) representa a luz,
o entendimento; o segundo, "o sinal", estabelece um
contato, é a ponte, a comunicação. Na terceira
cena, De Haro usa a figura de Anúbis ("o guia")
para representar a idéia, o sentimento, a fidelidade.
"A viagem" é o quarto quadro, um barco simbolizando
deslocamento e mudança, uma transformação
que conduz à quinta cena, "a totalidade", representada
em mosaico na figura de um hermafrodita cósmico. "Neste
mosaico, parte é elaboração, outra é
instinto e improviso", confessa o autor.
De Haro lembra que a proposta de ocupar o muro lhe pareceu, a
princípio, uma idéia perigosa. O artista conhece
o estigma que aquele muro empresta a Porto Alegre e é
até favorável à sua remoção.
"Achei que se eu executasse um mural de 30 metros naquele
muro eu estaria sendo conivente com a sua permanência",
diz o catarinense. Fazer um mosaico menor, em uma área
do muro alheia à aversão do porto-alegrense, foi
a saída encontrada pelo artista, homem acostumado a coinciliar
a arte, o folclore e a cultura acadêmica. "Acho mais
adequado trabalhar com o mosaico porque, além de sermos
grandes produtores de cerâmica, estabeleço um elo
realista com a tradição popular", teoriza.
Picasso, Iberê Camargo e
Le Parc são homenageados
A segunda edição da Bienal de Artes Visuais
do Mercosul presta homenagem, com exposições e
curadoria especiais ao mestre catalão Pablo Picasso, ao
multifacetado Iberê Camargo e ao visionário argentino
Julio Le Parc. Cada um dos primeiros ganha um andar inteiro no
Museu de Artes do Rio Grande do Sul. Le Parc, menos ortodoxo,
tem espaço de destaque junto aos contemporâneos
na Usina do Gasômetro.
A exposição "Picasso, Cubistas e a América
Latina" tem curadoria de Fábio Magalhães e
apresenta - além de 33 telas e gravuras de Picasso - obras
de Portinari, Tarsila do Amaral, Brecheret, Barradas, Lipchitz,
Di Cavalcanti, André Lothe, Pettoruti, Leger, Milton da
Costa, Metzinger, Segall, Maria Leontina, Antonio Gomide, Rego
Monteiro, Gleizes, Rivera e Obregon. Quem buscar nas telas expressão
máxima de Picasso encontra "Mujer Acostada"
e "O Atleta (Busto de Homem)" em meio a dezenas de
gravuras, de onde se destacam as sátiras a Franco ("Sueño
y Mentira de Franco") e a água forte "Pintor
Delante de su Cuadro". Mais didática e representativa
é a panorâmica sobre os cubistas na América
Latina, mostra que destaca os painéis em têmpera
de Portinari (nitidamente influenciado pelo Picasso do entre
guerras) como "O Massacre dos Inocentes" e "O
Pranto de Jeremias", as esculturas em bronze de Brecheret
("O Beijo" e "Três Graças")
e a tela "Cavaleiro", de Lasar Segall.
Iberê Camargo ganha retrospectiva meticulosa e educativa
na curadoria de Lisette Lagnado, que reconstrói a trajetória
estética do artista gaúcho morto em 1994 através
de seus ícones mais representativos: os carretéis
(não por acaso o símbolo da 2ª Bienal). Telas,
gravuras e desenhos revelam que os carretéis surgidos
como tema no final da década de 50 não são
para Camargo apenas objetos, mas elementos que deram estruturação
e equilíbrio (às vezes profundo, noutras, frágil)
à sua obra. Da planura e da simplificação
da década de 50, passando pelas telas carregadas de preto
da década de 60, pela redescoberta da cor e do gesto nos
anos seguintes e chegando aos anos 80, quando a figura humana
começa a brotar da geometria, o trabalho de Camargo acompanha
nos desenhos e nas gravuras a mesma estética das telas,
revelando um artista tenaz e disciplinado.
Argentino, Julio Le Parc mora há mais de 40 anos na França
e suas 23 obras reunidas sob curadoria de Sheila Leirner dão
à exposição um caráter inédito.
Seu trabalho engloba os conceitos de cor, forma, espaço
e movimento, questionando-os da mesma forma que são apresentados:
integrados e livres das abordagens est;eticas tradicionais. Limpa,
a arte de Le Parc usa e abusa das lentes, dos metais e dos espelhos
em busca de respostas na ótica, na projeção,
na distorção e na refração da luz,
na ilusão das cores e na capacidade de movimento dos corpos,
muitas vezes exigindo do público a intereferência
necessária para que cada trabalho possa mostrar todo o
seu potencial de significação. Brinquedos? Peças
decorativas? Experimentos científicos? Cabe a cada um
definir. O que é fato é que não há
como ficar impassível frente aos convites do argentino.
(GP)
Ciberarte mostra mais
dúvidas do que certezas
A mostra de arte e tecnologia "Ciberarte: Zonas de Interação",
com curadoria de Diana Domingues, traz à Bienal o trabalho
de 34 artistas de todo o mundo que vêem nas possibilidades
crescentes da informática uma alternativa para mergulhos
mais profundos no campo da criatividade. Ocupando todo o primeiro
piso do Gasômetro, os trabalhos selecionados para a mostra
provam que o domínio dos meios cibernéticos e virtuais
ainda não dão autonomia suficiente ao artista (é
possível sentir certa inocência no ar) e que a interatividade
- maior atrativo da ciberarte - restringe as possibilidades
de interpretação da obra quando deveria ampliá-la.
Salvam-se de pagar o preço do pioneirismo os brasileiros
Kiko Goifman e Jurandir Müller com "Jack in Slow Motion"
e "Valetes em Slow Motion", instalação
e ambiente multimídia correspondente onde gavetas metálicas
contêm objetos velhos, papéis e garrafas, numa clara
alegoria ao sistema carcerário nacional. "9/4 Fragmentos
de Azul", de Gilberto Prado, além de exigir um contato
mais íntimo do público com a obra, oferece maior
autonomia ao espectador e, por isso, dilata as possibilidades
de interação. "Trans-e: My Body, my Blood",
de Diana Domingues e o grupo de pesquisa Artecno da Universidade
de Caxias do Sul (RS), é um ambiente intrigante, sensível
à temperatura, ao movimento e à posição
do espectador, oferecendo em troca imagens e sons hipnóticos
armazenados na memória do computador, além de mover
um líquido vermelho-sangue no interior de uma bacia colocada
no centro da instalação.
Há, do outro lado, artistas cujas obras não rompem
a barreira da demonstração, utilizando da ciberarte
apenas o seu caráter de novidade. "Plants Growing",
trabalho de Christa Sommerer e Laurent Mignonneau, condiciona
ao contato do espectador com samambaias, avencas e cactos o surgimento
de plantas na tela de um computador, dando ao público
apenas o direito de frear/reiniciar o processo. O livro "Beyond
Pages" do japonês Masaki Fujihata impressiona à
primeira vista, mas oferece interatividade tão restrita
que se torna quase uma demonstração em CD ROM.
(GP)
Um olhar para
a dança do ano 2000
Criação
da Escola do Teatro Bolshoi abre novas perspectivas para a arte
no Estado
Sandra Meyer Nunes
Especial para o Anexo
Alguns acontecimentos ocorridos em 1999 no universo da dança
catarinense abriram novas perspectivas que certamente nortearão
o próximo. A dança suplantou qualquer expectativa
e chegou a ser uma espécie de carro chefe do projeto político
da maior cidade do Estado, e não pode ser considerado
pouca coisa para a área. Os efeitos provocados desde o
anúncio até a efetivação da vinda
da Escola de Dança do Bolshoi para Joinville ganham várias
dimensões. Só o fato de um projeto na área
da dança puxar o trenó do discurso, e posterior
realização, de um projeto político, em si,
já pode ser considerado, no mínimo, extraordinário.
Mesmo não sendo uma novidade de todo, já que o
Festival de Joinville há tempos transformou-se na menina
dos olhos do governo joinvilense, a dança conquista um
feito invejável, considerando o espaço que esta
vinha até então ocupando dentro dos projetos político-culturais
no Brasil, e até mesmo na própria história
da arte.
Ainda que considerada a mais antiga ou "universal"
das artes, dentro da história que se aprende na escola,
a dança ainda tem seu espaço a conquistar. As tais
artes cênicas, ditas efêmeras, que contam a história
do gesto, do movimento e da palavra falada em tempo presente,
aguardam seu espaço devido dentro do ensino formal. As
artes mais estudadas para testemunhar a evolução
cultural são as chamadas artes de traço mais permanentes,
tais como a pintura, arquitetura e escultura, assim como a literatura.
Mas a dança teve até momentos históricos
em que seu espaço dentro das relações sócio-políticas
era determinante. Dona de uma narrativa que se dá no corpo,
e que mais se assemelha à poesia - com seus significados
múltiplos - do que a prosa, "as danças",
por que são muitas, são atos sociais, segundo Judith
Hanna, que contribuem para o contínuo surgimento da cultura.
A Corte de Luís 14, o Rei Sol, a exemplo, impunha ao cortesão
o conhecimento não só das regras sociais e de etiqueta,
mas da arte da dança. Quanto maior o domínio corporal,
mais possibilidade de proximidade com o poder. Nascida no momento
em que a dança se encontrava estreitamente ligada à
vida de Corte, o balé chamava o homem a desempenhar o
seu papel através dos seus gestos. A dança passou
a ser uma forma de classificar e ordenar as relações
de nobreza e espelhava a posição de poder em relação
ao rei.
Guardadas as devidas proporções históricas,
obviamente, (tais como o fato do próprio Rei Luis 14 ser
bailarino), o balé clássico continua a exercer
o seu fascínio e seu poder de sedução. A
atual prefeitura de Joinville carregará para sempre, como
estandarte, o feito de ter trazido a mítica Escola do
Bolshoi à Joinville. Em recente artigo para este jornal,
quando falava das boas perspectivas para o ano 2000, o prefeito
Luiz Henrique da Silveira enumera quatro itens de sua gestão:
crianças na escola, passagem única de ônibus
para todos, pavimentação de ruas e as 80 vagas
para alunos pobres proporcionadas pela Escola do Bolshoi no Brasil.
Mesmo que a Escola Bolshoi, na Rússia, passe por maus
lençóis devido à falta de apoio estatal
e o franqueamento de sua técnica e estética tornou-se
condição de sobrevivência, e seus áureos
tempos de perfeição técnica não sejam
também os mesmos, a implantação da Escola,
se mantida a excelência por ela conquistada, se converterá
em grande impulso para a profissionalização da
dança no Estado (e no País). Após uma história
de 16 anos de Festival, está na hora de Joinville, como
sede do mesmo, sedimentar um trabalho consistente nas áreas
da criação artística e ensino da dança
que faça jus ao investimento e mídia propagados
pelo evento.
Curso ofuscado
O efeito causado pela vinda da Escola Russa foi tão
avassalador para a dança em Joinville que outra iniciativa
da mesma cidade, tão importante quanto a vinda do Bolshoi,
a criação do Curso Superior de Dança da
Univille, acabou eclipsada pela mesma. Passados os primeiros
sintomas da febre Bolshoi, a iniciativa da Univille certamente
ganhará seu espaço devido. Ainda dentro do ensino
acadêmico, o Centro de Artes da Udesc implantou este ano
um Curso de Pós-Graduação em Dança
Cênica, à nível de especialização.
O curso tem recebido alunos da capital e de todo o Estado, além
de profissionais do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná
e Rio Grande do Sul, cobrindo uma lacuna em relação
à cursos desta natureza no País. Cabendo à
universidade a formação teórico-prática
e capacitação do pesquisador, tanto na área
artística quanto pedagógica, estes dois cursos
acadêmicos se convertem em significativos espaços
criados para a profissionalização da dança
no Estado.
Após uma bem sucedida turnê nacional com o espetáculo
"In'Perfeito", aguardamos a estréia em março
de "Violência", o novo trabalho do Grupo Cena
11, nossa mais destacada companhia de dança. Mas quem
quiser assistir terá que se deslocar a São Paulo.
Trata-se do espetáculo mais trabalhoso, segundo o coreógrafo
Alejandro Ahmed, no que se refere à linguagem do corpo.
As intenções da ações físicas
tornaram-se mais fortes que a construção da forma,
e a violência a que se referem não reside no que
já nos é habitual. Há uma busca de violentar
o ato que aparentemente se faz normal. Enquanto isso, Ahmed é
convidado a coreografar para o Balé da Cidade de São
Paulo, uma das companhias estatais mais importantes do País.
Mais um sinal da credibilidade que o grupo vem alcançando
no circuito profissional das artes cênicas brasileiras.
Outro fato também levou a dança a ocupar um espaço
respeitável na mídia no ano passado. Trata-se dos
editais do Centro Integrado de Cultura, em relação
ao Espaço da Escola de Dança. Discussão
acalorada, serviu para repensarmos o espaço público
do CIC como fomentador da dança a nível estadual.
A revitalização das oficinas e cursos se faz necessária,
já que o governo, até então, não
sensibilizou-se para a criação de companhias estatais.
Talvez o mais oportuno seja, neste momento, o apoio, através
de um processo seletivo, às companhias e grupos já
atuantes, bem como o incentivo aos novos através de bolsas
de pesquisa, formação profissional e projetos de
apoio à montagem e circulação de espetáculos.
Assim, abre-se maior espaço para a diversidade de propostas.
Este ano marcou também a revitalização da
Aprodança, a Associação de Profissionais
de Dança de Santa Catarina. Pela primeira vez a área
da dança ocupa uma cadeira no Conselho Estadual de Cultura,
representada pela entidade. Como meta para o próximo ano,
o fortalecimento da representação em todas as regiões
do Estado a fim de integrar cada vez mais os profissionais da
dança. Despontando como mais um importante pólo
da dança no Estado, está a cidade de Lages. À
frente da Fundação Cultural e da Escola Municipal
de Lages, Henrique Beling, lageano que fez carreira profissional
como bailarino em companhias como o Ballet Stagium, tem desenvolvido
propostas interessantes e abrindo perspectivas para a área
na região serrana.
Fiat Brava
Desempenho do propulsor deixa a desejar e contrasta com o instigante
visual do novo médio da Fiat no País.
AN_Veículos |
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A Mostra Nacional de Dança de Florianópolis,
organizada pela Fundação Franklin Cascaes, importante
evento para o Estado, poderia ganhar um perfil mais definido
e um acréscimo maior de qualidade se abrisse a outros
produtos estéticos e propostas estruturais. A abertura
à opiniões de profissionais, numa espécie
de curadoria, a exemplo do que ocorre em qualquer grande evento,
ajudaria a refletir melhor sobre o perfil da mostra, para que
tenha um reconhecimento maior não só dos profissionais
mais conceituados da área no Estado, mas também
pela crítica nacional especializada. Se a Fundação
estabelecesse uma agenda em parceria com outros eventos, a exemplo
do que tem ocorrido entre festivais de Porto Alegre e Buenos
Aires, teríamos a oportunidade de assistir companhias
nacionais e internacionais de qualidade sem um ônus maior.
Talvez aplacasse o imenso vácuo cultural a que somos ainda
submetidos pelo não acesso aos grandes nomes da dança.
Apesar do reconhecimento,
grupos ainda carecem de apoio
A dança vem servindo à mídia propagadora
dos chamados grandes feitos que a cidade de Joinville tão
habilmente externaliza: o maior festival de dança do mundo,
no maior centro eventos da América do Sul, e por aí
vai. Felizmente a organização do festival este
ano decidiu estabelecer mudanças através de uma
comissão composta por profissionais da área. Os
valores quantitativos e as taxas de grandeza, em si mesmo, não
garantem a boa sobrevivência das coisas, seja na natureza
ou na cultura. A atenção a certos valores qualitativos
não podem ser mais desprezados frente ao crescimento surpreendente
daquele que se tornou nosso mais importante evento de dança.
A vinda este ano de companhias profissionais com seu elenco principal
e apresentando obras completas já aponta para uma mudança
de perfil.
Na área da criação, este ano revelou o potencial
da coreógrafa florianopolitana Karina Barbi e dos integrantes
do Grupo Kaiowas. Seus dois primeiros trabalhos já foram
reconhecidos nos eventos em que participou, com especial destaque
para o Prêmio Revelação Pesquisa Gestual
no Festival de Dança de Uberlândia (MG), e no Prêmio
IMBA-UAM, importante evento no México que premia composições
coreográficas de dança contemporânea de grupos
da América Central, América do Sul e Estados Unidos.
O segundo trabalho criado pela coreógrafa, "8 Trigramas",
baseado no I Ching, conquistou o primeiro lugar em sua categoria.
O esforço descomunal empreendido pelo grupo para buscar
apoio financeiro a fim de atender ao convite formulado pelo evento
mexicano atesta a falta de apoio a este tipo de demanda. É
cada vez maior o reconhecimento de nossa dança a nível
nacional e internacional e não temos uma política
de apoio a este tipo de participação. Outros grupos,
tais como o Ronda, com um trabalho de Zilá Muniz, outra
coreógrafa que vem se revelando, o Khala, de Marcelo Cavalcanti,
outro coreógrafo premiado, e o próprio Cena 11,
que dispensa apresentações, se depararam como o
mesmo problema: carecemos de uma política cultural interna
mais abrangente, e que pense a arte estadual num contexto maior.
No âmbito municipal, a Fundação Franklin
Cascaes poderia estabelecer uma política local para a
dança além da promoção da Mostra
Nacional de Dança, que acaba por catalisar todos os esforços
de sua equipe de trabalho. A Fundação Catarinense
de Cultura, no mínimo, deveria manter seus Editais de
Estímulo à Montagem e Circulação
de Espetáculos, suspensos há dois anos. Sem falsos
paternalismos, porque já sabem da necessidade de se contar
com o patrocínio do setor privado através das leis
de incentivo, os profissionais da dança catarinense aguardam
a manifestação do poder público, que não
pode eximir-se de seu papel nesta parceria. Que os bons ventos
do novo milênio que termina com o ano 2000 nos tragam boas
novas. Da parte dos profissionais da dança, percebe-se
que há seriedade de trabalho e consciência de seu
papel na construção da cultura em nosso Estado.
Ah, por favor, os teatros TAC e CIC pedem socorro... e que alguém
nos ouça! Além das instalações físicas
com sérios problemas, os equipamentos técnicos
são precários e irrisórios, assim como o
treinamento do pessoal técnico, para aquela que, vaidosamente,
se auto-intitula a "capital turística do Mercosul".
E dá para separar turismo e cultura?
- Sandra Meyer Nunes, crítica de Dança
e professora do Ceart/Udesc
Denise Stoklos mostra
vozes dissonantes do Brasil
Espetáculo
discute as mazelas do País através de textos inspirados
em autores e figuras célebres que se indignaram contra
as injustiças
Beth Néspoli
Agência Estado
Pátria é todo lugar que o forte escolher para
morada. A frase do historiador latino Curcio Rufo serviu como
uma espécie de farol para iluminar as escolhas da atriz
Denise Stoklos ao selecionar os textos de "Vozes Dissonantes".
A mais recente criação do Teatro Essencial estréia
dia 12 em São Paulo dentro do projeto "1999..."
e foi realizado especialmente para a comemoração
dos 500 anos de Brasil.
Como o próprio título do espetáculo antecipa,
Stoklos escolheu desafinar o coro dos contentes e falar de uma
pátria não oficial, uma pátria que ainda
não existe, mas poderia existir se tivessem sido ouvidas,
no passado, vozes de gente como Tiradentes. Uma Pátria
ou um Brasil que ela acredita possível, caso sejam ouvidas
outras vozes, no presente, como a do geógrafo Milton Santos.
"Falo de uma Pátria-Brasil que existirá um
dia, porque são muitos os que lutam por ela; na verdade,
são muitos os que já habitam nela, porque nós
que queremos uma transformação, que nos indignamos
com a exclusão, não habitamos o mesmo Brasil dos
que querem a estagnação e a manutenção
das diferenças", afirma a atriz.
Stoklos começou a preparar "Vozes Dissonantes"
há quase dois anos, por sugestão do embaixador
Lauro Moreira, então presidente da Comissão Nacional
para as Comemorações do 5º Centenário
do Descobrimento do Brasil, ligada ao Ministério das Relações
Exteriores. "Ele havia assistido na Espanha, por acaso,
a 'Um Fax para Colombo', que fiz em comemoração
ao descobrimento da América", contou a atriz. "Foi
o primeiro espetáculo que criei com esse objetivo de comemorar
- memorar em conjunto - e saiu muito político, exaltado",
relembrou. Pois foi justamente essa capacidade de indignação
que estimulou ao embaixador a convidá-la para criar "Vozes
Dissonantes". E ele não se limitou ao convite, mas
fez inúmeras sugestões de leitura para a atriz.
"Ele sugeria Matias Aires ou padre Antônio Vieira,
por exemplo, e eu corria atrás para ler".
Dois anos depois do convite, a comissão não existe
mais - transformou-se num comitê executivo ligado agora
ao Ministério dos Esportes e Turismo, mas a parceria está
mantida e já rendeu o fruto desejado. No espetáculo
que o público poderá agora conferir no palco, com
exceção da definição de pátria
do historiador Curcio Rufo, todos os textos foram extraídos
de autores brasileiros, entre eles dom Hélder Câmara,
Hélio Peregrino e Euclides da Cunha.
"Quando comecei a ler 'Os Sertões', especialmente
para a peça, fiquei tão impressionada com o texto
de introdução de Euclides da Cunha que liguei para
o embaixador decidida a levar para o palco só aquele texto",
lembra Denise. Ela mudou de idéia, porém o trecho
escolhido saiu da introdução, antes mesmo do autor
abordar a revolta de Canudos. De início, as revoltas brasileiras
- sabinada, cabanada, Inconfidência Mineira - ocupariam
um bom tempo do espetáculo de pouco mais de uma hora.
Mas isso mudou quando Denise se deparou com o trabalho do historiador
Dirceu Lindoso. "Ele tem um texto extremamente crítico
no que diz respeito à forma pela qual a historiografia
oficial aborda as revoltas populares", diz. "Percebi,
então, que se eu condensasse o que ele estava dizendo
não precisaria mais relatar a historinha de cada revolta".
Felizmente, não seria possível dar conta de todas
as vozes dissonantes de nossa história num único
espetáculo. Depois de muito experimentar, Denise Stoklos
decidiu abolir a ordem cronológica e optou por um espetáculo
fragmentado, no qual ilumina por instantes alguns personagens
ou incidentes de nossa história.
A via da emoção
A atriz considera "Vozes Dissonantes" uma etapa
de seu trabalho muito diferente de "Um Fax para Colombo".
"Falar da urgência de uma transformação
de forma exasperada eu já realizei nesse primeiro espetáculo
de aniversário do continente". Por isso, desta vez,
ela prevê uma performance menos exaltada, mais poética,
capaz de tocar o público pelo canal da emoção.
"Teatro bom é teatro que emociona", afirma.
"Todas as vezes que saí de um bom espetáculo,
saí emocionada, com vontade de transformar tudo na minha
vida".
O premiado Maneco Quinderé será o responsável
pela iluminação, que terá papel importante
nesse espetáculo, no qual figurinos e cenários
devem seguir uma linha de despojamento. "Já disse
mais de uma vez que, no meu teatro essencial, gostaria de atingir
um ponto no qual eu não fizesse nenhum gesto e não
dissesse uma única palavra e ainda assim fosse teatro",
diz a atriz.
Em "Vozes Dissonantes" ela estará perto de realizar
a primeira parte desse desejo. Claro que fará gestos no
espetáculo, mas o desejo é que todos os elementos
cênicos - cenário, figurino, trilha sonora e até
mesmo o gestual da atriz - sejam despojados ao limite máximo
e sirvam para reforçar o texto e, em nenhum momento, dispersar
a atenção sobre ele. "Tive o privilégio
de entrar em contato com textos maravilhosos, de vozes corajosas
que querem relações mais justas e fraternas em
nosso país", diz. "São textos que funcionam
como mantras". Mantras que ela pretende dividir com os espectadores.
"O teatro é uma atividade de medicina da alma; como
no teatro grego, acredito que a representação deve
ter a força de curar estados de alma não desenvolvidos",
diz. "No caso do Brasil, o teatro deve poder curar a nossa
grande dor, que é a falta de ação, a incapacidade
de transformar indignação em resultados práticos".
Terminada a curta temporada brasileira de "Vozes Dissonantes",
Denise partirá para os Estados Unidos, onde dará
um curso de um semestre sobre a arte do solo teatral na Universidade
de Nova York. Em maio, deve estrear no Teatro La Mamma sua mais
nova performance, ainda sem nome, inspirada no trabalho da artista
plástica Louise Bourgeois. Se tudo der certo, Denise levará
o novo espetáculo, em junho, ao Festival de Teatro de
Londrina.
Em sua edição do ano 2000, o Filo busca a integração
entre as artes e também entre as artes e a cidade. "Ainda
não está certo, mas talvez Louise crie uma de sua
celas especialmente para servir de cenário ao espetáculo
em Londrina"
revela Denise. Caso isso ocorra, a obra passaria a integrar o
acervo de obras públicas da cidade.
Bufões, esses
pobres coitados em cena
"Gueto Bufo",
espetáculo vencedor em Lages, ganha prêmio em Porto
Alegre por seu retrato dramático da miséria cotidiana
dos marginais
Eliane Lisbôa
Especial para o Anexo
"Gueto Bufo", premiado como o melhor espetáculo
no último festival de Teatro de Lages (FETEL), recebeu
nesse final de ano em Porto Alegre o prêmio açoriano
de melhor espetáculo de 1999. Do mesmo modo, Daniela Carmona,
que também dirige o trabalho, foi reconhecida como melhor
atriz do ano em Porto Alegre por sua atuação na
peça.
O espetáculo está centrado na figura do bufão,
um personagem pouco estudado na história de nosso teatro,
e que no entanto sempre ocupou um lugar de honra, revestindo-se
de múltiplas formas, desde o arlequim da commedia dell´arte,
passando pelo louco, inúmeras vezes explorado em Shakespeare,
ou o bobo medieval.
Em "Gueto Bufo", o bufão nos aparece de modo
absolutamente grotesco através da figura de duas mendigas,
o refugo da sociedade, párias sem qualquer lugar nos espaços
reservados à convivência humana. Exatamente porque
à margem, o bufão pode se permitir tudo, é
dono de si, livre para todas as inconveniências, pois não
tem mais nada a perder. Qualquer gesto seu será sempre
um gesto de afronta, sua própria existência, seus
mulambos, sua figura suja e maltrapilha, serão sempre
ofensivos. Pelo simples fato de estar ali, não lhe foi
reservado nenhum espaço, a não ser o espaço
do lado de fora, onde nós outros não estamos, e
só lhe resta manter-se além da fronteira. Mas esta
fronteira não delimita lugar algum para ele, já
que o espaço de fora é um não-espaço,
e nem as calçadas, nem os vazios sob as pontes, nem as
marquises de edifícios públicos são lugares
para se ficar, são pontos de passagem, onde se tolera-os,
até que se decida expulsá-los dali.
As atrizes que assumem as personagens vêm de experiências
distintas, mas paralelas: Daniela Carmona, de um trabalho de
um ano junto à escola de Philippe Gaulier, um mestre do
teatro francês, curiosamente radicado em Londres, e que
já fez algumas incursões pelo Brasil, devendo retornar
mais uma vez este ano. Junto a ele a atriz teve a oportunidade
de participar de um atelier sobre o bufão; Claudia Sachs,
de um ano de vivência junto à Escola de Jacques
Lecoq, na França, com sua formação essencialmente
voltada para o trabalho do clown. "Gueto Bufo" nasce
da soma desses dois percursos e, claro, de experiência
anterior com Maria Helena Lopes em Porto Alegre.
Daniela Carmona e Claudia Sachs dominam a cena, o espaço
e os múltiplos personagens com que jogam, construídos
a partir e sobre a própria figura dos bufões. Mínimos
detalhes, simples adereços, bastam para nos revelar este
outro mundo com o qual elas jogam, relendo o cotidiano de que
não podem fazer parte, e por isso mesmo lançando
sobre ele um olhar de tamanha sabedoria.
O jogo das duas atrizes aproxima-se do jogo dos clowns, com a
figura da Vênus apoiando-se no jogo de sua parceira, Filó.
O trabalho das duas é de tal modo entremeado que quase
podemos dizer que uma não existiria sem a outra, que as
duas personagens constróem um único e mesmo jogo,
o da paródia à nossa sociedade, o da crítica
profunda e feroz ao universo cômodo em que vivemos, e que
se apóia nos que vivem à margem dele.
Idéias de mestre
O texto criado por Daniela Carmona inspira-se nos trabalhos
de dramaturgia de Gaulier, mas tem fôlego próprio
e sabe aproveitar as idéias do mestre para calcar a discussão
numa realidade infelizmente muito nossa em sua crueldade e aspereza:
a miséria cotidiana dos marginais de todos os bordos.
A figura grotesca das bufonas nos impede de rir simplesmente;
tudo o que dizem vem revestido de um sentido crítico que
não pode nos escapar, e qualquer sutileza, qualquer poesia,
ganha ar de aberração, pois as figuras são
horrendas, e, no entanto, conseguem ser líricas, conseguem
nos fazer chorar. Elas têm graça, leveza no seu
peso, singeleza e romantismo nos seus sentimentos, por baixo
das figuras há um misto de medievalismo com uma construção
atual da escória social a mais abjeta.
Figuras à margem, as bufonas em "Gueto Bufo"
ganham lugar de protagonistas, e vão jogar com o mundo
da sociedade que as excluiu. Jogadas para fora, sem um lugar
de pouso, expulsas de um canto a outro, elas terminam por instalar-se
na frente de uma igreja. E o padre já será pretexto
para uma cena, parodiado na sua relação com uma
de suas fiéis.
Sem braços, Vênus vaidosa joga seu charme para todos
os homens que lhe aparecem no caminho. Seu grande amor foi encontrado
morto numa vala, apodrecendo, com mais de dez tiros no rosto,
e ela o vê hoje na estrela mais brilhante no céu,
uma estrela que ele lhe deu de presente. Um trabalho que joga
com a ironia e um humor brutal, falando do mundo de hoje, de
nós mesmos, de onde estão os nossos párias,
e o quanto de humano há neles, que nós esquecemos
ou fingimos ignorar. Como afinal somos iguais e da exclusão
nasce neles a compreensão apurada do que somos todos,
é um retrato da sociedade como um todo que nós
é apresentado, na nossa vaidade e futilidade, na nossa
mentira e ilusão. Daí a ironia, daí o jogo
ferino, daí a capacidade de compreender e falar na lucidez
absurda dos loucos.
Com uma inteligência e crítica raramente vistas
em nossos palcos, o trabalho conclui-se com uma cena fatal, reproduzindo
os atos de agressão feitos aos mendigos em nossas ruas.
Um momento de poesia e violência.
Único senão no espetáculo, a figura desse
terceiro personagem que entra em cena para um único gesto.
A ação do personagem é exagerada, excessivamente
melodramática, aproximando-se dos dramas policiais ou
de mistério em sua movimentação, no desejo
de remarcar talvez a sua presença antes do ato de extermínio,
o que acaba enfraquecendo a cena, e sobretudo desloca-a de tudo
o que víramos antes.
Maxidesvalorização do real
Novas tensões surgirão a partir de março
com tentativas de reajustes de preços e negociações
salariais.
AN_Economia |
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Mas o recado é dado, não saímos
os mesmos do teatro. O nó na garganta, o soco na boca
do estômago e a paixão pelo teatro misturam-se nesse
jogo cênico que é mais que tudo um excelente trabalho
de atrizes e um olhar atento e crítico a tudo que nos
cerca.
"Gueto Bufo" é um desses trabalhos inesquecíveis
que nos fazem acreditar na força e na importância
do teatro. Um espetáculo digno que merece circular por
muitos espaços. Não por acaso mantém-se
em temporada desde março do ano passado em Porto Alegre,
depois de ter participado da mostra APARTES de Jovens Talentos
promovida pelo MEC em 1998, evento envolvendo profissionais das
diferentes áreas das artes.
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| Manchetes AN |
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| Leia também |
A agressividade
vem do underground
Os lapsos de produção
de "Se é pra Falar Mal...", estréia do
Schnaps, não ofuscam as qualidades da banda joinvilense
GLEBER PIENIZ
Joinville - Ainda não é um registro formal,
daqueles que constariam em uma discografia oficial do grupo,
mas flagra - não sem atraso - a fase de afirmação
do Schnaps como uma das bandas mais importantes da cena hardcore
de Santa Catarina. Gravado no final de maio no Catharina Estúdio
de Jaraguá do Sul, o single promocional "Se é
pra Falar Mal..." chega agora às mãos do público,
ainda que uma pequena quantia de CDs tenha sido prensada "apenas
para divulgação", segundo o vocalista Alec
Newlands. Este é o primeiro trabalho gravado pelo Schnaps
como quinteto, uma nova formação com dois vocalistas
que vem trabalhando desde o início do ano. É também
a estréia em formato digital para a banda joinvilense,
que já tem duas demotapes lançadas.
"Se é pra Falar Mal..." tem faixas suficientes
(oito, mais uma vinheta fanhosa) para classificá-lo como
um EP, mas sua duração (pouco mais de 16 minutos)
o torna muito mais próximo do formato single. A própria
embalagem do disco reafirma a proposta humilde do trabalho, feita
apenas de cartão, com foto e arte em preto e branco, além
do encarte confeccionado à base de fotocópia. Punk,
muito punk para uma banda cuja agressividade do som e o vigor
das performances são marcas registradas.
"Nosso som deixou de ser tão rápido para ficar
mais pesado, com mais influências do metal", diz Alec.
"Foi uma mudança natural: a nova formação
começou a tocar junto, ficou bom e assim foi indo".
Metade do disco é dedicada às músicas antigas
do grupo, quando o Schnaps ainda era composto por Ricardo (vocal),
Gordo (baixo), Amarelo (guitarra) e Thiago (bateria). A outra
parte do single é feita de composições novas,
crias da recente formação que incorporou à
antiga trupe o vocalista Alec e deu à banda a possibilidade
de trabalhar jogos de vozes num estilo "chama-responde"
muito próximo do hip hop, um elemento que comunga perfeitamente
com o som pesado, comprimido e - às vezes - minimalista
do Schnaps.
Variações
O disco abre com "Eu Acredito", uma das músicas
mais recentes do quinteto e que evoca influências de bandas
como Prong e Helmet. "Alerta" faz parte dos trabalhos
antigos e vem na seqüência com vocais menos agressivos,
construindo um crossover com riff bastante tradicional - embora
também admita a limpeza das guitarras. Minimalista, quase
lacônica, a faixa título abre caminho para "Resto",
um hardcore direto e cru na mesma linha de "Jornais Ambulantes"
e "Inveja", ainda que esta última (uma das melhores
faixas do disco, também da fase quarteto) seja entremeada
por passagens que lembram a surf music e o rock dos anos 70.
Outro grande destaque do single, "Dia a Dia" se sobressai
entre as músicas ora pela variação das guitarras
e pela alternância de climas, ora pelo efeito peculiar
que os vocais dobrados provocam. As vozes também fazem
o diferencial de "Não Tente Fugir", mas surgem
agora esquizofrênicas, ampliadas por megafone, fazendo
companhia a uma linha melódica de baixo e guitarra influenciada
pelo metal híbrido que um dia caracterizou o trabalho
dos Ratos de Porão.
Mas nem só de acertos é feito "Se é
pra Falar Mal...". Falhas na gravação do CD
deixaram as guitarras sem peso e o baixo de Gordo (sempre arrasador
ao vivo) sem pegada. Lapsos na edição das faixas
deixaram muito tempo de silêncio entre uma música
e outra e todo o trabalho de mixagem do disco poderia ter sido
mais generoso com os volumes de todos os instrumentos. "Se
é pra Falar Mal..." está sendo distribuído
pelo Schnaps (rua Rodolfo Schmalz, 108 - Joinville/SC - CEP 89217-630),
pela Grito Records (rua Minas Gerais, 123 - Jaraguá do
Sul/SC - CEP 89254-010) e pela Abrigo Nuclear Records (Calçadão
da Marechal, 399, sala 2 - Jaraguá do Sul/SC - CEP 89251-701).
Metallica transporta o rock para
o universo clássico
REGIS MALLMANN
Florianópolis - A banda norte-americana Metallica prova
em seu novo disco que o casamento entre o rock e o clássico
é uma fórmula e tanto para se criar - ou reinventar
- a boa música. Tocando seus maiores sucessos e um punhado
de novas composições ao lado dos músicos
da Orquestra Sinfônica de San Francisco, os roqueiros conseguiram
fazer em seu novo disco, "S & M" ("Siymphony
& Metallica"), uma incursão para um universo
sonoro que mistura a harmonia de violinos, violas e violoncelos
com guitarras, a leveza das flautas e oboés ao baixo,
e a melodia sutil das harpas com o barulho quase ensurdecedor
da percussão.
O resultado dessa união incomum é um trabalho vigoroso,
que aposta em arranjos longos, alguns com quase 10 minutos de
duração, mas que não chegam a enjoar por
causa da sintonia perfeita entre os mais de 50 músicos
da orquestra e os quatro integrantes do Metallica. Para que tudo
isso não se transformasse num samba-do-criolo-doido era
preciso alguém para botar ordem na casa. Michael Kamen,
um dos mais respeitados compositores e produtores dos Estados
Unidos, cumpre a tarefa com competência de mestre.
"S & M" é produto do encontro realizado
em abril de 1999 no imenso palco do Berkeley Community Theater,
com uma platéia formada por convidados e fãs, o
que empresta ao disco uma ambientação calorosa,
clima que não foi extinto na hora de editar o material,
procedimento bastante comum e que na maioria das vezes priva
o consumidor de uma boa parte da magia do trabalho. A condução
de Kamen para essa verdadeira sinfonia é equilibrada.
Ele não prende os músicos em uma fórmula
única, deixando liberdade suficiente para que os de formação
clássico e os roqueiros mostrem toda sua vitalidade musical,
cada um dentro de seu gênero e conceitos.
Composto por dois CDs, o álbum abre com uma magistral
interpretação de "The Ecstasy Of Gold",
antológica criação de Enio Morricone, o
mago das trilhas sonoras para o cinema, para o filme "Feios
Sujos e Malvados". Com arranjo que remete o ouvinte para
aquelas produções de faroeste espagueti italianas
dos anos 60, Metallica e orquestra sinfônica fazem um introdução
grandiosa para anunciar o que virá depois - 21 faixas,
num total de 2 horas e 8 minutos de música.
Depois de Morricone, nos exatos 9 minutos e 34 segundos dedicados
a "The Call Of The Ktulu", original do disco "Ride
The Lightning", banda e orquestra começam efetivamente
a desempenhar o repertório ilustrado por pérolas
da carreira do grupo, um dos mais longevos do gênero. "Master
Of Puppets", do disco homônimo, "Fuel",
"The Memory Remains" e "Devil's Dance", gravadas
em "Reload", e "Bleeding Me" e "Hero
Os The Day", ambas de "Load", são os momentos
mais marcantes do disco 1, que tem ainda a inédita "No
Leaf Clover".
O segundo disco de "S & M" abre com "Nothing
Else Matters" e se estende por por outras nove interpretações
de sucessos e uma fresquinha, "Human", que, como a
maioria das demais faixas do disco, é assinada por Lars
Ulrich (bateria) e James Hetfield (guitarra, vocal), líderes
da banda, completada por Kirk Hammet (guitarra) e Jason Newsted
(baixo). Há 18 anos na estrada, o Metallica nunca tinha
feito um trabalho do tipo "best of". Poderia ser apenas
mais uma compilação, não fosse a apuradíssima
produção e a idéia de levar para o universo
clássico toda a fúria do rock, que fez do grupo
um dos mais cultuados das últimas duas décadas.
Tomara que esse vigor produza ainda outros presentes como "S
& M".
"S & M", com Metallica e Orquestra Sinfônica
de San Francisco. Lançamento: Universal. Onde encontrar:
Rock Total Discos, rua Henrique Meyer, 68, fone (0xx47) 422-2788.
Preço: R$ 31,90.
Lançamentos
"Enrique" (Enrique Iglesias) - Ainda colhendo
os louros pelo sucesso estrondoso do single "Bailamos",
que embalou a fracassada versão para o cinema do seriado
de TV "James West", Enrique Iglesias retorna ao mercado
com um disco onde entra de vez na dança. Sem abandonar
o romantismo que vem pontuando sua carreira, o cantor aproveita-se
do êxito em outra área sonora e faz um trabalho
mais voltado para as pistas. "Enrique" abre com "Ritmo
Total", onde faz referência ao Brasil. De olho num
público variado e de países diferentes, o cantor
aposta em versões em espanhol e inglês das músicas.
Apesar do esforço, não consegue sair do lugar comum.
(Universal). (RM)
"Reload" (Tom Jones) - Esperto o veterano
cantor inglês. Depois de ressurgir em alto estilo na década
passada, ele une sua voz de barítono a respeitáveis
nomes do pop mundial (veteranos ou não) num disco pra
lá de recomendável. Entre tantos bons momentos,
há de se destacar os duetos com Stereophonics, Robbie
Williams, Van Morrison e Portishead, além das versões
de "Burning Down the House" (Talking Heads), com The
Cardigans, e "Lust for Life" (Iggy Pop), com os Pretenders.
Mas se nada disso prestasse, o CD ainda valeria por uma única
faixa: a emocionante "I'm Left, You're Right, She's Gone",
que Jones divide com James Dean Bradfield, líder dos Maniac
Street Preachers. Divina é pouca. (Roadrunner). (Rubens
Herbst)
"Marc Anthony" (Marc Anthony) - O relativo
sucesso que faz nos Estados Unidos e a recente onda latina capitaneada
por Ricky Martin que varreu as paradas mundiais credenciaram
Anthony a ter seu quinto disco lançado no Brasil. Não
que o cantor/compositor seja portoriquenho ou que ele faça
salsa ou rumba, longe disso. Na verdade, Anthony dilui elementos
da música latina em baladas açucaradas que nada
ficam a dever a Celine Dion e Mariah Carey. Portanto, quem esperar
algo sacolejante terá que se contentar com vocais derramados,
orquestrações convencionais e um ou outro violãozinho
para "dar o molho". Mas o bonito refrão e o
acordeão executado por T-Bone Walk em "You Sang to
Me" se sobressaem em meio a caretice. (Sony/Epic). (RH)
"Queens of the Stone Age" (Queens of the
Stone Age) - O que no Kyus era sisudo e denso, o QOTSA tornou
solto e expansivo, embora tenha mantido a maturidade. A estréia
em disco da nova banda do guitarrista Josh Homme lembra muito
seu saudoso grupo de origem (principalmente em "Regular
John" e "Mexicola"), mas ameaça esta impressão
com faixas que denunciam uma aproximação com o
punk, com o som de Seattle ("You Would Know") e mesmo
com a música pop ("If Only" e "How to Handle
a Rope", por exemplo). É fazendo o mix perfeito destas
duas faces distintas, no entanto, que o trio da Califórnia
se supera, lapidando jóias do peso como "You Can't
Quit Me Baby" e "Give the Mule What he Wants".
(Roadrunner). (GP)
"One Amazing Night" (Vários) - Burt
Bacharach fez o que de pior e o que de melhor existe em termos
de música para o cinema e séries televisivas. É
justo, portanto, que seja um time irregular de artistas a prestar-lhe
homenagem em "One Amazing Night". Entre All Saints,
Sheryl Crow e Barenaked Ladies, brilham as performances de Elvis
Costello (com a óbvia "God Give me Strength"),
de David Sanborn e George Duke (com a jazzy "Wives and Lovers"),
além da presença de Bacharach executando "Alfie",
sua canção preferida, ao piano. De resto, não
dá pra levar a sério um disco em que Mike "Austin
Powers" Myers interpreta "What's New Pussycat?"
ou o Ben Folds Five destrói a clássica "Raindrops
Keep Fallin' on my Head" com uma vozinha em falsete. (Abril
Music). (GP)
"Monomania" (Iconoclásticos) - O trio
gaúcho tem uma de suas bases sonoras solidamente fincada
no gótico e na música eletrônica dos anos
80. A outra funde minimalismo e serialismo cyberpunk, dando a
"Monomania", seu álbum de estréia, o
viço que os dias de hoje exigem dos novos artistas. "Saturn's
Hair", "Over Stress" e "Exercise One"
(cover do Joy Division) atestam a fidelidade da banda aos climas
analógicos soturnos, ao passo que "Trash Manitu"
liga seu som ao mundo da tecnologia. De quebra, "Monomania"
traz oito faixas bônus com material antigo da banda, mostrando
que a combinação passado/presente não começou
hoje para os Iconoclásticos. (Hipocampo). (GP)
1939 não deveria ter acabado
Ano foi um dos
mais generosos para o cinema, com inúmeras salas, muitas
produções de qualidade e vários clássicos
Lola Aronovich
Especial para o Anexo
Sessenta anos atrás, Hollywood andava a pleno vapor.
A depressão ainda afetava o cotidiano, a Segunda Guerra
estava prestes a começar, e o cinema funcionava como válvula
de escape. Era um verdadeiro fenômeno. Em 1939, nos EUA,
existiam mais salas de cinema do que bancos. A indústria
do entretenimento era a décima primeira mais forte, maior,
por exemplo, do que as cadeias de supermercados. Este número
já diz tudo: 50 milhões de americanos iam ao cinema
toda semana. Tanto que a soma de salas per capita era duas vezes
superior a de hoje.
Antes de continuar, é importante observar que poucos lendo
este artigo viveram este período. Mas isso não
significa que a gente deva fechar os olhos a este que é
considerado o ano dourado de Hollywood. Seis décadas se
passaram, e o cinema nunca mais chegou perto de produzir tantas
obras-primas em um só ano. É um contraste fascinante
com a década de 90, eleita, por unanimidade, a pior da
história da sétima arte. Aliás, atualmente,
ninguém mais se refere ao cinema como uma arte sem esconder
o sarcasmo no rosto. Porém, em 1939, esta indústria
ainda era bem artística.
"Indústria" é a palavra certa pra se
usar hoje, e nisto não era muito diferente 60 anos atrás.
Era a época dos grandes estúdios, do cinema cujo
autor era o produtor, dificilmente o diretor, dos contratos de
ator que o obrigavam a interpretar vários papéis
por temporada. Tal como hoje, em 1939 Hollywood também
lançava 400 novos filmes por ano. A diferença é
que então havia vários que valiam a pena.
Bette Davis, pra ficar em um só nome, estrelou quatro
produções naquele ano. "Vitória Amarga",
em que interpreta uma socialite mimada cuja vida está
no fim, foi apenas um deles. Foi em 1939 que "Garbo riu",
mais especificamente em "Ninotchka", uma comédia
suprema sobre uma espiã comunista corrompida pelo luxo
parisiense. Greta Garbo já era um mito antes desse filme,
mas ele veio para consolidar a lenda.
Frank Capra também já era reconhecidamente consagrado.
No entanto, ele dirigiu sua comédia mais famosa em 1939.
"A Mulher Faz o Homem", com seu ator predileto, James
Stewart, mostra a decepção de um jovem idealista
ao se deparar com a corrupção no senado americano.
Só John Ford rivalizava com Capra pela posição
de diretor mais popular, e então Ford lançou um
John Wayne novinho em "No Tempo das Diligências".
Este faroeste, um dos mais influentes de todos os tempos, retrata
passageiros com personalidades diversas cruzando o Oeste dos
EUA. Naturalmente, há um ataque de índios - lembre-se
que os nativos são os vilões da história
e os brancos, os mocinhos. Mesmo sendo uma obra fascista, permanece
indiscutivelmente na galeria dos clássicos, assim como
"Nascimento de uma Nação", de Griffith.
É um daqueles filmes que moldaram o inconsciente coletivo
americano.
E o que dizer de "O Mágico de Oz"? Pois é,
também é de 1939. Judy Garland, então com
17 aninhos, cantando "Over the Rainbow", serve como
referência? A sueca Ingrid Bergman arrasou em "Intermezzo",
seu primeiro filme falado em inglês. A aparição
mais notória de Joan Crawford nas telas daquele ano se
deu em "As Mulheres", sobre a competição
entre (mui) "amigas" para conquistar os corações
dos homens.
O monstro sagrado Laurence Olivier (considerado um dos grandes
atores do século - só Marlon Brando pode roubar
seu posto) foi a Hollywood pela segunda vez para ser transformado
em galã na adaptação da obra de Emily Bronte,
"O Morro dos Ventos Uivantes", sobre um amor sem futuro
na Inglaterra pré-Vitoriana. Este clássico fez
tanto sucesso entre o público feminino que, nos meses
seguintes, um terço das meninas nascidas em 39 receberiam
o nome de Cathy, a heroína do filme.
Poucas estatuetas
Mas, acredite, nenhuma dessas produções teve
muita sorte no Oscar. A estatueta de melhor ator foi para Robert
Donat por "Adeus, Mr. Chips". Além dele, 1939
foi o ano de "Beau Geste", com Gary Cooper na Legião
Estrangeira; de Marlene Dietritch em "Atire a Primeira Pedra";
de Howard Hawks dando um papel essencial a Rita Hayworth, ao
lado de Cary Grant; de musicais de Busby Berkeley; do "Gunga
Din" de George Stevens; de Katharine Hepburn afiando suas
unhas no teatro; da adaptação definitiva do romance
de Steinbeck para o cinema, em "Carícia Fatal";
de Hitchcock chegando a Hollywood; de Charles Laughton brilhando
como o corcunda de Notre Dame....
Eram tempos ingênuos, quando patrões sem grande
talento para a arte acertavam meio que sem querer. O chefão
da MGM, Louis B. Mayer, recusou a entrada de Mickey Mouse em
seu estúdio sob a alegação que "toda
mulher tem medo de rato". Depois, o próprio, ao consultar
seu subalterno Thalberg, rejeitou um certo drama sobre a Guerra
da Secessão, já que esses "não rendiam
um níquel sequer". Ahn, era "...E o Vento Levou".
Se este clássico dos clássicos tem um autor, ele
é o produtor Selznick, genro de Mayer. Sua busca pela
Scarlet O'Hara perfeita mobilizou a sociedade, testou todas as
atrizes imprescindíveis da época e custou 100 mil
dólares, mas atingiu uma repercussão incalculável.
A lenda conta que o irmão do produtor conheceu Vivien
Leigh, namorada de Laurence Olivier, e a levou para conhecer
Selzick no dia em que queimavam Atlanta. A inglesa ganhou o papel
e incendiou o imaginário do público, que via no
casal o encontro ideal entre Scarlet e Heathcliff, o herói
de "O Morro dos Ventos Uivantes".
O impressionante mesmo é que "...E o Vento Levou"
foi apenas um dos clássicos feitos na Hollywood de 1939.
Houve tantos outros que é fácil perder a conta.
Agora analise comigo: quantas obras-primas você viu nesses
últimos vinte anos? Certo, certo, sei que a comparação
é injusta. Mas seria bom se 1939 não terminasse
nunca, se fosse um ano constante a assombrar a produção
cinematográfica atual, a lembrá-la de quando os
americanos sabiam fazer cinema. Faz tempo, né? 60 anos...
Lola Aronovich (lola@netkey.com.br)
é cinéfila e professora de inglês em Joinville
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