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Revolução da genética
impulsiona vida melhor
Projeto Genoma
Humano, o mapeamento do DNA, é apontado como momento intelectual
da história
Desde
que James Watson e Francis Crick determinaram a estrutura do
DNA, em 1953, dizem que a ciência da genética ia
logo mudar tudo, da medicina à reprodução
dos seres humanos. Bastava entender exatamente como essa substância
química controla a vida e as atividades de nossas células.
Não tem sido tarefa fácil.
O código genético relativamente simples - quatro
bases químicas, ou letras, que se combinam em três
para fazer os códons, ou palavras, que ditam a estrutura
das proteínas - foi decifrado nos anos 60. Desde então,
cientistas desenvolvem técnicas cada vez mais sofisticadas
que isolam, estudam e manipulam DNA e suas unidades funcionais,
os genes.
Os resultados estão em toda parte - DNA como "impressões
digitais" para investigar suspeitos de crimes, novos meios
de visualizar as bases do câncer, potentes métodos
de rastreamento para doenças de origem genética.
Mas, apesar de todas as manchetes, a última década
pertenceu à computação, não à
biologia.
Isso está na iminência de mudar. No decorrer de
um ano, a ciência da genômica (genomics no original
- é neologismo) - que estuda todo o conjunto de instruções
moleculares de um organismo ou genoma, em vez de só uma
instrução ou gene de cada vez - vai começar
a cumprir a promessa da revolução genética.
O que isto significará, quais novos produtos serão
postos no mercado, como nossas vidas mudarão para melhor
(e talvez para pior) nos próximos 10, 20, 100 anos - impossível
dizê-lo.
Mas sabemos que logo veremos avanços na genômica
que talvez reduzam a informática à condição
de segunda colocada em matéria de avanços científicos
mais importantes no século 20. "Acredito sinceramente
que estamos atravessando o maior momento intelectual de todos
os tempos", escreve o britânico Matt Ridley em seu
novo livro "Genome: The Autobiography of a Species in 23
Chapters". O ano 2000 vai pertencer ao gene.
As bases para a revolução que se avizinha foram
assentadas pelo Projeto Genoma Humano (HGP). Esta iniciativa
internacional foi lançada uma década atrás
com um objetivo ambicioso: estabelecer a seqüência
de todo o genoma humano até 2005.
Os participantes afirmaram que, em 15 anos, leriam e colocariam
em ordem os 3 bilhões ou mais de letras químicas
que compõem os 80 mil genes humanos. Isso daria aos pesquisadores
o conjunto completo de instruções para criar, manter
e reproduzir um ser humano.
Com esse manual disponível, os cientistas teriam as informações
fundamentais necessárias para começar a entender
- e consertar - a máquina humana. A tarefa não
era apenas assombrosa em 1990. Era impossível. O HGP começou
produzindo descrições detalhadas, ou mapas, do
genoma humano, informações básicas necessárias
para colocar a seqüência do DNA em ordem.
Maxidesvalorização do real
Novas tensões surgirão a partir de março
com tentativas de reajustes de preços e negociações
salariais.
AN_Economia |
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Conforme previsto, avanços tecnológicos
- muitos deles desenvolvidos com recursos do HGP - foram-se encaixando.
Até uma década atrás, ler uns poucos milhares
de letras químicas, ou bases, bastava para conseguir um
título de doutorado.
O equipamento foi miniaturizado, automatizado e produzido em
massa, tanto assim que um aparelho encarregado de estabelecer
seqüências tem o tamanho de um computador de mesa
e agora consegue ler 500 mil bases num só dia.
Competição com iniciativa
privada acelerou a pesquisa
Com que freqüência vultosos projetos governamentais
informam que estão abaixo do orçamento e à
frente dos prazos? O HGP faz disso uma rotina.
Em março passado, chefes do projeto anunciaram que terminarão
um primeiro rascunho do genoma na primavera de 2000, cinco anos
antes do planejado a princípio. "Na verdade, ter
a seqüência parecia uma dessas hipóteses tão
distantes que era difícil imaginar. E agora podemos sentir
seu sabor", disse Francis Collins que, como chefe do Instituto
Nacional de Pesquisas do Genoma Humano, supervisiona o grosso
da contribuição norte-americana ao HGP.
Ainda assim, houve uma surpresa. Em maio de 1998, uma companhia
privada, a Celera Genomics, anunciou que planejava estabelecer
a seqüência do genoma humano sem depender do governo
com dinheiro próprio.
Empregando uma técnica chamada "seqüenciamento
de espingarda", em que fragmentos de DNA tomados ao acaso
são lidos fora de ordem e depois emendados usando sofisticados
algaritmos de computador, a companhia planeja apresentar uma
leitura completa do genoma humano antes do fim de 2000. O anúncio
da Celera assombrou a comunidade de pesquisas e fez com que o
HGP acelerasse seus esforços.
A Celera é o mais recente projeto de Craig Venter, geneticista
que já trabalhou para a polícia federal dos Estados
Unidos e saiu para abrir um negócio de pesquisas próprio,
em 1992. Ele fez carreira e uma modesta fortuna balançando
o establishment das pesquisas genômicas. Venter fundou
The Institute for Genomics Research (TIGR), dizendo-se frustrado
com o lento avanço e com a burocracia nos laboratórios
governamentais.
Logo se tornou o primeiro a estabelecer a seqüência
de um genoma completo, pertencente a uma bactéria, e depois
completou várias outras, incluindo as que causam úlcera
e o Mal de Lyme. Em 1998, Venter afastou-se da TIGR (sua mulher
e companheira de trabalho, Claire Fraser, agora chefia a companhia,
que já estabeleceu a seqüência de uma dezena
de genomas, metade de todas as feitas até agora) para
fundar a Celera.
Seu sócio na empreitada, Perkin-Elmer, é grande
fornecedor de equipamentos de laboratório, entre eles
as máquinas automatizadas em uso para estabelecer a seqüência
de DNA.
A corrida para estabelecer a seqüência do genoma é
mais que uma simples disputa de território, diz Collins.
"O genoma humano deveria ser patrimônio comum da humanidade",
opina ele. "Não estamos nada contentes com a idéia
de que as seqüências podem ficar presas a patentes,
licenças e acordos sobre sigilo."
Pesquisa entrega
à biologia controle da vida
Mapeamento genético
facilitar descoberta da cura de doenças
Francis Collins, chefe do Instituto Nacional de Pesquisas
do Genoma Humano (EUA), compara a conclusão do genoma
humano ao estabelecimento da tabela periódica dos elementos.
Essa proeza, no século 19, permitiu que a física
evoluísse, deixando de ser uma disciplina baseada em palpites
e se tornando uma ciência aplicada, uma ciência da
previsão.
A conclusão do mapeamento do genoma humano dará
à biologia as informações básicas
de que ela precisa para deixar de simplesmente descrever a vida
e ser capaz de controlá-la. "Cada doença e
traço tem um componente genético", diz Venter.
"Vamos partir firmes para entender isso em 2000. E é
o que vamos estar fazendo nos próximos 100 anos."
Compreendendo a base genética do câncer, digamos,
os cientistas poderão finalmente encontrar meios de revertê-lo.
A descoberta de cura para os tipos de câncer comuns "ainda
vai demorar", diz Collins, "mas agora há um
caminho para chegar lá
e só precisamos percorrê-lo."
O mesmo se aplicará a outras doenças, como o Mal
de Alzheimer e a diabetes, e talvez até o processo do
envelhecimento. Em outras palavras, completar o estabelecimento
da seqüência de um genoma não é o fim
do percurso. Ao contrário, o ano 2000 assistirá
ao início de uma era em que a humanidade começará
a assumir o controle de seu destino biológico.
Fiat Brava
Desempenho do propulsor deixa a desejar e contrasta com o instigante
visual do novo médio da Fiat no País.
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Cientistas agrícolas dizem que os dados
vão ajudá-los a engendrar toda uma nova geração
de culturas geneticamente modificadas, mais nutritivas, que se
desenvolvem com maior rapidez e precisam de menos pesticidas
do que a natureza ou os cientistas já criaram. Depois
disso, "vem toda uma lista de outros organismos à
espera, argumentando por que devem ser os próximos",
diz Collins.
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| Leia também |
Banco de dados
público abriga informações
Os cinco principais laboratórios de seqüenciamento
do HGP depositam as novas informações sobre as
seqüências num banco de dados público, o GenBank,
a cada 24 horas. Toda vez que eles o fazem, diz Francis Collins,
chefe do Instituto Nacional de Pesquisas do Genoma Humano, impedem
que outra peça do genoma - cerca de 10 milhões
de bases por dia - seja patenteada.
Embora haja tensão entre o governo e as companhias privadas,
talvez ainda exista esperança de colaboração.
O primeiro grande acontecimento da genômica em 2000 vai
ser provavelmente a publicação, em fevereiro, da
seqüência completa do genoma da mosca-da-fruta, a
Drosophila melanogaster. A mosca-da-fruta é o burro de
carga dos estudos em genética e biologia do desenvolvimento
- mais de 6.000 laboratórios de pesquisas no mundo todo
estudam a mosca -, e é o modelo de muito do que sabemos
sobre herança, desenvolvimento e crescimento humanos.
Ela também pode servir de modelo para a cooperação
entre as iniciativas pública e privada para estabelecer
sequências de genes.
Depois que o esboço do genoma humano ficar pronto na próxima
primavera, as atenções se voltarão para
o rato. "Se terminarmos o humano bem depressa", diz
Venter, "talvez consigamos terminar o do rato também
no correr do ano."
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