Joinville         -          Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  

















SEMBLANTE
Os rostos ocultos nas telas de Sady Pereira são responsáveis por dar a cada obra um caráter único, revelado em um jogo particular de observação
FOTOS: Divulgação

Sob o coletivo
visível, o indivíduo

Artista joinvilense, Sady Pereira expõe "As Interfaces" no Sesc do Rio de Janeiro

GLEBER PIENIZ

Joinville - Buscar o verdadeiro indivíduo que está escondido além das manifestações aparentes da personalidade é uma das metas da psicanálise. Muitas vezes, a procura é marcada por dúvidas, sombras e detalhes que, a princípio, parecem incompreensíveis e podem prejudicar a percepção completa do que é ser humano. Este mesmo desafio é proposto pelas telas do artista joinvilense Sady Raul Pereira, não por acaso um psicanalista cuja formação encontra complemento na pintura. "As Interfaces", exposição que reúne seus trabalhos mais recentes, abre hoje na Galeria do Sesc Tijuca, no Rio de Janeiro, e fica aberta ao público até o dia 6 de fevereiro.
Pereira desde cedo mostrou aptidão para as artes. Aos seis anos, deu início aos seus estudos na Escola de Artes Fritz Alt, passando para o curso de desenho dois anos depois. Na John Marshal High School de Cleveland, nos EUA, começou a aprofundar seus conhecimentos e sua técnica de desenho e pintura de modelos vivos, manifestando já aos 16 anos um interesse pelas composições que elegem como objeto a figura humana. De volta ao Brasil, depois de um ano em Ohio, tornou-se aluno de Hamilton Machado. Os estudos de psicologia iniciaram em 1983, com o ingresso na Universidade Católica de Petrópolis (RJ), marcando também o despertar do interesse do artista pela temática que até hoje desenvolve: "O olhar oculto da tela que nos olha a ela olhando". Desde 1992, Pereira está radicado em Curitiba, dividindo seu tempo entre a clínica, a pintura e os cursos que leciona sobre arte e psicanálise.
As telas de "As Interfaces" guardam entre si semelhanças explícitas de estrutura, cor, ritmo e equilíbrio. Têm em comum a presença de grandes rostos de mulheres ocultos sob formas e os movimentos de milhares de pequenas figuras humanas que, nos seus entremeios e linhas, permitem ver o semblante que escondem, como se cada obra oferecesse um enigma, uma incógnita que apenas o olhar atento pode revelar - e que, ironicamente, está sempre olhando para o desafiado. "O olhar do espectador é atraído para dentro da tela porque antes mesmo de olhá-la, ele já está sendo pelo quadro olhado", explica o artista. "Em outras palavras, o espectador vê a si mesmo sendo visto".
Show de interpretação
Matheus Nachtergaele empresta talento a padre Miguel em "A Muralha".  AN_Tevê 
Se Sady Pereira substituísse o corpo humano das telas pelas figuras de verduras e legumes, obteria um resultado muito semelhante aos rostos propostos pelo pintor milanês Archimboldo em meados do século 16. O catarinense, no entanto, prefere manter seu trabalho muito próximo da expressão humana e, se já ensaia variações para os corpos em dança, vê no mundo infantil os temas de repetição para novas expressões ocultas: brinquedos já substituem incontáveis homens e mulheres e agregam às obras um toque de diversificação que não prescinde da individualidade de cada rosto oculto para se manifestar.


Crítica

Suas pinturas guardam algo que vai do medieval ao maneirismo, trabalhadas com as técnicas contemporâneas da repetição e da acumulação; fica claro o jogo entre o continuum do espaço e do tempo medieval, com a homogeneização espaço-temporal da perspectiva renascentista e as múltiplas perspectivas maneiristas, chamado atenção principalmente para o corporal, para a presença do corpo, para o tocar. As figuras tem sempre um duplo sentido e são tratadas com os efeitos de ilusão de ótica. É surrealista esse jogo trompe-l'oeil, mas é também aparentando ao pop-art, quando as figurinhas humanas se passam por retículas e provocadas pelos claros/escuros deixam perceber outras figuras que se formam em sua retina: são ícones, frontais, e que nos olham (lembram os ícones bizantinos que têm sempre seus olhos fixos no espectador).
Chegamos assim ao significado central da obra de Sady, o olhar (lembrando o título do livro de Didi-Huberman: "O que Vemos, o que nos Olha"). A profusão de figurinhas humanas, silhuetas, que são traços ou signos, retículas, são também fantasmas de corpos, pois é impossível abstrair completamente o corpo. As figurinhas intercaladas e superpostas evocam planos e espaços caleidoscópicos endereçados prioritariamente ao olhar, então ele se aproveita de um cromatismo bem pesquisado para desafiar a razão. "O que me determina fundamentalmente no visível é olhar que está do lado de fora", diz Lacan no seu Seminário 11; que olhar está do lado de fora? Contra a tautologia de Frank Stella, "o que vemos não é o que vemos". O quadro nos incita a percorrê-lo com os olhos; esta maneira de constituir objetos a partir de acumulações de restos e detritos é parte da arte contemporânea, e aqui leva-nos à reflexão de que o homem atual é também detrito, sobra numa sociedade altamente industrializada e automatizada. Esta é a maneira de Sady convidar o nosso olhar a perscrutar todas as metamorfoses, aparentemente incansáveis, destes pequeninos "seres" humanos que perderam definitivamente o seu lugar quando as hipermáquinas se tornaram auto-suficientes.
É a repetição até a saturação, o "maneirismo" do esgotamento das repetições "pops", mas a forma unitária, total, é restabelecida nas figuras invisíveis do trompe-l'oeil. Como as figurinhas apresentam gestos de dança ou movimentos de corpos, nosso olho se vê também obrigado a dançar e a se movimentar no momento em que o quadro é oferecido ao nosso olhar capaz da descoberta de seu mistério.
Concluo citando ainda uma vez mais Lacan: "...em presença da representação (...) me garanto como consciência que sabe que é apenas representação e que há, mais além, a coisa, a coisa em si".
E agora vamos ao exercício do olhar...

  • Fernando A. F. Bini, professor de história da arte e estética


Novo programa de esportes
da Band usa tática do passado

"Game Gol", com Luciano Vanucci, estréia dia 16 apostando em disputas entre personalidades

Fernando Miragaya
TV Press

Quando saiu da Globo, Fernando Vanucci alegou que queria fazer um trabalho diferente na televisão. No primeiro mês de 2000, o jornalista esportivo de 48 anos vai poder pôr em prática um novo projeto a partir de uma idéia já manjada e que dá certo. Além de apresentar os quadros "Show Sport Club", "Geral" e "Sua Vida" dentro do "Show do Esporte", Vanucci estréia no comando do "Game Gol", nova atração do programa dominical da Band, no dia 16 de janeiro. O programa vai utilizar o velho formato de disputa entre equipes compostas de personalidades que vão testar seus conhecimentos. "Não é uma idéia nova, mas é vitoriosa", avisa Vanucci.
Um dos quadros do "Game Gol" mostra bem o quanto o formato é manjado. No "Melhor de Todos", duas equipes de 11 integrantes vão ter de responder a perguntas sobre esporte. Cada um dos times vai ser escolhido e liderado por um atleta conhecido. Bem parecido com outros games como "Passa ou Repassa" ou "Quem Sabe Mais", do "Planeta Xuxa". No outro quadro, "Seu Limite", uma personalidade vai escolher um assunto específico: uma modalidade esportiva, um clube ou um torneio. Com base nisso, o participante vai respondendo perguntas que vão ficando mais difíceis progressivamente. Qualquer semelhança com o "O Céu é o Limite", quadro que J. Silvestre apresentava na extinta Tupi e no SBT, não é coincidência. "Não há como negar que o quadro foi inspirado no programa", reconhece Vanucci, ressaltando que o "Game Gol" terá nos recursos tecnológicos o grande diferencial. "A idéia é antiga, mas vamos dar uma nova roupagem", ressalta.
A informática vai ser imprescindível. No "Melhor de Todos", por exemplo, a cada resposta errada, uma engenhoca eletrônica vai dar um cartão amarelo e, em caso de duplo erro, um vermelho. Isso sem falar nos aparelhos que vão mostrar pontuação e as perguntas. "O programa envolve muita informática. Tem de ser perfeito, não pode haver erros", alega. O jornalista ainda destaca o caráter social do "Melhor de Todos", pois as equipes já começam com 11 prêmios. A cada resposta errada, o time perde um prêmio que vai ser destinado a uma instituição de caridade.
Devido exatamente aos recursos tecnológicos, o "Game Gol" acabou tendo a estréia adiada de novembro para janeiro. Vanucci conta que vários pilotos do programa estão sendo feitos para corrigir os erros e aprimorar o formato do jogo. O apresentador está animado, principalmente quando lembra do primeiro piloto. "Foi terrível. Falhou tudo e o software estava muito lento. Mas fomos aprimorando o quadro", admite.
O "Game Gol" é uma idéia antiga de Vanucci. Desde que foi contratado pela empresa de marketing esportivo Traffic para integrar a nova equipe de esportes da Band, em maio de 1999, que o jornalista vem conversando com a direção da emissora sobre o programa. Além do mais, Vanucci tinha consciência que na Globo não havia espaço para implantar seus projetos. Fora o episódio do biscoito, quando foi flagrado comendo uma bolacha no ar durante o "Esporte Espetacular", que culminou com a suspensão do apresentador e foi a gota d'água para Vanucci sair da emissora. "Saí de lá para poder me reciclar. Na Band estou tendo esta oportunidade", garante.
O otimismo não é para menos. Afinal, na Band, o jornalista sabe que não há grandes preocupações com a audiência. O objetivo inicial do "Game Gol" é manter os bons índices do "Show do Esporte". Desde que o apresentador estreou no remodelado programa, a atração dominical vem registrando entre 6 e 10 pontos no Ibope. "Não temos a pretensão de brigar com o Faustão, mas sabemos que vamos atingir índices melhores", torce o jornalista.

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