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ANotícia
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Camille Paglia analisa
"Os Pássaros", de Hitchcock
Escritora norte-americana
considera obra-prima do diretor uma ode à domesticação
da mulher liberada sobre o homem
Luiz Carlos Merten
Agência Estado
Polemista
profissional, Camille Paglia é a segunda intelectual não
ligada à crítica de cinema a assinar os volumes
da coleção Artemídia, da Rocco, sobre os
filmes que integram a série de clássicos do British
Film Institute. Antes dela, somente o poeta Salman Rushdie escreveu
sobre "O Mágico de Oz". O filme de Camille é
"Os Pássaros", de Alfred Hitchcock. Em princípio,
não haveria mais nada a acrescentar à obra-prima
de Alfred Hitchcock. Camille consegue descobrir ângulos
inovadores.
A curiosidade é que sua análise de "Os Pássaros"
(131 páginas, R$ 21,50) chegou às livrarias quase
simultaneamente com "Sua Cara-Metade", o estudo de
Wendy Lesser sobre a mulher na arte segundo a perspectiva masculina,
outro lançamento da Rocco (350 páginas, R$ 35,00).
Hitchcock e "Os Pássaros" também fazem
parte da análise de Wendy, que pode não ser tão
famosa quanto Camille, mas também tem coisas importantes
a dizer sobre como o cinema vê a sedução
feminina.
Camille tinha 16 anos quando viu "Os Pássaros"
pela primeira vez. Saiu convencida de que havia visto uma ode
perversa ao glamour sexual da mulher, explorado por Hitchcock
em todas as suas fases de sedução. Quando voltou
a ver o filme - "inúmeras vezes, tarde da noite pela
televisão", informa -, certos temas lhe pareceram
fundamentais: cativeiro e domesticação. Ela começa
o livro observando que, nesse filme como em tantos outros, Hitchcock
julga a mulher cativante, mas perigosa. Ela fascina por natureza,
mas é o principal artífice da civilização,
um fabricante mágico de persona, cujo sorriso é,
em si mesmo, uma fonte de engano.
A análise de Camille privilegia a personagem Melanie Daniels.
Só isso já garante o interesse de sua leitura de
"Os Pássaros". A voz corrente entre a crítica
- e isso desde a estréia de "Os Pássaros",
no começo dos anos 60 -, sempre foi acabar com a intérprete
do papel. O menor desaforo aplicado a Tippi Hedren é que
ela era fraca, ruim, a mais fria e a menos carismática
das loiras frias hitchcockianas. Camille vai contra a corrente
ao dizer que Tippi sempre foi para ela (e continua sendo) a suprema
heroína hitchcockiana. Já era tempo de alguém
fazer justiça à mãe de Melanie Griffith,
a quem Hitchcock dirigiu novamente no admirável "Marnie,
Confissões de uma Ladra".
Liberação
Ela começa observando que, em "Os Pássaros",
Hitchcock, com profunda sensibilidade para a arquitetura, vê
a casa como refúgio seguro e armadilha feminina. Dez mil
anos atrás, quando o homem nômade se fixou num lugar,
tomou animais a seu serviço. Mas a domesticação
seria seu destino também, pois ele sucumbiu ao controle
feminino. "Os Pássaros" registra um retorno
dos reprimidos, uma liberação de forças
primitivas de sexo e apetite que foram subjugadas, mas não
domadas. São temas perturbadores que, segundo as palavras
de Camille, "Hitchcock elaborou em minúcias quase
fanáticas, de um modo talvez sem paralelo em sua obra;
quanto mais meticulosamente se estuda esse filme, mais ele revela".
Show de interpretação
Matheus Nachtergaele empresta talento a padre Miguel em "A
Muralha".
AN_Tevê |
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O interesse de Camille por "Os Pássaros"
é anterior ao livro. Em "Personas Sexuais",
ela já havia citado Hitchcock e "Os Pássaros",
em particular, vendo o poder arquetípico do filme como
reativação do mito grego das harpias. Quem conhece
o mínimo da obra de Camille sabe de sua fascinação
pela antigüidade clássica, especialmente pela cultura
grega. Não por acaso, ela gosta de criticar Susan Sontag
e Michel Foucault, porque eles não se interessam por nada
anterior à idade moderna, pensam que a humanidade começou
há 300 anos e isso para ela é ontem.
Pássaros sempre foram importantes na obra de Hitchcock,
bastando lembrar as aves empalhadas no escritório de Norman
Bates em "Psicose". Camille enumera essas e outras
informações para tecer sua ode a Melanie, a quem
define como "requintado artefato de civilização".
Para a autora, ninguém representava melhor do que ela
(e Tippi, sua intérprete) a mulher liberada, conhecedora
do seu poder de sedução. É o que torna fascinante
a análise de "Os Pássaros" por Camille
Paglia. Ela chega a exagerar, afirmando que a atriz e o diretor
podem ter se desentendido em "Marnie", mas no plano
pessoal Tippi derrotou Hitchcock no próprio jogo dele.
Janet Leigh, a Marion Crane de "Psicose", disse que
nunca mais conseguiu entrar no chuveiro sem sentir medo. Embora
traumatizada pela natureza animal de "Os Pássaros",
Tippi deu a volta por cima e, despertada sua consciência
acerca dos animais, criou com o marido uma reserva na Califórnia,
onde virou rainha de tigres e leões em companhia da filha
pequena, mais tarde a atriz Melanie Griffith (que não
leva esse nome em homenagem a Melanie Daniels).
Astuciosamente, Camille faz a ponte entre a Melanie de "Os
Pássaros", a Marion de "Psicose" e a Marnie
do filme seguinte do mestre. Marion, Melanie, Marnie - será,
pergunta Camille, uma trindade profana, com Melanie crucificada
entre duas ladras? Se interpretarmos Marion como Maria, há
ecos religiosos nos nomes das personagens desses filmes, que
somadas a Madeleine (Madalena) de "Um Corpo Que Cai"
e Eve (Eva) de "Intriga Internacional" compõem
uma pentalogia bíblica. Nenhuma surpresa. Hitchcock não
só era católico como foi educado por jesuítas.
Lesser busca a
união por meio da arte
Embora tratando muitas vezes de cinema (Hitchcock, King Vidor,
Billy Wilder, Marilyn Monroe, Barbara Stanwyck), Wendy Lesser
amplia seu estudo sobre a mulher na arte, tal como é vista
pelo homem, na perspectiva da literatura, da pintura e da fotografia.
Seu livro começa discutindo as teorias psicanalíticas
de Freud e Lacan aplicadas às artes. Como não é
lacaniana de carteirinha, a autora considera a teoria do espelho
insuficiente como instrumento de trabalho. Sente falta em Lacan
do sentimento de reciprocidade, ou seja, de perceber uma pessoa
e ser sensível a ela.
Por isso mesmo, tenta banir o espelho de Lacan, ao transformar
o mito de Narciso no dos seres divididos de Platão. É
a essência de sua análise, que começa discutindo
as mães. É um ponto de partida óbvio para
um livro sobre artistas do sexo masculino que se dedicam às
mulheres. Em Charles Dickens e D.H. Lawrence, mas também
em Peter Handke, Harold Brodkey e John Berger, Wendy vê
artistas que tiveram de recuperar, remodelar e, finalmente, se
libertar de suas mães, na memória e na criação
artística, antes de poder aventurar-se na vida de escritores.
Depois de dissertar sobre os filmes de Hitchcock e os arquétipos
encarnados por Marilyn Monroe e Barbara Stanwyck - a vulnerabilidade
frágil e a intencional; Barbara representa, para ela,
"um desejo corajoso de adotar até os aspectos mais
dolorosos da experiência" -, Wendy compara os riscos
que os artistas do sexo masculino correm ao falar sobre mulheres
à imagem de um penhasco. Cada um caminha vacilante pelas
bordas. O ato de cair encontra-se no âmago do encontro
entre homens e mulheres, entre o artista e sua inspiração.
Hitchcock (e também Billy Wilder e Preston Sturges, que
ela privilegia) contemplam o abismo que a mulher representa,
como traidora em potencial. Hitchcock e Cecil Beaton, que pregava
o artifício como forma de chegar à verdade em suas
fotos, aprofundam o olhar no complexo de Pigmalião, tratando
do orgulho exagerado do artista pela mulher que criou (o James
Stewart de "Um Corpo Que Cai"). Henry James vislumbra
o terror da solidariedade entre os sexos, James (de novo) e King
Vidor (de "Stella Dallas") entrevêem o perigo
da discriminação. E Wilder, Arthur Miller e Norman
Mailer enxergam no que ela chama de "corpo incorpóreo"
de Marilyn (o movimento de se desnudar para esconder) um poço
profundo que abriga a personificação da nulidade
e da perda total da individualidade.
O que Wendy propõe em sua análise é uma
forma de unir as metades separadas, o masculino e o feminino,
encontrando na arte, mas também na vida, a plenitude.
Mesmo afirmando que o sexo, na arte, pode ser relevante ou não,
ela optou por examinar a obra masculina. Conclui que as obras
de arte dos homens são de alguma forma diferentes das
de seus semelhantes femininos, mas se o gênero é
importante para o artista não é para o leitor ou
espectador, que pode cruzar fronteiras e tornar-se macho e fêmea
ao usufruir a obra. Embora afirme isso, ela também diz
que não é verdade em todos os casos. E cita Shakespeare,
cuja produção é resultado de um ego composto
de partes igualmente masculinas e femininas. Seu livro, embora
em menor grau que o de Camille, também é fascinante.
(LCM)
Artista argentino expõe
em Balneário Camboriú
Carlos Alberto
Brandalise inaugura Arvoredo 10 x 500 Brasil, mostra aberta à
visitação até o dia 29
Balneário Camboriú - O fotógrafo e artista
plástico argentino Carlos Alberto Brandalise está
expondo no Centro Municipal de Cultura em Balneário Camboriú
Arvoredo 10 x 500 Brasil. A mostra de pintura remete aos dez
anos da Reserva Biológica do Arvoredo e aos 500 anos da
descoberta do Brasil, marcando mais uma fase da carreira do artista.
As 27 obras, segundo Brandalise, seguem uma seqüência
que se adapta à cronologia histórica da Reserva
do Arvoredo. "As inscrições rupestres encontradas
na Ilha do Arvoredo evidenciam inteligência e sua mensagem
só pode se referir à emoção dos antigos
frente à extraordinária natureza", exemplifica.
A Reserva do Arvoredo, importante sítio arqueológico,
é formada pelas ilhas do Arvoredo, Galé, Deserta
e Calhau de São Pedro e sua área total é
de 17.800 hectares. Os trabalhos em exposição desde
sexta-feira têm por objetivo "colocar o meu grão
de areia na batalha sem trégua que vêm sofrendo
as instituições e fundações ambientalistas",
explica o artista.
A pintura de Brandalise associa técnicas de diferentes
escolas para produzir, ao final, uma obra rica, diferente e cativante.
"Optei por viver no Brasil graças ao amor que tenho
pela natureza, ao amor que tenho pelo mar e pelo equilíbrio
que Santa Catarina possui", conta.
Brandalise é natural de Córdoba, Argentina. Percorreu
vários caminhos dentro da arte até chegar à
pintura: em 1986, fez curso de desenho gráfico; dois anos
depois, aproximou-se da fotografia e tornou-se perito no assunto.
Em 1990, terminou o pós-graduação em técnicas
audiovisuais avançadas. Arriscou-se no campo das ciências
exatas e, no mesmo ano, terminou o curso de engenharia civil.
No ano seguinte ingressou na Escola Nacional de Artes, ainda
na Argentina.
Brandalise recebeu o prêmio em técnica de animação
para curta-metragem em 1987. Em 1990, participou de uma coletiva
de esculturas no Museu de Arte Moderna da Cidade de Córdoba.
Por fim, em 1991, fez uma amostra individual de ilustrações
em técnica de air brush.
A obra de Brandalise abusa dos temas marítimos. Povoam
sua obra desenhos de barcos e peixes. "Gosto da manifestação
artística concreta, realista, expressiva, chocante. Minhas
obras refletem cor, geometria, colagem e volume conseguidos graças
a paixão pelas esculturas e maquetes". Suas obras
dão conta de um carga expressiva de humor.
A exposição de Brandalise estará aberta
à visitação pública até 29
de janeiro, de segunda à sábado, das 15 às
20 horas. A entrada é franca. O Centro Municipal de Cultura
fica na Terceira Avenida, esquina com a rua 2.550. Maiores informações
pelo fone (0xx47) 367-4422, ramal 328.
Ricky Martin escolhido
o melhor cantor nos EUA
Los Angeles - O ídolo musical do momento, o porto-riquenho
Ricky Martin, recebeu domingo, no auditório cívico
de Pasadena, o prêmio de melhor cantor na cerimônia
de entrega da 26ª edição dos prêmios
People Choice Awards, apresentada pelos atores Don Johnson e
Cheech Marin, astros da série de tevê "Nash
Bridges".
O People Choice Awards, que concede prêmios a filmes e
artistas escolhidos unicamente pelo público, consagrou
o filme de suspense "Sexto Sentido" ("The Sixth
Sense") com as estatuetas de melhor filme e melhor filme
dramático.
Bruce Willis, protagonista do filme que bateu recorde de bilheteria
nos Estados Unidos, com uma arrecadação de mais
de 250 milhões de dólares desde sua estréia,
em julho passado, teve de se dobrar ao carisma de Harrison Ford,
escolhido como melhor ator pelos americanos. A melhor atriz de
1999, segundo o público, foi Julia Roberts. "O Paizão"
("Big Daddy"), um grande sucesso do popular Adam Sandler,
foi eleita a melhor comédia.
No quesito música, além de Ricky Martin, que não
pôde receber sua estatueta pessoalmente, os premiados da
noite foram Shania Twain, eleita melhor intérprete feminina,
e os "Backstreet Boys" - cujo último disco "Millennium"
foi o mais vendidos nos Estados Unidos em 1999 - como melhor
grupo musical.
O seriado "Friends" levou o prêmio de melhor
série cômica e "E.R." (que no Brasil é
conhecido como "Plantão Médico"), o de
melhor série dramática.
Os preferidos pelo público americano foram escolhidos
mediante uma pesquisa nacional por amostragem realizada pelo
instituto especializado Gallup. Segundo um dos responsáveis
pela pesquisa, a amostra representa 201 milhões de americanos
maiores de 12 anos.
Estúdio Cinédia volta
a produzir
Beatriz Coelho Silva
Agência Estado
A Cinédia, que foi o maior estúdio brasileiro
nos anos 30, 40 e 50, voltará a produzir, depois de 18
anos em que se tornou apenas locadora de equipamento. A iniciativa
é de Alice Gonzaga, filha do fundador, Ademar Gonzaga,
hoje diretora da empresa, que escolheu o conto "Morfina",
de Humberto de Campos, para servir de base ao roteiro. A produção
está em fase de captação de recursos e escolha
de elenco e, se tudo correr bem, começa a ser filmada
em setembro, para ser lançada em 2001.
A história passa-se no Rio, nos anos 40, tendo como pano
de fundo a Segunda Guerra Mundial. No entanto, o título
mudou para "Hannah", por motivos comerciais: a produtora
executiva Jane Guerra Peixe (sobrinha-neta do maestro e compositor)
acha que o nome da protagonista da história, uma judia
de origem alemã, é mais atrativo para os patrocinadores
que o nome de uma droga.
Foi por indicação de Jane que Ricardo Favilla foi
chamado para a direção. Ele foi diretor-assistente
de 18 longas e, em 1999, dirigiu o seriado "Mulher",
na Globo. O projeto é ambicioso, de R$ 7,6 milhões,
porque é um filme de época. Mas Jane busca apoio
para as cenas mais caras e parceria no exterior, uma vez que
serão realizadas filmagens em Paris e Buenos Aires. Tanto
Jane quanto Favilla, porém, concordam que o filme terá
poucas cenas de estúdio e muita locação,
o que torna a produção mais trabalhosa. A paisagem
carioca mudou completamente nos últimos 60 anos e só
no subúrbio se encontram casas e ruas com a mesma aparência
da década de 40.
"Na medida da nossa necessidade, vamos usar recursos de
computação e até mesmo artesanais para simular
o Rio dos anos 40", adianta o diretor. "Para fazer
um filme desses, é necessário muito dinheiro ou
muita criatividade", continua. "Desde o início
da produção, eu defendo que nós precisamos
fazer cinema com padrão internacional, mas sem estourar
orçamentos."
Mambembe
Favilla sabe do que está falando. Ele dirigia o filme
"O Caso Morel", baseado num conto de Rubem Fonseca.
Mas, por falta de dinheiro, o projeto está parado ainda
nas filmagens, sem previsão de data para continuar. "Como
eu fiquei escaldado dessa experiência, sugeri que o orçamento
não fosse muito lá em cima", conta ele. "Mas
também não se pode fazer um filme mambembe, a não
ser que a pessoa tenha uma idéia completamente genial,
porque o público exige a qualidade dos filmes que vêm
de fora."
A nova produção conta também, na equipe,
com a diretora de arte Yurika Yamazaki e o diretor de fotografia
Nonato Estrela. Ela é irmã de Tizuka e atuou nessa
função nos primeiros filmes dela. "Como não
sabemos direito quando vamos filmar, por enquanto, só
estamos sondando os atores, mandando-lhes o roteiro", avisa
Favilla. "Não queremos captar em cima do nome deles",
completa Jane.
Morfina
"Hannah" é a história de uma imigrante
que, em razão de uma doença, vicia-se em morfina.
Para conseguir a droga, ela e o marido têm contato com
um alemão suspeito de ser quinta-coluna (como eram chamados
no Brasil os espiões nazistas) e membro da polícia
política de Getúlio Vargas. "Será um
thriller dramático com grande ênfase do lado psicológico
dos personagens", diz Favilla, que promete fugir ao estilo
do film noir. "Sei que é difícil quando se
ambienta uma história nos anos 40, mas vou fazer um filme
mais solar."
Crônica
Contrato certo
David Gonçalves
Pois o Lindolfo, para aumentar o seu tempo de vida, fez um
acordo com a Morte, convidando-a para batizar um de seus filhos.
Em troca por esta camaradagem, ganhou maior tempo. E durou mais
de cem anos. E já havia quase esquecido de que todos nós
temos o dia derradeiro. Vivia alegre e faceiro. E os anos não
lhe pesavam. Um dia, e há sempre o malfadado dia, a comadre
Morte veio buscá-lo. No acordo, entretanto, a comadre
teria de avisá-lo antes. E o dia do aviso chegou:
- Querido e inestimável compadre Lindolfo - foi dizendo
a comadre, fria e inóspita -, por mais que lhe queira
bem, o seu dia, aliás, o nosso grande dia, está
chegando. Previno-o, como reza o nosso acerto, de que, na próxima
sexta-feira, às oito da noite em ponto, aqui estarei,
e você não mais viverá.
Disse a voz cortante e sumiu. Lindolfo estava amarelo, os cenhos
caídos, os lábios tortos de espanto. Mas ele era
muito inteligente, não se deixaria levar assim, de uma
forma besta. Usou de sua sabedoria acumulada pelos anos.
- Vou enganá-la. Tomarei o lugar do preto velho,
que há tempo vive na fazenda. Ela não me encontrando,
com certeza sairá à procura de outro, pois a comadre
também é pela lei do menor esforço.
Assim chegou o dia. Ele disse a sua terceira mulher (as duas
primeiras já tinham partido):
- Quando a comadre Morte chegar, peça desculpas,
esmere no atendimento, sirva um bom café e diga que saí
atropelado numa emergência. Coisa de última hora...
e que vou demorar muito.
Então ele se tingiu de negro retinto, vestiu a roupa do
preto velho e sentou-se na taipa do fogão, de forma irreconhecível.
- A comadre está no papo. Ninguém me reconhecerá
- pensou.
Em horário marcado e avisado, quando o relógio
da sala badalava agudamente as oito horas da noite, a comadre
chegou. E ficou furiosa quando soube da fuga do compadre, pessoa
até então estimada, mas que, na hora fatal, não
honrara o contrato. E a honra, para ela, era como o fósforo:
serve apenas uma vez. Saiu furiosa, como fazem as mulheres quando
enganadas, casarão afora, estalando madeira, cuspindo
palavrões. E deu de encontro com o preto velho sentado
na taipa do fogão. O preto velho, o Lindolfo, olhava-a
calmamente, enquanto pitava um cheiroso fumo de corda. Embora
aparentasse calmo, o suor molhava-lhe o reguinho da bunda, e
o coração batia-lhe atribulado. A comadre Morte
parou, tomou fôlego, mordeu os dentes com raiva e disse,
muito desconsolada.
- Não voltarei de mãos vazias. Levarei este
preto velho enferidado mesmo.
Em seguida, Lindolfo caiu no chão como uma abóbora
madura, já cadáver. O boné de pano esfiapado
rolou sobre as tábuas largas do soalho.
- Adeus - disse a Morte à terceira mulher do
finado -, avise o compadre que voltarei outro dia com mais folga,
e então, acertaremos as contas.
E saiu noite afora, sorrateira e ambígua.
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| Manchetes AN |
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| Leia também |
O melhor do
MPB-4 em clima de bar
"Melhores
Momentos", novo CD do veterano grupo vocal, foi gravado
ao vivo e mostra o quarteto à vontade com seus grandes
sucessos
Mauro Dias
Agência Estado
Coisa de livro de recordes, o MPB-4 é o conjunto vocal
de mais tempo de vida com a mesma formação. Surgiu
em 1963, num centro acadêmico, em Niterói, encontro
de garotos que se manifestavam politicamente e gostavam de música,
dois estudantes de engenharia (Miltinho e Magro Waghabi), um
de advocacia (Ruy Farias) e um aspirante a sociólogo (Aquiles
Reis).
No começo eles eram o Quarteto CPC (de Centro Popular
de Cultura, tipo de grupo acadêmico que se multiplicava
pelo País). A sigla tornou-se perigosa, depois de 1964.
O grupo virou MPB-4, de Música Popular Brasileira. A sigla,
há quem não goste dela, foi criada pelos meninos.
Ou, pelo menos, cristalizada por eles.
Este ano, o MPB-4 realizou uma muito bem-sucedida temporada no
Teatro Rival, no Rio. Foi tão boa que eles resolveram
gravar o show, o que foi feito nos dias 20 e 21 de setembro.
O resultado é o disco "Melhores Momentos" (lançamento
CID, www.cid.com.br). "Melhores Momentos" não
só porque tem os melhores momentos do show, mas aqueles
momentos que o grupo considera constar da lista dos melhores
de toda a carreira.
"O forte do MPB-4 é o palco", diz Ruy Faria.
"Quando a energia do corpo, instigada pelos jovens músicos
da sua banda, consegue se transferir para um CD gravado ao vivo,
aí temos, realmente, nossos melhores momentos". Esses
jovens músicos são filhos deles - o baixista João
Faria, filho de Ruy, o baterista Marcos Feijão, filho
de Miltinho, o guitarrista e bandolinista Pero Reis, filho de
Aquiles. Os outros músicos da banda são Marquinhos
Esguleba (percussão), Jorge Simas (violão de sete
cordas) e Alceu Maia (cavaquinho). Além, claro, do violão
de Miltinho e dos teclados de Magro, responsável pelos
arranjos do grupo.
O espetáculo realiza-se como se o grupo estivesse num
bar, o Bar do Bode - clima que o disco reproduz, até pelo
inevitável coro da platéia nos números de
maior sucesso. Na contracapa, Aquiles Reis escreveu: "Imagine
um bar. Qualquer bar. O Bar do Bode, por exemplo. O bar do MPB-4.Onde
fica? Ora, esse bar está em todo lugar. Ali na sua esquina
mesmo tem um. É o tipo de bar que você carrega dentro
da alma. Lugar para beber e cantar. Para falar mal do governo.
Na falta de um espaço físico permanente, criamos
um bar delivery. O bar que vai até você. Pode ser
levado para a praia ou no carro. Sintam-se em casa. Ouçam.
Cantem. O bar é nosso".
Humor fino
Vamos a ele, pois. O disco tem 16 faixas, algumas com mais
de uma música, e alguns textos que apresentam os números.
Textos engraçados - é outra marca do MPB-4, o humor
de fino tempero. Abre com "O Cafona", de Marcos e Paulo
Sérgio Vale. Atenção para as aberturas vocais
escritas por Magro. Segue com "Yolanda", de Pablo Milanéz,
na versão de Chico Buarque. O MPB-4 a canta em acordes
de quatro notas. Uma arte que o arranjador oficial do grupo desenvolveu
como ninguém mais que lida com vocais entre nós.
Sim, porque ao lado da graça, do humor, dando substância
ao sucesso, aqueles quatro meninos têm extraordinário
talento. A música que fazem é de imensa seriedade
e criou um padrão para grupos vocais (o equivalente feminino
é o Quarteto em Cy; a conta principal fecha nesse balanço)
jamais superado.
A faixa seguinte dá dimensão de outra capacidade
ímpar: a do uníssono irretocavelmente timbrado
(e não há nada mais difícil para um grupo
vocal do que cantar em uníssono): é um sambão,
de João Bosco e Aldir Blanc, a obra-prima "De Frente
pro Crime". Há mais, de João e Aldir: "Ronco
da Cuíca" e "A Nível de" (uma das
melhores letras de Aldir, vale dizer, da música brasleira).
Claro, de César Costa Filho e o mesmo Aldir, "Amigo
é pra Essas Coisas".
Miltinho, que tem dois discos-solos (lançados já
em CD) mostra duas de suas composições, "Cicatrizes"
e "Velha Guarda da Mangueira", ambas com Paulo César
Pinheiro. A segunda é nova. A primeira foi um grande sucesso.
Não faltaria "Roda Viva" (já que há
muitos superlativos, mais um: é o melhor arranjo de Magro),
que o grupo defendeu com Chico Buarque no histórico festival
da TV Record, "O Que é, o Que é?", de
Gonzaguinha, "Velho Ateu", de Eduardo Gudin e Roberto
Riberti, "Samba do Avião", de Tom Jobim, "Fé
Cega, Faca Amolada", de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos,
a polêmica musical entre Wilson Batista e Noel Rosa - enfim,
o que se gosta de ouvir cantado pelo MPB-4. Saúde, pois.
Deus e o diabo nas trilhas
de "Dogma" e "Stigmata"
Jotabê Medeiros
Agência Estado
Duas trilhas. Uma aqui, outra ali do lado. Deus e o diabo
na terra da banda sonora. Os dois filmes vivem de mitologias
religiosas, afrontando ou legalizando mitos. A trilha de "Stigmata",
filme de Rupert Wainwright, com Patricia Arquette e Gabriel Byrne,
foi coordenada por ninguém menos que Billy Corgan, do
grupo Smashing Pumpkins, e por Mike Garson. Já o polêmico
"Dogma", de Kevin Smith, tem em Alanis Morissette seu
maior trunfo.
A violência de "Stigmata" pede algum peso e um
contraponto ritualístico. Por isso, o Chumbawamba abre
rasgando com "Mary Mary", canção bacanérrima
com alternância de luz e sombras em doses certas, porém
inesperadas. Logo em seguida, com um teclado ardiloso, entra
"Gramarye", com o Remy Zero. Paul McCartney no "inferno
com diamantes na cabeça". É uma balada à
moda dos Beatles, só que anfetamínica, rústica,
tensa.
A bela e etérea Björk chega a seguir com "All
Is Full of Love". O tom triunfalista é trocado por
uma trilha que sai das frestas do caminho de pedra que leva do
inferno ao purgatório. Beleza pura. David Bowie, reintegrado
à espécie humana com seu novo disco, "Hours",
comparece com a nervosa "The Pretty Things Are Going to
Hell". Se as coisas belas estão indo para o inferno
é porque estão dando uma festinha por lá.
Bowie tem passaporte VIP.
A ex-convicta Sinéad O'Connor não poderia faltar
nessa trilha do sagrado e do profano. Ela procura os motivos
nas raízes e vem acompanhada do Afro Celt Sound System,
cantando "Release". Para fechar o cerco, o Massive
Attack joga azeite fervendo nos ouvidos com "Inertia Creeps".
E Natalie Imbruglia, menininha pré-Linda Blair, comparece
para ser oferecida em sacrifício. Uma trilha que vale
a pena.
Fúria católica
"Dogma" é o filme que despertou a fúria
de algumas ligas católicas ao redor do mundo. A explicação
estaria na interpretação muito pessoal que o diretor
deu à conhecida mitologia cristã. Mas poderia ser
também um protesto pela escolha de Alanis Morissette para
interpretar o tema musical principal, "Still". Ainda
por cima lhe deram o papel de Deus, duplo "sacrilégio".
A trilha de "Dogma" tem música original composta
e regida por Howard Shore, com a participação de
integrantes da London Philharmonic Orchestra, do grupo vocal
The London Voices e de aspirantes do The Centre for Young Musicians.
Só o tema principal é cantado por Alanis Morissette.
O resto é sinfônico.
O filme mostra versões modernas para o mito da concepção
de Maria e vê a corporificação de Deus como
uma mulher. A trilha é um amontoado de subprodutos com
os clichês mais conhecidos desse tipo de atualização.
"Dogma" e "Behold the Metraton", as faixas
que abrem, são exemplos disso, crescendos orquestrais
tolos e fáceis. Mas o contraponto do coral do The London
Voices e o arranjo tipo "noviça rebelde" da
canção "Mooby the Golden Calf" é
um sinal de bom-humor na trilha.
"The Golgothan" volta aos clichês. "The
Last Scion", a mesma coisa: a referência de Cecil
B. de Mille ainda é muito forte, apesar das intenções
dessacralizantes da fita. De qualquer forma, temas como "Bartleby
& Loki" e "Stygian Triplets" mostra que os
católicos estão errados em julgar mal o filme.
Pela trilha, pode-se notar que o diretor é um crente.
Uma simples
obra-prima
"Tudo Sobre Minha
Mãe", exibido em Joinville, mostra Almodóvar
no auge
GLEBER PIENIZ
Não é necessário ir até o final
de "Tudo Sobre Minha Mãe" para se chegar à
conclusão de que esta é a obra-prima de Pedro Almodóvar.
Há quem diga - não sem assumir certa indecisão
- que o título é de "Carne Trêmula"
ou mesmo de "Matador" pela maior complexidade de suas
cenas, seus ricos enquadramentos e suas tramas de indiscutível
profundidade. Embora não cumpra em "Tudo Sobre Minha
Mãe" sua lista de elementos característicos
(o que não faz do filme seu trabalho mais representativo,
esta sim tarefa para "Matador" ou "A Flor do Meu
Segredo"), Almodóvar constrói uma obra passional,
sensível, limpa e, ao mesmo tempo, chocante. É,
sem exageros, seu trabalho maior, mas vem a público curiosamente
despojado de todas as peculiaridades que tornaram célebre
a estética do cineasta espanhol. Nesta película
(em cartaz em Joinville), Almodóvar parece decidido a
livrar-se dos deliciosos excessos e trabalhar apenas com a tríade
essencial para fazer seu filme perfeito: uma boa história,
ótimas atrizes e doses generosas de paixão.
Em "Tudo Sobre Minha Mãe", Almodóvar
conta a saga de Manuela Echeverria (Cecilia Roth), mulher que
logo nas primeiras cenas do filme perde o filho Esteban em um
acidente. É a busca da mulher pelo pai que o garoto jamais
conheceu e a busca pela própria afirmação
que a tornam mãe novamente, figura responsável
pela reabilitação do travesti Agrado (Antonia San
Juan, inspiradíssima), pela saúde da assistente
social soropositiva Rosa (Penélope Cruz) e pela integridade
das atrizes Nina (Candela Peña) e Huma (Marisa Paredes,
a diva de Almodóvar). É uma trama aparentemente
simples, mas construída de detalhes sutis às vezes
sem importância, outras vezes fundamentais para a compreensão
da história. Como sempre, Almodóvar não
se preocupa em realçar a diferença entre as informações
imprescindíveis e as acessórias, tratando-as igualmente
como fragmentos de realidade. Propõe à platéia,
desta forma, o entendimento através de um exercício
de imersão passional.
Ao contrário de seus filmes anteriores, o espanhol optou
majoritariamente pelos enquadramentos fechados nos rostos das
atrizes. Essa decisão valorizou os primeiros planos (o
equivalente, para o diretor, ao monólogo do teatro), envolvendo
o espectador na situação de cada personagem, trazendo-o
para junto da cena, tão próximo quanto pede sua
carga emocional. Nas raras vezes em que abre a lente, Almodóvar
prova porque continua sendo um dos melhores: uma das imagens
mais generosas é a visão aérea (e ao mesmo
tempo intimista) da noite de Barcelona, cortando para uma das
catedrais de Gaudí e arrematando a seqüência,
takes depois, com um inquietante plano geral sobre "el campo",
o ponto de prostituição estilo fast food onde Manuela
encontra Agrado. No cinema, Almodóvar busca referências
em "A Malvada" (com Bette Davis); no teatro, é
"Um Bonde Chamado Desejo" (de Tenessee Williams) quem
dá linha ao filme.
É também com um sugestivo jogo de imagens que Almodóvar
explica o porquê de "Tudo Sobre Minha Mãe"
ser um filme narrado sob a ótica do falecido Esteban:
é o olhar do adolescente - um corpo estendido no chão
- quem flagra a mãe se aproximando, gritando a morte repentina
do filho. A partir do atropelamento, o que vemos é o olho
de Esteban procurando o pai e conhecendo, como sugere o título,
tudo sobre a mãe. Mais tarde, quando Manuela reencontra
o antigo companheiro (também chamado Esteban, mas travestido
na combalida Lola, "la Pionera"), um fade na foto do
jovem sugere que a missão da mãe está cumprida
e que a mulher pode, agora, seguir sua história de forma
autônoma.
Cultura 1 -
O prefeito de Itajaí, Jandir Bellini, sanciona hoje a
Lei de Incentivos Fiscais para apoio à realização
de projetos culturais em áreas como música, dança,
cinema, literatura, teatro, museus, entre outras. "É
uma forma de incentivar a realização de projetos
culturais e garantir a preservação da cultura e
das tradições de Itajai", justifica.
Cultura 2 -
Os produtores culturais apresentam seus projetos à Fundação
Municipal de Cultural, capacitando-se a receber recursos de contribuintes
do ISS até o limite de 30% do imposto devido. Segundo
o superintendente da fundação, Augusto Dalçóquio,
esta lei é uma forma dos empresários que acreditam
na arte saberem com o que estão colaborando.
Cultura 3 -
Augusto Dalçóquio explica que cada projeto passará
pela Comissão Itajaiense de Avaliação de
Projetos Culturais (Capc), formada por pessoas reconhecidas no
meio cultural, que irá fazer um exame das propostas para
realização do projeto, como objetivos, resultados
esperados, e recursos humanos e financeiros envolvidos.
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