Joinville         -          Terça-feira, 11 de Janeiro de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  


















Camille Paglia analisa
"Os Pássaros", de Hitchcock

Escritora norte-americana considera obra-prima do diretor uma ode à domesticação da mulher liberada sobre o homem

Luiz Carlos Merten
Agência Estado

Polemista profissional, Camille Paglia é a segunda intelectual não ligada à crítica de cinema a assinar os volumes da coleção Artemídia, da Rocco, sobre os filmes que integram a série de clássicos do British Film Institute. Antes dela, somente o poeta Salman Rushdie escreveu sobre "O Mágico de Oz". O filme de Camille é "Os Pássaros", de Alfred Hitchcock. Em princípio, não haveria mais nada a acrescentar à obra-prima de Alfred Hitchcock. Camille consegue descobrir ângulos inovadores.
A curiosidade é que sua análise de "Os Pássaros" (131 páginas, R$ 21,50) chegou às livrarias quase simultaneamente com "Sua Cara-Metade", o estudo de Wendy Lesser sobre a mulher na arte segundo a perspectiva masculina, outro lançamento da Rocco (350 páginas, R$ 35,00). Hitchcock e "Os Pássaros" também fazem parte da análise de Wendy, que pode não ser tão famosa quanto Camille, mas também tem coisas importantes a dizer sobre como o cinema vê a sedução feminina.
Camille tinha 16 anos quando viu "Os Pássaros" pela primeira vez. Saiu convencida de que havia visto uma ode perversa ao glamour sexual da mulher, explorado por Hitchcock em todas as suas fases de sedução. Quando voltou a ver o filme - "inúmeras vezes, tarde da noite pela televisão", informa -, certos temas lhe pareceram fundamentais: cativeiro e domesticação. Ela começa o livro observando que, nesse filme como em tantos outros, Hitchcock julga a mulher cativante, mas perigosa. Ela fascina por natureza, mas é o principal artífice da civilização, um fabricante mágico de persona, cujo sorriso é, em si mesmo, uma fonte de engano.
A análise de Camille privilegia a personagem Melanie Daniels. Só isso já garante o interesse de sua leitura de "Os Pássaros". A voz corrente entre a crítica - e isso desde a estréia de "Os Pássaros", no começo dos anos 60 -, sempre foi acabar com a intérprete do papel. O menor desaforo aplicado a Tippi Hedren é que ela era fraca, ruim, a mais fria e a menos carismática das loiras frias hitchcockianas. Camille vai contra a corrente ao dizer que Tippi sempre foi para ela (e continua sendo) a suprema heroína hitchcockiana. Já era tempo de alguém fazer justiça à mãe de Melanie Griffith, a quem Hitchcock dirigiu novamente no admirável "Marnie, Confissões de uma Ladra".

Liberação

Ela começa observando que, em "Os Pássaros", Hitchcock, com profunda sensibilidade para a arquitetura, vê a casa como refúgio seguro e armadilha feminina. Dez mil anos atrás, quando o homem nômade se fixou num lugar, tomou animais a seu serviço. Mas a domesticação seria seu destino também, pois ele sucumbiu ao controle feminino. "Os Pássaros" registra um retorno dos reprimidos, uma liberação de forças primitivas de sexo e apetite que foram subjugadas, mas não domadas. São temas perturbadores que, segundo as palavras de Camille, "Hitchcock elaborou em minúcias quase fanáticas, de um modo talvez sem paralelo em sua obra; quanto mais meticulosamente se estuda esse filme, mais ele revela".
Show de interpretação
Matheus Nachtergaele empresta talento a padre Miguel em "A Muralha".  AN_Tevê 
O interesse de Camille por "Os Pássaros" é anterior ao livro. Em "Personas Sexuais", ela já havia citado Hitchcock e "Os Pássaros", em particular, vendo o poder arquetípico do filme como reativação do mito grego das harpias. Quem conhece o mínimo da obra de Camille sabe de sua fascinação pela antigüidade clássica, especialmente pela cultura grega. Não por acaso, ela gosta de criticar Susan Sontag e Michel Foucault, porque eles não se interessam por nada anterior à idade moderna, pensam que a humanidade começou há 300 anos e isso para ela é ontem.
Pássaros sempre foram importantes na obra de Hitchcock, bastando lembrar as aves empalhadas no escritório de Norman Bates em "Psicose". Camille enumera essas e outras informações para tecer sua ode a Melanie, a quem define como "requintado artefato de civilização". Para a autora, ninguém representava melhor do que ela (e Tippi, sua intérprete) a mulher liberada, conhecedora do seu poder de sedução. É o que torna fascinante a análise de "Os Pássaros" por Camille Paglia. Ela chega a exagerar, afirmando que a atriz e o diretor podem ter se desentendido em "Marnie", mas no plano pessoal Tippi derrotou Hitchcock no próprio jogo dele.
Janet Leigh, a Marion Crane de "Psicose", disse que nunca mais conseguiu entrar no chuveiro sem sentir medo. Embora traumatizada pela natureza animal de "Os Pássaros", Tippi deu a volta por cima e, despertada sua consciência acerca dos animais, criou com o marido uma reserva na Califórnia, onde virou rainha de tigres e leões em companhia da filha pequena, mais tarde a atriz Melanie Griffith (que não leva esse nome em homenagem a Melanie Daniels).
Astuciosamente, Camille faz a ponte entre a Melanie de "Os Pássaros", a Marion de "Psicose" e a Marnie do filme seguinte do mestre. Marion, Melanie, Marnie - será, pergunta Camille, uma trindade profana, com Melanie crucificada entre duas ladras? Se interpretarmos Marion como Maria, há ecos religiosos nos nomes das personagens desses filmes, que somadas a Madeleine (Madalena) de "Um Corpo Que Cai" e Eve (Eva) de "Intriga Internacional" compõem uma pentalogia bíblica. Nenhuma surpresa. Hitchcock não só era católico como foi educado por jesuítas.


Lesser busca a
união por meio da arte

Embora tratando muitas vezes de cinema (Hitchcock, King Vidor, Billy Wilder, Marilyn Monroe, Barbara Stanwyck), Wendy Lesser amplia seu estudo sobre a mulher na arte, tal como é vista pelo homem, na perspectiva da literatura, da pintura e da fotografia. Seu livro começa discutindo as teorias psicanalíticas de Freud e Lacan aplicadas às artes. Como não é lacaniana de carteirinha, a autora considera a teoria do espelho insuficiente como instrumento de trabalho. Sente falta em Lacan do sentimento de reciprocidade, ou seja, de perceber uma pessoa e ser sensível a ela.
Por isso mesmo, tenta banir o espelho de Lacan, ao transformar o mito de Narciso no dos seres divididos de Platão. É a essência de sua análise, que começa discutindo as mães. É um ponto de partida óbvio para um livro sobre artistas do sexo masculino que se dedicam às mulheres. Em Charles Dickens e D.H. Lawrence, mas também em Peter Handke, Harold Brodkey e John Berger, Wendy vê artistas que tiveram de recuperar, remodelar e, finalmente, se libertar de suas mães, na memória e na criação artística, antes de poder aventurar-se na vida de escritores.
Depois de dissertar sobre os filmes de Hitchcock e os arquétipos encarnados por Marilyn Monroe e Barbara Stanwyck - a vulnerabilidade frágil e a intencional; Barbara representa, para ela, "um desejo corajoso de adotar até os aspectos mais dolorosos da experiência" -, Wendy compara os riscos que os artistas do sexo masculino correm ao falar sobre mulheres à imagem de um penhasco. Cada um caminha vacilante pelas bordas. O ato de cair encontra-se no âmago do encontro entre homens e mulheres, entre o artista e sua inspiração. Hitchcock (e também Billy Wilder e Preston Sturges, que ela privilegia) contemplam o abismo que a mulher representa, como traidora em potencial. Hitchcock e Cecil Beaton, que pregava o artifício como forma de chegar à verdade em suas fotos, aprofundam o olhar no complexo de Pigmalião, tratando do orgulho exagerado do artista pela mulher que criou (o James Stewart de "Um Corpo Que Cai"). Henry James vislumbra o terror da solidariedade entre os sexos, James (de novo) e King Vidor (de "Stella Dallas") entrevêem o perigo da discriminação. E Wilder, Arthur Miller e Norman Mailer enxergam no que ela chama de "corpo incorpóreo" de Marilyn (o movimento de se desnudar para esconder) um poço profundo que abriga a personificação da nulidade e da perda total da individualidade.
O que Wendy propõe em sua análise é uma forma de unir as metades separadas, o masculino e o feminino, encontrando na arte, mas também na vida, a plenitude. Mesmo afirmando que o sexo, na arte, pode ser relevante ou não, ela optou por examinar a obra masculina. Conclui que as obras de arte dos homens são de alguma forma diferentes das de seus semelhantes femininos, mas se o gênero é importante para o artista não é para o leitor ou espectador, que pode cruzar fronteiras e tornar-se macho e fêmea ao usufruir a obra. Embora afirme isso, ela também diz que não é verdade em todos os casos. E cita Shakespeare, cuja produção é resultado de um ego composto de partes igualmente masculinas e femininas. Seu livro, embora em menor grau que o de Camille, também é fascinante. (LCM)


Artista argentino expõe
em Balneário Camboriú

Carlos Alberto Brandalise inaugura Arvoredo 10 x 500 Brasil, mostra aberta à visitação até o dia 29

Balneário Camboriú - O fotógrafo e artista plástico argentino Carlos Alberto Brandalise está expondo no Centro Municipal de Cultura em Balneário Camboriú Arvoredo 10 x 500 Brasil. A mostra de pintura remete aos dez anos da Reserva Biológica do Arvoredo e aos 500 anos da descoberta do Brasil, marcando mais uma fase da carreira do artista.
As 27 obras, segundo Brandalise, seguem uma seqüência que se adapta à cronologia histórica da Reserva do Arvoredo. "As inscrições rupestres encontradas na Ilha do Arvoredo evidenciam inteligência e sua mensagem só pode se referir à emoção dos antigos frente à extraordinária natureza", exemplifica.
A Reserva do Arvoredo, importante sítio arqueológico, é formada pelas ilhas do Arvoredo, Galé, Deserta e Calhau de São Pedro e sua área total é de 17.800 hectares. Os trabalhos em exposição desde sexta-feira têm por objetivo "colocar o meu grão de areia na batalha sem trégua que vêm sofrendo as instituições e fundações ambientalistas", explica o artista.
A pintura de Brandalise associa técnicas de diferentes escolas para produzir, ao final, uma obra rica, diferente e cativante. "Optei por viver no Brasil graças ao amor que tenho pela natureza, ao amor que tenho pelo mar e pelo equilíbrio que Santa Catarina possui", conta.
Brandalise é natural de Córdoba, Argentina. Percorreu vários caminhos dentro da arte até chegar à pintura: em 1986, fez curso de desenho gráfico; dois anos depois, aproximou-se da fotografia e tornou-se perito no assunto. Em 1990, terminou o pós-graduação em técnicas audiovisuais avançadas. Arriscou-se no campo das ciências exatas e, no mesmo ano, terminou o curso de engenharia civil. No ano seguinte ingressou na Escola Nacional de Artes, ainda na Argentina.
Brandalise recebeu o prêmio em técnica de animação para curta-metragem em 1987. Em 1990, participou de uma coletiva de esculturas no Museu de Arte Moderna da Cidade de Córdoba. Por fim, em 1991, fez uma amostra individual de ilustrações em técnica de air brush.
A obra de Brandalise abusa dos temas marítimos. Povoam sua obra desenhos de barcos e peixes. "Gosto da manifestação artística concreta, realista, expressiva, chocante. Minhas obras refletem cor, geometria, colagem e volume conseguidos graças a paixão pelas esculturas e maquetes". Suas obras dão conta de um carga expressiva de humor.
A exposição de Brandalise estará aberta à visitação pública até 29 de janeiro, de segunda à sábado, das 15 às 20 horas. A entrada é franca. O Centro Municipal de Cultura fica na Terceira Avenida, esquina com a rua 2.550. Maiores informações pelo fone (0xx47) 367-4422, ramal 328.


Ricky Martin escolhido
o melhor cantor nos EUA

Los Angeles - O ídolo musical do momento, o porto-riquenho Ricky Martin, recebeu domingo, no auditório cívico de Pasadena, o prêmio de melhor cantor na cerimônia de entrega da 26ª edição dos prêmios People Choice Awards, apresentada pelos atores Don Johnson e Cheech Marin, astros da série de tevê "Nash Bridges".
O People Choice Awards, que concede prêmios a filmes e artistas escolhidos unicamente pelo público, consagrou o filme de suspense "Sexto Sentido" ("The Sixth Sense") com as estatuetas de melhor filme e melhor filme dramático.
Bruce Willis, protagonista do filme que bateu recorde de bilheteria nos Estados Unidos, com uma arrecadação de mais de 250 milhões de dólares desde sua estréia, em julho passado, teve de se dobrar ao carisma de Harrison Ford, escolhido como melhor ator pelos americanos. A melhor atriz de 1999, segundo o público, foi Julia Roberts. "O Paizão" ("Big Daddy"), um grande sucesso do popular Adam Sandler, foi eleita a melhor comédia.
No quesito música, além de Ricky Martin, que não pôde receber sua estatueta pessoalmente, os premiados da noite foram Shania Twain, eleita melhor intérprete feminina, e os "Backstreet Boys" - cujo último disco "Millennium" foi o mais vendidos nos Estados Unidos em 1999 - como melhor grupo musical.
O seriado "Friends" levou o prêmio de melhor série cômica e "E.R." (que no Brasil é conhecido como "Plantão Médico"), o de melhor série dramática.
Os preferidos pelo público americano foram escolhidos mediante uma pesquisa nacional por amostragem realizada pelo instituto especializado Gallup. Segundo um dos responsáveis pela pesquisa, a amostra representa 201 milhões de americanos maiores de 12 anos.


Estúdio Cinédia volta a produzir

Beatriz Coelho Silva
Agência Estado

A Cinédia, que foi o maior estúdio brasileiro nos anos 30, 40 e 50, voltará a produzir, depois de 18 anos em que se tornou apenas locadora de equipamento. A iniciativa é de Alice Gonzaga, filha do fundador, Ademar Gonzaga, hoje diretora da empresa, que escolheu o conto "Morfina", de Humberto de Campos, para servir de base ao roteiro. A produção está em fase de captação de recursos e escolha de elenco e, se tudo correr bem, começa a ser filmada em setembro, para ser lançada em 2001.
A história passa-se no Rio, nos anos 40, tendo como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial. No entanto, o título mudou para "Hannah", por motivos comerciais: a produtora executiva Jane Guerra Peixe (sobrinha-neta do maestro e compositor) acha que o nome da protagonista da história, uma judia de origem alemã, é mais atrativo para os patrocinadores que o nome de uma droga.
Foi por indicação de Jane que Ricardo Favilla foi chamado para a direção. Ele foi diretor-assistente de 18 longas e, em 1999, dirigiu o seriado "Mulher", na Globo. O projeto é ambicioso, de R$ 7,6 milhões, porque é um filme de época. Mas Jane busca apoio para as cenas mais caras e parceria no exterior, uma vez que serão realizadas filmagens em Paris e Buenos Aires. Tanto Jane quanto Favilla, porém, concordam que o filme terá poucas cenas de estúdio e muita locação, o que torna a produção mais trabalhosa. A paisagem carioca mudou completamente nos últimos 60 anos e só no subúrbio se encontram casas e ruas com a mesma aparência da década de 40.
"Na medida da nossa necessidade, vamos usar recursos de computação e até mesmo artesanais para simular o Rio dos anos 40", adianta o diretor. "Para fazer um filme desses, é necessário muito dinheiro ou muita criatividade", continua. "Desde o início da produção, eu defendo que nós precisamos fazer cinema com padrão internacional, mas sem estourar orçamentos."

Mambembe

Favilla sabe do que está falando. Ele dirigia o filme "O Caso Morel", baseado num conto de Rubem Fonseca. Mas, por falta de dinheiro, o projeto está parado ainda nas filmagens, sem previsão de data para continuar. "Como eu fiquei escaldado dessa experiência, sugeri que o orçamento não fosse muito lá em cima", conta ele. "Mas também não se pode fazer um filme mambembe, a não ser que a pessoa tenha uma idéia completamente genial, porque o público exige a qualidade dos filmes que vêm de fora."
A nova produção conta também, na equipe, com a diretora de arte Yurika Yamazaki e o diretor de fotografia Nonato Estrela. Ela é irmã de Tizuka e atuou nessa função nos primeiros filmes dela. "Como não sabemos direito quando vamos filmar, por enquanto, só estamos sondando os atores, mandando-lhes o roteiro", avisa Favilla. "Não queremos captar em cima do nome deles", completa Jane.

Morfina

"Hannah" é a história de uma imigrante que, em razão de uma doença, vicia-se em morfina. Para conseguir a droga, ela e o marido têm contato com um alemão suspeito de ser quinta-coluna (como eram chamados no Brasil os espiões nazistas) e membro da polícia política de Getúlio Vargas. "Será um thriller dramático com grande ênfase do lado psicológico dos personagens", diz Favilla, que promete fugir ao estilo do film noir. "Sei que é difícil quando se ambienta uma história nos anos 40, mas vou fazer um filme mais solar."


Crônica

Contrato certo

David Gonçalves

Pois o Lindolfo, para aumentar o seu tempo de vida, fez um acordo com a Morte, convidando-a para batizar um de seus filhos. Em troca por esta camaradagem, ganhou maior tempo. E durou mais de cem anos. E já havia quase esquecido de que todos nós temos o dia derradeiro. Vivia alegre e faceiro. E os anos não lhe pesavam. Um dia, e há sempre o malfadado dia, a comadre Morte veio buscá-lo. No acordo, entretanto, a comadre teria de avisá-lo antes. E o dia do aviso chegou:
- Querido e inestimável compadre Lindolfo - foi dizendo a comadre, fria e inóspita -, por mais que lhe queira bem, o seu dia, aliás, o nosso grande dia, está chegando. Previno-o, como reza o nosso acerto, de que, na próxima sexta-feira, às oito da noite em ponto, aqui estarei, e você não mais viverá.
Disse a voz cortante e sumiu. Lindolfo estava amarelo, os cenhos caídos, os lábios tortos de espanto. Mas ele era muito inteligente, não se deixaria levar assim, de uma forma besta. Usou de sua sabedoria acumulada pelos anos.
- Vou enganá-la. Tomarei o lugar do preto velho, que há tempo vive na fazenda. Ela não me encontrando, com certeza sairá à procura de outro, pois a comadre também é pela lei do menor esforço.
Assim chegou o dia. Ele disse a sua terceira mulher (as duas primeiras já tinham partido):
- Quando a comadre Morte chegar, peça desculpas, esmere no atendimento, sirva um bom café e diga que saí atropelado numa emergência. Coisa de última hora... e que vou demorar muito.
Então ele se tingiu de negro retinto, vestiu a roupa do preto velho e sentou-se na taipa do fogão, de forma irreconhecível.
- A comadre está no papo. Ninguém me reconhecerá - pensou.
Em horário marcado e avisado, quando o relógio da sala badalava agudamente as oito horas da noite, a comadre chegou. E ficou furiosa quando soube da fuga do compadre, pessoa até então estimada, mas que, na hora fatal, não honrara o contrato. E a honra, para ela, era como o fósforo: serve apenas uma vez. Saiu furiosa, como fazem as mulheres quando enganadas, casarão afora, estalando madeira, cuspindo palavrões. E deu de encontro com o preto velho sentado na taipa do fogão. O preto velho, o Lindolfo, olhava-a calmamente, enquanto pitava um cheiroso fumo de corda. Embora aparentasse calmo, o suor molhava-lhe o reguinho da bunda, e o coração batia-lhe atribulado. A comadre Morte parou, tomou fôlego, mordeu os dentes com raiva e disse, muito desconsolada.
- Não voltarei de mãos vazias. Levarei este preto velho enferidado mesmo.
Em seguida, Lindolfo caiu no chão como uma abóbora madura, já cadáver. O boné de pano esfiapado rolou sobre as tábuas largas do soalho.
- Adeus - disse a Morte à terceira mulher do finado -, avise o compadre que voltarei outro dia com mais folga, e então, acertaremos as contas.
E saiu noite afora, sorrateira e ambígua.

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O melhor do
MPB-4 em clima de bar

"Melhores Momentos", novo CD do veterano grupo vocal, foi gravado ao vivo e mostra o quarteto à vontade com seus grandes sucessos

Mauro Dias
Agência Estado

Coisa de livro de recordes, o MPB-4 é o conjunto vocal de mais tempo de vida com a mesma formação. Surgiu em 1963, num centro acadêmico, em Niterói, encontro de garotos que se manifestavam politicamente e gostavam de música, dois estudantes de engenharia (Miltinho e Magro Waghabi), um de advocacia (Ruy Farias) e um aspirante a sociólogo (Aquiles Reis).
No começo eles eram o Quarteto CPC (de Centro Popular de Cultura, tipo de grupo acadêmico que se multiplicava pelo País). A sigla tornou-se perigosa, depois de 1964. O grupo virou MPB-4, de Música Popular Brasileira. A sigla, há quem não goste dela, foi criada pelos meninos. Ou, pelo menos, cristalizada por eles.
Este ano, o MPB-4 realizou uma muito bem-sucedida temporada no Teatro Rival, no Rio. Foi tão boa que eles resolveram gravar o show, o que foi feito nos dias 20 e 21 de setembro. O resultado é o disco "Melhores Momentos" (lançamento CID, www.cid.com.br). "Melhores Momentos" não só porque tem os melhores momentos do show, mas aqueles momentos que o grupo considera constar da lista dos melhores de toda a carreira.
"O forte do MPB-4 é o palco", diz Ruy Faria. "Quando a energia do corpo, instigada pelos jovens músicos da sua banda, consegue se transferir para um CD gravado ao vivo, aí temos, realmente, nossos melhores momentos". Esses jovens músicos são filhos deles - o baixista João Faria, filho de Ruy, o baterista Marcos Feijão, filho de Miltinho, o guitarrista e bandolinista Pero Reis, filho de Aquiles. Os outros músicos da banda são Marquinhos Esguleba (percussão), Jorge Simas (violão de sete cordas) e Alceu Maia (cavaquinho). Além, claro, do violão de Miltinho e dos teclados de Magro, responsável pelos arranjos do grupo.
O espetáculo realiza-se como se o grupo estivesse num bar, o Bar do Bode - clima que o disco reproduz, até pelo inevitável coro da platéia nos números de maior sucesso. Na contracapa, Aquiles Reis escreveu: "Imagine um bar. Qualquer bar. O Bar do Bode, por exemplo. O bar do MPB-4.Onde fica? Ora, esse bar está em todo lugar. Ali na sua esquina mesmo tem um. É o tipo de bar que você carrega dentro da alma. Lugar para beber e cantar. Para falar mal do governo. Na falta de um espaço físico permanente, criamos um bar delivery. O bar que vai até você. Pode ser levado para a praia ou no carro. Sintam-se em casa. Ouçam. Cantem. O bar é nosso".

Humor fino

Vamos a ele, pois. O disco tem 16 faixas, algumas com mais de uma música, e alguns textos que apresentam os números. Textos engraçados - é outra marca do MPB-4, o humor de fino tempero. Abre com "O Cafona", de Marcos e Paulo Sérgio Vale. Atenção para as aberturas vocais escritas por Magro. Segue com "Yolanda", de Pablo Milanéz, na versão de Chico Buarque. O MPB-4 a canta em acordes de quatro notas. Uma arte que o arranjador oficial do grupo desenvolveu como ninguém mais que lida com vocais entre nós.
Sim, porque ao lado da graça, do humor, dando substância ao sucesso, aqueles quatro meninos têm extraordinário talento. A música que fazem é de imensa seriedade e criou um padrão para grupos vocais (o equivalente feminino é o Quarteto em Cy; a conta principal fecha nesse balanço) jamais superado.
A faixa seguinte dá dimensão de outra capacidade ímpar: a do uníssono irretocavelmente timbrado (e não há nada mais difícil para um grupo vocal do que cantar em uníssono): é um sambão, de João Bosco e Aldir Blanc, a obra-prima "De Frente pro Crime". Há mais, de João e Aldir: "Ronco da Cuíca" e "A Nível de" (uma das melhores letras de Aldir, vale dizer, da música brasleira). Claro, de César Costa Filho e o mesmo Aldir, "Amigo é pra Essas Coisas".
Miltinho, que tem dois discos-solos (lançados já em CD) mostra duas de suas composições, "Cicatrizes" e "Velha Guarda da Mangueira", ambas com Paulo César Pinheiro. A segunda é nova. A primeira foi um grande sucesso. Não faltaria "Roda Viva" (já que há muitos superlativos, mais um: é o melhor arranjo de Magro), que o grupo defendeu com Chico Buarque no histórico festival da TV Record, "O Que é, o Que é?", de Gonzaguinha, "Velho Ateu", de Eduardo Gudin e Roberto Riberti, "Samba do Avião", de Tom Jobim, "Fé Cega, Faca Amolada", de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, a polêmica musical entre Wilson Batista e Noel Rosa - enfim, o que se gosta de ouvir cantado pelo MPB-4. Saúde, pois.


Deus e o diabo nas trilhas
de "Dogma" e "Stigmata"

Jotabê Medeiros
Agência Estado

Duas trilhas. Uma aqui, outra ali do lado. Deus e o diabo na terra da banda sonora. Os dois filmes vivem de mitologias religiosas, afrontando ou legalizando mitos. A trilha de "Stigmata", filme de Rupert Wainwright, com Patricia Arquette e Gabriel Byrne, foi coordenada por ninguém menos que Billy Corgan, do grupo Smashing Pumpkins, e por Mike Garson. Já o polêmico "Dogma", de Kevin Smith, tem em Alanis Morissette seu maior trunfo.
A violência de "Stigmata" pede algum peso e um contraponto ritualístico. Por isso, o Chumbawamba abre rasgando com "Mary Mary", canção bacanérrima com alternância de luz e sombras em doses certas, porém inesperadas. Logo em seguida, com um teclado ardiloso, entra "Gramarye", com o Remy Zero. Paul McCartney no "inferno com diamantes na cabeça". É uma balada à moda dos Beatles, só que anfetamínica, rústica, tensa.
A bela e etérea Björk chega a seguir com "All Is Full of Love". O tom triunfalista é trocado por uma trilha que sai das frestas do caminho de pedra que leva do inferno ao purgatório. Beleza pura. David Bowie, reintegrado à espécie humana com seu novo disco, "Hours", comparece com a nervosa "The Pretty Things Are Going to Hell". Se as coisas belas estão indo para o inferno é porque estão dando uma festinha por lá. Bowie tem passaporte VIP.
A ex-convicta Sinéad O'Connor não poderia faltar nessa trilha do sagrado e do profano. Ela procura os motivos nas raízes e vem acompanhada do Afro Celt Sound System, cantando "Release". Para fechar o cerco, o Massive Attack joga azeite fervendo nos ouvidos com "Inertia Creeps". E Natalie Imbruglia, menininha pré-Linda Blair, comparece para ser oferecida em sacrifício. Uma trilha que vale a pena.

Fúria católica

"Dogma" é o filme que despertou a fúria de algumas ligas católicas ao redor do mundo. A explicação estaria na interpretação muito pessoal que o diretor deu à conhecida mitologia cristã. Mas poderia ser também um protesto pela escolha de Alanis Morissette para interpretar o tema musical principal, "Still". Ainda por cima lhe deram o papel de Deus, duplo "sacrilégio". A trilha de "Dogma" tem música original composta e regida por Howard Shore, com a participação de integrantes da London Philharmonic Orchestra, do grupo vocal The London Voices e de aspirantes do The Centre for Young Musicians. Só o tema principal é cantado por Alanis Morissette. O resto é sinfônico.
O filme mostra versões modernas para o mito da concepção de Maria e vê a corporificação de Deus como uma mulher. A trilha é um amontoado de subprodutos com os clichês mais conhecidos desse tipo de atualização. "Dogma" e "Behold the Metraton", as faixas que abrem, são exemplos disso, crescendos orquestrais tolos e fáceis. Mas o contraponto do coral do The London Voices e o arranjo tipo "noviça rebelde" da canção "Mooby the Golden Calf" é um sinal de bom-humor na trilha.
"The Golgothan" volta aos clichês. "The Last Scion", a mesma coisa: a referência de Cecil B. de Mille ainda é muito forte, apesar das intenções dessacralizantes da fita. De qualquer forma, temas como "Bartleby & Loki" e "Stygian Triplets" mostra que os católicos estão errados em julgar mal o filme. Pela trilha, pode-se notar que o diretor é um crente.


Uma simples
obra-prima

"Tudo Sobre Minha Mãe", exibido em Joinville, mostra Almodóvar no auge

GLEBER PIENIZ

Não é necessário ir até o final de "Tudo Sobre Minha Mãe" para se chegar à conclusão de que esta é a obra-prima de Pedro Almodóvar. Há quem diga - não sem assumir certa indecisão - que o título é de "Carne Trêmula" ou mesmo de "Matador" pela maior complexidade de suas cenas, seus ricos enquadramentos e suas tramas de indiscutível profundidade. Embora não cumpra em "Tudo Sobre Minha Mãe" sua lista de elementos característicos (o que não faz do filme seu trabalho mais representativo, esta sim tarefa para "Matador" ou "A Flor do Meu Segredo"), Almodóvar constrói uma obra passional, sensível, limpa e, ao mesmo tempo, chocante. É, sem exageros, seu trabalho maior, mas vem a público curiosamente despojado de todas as peculiaridades que tornaram célebre a estética do cineasta espanhol. Nesta película (em cartaz em Joinville), Almodóvar parece decidido a livrar-se dos deliciosos excessos e trabalhar apenas com a tríade essencial para fazer seu filme perfeito: uma boa história, ótimas atrizes e doses generosas de paixão.
Em "Tudo Sobre Minha Mãe", Almodóvar conta a saga de Manuela Echeverria (Cecilia Roth), mulher que logo nas primeiras cenas do filme perde o filho Esteban em um acidente. É a busca da mulher pelo pai que o garoto jamais conheceu e a busca pela própria afirmação que a tornam mãe novamente, figura responsável pela reabilitação do travesti Agrado (Antonia San Juan, inspiradíssima), pela saúde da assistente social soropositiva Rosa (Penélope Cruz) e pela integridade das atrizes Nina (Candela Peña) e Huma (Marisa Paredes, a diva de Almodóvar). É uma trama aparentemente simples, mas construída de detalhes sutis às vezes sem importância, outras vezes fundamentais para a compreensão da história. Como sempre, Almodóvar não se preocupa em realçar a diferença entre as informações imprescindíveis e as acessórias, tratando-as igualmente como fragmentos de realidade. Propõe à platéia, desta forma, o entendimento através de um exercício de imersão passional.
Ao contrário de seus filmes anteriores, o espanhol optou majoritariamente pelos enquadramentos fechados nos rostos das atrizes. Essa decisão valorizou os primeiros planos (o equivalente, para o diretor, ao monólogo do teatro), envolvendo o espectador na situação de cada personagem, trazendo-o para junto da cena, tão próximo quanto pede sua carga emocional. Nas raras vezes em que abre a lente, Almodóvar prova porque continua sendo um dos melhores: uma das imagens mais generosas é a visão aérea (e ao mesmo tempo intimista) da noite de Barcelona, cortando para uma das catedrais de Gaudí e arrematando a seqüência, takes depois, com um inquietante plano geral sobre "el campo", o ponto de prostituição estilo fast food onde Manuela encontra Agrado. No cinema, Almodóvar busca referências em "A Malvada" (com Bette Davis); no teatro, é "Um Bonde Chamado Desejo" (de Tenessee Williams) quem dá linha ao filme.
É também com um sugestivo jogo de imagens que Almodóvar explica o porquê de "Tudo Sobre Minha Mãe" ser um filme narrado sob a ótica do falecido Esteban: é o olhar do adolescente - um corpo estendido no chão - quem flagra a mãe se aproximando, gritando a morte repentina do filho. A partir do atropelamento, o que vemos é o olho de Esteban procurando o pai e conhecendo, como sugere o título, tudo sobre a mãe. Mais tarde, quando Manuela reencontra o antigo companheiro (também chamado Esteban, mas travestido na combalida Lola, "la Pionera"), um fade na foto do jovem sugere que a missão da mãe está cumprida e que a mulher pode, agora, seguir sua história de forma autônoma.


Cultura 1 - O prefeito de Itajaí, Jandir Bellini, sanciona hoje a Lei de Incentivos Fiscais para apoio à realização de projetos culturais em áreas como música, dança, cinema, literatura, teatro, museus, entre outras. "É uma forma de incentivar a realização de projetos culturais e garantir a preservação da cultura e das tradições de Itajai", justifica.

Cultura 2 - Os produtores culturais apresentam seus projetos à Fundação Municipal de Cultural, capacitando-se a receber recursos de contribuintes do ISS até o limite de 30% do imposto devido. Segundo o superintendente da fundação, Augusto Dalçóquio, esta lei é uma forma dos empresários que acreditam na arte saberem com o que estão colaborando.

Cultura 3 - Augusto Dalçóquio explica que cada projeto passará pela Comissão Itajaiense de Avaliação de Projetos Culturais (Capc), formada por pessoas reconhecidas no meio cultural, que irá fazer um exame das propostas para realização do projeto, como objetivos, resultados esperados, e recursos humanos e financeiros envolvidos.

 
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