Joinville         -          Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  

















Trupe insistente

O Galpão, com Cacá Carvalho (abaixo), diretor do espetáculo "Partido" (acima): prêmios e tragédias no caminho de um dos mais reconhecidos grupos de teatro do País
Fotos: Divulgação

Palco de
altos e baixos

Livro conta a trajetória do grupo mineiro Galpão, descrevendo seus 15 anos de luta para fazer teatro no Brasil fora do eixo Rio-São Paulo

Beth Népoli
Agência Estado

O grupo mineiro Galpão completa 15 anos de existência com muito o que comemorar. Além de ter criado um novo espetáculo no ano passado, "Partido", dirigido por Cacá Carvalho, o Galpão manteve outros três em repertório - "Romeu e Julieta", "A Rua da Amargura" e "Um Molire Imaginário" -, viajou pelas principais capitais brasileiras e ainda ganhou o primeiro prêmio internacional: melhor espetáculo e figurino no San Antonio Internacional Theater Festival, EUA, por "Romeu e Julieta", de Shakespeare, dirigido por Gabriel Villela.
Boa parte da história desse grupo nascido nas ruas de Belo Horizonte está agora registrada no livro "Grupo Galpão - 15 Anos de Risco e Rito", escrito pelo dramaturgo Cacá Brandão. Lançado em dezembro na cidade de Belo Horizonte em uma edição de luxo ilustrada com 80 fotos selecionadas por Gustavo Campos, fotógrafo da trupe desde 1986, o volume oferece muito mais do que um mero registro cronológico dos espetáculos da companhia fundada em 1982 pelos atores Eduardo Moreira, Wanda Fernandes, Teuda Bara e Antônio Edson.
Numa época de predomínio do imediatismo sobre a permanência, do marketing cultural sobre a criação consistente, nada melhor do que o relato das atribulações e conquistas, falhas e méritos de um grupo de atores determinados a fundar e manter uma companhia teatral permanente distante do eixo Rio-São Paulo. Uma bela história de percalços e vitórias. Numa narrativa clara, fluente e corajosa, Brandão descreve a trajetória da companhia dividindo-a em três etapas.
A primeira delas acompanha a formação da trupe a partir do encontro dos atores/fundadores numa oficina teatral para, em seguida, descrever o processo de criação dos primeiros espetáculos de rua. A segunda fase, que Brandão chama de "a adolescência" do grupo, tem como marco o primeiro espetáculo criado para o palco, "Arlequim, Servidor de Tantos Amores". Nessa etapa, a companhia adquire sua sede na Rua Pitangui, em 1989, com o dinheiro ganho numa excursão de dois meses e meio pela Europa.
A chamada "maturidade", a terceira fase, é marcada pelo mergulho do grupo numa dramaturgia mais densa. Inicia-se com os ensaios de "Álbum de Família", de Nélson Rodrigues, dirigido por Eid Ribeiro, que estreou em 1990. Em seguida veio "Romeu e Julieta", sob direção de Gabriel Villela, espetáculo responsável pela projeção nacional e internacional do Galpão.
Um dos méritos da narrativa reside no fato de não esconder as falhas da companhia. Livros como esse costumam enfocar o lado positivo dos êxitos e críticas elogiosas ou os percalços decorrentes da falta de apoio oficial ou da iniciativa privada, pelo lado negativo. Não é, definitivamente, o caso de "Grupo Galpão - 15 anos de Risco e Rito", cujo autor, com o consentimento de toda a companhia, claro, não hesita em transcrever críticas negativas e desentendimentos entre os integrantes da trupe.

Processo de criação

Brandão optou por ressaltar o processo de criação da trupe e apontar as dificuldades surgidas por causa de erros cometidos pelos integrantes do grupo, como no caso do fracasso da peça "Arlequim, o Servidor de Tantos Amores". Ainda assim, salta aos olhos do leitor, antes de tudo, a ferrenha determinação necessária para a formação e manutenção de uma companhia teatral permanente no Brasil.
Brandão narra todo o tumultuado processo de adaptação da peça "Arlequim, Servidor de Dois Senhores", de Carlo Goldoni, até a desastrada estréia e, o melhor, sem perder o humor. "A mãe do Chico (Pelúcio), por exemplo, comentou ao final do espetáculo ter ficado muito feliz porque seu filho não tinha o menor talento para o teatro", conta Brandão sobre a noite de estréia. "E, na verdade, foi por pouco que Chico não abandona tudo e retorna para ser fazendeiro em Baependi".
O relato dos percalços da trupe torna o volume valioso, entre outras coisas, por poder servir de estímulo a integrantes de outras companhias teatrais brasileiras que, certamente, lutam com dificuldades semelhantes. Mas o interesse desse volume não se restringe a profissionais de teatro, uma vez que o autor fala sobre questões de interesse mais amplo. Brandão aborda, sem rodeios, o delicado tema da tragédia que se abateu sobre o grupo com a morte da atriz Wanda Fernandes, num acidente de carro ocorrido no dia 21 de abril de 1994. O grupo acabara de iniciar a carreira premiada de "Romeu e Julieta", cujos papéis centrais eram vividos respectivamente por Wanda e seu marido Eduardo Moreira, ambos fundadores do grupo.
"Decidido a nunca mais apresentar 'Romeu e Julieta', Eduardo segue para a Espanha com seu filho João e fica lá por um mês", conta Brandão para em seguida destacar o papel fundamental exercido pelo diretor Gabriel Villela na reestruturação da companhia. O diretor mineiro foi o elemento aglutinador do grupo naquele momento de desagregação.
O livro descreve em detalhes o sofrimento vivido pelo grupo e enfatiza a extrema sabedoria e generosidade demonstradas pelo diretor nessa fase que ele chamou de "encantamento" de Wanda. Villela dirigiu o espetáculo seguinte, "A Rua da Amargura", tão premiado no ano seguinte como "Romeu e Julieta" tinha sido no ano anterior. Ao contar essa tragédia e suas conseqüências sobre os integrantes do Galpão, Brandão nada mais fez do que ser fiel à sua opção de narrativa.
"Eu tinha de contar uma história de 15 anos e, portanto, precisava escolher um ângulo para abordar a trajetória do grupo", diz. "Optei por falar sobre os momentos de crise e as saídas encontradas; escolhi como fio da meada detectar os pontos de virada na trajetória do grupo, as encruzilhadas, os momentos de decisão e transformação, as crises e as respectivas saídas".
Embora tenha passado a ser o dramaturgo oficial do Galpão a partir de 1992, ao realizar a dramaturgia de "Romeu e Julieta", o mineiro Brandão acompanha os trabalhos do grupo desde a sua formação. Apesar da intimidade com os atores, não foi fácil chegar à forma final do livro. "Colhi muitos depoimentos e fiz várias versões; comecei com uma descrição histórica, tipo memória, mas estava ficando frio e chato", lembra. "Só fiquei satisfeito quando perdi qualquer pretensão memorialista e o excessivo respeito aos relatos dos atores e parti para uma versão autoral".


Maestro austríaco ensaia
músicos de Treze Tílias

Adi Rinner fica 15 dias à frente da Banda dos Tiroleses

Treze Tílias - Durante os primeiros dias de janeiro, o maestro e compositor do Estado do Tirol (Áustria), Adi Rinner, permanece na cidade de Treze Tílias, realizando um treinamento intensivo com os músicos da Banda dos Tiroleses. Esta é a segunda vez que o maestro austríaco trabalha o aprimoramento das músicas e também difunde novas partituras com os instrumentistas do município catarinense.
Segundo o maestro da Banda dos Tiroleses, Bernardo Moser, "o intercâmbio cultural é de fundamental importância para os estudos de aprofundamento na interpretação das músicas tocadas pela banda, que são na sua grande maioria tradicionais e típicas da Áustria". O principal motivo que trouxe o maestro austríaco para o Brasil é que boa parcela das músicas tocadas pela Banda dos Tiroleses é de composições de Adi Rinner.
Nos 15 dias em que o maestro permanece em Treze Tílias, os ensaios acontecem diariamente, de forma individual e também coletiva. Moser destacou que o trabalho de aprofundamento das partituras individual de cada instrumento está melhorando a qualidade das apresentações do grupo todo. Atualmente, a banda é composta por 37 músicos e a inovação dos últimos anos é a presença de mulheres e também de jovens, garantindo assim a continuidade da Banda dos Tiroleses para as futuras gerações.
A banda existe desde 1933 e foi fundada ainda no navio que trouxe para a região o primeiro grupo de imigrantes para a formação de Treze Tílias. Ela sobreviveu por várias décadas, realizando inúmeras apresentações no Tirol Brasileiro e também em outras cidades. A Banda dos Tiroleses é um marco cultural das Treze Tílias, não só pela preservação de músicas típicas e tradicionais austríacas, mas também pelos trajes típicos e instrumentos trazidos há muito tempo da Áustria.


Sobre a Bienal do Mercosul

Katherine Funke

Acompanho o Anexo há muito tempo e foi uma surpresa saber que um evento acontecido em Porto Alegre envolvendo tantos países da América Latina teria cobertura de A Notícia. Refiro-me à matéria sobre a 2ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul. Parabéns. Penso ser muito importante trazer novas idéias no campo das artes para nossa cidade. No entanto, também estive na Bienal e tenho alguns comentários - humildes, já que não sou grande conhecedora de artes, e somente tangentes do que quero
dizer, visto que com as palavras ainda estou aprendendo a lutar e isso não ensinam na faculdade...
Refleti: o que sente um visitante de uma grande mostra como a 2ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul, encerrada no dia 9 de janeiro? Quais as dúvidas, os choques, os anseios que o leva a percorrer todas as obras ou deixá-las? Realizada em Porto Alegre, a 2ª Bienal mexeu com a cidade e, com certeza, com os que lá estiveram. Com menos recursos financeiros e estruturais que o esperado pelos organizadores, algumas obras tiveram que ser canceladas - como é o caso do "Super-X", da gaúcha Regina Silveira, arte em dois tempos: diurna em vinil e noturna em laser, já exibida em São Paulo e em Buenos Aires. No entanto, o volume de obras que sobreviveram não foi pouco, não. Eram
três espaços físicos - o Museu de Arte do Rio Grande do Sul, a Usina do Gasômetro e o Deprc - que apresentavam obras de mais de 100 artistas.
Isto significa, entre outras coisas, que 100 pessoas entraram em processo mental de criação pelo menos algumas horas de suas vidas e concretizaram suas idéias em tela, tecido, gesso, paredes, cerâmica, madeira, vídeo, sons, ciberarte e outras ferramentas. Talvez não tivessem a intenção de causar impacto. Mas causaram. E melhor: fizeram refletir não só a vida moderna - com toda sua engrenagem pós-terceira revolução industrial - mas também valores humanos que, se não são universais, ao menos estão permanentemente em discussão.
Estive na Bienal de 1999 em novembro, em dias da semana. Foi difícil acreditar em tantos visitantes. Não concordo com o comentário do repórter Gleber Pieniz quanto a pouca capacidade de interpretação de uma arte virtual ou cibernética. O ciberespaço é um instrumento de trabalho e deve ser utilizado. Ainda está sendo, é verdade, utilizado de forma experimental. Mas isto não coloca em dúvida a capacidade de ampliar a interpretação da obra.
Como exemplo, façamos um exercício com a "limitada" "Plants Growing", citada na matéria do Anexo (domigo, 9 de janeiro). O que o artista queria dizer quando permitia aos visitantes que tocassem em plantas para projetá-las crescendo na tela (e não na terra)? Por que um cactus foi escolhido para a tarefa de recomeçar a projeção com tela limpa? Talvez pelos seus espinhos (a difícil arte de reconhecer que a obra não ficou boa, é melhor iniciar outra), talvez pela persistência (o usar pouca água para sobreviver, retendo em sua matéria corporal o que há de bom de cada tela para iniciar finalmente a obra perfeita), ou ainda sua beleza, pouco reconhecida quando se dá mais valor a samambaias ou musgos. Essas são apenas algumas das interpretações sobre um ou dois pontos, entre inúmeras que poderiam ser criadas. Enfim: há mais coisas entre a ciberarte e a mente humana do que se pode imaginar.
É claro. As crianças - presentes aos bandos em todos os espaços que estive, plenas quarta e quinta-feira de um atarefado mês de novembro - devem ter gostado de "Plants Growing" sem refletir sobre essas simples suposições que faço. O fato é que uma obra de (ciber)arte só tem sentido limitado se seu leitor
assim o quiser, ou seja, se o visitante não souber guardar o que fica da efêmera experiência de participar de tempo e espaço imaginários.
Uma sala onde vários televisores apresentavam vídeos iguais (apenas em graus de aproximação diferentes da imagem, uma bola alaranjada semelhante a uma daquelas que fazem parte do terço católico girando e caindo, caindo, caindo sem nunca parar), com paredes de azulejo e um enlouquecedor cheiro de hospital, além de sons de reza incompreensíveis: o que é isto? Arte? Provocação? Arte-provocação? E o que era aquilo, uma rica e dourada mesa de jantar servida, com comida apodrecida (e com um aroma desagradabilíssimo) em lindas travessas, instalada numa balsa e colocada a boiar perto da margem do rio Guaíba no Deprc - talvez um símbolo da riqueza que se auto-isola do resto como uma ilha, cheira mal e é podre? E o fotógrafo, se não me engano venezuelano, tirando fotos de casais porto-alegrenses e distribuindo as que tirou em Buenos Aires? Tantas outras obras e tantas outras perguntas...
O que ficou da 2ª Bienal não foram apenas dúvidas, suposições, indagações. Como turista com não muitos conhecimentos sobre arte (em meu currículo de artes visuais, apenas algumas oficinas de pintura a óleo, cerâmica e fotografia de lata), senti-me deslocada, num primeiro momento. Depois, curiosa, provocada a aprender, a descobrir o "recado", aprendi a dar mais atenção aos detalhes e valores que regem a vida cotidiana - um muro pintado nas ruas da cidade onde moro, uma escultura num jardim qualquer, a divisão social de classes, a hibridação cultural, o recomeçar sem medo. Aprendi também a não ter como certa a concepção de arte como algo que serve apenas para ver, como também para participar. E, principalmente, ousar criar polêmicas, sejam elas sutis ou não.

  • Katherine Funke é estudante de jornalismo em Joinville


Marcelo D'Ávila
se apresenta em
Bal. Camboriú

Balneário Camboriú - Nos dias 14 e 29 deste mês, o guitarrista Marcelo D'Ávila se apresenta no palco central (praça Almirante Tamandaré) em Balneário Camboriú, a partir das 18 horas, dando continuidade ao projeto Tentações de Verão. Com o show "Do Blues ao Rock", D'Ávila vai mostrar milagres musicais a bordo de sua guitarra Fender Stratocaster. Concordando com suas inspirações e aparência física, o músico prioriza o blues nas notas de Eric Clapton.
Sua experiência mostra também o velho e o inesquecível rock'n'roll com sucessos dos anos 70 até os dias atuais. Músicas de grupos e ídolos internacionais consagrados como Dire Straits, Credence, Beatles, B.B. King, Rolling Stones, Pink Floyd, Santana, Eagles, Stevie Ray Vaughan e os nacionais Celso Blues Boy, Barão Vermelho, Tim Maia, além de trabalhos próprios, são transportados ao som da guitarra de D'Ávila, o primeiro catarinense a estrelar as páginas da revista "Guitar Player" (agosto de 1999).
D'Ávila é de Florianópolis. Começou sua carreira aos 14 anos, integrando bandas como Sol Nascente, Frisson, Zawaju's e Realce. Atualmente, apresenta-se em bares e casas noturnas do Estado. Foi elogiado pela crítica durante o show "Just One Night", realizado em junho de 1999, o que rendeu matéria na "Guitar Player". É compositor e professor de guitarra, e pretende lançar, em breve, o CD "Rock Forever". Maiores informações podem ser obtidas pelos fones (0xx48) 240-3414 e 222-4107.


Blumenau tem
curso de interpretação

Blumenau - Os atores catarinenses terão a oportunidade de aperfeiçoar suas técnicas de interpretação e postura em vídeo através do curso que o Núcleo de Teatro e Escola do Teatro Carlos Gomes (NuTE) oferece este mês. O curso prático de interpretação para vídeo e cinema será realizado de 18 a 29 de janeiro, em duas turmas à tarde e à noite. As inscrições custam R$ 70,00 e estão abertas na secretaria do NuTE, das 14 às 18 horas, ou pelo fone (0xx47) 326-7166.
O curso é dirigido a pessoas com ou sem experiência nas artes cênicas e desenvolve-se na prática de filmagem, exercitando o jogo cênico e as técnicas de interpretação para câmera. No programa estão aspectos de expressão corporal e vocal, meios de comunicação, atuação enquadrada e caracterização. Alexandre Venera, Carlos Crescêncio e Nassau de Souza são os ministrantes do curso, que terá duração de duas semanas, com três horas diárias.


Encontro de
músicas abre
inscrições

São Paulo - Estão abertas as inscrições para o 3º Encontro de Músicas e Danças Étnicas, promoção da Universidade Anhembi Morumbi que acontece entre 25 e 30 de janeiro dirigida a músicos, professores de dança e educação física, terapeutas e ao público em geral. Os inscritos participam de aulas e atividades em São Paulo do dia 28 ao dia 30, com programação que segue a fórmula dos world camps: durante o dia, atividades de resgate das culturas apresentadas; à noite, as festas proporcionam vivências interativas.
Participam o músico Omar Faruk (do Oriente Médio), os ciganos romenos Taraf Haidouks e os professores Nicolaas Hilferink (Romênia), Ahmet Luleci (Turquia) e Michael Ginsburg (dos Bálcãs). Do Brasil, Mestre Ambrósio e a bailarina de dança do ventre Fádua Chuffi.
Informações na AJM Marketing Cultural e Eventos (rua D. Avelina, 76, São Paulo/SP), fone (0xx11) 574-0002 ou e-mail ajm.cult@zaz.com.br.


Pagode - O Melão Jungle Club reabre hoje com uma grande maratona de pagode. A partir das 23 horas, as bandas locais Koisaboa e Alma Gêmea sobem ao palco para animar o verão dos joinvilenses. Mulheres não pagam até a meia-noite e homens pagam R$ 5,00 (com consumação). A intenção da direção da casa é realizar festas semelhantes às quartas e quintas-feiras, começando na próxima semana.


Ano cheio para o futebol

Emissoras disputam direitos por competições regionais, nacionais e internacionais


Leandro Calixto
TV Press

Para os amantes do futebol, 2000 vai ser um ano repleto de atrações na televisão. O que não vão faltar são torneios nacionais e internacionais. Desde os tradicionais campeonatos estaduais à Libertadores da América, passando pelo pré-olímpico e os Jogos Olímpicos de Sidney, na Austrália, em setembro. O calendário do futebol promete muitos motivos para o telespectador torcer, ao mesmo tempo em que as próprias emissoras vão travar uma disputa paralela pela preferência da audiência. "Dependendo do time que estiver jogando, como um Corinthians ou Flamengo, nossa audiência pode crescer até mais de 500%", quantifica Márcio Girello, diretor de programação da Traffic, empresa de marketing esportivo que controla o departamento de esportes da Band.
Nesse cenário tão atraente, a própria Band e Globo travam um duelo todo peculiar. A primeira transmitiu com exclusividade o Primeiro Campeonato Mundial Interclubes e também irá exibir a Copa Mercosul, enquanto a Globo ganhou a concorrência para cobrir o Torneio Rio/São Paulo, Copa do Brasil e Libertadores da América. O duelo entre as duas emissora já foi refletido durante o Mundial Interclubes. No jogo Corinthians e Real Madrid, a Band deu picos de 34 pontos no Ibope, contra 22 da Globo. A média foi alcançada justamente no momento em que a Globo exibia o "Jornal Nacional", um dos programas de maior audiência da tevê brasileira. "O mais gostoso nesta vitória foi o fato da Globo ter ignorado a competição em seu noticiário. Mostramos que é possível alcançar uma audiência expressiva sem a divulgação deles", ironizou Girello.
Assim como a Globo ignorou o Mundial Interclubes, no departamento de esportes da emissora de Roberto Marinho ninguém se atreve a comentar o calendário do futebol no ano 2000. O que se sabe é que a emissora também vai cobrir os campeonatos Brasileiro, Paulista, Carioca e o Pré-Olímpico de Futebol, além dos amistosos da seleção. Todas estas competições também serão transmitidas pela Band.
A guerra de audiência se repete na tevê por assinatura. O canal de esportes da Net, Sportv, tem os direitos de transmissão dos campeonatos Brasileiro, Paulista, Carioca, Pré-Olímpico de Futebol e amistosos da seleção. "Desde o ano passado fechamos a cota de publicitária para todos estes campeonatos que dão um retorno comercial e de audiência excepcionais", avisa a diretora de programação da Sportv, Flávia Carvalho. Enquanto isso, concorrente ESPN/Brasil, canal de esportes da TVA, vai transmitir os campeonatos Paulista e Carioca, a Copa do Brasil e a Copa da África.
Fora Globo, Band, Sportv e ESPN, as demais emissoras irão ter uma programação tímida no ano 2000. A Rede TV!, por enquanto, tem apenas o direito de transmissão da Copa Uefa, competição de futebol européia. "Só não cobrimos as demais competições futebolísticas porque já foram todas vendidas para a Band e Globo", alega o diretor de jornalismo da Rede TV!, Alberico Souza Cruz. A mesma justificativa é encontrada pela Record, que teve seu departamento de esportes extinto depois da Copa do Mundo da França, em 98. Com alegações semelhantes - variações sobre o tema "contenção de despesas" -, o SBT também deve ficar de fora da extensa agenda futebolística no ano 2000.
No ano 2000, o futebol, o esporte mais popular do país, vai ter um rival à altura: os Jogos Olímpicos de Sidney, na Austrália. A quase oito meses do início da competição, as emissoras estão já se organizando para a cobertura. Até agora, apenas Globo, Band, Sportv e ESPN confirmaram presença. E todas as cotas publicitárias já foram vendidas. A Band, por exemplo, vai levar mais de 100 profissionais para cobrir o evento. "Durante o mês de setembro, o mundo vai respirar os Jogos Olímpicos. Não podíamos ficar de fora dessa", teoriza o diretor de programação da Band, Márcio Girello.

Manchetes AN

Das últimas edições de Anexo
12/01 - A vida em ritmo de crônica
11/01 - Camille Paglia analisa "Os Pássaros", de Hitchcock
10/01 - Sob o coletivo visível, o indivíduo
09/01 - Cores, dores e ferramentas do devir
08/01 - Invenções que nascem do monte de lixo
07/01 - O messianismo que ensangüentou o Contestado
06/01 - Tradição açoria a revive os santos reis

Leia também

Sai disco póstumo
de Michael 6Hutchence

Primeiro e único álbum solo do cantor do INXS, morto em 97, é pop com experiências eletrônicas

Rubens Herbst

Joinville - Quando Michael Hutchence se suicidou, em novembro de 1997, a mídia se limitou a comentar os planos que sua banda, INXS, estava fazendo para comemorar os 20 anos de carreira. Nada (ou quase) foi falado sobre o álbum solo que Hutchence estava gravando, meio na surdina, desde 1995. Melhor assim, que o espanto é maior. Finalmente lançado pela Roadrunner, o disco - que leva apenas o nome do cantor - surpreende pela busca por novos caminhos dentro do pop e mostra o quão longe Michael poderia ter ido se não tivesse posto fim a própria vida.
"Michael Hutchence" traz a colaboração decisiva de Andy Gill, guitarrista da finada e cultuada Gang of Four, e Danny Saber (Black Grape), produtores e co-autores de parte das 13 faixas do álbum. Segundo Gill, as fitas com o material já gravado permaneceram intocadas por mais de um ano após a morte do cantor. Quando o trabalho foi retomado, muito do que ele havia gravado na época foi mantido, valorizando sua voz e idéias originais.
Seja como for, percebe-se claramente a mão dos produtores no produto final, o que permitiu ao CD não ser uma mera extensão do trabalho de Michael com o INXS. Os australianos, para quem lembra, faziam um pop classudo, com influências de rock, funk e rhythm'n'blues, mas preso a um formato quadradão que, apesar de ainda fazer sucesso, já dava sinais de desgaste. Hutchence decidiu, então, dar um passo à frente, incorporando novas estruturas ao som que vinha fazendo nos últimos tempos sem se desviar totalmente dele. "Ele via que bandas como o U2 estava constantemente se esforçando para se reinventar, e eu percebi que ele queria tomar este caminho", diz Gill.
A primeira mudança a saltar aos ouvidos é o uso mais intenso da eletrônica, mas sem tornar o disco uma experiência tecno. Há, sim, batidas, ruídos e efeitos de voz que aproximam as músicas de uma sonoridade mais contemporânea, como é o caso de "Get on the Inside", "She Flirts for England" e "Slide Away" (com a participação de Bono Vox, do U2). Há tentativas mais ousadas, como "Breathe" - camadas de guitarras distorcidas sobre beats sinuosos - e "All I'm Saying", viagem fantasmagórica ao centro de um coração angustiado. Já "Don't Save Me From Myself" enterra a voz de Hutchence sob a pista de dança, enquanto "Flesh and Blood" faz o inverso: realça os vocais de Michael - que, nunca é demais dizer, foi um dos melhores cantores do pop mundial nos anos 80 e 90 - e os derrama sobre teclados etéreos e cordas sutis.
Outras faixas são mais "comportadas" e próximas do que Hutchence fazia em sua banda, como a pesada "Let Me Show You", as funkeadas "Fear" e "A Straight Line" e a tocante "Possibilities". "Baby It's Alright" nem esconde o jogo: é puro INXS com verniz modernoso. Em suma, nada que se compare aos radicalismos vistos e ouvidos neste final de século, mas a intenção do cantor certamente não era de revolucionar nada ou mudar a vida de ninguém. No entanto, a coragem de arriscar e a esperteza de chamar as pessoas certas para assessorá-lo lhe permitiram realizar um disco pop de qualidade indiscutível. Pena que não esteja aqui para colher os frutos da empreitada.


Beck volta a balançar o mercado
com novo CD, "Midnite Vultyres"

REGIS MALLMANN

Florianópolis - Uma das características do californiano Beck Hansen é conseguir fazer discos que parecem movidos por uma banda completa sem que para isso entre no estúdio com uma banda completa. Explica-se: é ele próprio quem toca todos os instrumentos, cria sons e sampleia o material que resulta nos trabalhos que têm feito do músico um dos mais cultuados no circuito underground norte-americano. O resultado dessa versatilidade pode ser conferido no novo CD do rapaz, "Midnite Vultyres" (algo pouco traduzível), no qual Beck volta à carga com suas músicas que misturam elementos do folk com o moderno hip hop que bem se enquadram a qualquer comercial de guaraná dito moderninho.
Numa alquimia que rende alguns bons e embalados momentos, o novo trabalho de Beck sustenta-se em uma miscelânea sonora que navega por várias vertentes. Não chega a ser algo que se se assemelhe a "Odelay", seu disco mais primoroso, lançado há três anos, mas o espaço reservado para um tipo de improviso programado é bem definido. "Midnite Vultyres" apossa-se do que o dito "som moderno" tem de mais comercial, deixando de lado possíveis virtuosismos de baticuns eletro-acústicos para lançar-se em canções com letras irônicas, mas nunca burras.
O sucesso de Beck começou em 1993 quando lançou seu primeiro disco. Com 500 cópias, era um produto caseiro que desenvolveu com um amigo, o produtor de hip hop Karl Stepheson. Beck, que vinha de uma longa e solitária viagem por diversas cidades dos Estados Unidos - uma oportunidade para assimilar novas sonoridades e abrir a cabeça para o mundo -, inventou uma letra "legal" e a batizou de "Loser". Com refrão de fácil assimilação e frases em espanhol, o single virou um verdadeiro hit depois que chegou ao público apreciador da programação das diversas rádios alternativas dos EUA, para onde os dois mandaram cópias do material.
Daí em diante Beck não parou mais. Apostando no talento e na imagem desleixada e sem apelo comercial que cercava o músico, a gravadora Geffen resolveu investir e topou bancar um disco de verdade. "Mellow Gold" foi lançado em 1994. Foi a porta de entrada para o artista ganhar mais mercado. Com "Mellow Gold" ele levou sua música em shows pela Austrália e Europa. Tocou também no badalado Lollapaloza e depois gravou mais dois discos, "Stereopathetic Soulamanure" e "One Foot In The Grave".
Em 1996, Beck cometeu sua obra-prima, "Odelay", um mix de influências, como punk , new wave , disco, soul e jazz. Uma atração desse trabalho são samplers da canção bossa-novista "Desafinado", de Tom Jobim. O discos rendeu ainda os Grammys de melhor disco do ano e melhor artista. As revistas "Rolling Stone" e "Spin" também o premiaram com o melhor disco e melhor banda/cantor e "The New Pollution", como a melhor música daquele ano.
Para completar, em 1997 , a MTV deu-lhe o prêmio de melhor cantor masculino e festejou os videoclipes "The New Pollution" e "Where's It". Pela trajetória, dá para ver que Beck ainda vai muito longe. É bem provável que "Midnite Vultyres" também arremate algumas premiações, o que nunca é pouco para quem ainda é considerado underground.

Lançamentos

"Music for Our Mother Ocean 3" (vários) - O terceiro volume da série destinada a angariar fundos para a Surfrider Foundation (entidade de preservação dos oceanos) é, talvez, o melhor de todos. Apesar da causa séria, o que impera na maioria das 21 faixas do CD é a diversão, proporcionada por estilos e nomes tão díspares quanto Red Hot Chili Peppers, Beck, Chris Isaak, Beastie Boys, Pearl Jam e Smash Mouth, entre outros tubarões. Há os tradicionais peixes fora d'água (Snoop Dogg com Rage Against the Machine, Paul McCartney & The Wings, James Taylor), mas o disco não morre na praia. E a dobradinha Brian Setzer/Brian Wilson (mentor dos Beach Boys), que abre a coletânea, é de fazer golfinho pedir bis. (Roadrunner). (RH)

"Affirmation" (Savage Garden) - Vindos da Austrália, Darren Hayes (teclados) e Daniel Jones (voz) venderam 11 milhões de cópias de seu disco de estréia fazendo o básico: baladas melosas e dance music quadradona. Ao menos no território do pop açucarado, que o público consome feito sorvete, a dupla mostra competência e convicção, mesmo sem demonstrar um pingo de personalidade. Este segundo trabalho segue a mesma fórmula, mas com uma queda (literalmente) para a baba romântica. Ainda assim são bem melhores do que Backstreet Boys, que Hayes e Jones só não batem porque estão em desvantagem numérica. (Sony/Columbia). (RH)

"Let's Roll" (Youngstown) - A concorrência pelos suspiros das adolescentes anda cada vez mais acirrada. O Youngstown é mais um grupelho a disputar mercado com Backstreet Boys, N'Sync, Five e afins, e para isso usa as mesmas armas que seus adversários: coreografias bem ensaiadas, carinhas bonitas e faixas dançantes (supostamente de inspiração rhythm'n'blues) com enxertos de hip hop contrabalançando com baladas bregas. O resultado, claro, não poderia ser outro que não o xerox deslavado. E não é nem o caso de separar o joio do trigo, porque todos são ruins de doer e só estão interessados em faturar rápido antes de sumirem. Afinal, a máquina de fazer ídolos não pára. (Roadrunner). (RH)

"A Música do Olodum - 20 Anos" (Olodum) - Duas décadas depois de ser criado, o Olodum extrapolou o conceito de bloco carnavalesco para se tornar uma das mais respeitadas entidades assistencias do País. A música, no entanto, não foi esquecida. A prova é este disco comemorativo. São 16 faixas e algumas surpresas, entre elas novos arranjos para sucessos como "Requebra", "Nossa Gente (Avisa Lá)" e "Alegria Geral". A atenção, no entanto, recai sobre os convidados especiais (Tony Garrido, Caetano Veloso, Ivete Sangalo, Jimmy Cliff) e as seis canções inéditas, com destaque para a panfletária "Candelária". Crítica social, romantismo e folia continuam convivendo harmoniosamente no som do Olodum, mas o peso dos tambores já não é mais o mesmo - ao menos em disco. (Sony/Columbia). (RH)


Crônica

1999: Letras de luto

Salim Miguel

A indesejada das gentes foi implacável, em 1999. Oito importantes escritores nos deixaram. A maioria, amigos. Ei-los, em ordem alfabética: Antonio Houaiss, Ary Quintella, Dias Gomes, Herberto Salles, João Cabral de Melo Neto, José J. Veiga, Marcos Rey, Plínio Marcos. Todos marcaram uma posição em nossa literatura e mereceriam bem mais do que um simples registro.
Antonio Houaiss. Diplomata, filólogo, enciclopedista, ensaísta, tradutor, gourmet e gourmand, bastaria citar aqui as "Enciclopédias Delta - Larousse e Mirador" e a tradução do "Ulisses", de Joyce, para dar a exata dimensão de sua importância. Foi um defensor permanente da língua portuguesa e um dos artífices de um acordo ortográfico entre todos os países de expressão portuguesa. Demitido do Itamaraty durante a ditadura, não se deixou abater. Presidiu o primeiro sindicato de escritores do Rio de Janeiro e foi idealizador da Associação dos Tradutores. Ministros da Cultura no governo Itamar Franco, criou o programa Resgate do Cinema Brasileiro.
Ary Quintella, contista e romancista, com uma obra significativa, como "Um Certo Senhor tranqüilo", "Combati o Bom Combate", "Sandra, Sandrinha", "Alguma Coisa é a Mesma Coisa" e juvenis como "Mamma Mia", além de um livro sobre Anita Garibaldi. Contribuiu para a execução de vários projetos culturais, entre eles "O Livro até Você".
Dias Gomes, teatrólogo, bastaria citar a peça "O Pagador de Promessas" para se ter uma idéia do valor de sua dramaturgia. Transformada em filme, dirigido por Anselmo Duarte, deu ao Brasil a Palma de Ouro, do Festival de Cannes. Tornou-se mais conhecido como renovador da teledramaturgia brasileira, criador de tipos inesquecíveis como Odorico Paraguassu e Zeca Diabo. Pouco antes de perecer num infausto acidente de carro, tinha publicado um depoimento sobre sua luta política durante a ditadura.
Herberto Salles. Autor de vasta e diversificada obra, que vai do romance ao conto, do diário infanto-juvenil, bastaria, para lhe garantir um lugar em nossas letras, seu primeiro romance "Cascalho". Herberto dirigiu, por um bom período, o Instituto Nacional do Livro, ampliando a política tanto de reedição de títulos esgotados como de revelação de novos valores.
João Cabral de Melo Neto, um dos mais importantes poetas brasileiros de todos os tempos, autor de obras como "Pedra do Sono", "O Engenheiro", Psicologia da Composição", "O Cão sem Plumas", "Morte e Vida Severina. Mestre do rigor da palavra, dizia não entender de música. Diplomata, apaixonou-se pela Espanha, lá criou uma editora artesanal e servia de alento para os intelectuais espanhóis sob a ditadura franquista.
José J. Veiga estreou tarde, para os padrões brasileiros. Mas, já com seu primeiro livro, "Os Cavalinhos do Platiplanto", contos, disse ao que veio. Bastaria citar mais um de seus livros, "A Hora dos Ruminantes", forte alegoria sobre o poder discricionário, publicado numa época de violenta mordaça. Com Murilo Rubião, compõe a dupla de precursores da ficção fantástica na América Latina.
Marcos Rey começou como cultor de uma literatura urbana, centrada em São Paulo, de que são bom exemplo a novela picaresca "O Enterro da Cafetina" e "Café na Cama", dentro do mesmo enfoque. Ganhou maior popularidade ao se dedicar à literatura para o público juvenil. Trabalhou em televisão e várias obras suas foram adaptadas para o cinema e a televisão.
Plínio Marcos, teatrólogo de extrema força, dedicou-se ao drama dos marginalizados. Peças como "Navalha na Carne" e "Dois Perdidos numa Noite Suja" bastariam para lhe garantir um lugar no rol de nossos mais importantes teatrólogos. Plínio pertence a uma corrente literária que tem como expoentes um Lima Barreto e um João Antônio, onde vida e obra por vezes se fundem e complementam. Ele deixou uma vintena de peças, entre elas "Barrela", "Jornada de um Imbecil até o Entendimento", "Quando as Máquinas Param".

 
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