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ANotícia
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De Cabral a Collor,
a história de um País
"A Carta
de Descobrimento do Brasil" e "Brasil, 500 Anos em
Documentos" recuperam registros essenciais para entender
a trajetória da nação
Beatriz Coelho Silva
Agência Estado
Os
documentos relativos ao Descobrimento do Brasil estavam espalhados
em museus e arquivos europeus, a maioria em Portugal. Estavam.
Porque agora foram reunidos no livro "A Carta de Descobrimento
do Brasil", que a Xerox lançou no fim do ano passado
para distribuir em escolas e bibliotecas públicas. É
um projeto ambicioso porque, além de reproduzir mapas,
desenhos, cartas e relatórios da viagem de Pedro álvares
Cabral, traz ensaios de pesquisadores brasileiros e portugueses
informando o contexto em que o Descobrimento ocorreu e suas conseqüências.
O livro começou a ser pesquisado em abril pelo antropólogo
e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) Luiz
Donisete Grupioni, especialista em história do Brasil
colonial. O ponto de partida foi a carta de Pero Vaz de Caminha,
que foi reproduzida em fac-símile e teve adaptação
para o português moderno, assim como a carta de mestre
João Ferraz, físico real que acompanhou a frota
de Cabral e descreveu o céu brasileiro pela primeira vez.
"A carta de Pero Vaz é a verdadeira certidão
de nascimento do Brasil e, com a de Mestre João Ferraz,
foi a primeira idéia que os europeus tiveram do Brasil",
comenta Grupioni.
"Embora a de Ferraz não tenha ficado tão conhecida
quanto a de Pero Vaz, as duas complementam-se, porque o escrivão
oficial descreve os aspectos etnográficos do novo país,
enquanto Ferraz, que era um cientista, busca o lado físico
e geográfico". Grupioni garante que estas não
foram as únicas cartas sobre o Brasil. "Há
registros de que tripulantes, padres e outros integrantes da
comitiva escreveram, mas esses documentos se perderam na época,
durante o terremoto que atingiu Lisboa no século 18",
diz o pesquisador. "O que restou está na Torre do
Tombo, em Portugal, na Itália, França e nos Estados
Unidos e está reproduzido no livro".
Batalha da Internet
Guerra no espaço virtual: Mercado de acesso à Internet
entra em ebulição com disputa entre provedores
pagos e gratuitos.
AN_Economia |
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A pesquisa para a publicação
levou Grupioni a arquivos e museus desses países, onde
ele encontrou originais preciosos, como o "Planisfério",
de Alberto Cantino, datado de 1502 e considerado o primeiro mapa-múndi
onde o Brasil aparece. Do Museu Nacional Grão Vasco foi
reproduzido o primeiro quadro mostrando índios brasileiros,
"Adoração dos Reis Magos", um óleo
sobre madeira dos primeiros anos do século 16, atribuído
à oficina de Vasco Fernandes, o pintor oficial da corte
do infante dom Manuel. Também dessa época há
a reprodução do quadro "Inferno", de
autor desconhecido, em que o demônio é um índio
coxo, cercado de pássados brasileiros.
Colaborações
O livro entusiasmou tanto o diretor da Torre do Tombo, Bernardo
Vasconcellos, descendente direto de Pedro álvares Cabral,
que ele se tornou autor de um dos ensaios da obra, no qual comenta
a importância da carta de Pero Vaz de Caminha para o arquivo
que dirige e para a história portuguesa. Dois professores
de literatura, Lúcia Bettencourt e Paulo Roberto Pereira,
escreveram sobre o estilo das duas cartas, enquanto o historiador
Fernando Novaes falou das conseqüências da descoberta
no Renascimento europeu. Até as questões náuticas
da época são discutidas no livro, num artigo do
diretor do Patrimônio Histórico Cultural da Marinha
brasileira, o contra-almirante Max Justo Guedes.
"A Carta do Descobrimento do Brasil" tem 160 páginas,
mais de 200 reproduções e uma dimensão (26cm
x 37 cm) proporcional às medidas das cartas de Pero Vaz
de Caminha e de Mestre João Ferraz. "A primeira tem
cerca de 20 páginas e a segunda apenas duas; ambas serão
integralmente reproduzidas e versadas para o português
contemporâneo", adianta Grupioni. Apesar do custo
de US$ 120 mil e da distribuição gratuita, a Xerox
não usou as leis de incentivo fiscal para produzir "A
Carta de Descobrimento do Brasil". Segundo o gerente de
marketing, Júlio Damasceno, o livro servirá também
para apresentar ao Brasil a nova tecnologia de impressão
digital criada pela empresa.
Documentos contribuíram
para a formação da nacionalidade
Quantos documentos são necessários para contar
a história do Brasil? O pesquisador Ivan Alves Filho afirma
que são mais de 300 e reuniu todos no livro "Brasil,
500 Anos em Documentos", que a Editora Mauad está
lançando. A carta de Pero Vaz de Caminha é o ponto
de partida da obra. Dos 300 documentos, o livro traz 90 na íntegra
porque, na opinião do pesquisador, "contribuíram
para a formação da nacionalidade brasileira".
Do descobrimento até o impeachment do ex-presidente Fernando
Collor de Mello, ele buscou em bibliotecas e arquivos públicos
e particulares, brasileiros e europeus, os documentos que trouxeram
alguma mudança na história do Brasil. São
cartas, leis, decretos e até artigos de jornal que tiveram
alguma influência no que ocorreu no País desde a
chegada de Pedro álvares Cabral. "Não fiz
distinção entre documentos reacionários
ou não", alerta Ivan Alves Filho. "O Ato Institucional
número 5 (AI-5), por exemplo, é extremamente conservador,
mas marcou um período da nossa história".
Não foi fácil reunir todos os documentos. O pesquisador
começou o trabalho ainda nos anos 70, quando era exilado
e vivia na França. Ele teve dificuldade de encontrar alguns
dos quais se ouve falar muito mas não se sabia, até
então, onde estavam. "É o caso da Lei das
Terras, de 1850, que instituiu a propriedade privada da terra
no Brasil e exigiu que ela fosse paga, o que vetou esse direito
aos ex-escravos e aos pobres", cita Alves Filho. "O
original estava nos Arquivos do Parlamento, mas foi difícil
achá-los".
Seleção difícil
A seleção foi outro problema. Como o pesquisador
não queria prender-se só à história
oficial, ele reuniu material suficiente para pelo menos outro
livro e precisou ser rigoroso na escolha do que seria publicado.
"Há documentos que não tive dúvidas
em publicar no livro, mas outros foram substituídos e
entraram depois de muita reflexão", conta Alves Filho.
"Houve até um caso em que eu fiquei com o original,
pois participei do momento em que ele foi escrito ou lançado",
continua o pesquisador, referindo-se à sua participação,
em 1992, na fundação do PPS, quando decidiu guardar
a ata. Esse foi um dos poucos casos em que a afetividade influenciou
na seleção de Alves Filho.
No mais, seu livro reúne documentos importantes como a
Lei áurea, o Manifesto Pau-Brasil (que deu início
ao Movimento Modernista em 1922), a carta-testamento de Getúlio
Vargas e até a decisão judicial, anunciada nos
anos 80, que responsabilizou a União pela morte do jornalista
Vladimir Herzog, em 1975. "Além de citar os documentos,
fiz questão de indicar onde eles podem ser encontrados
para facilitar a vida de outros pesquisadores", ressalta
o autor.
Ao fim do trabalho, Alves Filho chegou a uma conclusão
surpreendente. Para ele, toda a história do Brasil é
resultado de negociações entre a elite, que detém
o poder e ocupa os cargos dentro do Estado, e as forças
que se contrapõem a ela, sejam elas populares ou não.
"O Estado não tinha força suficiente para
impor-se à sociedade civil, mas esta nunca foi forte o
suficiente para fazer valer sua vontade", teoriza o pesquisador.
"Ao contrário do que ocorreu na Europa, por exemplo,
as transformações aqui ocorreram sem violência",
explica ele.
"Isso torna o processo mais difícil e lento mas,
uma vez alcançado um objetivo, o retrocesso é mais
raro porque as mudanças foram sempre negociadas".
Alves Filho só não conseguiu encontrar algum patrocinador
para sua obra. "Brasil, 500 Anos em Documentos" foi
produzido com recursos do autor e da Editora Mauad. (BCS)

A Ilha da Magia entregue
à feitiçaria do palco
Espetáculo
teatral "Mágicos Navegadores", em cartaz em
Florianópolis durante o verão, conquista com sua
ode à mitologia litorânea e efeitos especiais de
grande beleza plástica
Jeferson Lima
Florianópolis - A cultura do litoral catarinense colonizado
por açorianos está sendo brindada com o espetáculo
"Mágicos Naveg@dores", em cartaz durante a temporada
de verão no Costão do Santinho, em Florianópolis.
O diretor do espetáculo é Osvaldo Gabrieli, do
XPTO, premiado grupo paulista que articula teatro, dança,
teatro de bonecos, artes plásticas, multimídia
e música ao vivo em suas montagens. "Mágicos"
tem esta afinação, legada por Gabrieli ao grupo
catarinense que montou o espetáculo. Embora de presença
definitiva sobre a montagem, com a assinatura da direção
artística, roteiro, cenografia, figurino, adereços
e desenhos, o diretor é praticamente o único "estrangeiro"
no trabalho, produzido pela Áprika Produção
em Arte de Florianópolis e com artistas catarinenses ou
radicados na Ilha.
O espetáculo é inspirado na obra de Ernesto Meyer
Filho e Franklin Cascaes, dois artistas ilhéus, embora
Meyer tenha nascido em Itajaí em 1919 - veio aos quatro
anos com os pais para Florianópolis - e Franklin em Itaguaçu,
em 1908, quando o balneário ainda pertencia a São
José. Os dois contemporâneos catarinas criaram uma
obra fantástica sobre o imaginário ilhéu.
Meyer era apaixonado por galos e pelo universo cósmico.
Se dizia marciano e chegou a desenhar figuras extraterrestres
que povoavam sua imaginação. Cascaes era igualmente
obcecado pelas crenças e lendas ilhoas. Desenhou o boitatá
e as bruxas que vivem na cabeça dos imigrantes açorianos
que moram no interior na Ilha.
Ambos já morreram. Meyer completaria 80 anos em dezembro
do ano passado. O espetáculo plástico tem a luz
da sua arte, por cuja obra, o diretor Osvaldo Gabrieli se apaixonou
assim que descobriu a pintura do catarinense. O espetáculo
faz uma referência explícita aos galos de Meyer
que ocupam a visualidade do palco. A herança de Franklin
na obra é mais presente na aparição dos
mitos ilhés - entre as bruxas e boitatás, principalmente.
A referência direta à obra dos artistas é
feita também pela própria presença dos dois
no palco. Ernesto e Meyer, representados respectivamente pelos
atores Marcelo Perna e André Franzoni, dialogam num manezês
corrido sobre o destino da Ilha. Meyer teme a transformação
do território ilhéu em terra de ninguém.
O espetáculo cronológico é marcado pela
presença dos dois, que são também navegadores
e deslizam sobre a história, desde a partida dos açorianos
do arquipélago dos Açores até à modernidade
dos dias de hoje na Ilha de Santa Catarina, com o turismo ditando
as coordenadas do progresso. Os dois manezinhos, Ernesto e Franklin,
abrem e fecham a apresentação, como se a história
da colonização estivesse acontecendo na imaginação
dos dois. Em meio ao diálogo de Ernesto e Meyer se desenvolve
a história. São 50 figurinos e recursos cênicos,
como bonecos infláveis gigantes num espetáculo
de 1 hora e 10 minutos de duração. Alguns destes
bonecos representam os monstros marinhos gigantes que habitavam
a cabeça dos navegadores portugueses.
Na ilha, os portugueses e espanhóis travam uma diálogo
pela posse da terra. A história segue sempre com um mar
inflável e revoltoso diante dos espectadores, por onde
desfilam sereias bruxólicas que seduzem e levam os pescadores
para o fundo do mar. Pelo palco há um estranhíssimo
bicho verde sobre pernas de pau, garças, benzedeiras,
bruxas, boitatás, bernúncias e toda fauna que convive
pacificamente no universo cultural ilhéu.
CATARINA
A Áprika Produções em Arte tem uma história
de produções de qualidade em Florianópolis.
Foi a Áprika quem produziu "Catarina, Uma Ópera
da Ilha". A partir da ópera começamos a pensar
seriamente em produções de qualidade", diz
ela. Depois vieram "América", uma saga sobre
a vinda dos imigrantes italianos, "Auto da Estrela Guia",
"A Arca Que Não É" e o CD demo da banda
Stonkas y Congas, entre outras produções. Segundo
avalia Marisa, durante os oito anos que ela vive em função
de produção - teatrais, principalmente - houve
uma evolução significativa, principalmente com
relação a escolha da linguagem plástica
que o produtores da Áprika procuravam.
"Mágicos Naveg@dores" deve viajar para outras
cidades catarinenses e talvez seguir por algumas capitais brasileiras.
Embora o espetáculo tenha muitos elementos cênicos,
eles são flexíveis e desmontáveis. Boa porte
do cenário é composto por material inflável.
Para Marisa, o apoio de Fernando Marcondes de Mattos, do Costão
do Santinho, foi essencial para que o espetáculo fosse
montado. Marcondes foi patrocinador também da ópera
Catarina, que novamente acreditou no pontencial e deu apoio decisivo
para a concretização do projeto. O público
está abaixo do esperado e o auditório com 300 lugares
não tem sido ocupado por público maior de que 80
pessoas. Embora pequeno, o número de espectadores é
significativo em função de pelo menos quatro aspectos:
temporada longa, três apresentações por semana,
a distância de 40 quilômetros do Costão ao
centro da cidade e a falta de tradição do local
em sediar apresentações teatrais.
O QUÊ: Espetáculo "Mágicos
Navegadores". QUANDO: Quintas, sextas e sábados,
sempre às 22 horas, durante a temporada de verão.
ONDE: Sala Açores do Centro Internacional de Eventos
do Costão do Santinho. Rodovia Vereador Onildo Lemos,
2.505, Praia do Santinho, fone 261-1000. QUANTO: Ingressos
a R$ 25,00 podem ser adquiridos nas lojas Beth Bordados e Casa
Gianne do shopping Beiramar, rua Bocaiúva, 2.468 (fone
223-6425), Empório Bocaiúva, rua Bocaiúva,
s/nº (fone 224-1670) e Hotel Praiatur, av. Dom João
Becker, 222 (fone 269-1292). Estudantes com carteira da UNE e
UBES pagam meia-entrada e crianças até 12 anos
não pagam ingresso.
FICHA TÉCNICA
Direção artística e roteiro
Osvaldo Gabrieli
Assistente de direção
Marisa Naspolini
Composições e direção musical
Marcelo Muniz
Cenografia, figurino, adereços e desenhos
Osvaldo Gabrieli
Iluminação
Sylvio Mantovani
Preparação Corporal
Marisa Naspolini
Cenografias (dança brasílica)
Ângelo Madureira
Coreografia açoriana
Juliana de Medeiros
Direção de Produção
Renato Cristofoletti
Produção executiva/direção
de palco
Rafael Pereira Oliveira
Assistente de produção
Clarissa Pereira
Produção
Áprika Produção em Arte
Operação de Luz
Sulanger Bavaresco
Técnico de luz
Irani Apolinário
Contra-regras
Adauto Althoff
Daniel Augusto Barcelos
Juliano Diniz
Luiz Carlos Büchele dos Santos
Costureira
Bernadete da Silva
Costureiras assistentes
Simone da Silva
Donzila Silva de Castro
Assistente de ateliê
Antônio Segtowich
Pinturas de objetos cênicos
Fê Luz/Rô Moreira
Confeção de adereços
Daniel Augusto Barcelos
Marcelo Mendes
Leatrice Meira
Luiz Carlos Büchele dos Santos
Serralheria
João Luís Rabelo
Programação visual
ExaWorld
Slides e logomarca
Maurício Muniz
Fotos
Marcos Qüint
Assessoria de Imprensa
Cecília Nascimento
ATORES
André Franzoni
Franklin, homem açoriano, navegador, monstro marinho,
garça, soldado espanhol, pescador, bernúncia, surfista
virtual.
Elianne Carpes
Feiticeira, mulher açoriana, sereia, caboclinho, soldado
espanhol, benzedeira, boitatá.
Gilbas Piva
Navegador, capitão português, homem açoriano,
bicho verde em pernas-de-pau, pescador, surfista virtual.
Jaqueline Valdívia
Feiticeira, mulher açoriana, navegador, caboclinho, soldado
espanhol, sereia, boitatá.
Juli Nesi
Mulher açoriana, sereia, caboclinho, soldado português,
benzedeira, boitatá.
Marcelo Perna
Ernesto, homem açoriano, navegador, pássaro-peixe,
capitão espanhol, pescador, boi, surfista virtual.
Maria Paula Bonilha
Feiticeira, mulher açoriana, monstro marinho, sereia,
caboclinho, garça, soldado português, boi.
Natanael Machado
Homem açoriano, navegador, tamanduá azul, soldado
português, pescador, bernúncia, surfista virtual.
MÚSICOS
Carlos Augusto Vieira
Violonista
Loran Régis
Tecladista
Espetáculo recupera obra
de Franklin Cascaes e Meyer Filho
João Otávio Neves Filho
Especial para o Anexo
Ao lançar "Mito e Magia na Arte Catarinense"
nos anos 70, a crítica paranaense Adalice Araújo
não sabia que estava rebatizando a Ilha de Santa Catarina,
que a partir daí passou a ser chamada de "Ilha da
Magia." Já esgotada e inexplicavelmente não
reeditada, essa obra é o alicerce básico para a
iniciação no aspecto mito-mágico de uma
cultura peculiar como a nossa, que só não se impõe
ao resto do País pela falta de uma visão de maior
alcance por parte de setores que ao invés de promovê-la
só lhe criam dificuldades e obstáculos.
Em bom momento o grupo empresarial do Costão do Santinho
Resort (uma honrosa exceção no quadro geral de
apatia do nosso empresariado), patrocinou a montagem do espetáculo
"Mágicos Navegadores", permitindo que a tradição
mágica catarinense, considerada por Adalice como uma das
mais representativas tradições brasileiras, chegue
aos palcos atingindo o grande público com um padrão
coerente com a sua importância.
Pautada pelo profissionalismo e sensibilidade, a montagem resultou
num espetáculo de grande beleza plástica, que,
embora com algumas ressalvas, constitui com a Ópera Catarina
e a peça de Franklin Cascaes dirigida pôr Olga Romero
a grande tríade dos espetáculos mais bem-sucedidos
inspirados na mitologia litorânea.
A direção de Osvaldo Gabrieli fundiu a experiência
do premiadíssimo XPTO aos esforços da equipe de
técnicos e atores locais. E a multidisciplinaridade do
XPTO, caracterizado pela utilização dos meios e
recursos mais diversos, dá a tônica a essa obra
que mistura dança, música, máscaras, bonecos,
teatro de sombras, projeções e todo um rico repertório
de efeitos especiais perfeitamente adaptado ao mundo satânico-bruxólico
de Cascaes e ao folclore cibernético do artista plástico
Meyer Filho.
Esses dois grandes mitólogos catarinenses definiram com
sua produção plástica a linha estética
geral dos "Mágicos Navegadores", que soube transpor
para o palco climas e personagens de forma feliz e inspirada.
Não ao estrelato
A Guerreira de "O+" experimenta o sucesso fulminante
que a sensualidade proporciona. Mas a bela cabocla garante que
não quer ser estrela.
AN_Tevê |
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Uma ressalva para o boi-de-mamão colocado
de pé sobre duas patas. Postura e figurinos, neste caso,
não funcionaram. O boi perdeu o seu caráter mítico-totêmico
diluindo-se numa versão perigosamente disneyana. Os surfistas
virtuais tiveram suas performances prejudicadas por projeções
que não funcionaram a contento. A figura do astronauta
e o clima todo da seqüência final não alcança
os patamares do surrealismo cósmico de Meyer, provocando
frustração por um clímax final que não
acontece. Outro problema foi a falta de conexão entre
uma cena e outra. Essas pequenas pausas comprometem o ritmo e
a fluência, assim como a voz em off que soa deslocada.
Demônios e sereias
Os méritos do espetáculo não são
poucos. Tudo começa com dois "manés"
atravessando a escuridão da platéia, segurando
lampiões e arremedando o jeito gaiato do ilhéu
chegam à boca de cena invocando assombrações.
O palco se ilumina, o mar pulsa e elas surgem gloriosas, encantatórias,
assustadoras e indescritíveis.
Luzes, fumaças, panos esvoaçantes, belas mulheres
com os seios desnudos atravessam a cena segurando um grande globo.
O clima é o satânico-goyesco que impregna a obra
bruxólica de Cascaes. Trovões, relâmpagos,
naus fantasmas, músicas e sons siderais, os personagens
vão surgindo, bruxas eróticas em meio ao mar revolto
que se ergue em ondas poderosas de onde emergem vulcões
lançando fumaça e dando forma as ilhas dos Açores
(vestígios da perdida Atlântida). Como se sonhássemos
de olhos abertos, fundem-se os mitos açorianos com as
tradições sobrenaturais.
A nostalgia da partida (sentimento caracteristicamente açoriano)
aparece na despedida dos casais ilhéus preparando-se para
partir rumo ao desconhecido, o clima pungente é amenizado
com o lirismo de uma dança que pede bailarinos mais ágeis.
A travessia dos mares que acontece a seguir inicia com os movimentos
das naus representadas por sugestivos módulos metálicos
que mantêm o tom grandioso e surreal da representação.
Nesse momento os efeitos especiais atingem o auge envolvendo
a platéia com espetaculares estímulos visuais e
auditivos. Projetadas sobre a fumaça, luzes esverdeadas
criam sobre o fundo negro efeitos dos céus tormentosos
de El Greco. Sereias bruxólicas, monstros marinhos e seres
fantásticos erguem-se do mar revolto, parecendo brotar
das narrativas fantásticas de Camões ou Homero.
É impossível não rendermo-nos à beleza
plástica destes momentos que, como na arte barroca, parecem
querer levar o espectador ao êxtase total. A chegada a
Ilha de Santa Catarina, outro belo momento do espetáculo,
substitui o clima satânico-goyesco do bruxólico
Cascaes pela magia e delicado lirismo do surrealismo erótico-antropofágico
de Meyer Filho. É como se saltássemos das trevas
satânicas de Goya para luminosidade matinal de Tarsíla
do Amaral ou Alfredo Volpi. Surgem as formas e cores exóticas
da fauna e flora tropical.
A curiosa mitologia de Meyer Filho desafia o imaginário
cósmico propondo-nos uma Passargada cósmica. Pássaros
que parecem provenientes de afrescos egípcios executam
com índios e outros personagens visionários de
Meyer curiosas coreografias modernistas, celebrando o triunfo
de Eros sobre Tanatos.
Mar da vida
A presença do mar é uma constante em todo desenrolar
da peça, que optou pelo teatro de imagens em detrimento
de uma preocupação maior com a dramaturgia. Esse
mar que pulsa com seus eternos movimentos de fluxo e refluxo,
esse mar que amedronta com sua amplitude, perigos e mutações
constantes. Esse mar que ao mesmo tempo impulsiona com seu horizonte
infinito para a liberdade, a aventura, a viagem e o sonho é
o personagem principal de "Mágicos Navegadores".
Componente fundamental da paisagem cotidiana do ilhéu,
o mar atua como um dos principais fatores determinantes no prisma
existencial do homem litorâneo.
Além da beleza plástica, do nível profissional
da montagem, da excepcional trilha sonora de Marcelo Muniz, "Mágicos
Navegadores" extrapola a dimensão de um belo musical
para a temporada. Mais que isso, é uma excelente oportunidade
para refletirmos sobre aquelas características que fazem
do homem litorâneo um ser peculiar com uma sensibilidade
própria, com uma maneira sui generis de perceber e pensar
a realidade. É isso que temos para dar de novo à
humanidade, é isso que não podemos, de maneira
nenhuma, aniquilar ou perder.
João Otávio Neves Filho, o Janga, é
membro da Associação Brasileira de Críticos
de Arte, da Associação Internacional de Críticos
de Arte e membro do Conselho Estadual de Cultura.
Para atriz, sentido
de grupo fortalece a peça
Maria Paula Bonilha
Especial para o Anexo
Atores em busca de desafios e de experimentação
em novas linguagens, mas antes de tudo, disponíveis. Encarando
a platéia de candidatos com firmeza, Osvaldo Gabrieli
pontuou o que esperava para o elenco de "Mágicos
Navegadores". Era a primeira vez que dirigia atores não
ligados ao XPTO em 15 anos de atividade como diretor do premiado
grupo paulista.
Para nós, artistas, aquela era uma irresistível
oportunidade: intercâmbio de informações
e técnicas de trabalho com o diretor de um grupo que acumulou
38 dos mais importantes prêmios do teatro brasileiro e
participou dos mais expressivos festivais europeus e latino-americanos.
Sem falar na possibilidade de integrar um espetáculo patrocinado
pelo empresariado local durante a temporada de verão,
uma iniciativa que foge ao padrão das produções
teatrais de Florianópolis.
Fixado o prazo de três meses para a montagem, a ruptura
dos próprios limites e a abertura a novas experiências
foram de fato predisposições essenciais para que
pudéssemos, em tempo recorde, nos sensibilizar e nos aproximar
da estética e linguagem do XPTO. Desde a sua formação,
a pesquisa do grupo aponta para um trabalho diferenciado que
articula diversas artes (teatro, dança, teatro de bonecos,
música ao vivo, artes plásticas e multimídia)
num espetáculo único.
Na estréia de "Mágicos Navegadores",
ao constatar a presença de todos os integrantes do XPTO
na platéia, num insight, obtive a confirmação
de ter encontrado como atriz aquilo que considero mais sagrado
no teatro. O sentido e o valor do grupo de trabalho. Atores,
músicos e bailarinos da companhia ali presentes, disponíveis,
sentiam-se responsáveis pelas sementes lançadas
aos atores de "Mágicos...", agora formavando
uma eclética equipe que, com algumas exceções,
não havia trabalhado em conjunto. De alguma forma, teríamos
de "falar a mesma língua", ou melhor, vibrar
num mesmo corpo.
Um corpo que foi lapidado em sua macroestrutura, na qual atraentes
contornos estéticos camuflam uma silenciosa e orgânica
engrenagem que pulsa em uníssono. Sem protagonistas, uma
profusão de personagens ganham vida num corpo de espetáculo
que só acontece na medida da vibração e
eficiência de seus órgãos. Trocadilhos à
parte, a relação é mesmo visceral e contagia
a toda a equipe. Dos contra-regras aos músicos, dos atores
ao espectador mais sensível que pode perceber as sutilezas
da obra de arte. Um corpo lapidado em sua microestrutura, em
que cada ator mergulhou num processo de autoconhecimento no que
diz respeito a um dos pilares básicos da pesquisa do XPTO:
a sondagem minuciosa do movimento corporal.
Reflexão
Se não garante o registro de uma companhia teatral
na história do teatro, a disponibilidade de seus integrantes
é vital para sua formação, a sua condição
de existência. Não cabe aqui distingüir formalmente
grupo de trabalho de companhia ou grupo teatral ou cooperativa
de teatro. Falo do que move pessoas a se reunir e a concretizar
um projeto. E o estar disponível permeia ações
e reflexões em todos os níveis, das mais prosaicas
como pontualidade ou assiduidade às mais idiossincráticas,
como a capacidade de jogar e assumir riscos, de investir na parceria,
na cumplicidade, no aprendizado com o outro.
A equipe que se formou exclusivamente para "Mágicos
Navegadores", esta viagem poética sobre a história
da Ilha de Santa Catarina e dos navegantes que por aqui aportaram,
tem aprendido com o processo, em uma palavra, a essência
do fazer teatral.
Invasão coreana
A minivan Atos Prime, com motor 1.0 litro e três opções
de câmbio, é um dos novos veículos que a
Hyundai traz para o mercado brasileiro.
AN_Veículos |
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Entre um ensaio e outro, uma colega atriz
falou-me sobre a significativa diferença entre a linha
de pesquisa que desenvolve em seu grupo e a de "Mágicos..."
e do quanto este diálogo a fazia pensar sobre si, seu
grupo, enfim, a arejar as idéias. Da mesma forma, antes
de partir para São Paulo para retomar suas atividades,
Osvaldo Gabrieli disse estar satisfeito com as modificações
provocadas em cada um dos atores em tão pouco tempo. Todos,
sem exceção, sairão enriquecidos com o trabalho,
sentenciou. Como navegadora desta mágica experiência,
arremato: qual é mesmo o sentido do teatro?
Maria Paula Bonilha é jornalista e atriz em
"Mágicos Navegadores".
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| Manchetes AN |
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| Leia também |

Festival na França reúne grandes nomes dos quadrinhos
mundiais
Crumb, Moebius
e Uderzo são os artistas homenageados na mostra que encerra
hoje, na França
Jotabê Medeiros
Agência Estado
Angoulême - Robert Crumb veio com seu carro, dirigindo
desde a região de Aveyron, onde vive um exílio
voluntário há mais de dez anos. Na entrega dos
prêmios do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême,
o gênio dos quadrinhos underground tocará jazz com
um grupo de amigos, na banda doméstica intitulada Les
Primitifs du Futur (Os Primitivos do Futuro). O norte-americano
Crumb (criador dos personagens Mr. Natural e do gato Fritz) e
os franceses Jean "Moebius" Giraud e Albert Uderzo
(um dos criadores do Asterix) são as estrelas principais
desse que é o mais importante festival de HQs do planeta,
realizado desde 1972 e que encerra hoje sua 27ª edição.
Naquele ano, foi feita uma pequena exposição chamada
"10 Milhões de Imagens", que durou 15 dias.
A prefeitura da cidade gostou e instaurou o salão anual.
A primeira edição de fato do festival foi realizada
em 1974.
O festival mudou a vida em Angoulême, cidadezinha que passou
a ter sua imagem associada aos quadrinhos. Em 1976, a cidade
criou um museu e passou a adquirir pranchas originais dos convidados
do salão para o acervo. Apoiado pelo Ministério
da Cultura e da Comunicação, o festival estabeleceu-se
no calendário francês e chegou a sua forma definitiva,
privilegiando a formação de novos artistas com
oficinas e ateliês especiais. Em 1985, o presidente François
Mitterrand cria na cidade o Centre National de La Bande Dessinée
et de L'Image. Em 1990, o festival caminha em direção
à profissionalização e cria um mercado de
negociação de direitos autorais. Em 93, quando
fez 20 anos, o festival teve como mestres-de-cerimônias
Frank Margerin (o autor de Lucien), Morris (desenhista do caubói
Lucky Luke). Will Eisner é um dos convidados. Em 1996,
presidido pelo desenhista Phillippe Vuillemin (que compareceu
à Bienal de Quadrinhos de Belo Horizonte), o festival
instala uma grande exposição de quadrinhos que
percorre os EUA. No ano passado, com uma homenagem a François
Boucq, a organização anunciava o maior de todos
os festivais, o do ano 2000, que começou na quarta-feira.
Angoulême representa a ambição artística
dos quadrinhos europeus e a criatividade fora dos rígidos
códigos da indústria. O festival é extremamente
rigoroso também na escolha dos novos artistas que vai
mostrar ao público - geralmente, não seleciona
mais de dez para a mostra de jovens talentos. "Obrigado
aos quadrinhos que fazem de todos nós heróis",
agradeceu François Boucq à homenagem que o festival
lhe prestou no ano passado. "Porque os quadrinhos são
uma escritura original incomparável, ilimitada, inclassificável,
insolente, que nada fica a dever a nenhum outro meio de expressão",
afirmou o desenhista.
Crumb ganha
exposição especial
Ele é considerado pelo crítico Robert Hughes
o "Brueghel da última metade do século 20".
Não é um exagero, já que o estilo "exorcístico"
de Robert Crumb fez com que ele nos legasse uma versão
moderna da "Torre de Babel" de Pieter Brueghel. Por
meio de um recurso de comunicação de massas, Crumb
rejeitou a tentação de ordenar um mundo ético
e afundou-se em busca de sua estranha e íntima verdade
particular. Não fez isso do nada: observador atento do
american way of life, descobriu, horrorizado, que era fruto de
um sociedade doente, com todas as implicações que
isso carregava.
Para retratá-la, retratou a si mesmo com rara crueldade,
sem se poupar nem fazer o mesmo com seus parentes. Em 1995, esse
estilo chegou ao ápice: ele desenhou duas páginas
para a "New Yorker" na qual retratava a própria
reação e de sua mulher, Aline, ao filme "Crumb",
de Terry Zwigoff, documentário que escancarou suas perversões
particulares.
A influência de Crumb no mundo inteiro é gigantesca.
No Brasil, tem pelo menos dois discípulos incondicionais:
Angeli e Glauco. O francês Jean le Guay, o Jano, ídolo
em seu país, curva-se a Crumb. "A primeira vez que
vi um cartum dele eu tinha 16 anos e levei um choque: nunca tinha
visto tanto sexo e drogas num gibi; não havia isso em
Asterix e nos quadrinhos franceses", confessa.
Crumb, geralmente pouco afeito à badalação,
é o presidente de honra desta edição do
Festival de Angoulême. Consta que ele tomou a decisão
de mudar um pouco sua imagem pública - que julgou abalada
após o filme de Zwigoff - recentemente. A exposição
que o festival lhe destina mostra as múltiplas facetas
de sua personalidade complexa: suas influências (James
Gillray, Harvey Kurtzman, Walt Kelly), o caráter de crítica
social de seus desenhos, suas obsessões, seu amor pela
literatura, o lado místico e o de músico nostálgico.
Outra grande mostra dentro da exposição destaca
os desenhos que Crumb realizou na França recentemente,
durante seu "exílio" em Aveyron. Ele desenhou
(algumas vezes em guardanapo de papel de restaurantes) as ruas
das pequenas cidades e tocadores de acordeão, entre outros
flagrantes. Crumb provou, no redemoinho cultural dos anos 60,
que qualquer um - dotado apenas de boas idéias - poderia
fazer cartum. Mas foi além: seu traço aparentemente
"sujo" esconde um senso preciso de movimento e uma
anarquia criativa de proporções e representações.
(JM)
As muitas faces
de Moebius
O cartunista francês Jean Giraud, o Moebius, é
outra grande estrela do festival de Angoulême. Ele é
o convidado da mostra "Trait de Génie", que
tem mil metros quadrados e reproduz, com cenografia e 350 documentos,
toda a trajetória do cartunista, desde seu aparecimento
com o faroeste Tenente Blueberry até 46 pranchas do personagem
Gerônimo, mais recente.
Criador de um universo fantástico de imagens, associado
freqüentemente ao esoterismo e ao misticismo, Moebius é
um ídolo de várias gerações na França.
A sua exposição tem participação
dos cenógrafos Marc-Antoine Mathieu e de Philippe Leduc,
com técnicas de animação de Thierry Groenstein.
Estão sendo exibidos também seus trabalhos de outras
naturezas, como as campanhas publicitárias, ilustrações
para revistas, croquis e os panoramas criados para o complexo
de diversões Metreon, inaugurado recentemente pela Sony
em São Francisco, Estados Unidos.
A influência de Moebius se estende por mais de 20 anos
no universo dos quadrinhos. Ele criou um imaginário visual
de grande exuberância, em álbuns como "A Garagem
Hermética", "O Major Fatal" e "Os
Olhos do Gato" (este em parceria com o cineasta chileno
Alejandro Jodorowsky). Moebius nasceu em Paris há 60 anos.
Já desenhou de tudo, embora sempre com um toque absolutamente
pessoal - já fez até uma versão clássica
de "O Surfista Prateado", da Marvel Comics, e fez ilustrações
para a edição francesa de "O Alquimista",
de Paulo Coelho. Mas seu negócio não é a
indústria: Moebius diz sempre que acha que os quadrinhos
estão longe de ter mostrado todo o seu potencial. Não
se deixou seduzir ainda pelos computadores, mas percebe que esse
caminho pode levar a uma combinação explosiva e
a uma nova era dos comics. (JM)
Solidariedade ao
criador do Snoopy
O cinqüentenário do Snoopy teria uma exposição
especial em Angoulême este ano, mas a organização
do festival informou que não vai fazer festa em torno
do tema como uma manifestação simbólica
de pesar pelo que vem ocorrendo com o criador do personagem,
o americano Charles Monroe Schulz. Ele descobriu um câncer
em novembro e resolveu aposentar os personagens que o tornaram
o mais rico criador de comics do mundo. Com 77 anos, Schulz desenhava
pessoalmente as tiras e descobriu que tinha câncer após
uma cirurgia para desbloquear uma aorta.
"Peanuts" (ou "Minduim", na versão
brasileira) é uma turma conhecida no mundo todo, encabeçada
por Charlie Brown, Snoopy, Linus e Lucy. O adeus final da tira
ocorreu no dia 13 de janeiro, depois de 26 anos de criação.
Atualmente, Schulz faz quimioterapia, concentra seus esforços
no tratamento do câncer e não deve se afastar dos
Estados Unidos. (JM)
Bandas americanas renovam o fôlego
do heavy com talento
Rotulados de alterna
metal, grupos como Korn e Slipknot aliam hip hop e eletrônica
ao rock pesado e se dão bem
Rubens Herbst
Joinville - Desde que surgiu oficialmente, em meados dos anos
70, o heavy metal tem se caracterizado por manter uma imensa
legião de fãs ardorosos e fiéis, mas sempre
oscilando entre períodos de ostracismo e picos de popularidade.
Pois desde a new wave do metal britânico, que na década
de 80 revelou nomes como Iron Maiden, Saxon e Def Leppard, que
o gênero não era visto tão freqüentemente
nas paradas quanto neste final de século. A culpa é
de um grupo de bandas americanas - puxado pelo Korn - que, a
bordo de um instrumental enriquecido com elementos de outros
estilos, visual excêntrico e clipes milionários,
transportaram o metal para as portas do século 21 e se
tornaram responsáveis pela formação de uma
nova geração de bangers.
O lançamento do novo CD do Korn (o quarto), "Issues",
só vem reforçar essa onda metaleira contemporânea,
que no início foi batizada de aggro-rock e agora recebe
o rótulo de alterna metal (ou metal alternativo). Óbvio
que com as milhões de cópias que Korn, Coal Chamber,
Limp Bizkit e colegas estão vendendo, o estilo tem muito
pouco de alternativo. A não ser que ele seja encarado
como uma opção para dinossauros como AC/DC, Van
Halen e o próprio Maiden, agora reformado com a volta
de Bruce Dickinson e Adrian Smith à banda. Esses e outros
ícones do rock pesado continuarão no topo, com
certeza, mas agora têm que dividi-lo com a turma que influenciaram.
Até quando, só o tempo dirá.
Voltando a "Issues" (Sony/Epic), o disco pouco ou nada
tem de revolucionário - nesse sentido, Sepultura e Faith
No More têm muito mais do que se orgulhar. De qualquer
maneira, o Korn consegue apresentar algumas boas idéias
no que se refere a mistura de guitarras pesadas com eletrônica.
Sem nenhum músico excepcional em suas fileiras, o quinteto
deve muito ao produtor Brendan O'Brien, responsável pelos
melhores trabalhos de Pearl Jam e Stone Temple Pilots. O'Brien
reforçou a melodia e ainda deu ao Korn as armas para experimentar
sem perder peso. O problema é mesmo as canções,
de inspiração rala.
O formato é quase sempre o mesmo em todas as 16 faixas
do álbum: começa com ruídos e baixo distorcido
sobre uma base de teclados e desaba num refrão de duas
toneladas, com o vocalista Jonathan Davis exercitando sua porção
Max Cavalera. Assim, canções como "Beg for
Me", "Hey Daddy" e "Somebody Someone",
só para citar algumas, se movem sob a égide do
thrash - que marcou o início da carreira do Korn e, comenta-se,
vai reger o próximo disco do grupo -, mas tentam dar um
pulo em direção ao futuro. O resultado, porém,
é apenas modesto.
Pesadelo sonoro
No terreno da experimentação, o Slipknot se
dá bem melhor. A banda caminha para se tornar a nova sensação
do alterna metal tanto por seu som totalmente alucinado quanto
por seu estilo teatral dentro e fora do palco. São oito
membros -dois percussionistas e um DJ, inclusive -, que se identificam
por números (0, 1, 2, 3,...), usam macacões vermelhos
com códigos de barra e se escondem atrás de assustadoras
máscaras. Um filme de terror em forma de banda é
uma boa definição para o Slipknot.
Formado em 1995, no Estado do Iowa, o octeto vem causando sensação
nos Estados Unidos com sua união de música, teatro
e horror cinematográfico. Nem a fórmula nem a música
são totalmente originais, mas o resultado é avassalador.
Sem bizarrias visuais para distrair o ouvinte, o Slipknot mostra
no disco de estréia, homônimo (Roadrunner), que
a barulheira pode estar a serviço da inteligência
e que recursos de estúdio, quando bem aplicados, funcionam
como um meio para se alcançar peso dobrado.
Essa atitude permitiu ao Slipknot não ser só mais
uma dentro do cenário death/thrash, marcado por bandas
que, na maioria dos casos, se distinguem apenas pelo nome. O
grupo faz um esforço enorme para soar o mais brutal possível
sem perder contato com a realidade, o que significa não
ultrapassar os limites do suportável (em ritmo e zoeira)
e se fazer entender quando o assunto é letras, uma atração
à parte no trabalho do octeto. Insanidade, violência,
censura, confusão e liberdade se espalham pelas faixas,
construindo um painel bem de acordo com uma América doente
- não à toa, o disco vem com o indefectível
selinho advertindo os pais do conteúdo "perigoso"
das músicas. E os pingos de eletrônica, percussão
e melodia funcionam como fios de alta tensão dentro dessa
bomba-relógio prestes a explodir que é o Slipknot.
"Dogma" provoca
polêmica de graça
Kevin Smith bem
que tenta, mas seu filme, em exibição no Estado,
tem pouco de chocante e, como comédia, quase não
faz rir
Luiz Zanin Oricchio
Agência Estado
Conta-se que o poeta surrealista André Breton se queixou
certa vez ao cineasta Luis Buñuel: "Luis, hoje em
dia o escândalo não é mais possível".
Breton, que havia pontificado nos anos 20, achava que depois
disso os costumes e a men<\htalidade das pessoas tinham evoluído
tanto que ninguém mais poderia viver de chocar o próximo,
como haviam feito os surrealistas em sua época de ouro.
O filme "Dogma", de Kevin Smith, em cartaz em Santa
Catarina, pode colocar à prova a tese de Breton.
"Dogma", que até pelo nome é uma brincadeira
com os preceitos da fé cristã, tem despertado a
ira dos católicos, em seu país de origem e aqui.
Nos EUA, foi combatido pela Liga Católica para Direitos
Civis, que reuniu manifestantes diante de cinemas quando o filme
foi exibido no Festival de Nova York. Não conseguiram
proibí-lo, mesmo porque lá a liberdade de expressão
está assegurada pela lei maior. Estreou normalmente e
ganhou boas críticas, de maneira geral.
Por aqui, quem tomou a dianteira na cruzada contra Dogma foi
a TFP (Tradição, Família e Propriedade),
movimento católico conservador, que angariou centenas
de milhares de assinaturas pedindo o veto ao Ministério
da Justiça. A última vez que isto aconteceu no
País foi em 1986, com a proibição de "Je
Vous Salue Marie", de Jean-Luc Godard, obra também
considerada blasfema. Mesmo que não seja proibido, as
pressões contra "Dogma" já surtiram efeito:
o filme está sendo exibido em circuito restrito, pois
alguns dos grandes exibidores não quiseram se comprometer
com seu conteúdo.
E qual é esse conteúdo? Kevin Smith, que se diz
bom católico, armou uma parábola provocativa. Dois
anjos caídos (Ben Afleck e Matt Damon) planejam voltar
ao paraíso, pois foram condenados a viver em Wisconsin
pela eternidade afora. Se conseguirem seu intento isso significaria
a falibilidade de Deus e, portanto, o fim da criação.
Nesse enredo, entra uma suposta descendente da Virgem Maria (Linda
Fiorentino), um novo apóstolo cujo nome teria sido riscado
da História por ser negro (Chris Rock), uma musa celestial
vivida por Salma Hayek e a bombástica revelação
de que Deus seria mulher. Aliás, Ela é interpretada
pela graciosa cantora pop Alanis Morissette.
Mau gosto
Já nos primeiros fotogramas, Smith, talvez consciente
dos problemas que teria a seguir, avisa que não é
para ser levado a sério. Quis fazer apenas uma comédia,
diz ele. E não há porque duvidar. O tom é
parecido com o dos seus dois primeiros longas, "O Balconista"
e "Procura-se Amy". Jovem, rápido, descolado.
No caso de "Dogma", com o adicional de um pé
no trash. O filme atola de vez no pântano do mau gosto
ao criar um monstro chamado Gólgota, formado de excrementos
e que ameaça a salvação da humanidade.
<$t-3> Provocação ideológica é
uma antiga prática cinematográfica. Basta que o
diretor tenha algumas idéias na cabeça e elas não
coincidam com a visão religiosa dominante. Godard enfrentou
problemas e, antes dele, Pier Paolo Pasolini provocou dores de
cabeça nos censores do mundo todo. Um caso à parte
é Buñuel, cuja obra, do princípio ao fim,
se caracteriza pelo anticlericalismo. Por exemplo, uma delas,
"O Estranho Caminho de Santiago", é baseado,
textualmente, numa história das heresias. Simplesmente
demolidor.
<$t-2> Ao lado de Godard, Pasolini e Buñuel, o filme
Smith parece brincadeira de criança. Não choca,
a não ser quem entrar no cinema com a disposição
expressa de ser chocado. Nem diverte, pois como comédia
é pífio. Só confirma o engano de Breton.
O escândalo é possível, sim. Cada vez é
mais fácil provocá-lo.
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