Joinville         -          Domingo, 30 de Janeiro de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  

















De Cabral a Collor,
a história de um País

"A Carta de Descobrimento do Brasil" e "Brasil, 500 Anos em Documentos" recuperam registros essenciais para entender a trajetória da nação

Beatriz Coelho Silva
Agência Estado

Os documentos relativos ao Descobrimento do Brasil estavam espalhados em museus e arquivos europeus, a maioria em Portugal. Estavam. Porque agora foram reunidos no livro "A Carta de Descobrimento do Brasil", que a Xerox lançou no fim do ano passado para distribuir em escolas e bibliotecas públicas. É um projeto ambicioso porque, além de reproduzir mapas, desenhos, cartas e relatórios da viagem de Pedro álvares Cabral, traz ensaios de pesquisadores brasileiros e portugueses informando o contexto em que o Descobrimento ocorreu e suas conseqüências.
O livro começou a ser pesquisado em abril pelo antropólogo e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) Luiz Donisete Grupioni, especialista em história do Brasil colonial. O ponto de partida foi a carta de Pero Vaz de Caminha, que foi reproduzida em fac-símile e teve adaptação para o português moderno, assim como a carta de mestre João Ferraz, físico real que acompanhou a frota de Cabral e descreveu o céu brasileiro pela primeira vez. "A carta de Pero Vaz é a verdadeira certidão de nascimento do Brasil e, com a de Mestre João Ferraz, foi a primeira idéia que os europeus tiveram do Brasil", comenta Grupioni.
"Embora a de Ferraz não tenha ficado tão conhecida quanto a de Pero Vaz, as duas complementam-se, porque o escrivão oficial descreve os aspectos etnográficos do novo país, enquanto Ferraz, que era um cientista, busca o lado físico e geográfico". Grupioni garante que estas não foram as únicas cartas sobre o Brasil. "Há registros de que tripulantes, padres e outros integrantes da comitiva escreveram, mas esses documentos se perderam na época, durante o terremoto que atingiu Lisboa no século 18", diz o pesquisador. "O que restou está na Torre do Tombo, em Portugal, na Itália, França e nos Estados Unidos e está reproduzido no livro".
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Guerra no espaço virtual: Mercado de acesso à Internet entra em ebulição com disputa entre provedores pagos e gratuitos.  AN_Economia 
A pesquisa para a publicação levou Grupioni a arquivos e museus desses países, onde ele encontrou originais preciosos, como o "Planisfério", de Alberto Cantino, datado de 1502 e considerado o primeiro mapa-múndi onde o Brasil aparece. Do Museu Nacional Grão Vasco foi reproduzido o primeiro quadro mostrando índios brasileiros, "Adoração dos Reis Magos", um óleo sobre madeira dos primeiros anos do século 16, atribuído à oficina de Vasco Fernandes, o pintor oficial da corte do infante dom Manuel. Também dessa época há a reprodução do quadro "Inferno", de autor desconhecido, em que o demônio é um índio coxo, cercado de pássados brasileiros.

Colaborações

O livro entusiasmou tanto o diretor da Torre do Tombo, Bernardo Vasconcellos, descendente direto de Pedro álvares Cabral, que ele se tornou autor de um dos ensaios da obra, no qual comenta a importância da carta de Pero Vaz de Caminha para o arquivo que dirige e para a história portuguesa. Dois professores de literatura, Lúcia Bettencourt e Paulo Roberto Pereira, escreveram sobre o estilo das duas cartas, enquanto o historiador Fernando Novaes falou das conseqüências da descoberta no Renascimento europeu. Até as questões náuticas da época são discutidas no livro, num artigo do diretor do Patrimônio Histórico Cultural da Marinha brasileira, o contra-almirante Max Justo Guedes.
"A Carta do Descobrimento do Brasil" tem 160 páginas, mais de 200 reproduções e uma dimensão (26cm x 37 cm) proporcional às medidas das cartas de Pero Vaz de Caminha e de Mestre João Ferraz. "A primeira tem cerca de 20 páginas e a segunda apenas duas; ambas serão integralmente reproduzidas e versadas para o português contemporâneo", adianta Grupioni. Apesar do custo de US$ 120 mil e da distribuição gratuita, a Xerox não usou as leis de incentivo fiscal para produzir "A Carta de Descobrimento do Brasil". Segundo o gerente de marketing, Júlio Damasceno, o livro servirá também para apresentar ao Brasil a nova tecnologia de impressão digital criada pela empresa.


Documentos contribuíram
para a formação da nacionalidade

Quantos documentos são necessários para contar a história do Brasil? O pesquisador Ivan Alves Filho afirma que são mais de 300 e reuniu todos no livro "Brasil, 500 Anos em Documentos", que a Editora Mauad está lançando. A carta de Pero Vaz de Caminha é o ponto de partida da obra. Dos 300 documentos, o livro traz 90 na íntegra porque, na opinião do pesquisador, "contribuíram para a formação da nacionalidade brasileira".
Do descobrimento até o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, ele buscou em bibliotecas e arquivos públicos e particulares, brasileiros e europeus, os documentos que trouxeram alguma mudança na história do Brasil. São cartas, leis, decretos e até artigos de jornal que tiveram alguma influência no que ocorreu no País desde a chegada de Pedro álvares Cabral. "Não fiz distinção entre documentos reacionários ou não", alerta Ivan Alves Filho. "O Ato Institucional número 5 (AI-5), por exemplo, é extremamente conservador, mas marcou um período da nossa história".
Não foi fácil reunir todos os documentos. O pesquisador começou o trabalho ainda nos anos 70, quando era exilado e vivia na França. Ele teve dificuldade de encontrar alguns dos quais se ouve falar muito mas não se sabia, até então, onde estavam. "É o caso da Lei das Terras, de 1850, que instituiu a propriedade privada da terra no Brasil e exigiu que ela fosse paga, o que vetou esse direito aos ex-escravos e aos pobres", cita Alves Filho. "O original estava nos Arquivos do Parlamento, mas foi difícil achá-los".

Seleção difícil

A seleção foi outro problema. Como o pesquisador não queria prender-se só à história oficial, ele reuniu material suficiente para pelo menos outro livro e precisou ser rigoroso na escolha do que seria publicado. "Há documentos que não tive dúvidas em publicar no livro, mas outros foram substituídos e entraram depois de muita reflexão", conta Alves Filho. "Houve até um caso em que eu fiquei com o original, pois participei do momento em que ele foi escrito ou lançado", continua o pesquisador, referindo-se à sua participação, em 1992, na fundação do PPS, quando decidiu guardar a ata. Esse foi um dos poucos casos em que a afetividade influenciou na seleção de Alves Filho.
No mais, seu livro reúne documentos importantes como a Lei áurea, o Manifesto Pau-Brasil (que deu início ao Movimento Modernista em 1922), a carta-testamento de Getúlio Vargas e até a decisão judicial, anunciada nos anos 80, que responsabilizou a União pela morte do jornalista Vladimir Herzog, em 1975. "Além de citar os documentos, fiz questão de indicar onde eles podem ser encontrados para facilitar a vida de outros pesquisadores", ressalta o autor.
Ao fim do trabalho, Alves Filho chegou a uma conclusão surpreendente. Para ele, toda a história do Brasil é resultado de negociações entre a elite, que detém o poder e ocupa os cargos dentro do Estado, e as forças que se contrapõem a ela, sejam elas populares ou não. "O Estado não tinha força suficiente para impor-se à sociedade civil, mas esta nunca foi forte o suficiente para fazer valer sua vontade", teoriza o pesquisador. "Ao contrário do que ocorreu na Europa, por exemplo, as transformações aqui ocorreram sem violência", explica ele.
"Isso torna o processo mais difícil e lento mas, uma vez alcançado um objetivo, o retrocesso é mais raro porque as mudanças foram sempre negociadas". Alves Filho só não conseguiu encontrar algum patrocinador para sua obra. "Brasil, 500 Anos em Documentos" foi produzido com recursos do autor e da Editora Mauad. (BCS)



A Ilha da Magia entregue
à feitiçaria do palco

Espetáculo teatral "Mágicos Navegadores", em cartaz em Florianópolis durante o verão, conquista com sua ode à mitologia litorânea e efeitos especiais de grande beleza plástica

Jeferson Lima

Florianópolis - A cultura do litoral catarinense colonizado por açorianos está sendo brindada com o espetáculo "Mágicos Naveg@dores", em cartaz durante a temporada de verão no Costão do Santinho, em Florianópolis. O diretor do espetáculo é Osvaldo Gabrieli, do XPTO, premiado grupo paulista que articula teatro, dança, teatro de bonecos, artes plásticas, multimídia e música ao vivo em suas montagens. "Mágicos" tem esta afinação, legada por Gabrieli ao grupo catarinense que montou o espetáculo. Embora de presença definitiva sobre a montagem, com a assinatura da direção artística, roteiro, cenografia, figurino, adereços e desenhos, o diretor é praticamente o único "estrangeiro" no trabalho, produzido pela Áprika Produção em Arte de Florianópolis e com artistas catarinenses ou radicados na Ilha.
O espetáculo é inspirado na obra de Ernesto Meyer Filho e Franklin Cascaes, dois artistas ilhéus, embora Meyer tenha nascido em Itajaí em 1919 - veio aos quatro anos com os pais para Florianópolis - e Franklin em Itaguaçu, em 1908, quando o balneário ainda pertencia a São José. Os dois contemporâneos catarinas criaram uma obra fantástica sobre o imaginário ilhéu. Meyer era apaixonado por galos e pelo universo cósmico. Se dizia marciano e chegou a desenhar figuras extraterrestres que povoavam sua imaginação. Cascaes era igualmente obcecado pelas crenças e lendas ilhoas. Desenhou o boitatá e as bruxas que vivem na cabeça dos imigrantes açorianos que moram no interior na Ilha.
Ambos já morreram. Meyer completaria 80 anos em dezembro do ano passado. O espetáculo plástico tem a luz da sua arte, por cuja obra, o diretor Osvaldo Gabrieli se apaixonou assim que descobriu a pintura do catarinense. O espetáculo faz uma referência explícita aos galos de Meyer que ocupam a visualidade do palco. A herança de Franklin na obra é mais presente na aparição dos mitos ilhés - entre as bruxas e boitatás, principalmente. A referência direta à obra dos artistas é feita também pela própria presença dos dois no palco. Ernesto e Meyer, representados respectivamente pelos atores Marcelo Perna e André Franzoni, dialogam num manezês corrido sobre o destino da Ilha. Meyer teme a transformação do território ilhéu em terra de ninguém.
O espetáculo cronológico é marcado pela presença dos dois, que são também navegadores e deslizam sobre a história, desde a partida dos açorianos do arquipélago dos Açores até à modernidade dos dias de hoje na Ilha de Santa Catarina, com o turismo ditando as coordenadas do progresso. Os dois manezinhos, Ernesto e Franklin, abrem e fecham a apresentação, como se a história da colonização estivesse acontecendo na imaginação dos dois. Em meio ao diálogo de Ernesto e Meyer se desenvolve a história. São 50 figurinos e recursos cênicos, como bonecos infláveis gigantes num espetáculo de 1 hora e 10 minutos de duração. Alguns destes bonecos representam os monstros marinhos gigantes que habitavam a cabeça dos navegadores portugueses.
Na ilha, os portugueses e espanhóis travam uma diálogo pela posse da terra. A história segue sempre com um mar inflável e revoltoso diante dos espectadores, por onde desfilam sereias bruxólicas que seduzem e levam os pescadores para o fundo do mar. Pelo palco há um estranhíssimo bicho verde sobre pernas de pau, garças, benzedeiras, bruxas, boitatás, bernúncias e toda fauna que convive pacificamente no universo cultural ilhéu.

CATARINA

A Áprika Produções em Arte tem uma história de produções de qualidade em Florianópolis. Foi a Áprika quem produziu "Catarina, Uma Ópera da Ilha". A partir da ópera começamos a pensar seriamente em produções de qualidade", diz ela. Depois vieram "América", uma saga sobre a vinda dos imigrantes italianos, "Auto da Estrela Guia", "A Arca Que Não É" e o CD demo da banda Stonkas y Congas, entre outras produções. Segundo avalia Marisa, durante os oito anos que ela vive em função de produção - teatrais, principalmente - houve uma evolução significativa, principalmente com relação a escolha da linguagem plástica que o produtores da Áprika procuravam.
"Mágicos Naveg@dores" deve viajar para outras cidades catarinenses e talvez seguir por algumas capitais brasileiras. Embora o espetáculo tenha muitos elementos cênicos, eles são flexíveis e desmontáveis. Boa porte do cenário é composto por material inflável.
Para Marisa, o apoio de Fernando Marcondes de Mattos, do Costão do Santinho, foi essencial para que o espetáculo fosse montado. Marcondes foi patrocinador também da ópera Catarina, que novamente acreditou no pontencial e deu apoio decisivo para a concretização do projeto. O público está abaixo do esperado e o auditório com 300 lugares não tem sido ocupado por público maior de que 80 pessoas. Embora pequeno, o número de espectadores é significativo em função de pelo menos quatro aspectos: temporada longa, três apresentações por semana, a distância de 40 quilômetros do Costão ao centro da cidade e a falta de tradição do local em sediar apresentações teatrais.

O QUÊ: Espetáculo "Mágicos Navegadores". QUANDO: Quintas, sextas e sábados, sempre às 22 horas, durante a temporada de verão. ONDE: Sala Açores do Centro Internacional de Eventos do Costão do Santinho. Rodovia Vereador Onildo Lemos, 2.505, Praia do Santinho, fone 261-1000. QUANTO: Ingressos a R$ 25,00 podem ser adquiridos nas lojas Beth Bordados e Casa Gianne do shopping Beiramar, rua Bocaiúva, 2.468 (fone 223-6425), Empório Bocaiúva, rua Bocaiúva, s/nº (fone 224-1670) e Hotel Praiatur, av. Dom João Becker, 222 (fone 269-1292). Estudantes com carteira da UNE e UBES pagam meia-entrada e crianças até 12 anos não pagam ingresso.

FICHA TÉCNICA

Direção artística e roteiro
Osvaldo Gabrieli

Assistente de direção
Marisa Naspolini

Composições e direção musical
Marcelo Muniz

Cenografia, figurino, adereços e desenhos
Osvaldo Gabrieli

Iluminação
Sylvio Mantovani

Preparação Corporal
Marisa Naspolini

Cenografias (dança brasílica)
Ângelo Madureira

Coreografia açoriana
Juliana de Medeiros

Direção de Produção
Renato Cristofoletti

Produção executiva/direção de palco
Rafael Pereira Oliveira

Assistente de produção
Clarissa Pereira

Produção
Áprika Produção em Arte

Operação de Luz
Sulanger Bavaresco

Técnico de luz
Irani Apolinário

Contra-regras
Adauto Althoff
Daniel Augusto Barcelos
Juliano Diniz
Luiz Carlos Büchele dos Santos

Costureira
Bernadete da Silva

Costureiras assistentes
Simone da Silva
Donzila Silva de Castro

Assistente de ateliê
Antônio Segtowich

Pinturas de objetos cênicos
Fê Luz/Rô Moreira

Confeção de adereços
Daniel Augusto Barcelos
Marcelo Mendes
Leatrice Meira
Luiz Carlos Büchele dos Santos

Serralheria
João Luís Rabelo

Programação visual
ExaWorld

Slides e logomarca
Maurício Muniz

Fotos
Marcos Qüint

Assessoria de Imprensa
Cecília Nascimento

ATORES

André Franzoni
Franklin, homem açoriano, navegador, monstro marinho, garça, soldado espanhol, pescador, bernúncia, surfista virtual.

Elianne Carpes
Feiticeira, mulher açoriana, sereia, caboclinho, soldado espanhol, benzedeira, boitatá.

Gilbas Piva
Navegador, capitão português, homem açoriano, bicho verde em pernas-de-pau, pescador, surfista virtual.

Jaqueline Valdívia
Feiticeira, mulher açoriana, navegador, caboclinho, soldado espanhol, sereia, boitatá.

Juli Nesi
Mulher açoriana, sereia, caboclinho, soldado português, benzedeira, boitatá.

Marcelo Perna
Ernesto, homem açoriano, navegador, pássaro-peixe, capitão espanhol, pescador, boi, surfista virtual.

Maria Paula Bonilha
Feiticeira, mulher açoriana, monstro marinho, sereia, caboclinho, garça, soldado português, boi.

Natanael Machado
Homem açoriano, navegador, tamanduá azul, soldado português, pescador, bernúncia, surfista virtual.

MÚSICOS

Carlos Augusto Vieira
Violonista

Loran Régis
Tecladista


Espetáculo recupera obra
de Franklin Cascaes e Meyer Filho

João Otávio Neves Filho
Especial para o Anexo

Ao lançar "Mito e Magia na Arte Catarinense" nos anos 70, a crítica paranaense Adalice Araújo não sabia que estava rebatizando a Ilha de Santa Catarina, que a partir daí passou a ser chamada de "Ilha da Magia." Já esgotada e inexplicavelmente não reeditada, essa obra é o alicerce básico para a iniciação no aspecto mito-mágico de uma cultura peculiar como a nossa, que só não se impõe ao resto do País pela falta de uma visão de maior alcance por parte de setores que ao invés de promovê-la só lhe criam dificuldades e obstáculos.
Em bom momento o grupo empresarial do Costão do Santinho Resort (uma honrosa exceção no quadro geral de apatia do nosso empresariado), patrocinou a montagem do espetáculo "Mágicos Navegadores", permitindo que a tradição mágica catarinense, considerada por Adalice como uma das mais representativas tradições brasileiras, chegue aos palcos atingindo o grande público com um padrão coerente com a sua importância.
Pautada pelo profissionalismo e sensibilidade, a montagem resultou num espetáculo de grande beleza plástica, que, embora com algumas ressalvas, constitui com a Ópera Catarina e a peça de Franklin Cascaes dirigida pôr Olga Romero a grande tríade dos espetáculos mais bem-sucedidos inspirados na mitologia litorânea.
A direção de Osvaldo Gabrieli fundiu a experiência do premiadíssimo XPTO aos esforços da equipe de técnicos e atores locais. E a multidisciplinaridade do XPTO, caracterizado pela utilização dos meios e recursos mais diversos, dá a tônica a essa obra que mistura dança, música, máscaras, bonecos, teatro de sombras, projeções e todo um rico repertório de efeitos especiais perfeitamente adaptado ao mundo satânico-bruxólico de Cascaes e ao folclore cibernético do artista plástico Meyer Filho.
Esses dois grandes mitólogos catarinenses definiram com sua produção plástica a linha estética geral dos "Mágicos Navegadores", que soube transpor para o palco climas e personagens de forma feliz e inspirada.
Não ao estrelato
A Guerreira de "O+" experimenta o sucesso fulminante que a sensualidade proporciona. Mas a bela cabocla garante que não quer ser estrela.  AN_Tevê 
Uma ressalva para o boi-de-mamão colocado de pé sobre duas patas. Postura e figurinos, neste caso, não funcionaram. O boi perdeu o seu caráter mítico-totêmico diluindo-se numa versão perigosamente disneyana. Os surfistas virtuais tiveram suas performances prejudicadas por projeções que não funcionaram a contento. A figura do astronauta e o clima todo da seqüência final não alcança os patamares do surrealismo cósmico de Meyer, provocando frustração por um clímax final que não acontece. Outro problema foi a falta de conexão entre uma cena e outra. Essas pequenas pausas comprometem o ritmo e a fluência, assim como a voz em off que soa deslocada.

Demônios e sereias

Os méritos do espetáculo não são poucos. Tudo começa com dois "manés" atravessando a escuridão da platéia, segurando lampiões e arremedando o jeito gaiato do ilhéu chegam à boca de cena invocando assombrações. O palco se ilumina, o mar pulsa e elas surgem gloriosas, encantatórias, assustadoras e indescritíveis.
Luzes, fumaças, panos esvoaçantes, belas mulheres com os seios desnudos atravessam a cena segurando um grande globo. O clima é o satânico-goyesco que impregna a obra bruxólica de Cascaes. Trovões, relâmpagos, naus fantasmas, músicas e sons siderais, os personagens vão surgindo, bruxas eróticas em meio ao mar revolto que se ergue em ondas poderosas de onde emergem vulcões lançando fumaça e dando forma as ilhas dos Açores (vestígios da perdida Atlântida). Como se sonhássemos de olhos abertos, fundem-se os mitos açorianos com as tradições sobrenaturais.
A nostalgia da partida (sentimento caracteristicamente açoriano) aparece na despedida dos casais ilhéus preparando-se para partir rumo ao desconhecido, o clima pungente é amenizado com o lirismo de uma dança que pede bailarinos mais ágeis.
A travessia dos mares que acontece a seguir inicia com os movimentos das naus representadas por sugestivos módulos metálicos que mantêm o tom grandioso e surreal da representação. Nesse momento os efeitos especiais atingem o auge envolvendo a platéia com espetaculares estímulos visuais e auditivos. Projetadas sobre a fumaça, luzes esverdeadas criam sobre o fundo negro efeitos dos céus tormentosos de El Greco. Sereias bruxólicas, monstros marinhos e seres fantásticos erguem-se do mar revolto, parecendo brotar das narrativas fantásticas de Camões ou Homero.
É impossível não rendermo-nos à beleza plástica destes momentos que, como na arte barroca, parecem querer levar o espectador ao êxtase total. A chegada a Ilha de Santa Catarina, outro belo momento do espetáculo, substitui o clima satânico-goyesco do bruxólico Cascaes pela magia e delicado lirismo do surrealismo erótico-antropofágico de Meyer Filho. É como se saltássemos das trevas satânicas de Goya para luminosidade matinal de Tarsíla do Amaral ou Alfredo Volpi. Surgem as formas e cores exóticas da fauna e flora tropical.
A curiosa mitologia de Meyer Filho desafia o imaginário cósmico propondo-nos uma Passargada cósmica. Pássaros que parecem provenientes de afrescos egípcios executam com índios e outros personagens visionários de Meyer curiosas coreografias modernistas, celebrando o triunfo de Eros sobre Tanatos.

Mar da vida

A presença do mar é uma constante em todo desenrolar da peça, que optou pelo teatro de imagens em detrimento de uma preocupação maior com a dramaturgia. Esse mar que pulsa com seus eternos movimentos de fluxo e refluxo, esse mar que amedronta com sua amplitude, perigos e mutações constantes. Esse mar que ao mesmo tempo impulsiona com seu horizonte infinito para a liberdade, a aventura, a viagem e o sonho é o personagem principal de "Mágicos Navegadores". Componente fundamental da paisagem cotidiana do ilhéu, o mar atua como um dos principais fatores determinantes no prisma existencial do homem litorâneo.
Além da beleza plástica, do nível profissional da montagem, da excepcional trilha sonora de Marcelo Muniz, "Mágicos Navegadores" extrapola a dimensão de um belo musical para a temporada. Mais que isso, é uma excelente oportunidade para refletirmos sobre aquelas características que fazem do homem litorâneo um ser peculiar com uma sensibilidade própria, com uma maneira sui generis de perceber e pensar a realidade. É isso que temos para dar de novo à humanidade, é isso que não podemos, de maneira nenhuma, aniquilar ou perder.

João Otávio Neves Filho, o Janga, é membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte, da Associação Internacional de Críticos de Arte e membro do Conselho Estadual de Cultura.


Para atriz, sentido
de grupo fortalece a peça

Maria Paula Bonilha
Especial para o Anexo

Atores em busca de desafios e de experimentação em novas linguagens, mas antes de tudo, disponíveis. Encarando a platéia de candidatos com firmeza, Osvaldo Gabrieli pontuou o que esperava para o elenco de "Mágicos Navegadores". Era a primeira vez que dirigia atores não ligados ao XPTO em 15 anos de atividade como diretor do premiado grupo paulista.
Para nós, artistas, aquela era uma irresistível oportunidade: intercâmbio de informações e técnicas de trabalho com o diretor de um grupo que acumulou 38 dos mais importantes prêmios do teatro brasileiro e participou dos mais expressivos festivais europeus e latino-americanos. Sem falar na possibilidade de integrar um espetáculo patrocinado pelo empresariado local durante a temporada de verão, uma iniciativa que foge ao padrão das produções teatrais de Florianópolis.
Fixado o prazo de três meses para a montagem, a ruptura dos próprios limites e a abertura a novas experiências foram de fato predisposições essenciais para que pudéssemos, em tempo recorde, nos sensibilizar e nos aproximar da estética e linguagem do XPTO. Desde a sua formação, a pesquisa do grupo aponta para um trabalho diferenciado que articula diversas artes (teatro, dança, teatro de bonecos, música ao vivo, artes plásticas e multimídia) num espetáculo único.
Na estréia de "Mágicos Navegadores", ao constatar a presença de todos os integrantes do XPTO na platéia, num insight, obtive a confirmação de ter encontrado como atriz aquilo que considero mais sagrado no teatro. O sentido e o valor do grupo de trabalho. Atores, músicos e bailarinos da companhia ali presentes, disponíveis, sentiam-se responsáveis pelas sementes lançadas aos atores de "Mágicos...", agora formavando uma eclética equipe que, com algumas exceções, não havia trabalhado em conjunto. De alguma forma, teríamos de "falar a mesma língua", ou melhor, vibrar num mesmo corpo.
Um corpo que foi lapidado em sua macroestrutura, na qual atraentes contornos estéticos camuflam uma silenciosa e orgânica engrenagem que pulsa em uníssono. Sem protagonistas, uma profusão de personagens ganham vida num corpo de espetáculo que só acontece na medida da vibração e eficiência de seus órgãos. Trocadilhos à parte, a relação é mesmo visceral e contagia a toda a equipe. Dos contra-regras aos músicos, dos atores ao espectador mais sensível que pode perceber as sutilezas da obra de arte. Um corpo lapidado em sua microestrutura, em que cada ator mergulhou num processo de autoconhecimento no que diz respeito a um dos pilares básicos da pesquisa do XPTO: a sondagem minuciosa do movimento corporal.

Reflexão

Se não garante o registro de uma companhia teatral na história do teatro, a disponibilidade de seus integrantes é vital para sua formação, a sua condição de existência. Não cabe aqui distingüir formalmente grupo de trabalho de companhia ou grupo teatral ou cooperativa de teatro. Falo do que move pessoas a se reunir e a concretizar um projeto. E o estar disponível permeia ações e reflexões em todos os níveis, das mais prosaicas como pontualidade ou assiduidade às mais idiossincráticas, como a capacidade de jogar e assumir riscos, de investir na parceria, na cumplicidade, no aprendizado com o outro.
A equipe que se formou exclusivamente para "Mágicos Navegadores", esta viagem poética sobre a história da Ilha de Santa Catarina e dos navegantes que por aqui aportaram, tem aprendido com o processo, em uma palavra, a essência do fazer teatral.
Invasão coreana
A minivan Atos Prime, com motor 1.0 litro e três opções de câmbio, é um dos novos veículos que a Hyundai traz para o mercado brasileiro.  AN_Veículos 
Entre um ensaio e outro, uma colega atriz falou-me sobre a significativa diferença entre a linha de pesquisa que desenvolve em seu grupo e a de "Mágicos..." e do quanto este diálogo a fazia pensar sobre si, seu grupo, enfim, a arejar as idéias. Da mesma forma, antes de partir para São Paulo para retomar suas atividades, Osvaldo Gabrieli disse estar satisfeito com as modificações provocadas em cada um dos atores em tão pouco tempo. Todos, sem exceção, sairão enriquecidos com o trabalho, sentenciou. Como navegadora desta mágica experiência, arremato: qual é mesmo o sentido do teatro?

Maria Paula Bonilha é jornalista e atriz em "Mágicos Navegadores".

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Festival na França reúne grandes nomes dos quadrinhos mundiais

Crumb, Moebius e Uderzo são os artistas homenageados na mostra que encerra hoje, na França

Jotabê Medeiros
Agência Estado

Angoulême - Robert Crumb veio com seu carro, dirigindo desde a região de Aveyron, onde vive um exílio voluntário há mais de dez anos. Na entrega dos prêmios do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, o gênio dos quadrinhos underground tocará jazz com um grupo de amigos, na banda doméstica intitulada Les Primitifs du Futur (Os Primitivos do Futuro). O norte-americano Crumb (criador dos personagens Mr. Natural e do gato Fritz) e os franceses Jean "Moebius" Giraud e Albert Uderzo (um dos criadores do Asterix) são as estrelas principais desse que é o mais importante festival de HQs do planeta, realizado desde 1972 e que encerra hoje sua 27ª edição. Naquele ano, foi feita uma pequena exposição chamada "10 Milhões de Imagens", que durou 15 dias. A prefeitura da cidade gostou e instaurou o salão anual. A primeira edição de fato do festival foi realizada em 1974.
O festival mudou a vida em Angoulême, cidadezinha que passou a ter sua imagem associada aos quadrinhos. Em 1976, a cidade criou um museu e passou a adquirir pranchas originais dos convidados do salão para o acervo. Apoiado pelo Ministério da Cultura e da Comunicação, o festival estabeleceu-se no calendário francês e chegou a sua forma definitiva, privilegiando a formação de novos artistas com oficinas e ateliês especiais. Em 1985, o presidente François Mitterrand cria na cidade o Centre National de La Bande Dessinée et de L'Image. Em 1990, o festival caminha em direção à profissionalização e cria um mercado de negociação de direitos autorais. Em 93, quando fez 20 anos, o festival teve como mestres-de-cerimônias Frank Margerin (o autor de Lucien), Morris (desenhista do caubói Lucky Luke). Will Eisner é um dos convidados. Em 1996, presidido pelo desenhista Phillippe Vuillemin (que compareceu à Bienal de Quadrinhos de Belo Horizonte), o festival instala uma grande exposição de quadrinhos que percorre os EUA. No ano passado, com uma homenagem a François Boucq, a organização anunciava o maior de todos os festivais, o do ano 2000, que começou na quarta-feira.
Angoulême representa a ambição artística dos quadrinhos europeus e a criatividade fora dos rígidos códigos da indústria. O festival é extremamente rigoroso também na escolha dos novos artistas que vai mostrar ao público - geralmente, não seleciona mais de dez para a mostra de jovens talentos. "Obrigado aos quadrinhos que fazem de todos nós heróis", agradeceu François Boucq à homenagem que o festival lhe prestou no ano passado. "Porque os quadrinhos são uma escritura original incomparável, ilimitada, inclassificável, insolente, que nada fica a dever a nenhum outro meio de expressão", afirmou o desenhista.


Crumb ganha
exposição especial

Ele é considerado pelo crítico Robert Hughes o "Brueghel da última metade do século 20". Não é um exagero, já que o estilo "exorcístico" de Robert Crumb fez com que ele nos legasse uma versão moderna da "Torre de Babel" de Pieter Brueghel. Por meio de um recurso de comunicação de massas, Crumb rejeitou a tentação de ordenar um mundo ético e afundou-se em busca de sua estranha e íntima verdade particular. Não fez isso do nada: observador atento do american way of life, descobriu, horrorizado, que era fruto de um sociedade doente, com todas as implicações que isso carregava.
Para retratá-la, retratou a si mesmo com rara crueldade, sem se poupar nem fazer o mesmo com seus parentes. Em 1995, esse estilo chegou ao ápice: ele desenhou duas páginas para a "New Yorker" na qual retratava a própria reação e de sua mulher, Aline, ao filme "Crumb", de Terry Zwigoff, documentário que escancarou suas perversões particulares.
A influência de Crumb no mundo inteiro é gigantesca. No Brasil, tem pelo menos dois discípulos incondicionais: Angeli e Glauco. O francês Jean le Guay, o Jano, ídolo em seu país, curva-se a Crumb. "A primeira vez que vi um cartum dele eu tinha 16 anos e levei um choque: nunca tinha visto tanto sexo e drogas num gibi; não havia isso em Asterix e nos quadrinhos franceses", confessa.
Crumb, geralmente pouco afeito à badalação, é o presidente de honra desta edição do Festival de Angoulême. Consta que ele tomou a decisão de mudar um pouco sua imagem pública - que julgou abalada após o filme de Zwigoff - recentemente. A exposição que o festival lhe destina mostra as múltiplas facetas de sua personalidade complexa: suas influências (James Gillray, Harvey Kurtzman, Walt Kelly), o caráter de crítica social de seus desenhos, suas obsessões, seu amor pela literatura, o lado místico e o de músico nostálgico.
Outra grande mostra dentro da exposição destaca os desenhos que Crumb realizou na França recentemente, durante seu "exílio" em Aveyron. Ele desenhou (algumas vezes em guardanapo de papel de restaurantes) as ruas das pequenas cidades e tocadores de acordeão, entre outros flagrantes. Crumb provou, no redemoinho cultural dos anos 60, que qualquer um - dotado apenas de boas idéias - poderia fazer cartum. Mas foi além: seu traço aparentemente "sujo" esconde um senso preciso de movimento e uma anarquia criativa de proporções e representações. (JM)


As muitas faces
de Moebius

O cartunista francês Jean Giraud, o Moebius, é outra grande estrela do festival de Angoulême. Ele é o convidado da mostra "Trait de Génie", que tem mil metros quadrados e reproduz, com cenografia e 350 documentos, toda a trajetória do cartunista, desde seu aparecimento com o faroeste Tenente Blueberry até 46 pranchas do personagem Gerônimo, mais recente.
Criador de um universo fantástico de imagens, associado freqüentemente ao esoterismo e ao misticismo, Moebius é um ídolo de várias gerações na França. A sua exposição tem participação dos cenógrafos Marc-Antoine Mathieu e de Philippe Leduc, com técnicas de animação de Thierry Groenstein. Estão sendo exibidos também seus trabalhos de outras naturezas, como as campanhas publicitárias, ilustrações para revistas, croquis e os panoramas criados para o complexo de diversões Metreon, inaugurado recentemente pela Sony em São Francisco, Estados Unidos.
A influência de Moebius se estende por mais de 20 anos no universo dos quadrinhos. Ele criou um imaginário visual de grande exuberância, em álbuns como "A Garagem Hermética", "O Major Fatal" e "Os Olhos do Gato" (este em parceria com o cineasta chileno Alejandro Jodorowsky). Moebius nasceu em Paris há 60 anos. Já desenhou de tudo, embora sempre com um toque absolutamente pessoal - já fez até uma versão clássica de "O Surfista Prateado", da Marvel Comics, e fez ilustrações para a edição francesa de "O Alquimista", de Paulo Coelho. Mas seu negócio não é a indústria: Moebius diz sempre que acha que os quadrinhos estão longe de ter mostrado todo o seu potencial. Não se deixou seduzir ainda pelos computadores, mas percebe que esse caminho pode levar a uma combinação explosiva e a uma nova era dos comics. (JM)


Solidariedade ao
criador do Snoopy

O cinqüentenário do Snoopy teria uma exposição especial em Angoulême este ano, mas a organização do festival informou que não vai fazer festa em torno do tema como uma manifestação simbólica de pesar pelo que vem ocorrendo com o criador do personagem, o americano Charles Monroe Schulz. Ele descobriu um câncer em novembro e resolveu aposentar os personagens que o tornaram o mais rico criador de comics do mundo. Com 77 anos, Schulz desenhava pessoalmente as tiras e descobriu que tinha câncer após uma cirurgia para desbloquear uma aorta.
"Peanuts" (ou "Minduim", na versão brasileira) é uma turma conhecida no mundo todo, encabeçada por Charlie Brown, Snoopy, Linus e Lucy. O adeus final da tira ocorreu no dia 13 de janeiro, depois de 26 anos de criação. Atualmente, Schulz faz quimioterapia, concentra seus esforços no tratamento do câncer e não deve se afastar dos Estados Unidos. (JM)


Bandas americanas renovam o fôlego do heavy com talento

Rotulados de alterna metal, grupos como Korn e Slipknot aliam hip hop e eletrônica ao rock pesado e se dão bem

Rubens Herbst

Joinville - Desde que surgiu oficialmente, em meados dos anos 70, o heavy metal tem se caracterizado por manter uma imensa legião de fãs ardorosos e fiéis, mas sempre oscilando entre períodos de ostracismo e picos de popularidade. Pois desde a new wave do metal britânico, que na década de 80 revelou nomes como Iron Maiden, Saxon e Def Leppard, que o gênero não era visto tão freqüentemente nas paradas quanto neste final de século. A culpa é de um grupo de bandas americanas - puxado pelo Korn - que, a bordo de um instrumental enriquecido com elementos de outros estilos, visual excêntrico e clipes milionários, transportaram o metal para as portas do século 21 e se tornaram responsáveis pela formação de uma nova geração de bangers.
O lançamento do novo CD do Korn (o quarto), "Issues", só vem reforçar essa onda metaleira contemporânea, que no início foi batizada de aggro-rock e agora recebe o rótulo de alterna metal (ou metal alternativo). Óbvio que com as milhões de cópias que Korn, Coal Chamber, Limp Bizkit e colegas estão vendendo, o estilo tem muito pouco de alternativo. A não ser que ele seja encarado como uma opção para dinossauros como AC/DC, Van Halen e o próprio Maiden, agora reformado com a volta de Bruce Dickinson e Adrian Smith à banda. Esses e outros ícones do rock pesado continuarão no topo, com certeza, mas agora têm que dividi-lo com a turma que influenciaram. Até quando, só o tempo dirá.
Voltando a "Issues" (Sony/Epic), o disco pouco ou nada tem de revolucionário - nesse sentido, Sepultura e Faith No More têm muito mais do que se orgulhar. De qualquer maneira, o Korn consegue apresentar algumas boas idéias no que se refere a mistura de guitarras pesadas com eletrônica. Sem nenhum músico excepcional em suas fileiras, o quinteto deve muito ao produtor Brendan O'Brien, responsável pelos melhores trabalhos de Pearl Jam e Stone Temple Pilots. O'Brien reforçou a melodia e ainda deu ao Korn as armas para experimentar sem perder peso. O problema é mesmo as canções, de inspiração rala.
O formato é quase sempre o mesmo em todas as 16 faixas do álbum: começa com ruídos e baixo distorcido sobre uma base de teclados e desaba num refrão de duas toneladas, com o vocalista Jonathan Davis exercitando sua porção Max Cavalera. Assim, canções como "Beg for Me", "Hey Daddy" e "Somebody Someone", só para citar algumas, se movem sob a égide do thrash - que marcou o início da carreira do Korn e, comenta-se, vai reger o próximo disco do grupo -, mas tentam dar um pulo em direção ao futuro. O resultado, porém, é apenas modesto.

Pesadelo sonoro

No terreno da experimentação, o Slipknot se dá bem melhor. A banda caminha para se tornar a nova sensação do alterna metal tanto por seu som totalmente alucinado quanto por seu estilo teatral dentro e fora do palco. São oito membros -dois percussionistas e um DJ, inclusive -, que se identificam por números (0, 1, 2, 3,...), usam macacões vermelhos com códigos de barra e se escondem atrás de assustadoras máscaras. Um filme de terror em forma de banda é uma boa definição para o Slipknot.
Formado em 1995, no Estado do Iowa, o octeto vem causando sensação nos Estados Unidos com sua união de música, teatro e horror cinematográfico. Nem a fórmula nem a música são totalmente originais, mas o resultado é avassalador. Sem bizarrias visuais para distrair o ouvinte, o Slipknot mostra no disco de estréia, homônimo (Roadrunner), que a barulheira pode estar a serviço da inteligência e que recursos de estúdio, quando bem aplicados, funcionam como um meio para se alcançar peso dobrado.
Essa atitude permitiu ao Slipknot não ser só mais uma dentro do cenário death/thrash, marcado por bandas que, na maioria dos casos, se distinguem apenas pelo nome. O grupo faz um esforço enorme para soar o mais brutal possível sem perder contato com a realidade, o que significa não ultrapassar os limites do suportável (em ritmo e zoeira) e se fazer entender quando o assunto é letras, uma atração à parte no trabalho do octeto. Insanidade, violência, censura, confusão e liberdade se espalham pelas faixas, construindo um painel bem de acordo com uma América doente - não à toa, o disco vem com o indefectível selinho advertindo os pais do conteúdo "perigoso" das músicas. E os pingos de eletrônica, percussão e melodia funcionam como fios de alta tensão dentro dessa bomba-relógio prestes a explodir que é o Slipknot.


"Dogma" provoca
polêmica de graça

Kevin Smith bem que tenta, mas seu filme, em exibição no Estado, tem pouco de chocante e, como comédia, quase não faz rir

Luiz Zanin Oricchio
Agência Estado

Conta-se que o poeta surrealista André Breton se queixou certa vez ao cineasta Luis Buñuel: "Luis, hoje em dia o escândalo não é mais possível". Breton, que havia pontificado nos anos 20, achava que depois disso os costumes e a men<\htalidade das pessoas tinham evoluído tanto que ninguém mais poderia viver de chocar o próximo, como haviam feito os surrealistas em sua época de ouro. O filme "Dogma", de Kevin Smith, em cartaz em Santa Catarina, pode colocar à prova a tese de Breton.
"Dogma", que até pelo nome é uma brincadeira com os preceitos da fé cristã, tem despertado a ira dos católicos, em seu país de origem e aqui. Nos EUA, foi combatido pela Liga Católica para Direitos Civis, que reuniu manifestantes diante de cinemas quando o filme foi exibido no Festival de Nova York. Não conseguiram proibí-lo, mesmo porque lá a liberdade de expressão está assegurada pela lei maior. Estreou normalmente e ganhou boas críticas, de maneira geral.
Por aqui, quem tomou a dianteira na cruzada contra Dogma foi a TFP (Tradição, Família e Propriedade), movimento católico conservador, que angariou centenas de milhares de assinaturas pedindo o veto ao Ministério da Justiça. A última vez que isto aconteceu no País foi em 1986, com a proibição de "Je Vous Salue Marie", de Jean-Luc Godard, obra também considerada blasfema. Mesmo que não seja proibido, as pressões contra "Dogma" já surtiram efeito: o filme está sendo exibido em circuito restrito, pois alguns dos grandes exibidores não quiseram se comprometer com seu conteúdo.
E qual é esse conteúdo? Kevin Smith, que se diz bom católico, armou uma parábola provocativa. Dois anjos caídos (Ben Afleck e Matt Damon) planejam voltar ao paraíso, pois foram condenados a viver em Wisconsin pela eternidade afora. Se conseguirem seu intento isso significaria a falibilidade de Deus e, portanto, o fim da criação. Nesse enredo, entra uma suposta descendente da Virgem Maria (Linda Fiorentino), um novo apóstolo cujo nome teria sido riscado da História por ser negro (Chris Rock), uma musa celestial vivida por Salma Hayek e a bombástica revelação de que Deus seria mulher. Aliás, Ela é interpretada pela graciosa cantora pop Alanis Morissette.

Mau gosto

Já nos primeiros fotogramas, Smith, talvez consciente dos problemas que teria a seguir, avisa que não é para ser levado a sério. Quis fazer apenas uma comédia, diz ele. E não há porque duvidar. O tom é parecido com o dos seus dois primeiros longas, "O Balconista" e "Procura-se Amy". Jovem, rápido, descolado. No caso de "Dogma", com o adicional de um pé no trash. O filme atola de vez no pântano do mau gosto ao criar um monstro chamado Gólgota, formado de excrementos e que ameaça a salvação da humanidade.
<$t-3> Provocação ideológica é uma antiga prática cinematográfica. Basta que o diretor tenha algumas idéias na cabeça e elas não coincidam com a visão religiosa dominante. Godard enfrentou problemas e, antes dele, Pier Paolo Pasolini provocou dores de cabeça nos censores do mundo todo. Um caso à parte é Buñuel, cuja obra, do princípio ao fim, se caracteriza pelo anticlericalismo. Por exemplo, uma delas, "O Estranho Caminho de Santiago", é baseado, textualmente, numa história das heresias. Simplesmente demolidor.
<$t-2> Ao lado de Godard, Pasolini e Buñuel, o filme Smith parece brincadeira de criança. Não choca, a não ser quem entrar no cinema com a disposição expressa de ser chocado. Nem diverte, pois como comédia é pífio. Só confirma o engano de Breton. O escândalo é possível, sim. Cada vez é mais fácil provocá-lo.

 
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