Joinville         -          Quinta-feira, 2 de Março de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  

















Sem fronteiras, a
poesia desafia o tempo

Revista traça perfil das poéticas modernas e mostra o trabalho de cinco catarinenses

GLEBER PIENIZ

Distribuída pelos correios para a classe literária global, meios impressos de comunicação, bibliotecas, instituições culturais e estabelecimentos de ensino de todos os níveis, "Dimensão - Revista Internacional de Poesia" chega à 29ª edição reunindo, como de costume, trabalhos de abordagem moderna, pouco convencionais, abertos aos desafios que a criação poética contemporânea propõe. Prestes a completar 20 anos, a revista - na verdade, um livro com mais de 300 páginas - editada pelo mineiro Guido Bilharinho firma-se como ponto de referência e confluência de experimentos formais e semânticos, novas linguagens e diferentes visões estéticas que estão sendo praticadas ao redor do mundo no exato momento em que você lê este texto.
Dezesseis países de cinco continentes se fazem representar na coletânea, obra dividida em oito seções, cinco delas dedicadas metodicamente à criatividade: "Poemas e Textos", "Haicais, Tankas e Epigramas", "Visuais", "Performance" e "Seção Especial" (neste número dedicada às poéticas paulistas das décadas de 70 a 90 e aos novos infopoetas de São Paulo). Completam a revista o editorial "O Moderno e o Antigo em Arte", um bom apanhado de traduções e uma seção que, sob o título de "Vária", reúne menções da "Dimensão" em revistas da França e da Itália, além da relação de números anteriores ainda disponíveis.
Cinco catarinenses participam desta edição da revista: Dennis Radünz assina o poema "Primitivismo", Alcides Buss apresenta "Natural", Válter Carlos Costa traduz "Crossing the Plain of Patience" (poema do americano Steven White) e Hugo Mund Júnior busca o elemento visual para "Sonho". Paulo Derengoski, de Lages, dispara dois haicais (confira a performance dos catarinenses no quadro abaixo). Bilharinho, no expediente de "Dimensão", faz questão de deixar explícitos os critérios que prevalecem na seleção dos trabalhos: "modernidade, contenção verbal, rigor, elaboração da linguagem e/ou pesquisa, experimentação e criação de novas linguagens". Nenhum texto escapa do crivo crítico do editor, autor que preza pelo enxugamento da escrita ("o adjetivo é uma muleta de apoio", radicaliza) e que, sozinho, define o perfil de cada edição da revista. "O estágio atual é conseqüência de uma prática que se cristalizou", filosofa. "O nível de exigência vai subindo e abrange uma gama muito grande de 'fazeres' poéticos".
"Performance", desta forma, é uma seção que foi inaugurada na última edição e, segundo Bilharinho, deve ganhar mais espaço se outras grandes produções como a do paulista Moacir Amâncio ("Uniqueness", um poema longo, em inglês, dividido em três partes) forem enviadas a "Dimensão". "É uma parte da revista dedicada a desempenhos solo de maior fôlego", explica o editor. Nas sessões especiais que variam de edição para edição, a orientação do tema é condicionada ao volume de material oferecido pelos colaboradores. "Visuais" - seção dedicada à poesia feita de imagens - já é um espaço consolidado na coletânea, exclusivamente voltado para esta forma de expressão que cresce com incontestável velocidade e já chega, inclusive, a revelar a existência de alguns pólos poéticos mais atuantes. "A poesia visual é mais difundida no Rio Grande do Norte", avisa o editor. "São Paulo ainda é rival à altura, mas nas próximas edições quero reunir mais poetas visuais potiguares em uma sessão especial".

HISTÓRIA

A "Revista Internacional de Poesia" existe desde 1980, mas a trajetória de Bilharinho como editor começa muito antes, por volta de 1968, quando, ainda estudante, editava um suplemento cultural que mais tarde se transformou em uma revista. "Eu só me interessava por romances mas, de tanto editar poesia, peguei o gosto", lembra. O primeiro poema, dessa forma, veio à luz em 1975. "Dimensão" nasceu pequena, cinco anos mais tarde: as primeiras edições eram semestrais, mas logo se tornaram anuais, com o dobro e, às vezes, o triplo do tamanho. "Hoje ela é dez vezes maior que o primeiro número", calcula o poeta. O perfil internacional veio com a décima edição, consolidando uma tendência ensaiada desde o número três (com a presença de um colaborador de Portugal), o número quatro (trazendo poemas argentinos) e o número seis (com poesia angolana). "O próximo número vem no ano em que a revista comemora duas décadas de existência e vai ser diferente: uma edição dedicada apenas a temas especiais", antecipa o editor, citando como certa a inclusão de uma visão geral sobre a poesia angolana contemporânea. "Vamos publicar apenas colaboradores inéditos", garante.
Trabalho
Parcerias e iniciativas empresariais são opções utilizadas para resolver problema da falta de mão-de-obra capacitada.  AN_Economia 
Desde o início, a revista tem sido impressa graças a sucessivas etapas de solitário trabalho. "Trabalhar com muita gente não dá certo. A revista é um projeto pessoal e, se não for pessoal, não anda", diz o editor, embora admita que a empreitada já esteja "ficando pesada" para apenas uma pessoa. O número 28/29, por exemplo, deveria estar pronto em outubro, mas só saiu da gráfica na virada do ano. Para reduzir um pouco a interminável lista de responsabilidades e garantir a mesma abrangência da última edição (são 143 colaboradores; destes, 135 são correspondentes contumazes), Bilharinho acha que vai precisar de um profissional que se encarregue da correspondência (recepção, seleção, arquivamento e despacho), de uma secretária administrativa e de um revisor. "Sacrifico muito a minha produção na crítica de cinema e na ficção para tocar a revista", conclui.
"Dimensão" é vendida através de mala direta por R$ 12,00. No ano passado, Bilharinho fez uma campanha de assinaturas no meio universitário, o que garantiu uma penetração ainda maior da revista entre professores e estudantes. Contatos devem ser feitos através da caixa postal 140, CEP 38001-970, Uberaba/MG, ou pelo telefone (0XX34) 312-1545.


Lavra catarina
Poemas de autores catarinenses publicados na revista "Dimensão"

Dennis Radünz (Blumenau)

primitivismo

1
a alma nos criva
de idade o corpo

arca
dúzia de flechas
2
no ar o arco
socava
carnação de incêndios
(lâmina e lava)
3
ata-se o colar de pedras
chave da qual cindi
a cela

Alcides Buss (Florianópolis)

natural

Fechado de brumas,
o tempo se dá à memória.
Nem tudo termina.

O ar estaciona
no ar. Um arbusto
respira.

No dorso da embira
­ incomparável deleite ­
o mundo caminha.


Paulo Derengoski (Lages)

Tempestades noturnas
Bombardeiam o horizonte ­
E o grito da gralha azul

Céu tão azul
Milharal seco ­
As primeiras geadas


Válter Carlos Costa (Florianópolis)
Tradução para "Crossing the Plain of Patience", de Steven White (EUA)

cruzando a planície da paciência

A volta de nosso passado foi sempre dolorosa.
Porque não era como se recobrássemos vida,
mas que a tínhamos perdido de novo
na terra coberta com o que cresce.
Nos surpreendemos
pensando no lugar baldio,
lembrando como cruzávamos
a planície da paciência
e navegávamos dunas com ventos ferozes
sob um sol que nos fitava como ferida aberta.

Ali estava o paraíso que podíamos procurar eternamente.
Apenas nossas partículas dispersas como luz.
Apenas os desertos alternados de nossas vidas.
Apenas a ausência de desejo.

O lugar onde deixamos nossos sonhos
e inundamos nossos campos
e medimos cada sílaba de água,
era o limite do oásis.
Então adentrávamos na desolação
e numa visão mais forte:
a noite tão clara
que podíamos ouvir as estrelas
e os mortos que tinham dormido como bebês
no seu útero de areia
e agora planavam sobre a grande necrópolis.

As pedras do deserto eram nosso olhos ­
nus, além da umidade, sem ductos.
Não fazia sentido chorar
por árvores que nunca foram.

Não havia saudade da vida
que murchou e se esvaiu na imensidão
nem de todas as vidas desaparecidas
no vácuo da história.

Porque o deserto era o vazio que cresceu
dentro de nós e, ali, nossas preces
se ergueram sem medo de um punhado de pó.
Tudo o que podíamos ter sabido
se ajoelhou ante nós
como se fôssemos maiores do que sabíamos.


Escritor conta em livro
sua peregrinação religiosa

O itajaiense Josué Oliveira lança hoje em Joinville obra sobre viagem a Santiago de Compostela

Joinville - Uma jornada de 840 quilômetros - a pé. É o que narra o livro "O Cavaleiro e a Rosa Viagem - Ao Encontro da Fé", que o autor, o itajiense Josué Casemiro de Oliveira, lança hoje no Anfiteatro 1 da Univille. No evento, dividido em dois períodos, às 10 e às 20 horas, o autor profere uma palestra com o tema "O Homem, a Magia e a Fé", alvo de discussões em nível acadêmico, e apresenta uma exposição com diversas fotografias da viagem que inspirou o livro. O evento tem o apoio da Univille, através da Biblioteca Universitária e da livraria Midas.
O escritor realizou, em abril de 1998, a famosa peregrinação do Caminho de Santiago de Compostela, entre a França e a Espanha. Apesar da peregrinação já ter sida relatada por muitos escritores, recebe uma nova versão para Josué. A obra, com 132 páginas, levou aproximadamente oito meses para ser concluída.

Ordem protetora

A antiga rota de peregrinação, que tem o seu início na pequena cidade de St. Jean Pied de Port, um pequeno vilarejo de características medievais incrustado no sopé dos Pirineus franceses, e atravessa todas as províncias da porção norte da Espanha até a cidade de Santiago de Compostela (província de La Coruña), foi completada em 22 dias, com uma quilometragem média percorrida de 42 a 46 quilômetros diários.
Conforme o escritor, o livro foi concebido em duas partes distintas. Na primeira, o autor divulga uma síntese histórica da antiga fraternidade conhecida como a "Ordem dos Cavaleiros Templários", uma confraria de nobres cavaleiros fundada no ano de 1128 d.C sob o patrocínio de São Bernardo, o abade de Clairvaux, e que tinha como objetivo proteger os peregrinos que percorriam, a pé, àquele extenso e perigoso trajeto. É o resultado de uma pesquisa a cujos estudos o autor tem se dedicado no decorrer dos últimos doze anos. "A presença desta antiga ordem pode ser detectada ao longo de todo o percurso", conclui Josué.

Realidade e ficção

Mais vigor
A Fiat aposta na potência para aumentar as vendas do Brava. Com o novo motor 1.8, o modelo chega a 200 km/hora.  AN_Veículos 
Na segunda parte do livro - que utiliza a primeira como pano de fundo - o escritor mistura a realidade e a ficção para exteriorizar a sua visão romântica sobre a vida, sobre a necessidade de continuarmos sonhando e, acima de tudo, sobre a importância de olharmos o cotidiano, não como um espaço/tempo triste e massante, mas, como uma possibilidade real onde, com um pouco de obstinação e perseverança, é possível acessar os ensinamentos contidos nas entrelinhas do nosso viver diário.


Polícia aprende CDs
da Monstro por engano

Joinville - Na última sexta-feira, um lote de discos de vinil que havia sido prensado pela Polysom sob encomenda do selo independente Monstro Discos foi apreendido pela delegacia de combate à pirataria no Rio de Janeiro quando estava prestes a ser enviado à sede da gravadora, em Goiânia. Segundo o diretor da Monstro, Leonardo Ribeiro, os policiais pensaram que os discos do Autoramas e do Dog School eram obra de pirataria por "conter músicas internacionais".
A polícia, segundo Ribeiro, pediu provas por telefone de que as bandas eram realmente brasileiras e de que a prensagem dos discos não configurava cópia ou apropriação ilegal de produto artístico. Não satisfeitos, os policiais foram até a sede da Polysom, onde puderam comprovar a legitimidade das informações, liberando os discos já na segunda-feira. "Os caras queriam achar coisa onde não tinha", ironiza Ribeiro. Os lançamentos dos Autoramas e do Dog School já podem ser encomendados através do correio, no endereço da Monstro Discos: caixa postal 10065 - Goiânia/GO - CEP 74021-971.


Filme brasileiro disputa
festival de cinema francês

Paris - A 12ª edição dos Encontros de Cinema Latino de Toulouse (Sul da França) acontece este ano entre os dias 20 e 28 de março, com a estréia de premiadas e recentes produções do Brasil, México, Chile, Argentina e Venezuela, conforme anunciaram os organizadores. Esther Saint Dizier, responsável pela mostra, se concentrou na "renovação" que está acontecendo no cinema latino, com cineastas jovens e filmes "não convencionais". "Toulouse se reafirma como um espaço onde o cinema do novo mundo conta com forte apoio", afirmou Saint Dizier, ao anunciar as novidades deste ano.
Toulouse vai exibir seis filmes que competirão pelo Grande Prêmio "Coup de Coeur". São eles: "Hans Staden", de Luis Alberto Pereira (Brasil); "Mundo Grúa", de Pablo Trapero (Argentina); "Cien Años de Perdón", de José Gluzman (Argentina); "El Chacotero Sentimental", de Cristián Agraz (Chile); "Santitos", de Alejandro Springall (México) e "A la Media Noche y Media", de Mariana Randón e Marité Urgas (Venezuela). Na seção Panorama, os cinéfilos poderão conhecer produções recentes de cineastas já consagrados, como "Mauá, o Imperador do Rei", do brasileiro Sérgio Rezende (Brasil).
Os organizadores dos Encontros dedicarão este ano um grande espaço ao estreito vínculo entre a música e o cinema nas produções latinas. Serão exibidos 42 filmes em que a música é o foco central. O chileno Jorge Arriagada merecerá uma menção à parte. Pela primeira vez, em Toulouse e na Europa, a Orquestra Nacional do Capitólio de Toulouse interpretará uma composição sua ao vivo, enquanto o público poderá assistir ao filme mudo "It's All True", de Orson Welles, filmado no Brasil em 1942.


Clones de Xuxa infestam
as manhãs das crianças

Programas de Eliana, Angélica e Jaqueline até tentam, mas não saem da mesmice

Fernando Miragaya
TV Press

O telespectador-mirim não tem muita escolha. Apesar de cada emissora ter o seu programa infantil, o formato explorado pelas produções do gênero são tão parecidos que não chegam a ser opções para os "baixinhos". Reflexo do formato explorado por Xuxa nos anos 80, que alavancou uma legião de fãs e se alastrou como uma praga por todas as emissoras. O que se vê é uma enxurrada de louras fazendo brincadeiras com crianças e recheando as manhãs de desenhos animados.
O caso mais grave talvez seja exatamente o infantil da Globo, principal agente de contaminação. Angélica hoje tem um programa desfigurado. "Angel Mix" traz poucas e repetitivas brincadeiras. A bela lourinha praticamente só faz as chamadas dos desenhos animados que infestam a produção. Salvam-se ali as sempre divertidas histórias do "A Turma da Mônica", além da novelinha "Flora Encantada", que apesar da boa atuação da apresentadora e das mensagens ecologicamente corretas, deve sair do ar em breve. Na verdade, Angélica parece mais preocupada com o novo programa que passa a comandar em abril, chamado "Globinho da Angélica". De qualquer maneira, a mudança vai ser um alívio, tanto para a apresentadora como para quem assiste.
O pior é constatar que brincar com o controle remoto e mudar o canal não adianta muita coisa. No SBT, o público infantil se depara com outra loura: Jaqueline Petkovic. Com menos experiência à frente de programas infantis - ela estreou no final de 98 no comando do "Bom Dia & Cia" - a lourinha ainda mostra pouca naturalidade para apresentar uma atração do gênero. Nem contracenando com os bonecos a moça se mostra mais à vontade. Não é à toa que o programa é praticamente só desenhos.
O "Eliana & Alegria", da Record, é o que explora um pouco mais o lado lúdico. A também lourinha Eliana comanda uma produção que mescla um pouco de conceitos pedagógicos com entretenimento. A atração matinal diária promove jogos educativos com as crianças convidadas e a própria Eliana ganha ares de professora ao explicar pequenas experiências científicas. O "Eliana & Alegria" também leva para o estúdio atrações circenses que chamam a atenção das crianças. Isso sem contar o engraçado Chiquinho, seu assistente de palco, que também faz externas explicando desde a fabricação de uma máquina até as regras básicas de um esporte.
Mas o formato do "Eliana & Alegria" segue o mesmo padrão do "Angel Mix" e do "Bom Dia & Cia.". Todos os programas matinais mesclam desenhos com brincadeiras entre crianças. O reflexo disso é a audiência bem próxima entre os três. A atração da Angélica disputa a liderança com Eliana, entre oito e nove pontos de média cada, enquanto a produção de Jaqueline vem logo atrás com seis.
Programa
Esporte com sotaque carioca: Ângela Brito alia beleza e conteúdo à frente do "Esporte Prêmio, na Record.  AN_Tevê 
Para encontrar alguma diversidade na programação infantil de tevê aberta, só mesmo recorrendo a outros horários. Caso do "Galera da TV", da Rede TV!, apesar de ser comandado também por uma loura, a ex-paquita Andréa Faria, a Sorvetão. Apesar da fraca produção e do cenário pobre, pelo menos difere dos formatos matutinos. Ambientado em uma lanchonete, a atração traz histórias divertidas e educativas. Além do mais, no "Galera da TV", Andréa dá conta do recado interpretando tipos engraçados e atrapalhados, bem ao estilo dos que fazia em "Os Trapalhões". Caso também do "Disney Club", do SBT, no qual a turma do "TV Cruj" dá dicas voltadas para uma educação tanto escolar, como social e cultural.
Não há como não sentir saudade da proposta educativa e divertida de programas infantis como "Vila Sésamo", "Sítio do Pica-pau Amarelo", "Globinho", e até mais recentes como "Castelo Rá-tim-bum" e "Cocoricó". Tais produções eram feitas em função do público infantil e não para louras conseguirem o estrelato.

Manchetes AN

Das últimas edições de Anexo
01/03 - Do coletivo ao individual ao coletivo
29/02 - Histórias bordadas em tela
28/02 - Na surdina, Oasis lança "disco-família"
27/02 - Homem que é homem não teme "Ripley"
26/02 - O quarto poder segundo a sétima arte
25/02 - O Oscar bate à porta
24/02 - Viagem aos mistérios da Amazônia

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A babel de estilos
da arte postal

Muse de Arte de Joinville reedita, a partir de hoje, exposição pioneira de seis atrás

GLEBER PIENIZ

Joinville - Fruto das ousadias formais do dadaísmo, do futurismo e do novo realismo, elemento para os experimentos estéticos e comportamentais do Grupo Fluxus e tantas outras ameaças às correntes artísticas tradicionais, forma de comunicar revelada mesmo em cartas de Van Gogh, Marcel Duchamp e Maiakovsky, a arte postal (mail art) divide opiniões por reunir, de um lado, quem a considere uma expressão menor, acessória, funcional, quase uma atividade lúdica e, do outro, defensores de seu caráter democrático, revolucionário, acessível e popular. Para alimentar a discussão e fomentar a formação de opiniões, o Museu de Arte de Joinville (MAJ) reedita a partir de hoje uma exposição que, há quase seis anos, reuniu pela primeira vez em Santa Catarina as obras de artistas de mais de 30 países, dedicados à expressão da arte através dos correios.
"Relendo Arte Postal 94 - Joinville Cidade das Flores e das Bicicletas" apresenta mais de 600 trabalhos confeccionados ao redor do mundo, abordando estes dois símbolos máximos de Joinville como tema, obras que foram apresentadas pela primeira vez ao público na 1ª Mostra Internacional de Arte Postal de Joinville, entre novembro e dezembro de 1994, na agência central do Banco do Brasil. A reedição da exposição abre o calendário de eventos do MAJ para o ano 2000 e integra a programação das comemorações dos 149 anos do município. A mostra acontece graças à doação deste material pelo artista plástico Charles Narloch (ex-curador da mostra internacional e aficionado por arte postal) ao acervo do Museu de Arte de Joinville. "São trabalhos que, devido ao material com que são feitos, têm vida efêmera porque podem se estragar facilmente", explica o joinvilense radicado em Florianópolis. "Desta forma, estariam melhor no MAJ, onde podem ser expostos, do que comigo, em casa".
A exposição que abre hoje à noite no MAJ apresenta trabalhos feitos em vários formatos, no conteúdo ou no envelope de cartas que, obrigatoriamente, devem passar pelo sistema de distribuição dos correios. Esta é uma premissa essencial da arte postal, já que torna a obra de arte conhecida não apenas por quem a cria e a recebe, mas também por quem, no correio, carimba, seleciona, despacha, confere e entrega. "A mail art tem essa característica de ser democrática tanto no momento da confecção quanto no momento da exposição", resume Narloch que, um ano antes da primeira exposição, enviou comunicados a vários países informando sobre a intenção de fazer uma mostra. "Em arte postal não existe convite: todo o trabalho que vier é exposto", declara.
Sobre papel ou cartão, sobre fotos, recortes, papéis de embrulho ou envelopes, os adeptos da arte postal parecem não conhecer fronteiras quando o assunto é suporte. Este tipo de expressão permite a utilização de diversos materiais (lápis, aquarela, giz de cera etc.) e diferentes técnicas de trabalho, indo do simples desenho à pintura, passando pela fotografia, pela colagem e pela fotocópia; pelo decalque, pelo carimbo e pela computação gráfica, entre tantas outras formas de confecção apresentadas na exposição. "Em 1994, esta mostra levantou o nível da discussão conceitual da arte e ajudou a divulgar Joinville fora do País", lembra Narloch.
Participam da mostra, além de artistas joinvilenses, aficionados da mail art de todo o mundo, uma babel de estilos e propostas sobre um mesmo tema que coloca lado a lado nomes famosos e crianças que pintaram seus cartões dentro de alguma sala de aula do primeiro mundo. De Joinville, destacam-se os trabalhos de Cássia Mascarenhas, Linda Suzana Poll, Édson Cordeaca, Francisco do Amaral, Crisantos e Carlos Alberto Franzoi. Da Alemanha, Aloys Ohlmann chama a atenção através de um trabalho auto-referencial; a Itália, bem representada, traz os carimbos de Sbietti Stefano, os selos de Ruggero Maggi, as caricaturas de Roberto Scala e as aquarelas de Bruno Talpo. As cores propostas pelos postais do português Jaime Baptista e da finlandesa Ilka Juhani contrastam, na exposição, com as linhas simples vindas da Estônia pelas mãos de Ilmar Kruusamae. Dos Estados Unidos vêm os delírios transgressivos em selos e trabalhos de computação gráfica do grupo Nonlocal Variable, enquanto a Argentina se faz representar por Edgardo Antônio Vigo, artista que já havia levado suas correspondências à Bienal Internacional de São Paulo.
Participam da exposição, ainda, artistas de todo o Brasil, do Canadá, da Colômbia, da Espanha, da Áustria, do Japão (destaque para as aquarelas de Tensaku Murata), da Bélgica, da Austrália, da Escócia, da Grécia, da França e da Holanda; da Inglaterra, da Polônia, do Uruguai, da Noruega, do Panamá, da Suíça e da Suécia; da Iugoslávia, da Irlanda, da Romênia e até da República Tcheca. A exposição "Relendo Arte Postal 94 - Joinville Cidade das Flores e das Bicicletas" fica aberta à visitação até o dia 19 de março, no Museu de Arte de Joinville.


Marcado pela polêmica,
Narloch abandona a arte

A doação de Charles Narloch de toda uma coleção de obras em arte postal ao Museu de Arte de Joinville coincide com a decisão do joinvilense de abandonar o mundo das artes. Radicado em Florianópolis desde 1995, o ex-diretor de artes da Fundação Catarinense de Cultura admite "uma certa frustração" com a atividade artística e justifica sua atitude de afastar-se da criação em virtude da "falta de mercado para quem faz e para quem administra a arte".
A trajetória de Narloch nas artes plásticas é marcada pela polêmica criada menos pelo impacto das obras do que pela interpretação maldosa de alguns setores da sociedade frente aos signos que apresenta. Convidado para expor na Univille, seu painel com infogravuras foi considerado ofensivo e retirado dos corredores da instituição. Recentemente, uma pintura com ícones primitivos representando homens acéfalos foi apagada de um muro de Joinville por representar, segundo algumas concepções, uma referência à vulgaridade. Como aconteceu na Univille, o artista também havia sido convidado para expor seu trabalho e mostrar, desta vez sua visão da dança às vésperas do Festival de Joinville.
Narloch é, por formação, engenheiro agrônomo. Ao Anexo, diz que agora vai se dedicar ao mestrado em biotecnologia da UFSC e sugere que, se voltar à arte, será para tratar de temas relacionados a esta área do conhecimento. A cessão de material de arte postal ao MAJ faz parte de um processo de desprendimento que, segundo o artista, não vai poupar nem mesmo as obras que produziu durante os últimos anos. (GP)


Furb promove mostra
de artes até 16 de março

Blumenau - A Universidade Regional de Blumenau (Furb) abriu na última segunda-feira seu calendário de eventos de arte com a "Mostra de Artistas Blumenauenses do Acervo de Artes Plásticas da Furb". O conjunto de obras está exposto no saguão da reitoria, no bloco A, e poderá ser visitado por toda a comunidade até o próximo dia 16 de março, das 8 às 21 horas.
Entre os integrantes da mostra - vários deles reconhecidos em âmbito estadual - se encontram os artistas Erica Araújo, Sueli Beduschi, Lindolf Bell, Pita Camargo, Silvia Teske, Alfredo Tadeu Bittencourt, Tchello d'Barros, Rose Darius, Edla Pfau, Rosina de Franceschi Fiamoncini, Telomar Florêncio, Vânia Guedes, Lucimar Bello Frange, Arian Grasmuck, Elke Hering, Reinaldo Pfau, Elio Hahnemman, Sueli Guerreiro, Guido Heuer, Roseli Kietzer, Roy Kellermann, Eliana Von Hohendorff, Orlando Ferreira de Mello, Denise Patricio, Ligia Roussenq Neves, Rubens Oestroem, Simone Raizer, Analise Probst, Irae Heusi Reichow e Simone Tanaka.


Crônica

Mais causos de literatos

Salim Miguel

Parece que as historinhas com escritores interessam. E não só ao escrevinhador. A resposta dos leitores foi positiva. Também querem mais. E como a memória é um poço inesgotável, lá estou eu me lembrando de outros episódios curiosos, pitorescos, estranhos. Começo por Graciliano Ramos. Outro dia ainda, indo da Cachoeira do Bom Jesus para a Praia Brava, meu filho me chamou a atenção dizendo: "Olha ali, Servidão Graciliano Ramos!". Será que alguém por estas bandas se lembrou do mestre Graça? Se foi, ótimo. Se não foi, lembro eu aqui duas ou três passagens. A primeira, quando o autor de "Vidas Secas" recebeu um exemplar de seu livro publicado em russo. Olhou a capa, a folha de rosto, a última de capa, folheou o miolo, depois exclamou: "Ainda dizem que sou homem que sabe ler e escrever; pois bem, este livro é meu e não consigo entender uma mísera palavra do que nele se encontra".
Continuo com o autor de "Angústia", agora tendo Florianópolis como tema. Ia se realizar, em 1950, um Congresso de Escritores em Porto Alegre. Graciliano resolveu viajar por terra. Ele, mais a filha Clarita, mais o ensaísta Miécio Tati e o poeta E. Carrera Guerra. Pernoitou em Florianópolis. De noite, foram a um bar, mestre Graça pediu uma cachacinha, pitou seu inseparável cigarro. De repente, notou que a maioria dos freqüentadores olhava para a mesa onde eles estavam. Por mais modesta que uma pessoa seja, ser reconhecida massageia o ego. Pensou: será que estão mesmo me reconhecendo? Tardou a se dar conta de que não era assim. Clarita estava usando slacks, os jeans de hoje. E uma jovem num bar à noite, ainda mais de calças compridas, na provinciana Ilha da década de 50, era inimaginável. Basta dizer que não se ia a um cinema sem paletó.
Outra ainda com o autor de "Memórias do Cárcere", também em Florianópolis. Eu morava na Agronômica, num bairro novo, com ruas projetadas. Lembrei-me de dar o nome de Graciliano Ramos à rua onde ficava nossa casa. Pedi ao vereador Manoel Alves Ribeiro, o Mimo, que apresentasse o projeto. Foi recusado. Câmara de conservadores, onde se viu dar o nome de um notório comunista a uma rua da cidade! Segunda tentativa, em vão. Sugeri um artifício ao vereador: alegar que o Ramos de Alagoas era um ramo desgarrado dos Ramos que dominavam a terrinha. O projeto foi aprovado por unanimidade e até hoje lá está a rua ­ que a viúva de Graciliano, quando anos depois veio a Florianópolis, fez questão de conhecer.
Já contei, em conversa anterior, historinhas com Marques Rebelo. Aí vai mais uma. Nos finais de semana, amigos se reuniam no apartamento dele nas Laranjeiras, no Rio. Lá era comum encontrar-se um João Cabral de Mello Neto, um Antônio Houaiss, um Paulo Silveira, um Herberto Sales, um catarinense como Hamilton Ferreira, um Walter Benevides, um Nássara e este que vos relata o fato. A conversa corria solta, falava-se de tudo, até de literatura. Rebelo era implacável. Mas era igualmente amigo indiscutível. De um escritor de quem não gostava, Osvaldo Orico, dizia que a única boa produção dele, ainda assim em parceria, era a "canja Orico". Apaixonado pelo América, onde jogara, fazia Elza, sua mulher, vestir-se de vermelho, cor do clube, nos dias de jogo. Foi crítico acerbo da ABL, até que um dia cedeu e se candidatou. Ao ser eleito, telegrafei-lhe dando parabéns à Academia; e, no primeiro encontro, cobrei: "E as críticas?". Rebelo tentou sair pela tangente, riu, disse que a gente, envelhecendo, gosta de ter um cantinho, o encontro às quintas com os amigos, os papos descontraídos ­ e por aí foi. Mas não resistiu a uma de suas tiradas. E rindo disse: "Você sabe de uma coisa, morrer está caro, está pela hora da morte, e a Academia tem um mausoléu que é uma beleza..."
Será que muitos, mesmo idosos, para não falar nos jovens, ainda se lembram ou ouviram falar no Barão de Itararé, o Brando, como gostava de assinar, numa brincadeira facilmente interpretável. Aporelly, outro pseudônimo que usava, tinha um tablóide humorístico chamado "A Manha" e depois um almanhaque. Aparício Torelly é considerado até hoje o mais importante humorista de nossa história. Comunista de carteirinha, foi preso várias vezes ­ e a polícia entrava batendo. Então ele colocou na porta da redação um aviso: "Entre sem bater", de claro e duplo sentido. O Barão de Itararé gostava de fazer jogo de palavras e brincadeiras com nomes. Nas décadas de 40/50, um poeta romântico, com alguma ressonância nos meios intelectuais, era Olegário Mariano, também hoje nome quase (ou totalmente) esquecido. O Barão não largava do pé do poeta, inventava umas trovas pífias assinando-as Olemário Galiano.
Concluo com uma de humor negro, do romancista Érico Veríssimo. Insistentemente convidado para se candidatar a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, toda vez que morria um imortal, sempre se recusava. Mas a insistência continuava, até que, certo dia, não se conteve: "Não posso me candidatar porque já sou quase uma vaga".
Se estes causos continuarem interessando, posso ir desencavando mais alguns. E lá do mais fundo da memória começam a pipocar nomes de escritores catarinenses, como do professor Henrique da Silva Fontes e Othon da Gama D'Eça.

 
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