Joinville         -          Domingo, 5 de Março de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  

















Da ironia da etiqueta à ética do sarcasmo

Jornalista americano propõe a inversão de valores como fuga da mediocridade cotidiana

Katherine Funke
Especial para o Anexo

O norte-americano P.J. O'Rourke, sob o rótulo de "escritor mais engraçado da América", entra com ironia para o rol dos conselheiros da conduta social ao lançar o livro "Etiqueta Moderna - Finas Maneiras Para Gente Grossa" (Conrad Livros). São 266 páginas com levíssimo toque existencialista de regras para a vida que chocam qualquer leitor (e, por isso, fazem rir). O cuidado estético, tradicional e rebuscado contrasta com o teor satírico do livro.
Aparentemente inocente, a idéia de O'Rourke é muito mais do que irônica. Torna-se inevitável que os leitores percebam a mediocridade e falta de nexo que o autor sugere serem a vida moderna. O livro, às vezes repetitivo, discorre sobre a elegância de vomitar, divorciar-se, "aprontar", transar e até morrer. Nada de regras sobre como segurar os talheres ou comportar-se convenientemente à mesa. Aliás, comportar-se bem não é considerado sinal de "bom tom" para o autor. Um exemplo: quanto mais bebida e drogas forem oferecidas na festa, mais cotado o anfitrião fica para outros eventos da high society. Para quem pensa que isto é a decadência, uma pergunta: quem garante que um simples passeio pela orla não seja uma superorgia?
Como não cabe à resenhista julgar o comportamento de ninguém a não ser o próprio, melhor mudar de assunto e lembrar o que dizem as "línguas ferinas" que "passeiam pela orla": quem já nasce com classe não precisa de guia de etiquetas algum - e tal afirmação foi retirada de algum guia, para que o indivíduo não se traia citando algum pedaço do que leu como se fosse prova de cultura e inteligência.
Admirável a coragem do escritor ao tratar o assunto "drogas" com clareza e liberdade. Assim como os livros convencionais de etiqueta fazem quadros didáticos explicando que tipo de comportamento ter, em que ocasião e com que finalidade, o guia de O'Rourke para as drogas é completo: cita ocasião social apropriada, ensina o que fazer, dizer, quebrar e como se desculpar no dia seguinte ao uso de maconha, LSD, crack, heroína e álcool. No mesmo capítulo, algumas linhas explicativas sobre essas e outras drogas e um destaque especial à cocaína (que o autor revela utilizar, por torná-lo "mais inteligente, espirituoso, charmoso, esperto, bem vestido, bonito e sexualmente mais atraente"). O'Rourke considera uma questão de educação que o indivíduo cheire o máximo da cocaína oferecida a ele, para evitar que outra pessoa a utilize e destrua suas mucosas, possa ter ataques cardíacos ou morra de overdose.
"Etiqueta Moderna", apesar de tratar os moradores dos EUA como americanos (como se não houvesse outras américas por perto), cutuca sem piedade as feridas do mundo contemporâneo, em que as conseqüências para a rotina familiar e individual da correria pela sobrevivência se tornaram inevitáveis, como a alienação do contexto histórico e a ausência de espírito solidário. Alguns dos sobreviventes, ainda com capacidade perceptiva, já perceberam que o que se relaciona à expressão "ser humano" merece ser revisto: humanizar não é (se é que um dia foi) sinônimo de tornar-se melhor, mais sensível e compreensivo; mais compatível é o contrário, e o livro prova a constatação em todas as suas "brincadeiras". Por isso, embora hilariante, ler as dicas para "gente grossa" é também triste e revoltante, mais ou menos como assistir a um seriado, desses com sons de palmas e risos da platéia sempre escondida: um passatempo frustrante. Não apenas pelo escracho da pouca profundidade e sentido com que alguns de nós, seres humanos, vivemos, mas também porque P.J. O'Rourke, cheio de intolerâncias, revela nas entrelinhas preconceito contra portadores de HIV, homossexuais, otimistas, estrangeiros, pobres e caretas, como se tudo isso fosse fora de moda. Isso sim é que é falta de elegância.
Talvez o mundo já seja sarcástico demais para receber um livro como esse, o que não significa desprezo pela sua existência - o mundo é plural e das pluralidades se vive. Mas há de se considerar que falta bom senso em algumas áreas hedonistas que se dizem artísticas mas pouco ou nada acrescentam à cultura internacional. Basta ver o caso do Brasil - país promissor de tantos escritores escondidos e editoras pequenas que tentam sair da escuridão - para entender que os leitores podem ter muito mais a absorver do que com um livro norte-americano de regras inúteis sobre etiqueta.


Colunismo social às avessas

GLEBER PIENIZ

"Etiqueta Moderna - Finas Maneiras Para Gente Grossa" é um livro que, definitivamente, não deve ser levado a sério. P.J. O'Rourke, o iconoclasta, não merece leitura mais atenta do que aquela dispensada ao colunista social, o bajulador. Estas duas figuras representam os extremos da linha cujo ponto intermediário, longe dos excessos e arremedos, encontra a vida cotidiana, aquela vivida por pessoas comuns, tidas como normais. Logo, também não dá para levar a sério quem dá crédito irrestrito ao livro e às colunas sociais porque, provavelmente, esta pessoa tem uma noção muito distorcida da realidade.
Mas não dá para comparar trabalhos quase opostos de forma tão simplista: há diferenças fundamentais entre a visão de mundo de O'Rourke e a de seus colegas colunistas. A primeiro delas é óbvia: o jornalista americano escreve com ironia e, pícaro, sabe que está sendo engraçado. O colunista social, por sua vez, tenta parecer sério, respeitável e, combinando esta pretensão com a falta de intimidade com as palavras, torna-se risível. O'Rourke busca o inusitado, o esdrúxulo e o caricato para extrair daí o brilho. As páginas de mexerico dos jornais parecem estampar o contrário: quanto mais glamourosa a cobertura, mais medíocre é o fato.
Editor de assuntos internacionais da revista "Rolling Stone", O'Rourke tem o dom da palavra: escreve com leveza e astúcia, pinça exemplos cômicos para ilustrar suas teorias e, como seu trabalho não poderia ser de todo perfeito, falha apenas ao debruçar-se excessivamente sobre o american way of life, citando casos e figuras que, para nós brasileiros, não fazem muito sentido e até mesmo podem estragar o desfecho da piada. Aliás, não é por uma disfunção de linguagem que expressões como in, out, petit comité, look, níver e outras muitas vezes também passam sem gerar sentido nos textos do colunismo social?
O'Rourke produziu, mais do que um guia do colunismo social às avessas, um manual para enfrentar com ironia e sarcasmo as mediocridades a que a maioria das pessoas é submetida no dia-a-dia. Combate fogo com fogo e é debochado em um mundo de aparências tão frágeis que caem com a primeira investida crítica. "Etiqueta Moderna - Finas Maneiras Para Gente Grossa" tem a capacidade de flagrar momentos fúteis e transformá-los em instantes sublimes da existência graças, simplesmente, a uma mudança de postura: ao invés da passividade sugerida pelas boas maneiras, o autor propõe o revide inteligente e cáustico, doa a quem doer. Boas maneiras, segundo o malandro, podem substituir as crenças religiosas, a moral, o amor e o intelecto. "Se a vida está uma zorra, por que se preocupar com o garfo certo para comer ostras?", pergunta, logo no início do livro, instalando um clima de cumplicidade que permeia toda a obra e se manifesta através de um sorriso malicioso nos lábios do leitor da primeira à última página.
O livro é divertido - apesar de exercitar um humor politicamente incorreto - e convida à reflexão justamente por abordar temas cotidianos com a dureza que, muitas vezes, eles devem ser enfrentados. Não é um texto para pessoas sensíveis ou com dificuldades de distingüir o que é fato e o que é fantasia: a estas, recomenda-se a leitura da sempre anestésica coluna social.


Trechos do livro

Conselhos para a mulher moderna
"Quando você vai ao encontro de um homem, é perfeitamente aceitável que você deixe claro que trabalha duro, é mais bem-sucedida e ganha muito mais do que ele. Mas você deve levar em consideração que ele precisa manter algum respeito próprio. Devido a isso, não importa o quanto você ganhe, permita que ele pague todas as contas"

Onde ir num encontro
"Sexo sem relacionamento social precedente é o mesmo que tratar pessoas como objetos. E pessoas não deveriam ser tratadas como objetos. Elas não são tão valiosas assim"

Sobre os estrangeiros
"Estrangeiros são exatamente iguais às pessoas comuns, pelo menos se você considera comedores de caracol, japas e jecas diversos como pessoas comuns. Estrangeiros serão sempre legais com você. Todo mundo admira os americanos, tanto quanto deveriam"

Famílias pobres
"(...) nas famílias pobres todos gritam uns com os outros, nunca gastam dinheiro e estão sempre prontos para atos de violência. Isto é uma excelente preparação para você se tornar, digamos, presidente de uma multinacional - com ásperas reuniões de diretoria, constantes problemas de fluxo de caixa e produtos comerciais que podem aleijar ou matar pessoas"


Homenagem ao leão baio
que assusta o Sul de SC

Em prosa e em poesia, escritor reflete sobre as fantasias que o rei dos animais provoca

Paulo Ramos Derengoski
Especial para o Anexo

Lages ­ As forças inconscientes coletivas que dormem nos mais profundos abismos interiores de todo ser humano sempre despertam diante de situações de perigo reais ou imaginárias. É o que afirma Carl Gustav Jung, o estudioso da alma humana que desafiou o determinismo de Sigmund Freud, seu mestre. Para ele, a imagem do leão ­ sonho ou realidade ­ representava uma tremenda força instintiva a ser desencadeada. Freud definia, em sua obra monumental, o sonho de leão como sendo a reafirmação de uma sexualidade ardente e selvagem.
O leão sempre foi um símbolo poderosíssimo para a humanidade. Ele está impresso nas bandeiras de várias nações, exércitos e regimentos. É um arquétipo da vontade de guerrear. Mais do que isso: por ser o rei dos animais, desconhece predadores e possui, pela força, o "direito" que é o mais alto símbolo do poder: o "direito" de matar ­ que poucos homens na face da terra detiveram em suas paranóias e delírios.
Luís 16, imperador da França, certa vez sonhou que lutava com um leão. Meses depois, sua cabeça rolava na Praça da Revolução... Os reis assírios eram metade leões metade homens. E a esfinge do Egito tem a cabeça do grande gato.
Mas terá alegria familiar quem sonha com a leoa e seus leõezinhos ­ pois dentre as fêmeas é a que mais protege suas crias. Os romanos, que dominaram o mundo antes da hegemonia cultural judaico-cristã, jogavam seus prisioneiros aos leões. E os árabes, deles fizeram estátuas nos pátios de Granada.
Para muitas civilizações, o leão representava o rei, o magistrado e o senhor. Diz a lenda que leões agressivos são presságio de guerras. Ao contrário do macaco, ele não é um animal insolente. Mas é perigoso. É carregado de presságios, de simbologias, de ritos. Não tem o esplendor cadencioso do tigre. Mas salta na escuridão da noite, emergindo do barro no quinto dia da criação. Homens e macacos odeiam os leões.
É um animal vingativo, solitário e caminhante. Talvez Deus o tenha colocado no mundo para lembrar aos homens que viver é perigoso e que os rastros de ambos ­ homens e leões ­ um dia se apagarão, como lágrimas perdidas na chuva. Porque sempre há um tempo de viver. E um tempo de morrer.


O grande gato

Paulo Ramos Derengoski

Faz quantos mil anos
Que um tigre-de-dente-de-sabre
Atravessou as geleiras de Behring
E se embrenhou pelo Yukon?
Pelo Kanatá grande
Pelas Montanhas Rochosas
Por sobre os tesouros de Sierra Madre?
Perdendo-se nos labirintos de esmeraldas da Amazônia-sem-fim?

Não tinha o esplendor do tigre-de-Bengala
Nem a leveza do jaguar africano do Kongo
Ou a juba monumental de leão das savanas

Era arisco e subversivo
Perseguiram-no os soldados de Cortez e de Pizarro
Os índios de Tupac Amarú e os cortadores de cabeças
Os Navajos, os Sioux e os Apaches pegaram alguns
E deles tiraram o couro para vestir (pelo avesso) nas noites frias

Mas ele desceu pelos Andes...
Homiziou-se nas barrancas do Paraná, do Pantanal e do Chaco
Tomou o nome de Sussuarana, de onça-parda, de leão-baio, de puma
E continua povoando os sonhos (e os pesadelos) dos homens
Corre nas florestas de dia e de noite
Corre na nossa mente e corre no nosso sonho
Corre nas democracias e corre nas ditaduras
(Matou o cavalo Mustang de Cochise...)

Hoje ele sabe que basta ser cruel...
O Grande Gato ­ que é a metade secreta da Esfinge do Egito
Sabe também que é preciso ser imortal!
E ver o reflexo das estrelas nos rios em que bebe
Rios que, como ele, correm de dia e correm de noite
Na nossa mente ­ nos nossos sonhos...


Paixões e vida pelo correio

Em tempos de e-mails, as cartas passam a ser objeto de museu e atraem colecionadores

Néri Pedroso

O poeta português Fernando Pessoa já dizia que todas as cartas de amor são ridículas. Na atualidade correspondências alheias aparecem como sofisticados instrumentos de comunicação dos seres humanos. O crescente interesse pelo assunto faz o mercado de livros, nacional e internacional, investir na publicação de correspondências de nomes marcantes do teatro, da música, da literatura, das artes plásticas, da psicanálise, etc.
Na história do Brasil tudo começa com um belíssimo relato de Pero Vaz de Caminha, a carta que voltará ao País pela segunda vez numa megaexposição no Pavilhão Manuel da Nóbrega, em São Paulo, uma das atrações das comemorações dos 500 Anos. O contrato que viabiliza o retorno do documento envolve uma operação que custará mais de R$ 1 milhão à comissão que prepara os festejos do descobrimento.
Prática do século 19, as cartas exercem fascínio porque mexem com o voyer que há dentro de todo o ser humano. Elas, de certa forma, inspiram "Girassol, Giralua", de Lair Leoni Bernardoni, que em breve ganha lançamento festivo da Editora Letra D'Água.
Para o poeta concretista Haroldo de Campos, a carta é tempero de vida, traz conhecimento e reflexão. Para outros, elas trazem afeto. No caso de famosos e emergentes, quando editadas ajudam a compreender personalidades, como a do escritor Mário de Andrade que adorava ver o carteiro em ação.
Em tempos de e-mails, o ato de escrever a mão assume ar arqueológico, transforma as cartas em objeto do passado e atração de colecionadores ávidos por preciosidades. Algumas, de tão valiosas, até vão a leilão. Trata-se de um hábito que exige certa organização e sobretudo tempo, valiosa medida que se esgota com a velocidade surpreendente neste final de século. O telefone e a Internet imperam pela agilidade de comunicação, diálogos em tempo real. O filósofo Paul Virilio ao abordar a estética da velocidade refere-se a bomba do tempo, que destrói o próprio tempo. No efeito da mundialização, ele vê o tempo presente destruído ao vivo na TV.
O escritor e editor da "Vogue" no Brasil, Ignácio de Loyola Brandão, dá luz sobre o assunto ao comentar obra de Simenon em "O Verde que Violentou o Muro" (Editora Marco Zero), onde se confessa fascinado por livros de memórias e correspondências: "No fundo, sei o que procuro encontrar aí, e não é algo que me orgulhe. Ao descobrir as fraquezas dos grandes homens e suas pequenas covardias, sentimos menos vergonha de nós mesmos. E confesso que não me desagrada saber que foram vítimas de tal invalidez ou de tal doença".

No cinema

O tema nos cerca por todos os lados. São também as cartas o fio condutor do premiado filme brasileiro "Central do Brasil", com Fernanda Montenegro vivendo Dora, uma professora aposentada que reforça o orçamento escrevendo cartas para analfabetos. O comovente trabalho de Walter Salles Júnior chama a atenção sobre uma atitude - comunicar-se através do correio.
"As Ligações Perigosas", de Chordelos de Laclos ou "Os Sofrimentos do Jovem Werther", de Goethe, são clássicos da literatura cuja narrativa se dá por transcrição de cartas. O cinema também aprecia o assunto. "Nunca Te Vi, Sempre Te Amei", de David Jones, conta a história de dois bibliófilos (Anne Bancroft e Anthony Hopkins) separados pelo Atlântico, que se correspondem e se apaixonam.
"O Carteiro e o Poeta", do britânico Michael Radford, também mexe neste universo de forma singela e bem-humorada, ao levar às telas a tocante história de um carteiro que vê a possiblidade de ampliar seus horizontes a partir do momento em que começa a entregar cartas para o poeta chileno Pablo Neruda em seu exílio na costa italiana. Interpretado por Massimo Troisi, que morreu um dia após a conclusão das filmagens, o filme é uma obra-prima sobre a fraternidade, a poesia, as coisas simples da vida.


Texto do poeta Cruz e Sousa
revela homem apaixonado

O livro "O Monólogo da Provação"(Editora Bernúncia), de Harry Laus, é um preciosismo. Em texto maduro e enxuto, o autor catarinense relata uma experiência em Corumbá (MT) vivida como oficial do Exército e faz uma homenagem ao amigo poeta Mario Faustino, incluindo a correspondência que ambos mantiveram no ano de 1958. Quase sempre na íntegra, Laus transcreve as cartas com troca de impressões pessoais e literárias.
"Cartas de Cruz e Sousa - Cartas de Amor, Cartas de Dor", organização, introdução e notas de Zahidé Lupinacci Muzart (Editora Letras Contemporâneas) revelam o homem que foi o maior poeta simbolista do Brasil, o catarinense Cruz e Sousa. Muzart analisa as cartas guardadas no Arquivo Museu de Literatura da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. "Cruz e Sousa, conclui ela, foi um correspondente assíduo." A pesquisadora destaca as cartas de Gavita, a noiva amada, Nestor Vítor e Araújo Figueiredo, os fiéis amigos. Nas de Gavita, aparece um homem apaixonado, terno e amoroso; nas de Nestor Vítor, o amigo confiante.
Quem também mergulhou nesta temática foi o crítico de arte Jayro Schmidt. Vincent van Gogh - Pintor das cartas", editado pela Letras Contemporâneas, traça uma biografia a partir das cartas que o pintor escreveu para o irmão Théo, uma antologia publicada pela L&PM Pocket. Triste ironia do destino, Vincent van Gogh que se suicidou louco e desesperado em 1890, teve os seus girassóis pintados em homenagem a Paulo Gauguin leiloados em 1987 por US$ 36 milhões. Já em 1990, a obra "Retrato do Doutor Gachet" foi vendida por US$ 82,5 milhões. Em vida, ele conseguiu vender um único quadro.
Embora muitas vezes truncadas, entrecortadas, reticientes e sem o dom efetivo da palavra, as cartas trocadas com Théo são brutalmente emotivas, reveladoras de todo o sofrimento deste holandês hoje considerado um gênio. Dono de uma arte inigualável, Van Gogh também foi autor de uma extraordinária correspondência com o irmão, deixando um lúcido testemunho de um talento universal que ninguém, com exceção de Théo, soube dimensionar. (NP)


Prosa poética e imagens de
Lair Bernardoni em livro

A prosa poética e as imagens de Lair Leoni Bernardoni, que a Editora Letra D'Água colocará brevemente no mercado, reúne textos e memórias de puro deleite estético. O livro deve ser aberto e tratado como sonho e esperança de um mundo melhor que acalenta os homens de crença. Não espere um livro inovador, porque ele segue - com sutileza - o que se vê em "Griffin & Sabine". Além do mais, a maioria dos textos e fotos já foram publicadas no Anexo. Nada, no entanto, tira o valor desta obra interativa com reprodução de cartões postais, folhas amareladas de diversos lugares do planeta, areia chilena, colhida em Isla Negra e todos os encantos da natureza sublime desta artista nascida em São Francisco do Sul.
Em uma de suas páginas, um envelope convida para a comunhão de notícias e afetos. Enderaçada para a autora, o escritor e jornalista Apolinário Ternes, situa com perfeição o que acontece nestes tempos de e-mails. Ele escreve a mão. "O tempo e a pressa desarticularam a secular cumplicidade de mão e cérebro. Sinto dificuldades em coordenar o pensamento ágil com a lenta progressão da caneta sobre o papel." Mas ele não desiste. Ainda bem.
Há quantas décadas não escrevo assim?, indaga-se o autor que vive em Joinville e não gosta de e-mails, embora reconheça a força da agilidade. A correspondência pela Internet, situa, é atrevida porque invade a privacidade, normalmente chega para chatear com tudo o que é dispensável. "A Internet permite que todos os chatos sem crítica tenham acesso a gente. Só respondo se o texto tiver uma dose mínima de inteligência", sentencia ele.
Uma carta para pessoas sedentas de emoção poderia sair do computador, mas não estaria cumprindo o cerimonial da comunicação fértil, pressupõe Ternes, definindo logo a seguir certos manuscritos como relíquias no tempo de celular e fax.
Ele já aprendeu que hoje mais que ontem, todos necessitam destas "bússolas que orientam nossas sofridas cabeças, antenadas em quase todas banalidades". Para ele, cartas antigas, amigas de tantos séculos, são comedidas demonstrações de humanidade. "De renúncias, talvez. De refletida abstração de tempos. De abdicação de nós mesmos, em favor do outro. Coisa que os modernos desaprenderam. Ela, a carta, deixou de ter o seu mistério. A encantada circunstância de ser única, num mundo que se especializou no múltiplo. De ser lenta. mum tempo em que entronizaram a insensatez da pressa."
A tarefa da escrita precisa ser reinventada, defende o jornalista. "Se possível, a mão, que é para facilitar o strep-tease do coração." (NP)


Dores, alegrias e segredos
compartilhados entre McCarthy e Arendt

E as cartas entre amigos? "Entre Amigas - A Correspondência de Hannah Arendt e Mary McCarthy 1949-75" (Editora Relume Dumará) é uma obra inteligente, onde destaca-se a afinidade entre as duas escritoras que discutem filosofia, ética, política, literatura, jornalismo cultural, etc. Envolvente, o livro torna-se curioso porque a correspondência entre 1949-75 ocorre quando a norte-americana vivia em Paris e a pensadora alemã em Nova York. Elas comungam dores, alegrias e segredos como o de Mary sobre um caso amoroso com um obscuro crítico literário inglês e ex-boxeador chamado John Davenport.
O leitor conhece a vida intelectual e o clima espiritual da França e dos EUA, mergulhando em questões que emocionaram e mobilizaram os pensadores na segunda metade do século 20. Sensíveis, profundamente inteligentes, as cartas são emocionantes sobretudo pelo profundo amor e respeito fraterno que ambas tinham uma pela outra. No enterro de Arendt, em dezembro de 1975, Mary McCarthy fez uma oração de despedida com voz embargada pela emoção: "Ela era ardorosa como os que acreditam na justiça podem tornar-se e como os que acreditam na misericórdia devem permanecer (...) Ia aonde a investigação séria a levasse e, se fez inimigos, nunca foi por medo. (...) Quanto a mim, amei-a ardentemente".
Igualmente é célebre "Algumas Cartas e Trechos do Diário de Katherine Mansfield"(Editora Noa Noa), que desvenda queixas conjugais e fantasmas de panelas e fogões, mas também revela um exigente projeto literário. Flaubert e George Sand também trocaram uma instigante correspondência dando luz sobre a segunda metade do século 19.
As cartas também resgatam o exílio brasileiro de Elizabeth Bishop (1911-79), a mais importante poeta dos EUA da segunda metade do século 20. Apaixonada por Lota, uma brasileira, viveu no Brasil entre 1951 e 1966. Seu exílio amoroso e a história no País são descortinados por cartas, "uma forma de comunicação agonizante", como definia a poeta.
Absolutamente apaixonada pelas correspondências, ao retornar ao seu país, Bishop ensinou curso em Havard sobre "Cartas: Leituras sobre Correspondências Pessoais, Famosas e Infames, do Século 16 ao Século 20". Quando viveu em 1970 com uma nova companheira em Ouro Preto (MG), ela escreve aos amigos que as duas eram hostilizadas nas ruas, agredidas com pedradas nas janelas de casa e lixo no jardim.
Outro apaixonado por cartas era o escritor Elias Canetti, que considera os diários de Cesare Pavese superiores à sua obra ficcional. Canetti dedicou um ensaio, "A Consciência das Palavras", à correspondência que Kafka manteve com Felice.

Cortesia

O escritor gaúcho Liberato Vieira da Cunha tem como esporte favorito dar trabalho aos Correios e Telégrafos. Para ele, cada carta recebida é uma cortesia, "um aviso de que homem algum é uma ilha. As cartas, conceitua o cachoeirense, estendem pontes em sua direção, comentam personagens, crônicas, contos, repartem confidências, pedem palpites sobre situações de vida, "tudo num jeito bonito de dizer que, embora desconhecidos, são meus amigos".
Na busca pelo outro, a palavra sobressai como negação da morte. Ao escrever, comunicar-se por palavras, o homem encontra a esperança de infinito na finitude, como já definia a escritora Lygia Fagundes Telles. "Gravar a invenção para garantir a sua permanência, a palavra precisa ser guardada como os vagalumes ou as borboletas que eu caçava e fechava nas caixas de sabonete." Isabel Allende, que vê a escrita como exercício da memória, escreve para pôr ordem no passado, exorcizar perdas, esclarecer a confusão da vida, que segundo ela, "passa tão rápida e não nos dá tempo pra entender como as coisas realmente acontecem". (NP)


Mexicana Frida Kahlo expõe
vida conturbada e trágica

"Cartas Apaixonadas de Frida Kahlo" (José Olympio Editora), compilação de Martha Zamora, revela a vida conturbada e trágica da grande pintora mexicana e companheira do muralista Diego Rivera. O livro reúne mais de 80 correspondências enviadas a amigos, familiares, inimigos e amantes. Zamora classifica a artista como uma fértil redatora de cartas. Escrevia com franqueza e sem reservas, empregando todo o vocabulário de que dispunha para externar suas idéias e emoções. "Na adolescência, escrevia cartas de amor ao namorado; adulta, correspondeu-se com seu médico e com amigos dos EUA; e quando viajava, mantinha-se em estreito contato com os de casa."
"Griffin & Sabine - Uma Correspondência Extraordinária" (Marco Zero) é uma singular obra-prima - de ficção - que retoma o charme das cartas de amor e estimula o voyerismo do leitor. Com os fac-similes de postais, com selo, carimbo, letra discursiva e até os envelopes, o autor Nick Bantock relata as histórias de seus personagens desenhistas com requintes gráficos e vários estilos artísticos. Luxuosamente concebido, com texto brilhante, o livro traz desenhos, garatujas, colagens. Interativamente, o leitor abre as cartas, retirando-as de dentro de envelopes ricamente criados. "Num mundo em que tudo é rápido, uma carta de amor é como ir para o campo e apreciar as estrelas", diz o autor canadense de Vancouver.
Na época do lançamento, 3 milhões de exemplares foram vendidos em 12 países; no Brasil vendeu 10 mil em 15 dias. Feliz combinação entre texto e imagem, o livro é composto de uma sucessão de cartas que forma o enredo. Instigante correspondência que é em parte ficção, parcialmente mistério e inteiramente obra de arte. (NP)


Dois poetas e suas reflexões

Papa do modernismo brasileiro, poeta, romancista, ficcionista, missivista, crítico, músico, chefe do departamento de cultura do município de São Paulo e até mesmo estilista (desenhava seus próprios robes), Mário de Andrade exigiu em testamento que suas 5 mil cartas fossem abertas somente 50 anos depois de morto, ou seja, depois de fevereiro de 1995. O Instituto de Estudos Brasileiros mantém esse rico acervo desde 1963.
Na paciência da escrita e das reflexões de Andrade, a história cultural do Brasil pode ser conhecida através da leitura de correspondências com Osvald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Manuel Bandeira, Lasar Segall, Anita Malfatti e Camargo Guarnieri.
A Editora Record lançou recentemente livro que reúne a correspondência mantida por Mário com o poeta Manuel Bandeira e ajuda a esclarecer pontos obscuros na obra, vida e no campo amoroso do modernista, que jamais foi visto com uma namorada e sua masculinidade chegou a ser posta em dúvida por Osvaldo de Andrade, através de um jornal.
Os temas estritamente literários predominam na correspondência entre os dois amigos, que também discutem livros, poemas, sugerem títulos e outros ajustes na produção. Tratam-se respeitosa e afetuosamente, adotando uma franqueza viril. Às vezes brigam, como todos os bons e verdadeiros amigos. Mário eventualmente chama Manuel de Manu, que por sua vez reclama que nos seus encontros sempre há um clima incompreensível, de constrangimento. "Parece haver dois Mários, um das cartas, outro da vida real", explicava o poeta. (NP)

  • Néri Pedroso é jornalista, editora-chefe do caderno AN capital, de A Notícia, publicado para a Grande Florianópolis


Belo filme ­ Beleza, "Beleza Americana"! Até que enfim, a gente assiste a um filme norte-americano adulto com atores que não são meros bonecos falantes. Sim, porque o cinema que domina o mundo nos considera retardados mentais, com as idiotices que espalham nas telas, a tudo mascarando com uma competência técnica invejável. Violência desmedida, explosões, correrias, e o cara sai da sala mais vazio que bolso de trabalhador brasileiro que ganha o salário mínimo. Sam Mendes, o diretor, vem do teatro, o que é outra conversa. Sabe dirigir atores, como Mike Nichols, que em 1967, com "A Primeira Noite de Um Homem", realizou uma obra revolucionária, detonando uma sociedade conservadora de aparência, e sacana nos bastidores. E ainda por cima contava com a trilha sonora magnífica de Simon e Garfunkel. O elenco estava mais afinado que o violino de Paganini, destacando-se Dustin Hoffman e Anne Bancroft. Em "Beleza Americana" a situação é a mesma, com uma diferença: se Kevin Spacey está ótimo, Annette Bening dá um show, e só não ganha o Oscar por um imperdoável descuido dos membros da Academia.

ATOR ­ O presidente Fernando Henrique Cardoso confessou a realizadores do cinema brasileiro que gostaria de ser ator, melhor do que enfrentar os pepinos diários da nossa república. O querido presidente está enganado: na política, como no palco, quem não é ator está fadado a ganhar de presente dezenas de tomates podres. Conforme-se, então, e capriche nos ensaios para não dar vexame nas apresentações.

BOM APETITE ­ O alter-ego de Carlos Adauto Vieira, Charles D'Olengèr, eu já conhecia desde os anos 60, quando publicava suas crônicas no semanário "O Município", de Brusque. Era leitor de carteirinha. E agora tenho comigo as "Saborosas Estórias Curtas", livro editado pela Letra D'Água, de Joinville, que traz o tempero bem temperado do mestre-cuca Charles, francês-ilhéu-joinvilense, ou ao contrário, pois a ordem dos fatores não altera o talento. Para enfrentar o mau-humor, o livro é milhões de vezes mais eficiente que o sal de frutas Eno. Carlos Adauto, ou Charles D'Olengèr, tanto faz, provoca frouxos de risos, como diria o primo Rico. Principalmente quando as histórias curtas têm como cenário a Ilha de Santa Catarina e seus personagens do capítulo Quintal de Todos Nós. Com estas e mais as histórias dos capítulos Aconteceu Comigo, Colônia Dona Francisca, Amigos e Aldeia Global, são 239 deliciosas páginas.

QUEM EXPLICA? ­ Todo o ano é a mesma coisa: a gente bate o pé, roda a baiana, dá uns tiros para o alto, esmurra a mesa, mas acaba se rendendo. No dia 26 de março, mais uma vez, assistir a festa do Oscar será programa obrigatório. Freud tentou explicar, mas desistiu, e torceu por Robert Taylor em "Ivanhoé" que, por sinal, nem disputava a cobiçada estatueta.

Manchetes AN

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Em "O Primeiro Canto", cantora e compositora portuguesa exibe talento e é apontada como sucessora de Amália Rodrigues, que morreu no ano passado

REGIS MALLMANN

Florianópolis ­ Em ano de comemorações em torno do "descobrimento" do Brasil pelos portugueses, chega ao mercado nacional o CD "O Primeiro Canto" (Universal), quinto álbum de Dulce Pontes, cantora que alguns críticos classificam como a "nova" Amália Rodrigues, mais famosa e cultuada intérprete de fado de Portugal, morta no ano passado. Mas Dulce não é nem nova e muito menos deve ser comparada a Amália. Sua interpretação para o gênero musical que traduz a alma lusa é moderna e cheia de inventividade, sem no entanto fugir da raiz sonora, da melodia e dos versos sofridos que são a marca registrada dos fados. Apesar de discreta aparição, o brasileiro Jaques Morelenbaum é convidado do disco, onde toca cello em algumas faixas e assina arranjos em outras.
Neste novo trabalho, Dulce Pontes se propõe a emprestar sua voz para cantar os quatro elementos da natureza. Água, terra, fogo e ar surgem assim em cada uma das 14 faixas do disco, recheado de referências a um país que em sua essência ainda é território primitivo, primo pobre e de tons cinzas de uma Europa moderna e rica. Para levar sua terra para outros cantos, a cantora-compositora foi buscar no passado elementos para fazer do CD uma obra completa, engajada e essencialmente portuguesa. E o fado é a ponte que usa para passar a barreira do tempo. É, no entanto, apenas uma de suas referências musicais: não se constitui no único espaço para que ela ouse experimentar a deliciosa voz.
Essa descida que Dulce faz em busca da música popular portuguesa é uma experiência e tanto para ouvidos brasileiros, pouco acostumados aos sons desse país que nos é ao mesmo tão próximo e tão distante. Para tornar o disco universal a artista fez uma minuciosa busca das fontes, resgatando instrumentos e jeitos de cantar regionais que já não são mais usados. Assim, surgem ao londo das músicas ruídos novos, como o da moraharpa e o tambor oceano, peças quase medievais que dão a músicas como "Ondeia Água" e "Tirioni" uma gostosa melodia, que emociona e faz entrar em um universo sonoro totalmente inédito.
Nessa verdadeira navegação, Dulce Pontos comete interpretações fortes para algumas composições suas dominadas pela poesia. "O Que For, Há-de-ser" é um caso especial no disco, pois revela como Dulce segue à risca a poética que cerca a mística portuguesa. Uma poesia densa e triste que surge em versos como "ai que seja o que for/ que o amor me traga/ sei que é primavera neste inverno/ ver que o olhar é de pequenas rugas e de flores/ tão terno.../ sonhar seu beijo na fronte/ a luz no horizonte/ como o primeiro raio de sol/ sentir por dentro da alma/ paz e a calma/ dos que não estão sós".
Outra faixa que merece ouvidos atentos é "Velha Chica", um dueto com o angolano Waldemar Bastos, também autor da letra. É um momento forte do disco ao remeter para Angola, antiga colônia portuguesa e hoje um país miserável e devastado por uma guerra sem fim. A mágoa da gente angolana é cantada de forma sofrida com palavras como "antigamente a velha Chica/ vendia cola e gengibre/ e lá pela tarde ela lavava a roupa/ e nós os miúdos lá da escola/ perguntávamos a vóvó Chica/ qual a razão daquela pobreza/ daquele nosso sofrimento". É ouvir e se emocionar.


Outros lançamentos

*"Vivo", trabalho que Ney Matogrosso lança agora, na cola do sucesso de "Olhos de Farol" (disco do ano passado que extrapolou todas as expectativas de gravadora Universal e do próprio cantor), é um CD desnecessário. Um trabalho dispensável para um artista que vinha dizendo há tempos que não sente necessidade de levar para o seu público esse tipo de gravação porque prefere o contato direto, no palco, coisa que ele faz como ninguém. Ney deveria ter mantido sua palavra. Não que o lançamento seja um disco ruim. Pelo contrário, é muito bom, mas não traz nada de novo, é como se estivéssemos ouvindo "Olhos de Farol". A única diferença são algumas palmas lá e cá e a inclusão de antigos hits, como "Sangue Latino", "Rosa de Hiroshima" e "Metamorfose Ambulante", entre outras obviedades. Para quem viu o show "Olhos de Farol", esse "Vivo" soa como pizza de geladeira, boa, porém fria.(RM)

*Podiam ter deixado Bob Marley ficar sem essa. Justamente no ano que o reggaeman completaria 55 anos, a Universal inventa um disco póstumo que, certamente, ele próprio abominaria. Obra feita pretensamente para homenagear o cantor, "Chant Down Babylon" reúne vários artistas para, digamos, gravar com ele. Para conseguir essa proeza, tarefa simples nos tempos de hoje, com tecnologias incríveis, "ressuscitaram" a voz do bom jamaicano para que ela se juntasse a de outros ídolos da música atual. Foi possível assim fazer duetos de Bob com Erikah Badu em "No More Trouble" e a Lauryn Hill ­ a garota da hora ­ em "Turn Your Lights Down Low, entre outras, por exemplo. Até aí tudo bem, já que nessas versões o mais puro reggae até foi mantido intacto. A chacina musical começa mesmo com a tolice que fizeram ao misturar o gênero que consagrou o rasta com raps chatos dos Krayzie Bone, chamado para "dividir" com Marley a clássica "Rebel Music". Mesmo expediente foi usado para reviver "Johnny Was", que ganhou ares novos com a inclusão de uma falação do rapper Guru, e em "Concrete Jungle", que quase desaparece em meio às falações apocalípticas do rapper Rakim. Essa chatisse se repete até o final do disco, 12 faixas ao todo. Coitado do Bob.(RM)


Sai o derradeiro The Cure

O CD "Bloodflowers", 11º disco de estúdio do The Cure ­ que seu líder, Robert Smith, pretende também que seja o último ­, é uma agradável cerimônia de adeus. Depois de quase 20 anos de bons serviços prestados ao pop, o mítico grupo inglês não teve a pretensão de dar a última palavra. Quer ser apenas uma boa lembrança de um século que já morreu.
Eles são de um tempo em que os teclados não tinham tantos timbres e possibilidades. Acostumaram-se a tirar o máximo do mínimo, e é isso que continuam fazendo, em faixas como a delicada "Out of This World", a que abre a carta da despedida. Aos 40 anos, Robert Smith agora gosta de ouvir Mahler, vive um casamento sólido e acha que não pode comportar-se mais como se tivesse 25 anos. Sabe que deixou obras essenciais do pop, como "Pornography" ("Um momento-chave da minha existência", diz) e canções épicas, como "Killing an Arab", de 1979 (inspirada em "O Estrangeiro", de Albert Camus).
"Eu adoraria pensar que nós deixamos um suvenir de uma banda intensa", disse Smith ao jornal francês "Libération". Estava certo. As nove canções de "Bloodflowers" são intensas. Como "There Is no if...", ainda sobre a falta de comunicação no mundo da hipercomunicação. "Lembra da primeira vez que eu disse te amo?/Estava chovendo e você não ouviu".


Skuba lança clipe na MTV

Ricardo Gozzi
Agência Estado

Curitiba ­ A banda de ska paranaense Skuba lançou sexta-feira o clipe da música "Drugs", primeiro single do CD "À Moda Antiga", o mais recente trabalho do grupo. O vídeo ­ o terceiro da história do Skuba ­ estreou oficialmente durante o programa "Supernova", da MTV. Além da veiculação do clipe e de imagens dos bastidores da gravação, o programa ainda apresentou uma entrevista com o grupo.
Em entrevista à Agência Estado, o vocalista e guitarrista Sérgio Soffiatti disse estar satisfeito com o resultado do novo clipe. "O orçamento foi pequeno. Mas toda a equipe mostrou muita garra, desde diretores e produtores até iluminadores e membros da banda. É o melhor clipe que já fizemos", garante o líder da banda curitibana.
Lançado no fim do ano passado, o CD "À Moda Antiga" já teve sua primeira tiragem esgotada. "Lançamos uma tiragem inicial de 5 mil cópias e todas foram vendidas em pouco mais de duas semanas", informou Soffiati. Segundo ele, este resultado é fruto do trabalho de divulgação realizado nas rádios de São Paulo. "Nosso primeiro single, 'Drugs', está tocando nas três rádios rock de São Paulo", diz o músico, referindo-se às emissoras 89, Mix e Brasil 2000.
"Isso já deu resultado. O lançamento do clipe marca o início da divulgação em âmbito nacional", comemora. "Além da MTV, já estamos gravando programas em outras emissoras de televisão e procurando rádios que tenham a programação transmitida para todo o País".


Filme denuncia
imprensa covarde

Com um discurso corajoso e grandes atuações, "O Informante" leva os bastidores do jornalismo
para o cinema e briga pelo Oscar

Antônio Gonçalves Filho
Agência Estado

A Brown & Williamson Tobacco Co., uma das maiores empresas fabricantes de tabaco nos Estados Unidos, foi notícia do "New York Times" em junho de 1994, quando um professor universitário passou ao jornal documentos secretos que esconderam por 40 anos estudos relativos às doenças causadas pelo cigarro. Ele provocaria não só dependência - criando viciados - como degeneração física e câncer. Num relatório interno da British American Tobacco (Batco), empresa-irmã da Brown and Williamson, a palavra câncer é trocada por um código, "zephyr", mas, segundo revelava o relatório, os pesquisadores tinham descoberto efeitos ainda piores de substâncias químicas como o aromatizante benzopireno, 20 vezes mais ativo do que o arsênico.
A publicidade do filme "O Informante" (The Insider) - cuja exibição em Santa Catarina se restringe, por enquanto, apenas a Blumenau -, apesar de reproduzir um maço de cigarros, não traz, porém, a advertência do Ministério da Saúde, de que o cigarro pode causar câncer nos pulmões, doenças do coração, etc. A tarjeta adverte: "Atenção: revelar a verdade pode ser prejudicial". E foi prejudicial mesmo para o químico Jeffrey Wigand, cientista e alto executivo da Brown & Williamson, demitido em 1993, mas preso a ela por um contrato de sigilo que o proibia de revelar relatórios da empresa. Pressionado por um jornalista da CBS, Lowell Bergman, produtor do programa "60 Minutos", Wigand quebra o sigilo e concede uma entrevista bombástica a Mike Wallace, ameaçada de não ser transmitida por causa de interesses comerciais.
A Westinghouse estaria interessada na compra da CBS e não era possível enfrentar um processo do fabricante de cigarros que a levaria à falência. O tema central do filme, portanto, é a luta de Bergman para colocar no ar a entrevista de Wigand, enquanto a vida de seu entrevistado corre perigo. Ameaçado de morte, Wigand refugia-se num hotel, perde a família num processo de divórcio e afoga-se num mar de álcool quando passa a ser alvo de uma campanha difamatória que o pode levar à cadeia. O neozelandês Russell Crowe, de "Los Angeles, Cidade Proibida", faz uma comovente interpretação de Wigand, concorrendo ao Oscar ao lado dos favoritos Kevin Spacey ("Beleza Americana") e Sean Penn ("Sweet and Lowdown").
O prêmio, claro, poderia ajudar a carreira do filme de Michael Mann, que fracassou nas bilheterias americanas, não faturando 50% do que custou. Essa culpa não pode ser computada a Mann ou aos profissionais envolvidos na produção. Do elenco excepcional (Russell Crowe, Al Pacino, Diane Venora) ao fotógrafo Dante Spinotti (de "Los Angeles, Cidade Proibida"), passando pela autora da trilha sonora (Lisa Gerrard, do grupo Dead Can Dance), todos colaboraram para fazer de "O Informante" não apenas um thriller corajoso contra a indústria do tabaco, mas uma sensível obra sobre o poder da palavra. O problema é que ninguém acredita mais nesse poder.

Ousadia

As advertências do Ministério da Saúde ou as denúncias de Jeffrey Wigand não bastam para fazer alguém parar de fumar. Não sem razão, o diretor Michael Mann, formado na tradição do cinema comercial (de "O Último dos Moicanos", "Fogo Contra Fogo"), começa seu filme com Mike Wallace entrevistando um líder fundamentalista islâmico. A mensagem parece clara: aquela seqüência inicial, editada apenas para mostrar a ousadia do intrépido Bergman (Al Pacino), destaca a presença do arcaísmo religioso, anacrônico mas verdadeiro, no mundo moderno, laico e hedonista. O muçulmano que Wallace acusa de terrorista pode ser mesmo o que ele desconfia, mas seus atos são comandados pela fé na palavra. Sagrada, incorruptível, para os islâmicos.
Já os envolvidos na entrevista devastadora contra o fabricante de cigarros têm outros interesses além da simples denúncia. Wallace, âncora de "60 Minutos", estava se aposentando. Não queria ser lembrado como o jornalista que cedeu à CBS o direito de editar seu programa. A fama pode durar 15 minutos, como dizia Andy Warhol, mas a infâmia dura para sempre. A honestidade do roteirista e diretor Michael Mann é tal que ele não desculpa sequer o informante. Como os demais, sua ética é também questionável. Wigand tinha uma filha asmática. Sabia bem o que significa uma pessoa morrer sem respirar (como os fumantes com câncer). Por que omitiu as informações que sabia por tanto tempo? Por que quebrou o acordo de sigilo com a Brown & Williamson? Afinal, palava é palavra.
Mann soluciona esse conflito ético mostrando a devastação moral de Wigand acompanhada por música religiosa. Nos momentos mais tensos, a "Litania" de Arvo Peart surge na trilha sonora como uma trombeta do Apocalipse. Os movimentos lentos da câmera de Spinotti acentuam a indecisão dos personagens, conciliando tempo de ação com tempo psicológico. Contra a histeria do jornalismo televisivo e sua perigosa mania de editar (e fragmentar) a vida alheia, Mann mostra a luta do executivo arrependido para resgatar sua dignidade, lidando basicamente com uma original solução cromática (a paleta hopperiana do hotel contra a luz do dia do julgamento libertador).
"O Informante", apesar disso, não faz desses recursos uma alegoria. Mann sabe que a realidade é muito mais poderosa.


Opinião

Quem tem medo das rádios educativas?

Jair Brito
Especial para o Anexo

Sem som, sem programação, sem equipe, sem dinheiro... são as rádios "sem". Isso ocorre em quase todas as rádios educativas do Brasil. Com raríssimas exceções, esse quadro não é real. Por isso duvidei quando tomei conhecimento de que tem gente em Joinville com medo da FM Educativa da Udesc. Isso é querer arrumar chifre em cabeça de cavalo na tentativa de inviabilizar a implantação dessa rádio educativa que, igual a tantas outras congêneres do país, sofre do mesmo mal: falta de dinheiro. Comprar equipamentos técnicos de primeira linha, contratar pessoal qualificado e consolidar uma programação, demandam conseguir boas verbas.
O que se ouviu até agora, na freqüência de 106.3, foi uma rádio improvisada que, mesmo assim, graças ao talento e à garra de Ramiro Gregório da Silva ­ eu diria teimosia ­ já vem alcançando sucesso. É com teimosos, como seu Ramiro, que as rádios educativas brasileiras conseguem sobreviver. A maioria delas nasce sem nenhuma planificação. Nem por parte do governo que autoriza e nem das entidades que ganham as concessões. Essas concessões, 99 por cento, determinam o uso de transmissores de pequeno porte, fazendo com que as emissoras tenham pouco alcance.
Joinville precisa mais é colaborar (por inteiro) para a implantação definitiva de sua rádio educativa. Os empresários devem prestar permanente ajuda material. Indispensável também é a participação efetiva da sociedade. Essa união de esforços, por certo, resultará no fortalecimento desse canal que tem como missão primordial difundir educação e cultura através de uma programação séria. E os apoios culturais devem ser olhados (ouvidos) de forma natural, como vem sendo praticado em muitos veículos do gênero existentes no Brasil.
Sem os chamados institucionais, o rádio e TV educativos não terão condições de sobrevivência. Assim como se verifica hoje na maioria dos espetáculos teatrais e musicais; muitos deles jamais teriam sido encenados sem a colaboração de "patrocinadores" que se beneficiam das leis para abatimento de impostos. Esse é o caminho a ser seguido pela FM Educativa de Joinville porque, apesar da boa intenção da Udesc e da boa vontade da prefeitura, o fato é que, sem as verbas necessárias, tocar projeto dessa natureza é tarefa muito difícil. Vejam o caso da Rádio e TV Cultura de São Paulo que, mesmo respaldada por excelente número de apoios culturais ­ além das verbas que lhe são concedidas pelo governo do Estado ­ ainda tem dificuldade para manter uma programação de bom nível. O que não basta. É preciso que ela esteja aliada a um bom suporte técnico atualizado, fator indispensável para uma transmissão de boa qualidade.
O leitor deve estar se perguntando "quem está tão preocupado com a FM Educativa de Joinville e se julga no direito de meter a colher nos assuntos de nossa cidade". O autor deste artigo é joinvilense. Com muito orgulho. Nasci na Rua Ipiranga. E ainda criança me interessei por rádio (nas decádas 40/50), ouvindo a ZYA-5 Rádio Difusora (do pioneiro Brosing) e a Rádio Nacional do Rio, que era sintonizada com som local. E foi esse amor de infância que balizou sempre minha carreira profissional, desenvolvida no próprio veículo rádio, em televisão e jornais, inclusive com uma rápida passagem pela Rádio Cultura de Joinville (anos 60), quando a Fundição Tupy passou a controlar suas ações e Ramiro Gregório da Silva, assumindo a superintendência, estruturou e dirigiu uma programação de sucesso por quase vinte anos. Pelo rádio, continuo apaixonado.
E é essa paixão que me faz um entusiasta permanente do rádio e defensor das emissoras educativas ­ ainda maltratadas ­ mas, inegavelmente, um meio de comunicação que pode tentar diminuir o estrago que vem sendo causado nos ouvidos dos brasileiros pelo estilo mercantilista e pouco inteligente ­ baixo padrão ­ que invadiu a maioria das freqüências de AM e FM. Felizmente, nas chamadas rádios educativas se pode ouvir Elis Regina, Milton Nascimento, Bethânia, Gal e muitos outros banidos das ondas do rádio comercial, como os instrumentistas e intérpretes de nossa música de raiz.

  • Jair Brito (jairbrito@ig.com.br) é ex-diretor das rádios Independência do Paraná (Curitiba), Gaúcha (Porto Alegre), Bandeirantes e Globo (São Paulo).

 
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