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ANotícia
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Da ironia da etiqueta
à ética do sarcasmo
Jornalista americano
propõe a inversão de valores como fuga da mediocridade
cotidiana
Katherine Funke
Especial para o Anexo
O
norte-americano P.J. O'Rourke, sob o rótulo de "escritor
mais engraçado da América", entra com ironia
para o rol dos conselheiros da conduta social ao lançar
o livro "Etiqueta Moderna - Finas Maneiras Para Gente Grossa"
(Conrad Livros). São 266 páginas com levíssimo
toque existencialista de regras para a vida que chocam qualquer
leitor (e, por isso, fazem rir). O cuidado estético, tradicional
e rebuscado contrasta com o teor satírico do livro.
Aparentemente inocente, a idéia de O'Rourke é muito
mais do que irônica. Torna-se inevitável que os
leitores percebam a mediocridade e falta de nexo que o autor
sugere serem a vida moderna. O livro, às vezes repetitivo,
discorre sobre a elegância de vomitar, divorciar-se, "aprontar",
transar e até morrer. Nada de regras sobre como segurar
os talheres ou comportar-se convenientemente à mesa. Aliás,
comportar-se bem não é considerado sinal de "bom
tom" para o autor. Um exemplo: quanto mais bebida e drogas
forem oferecidas na festa, mais cotado o anfitrião fica
para outros eventos da high society. Para quem pensa que isto
é a decadência, uma pergunta: quem garante que um
simples passeio pela orla não seja uma superorgia?
Como não cabe à resenhista julgar o comportamento
de ninguém a não ser o próprio, melhor mudar
de assunto e lembrar o que dizem as "línguas ferinas"
que "passeiam pela orla": quem já nasce com
classe não precisa de guia de etiquetas algum - e tal
afirmação foi retirada de algum guia, para que
o indivíduo não se traia citando algum pedaço
do que leu como se fosse prova de cultura e inteligência.
Admirável a coragem do escritor ao tratar o assunto "drogas"
com clareza e liberdade. Assim como os livros convencionais de
etiqueta fazem quadros didáticos explicando que tipo de
comportamento ter, em que ocasião e com que finalidade,
o guia de O'Rourke para as drogas é completo: cita ocasião
social apropriada, ensina o que fazer, dizer, quebrar e como
se desculpar no dia seguinte ao uso de maconha, LSD, crack, heroína
e álcool. No mesmo capítulo, algumas linhas explicativas
sobre essas e outras drogas e um destaque especial à cocaína
(que o autor revela utilizar, por torná-lo "mais
inteligente, espirituoso, charmoso, esperto, bem vestido, bonito
e sexualmente mais atraente"). O'Rourke considera uma questão
de educação que o indivíduo cheire o máximo
da cocaína oferecida a ele, para evitar que outra pessoa
a utilize e destrua suas mucosas, possa ter ataques cardíacos
ou morra de overdose.
"Etiqueta Moderna", apesar de tratar os moradores dos
EUA como americanos (como se não houvesse outras américas
por perto), cutuca sem piedade as feridas do mundo contemporâneo,
em que as conseqüências para a rotina familiar e individual
da correria pela sobrevivência se tornaram inevitáveis,
como a alienação do contexto histórico e
a ausência de espírito solidário. Alguns
dos sobreviventes, ainda com capacidade perceptiva, já
perceberam que o que se relaciona à expressão "ser
humano" merece ser revisto: humanizar não é
(se é que um dia foi) sinônimo de tornar-se melhor,
mais sensível e compreensivo; mais compatível é
o contrário, e o livro prova a constatação
em todas as suas "brincadeiras". Por isso, embora hilariante,
ler as dicas para "gente grossa" é também
triste e revoltante, mais ou menos como assistir a um seriado,
desses com sons de palmas e risos da platéia sempre escondida:
um passatempo frustrante. Não apenas pelo escracho da
pouca profundidade e sentido com que alguns de nós, seres
humanos, vivemos, mas também porque P.J. O'Rourke, cheio
de intolerâncias, revela nas entrelinhas preconceito contra
portadores de HIV, homossexuais, otimistas, estrangeiros, pobres
e caretas, como se tudo isso fosse fora de moda. Isso sim é
que é falta de elegância.
Talvez o mundo já seja sarcástico demais para receber
um livro como esse, o que não significa desprezo pela
sua existência - o mundo é plural e das pluralidades
se vive. Mas há de se considerar que falta bom senso em
algumas áreas hedonistas que se dizem artísticas
mas pouco ou nada acrescentam à cultura internacional.
Basta ver o caso do Brasil - país promissor de tantos
escritores escondidos e editoras pequenas que tentam sair da
escuridão - para entender que os leitores podem ter muito
mais a absorver do que com um livro norte-americano de regras
inúteis sobre etiqueta.
Colunismo social às avessas
GLEBER PIENIZ
"Etiqueta Moderna - Finas Maneiras Para Gente Grossa"
é um livro que, definitivamente, não deve ser levado
a sério. P.J. O'Rourke, o iconoclasta, não merece
leitura mais atenta do que aquela dispensada ao colunista social,
o bajulador. Estas duas figuras representam os extremos da linha
cujo ponto intermediário, longe dos excessos e arremedos,
encontra a vida cotidiana, aquela vivida por pessoas comuns,
tidas como normais. Logo, também não dá
para levar a sério quem dá crédito irrestrito
ao livro e às colunas sociais porque, provavelmente, esta
pessoa tem uma noção muito distorcida da realidade.
Mas não dá para comparar trabalhos quase opostos
de forma tão simplista: há diferenças fundamentais
entre a visão de mundo de O'Rourke e a de seus colegas
colunistas. A primeiro delas é óbvia: o jornalista
americano escreve com ironia e, pícaro, sabe que está
sendo engraçado. O colunista social, por sua vez, tenta
parecer sério, respeitável e, combinando esta pretensão
com a falta de intimidade com as palavras, torna-se risível.
O'Rourke busca o inusitado, o esdrúxulo e o caricato para
extrair daí o brilho. As páginas de mexerico dos
jornais parecem estampar o contrário: quanto mais glamourosa
a cobertura, mais medíocre é o fato.
Editor de assuntos internacionais da revista "Rolling Stone",
O'Rourke tem o dom da palavra: escreve com leveza e astúcia,
pinça exemplos cômicos para ilustrar suas teorias
e, como seu trabalho não poderia ser de todo perfeito,
falha apenas ao debruçar-se excessivamente sobre o american
way of life, citando casos e figuras que, para nós brasileiros,
não fazem muito sentido e até mesmo podem estragar
o desfecho da piada. Aliás, não é por uma
disfunção de linguagem que expressões como
in, out, petit comité, look, níver e outras muitas
vezes também passam sem gerar sentido nos textos do colunismo
social?
O'Rourke produziu, mais do que um guia do colunismo social às
avessas, um manual para enfrentar com ironia e sarcasmo as mediocridades
a que a maioria das pessoas é submetida no dia-a-dia.
Combate fogo com fogo e é debochado em um mundo de aparências
tão frágeis que caem com a primeira investida crítica.
"Etiqueta Moderna - Finas Maneiras Para Gente Grossa"
tem a capacidade de flagrar momentos fúteis e transformá-los
em instantes sublimes da existência graças, simplesmente,
a uma mudança de postura: ao invés da passividade
sugerida pelas boas maneiras, o autor propõe o revide
inteligente e cáustico, doa a quem doer. Boas maneiras,
segundo o malandro, podem substituir as crenças religiosas,
a moral, o amor e o intelecto. "Se a vida está uma
zorra, por que se preocupar com o garfo certo para comer ostras?",
pergunta, logo no início do livro, instalando um clima
de cumplicidade que permeia toda a obra e se manifesta através
de um sorriso malicioso nos lábios do leitor da primeira
à última página.
O livro é divertido - apesar de exercitar um humor
politicamente incorreto - e convida à reflexão
justamente por abordar temas cotidianos com a dureza que, muitas
vezes, eles devem ser enfrentados. Não é um texto
para pessoas sensíveis ou com dificuldades de distingüir
o que é fato e o que é fantasia: a estas, recomenda-se
a leitura da sempre anestésica coluna social.
Trechos do livro
Conselhos para a mulher moderna
"Quando você vai ao encontro de um homem, é
perfeitamente aceitável que você deixe claro que
trabalha duro, é mais bem-sucedida e ganha muito mais
do que ele. Mas você deve levar em consideração
que ele precisa manter algum respeito próprio. Devido
a isso, não importa o quanto você ganhe, permita
que ele pague todas as contas"
Onde ir num encontro
"Sexo sem relacionamento social precedente é o mesmo
que tratar pessoas como objetos. E pessoas não deveriam
ser tratadas como objetos. Elas não são tão
valiosas assim"
Sobre os estrangeiros
"Estrangeiros são exatamente iguais às pessoas
comuns, pelo menos se você considera comedores de caracol,
japas e jecas diversos como pessoas comuns. Estrangeiros serão
sempre legais com você. Todo mundo admira os americanos,
tanto quanto deveriam"
Famílias pobres
"(...) nas famílias pobres todos gritam uns com os
outros, nunca gastam dinheiro e estão sempre prontos para
atos de violência. Isto é uma excelente preparação
para você se tornar, digamos, presidente de uma multinacional
- com ásperas reuniões de diretoria, constantes
problemas de fluxo de caixa e produtos comerciais que podem aleijar
ou matar pessoas"
Homenagem ao leão baio
que assusta o Sul de SC
Em prosa e em poesia,
escritor reflete sobre as fantasias que o rei dos animais provoca
Paulo Ramos Derengoski
Especial para o Anexo
Lages As forças inconscientes coletivas que dormem
nos mais profundos abismos interiores de todo ser humano sempre
despertam diante de situações de perigo reais ou
imaginárias. É o que afirma Carl Gustav Jung, o
estudioso da alma humana que desafiou o determinismo de Sigmund
Freud, seu mestre. Para ele, a imagem do leão sonho
ou realidade representava uma tremenda força instintiva
a ser desencadeada. Freud definia, em sua obra monumental, o
sonho de leão como sendo a reafirmação de
uma sexualidade ardente e selvagem.
O leão sempre foi um símbolo poderosíssimo
para a humanidade. Ele está impresso nas bandeiras de
várias nações, exércitos e regimentos.
É um arquétipo da vontade de guerrear. Mais do
que isso: por ser o rei dos animais, desconhece predadores e
possui, pela força, o "direito" que é
o mais alto símbolo do poder: o "direito" de
matar que poucos homens na face da terra detiveram em suas
paranóias e delírios.
Luís 16, imperador da França, certa vez sonhou
que lutava com um leão. Meses depois, sua cabeça
rolava na Praça da Revolução... Os reis
assírios eram metade leões metade homens. E a esfinge
do Egito tem a cabeça do grande gato.
Mas terá alegria familiar quem sonha com a leoa e seus
leõezinhos pois dentre as fêmeas é
a que mais protege suas crias. Os romanos, que dominaram o mundo
antes da hegemonia cultural judaico-cristã, jogavam seus
prisioneiros aos leões. E os árabes, deles fizeram
estátuas nos pátios de Granada.
Para muitas civilizações, o leão representava
o rei, o magistrado e o senhor. Diz a lenda que leões
agressivos são presságio de guerras. Ao contrário
do macaco, ele não é um animal insolente. Mas é
perigoso. É carregado de presságios, de simbologias,
de ritos. Não tem o esplendor cadencioso do tigre. Mas
salta na escuridão da noite, emergindo do barro no quinto
dia da criação. Homens e macacos odeiam os leões.
É um animal vingativo, solitário e caminhante.
Talvez Deus o tenha colocado no mundo para lembrar aos homens
que viver é perigoso e que os rastros de ambos homens
e leões um dia se apagarão, como lágrimas
perdidas na chuva. Porque sempre há um tempo de viver.
E um tempo de morrer.
O grande gato
Paulo Ramos Derengoski
Faz quantos mil anos
Que um tigre-de-dente-de-sabre
Atravessou as geleiras de Behring
E se embrenhou pelo Yukon?
Pelo Kanatá grande
Pelas Montanhas Rochosas
Por sobre os tesouros de Sierra Madre?
Perdendo-se nos labirintos de esmeraldas da Amazônia-sem-fim?
Não tinha o esplendor do tigre-de-Bengala
Nem a leveza do jaguar africano do Kongo
Ou a juba monumental de leão das savanas
Era arisco e subversivo
Perseguiram-no os soldados de Cortez e de Pizarro
Os índios de Tupac Amarú e os cortadores de cabeças
Os Navajos, os Sioux e os Apaches pegaram alguns
E deles tiraram o couro para vestir (pelo avesso) nas noites
frias
Mas ele desceu pelos Andes...
Homiziou-se nas barrancas do Paraná, do Pantanal e do
Chaco
Tomou o nome de Sussuarana, de onça-parda, de leão-baio,
de puma
E continua povoando os sonhos (e os pesadelos) dos homens
Corre nas florestas de dia e de noite
Corre na nossa mente e corre no nosso sonho
Corre nas democracias e corre nas ditaduras
(Matou o cavalo Mustang de Cochise...)
Hoje ele sabe que basta ser cruel...
O Grande Gato que é a metade secreta da Esfinge
do Egito
Sabe também que é preciso ser imortal!
E ver o reflexo das estrelas nos rios em que bebe
Rios que, como ele, correm de dia e correm de noite
Na nossa mente nos nossos sonhos...
Paixões e vida pelo correio
Em tempos de e-mails,
as cartas passam a ser objeto de museu e atraem colecionadores
Néri Pedroso
O poeta português Fernando Pessoa já dizia que
todas as cartas de amor são ridículas. Na atualidade
correspondências alheias aparecem como sofisticados instrumentos
de comunicação dos seres humanos. O crescente interesse
pelo assunto faz o mercado de livros, nacional e internacional,
investir na publicação de correspondências
de nomes marcantes do teatro, da música, da literatura,
das artes plásticas, da psicanálise, etc.
Na história do Brasil tudo começa com um belíssimo
relato de Pero Vaz de Caminha, a carta que voltará ao
País pela segunda vez numa megaexposição
no Pavilhão Manuel da Nóbrega, em São Paulo,
uma das atrações das comemorações
dos 500 Anos. O contrato que viabiliza o retorno do documento
envolve uma operação que custará mais de
R$ 1 milhão à comissão que prepara os festejos
do descobrimento.
Prática do século 19, as cartas exercem fascínio
porque mexem com o voyer que há dentro de todo o ser humano.
Elas, de certa forma, inspiram "Girassol, Giralua",
de Lair Leoni Bernardoni, que em breve ganha lançamento
festivo da Editora Letra D'Água.
Para o poeta concretista Haroldo de Campos, a carta é
tempero de vida, traz conhecimento e reflexão. Para outros,
elas trazem afeto. No caso de famosos e emergentes, quando editadas
ajudam a compreender personalidades, como a do escritor Mário
de Andrade que adorava ver o carteiro em ação.
Em tempos de e-mails, o ato de escrever a mão assume ar
arqueológico, transforma as cartas em objeto do passado
e atração de colecionadores ávidos por preciosidades.
Algumas, de tão valiosas, até vão a leilão.
Trata-se de um hábito que exige certa organização
e sobretudo tempo, valiosa medida que se esgota com a velocidade
surpreendente neste final de século. O telefone e a Internet
imperam pela agilidade de comunicação, diálogos
em tempo real. O filósofo Paul Virilio ao abordar a estética
da velocidade refere-se a bomba do tempo, que destrói
o próprio tempo. No efeito da mundialização,
ele vê o tempo presente destruído ao vivo na TV.
O escritor e editor da "Vogue" no Brasil, Ignácio
de Loyola Brandão, dá luz sobre o assunto ao comentar
obra de Simenon em "O Verde que Violentou o Muro" (Editora
Marco Zero), onde se confessa fascinado por livros de memórias
e correspondências: "No fundo, sei o que procuro encontrar
aí, e não é algo que me orgulhe. Ao descobrir
as fraquezas dos grandes homens e suas pequenas covardias, sentimos
menos vergonha de nós mesmos. E confesso que não
me desagrada saber que foram vítimas de tal invalidez
ou de tal doença".
No cinema
O tema nos cerca por todos os lados. São também
as cartas o fio condutor do premiado filme brasileiro "Central
do Brasil", com Fernanda Montenegro vivendo Dora, uma professora
aposentada que reforça o orçamento escrevendo cartas
para analfabetos. O comovente trabalho de Walter Salles Júnior
chama a atenção sobre uma atitude - comunicar-se
através do correio.
"As Ligações Perigosas", de Chordelos
de Laclos ou "Os Sofrimentos do Jovem Werther", de
Goethe, são clássicos da literatura cuja narrativa
se dá por transcrição de cartas. O cinema
também aprecia o assunto. "Nunca Te Vi, Sempre Te
Amei", de David Jones, conta a história de dois bibliófilos
(Anne Bancroft e Anthony Hopkins) separados pelo Atlântico,
que se correspondem e se apaixonam.
"O Carteiro e o Poeta", do britânico Michael
Radford, também mexe neste universo de forma singela e
bem-humorada, ao levar às telas a tocante história
de um carteiro que vê a possiblidade de ampliar seus horizontes
a partir do momento em que começa a entregar cartas para
o poeta chileno Pablo Neruda em seu exílio na costa italiana.
Interpretado por Massimo Troisi, que morreu um dia após
a conclusão das filmagens, o filme é uma obra-prima
sobre a fraternidade, a poesia, as coisas simples da vida.
Texto do poeta Cruz e Sousa
revela homem apaixonado
O livro "O Monólogo da Provação"(Editora
Bernúncia), de Harry Laus, é um preciosismo. Em
texto maduro e enxuto, o autor catarinense relata uma experiência
em Corumbá (MT) vivida como oficial do Exército
e faz uma homenagem ao amigo poeta Mario Faustino, incluindo
a correspondência que ambos mantiveram no ano de 1958.
Quase sempre na íntegra, Laus transcreve as cartas com
troca de impressões pessoais e literárias.
"Cartas de Cruz e Sousa - Cartas de Amor, Cartas de Dor",
organização, introdução e notas de
Zahidé Lupinacci Muzart (Editora Letras Contemporâneas)
revelam o homem que foi o maior poeta simbolista do Brasil, o
catarinense Cruz e Sousa. Muzart analisa as cartas guardadas
no Arquivo Museu de Literatura da Fundação Casa
de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. "Cruz e Sousa, conclui
ela, foi um correspondente assíduo." A pesquisadora
destaca as cartas de Gavita, a noiva amada, Nestor Vítor
e Araújo Figueiredo, os fiéis amigos. Nas de Gavita,
aparece um homem apaixonado, terno e amoroso; nas de Nestor Vítor,
o amigo confiante.
Quem também mergulhou nesta temática foi o crítico
de arte Jayro Schmidt. Vincent van Gogh - Pintor das cartas",
editado pela Letras Contemporâneas, traça uma biografia
a partir das cartas que o pintor escreveu para o irmão
Théo, uma antologia publicada pela L&PM Pocket. Triste
ironia do destino, Vincent van Gogh que se suicidou louco e desesperado
em 1890, teve os seus girassóis pintados em homenagem
a Paulo Gauguin leiloados em 1987 por US$ 36 milhões.
Já em 1990, a obra "Retrato do Doutor Gachet"
foi vendida por US$ 82,5 milhões. Em vida, ele conseguiu
vender um único quadro.
Embora muitas vezes truncadas, entrecortadas, reticientes e sem
o dom efetivo da palavra, as cartas trocadas com Théo
são brutalmente emotivas, reveladoras de todo o sofrimento
deste holandês hoje considerado um gênio. Dono de
uma arte inigualável, Van Gogh também foi autor
de uma extraordinária correspondência com o irmão,
deixando um lúcido testemunho de um talento universal
que ninguém, com exceção de Théo,
soube dimensionar. (NP)
Prosa poética e imagens
de
Lair Bernardoni em livro
A prosa poética e as imagens de Lair Leoni Bernardoni,
que a Editora Letra D'Água colocará brevemente
no mercado, reúne textos e memórias de puro deleite
estético. O livro deve ser aberto e tratado como sonho
e esperança de um mundo melhor que acalenta os homens
de crença. Não espere um livro inovador, porque
ele segue - com sutileza - o que se vê em "Griffin
& Sabine". Além do mais, a maioria dos textos
e fotos já foram publicadas no Anexo. Nada, no entanto,
tira o valor desta obra interativa com reprodução
de cartões postais, folhas amareladas de diversos lugares
do planeta, areia chilena, colhida em Isla Negra e todos os encantos
da natureza sublime desta artista nascida em São Francisco
do Sul.
Em uma de suas páginas, um envelope convida para a comunhão
de notícias e afetos. Enderaçada para a autora,
o escritor e jornalista Apolinário Ternes, situa com perfeição
o que acontece nestes tempos de e-mails. Ele escreve a mão.
"O tempo e a pressa desarticularam a secular cumplicidade
de mão e cérebro. Sinto dificuldades em coordenar
o pensamento ágil com a lenta progressão da caneta
sobre o papel." Mas ele não desiste. Ainda bem.
Há quantas décadas não escrevo assim?, indaga-se
o autor que vive em Joinville e não gosta de e-mails,
embora reconheça a força da agilidade. A correspondência
pela Internet, situa, é atrevida porque invade a privacidade,
normalmente chega para chatear com tudo o que é dispensável.
"A Internet permite que todos os chatos sem crítica
tenham acesso a gente. Só respondo se o texto tiver uma
dose mínima de inteligência", sentencia ele.
Uma carta para pessoas sedentas de emoção poderia
sair do computador, mas não estaria cumprindo o cerimonial
da comunicação fértil, pressupõe
Ternes, definindo logo a seguir certos manuscritos como relíquias
no tempo de celular e fax.
Ele já aprendeu que hoje mais que ontem, todos necessitam
destas "bússolas que orientam nossas sofridas cabeças,
antenadas em quase todas banalidades". Para ele, cartas
antigas, amigas de tantos séculos, são comedidas
demonstrações de humanidade. "De renúncias,
talvez. De refletida abstração de tempos. De abdicação
de nós mesmos, em favor do outro. Coisa que os modernos
desaprenderam. Ela, a carta, deixou de ter o seu mistério.
A encantada circunstância de ser única, num mundo
que se especializou no múltiplo. De ser lenta. mum tempo
em que entronizaram a insensatez da pressa."
A tarefa da escrita precisa ser reinventada, defende o jornalista.
"Se possível, a mão, que é para facilitar
o strep-tease do coração." (NP)
Dores, alegrias e segredos
compartilhados entre McCarthy e Arendt
E as cartas entre amigos? "Entre Amigas - A Correspondência
de Hannah Arendt e Mary McCarthy 1949-75" (Editora Relume
Dumará) é uma obra inteligente, onde destaca-se
a afinidade entre as duas escritoras que discutem filosofia,
ética, política, literatura, jornalismo cultural,
etc. Envolvente, o livro torna-se curioso porque a correspondência
entre 1949-75 ocorre quando a norte-americana vivia em Paris
e a pensadora alemã em Nova York. Elas comungam dores,
alegrias e segredos como o de Mary sobre um caso amoroso com
um obscuro crítico literário inglês e ex-boxeador
chamado John Davenport.
O leitor conhece a vida intelectual e o clima espiritual da França
e dos EUA, mergulhando em questões que emocionaram e mobilizaram
os pensadores na segunda metade do século 20. Sensíveis,
profundamente inteligentes, as cartas são emocionantes
sobretudo pelo profundo amor e respeito fraterno que ambas tinham
uma pela outra. No enterro de Arendt, em dezembro de 1975, Mary
McCarthy fez uma oração de despedida com voz embargada
pela emoção: "Ela era ardorosa como os que
acreditam na justiça podem tornar-se e como os que acreditam
na misericórdia devem permanecer (...) Ia aonde a investigação
séria a levasse e, se fez inimigos, nunca foi por medo.
(...) Quanto a mim, amei-a ardentemente".
Igualmente é célebre "Algumas Cartas e Trechos
do Diário de Katherine Mansfield"(Editora Noa Noa),
que desvenda queixas conjugais e fantasmas de panelas e fogões,
mas também revela um exigente projeto literário.
Flaubert e George Sand também trocaram uma instigante
correspondência dando luz sobre a segunda metade do século
19.
As cartas também resgatam o exílio brasileiro de
Elizabeth Bishop (1911-79), a mais importante poeta dos EUA da
segunda metade do século 20. Apaixonada por Lota, uma
brasileira, viveu no Brasil entre 1951 e 1966. Seu exílio
amoroso e a história no País são descortinados
por cartas, "uma forma de comunicação agonizante",
como definia a poeta.
Absolutamente apaixonada pelas correspondências, ao retornar
ao seu país, Bishop ensinou curso em Havard sobre "Cartas:
Leituras sobre Correspondências Pessoais, Famosas e Infames,
do Século 16 ao Século 20". Quando viveu em
1970 com uma nova companheira em Ouro Preto (MG), ela escreve
aos amigos que as duas eram hostilizadas nas ruas, agredidas
com pedradas nas janelas de casa e lixo no jardim.
Outro apaixonado por cartas era o escritor Elias Canetti, que
considera os diários de Cesare Pavese superiores à
sua obra ficcional. Canetti dedicou um ensaio, "A Consciência
das Palavras", à correspondência que Kafka
manteve com Felice.
Cortesia
O escritor gaúcho Liberato Vieira da Cunha tem como
esporte favorito dar trabalho aos Correios e Telégrafos.
Para ele, cada carta recebida é uma cortesia, "um
aviso de que homem algum é uma ilha. As cartas, conceitua
o cachoeirense, estendem pontes em sua direção,
comentam personagens, crônicas, contos, repartem confidências,
pedem palpites sobre situações de vida, "tudo
num jeito bonito de dizer que, embora desconhecidos, são
meus amigos".
Na busca pelo outro, a palavra sobressai como negação
da morte. Ao escrever, comunicar-se por palavras, o homem encontra
a esperança de infinito na finitude, como já definia
a escritora Lygia Fagundes Telles. "Gravar a invenção
para garantir a sua permanência, a palavra precisa ser
guardada como os vagalumes ou as borboletas que eu caçava
e fechava nas caixas de sabonete." Isabel Allende, que vê
a escrita como exercício da memória, escreve para
pôr ordem no passado, exorcizar perdas, esclarecer a confusão
da vida, que segundo ela, "passa tão rápida
e não nos dá tempo pra entender como as coisas
realmente acontecem". (NP)
Mexicana Frida Kahlo expõe
vida conturbada e trágica
"Cartas Apaixonadas de Frida Kahlo" (José
Olympio Editora), compilação de Martha Zamora,
revela a vida conturbada e trágica da grande pintora mexicana
e companheira do muralista Diego Rivera. O livro reúne
mais de 80 correspondências enviadas a amigos, familiares,
inimigos e amantes. Zamora classifica a artista como uma fértil
redatora de cartas. Escrevia com franqueza e sem reservas, empregando
todo o vocabulário de que dispunha para externar suas
idéias e emoções. "Na adolescência,
escrevia cartas de amor ao namorado; adulta, correspondeu-se
com seu médico e com amigos dos EUA; e quando viajava,
mantinha-se em estreito contato com os de casa."
"Griffin & Sabine - Uma Correspondência Extraordinária"
(Marco Zero) é uma singular obra-prima - de ficção
- que retoma o charme das cartas de amor e estimula o voyerismo
do leitor. Com os fac-similes de postais, com selo, carimbo,
letra discursiva e até os envelopes, o autor Nick Bantock
relata as histórias de seus personagens desenhistas com
requintes gráficos e vários estilos artísticos.
Luxuosamente concebido, com texto brilhante, o livro traz desenhos,
garatujas, colagens. Interativamente, o leitor abre as cartas,
retirando-as de dentro de envelopes ricamente criados. "Num
mundo em que tudo é rápido, uma carta de amor é
como ir para o campo e apreciar as estrelas", diz o autor
canadense de Vancouver.
Na época do lançamento, 3 milhões de exemplares
foram vendidos em 12 países; no Brasil vendeu 10 mil em
15 dias. Feliz combinação entre texto e imagem,
o livro é composto de uma sucessão de cartas que
forma o enredo. Instigante correspondência que é
em parte ficção, parcialmente mistério e
inteiramente obra de arte. (NP)
Dois poetas e suas reflexões
Papa do modernismo brasileiro, poeta, romancista, ficcionista,
missivista, crítico, músico, chefe do departamento
de cultura do município de São Paulo e até
mesmo estilista (desenhava seus próprios robes), Mário
de Andrade exigiu em testamento que suas 5 mil cartas fossem
abertas somente 50 anos depois de morto, ou seja, depois de fevereiro
de 1995. O Instituto de Estudos Brasileiros mantém esse
rico acervo desde 1963.
Na paciência da escrita e das reflexões de Andrade,
a história cultural do Brasil pode ser conhecida através
da leitura de correspondências com Osvald de Andrade, Carlos
Drummond de Andrade, Pedro Nava, Manuel Bandeira, Lasar Segall,
Anita Malfatti e Camargo Guarnieri.
A Editora Record lançou recentemente livro que reúne
a correspondência mantida por Mário com o poeta
Manuel Bandeira e ajuda a esclarecer pontos obscuros na obra,
vida e no campo amoroso do modernista, que jamais foi visto com
uma namorada e sua masculinidade chegou a ser posta em dúvida
por Osvaldo de Andrade, através de um jornal.
Os temas estritamente literários predominam na correspondência
entre os dois amigos, que também discutem livros, poemas,
sugerem títulos e outros ajustes na produção.
Tratam-se respeitosa e afetuosamente, adotando uma franqueza
viril. Às vezes brigam, como todos os bons e verdadeiros
amigos. Mário eventualmente chama Manuel de Manu, que
por sua vez reclama que nos seus encontros sempre há um
clima incompreensível, de constrangimento. "Parece
haver dois Mários, um das cartas, outro da vida real",
explicava o poeta. (NP)
- Néri Pedroso é jornalista, editora-chefe
do caderno AN capital, de A Notícia, publicado para a
Grande Florianópolis
Belo filme
Beleza, "Beleza Americana"! Até que enfim, a
gente assiste a um filme norte-americano adulto com atores que
não são meros bonecos falantes. Sim, porque o cinema
que domina o mundo nos considera retardados mentais, com as idiotices
que espalham nas telas, a tudo mascarando com uma competência
técnica invejável. Violência desmedida, explosões,
correrias, e o cara sai da sala mais vazio que bolso de trabalhador
brasileiro que ganha o salário mínimo. Sam Mendes,
o diretor, vem do teatro, o que é outra conversa. Sabe
dirigir atores, como Mike Nichols, que em 1967, com "A Primeira
Noite de Um Homem", realizou uma obra revolucionária,
detonando uma sociedade conservadora de aparência, e sacana
nos bastidores. E ainda por cima contava com a trilha sonora
magnífica de Simon e Garfunkel. O elenco estava mais afinado
que o violino de Paganini, destacando-se Dustin Hoffman e Anne
Bancroft. Em "Beleza Americana" a situação
é a mesma, com uma diferença: se Kevin Spacey está
ótimo, Annette Bening dá um show, e só não
ganha o Oscar por um imperdoável descuido dos membros
da Academia.
ATOR O presidente
Fernando Henrique Cardoso confessou a realizadores do cinema
brasileiro que gostaria de ser ator, melhor do que enfrentar
os pepinos diários da nossa república. O querido
presidente está enganado: na política, como no
palco, quem não é ator está fadado a ganhar
de presente dezenas de tomates podres. Conforme-se, então,
e capriche nos ensaios para não dar vexame nas apresentações.
BOM APETITE O alter-ego
de Carlos Adauto Vieira, Charles D'Olengèr, eu já
conhecia desde os anos 60, quando publicava suas crônicas
no semanário "O Município", de Brusque.
Era leitor de carteirinha. E agora tenho comigo as "Saborosas
Estórias Curtas", livro editado pela Letra D'Água,
de Joinville, que traz o tempero bem temperado do mestre-cuca
Charles, francês-ilhéu-joinvilense, ou ao contrário,
pois a ordem dos fatores não altera o talento. Para enfrentar
o mau-humor, o livro é milhões de vezes mais eficiente
que o sal de frutas Eno. Carlos Adauto, ou Charles D'Olengèr,
tanto faz, provoca frouxos de risos, como diria o primo Rico.
Principalmente quando as histórias curtas têm como
cenário a Ilha de Santa Catarina e seus personagens do
capítulo Quintal de Todos Nós. Com estas e mais
as histórias dos capítulos Aconteceu Comigo, Colônia
Dona Francisca, Amigos e Aldeia Global, são 239 deliciosas
páginas.
QUEM EXPLICA? Todo
o ano é a mesma coisa: a gente bate o pé, roda
a baiana, dá uns tiros para o alto, esmurra a mesa, mas
acaba se rendendo. No dia 26 de março, mais uma vez, assistir
a festa do Oscar será programa obrigatório. Freud
tentou explicar, mas desistiu, e torceu por Robert Taylor em
"Ivanhoé" que, por sinal, nem disputava a cobiçada
estatueta.
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Revelação

A cantora e compositora Dulce Pontes e a capa do
CD: um fado mais criativo, mas sem perder as características
mais marcantes.
Fotos Divulgacão
Dulce Pontes
moderniza o fado
Em "O Primeiro
Canto", cantora e compositora portuguesa exibe talento e
é apontada como sucessora de Amália Rodrigues,
que morreu no ano passado
REGIS MALLMANN
Florianópolis Em ano de comemorações
em torno do "descobrimento" do Brasil pelos portugueses,
chega ao mercado nacional o CD "O Primeiro Canto" (Universal),
quinto álbum de Dulce Pontes, cantora que alguns críticos
classificam como a "nova" Amália Rodrigues,
mais famosa e cultuada intérprete de fado de Portugal,
morta no ano passado. Mas Dulce não é nem nova
e muito menos deve ser comparada a Amália. Sua interpretação
para o gênero musical que traduz a alma lusa é moderna
e cheia de inventividade, sem no entanto fugir da raiz sonora,
da melodia e dos versos sofridos que são a marca registrada
dos fados. Apesar de discreta aparição, o brasileiro
Jaques Morelenbaum é convidado do disco, onde toca cello
em algumas faixas e assina arranjos em outras.
Neste novo trabalho, Dulce Pontes se propõe a emprestar
sua voz para cantar os quatro elementos da natureza. Água,
terra, fogo e ar surgem assim em cada uma das 14 faixas do disco,
recheado de referências a um país que em sua essência
ainda é território primitivo, primo pobre e de
tons cinzas de uma Europa moderna e rica. Para levar sua terra
para outros cantos, a cantora-compositora foi buscar no passado
elementos para fazer do CD uma obra completa, engajada e essencialmente
portuguesa. E o fado é a ponte que usa para passar a barreira
do tempo. É, no entanto, apenas uma de suas referências
musicais: não se constitui no único espaço
para que ela ouse experimentar a deliciosa voz.
Essa descida que Dulce faz em busca da música popular
portuguesa é uma experiência e tanto para ouvidos
brasileiros, pouco acostumados aos sons desse país que
nos é ao mesmo tão próximo e tão
distante. Para tornar o disco universal a artista fez uma minuciosa
busca das fontes, resgatando instrumentos e jeitos de cantar
regionais que já não são mais usados. Assim,
surgem ao londo das músicas ruídos novos, como
o da moraharpa e o tambor oceano, peças quase medievais
que dão a músicas como "Ondeia Água"
e "Tirioni" uma gostosa melodia, que emociona e faz
entrar em um universo sonoro totalmente inédito.
Nessa verdadeira navegação, Dulce Pontos comete
interpretações fortes para algumas composições
suas dominadas pela poesia. "O Que For, Há-de-ser"
é um caso especial no disco, pois revela como Dulce segue
à risca a poética que cerca a mística portuguesa.
Uma poesia densa e triste que surge em versos como "ai que
seja o que for/ que o amor me traga/ sei que é primavera
neste inverno/ ver que o olhar é de pequenas rugas e de
flores/ tão terno.../ sonhar seu beijo na fronte/ a luz
no horizonte/ como o primeiro raio de sol/ sentir por dentro
da alma/ paz e a calma/ dos que não estão sós".
Outra faixa que merece ouvidos atentos é "Velha Chica",
um dueto com o angolano Waldemar Bastos, também autor
da letra. É um momento forte do disco ao remeter para
Angola, antiga colônia portuguesa e hoje um país
miserável e devastado por uma guerra sem fim. A mágoa
da gente angolana é cantada de forma sofrida com palavras
como "antigamente a velha Chica/ vendia cola e gengibre/
e lá pela tarde ela lavava a roupa/ e nós os miúdos
lá da escola/ perguntávamos a vóvó
Chica/ qual a razão daquela pobreza/ daquele nosso sofrimento".
É ouvir e se emocionar.
Outros lançamentos
*"Vivo", trabalho que Ney Matogrosso lança
agora, na cola do sucesso de "Olhos de Farol" (disco
do ano passado que extrapolou todas as expectativas de gravadora
Universal e do próprio cantor), é um CD desnecessário.
Um trabalho dispensável para um artista que vinha dizendo
há tempos que não sente necessidade de levar para
o seu público esse tipo de gravação porque
prefere o contato direto, no palco, coisa que ele faz como ninguém.
Ney deveria ter mantido sua palavra. Não que o lançamento
seja um disco ruim. Pelo contrário, é muito bom,
mas não traz nada de novo, é como se estivéssemos
ouvindo "Olhos de Farol". A única diferença
são algumas palmas lá e cá e a inclusão
de antigos hits, como "Sangue Latino", "Rosa de
Hiroshima" e "Metamorfose Ambulante", entre outras
obviedades. Para quem viu o show "Olhos de Farol",
esse "Vivo" soa como pizza de geladeira, boa, porém
fria.(RM)
*Podiam ter deixado Bob Marley ficar sem essa. Justamente
no ano que o reggaeman completaria 55 anos, a Universal inventa
um disco póstumo que, certamente, ele próprio abominaria.
Obra feita pretensamente para homenagear o cantor, "Chant
Down Babylon" reúne vários artistas para,
digamos, gravar com ele. Para conseguir essa proeza, tarefa simples
nos tempos de hoje, com tecnologias incríveis, "ressuscitaram"
a voz do bom jamaicano para que ela se juntasse a de outros ídolos
da música atual. Foi possível assim fazer duetos
de Bob com Erikah Badu em "No More Trouble" e a Lauryn
Hill a garota da hora em "Turn Your Lights Down
Low, entre outras, por exemplo. Até aí tudo bem,
já que nessas versões o mais puro reggae até
foi mantido intacto. A chacina musical começa mesmo com
a tolice que fizeram ao misturar o gênero que consagrou
o rasta com raps chatos dos Krayzie Bone, chamado para "dividir"
com Marley a clássica "Rebel Music". Mesmo expediente
foi usado para reviver "Johnny Was", que ganhou ares
novos com a inclusão de uma falação do rapper
Guru, e em "Concrete Jungle", que quase desaparece
em meio às falações apocalípticas
do rapper Rakim. Essa chatisse se repete até o final do
disco, 12 faixas ao todo. Coitado do Bob.(RM)
Sai o derradeiro The Cure
O CD "Bloodflowers", 11º disco de estúdio
do The Cure que seu líder, Robert Smith, pretende
também que seja o último , é uma agradável
cerimônia de adeus. Depois de quase 20 anos de bons serviços
prestados ao pop, o mítico grupo inglês não
teve a pretensão de dar a última palavra. Quer
ser apenas uma boa lembrança de um século que já
morreu.
Eles são de um tempo em que os teclados não tinham
tantos timbres e possibilidades. Acostumaram-se a tirar o máximo
do mínimo, e é isso que continuam fazendo, em faixas
como a delicada "Out of This World", a que abre a carta
da despedida. Aos 40 anos, Robert Smith agora gosta de ouvir
Mahler, vive um casamento sólido e acha que não
pode comportar-se mais como se tivesse 25 anos. Sabe que deixou
obras essenciais do pop, como "Pornography" ("Um
momento-chave da minha existência", diz) e canções
épicas, como "Killing an Arab", de 1979 (inspirada
em "O Estrangeiro", de Albert Camus).
"Eu adoraria pensar que nós deixamos um suvenir de
uma banda intensa", disse Smith ao jornal francês
"Libération". Estava certo. As nove canções
de "Bloodflowers" são intensas. Como "There
Is no if...", ainda sobre a falta de comunicação
no mundo da hipercomunicação. "Lembra da primeira
vez que eu disse te amo?/Estava chovendo e você não
ouviu".
Skuba lança clipe na MTV
Ricardo Gozzi
Agência Estado
Curitiba A banda de ska paranaense Skuba lançou
sexta-feira o clipe da música "Drugs", primeiro
single do CD "À Moda Antiga", o mais recente
trabalho do grupo. O vídeo o terceiro da história
do Skuba estreou oficialmente durante o programa "Supernova",
da MTV. Além da veiculação do clipe e de
imagens dos bastidores da gravação, o programa
ainda apresentou uma entrevista com o grupo.
Em entrevista à Agência Estado, o vocalista e guitarrista
Sérgio Soffiatti disse estar satisfeito com o resultado
do novo clipe. "O orçamento foi pequeno. Mas toda
a equipe mostrou muita garra, desde diretores e produtores até
iluminadores e membros da banda. É o melhor clipe que
já fizemos", garante o líder da banda curitibana.
Lançado no fim do ano passado, o CD "À Moda
Antiga" já teve sua primeira tiragem esgotada. "Lançamos
uma tiragem inicial de 5 mil cópias e todas foram vendidas
em pouco mais de duas semanas", informou Soffiati. Segundo
ele, este resultado é fruto do trabalho de divulgação
realizado nas rádios de São Paulo. "Nosso
primeiro single, 'Drugs', está tocando nas três
rádios rock de São Paulo", diz o músico,
referindo-se às emissoras 89, Mix e Brasil 2000.
"Isso já deu resultado. O lançamento do clipe
marca o início da divulgação em âmbito
nacional", comemora. "Além da MTV, já
estamos gravando programas em outras emissoras de televisão
e procurando rádios que tenham a programação
transmitida para todo o País".
Filme denuncia
imprensa covarde
Com um discurso corajoso
e grandes atuações, "O Informante" leva
os bastidores do jornalismo
para o cinema e briga pelo Oscar
Antônio Gonçalves Filho
Agência Estado
A Brown & Williamson Tobacco Co., uma das maiores empresas
fabricantes de tabaco nos Estados Unidos, foi notícia
do "New York Times" em junho de 1994, quando um professor
universitário passou ao jornal documentos secretos que
esconderam por 40 anos estudos relativos às doenças
causadas pelo cigarro. Ele provocaria não só dependência
- criando viciados - como degeneração física
e câncer. Num relatório interno da British American
Tobacco (Batco), empresa-irmã da Brown and Williamson,
a palavra câncer é trocada por um código,
"zephyr", mas, segundo revelava o relatório,
os pesquisadores tinham descoberto efeitos ainda piores de substâncias
químicas como o aromatizante benzopireno, 20 vezes mais
ativo do que o arsênico.
A publicidade do filme "O Informante" (The Insider)
- cuja exibição em Santa Catarina se restringe,
por enquanto, apenas a Blumenau -, apesar de reproduzir um maço
de cigarros, não traz, porém, a advertência
do Ministério da Saúde, de que o cigarro pode causar
câncer nos pulmões, doenças do coração,
etc. A tarjeta adverte: "Atenção: revelar
a verdade pode ser prejudicial". E foi prejudicial mesmo
para o químico Jeffrey Wigand, cientista e alto executivo
da Brown & Williamson, demitido em 1993, mas preso a ela
por um contrato de sigilo que o proibia de revelar relatórios
da empresa. Pressionado por um jornalista da CBS, Lowell Bergman,
produtor do programa "60 Minutos", Wigand quebra o
sigilo e concede uma entrevista bombástica a Mike Wallace,
ameaçada de não ser transmitida por causa de interesses
comerciais.
A Westinghouse estaria interessada na compra da CBS e não
era possível enfrentar um processo do fabricante de cigarros
que a levaria à falência. O tema central do filme,
portanto, é a luta de Bergman para colocar no ar a entrevista
de Wigand, enquanto a vida de seu entrevistado corre perigo.
Ameaçado de morte, Wigand refugia-se num hotel, perde
a família num processo de divórcio e afoga-se num
mar de álcool quando passa a ser alvo de uma campanha
difamatória que o pode levar à cadeia. O neozelandês
Russell Crowe, de "Los Angeles, Cidade Proibida", faz
uma comovente interpretação de Wigand, concorrendo
ao Oscar ao lado dos favoritos Kevin Spacey ("Beleza Americana")
e Sean Penn ("Sweet and Lowdown").
O prêmio, claro, poderia ajudar a carreira do filme de
Michael Mann, que fracassou nas bilheterias americanas, não
faturando 50% do que custou. Essa culpa não pode ser computada
a Mann ou aos profissionais envolvidos na produção.
Do elenco excepcional (Russell Crowe, Al Pacino, Diane Venora)
ao fotógrafo Dante Spinotti (de "Los Angeles, Cidade
Proibida"), passando pela autora da trilha sonora (Lisa
Gerrard, do grupo Dead Can Dance), todos colaboraram para fazer
de "O Informante" não apenas um thriller corajoso
contra a indústria do tabaco, mas uma sensível
obra sobre o poder da palavra. O problema é que ninguém
acredita mais nesse poder.
Ousadia
As advertências do Ministério da Saúde
ou as denúncias de Jeffrey Wigand não bastam para
fazer alguém parar de fumar. Não sem razão,
o diretor Michael Mann, formado na tradição do
cinema comercial (de "O Último dos Moicanos",
"Fogo Contra Fogo"), começa seu filme com Mike
Wallace entrevistando um líder fundamentalista islâmico.
A mensagem parece clara: aquela seqüência inicial,
editada apenas para mostrar a ousadia do intrépido Bergman
(Al Pacino), destaca a presença do arcaísmo religioso,
anacrônico mas verdadeiro, no mundo moderno, laico e hedonista.
O muçulmano que Wallace acusa de terrorista pode ser mesmo
o que ele desconfia, mas seus atos são comandados pela
fé na palavra. Sagrada, incorruptível, para os
islâmicos.
Já os envolvidos na entrevista devastadora contra o fabricante
de cigarros têm outros interesses além da simples
denúncia. Wallace, âncora de "60 Minutos",
estava se aposentando. Não queria ser lembrado como o
jornalista que cedeu à CBS o direito de editar seu programa.
A fama pode durar 15 minutos, como dizia Andy Warhol, mas a infâmia
dura para sempre. A honestidade do roteirista e diretor Michael
Mann é tal que ele não desculpa sequer o informante.
Como os demais, sua ética é também questionável.
Wigand tinha uma filha asmática. Sabia bem o que significa
uma pessoa morrer sem respirar (como os fumantes com câncer).
Por que omitiu as informações que sabia por tanto
tempo? Por que quebrou o acordo de sigilo com a Brown & Williamson?
Afinal, palava é palavra.
Mann soluciona esse conflito ético mostrando a devastação
moral de Wigand acompanhada por música religiosa. Nos
momentos mais tensos, a "Litania" de Arvo Peart surge
na trilha sonora como uma trombeta do Apocalipse. Os movimentos
lentos da câmera de Spinotti acentuam a indecisão
dos personagens, conciliando tempo de ação com
tempo psicológico. Contra a histeria do jornalismo televisivo
e sua perigosa mania de editar (e fragmentar) a vida alheia,
Mann mostra a luta do executivo arrependido para resgatar sua
dignidade, lidando basicamente com uma original solução
cromática (a paleta hopperiana do hotel contra a luz do
dia do julgamento libertador).
"O Informante", apesar disso, não faz desses
recursos uma alegoria. Mann sabe que a realidade é muito
mais poderosa.
Opinião
Quem tem medo das rádios
educativas?
Jair Brito
Especial para o Anexo
Sem som, sem programação, sem equipe, sem dinheiro...
são as rádios "sem". Isso ocorre em quase
todas as rádios educativas do Brasil. Com raríssimas
exceções, esse quadro não é real.
Por isso duvidei quando tomei conhecimento de que tem gente em
Joinville com medo da FM Educativa da Udesc. Isso é querer
arrumar chifre em cabeça de cavalo na tentativa de inviabilizar
a implantação dessa rádio educativa que,
igual a tantas outras congêneres do país, sofre
do mesmo mal: falta de dinheiro. Comprar equipamentos técnicos
de primeira linha, contratar pessoal qualificado e consolidar
uma programação, demandam conseguir boas verbas.
O que se ouviu até agora, na freqüência de
106.3, foi uma rádio improvisada que, mesmo assim, graças
ao talento e à garra de Ramiro Gregório da Silva
eu diria teimosia já vem alcançando
sucesso. É com teimosos, como seu Ramiro, que as rádios
educativas brasileiras conseguem sobreviver. A maioria delas
nasce sem nenhuma planificação. Nem por parte do
governo que autoriza e nem das entidades que ganham as concessões.
Essas concessões, 99 por cento, determinam o uso de transmissores
de pequeno porte, fazendo com que as emissoras tenham pouco alcance.
Joinville precisa mais é colaborar (por inteiro) para
a implantação definitiva de sua rádio educativa.
Os empresários devem prestar permanente ajuda material.
Indispensável também é a participação
efetiva da sociedade. Essa união de esforços, por
certo, resultará no fortalecimento desse canal que tem
como missão primordial difundir educação
e cultura através de uma programação séria.
E os apoios culturais devem ser olhados (ouvidos) de forma natural,
como vem sendo praticado em muitos veículos do gênero
existentes no Brasil.
Sem os chamados institucionais, o rádio e TV educativos
não terão condições de sobrevivência.
Assim como se verifica hoje na maioria dos espetáculos
teatrais e musicais; muitos deles jamais teriam sido encenados
sem a colaboração de "patrocinadores"
que se beneficiam das leis para abatimento de impostos. Esse
é o caminho a ser seguido pela FM Educativa de Joinville
porque, apesar da boa intenção da Udesc e da boa
vontade da prefeitura, o fato é que, sem as verbas necessárias,
tocar projeto dessa natureza é tarefa muito difícil.
Vejam o caso da Rádio e TV Cultura de São Paulo
que, mesmo respaldada por excelente número de apoios culturais
além das verbas que lhe são concedidas pelo
governo do Estado ainda tem dificuldade para manter uma
programação de bom nível. O que não
basta. É preciso que ela esteja aliada a um bom suporte
técnico atualizado, fator indispensável para uma
transmissão de boa qualidade.
O leitor deve estar se perguntando "quem está tão
preocupado com a FM Educativa de Joinville e se julga no direito
de meter a colher nos assuntos de nossa cidade". O autor
deste artigo é joinvilense. Com muito orgulho. Nasci na
Rua Ipiranga. E ainda criança me interessei por rádio
(nas decádas 40/50), ouvindo a ZYA-5 Rádio Difusora
(do pioneiro Brosing) e a Rádio Nacional do Rio, que era
sintonizada com som local. E foi esse amor de infância
que balizou sempre minha carreira profissional, desenvolvida
no próprio veículo rádio, em televisão
e jornais, inclusive com uma rápida passagem pela Rádio
Cultura de Joinville (anos 60), quando a Fundição
Tupy passou a controlar suas ações e Ramiro Gregório
da Silva, assumindo a superintendência, estruturou e dirigiu
uma programação de sucesso por quase vinte anos.
Pelo rádio, continuo apaixonado.
E é essa paixão que me faz um entusiasta permanente
do rádio e defensor das emissoras educativas ainda
maltratadas mas, inegavelmente, um meio de comunicação
que pode tentar diminuir o estrago que vem sendo causado nos
ouvidos dos brasileiros pelo estilo mercantilista e pouco inteligente
baixo padrão que invadiu a maioria das freqüências
de AM e FM. Felizmente, nas chamadas rádios educativas
se pode ouvir Elis Regina, Milton Nascimento, Bethânia,
Gal e muitos outros banidos das ondas do rádio comercial,
como os instrumentistas e intérpretes de nossa música
de raiz.
- Jair Brito (jairbrito@ig.com.br)
é ex-diretor das rádios Independência do
Paraná (Curitiba), Gaúcha (Porto Alegre), Bandeirantes
e Globo (São Paulo).
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