Joinville         -          Quarta-feira, 8 de Março de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  

















Cena aberta
Grupo Teatrama promove peças ao ar livre em São Bento como tentativa de formar público e dar novo impulso à produção teatral

Teatro renasce
em São Bento

Atividades conjuntas atraem diretores e atores à cidade, que quer retomar movimento fértil do passado

Marília Maciel

2000 promete ser o ano do teatro em São Bento do Sul. A Fundação Municipal de Cultura está apostando muitas fichas no talento de atores locais que formam o grupo Teatrama, além da oficina de teatro que está com inscrições abertas para os principiantes. Em fevereiro do ano passado, a fundação contratou o grupo teatral Arlequim, de Rio Negrinho, com dez anos de palco, para coordenar os trabalhos da oficina. De um grupo de 58 inscritos restaram 22 que formaram o Teatrama. Para o coordenador da oficina, Pedro Bueno, o Smurf, a redução do grupo faz parte de uma seleção natural. "Para participar da oficina não fazemos qualquer teste. Com o tempo cada um vai descobrindo se tem ou não aptidão para o teatro", explica.
Em menos de 12 meses, o Teatrama conseguiu sair do "estágio cru" para o palco com a peça "Bailei na Curva", sucesso de público em São Bento do Sul. A montagem também participou de festivais, como o de Ibirama, mas na categoria especial, sem concorrer aos prêmios. Este ano o grupo já tem novo desafio e trabalha na montagem da peça "Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá", sucesso nacional nos anos 70. No elenco estarão dois atores e uma atriz, ainda em definição. Smurf ainda faz mistério sobre a peça, mas aposta: "A atuação tem que ser ainda melhor do que em 'Bailei na Curva'".
Mais que formar novos atores, a intenção da Fundação Cultural é despertar o gosto do público pelo teatro. "Vamos continuar com a descentralização dos espetáculos, vamos aos bairros, à praça, à biblioteca", destaca o diretor municipal de cultura, Donald Malchitzki. Em março a fundação coloca em prática o projeto "A Hora do Conto", que consiste na apresentação de peças teatrais na biblioteca pública municipal. A peça "Arlequim Conta a História", que tem como tema os 500 anos de descobrimento do Brasil, também será levada ao público são-bentense. A peça é uma sátira às comemorações dos 500 anos. "Quando se faz uma festa, geralmente se limpa e arruma a casa primeiro. No Brasil a casa continua desarrumada", sintetiza Smurf.
Além da oficina de teatro, que acontece aos sábados, das 14 às 18 horas, a Fundação Cultural também já programou outros cursos ligados às artes cênicas. Guilhermo Santiago, que trabalha nos shows do cantor Osvaldo Montenegro, vai coordenar uma oficina de musicalização. Materiais alternativos como tubos de PVC, por exemplo, serão utilizados. No início de maio o diretor teatral catarinense Pepe Cedrez ministra curso para atores já iniciados. "O Pepe está cheio de novidades que trouxe da Argentina e vai repassar para nossos atores", comenta Smurf. Nando Moraes e Ângela Finardi também estão na lista de convidados para as oficinas deste ano.

Passado de glória

Há cerca de 30 anos o teatro são-bentense viveu sua época de ouro com as peças dirigidas por Arno Fendrich, já falecido. A Sociedade Bandeirantes era palco de "superproduções" que tinham um público cativo. Antes ainda, no início do século, as produções de teatro amador já aconteciam na Sociedade 25 de Julho. A cidade também ficou famosa pelas apresentações do "Drama do Calvário", também sob a direção atenta de Fendrich. A peça era apresentada nas escadarias da igreja matriz e mobilizava centenas de pessoas para representar a Paixão de Jesus Cristo. Para Donald Malchitzki, a sazonalidade do teatro em São Bento do Sul está intimamente ligada ao apoio cultural. "O teatro precisa de um suporte. Quando há apoio, cresce".
O diretor cultural diz que São Bento do Sul entra agora numa nova fase: a do teatro moderno. "Antes as produções ainda estavam dentro da perspectiva realista, hoje esta visão mudou". Em "Bailei na Curva", por exemplo, o cenário foi todo composto por rádios e televisões antigas, retratando as mudanças recentes da história brasileira. Os personagens centrais eram os "filhos da ditadura".
No ano passado o Arlequim apresentou suas peças para cerca de 40 mil pessoas. O segredo para atingir tamanho público é antigo: "A gente é mambembe mesmo", diz o ator Altamiro Bueno. Percorrendo escolas, festivais, empresas, o grupo de Rio Negrinho faz da canção de Milton Nascimento sua filosofia: "Vamos aonde o povo está porque nunca vi uma pessoa dizer que não gostou de assistir a uma de nossas peças". No ano passado, o Arlequim percorreu indústrias e até construções civis apresentando uma comédia de 20 minutos que alerta para as formas de prevenção a Aids. "A cena que jamais vou esquecer é a dos pedreiros do novo prédio da Caixa Econômica Federal de São Bento, sentados nos tijolos para assistir à peça", conta Smurf.
Como se não bastassem as oficinas, as apresentações e os convites para espetáculos em outras cidades (até em Brasília), o grupo ainda arranja tempo para tentar viabilizar recursos para a montagem da peça "Arquitruque", com direção de Nando Moraes e trilha sonora de Guilhermo Santiago. O grupo foi o único do Estado a ser indicado pelo Ministério da Educação e Cultura para receber os incentivos da Lei Rouanet, no ano passado. Apesar do aval do MEC, a tarefa de captar os recursos é árdua. "Temos R$ 10 mil assegurados por uma empresa são-bentense. Ainda faltam R$ 30 mil", explica Smurf. O grupo conseguiu prorrogar por mais um ano o prazo para conseguir junto à iniciativa privada o dinheiro de que necessita. "Arquitruque" é a história do reino de Novocórdia, que possui um rei e um ministro entediados cujo único divertimento é relembrar o passado. Um dia o ministro é incumbido de inventar jogos para o rei. A partir de então, desfilam no palco uma série de personagens que questionam os valores do poder e da existência humana.


Temporada
Cena de "Bailei na Curva", montada com sucesso na cidade

Curso do grupo
Téspis ainda tem vagas

Itajaí ­ Ainda há vagas para o Curso de Teatro Permanente da Téspis, que iniciou no dia 4. Ministrado pelos integrantes da Téspis Cia. de Teatro, o curso se utiliza de diversos jogos de improvisação, trabalhos de expressão corporal e vocal para desenvolver as possibilidades de expressão dos alunos. As aulas acontecem sempre aos sábados à tarde e as turmas estão divididas por faixas etárias. O número máximo de alunos é 25, para melhor aproveitamento das experiências. As matrículas estarão abertas até o dia 25.
Dois dos ministrantes do curso acabam de retornar de Buenos Aires, onde estiveram realizando um estágio com um importante grupo de pesquisa teatral, dirigido por Diego Cazabat, que é professor de interpretação das principais universidades daquele país. Este estágio culminou com a proposta de uma produção internacional envolvendo profissionais de Itajaí e Buenos Aires na montagem de um espetáculo. A peça, já em período de ensaios, deve estrear ainda no primeiro semestre em Itajaí, seguida de turnê por várias cidades do Brasil e da Argentina.

Mostra aberta

A Téspis Cia. de Teatro e a Associação Itajaiense de Teatro estão recebendo material (vídeos, fotos, releases e condições técnicas necessárias) dos grupos interessados em participar da 4ª Mostra Itajaiense de Teatro. Os materiais devem ser enviados até o dia 30 de março. A mostra será realizada de 12 a 21 de maio. Contará com uma programação variada, incluindo grupos convidados, grupos locais, oficinas, debates, palestras, entre outros eventos paralelos. Um dos convidados especiais é a Periplo Companhia Teatral de Buenos Aires, que apresentará o espetáculo "A Pérdida de mi Alhama" e também irá ministrar oficinas. Mais informações podem ser obtidas através do telefone (47) 348-8966, com Max Reinert, ou através do e-mail tespis@melim.com.br.


Pacote de cinco fitas
celebra Zé do Caixão

Clássicos do cinema nacional como "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" fazem parte da coleção

Ubiratan Brasil
Agência Estado

Admirado por Gláuber Rocha, desprezado pela crítica e perseguido pela censura, o cineasta José Mojica Marins rodou cerca de 150 filmes em mais de 40 anos de carreira, mas foi apenas em um punhado deles que interpretou o personagem que o deixou conhecido até nos Estados Unidos: Zé do Caixão. E os filmes mais representativos foram reunidos em uma coleção de cinco fitas, que está sendo lançada em video pela Continental, ao preço de R$ 100,00.
Há muito folclore em torno de Mojica, principalmente por causa do personagem Zé do Caixão, que nasceu em 1963, no filme "À Meia-Noite Levarei Sua Alma", justamente a primeira fita da coleção de vídeo. A figura já clássica surgiu a partir de um sonho de Mojica, que se via empurrado por um homem vestido de preto para dentro de uma gruta, onde estava um caixão com as datas de seu nascimento e morte.
No filme, Zé do Caixão é um temido coveiro que busca a mulher ideal para gerar o filho perfeito. Cena clássica: um herético Zé come carne com prazer, enquanto acompanha pela janela uma procissão de Páscoa. A história teve uma seqüência, "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver", de 1967, segundo volume da coleção, em que surgem os primeiros problemas com a censura, que obrigou Mojica a alterar o fim do filme. Zé do Caixão ainda busca a mulher perfeita e rapta seis moças, que serão torturadas até que a mais corajosa sobreviva.
Ao assassinar uma grávida, porém, o coveiro sofre com um pesadelo, no qual é enviado para um inferno gelado, onde reencontra suas vítimas, em uma espetacular seqüência. Os censores obrigaram o cineasta a transformar Zé do Caixão em um sujeito crédulo e religioso. O conteúdo de seus filmes, na verdade, sempre desafiou valores familiares e religiosos. Com o controle cultural acirrado pelos governos militares, Mojica era obrigado a mudar finais ou dublar novamente trechos considerados ofensivos com textos mais leves.
O terceiro volume da coleção, "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", em que o coveiro apresenta três contos de terror, teve 20 minutos cortados em que um personagem arranca a coroa de espinhos de Cristo e crava-a na cabeça de outra pessoa. A censura foi mais implacável com o quarto volume da série, "O Despertar da Besta", para muitos a obra-prima de Mojica. Previsto inicialmente como "O Ritual dos Sádicos", ficou inédito durante anos até ser rebatizado. Mesmo assim, sofreu vários vetos pela censura e acabou inédito comercialmente.
A trama, não-linear, abusa da metalinguagem: um psiquiatra injeta LSD em quatro viciados para estudar os efeitos da droga sob a influência da imagem de Zé do Caixão. O personagem aparece durante os delírios psicodélicos de cada um, misturando sexo, perversão e sadismo.

Fama de maldito perseguiu diretor

A fama de maldito, aliada à marginalização imposta pela recém-criada Embrafilme, provocaram um declínio na carreira de Mojica, no início dos anos 70. A perseguição policial também foi mais intensa - o cineasta chegou a ser preso durante um dia, quando reclamou de espancamento. Segundo ele, os policiais queriam que confessasse relações com uma menor de idade. Fruto dessa época, "Finis Hominis - O Fim do Homem", quinto volume da coleção, apresenta um desinteressante estudo sobre a exploração da fé.
No fim desse período, cheio de dificuldades, o cineasta chegou a rodar filmes eróticos e pornográficos. A redescoberta começou na década seguinte, quando começaram a circular nos Estados Unidos fitas piratas de seus filmes. (UB)


Sai nova edição
da revista "A Ilha"

Número 72 do suplemento pode ser lido também na Internet

Joinville - O início de março foi o período escolhido para o lançamento do número 72 do "Suplemento Literário A Ilha". A edição on-line da revista pode ser acessada através do site "Prosa, Poesia & Cia." no endereço http://clientes.brasilnet.net/lcamorim. Neste novo número do suplemento, além de muita poesia, o Grupo Literário A Ilha apresenta matérias sobre o Projeto Cultural Sul, em Cuba, onde recentemente aconteceu a Feira do Livro, com lançamentos de publicações de autores brasileiros - inclusive do catarinense Luiz Carlos Amorim - e sobre a poesia de Pablo Neruda no levada para o palco. A revista traz, ainda, a Pasárgada de Manuel Bandeira e os artigos "Para Lembrar a Semana de 22", "A Bienal Internacional do Livro de 2000 em São Paulo", além de texto sobre o filme "Cruz e Sousa, o Poeta do Desterro", do catarinense Sílvio Back.
O Grupo Literário A Ilha surgiu em São Francisco do Sul no ano de 1980 mas, dois anos depois, estabeleceu sede em Joinville, onde permaneceu até o ano passado. No início deste ano, a sede do grupo foi transferida para a grande Florianópolis, desenvolvendo as mesmas atividades que mantinha em Joinville. O site "Prosa, Poesia & Cia." foi indicado pela revista "WebGuide" de fevereiro e está em primeiro lugar na categoria cultura no Concurso Novos Talentos promovido pela mesma revista. Além da edição on-line da revista "Suplemento Literário A Ilha", já está na rede, no mesmo endereço do site, a coluna "Literarte", com muita informação cultural e literária.


Livros ganham
lançamento em Blumenau

Blumenau - A Editora Cultura em Movimento lança no dia 22 de março, em parceria com a Editora da Furb, o livro "Nosso Passado (in)Comum", coletânea de professores e pesquisadores da Universidade Regional de Blumenau que promete ser uma contribuição para a história e historiografia do município. Outras três obras serão lançadas até o final de abril pela editora da Fundação Cultural de Blumenau, com apoio do Instituto Blumenau 150 Anos.
Além da obra histórico-científica, neste mês chega ao público também o livro "Jogos de Teatro", uma antologia da dramaturgia blumenauense, destacando os melhores textos inscritos nas 12 edições do Jote-Titac, os Jogos de Teatro promovidos pelo Núcleo de Teatro Escola do Teatro Carlos Gomes. No dia 30 de março, aniversário de morte do naturalista Fritz Müller, será lançada a coleção de cinco trabalhos científicos sobre sua pesquisa em Santa Catarina, com reflexões bibliográficas de sua vida e obra.
Em abril será hora de homenagear os índios, no mês em que o Brasil comemora 500 anos do descobrimento. A editora Cultura em Movimento entrega a obra "Vale dos Indios, Vale dos Imigrantes", de Maria do Carmo Ramos Krieger Goulart e Nilson Cesar Fraga. A obra faz uma reflexão sobre o difícil convívio dos colonizadores alemães com os índios catarinenses, no século passado.


Fotógrafas são
homenageadas com exposição

São Paulo - Em 1997, o Senac doou 192 fotografias ao Centro Cultural São Paulo (CCSP). A maioria delas tinha participado da Bienal de Fotojornalismo, realizada no ano anterior. O fato de apenas 11 dessas imagens serem assinadas por mulheres chamou a atenção de Camila Duprat, diretora do Departamento de Artes Plásticas do Centro Cultural, que decidiu juntá-las para uma exposição em homenagem ao Dia da Mulher. "Mulheres no Fotojornalismo", será aberta hoje e fica em cartaz até o dia 26, no próprio Centro Cultural.
"Com a quantidade de profissionais atuantes no fotojornalismo brasileiro, é no mínimo desproporcional que apenas 11 tenham sido selecionadas para uma exposição como a bienal", observa. Mas a curadora acrescenta que não se trata apenas de chamar a atenção para a injustiça. "Um dos aspectos interessantes desse conjunto é que ele não traz elementos do chamado universo feminino", descreve a curadora. "Não são fotos de revistas femininas ou de suplementos especializados; são imagens que trazem assuntos de interesse nacional".
Encaixam-se nesse grupo imagens realizadas por fotógrafas principalmente de São Paulo e do Rio. Da fotógrafa Luludi, por exemplo, a mostra tem a foto "Lula no Carnaval da Cidadania", publicada pelo jornal "O Estado de S.Paulo". De Luciana Francesco, "Campanha pelo Sexo Seguro", publicada pela revista "Isto é", em 1991.


Crônica

Perverso psiquiatrismo

Wilson Bueno

Conversei, na semana, com (revoltada) amiga de longo tempo e uma das mais importantes psiquiatras paranaenses, notoriamente especializada no trabalho com dependentes químicos ­ esta palavra horrível e que serve para designar até mesmo a dependência por uma substância nada "química", no sentido "fármaco" do termo, que é a maconha, por exemplo. Acho que o psiquiatrismo vigente já começa errando por aí. Não sabe sequer dar nome aos bois.
A verdade, gentil leitor, é que a ditadura acabou mas não acabaram os métodos brutais com que, impotente frente à multiplicidade do "fenômeno" humano, o psiquiatrismo vigente tenta, atabalhoada e canhestramente, "conter" o que foge à regra, o que escapa à norma. Da camisa-de-força à lobotomia (prática muito mais comum do que se pensa), da substituição de drogas ilegais por drogas controladas por médicos sinistros, do comuníssimo eletrochoque ao mais que comum abuso sexual de doentes mentais ou de tão jovens quanto desorientados "adictos" por terapeutas mais doentes do que seus respectivos pacientes, o panorama visto da ponte, leitor, é absurdo, cruel e aterrador; o sinal da Besta, creiam, no pátio dos hospícios. Se a saúde como um todo está no fundo do poço no país de FHC, o leitor há de entender em que pé andam, com raras exceções, as instituições psiquiátricas nisto aqui que é além que o Haiti...
A cidadania que se preze como tal tem que vir a público, urgente, para rediscutir o papel do agente de saúde mental neste país de trânsfugas e proxenetas, de psicólogos que sugerem ter comprado na esquina os seus diplomas, pelo gritante despreparo, pela não solução de seus conflitos pessoais, condição primeira ­ está provado e a lógica confirma ­ para "tratar" a doença alheia.
As faculdades de meia-tigela despejam, a cada ano, no mercado, milhares de pseudo-psicoterapeutas e falsos psiquiatras que "potencializam" a sua "doença", no mínimo sob a forma da prepotência, da arrogância, promovendo, a olhos vistos, um verdadeiro massacre contra os "loucos", os jovens "dependentes" e os conflituados inocentes que perambulam pelas vielas deste país triste.
Acabo de sofrer em família a prova disto tudo e permita-me, leitor amigo, o desabafo, ainda que estas linhas não pretendam, ao menos hoje, contar a terrível história de um afilhado cuja saúde esteve gravemente ameaçada, estes dias, pelo ensandecido e mercantilista psiquiatrismo vigente. Não há leis que limitem a atuação dos agentes da barbárie ­ qualquer psicólogozinho ou médico psiquiatra feito nas coxas parece ter mais poder hoje do que um sargento possuía ao tempo da ditadura militar que nos comeu o fígado e a alma.
Não pensem, contudo, que ela, a ditadura, acabou; não, senhores, está muito presente (e terei condições de prová-lo!) no hospício da esquina ou na clínica do bairro chique em que os filhos da classe média são dopados de suas contradições e de seus conflitos familiares por terapeutas ansiosos e dinheiristas. Isto entre os ricos; porque em meio às hordas de miseráveis, a tarefa com vistas a decretar a morte civil de doentes mentais e "viciados" (de alcoólatras a dependentes de crack) é delegada em exclusivo ao psiquiatrismo vigente. E este, paciente leitor, deita e rola ­ enfermo e carente, perverso e desamparado.
Cuidado, senhores, com o desafeto da esquina ­ será suficiente que ele o julgue "louco", "viciado" ou "dependente" para, apoiado por um seu familiar e em conluio com o primeiro psiquiatra (a maioria, ao menos no Paraná, pré-Charcot, e para quem Freud ainda é aquele "judeu siderado de Viena") decretar que tudo que você fale ou diga em defesa própria, inclusive o argumento magno de que você não é louco, é a prova maior de vossa insanidade. Nenhum louco é louco de "assumir" que é louco ­ justificará o psiquiatrismo vigente, o aparelho de eletrochoques no bolso do jaleco.
Subjetividades. A sua e a minha vida ficam girando em torno de conceitos abstratos, "particulares", à mercê da "avaliação" e do "diagnóstico" de torturadores mentais e não de pessoas das quais se espera um mínimo de senso e preparo.
Os dados estão lançados. A quinze anos da mais sinistra ditadura brasileira, e a décadas da morte do famigerado Dr. Alô Guimarães, ainda não temos leis para conter, isto sim, tarefa urgente e inadiável, a sanha macabra do psiquiatrismo vigente ­ arbitrário sempre, invariavelmente bestial. Até semana que vem, caro leitor. Se sobrevivermos aos psicólogos de plantão...

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Das últimas edições de Anexo
07/03 - Cenas de impacto imediato
06/03 - Prêmio Visa de MPB prorroga inscrições
05/03 - Da ironia da etiqueta à ética do sarcasmo
04/03 - "A vida é um bolero"
03/03 - Fé, dúvida e cura no corredor da morte
02/03 - Sem fronteiras, a poesia desafia o tempo
01/03 - Do coletivo ao individual ao coletivo

Leia também

CD pirata dos
Mutantes está à venda

O último e inédito disco da banda, gravado em Paris em 1970, é a melhor obra pop do Brasil

Jotabê Medeiros
Agência Estado

São Paulo ­ Você paga uma "taxa de reserva" de R$ 10,00 e, em dois dias, tem em suas mãos uma cópia em CD de um dos mais aguardados (e bem guardados) tesouros do rock nacional: o disco "Technicolor", último inédito dos Mutantes, gravado em Paris em 1970. Isso pode ser feito nas lojinhas do centro de São Paulo, por obra e graça da indústria paralela da pirataria de CDs.
A reportagem conseguiu uma cópia do disco, que deverá ser lançado oficialmente pela Universal Music apenas no começo de abril. "Technicolor", na versão pirata, virou "Os Mutantes ­ Paris 1970". A edição clandestina é tecnicamente muito boa e traz 13 canções inéditas dos Mutantes, gravadas (a maior parte em inglês) em 1970 na capital francesa.
O encarte bucaneiro traz um erro: informa que Arnaldo Dias Baptista tocou também baixo na gravação. Não é verdade. Ele toca teclados e canta. Sérgio Dias faz backing e toca guitarras. Rita Lee toca flauta e canta e ainda faz uma percussão. Ronaldo Leme toca bateria e percussão. "Naquela época, nós não gravamos para competir com o Roberto e o Erasmo Carlos, mas com Beatles e Rolling Stones", disse, no fim do ano passado, o compositor Arnaldo Baptista, líder da extinta banda.
A declaração dá a medida do cuidado que cercou essa gravação. A gravadora Polydor inglesa bancou o projeto, entusiasmada com a possibilidade de fazer o mundo com os Mutantes. Levou a Paris o produtor inglês Carlos Olms, à época envolvido com o fenômeno Bee Gees. Mas motivações comerciais levaram a gravadora a desistir no meio do caminho. O próprio produtor, Olms, não gostou do resultado híbrido e "pouco inteligível", segundo contam. Olms decididamente não tinha faro. Hoje, é consultor em produções alheias, um burocrata de estúdio: seu nome consta nos créditos, recentemente, de "Thursday Afternoon", disco de Brian Eno.
A produção de "Technicolor", no entanto, foi tão caprichada que é difícil achar um arranjo banal ou uma solução fácil nas 13 faixas. Mas, na época, também a filial brasileira não se interessou pelo material. A matriz ficou perdida em arquivos e só foi encontrada recentemente, após extensa pesquisa do jornalista Carlos Calado, que escreveu "A Divina Comédia dos Mutantes".
Por conta do feriado, a assessoria de imprensa da gravadora não conseguiu localizar os executivos da Universal Music no Brasil para comentar o derrame de "Technicolors" piratas no mercado. Com a iminente saída desse disco esquecido ("O melhor disco dos Mutantes em toda a história", segundo Arnaldo Baptista) e a conquista do mercado internacional com a coletânea "Everything Is Possible" nos Estados Unidos pelo selo Luaka Bop, de David Byrne, a banda entrou no rol dos artistas "indispensáveis" dos primórdios do pop ­ o mainstream internacional da música.
Os Mutantes estão por cima da onda. Ocimar Versolatto fechou na semana passada seu desfile em Paris ao som do trio paulistano dos anos 60/70. Toda a alta modernidade musical da atualidade teve de fazer pelo menos uma visita à sala de espelhos dos Mutantes, de Kurt Cobain a Sean Lennon, de Stereolab a Pato Fu, de Beastie Boys a Beck. Com "Technicolor" a curiosidade deve redobrar.
"Acho que é porque Os Mutantes não têm um estilo, uma nacionalidade específica", diz Arnaldo, que também prepara um novo disco-solo há pelo menos três anos, sem data para terminar. Será lançado pelo selo Baratos Afins, de Luiz Carlos Calanca, já tem nome ("Let It Bed", trocadilho com "Let It Be", dos Beatles, e "Let It Bleed", dos Stones) e cinco músicas prontas.

Na estrada

Filhos de uma pianista erudita, os irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias já tinham estrada aos 17 anos. Arnaldo encabeçava a banda Wooden Faces, em 1964, quando conheceu a jovem Rita Lee Jones, também uma discípula do rock de Beatles e Stones e vocalista do Teenage Singers. Em 1965, eles passaram a tocar juntos em uma nova banda, Six Sided Rockers.
A colaboração profissional marcou também o início do relacionamento amoroso entre Arnaldo Baptista e Rita Lee. Em 1967, eles apresentaram "Domingo no Parque" no Festival da Record e passaram a contar com os arranjos de Rogério Duprat em seus trabalhos. Seu primeiro disco, "Os Mutantes", é de 1968. A história da banda foi tão breve quanto fértil. No fim de 1972, Rita e Arnaldo se separaram e ela fundou o Tutti Frutti. Depois, seguiu carreira-solo.
Ele também saiu dos Mutantes e gravou, em 1974, o disco-solo "Lóki?", fundou a Patrulha do Espaço e fez mais dois discos. Hoje, vive num sítio em Juiz de Fora com a mulher, Lucinha, e dedica a maior parte do seu tempo à pintura. Sérgio Dias prosseguiu com o grupo até 1978. Seu último disco foi "Ao Vivo", de 1976, com o músico ainda perseguindo uma versão tropicalista do rock progressivo. "A mágica aconteceu porque combinaram criatividade, técnica e alegria. Onde começava uma coisa e terminava outra, não dá pra dizer", diz Sérgio Dias sobre os Mutantes.
"Em 1977 ou 78, não me lembro bem, eu determinei o término de um ciclo, determinei a parada de minha banda, que me alimentou por tanto tempo a alma e o espírito", conta Dias, em sua página na Internet. "Tinha percebido então a mudança de fatores básicos nas atitudes daquela geração de pessoas que se haviam ligado a uma idéia, mas que não estavam preparados para seguir o ideal". Segundo ele, todos sempre lhe perguntam se não tem intenção de reunir o grupo de novo. O guitarrista deixa subentendido que isso pode até ocorrer, mas só "se as pessoas certas aparecessem".


Confira, faixa a faixa, porque
"Technicolor" é o melhor dos Mutantes

Não é à toa que os Mutantes consideram esse disco "perdido" o melhor de sua carreira. É impressionante o grau de modernidade e antevisão que alcança o trio liderado por Arnaldo Baptista. Quase ninguém chegou nem perto disso até hoje. "Technicolor" é o máximo ao que o pop nacional nunca poderia aspirar. Conheça a seguir, uma a uma, as 13 faixas do disco.

1. "Panis et Circenses" ­ É uma versão clara, limpa, do clássico de Gil e Caetano. Aperitivo para um mergulho na odisséia pop.
2. "Technicolor" ­ A faixa que dá nome ao disco é a mais internacionalizada, duelo de teclados e vocais bem adestrados.
3. "I Feel a Little Spaced Out" (Ando Meio Desligado) ­ Essa versão termina com um dos mais impressionantes solos de guitarra dos anos 70, pré-Jimmy Page, pós-David Gilmour.
4. "Bat Macumba" ­ Aqui, os Mutantes colocam Keith Richards num terreiro de macumba de Salvador, com Rita Lee fazendo às vezes de Jane Birkin. Os deuses pagãos do rock se encontram com os mitos sagrados da umbanda.
5. "El Justiciero" ­ Versão que pode fazer uma garota dançar numa festa em um bateau mouche no Rio Sena, mas também pode estremecer a sisuda bilheteira do Louvre.
6. "Adeus Maria Fulô" ­ Cuícas e um vocal de moda de viola caipira convivem com teclados visionários e coral de procissão de reis. Em uma faixa, os Mutantes faziam mais pela cultura nacional do que toda a xenofobia dos anos 70.
7. "Le Premier Bonheur du Jour" ­ Essa faixa, embora aparentemente inócua numa primeira audição, influenciou barbaramente boa parte do pop do futuro. Fellini e Jupiter Apple beberam dessa fonte.
8. "Virgínia" ­ Nem Paul McCartney, do qual a faixa é decalcada, conseguiria ser tão Paul McCartney, mas com uma diferença essencial: o suingue, a facilidade de triturar a base country com guitarras desagregadas.
9. "Sorry Babe" ­ Clássico dos Mutantes, de todos os tempos.
10. "She's My Shu-Shu" (Ela é Minha Menina) ­ Uma grande dose de bom humor e de reverência à mistura inusitada e original de Jorge Ben Jor, o autor.
11. "Baby" ­ Nunca foi tão fácil saber da piscina, da margarina...
12. "Saravah!" (Saravá!) ­ Liquidificador psicodélico superpõe Creedence Clearwater e Carmem Miranda.
13. "Grand Finale" ­ Que cessem todos os superlativos: chegamos ao topo do mundo e os flautins embalam a despedida incidental. (JM)


Globo firma parceria
com campeonatos estaduais

Emissora promove competições e divide lucros com federações e clubes

Fernando Miragaya
TV Press

A Globo vai colocar em campo um esquema tático ofensivo. A emissora assinou parcerias com federações e clubes para promover os campeonatos carioca e paulista de 2000, que começam neste domingo. Mas isso não se resume à transmissão das partidas. A Globo também vai dividir os lucros e o retorno comercial das duas principais competições regionais do País. Ou seja, vai bater bola com os clubes. Agora, mais do que nunca, a emissora de Roberto Marinho vai exercer seu poder sobre o esporte mais popular do Brasil. Os horários das partidas, que já eram orientados pela tevê, devem ficar totalmente submetidos. "A Globo não tem o intuito de monopolizar o futebol. Trata-se de uma parceria para valorizar o produto futebol e gerar uma divisão melhor", garante Marcelo de Campos Pinto, diretor geral da Globo Esportes, setor da Globo responsável pela comercialização de propriedades e direitos esportivos.
Monopólio realmente não existe. Além da Globo, que também transmite o Carioca para vários estados do Norte e Nordeste, e Sportv - canal por assinatura da Globosat -, a Band e a ESPN Brasil também vão transmitir os jogos. Mas a própria tabela dos campeonatos do Rio e de São Paulo já mostra a influência televisiva. Dificilmente os torcedores vão se livrar de partidas realizadas aos domingos no enfadonho horário das 18h30, o que não parece muito compatível com as metas de Eduardo Vianna, presidente da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro. "O objetivo é atrair as famílias de volta aos estádios", garante. "O que queremos é melhorar o espetáculo futebol", faz coro Eduardo José Farah, presidente da Federação Paulista de Futebol.
Os efeitos globais já vão ser sentidos dentro de campo. Principalmente pela imprensa de tevê e rádio que faz a cobertura das partidas. Repórteres atrás do gol não serão vistos este ano. Os profissionais de imprensa, com exceção de fotógrafos e cinegrafistas, só poderão assistir aos jogos das tribunas de imprensa. Entrevistas no vestiário, prática comum após as partidas, também não vão ser permitidas. Aos repórteres vão restar as coletivas. Os clubes, por sua vez, se comprometem em liberar o treinador do time e um dos jogadores a cada partida para as entrevistas. Resta saber se a regra vai valer também para os profissionais da Globo. "As entrevistas serão feitas de forma democrática", jura Campos Pinto.
A emissora também vai ser responsável pela comercialização da publicidade estática - placas e painéis dos estádios. E mudanças nesta área vão ocorrer. O número de anunciantes nos locais dos jogos vai ser reduzido. A medida é resultado de um estudo que avaliou que o grau de retorno por parte do telespectador atinge níveis mais altos se houver, no máximo, seis cotistas para 30 placas distribuídas pelo campo. De acordo com a pesquisa, este modelo faz com que o público fixe durante 20 minutos por jogo cada marca. Para o campeonato carioca, Brahma, Tam, ATL, Telemar e Petrobras já garantiram suas cotas, enquanto em São Paulo, Itaú e Brahma já estão confirmados - em cada Estado, as cotas vão gerar uma receita bruta de R$ 1,5 bilhão. Estima-se que cada clube grande vai embolsar cerca de R$ 5 milhões.
A distribuição de ingressos também vai ser responsabilidade da emissora. No carioca, a Globo vai vender 80% dos ingressos, que serão comercializados pela emissora através de um pavilhão montado no Rio, enquanto no paulista, metade dos bilhetes serão comercializados pela emissora através das bancas de jornais em São Paulo. Nos dois Estados, os ingressos também poderão ser adquiridos por telefone e internet (www.ingressofacil.com.br). Mas independentemente das placas e dos ingressos, a parceria da Globo é um investimento a longo prazo. A emissora não assume, mas já estuda implantar o mesmo projeto em outros campeonatos estaduais e até mesmo no Brasileirão deste ano. "Vamos reforçar as relações entre o Clube dos 13 e a Globo", reconhece Jaime Franco, diretor de Marketing do Clube dos 13.


Teatro 1
A Téspis Cia. de Teatro e a Associação Itajaiense de Teatro estão recebendo material (vídeos, fotos, releases e condições técnicas necessárias) dos grupos interessados em participar da 4ª Mostra Itajaiense de Teatro. Os materiais devem ser enviados até o dia 30 de março, e a mostra tem data prevista para acontecer de 12 a 21 de maio.

Teatro 2
A mostra contará com uma programação variada incluindo espetáculos convidados - como "A Pérdida de Mi Alhama", da Compañia Teatral de Buenos Aires, Argentina -, espetáculos locais, oficinas, debates, palestras, entre outros eventos paralelos. Maiores informações podem ser obtidas através do telefone (0xx47) 348-8966 com Max Reinert ou através do e-mail tespis@melim.com.br.


 
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