Joinville         -          Sexta-feira, 10 de Março de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  

















Homem ao
mar das paixões

Há 13 anos no Brasil, arquiteto italiano traz à memória do País uma história de conquistas

GLEBER PIENIZ

No dia 25 de fevereiro, à margem da BR 101, em Araquari, foi aberto o Memorial do Descobrimento do Brasil, um parque temático cuja maior atração é a réplica perfeita da nau Espera, comandada por Nicolau Coelho na expedição que trouxe Cabral à então chamada Ilha de Vera Cruz. Na cerimônia de inauguração, o arquiteto responsável pela construção da embarcação disse que duas paixões sempre conduziram sua existência: a história e a navegação a vela. No Brasil, 57 anos depois de ter nascido, o italiano Franco Imbrianti fez de Santa Catarina a testemunha do tributo que paga a estas paixões. "Este é o primeiro passo de um resgate completo da história do Brasil que eu pretendo fazer", assegura.
Imbrianti estudou arquitetura três anos na Sorbonne, antes de ser laureado em Milão, em 1970. Quando esteve na França, foi colega de um dos jovens herdeiros da família Renault, empresário que o convidou para projetar uma das fábrica de automóveis da empresa na Iugoslávia, perto de Lubyanka. Foi nessa época que as duas paixões se encontraram: instrutor de vela oceânica na Itália desde muito cedo, o arquiteto teve como moradia um castelo onde, nas horas vagas e sem nenhuma outra alternativa de lazer, lançou-se aos livros. "Passei a estudar história durante várias horas do dia", revela.
O primeiro contato com os projetos de Espera aconteceu em Salamanca, na primavera de 1976, quando Imbrianti pôs as mãos nas especificações gerais da nau e nas suas linhas d'água, documentos que escaparam do incêndio que dizimou os arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, porque haviam sido emprestados a estaleiros. "Ainda não sabia direito o que era, mas foi uma paixão que, na época, eu coloquei na gaveta", lembra o arquiteto. As minúcias que enriquecem e tornam a réplica montada à margem da BR 101 ainda mais atrativa não estavam descritas nas plantas encontradas por Imbrianti na Espanha, mas são detalhes comuns a todas as naus construídas em Portugal na mesma época, retirados dos livros de engenharia naval e mesmo de projetos mais completos.

TECNOLOGIA

O italiano aportou no Brasil em 1986 apenas para visitar uma tia que morava em Garibaldi, no Rio Grande do Sul. Convites para trabalhos em Bento Gonçalves seguiram-se à sua chegada e, num destes compromissos, conheceu os irmãos Molon, proprietários do posto Sinuelo, a quem apresentou os projetos de construção da nau, que imediatamente foram aceitos. As obras iniciaram em setembro do ano passado, um mês depois de o arquiteto ter chegado a Santa Catarina.
Para projeto pouco ortodoxo, Imbrianti teve a sorte de encontrar, em Barra do Sul, artesãos que, além de confeccionar cantos e voltas na madeira com esmero, também vergassem os cortes de ipê champanha usando o vapor, reproduzindo a mesma técnica utilizada pelos construtores europeus no início da era moderna. "Em Navegantes, há pessoas que fabricam escunas sem projeto nenhum, com base apenas na metodologia herdada dos portugueses", revela o arquiteto. "Para elas, eu tiro o meu chapéu". Composta de oito operários, a equipe do italiano terminou as obras da nau em 110 dias. "Para mim, o desafio foi apenas o de transmitir para as pessoas a forma como se construía navios em 1500. Por conta da prática que eles tinham, não houve problema nenhum", explica o arquiteto, lembrando de um tempo em que trabalhou na África com uma equipe de muçulmanos que inutilizou várias betoneiras devido às pausas diárias para oração exigidas pelo Corão.
Homem com uma espiritualidade muito grande, Imbrianti acredita que o grande motor das realizações humanas são as paixões: "Se você deixa de amar qualquer coisa - um sonho, uma mulher, o que seja - por um dia sequer, está perdido". A esposa, neste aspecto, tornou-se também uma aliada do arquiteto na realização do sonho de construir uma réplica da embarcação portuguesa, figura que tem acompanhado todos os passos do italiano no Brasil. No segundo dia em terras brasileiras, Imbrianti conheceu a artista plástica gaúcha Beatriz Carletto, com quem logo casou e fixou residência em Bento Gonçalves. A companheira esteve presente em todos os passos da construção de Espera, criando, inclusive, desenhos e texturas que foram aplicadas à nau.

ALHOS E CEBOLAS

"A guerra entre a França e a Inglaterra, então as duas grandes potências navais do planeta, liberou Espanha e Portugal para fazer o que quisessem no mar", explica o pesquisador. Na época dos descobrimentos, todos os bons marujos da Europa estavam a serviço dos dois países em guerra, restando aos impérios da Península Ibérica a única alternativa de arregimentar homens do campo, da cidade e das cadeias para singrar os oceanos em naus e caravelas. "As cebolas e alhos são testemunho real da que as tripulações não sabiam marear", diz o arquiteto, justificando a presença destes vegetais em locais bem visíveis da embarcação para que substituíssem, para compreensão dos marinheiros de primeira viagem, as noções de bombordo e estibordo pela de "lado das cebolas" e "lado dos alhos".
Outra peculiaridade das embarcações lusitanas, explica o arquiteto, era a proibição categórica de que seus tripulantes satisfizessem as necessidades fisiológicas a bordo: para isso, havia uma corda que descia pela amurada até próximo à linha do mar, por onde o marujo havia de descer se quisesse evacuar. A aqueles que descumpriam a determinação (por conta da desinteria, das infecções intestinais e mesmo da preguiça) era aplicado o exemplar castigo chamado "giro de quilha": o desobediente tinha os pulsos e os tornozelos amarrados a uma corda e, desta forma, era puxado de um lado a outro do navio em movimento, dando a volta submerso sob o casco.
Terceirização
Cortes nas grandes empresas acabaram trazendo oportunidades de negócios para micro e pequeno empresário.  AN_Economia 
Espera, a nau de Nicolau Coelho, ia à frente da frota de Cabral na expedição do descobrimento do Brasil e tinha capacidade para 182 tonéis. Lançava-se ao mar com uma lotação mínima de 65 homens, mas os navegadores da época sempre levavam 20 marujos a mais para compensar a mortalidade que, condicionada à falta de higiene, à precariedade da alimentação e às condições de conservação da água, vitimava uma parte significativa da tripulação. O número de pessoas a bordo invariavelmente chegava a 100 se contabilizados os chamados "hóspedes": padres, estudiosos e fiscais.
A ponte de comando, na popa, era o único ponto da nau em que se encontrava um pouco de conforto, resumindo-se a uma mesa, um pequeno colchão à guisa de cama e poucos assentos. A ela, só era permitido o acesso aos artesãos, contramestres e oficiais a bordo. Todo o resto da tripulação acomodava-se como podia sobre o convés e os jardins de popa e proa, já que nem ao porão - depósito de comida guardado pelo contramestre - podia descer. Todas as decisões sobre os rumos e as prioridades da viagem, no entanto, eram negociadas entre os oficiais e a tripulação. "A nau é uma embarcação que dava lucros e lançava-se apenas em rotas seguras, enquanto a caravela, mais leve e rápida, era usada nas viagens de exploração", explica Imbrianti, para quem o descobrimento do Brasil teve, sem sombra de dúvida, um caráter intencional: "Os portugueses sabiam da existência do Brasil. A viagem de Cabral foi uma das expedições mais bem planejadas da época e tinha rumo certo".

SEM PERIGOS

Nascido em 1943, sob as bombas que atingiam Cremona, Imbrianti preferiu excluir da réplica qualquer peça ou mecanismo que pudesse oferecer perigo aos seus visitantes, já que a nau tem finalidade educativa. Por este motivo, a Espera montada em Santa Catarina não possui as escadas de cordas que levam ao cesto da gávea, nem os dois canhões que originalmente acompanhariam as quatro bombardas usadas, na época de Cabral, para disparos de intimidação. "Tenho muitos sonhos que precisam se transformar em projetos", diz o arquiteto, que permanece em Santa Catarina até, no máximo, dois meses. Um destes projetos é o de treinar guias que o sucederão na recepção aos visitantes da réplica da nau; o outro é resgatar, "de alguma forma", o galeão do navegador Sebastião Caboto há séculos afundado na costa de Florianópolis.


Músicas erudita e popular
se encontram na Cultura

Hermeto Pascoal e Orquestra de Veneza são tema de especiais

São Paulo - O erudito e o popular ganham espaço privilegiado hoje, na tela da TV Cultura. Às 22h30, a emissora mostra o concerto, gravado na Catedral da Praça da Sé, em São Paulo, com a Orquestra Sinfônica Nacional Infantil da Venezuela, dentro do programa "Clássicos da Cultura". A orquestra veio ao Brasil em 1997 para apresentar-se no estádio do Maracanã, durante a última visita do papa João Paulo 2º ao País, e em mais quatro Estados brasileiros. O programa traz ainda depoimentos dos integrantes da orquestra, do maestro Gustavo Medina, do diretor e fundador José Antônio de Abreu, entre outros.
O repertório da Orquestra Sinfônica Nacional Infantil da Venezuela no especial inclui "Canção de Toreador" (G. Bizet), Danzas del Ballet "Estancia" e Danza Final ­ Malambo (Ginastera), Marcha Eslava e Abertura 1812 (P. I. Tchaikowsky).
O Projeto Venezuela, como é chamado o programa que envolve a orquestra, tem como objetivo a recuperação de crianças de rua ou com problemas familiares através da música. Não há discriminação de classe social, mas a preferência é dada às crianças que vivem na marginalidade. O projeto tem apoio da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Unesco, e já recebeu prêmios como o Gabriel Mistral, dado pela OEA.
O projeto existe há mais de 20 anos e auxilia jovens e crianças de todas as partes da Venezuela através de orquestras estatais e regionais, juvenis e infantis, conservatórios, centros educacionais e ensino de lutheria (a arte de construir instrumentos). A orquestra principal conta com mais de 100 garotos, entre eles alguns menores de seis anos de idade.

Técnica apurada

Numa mistura de música étnica, new age e free jazz, a cantora Sainkho mostra como se faz dois sons com a boca ao mesmo tempo. E o multiinstrumentalista Hermeto Pascoal mostra toda a sua técnica com os mais variados instrumentos. Eles são destaques de "Todos os cantos do Mundo", gravado com exclusividade pela TV Cultura no Sesc Pompéia. O programa, inédito, vai ao ar à meia-noite. O evento é uma realização do Sesc São Paulo e vai ao ar na Rede Cultura em 12 episódios de uma hora. Sempre haverá um clipe de apresentação sobre as atrações.
Mediante uma misteriosa e difícil articulação de boca, laringe e língua, Sainkho Namtchilak é mestre no throat sing style, antigo canto asiático que permite a reprodução de dois sons simultaneamente. Sua voz é caracterizada por essa dualidade, que evoca a tradição xamânica e budista de forma arcaica, religiosa e esotérica. Ela nasceu num pequeno vilarejo de Tuva, sul da Sibéria. Cursou a faculdade de música, mas foi-lhe negado o diploma profissional pelo Comitê Filarmônico. Em Moscou, conseguiu terminar os estudos no Gnesinsky Institute. Estudou as mais variadas técnicas vocais e os cantos tradicionais. Iniciou sua carreira e viajou em turnê pela Europa, Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos e Canadá.
Atrações sobre rodas
O subcompacto alemão Opel Agila é uma das atrações do Salão de Genebra, que apresenta os mais recentes lançamentos mundiais.  AN_Veículos 
"Hermeto não tem jeito para música", disse certa vez, com convicção, um diretor da Rádio Tamandaré, de Recife, em 1950. Ele abandonou a emissora, mas não a música. Nascido em Arapiraca, Alagoas, o mestre da sanfona dedicou-se também a outros instrumentos, do piano ao saxofone, passando pela flauta. Tornou-se compositor e arranjador e é reconhecido internacionalmente como um revolucionário, um artista que enriqueceu a música. No Brasil, deixou sua marca nos grandes acontecimentos musicais, dos festivais da Record ao 1º Festival de Jazz de São Paulo. No exterior, além de trabalhos com Miles Davis, teve presença marcante em festivais da Suíça, Alemanha, França, Dinamarca, Áustria e Japão.


Festival ganha linhas especiais

Mais ônibus facilitam acesso a espetáculos e eventos

Curitiba - Linhas especiais de ônibus, da Cidade de Curitiba, estarão facilitando, a partir do próximo dia 16, o acesso do público a locais onde estarão sendo apresentados espetáculos ou eventos que compõem a programação geral do Festival de Teatro de Curitiba.
A linha Jardineira que percorre 22 pontos turísticos da cidade poderá ser aproveitada para se chegar até alguns locais de apresentação de peças. Por apenas R$ 6,00 o passageiro visitará locais históricos, como o Jardim Botânico, Ópera de Arame e Rua 24 horas, e ainda aproveitará a viagem para se deslocar até lugares onde as companhias e artistas estarão se apresentando. Uma das peças que poderá ser vista por este sistema é "A Menina que Subiu a Montanha e Nunca Mais Desceu de Lá", do diretor mineiro Pedro Marcos de Oliveira, encenada de 24 a 26 de março, às 15 horas, no Bosque Alemão. Entre os destaques deste ponto turístico estão a trilha de João e Maria, dos contos dos irmãos Grimm, e a Torre dos Filósofos, com uma bela vista de Curitiba.
Quem utilizar a Jardineira também poderá, passando pela Praça Tiradentes, nos dias 25 e 26, às 16 horas, assistir à peça "Esperando o Lima", que conta a história de dois palhaços que viajam o mundo de bicicleta para apresentar o show do trio Pirathiny. O atraso do terceiro integrante, o Lima, faz a peça acontecer. As jardineiras circulam a cada 30 minutos e percorrem uma distância aproximada de 40 quilômetros em cerca de duas horas. Em cada ponto há uma breve parada para embarque e desembarque de passageiros. A cartela com quatro tiquetes dá direito a embarque e três reembarques.
O festival terá ainda uma linha de ônibus especial que faz parte do projeto "Viaje Curitiba". O serviço funcionará de 17 a 26 de março, com saída da praça Tiradentes, no centro da cidade, até o Canal da Música, ponto de referência do festival onde acontecerão 16 oficinas, feira, debates, lançamentos de livros e exposições. Os ônibus circularão a cada 60 minutos, a partir das 8h30 e até às 19h30. A passagem custa R$ 1,00. Os ingressos para o festival podem ser adquiridos no Shopping Mueller de Curitiba ou pelo site www.schultz.com.br.


Fábio Barreto participa de
debate em Florianópolis

Florianópolis - O cineasta Fábio Barreto participa hoje à noite, a partir das 20 horas, do debate "Deus e o Diabo na Terra do Cinema Brasileiro". O encontro acontece na sala multimídia do Museu da Imagem e do Som (MIS), promotor do evento que pretende discutir a situação atual da produção da indústrua cinematográfica nacional. A direção do MIS espera a participação de gente ligada ao cinema no Estado e estudantes de cursos nessa área.
Barreto, diretor de "O Quatrilho" - filme estrelado por Glória Pires e Patricia Pillar que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, em 1997 -, aproveita sua vinda a Florianópolis para divulgar também o curso de interpretação para cinema e televisão que ministra a partir do próximo final de semana na cidade. O curso vai acontecer durante quatro finais de semana e servirá para Barreto escolher atores para seu próximo longa-metragem, "Jacobina", filme que ele deve começar a rodar em Santa Catarina no primeiro semestre deste ano. As aulas serão ministradas no MIS, avenida Irineu Bornhausen, 5.600, anexo ao Centro Intergrado de Cultura (CIC). Informações no Estúdio de Atores, fone (0 xx 48) 222-2010.
Fábio é membro de uma das mais tradicionais e influentes famílias atuantes no cinema brasileiro. É irmão mais novo de Bruno Barreto, diretor de clássicos do cinema brasileiro, como "Amor Bandido", "O Beijo no Asfalto", "A Estrela Sobe", "Gabriela", "Dona Flor e Seus Dois Maridos" e "O Que é Isso, Companheiro?", que fez o Brasil concorrer pela terceira vez ao Oscar, em 1998, e filho do produtor Luis Carlos Barreto.


Cobertura carnavalesca
foi show de descompasso

Apresentadores de Globo e Bandeirantes se excedem e cometem festival de gafes

Rodrigo Teixeira
TV Press

O Sambódromo, no Rio, e o circuito Barra-Ondina, em Salvador, serviram de palco para Globo e Band mostrarem falta de harmonia entre os integrantes de suas equipes no Carnaval deste ano. Na emissora de Roberto Marinho, o problema começou pela escalação. A dupla Glória Maria e Pedro Bial não conseguiu emplacar como porta-bandeira e mestre-sala globais. Os apresentadores do "Fantástico" estrearam na avenida sem concorrentes, já que a Globo tinha exclusividade no desfile no Rio este ano, e mesmo assim saíram inúmeras vezes da cadência do samba.
Após um domingo sonolento, Bial deu mais vivacidade a seus comentários na segunda. Na apuração, talvez já alvo de críticas internas na emissora, se conteve ainda mais na sua esperteza e erudição explícitas. De qualquer forma, nem de longe se equiparou à performance que Fernando Vanucci tinha no Carnaval carioca, ou mesmo à que teve este ano no Carnaval da Band.
Na verdade, o ex-global Vanucci tirou leite de pedra. Isto porque o Carnaval de Salvador pode até ser bom para o folião que participa in loco da festa, mas dificilmente funciona como espetáculo televisivo. Ao contrário do Desfile no Rio, onde imagem e som podem até dispensar comentários, em Salvador há problemas de iluminação e enquadramento, tanto pelas luzes dos trios, que estouram as imagens e dificultam a definição, quanto pelos ângulos de visão que não ajudam. Ver a massa parada embaixo dos trios, só os cantores na ponta dos carros ou aquele punhado de gente espremida nos camarotes baianos não chega a ser atraente. Por isso, ficou evidente que Vanucci tentava enrolar o espectador fazendo piadinhas, imitando o sotaque baiano e elogiando as belezas da terra do acarajé.
Mas a Band até tinha motivos para "embromar". Não era o caso da Globo. Nem por isso, Glória Maria poupou o comentário dispensável "está maravilhoso o desfile". A exaltação da apresentadora não foi só com o desfile, mas também com os percalços enfrentados pelas escolas, como quando o carro alegórico da Mangueira quebrou: "a Mangueira homenageia os negros e, como um negro, saberá superar as dificuldades".
Glória, no entanto, não superou sua primeira narração de desfile tão bem assim. Ela repetiu a velha fórmula de fazer uma afirmação e querer a confirmação de Haroldo Barbosa e Ricardo Cravo Albim, que falaram pouco na cobertura global. Já Pedro Bial oscilou momentos de alegria gratuita e melancolia profunda. O tom de sua voz ia das alturas dissonantes aos sussurros galanteadores. Admirador de poesias, Bial chegou a soltar a pérola "no bumbum do carro", referindo-se à parte traseira do carro alegórico.
Sensualidade
Sambista com os pés no chão: Viviane Araújo ganha destaque no Carnaval e faz planos para a TV.  AN_Tevê 
A Band também caiu em elogios fáceis. Astrid Fontenelle, que já declarou que não gosta de pagode, saracoteou junto com Tiazinha no trio do Terra Samba. Sem o menor constrangimento, também entrevistava os artistas nos camarotes sempre se derretendo em elogios. Já Otaviano Costa parecia narrar partidas de futebol e fazia perguntas medíocres como "é a primeira vez que você vem à Bahia?". Mas quem perdeu a postura foi Vanucci, que fazia aniversário e agradecia a todos os "alôs" dos cantores. Dono do trio "Alô Você", que tem o Araketu como atração, o apresentador só faltou dar o número de telefone para contratar shows.
A equipe da Globo em São Paulo também não deixou de cometer gafes, apesar do repórter Márcio Canuto ter dado um show de originalidade ao se fantasiar de personalidades históricas. A dupla Cléber Machado e Mariana Godoy também foi bem. Cléber mostrou uma voz superior à do oscilante Bial e a jornalista se concentrou em dar informações relevantes dos enredos das escolas paulistas. A bola fora foi a Globo colocar César Trali e Priscila Brandão como repórteres. O ex-correspondente de Londres, constrangido, não sabia nem os nomes das personalidades. Já a jornalista fazia pedidos impossíveis, como refazer a parada da bateria após o desfile.

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Frank Darabont
exagera na caminhada

O drama "À Espera de um Milagre" tem qualidades, mas não sustenta três horas de duração

Lola Aronovich
Especial para o Anexo

Joinville - "À Espera de um Milagre", em cartaz no Estado, começa com um velhinho narrando seu passado, o que continua pelas próximas três horas. Ou seja, mais "Titanic", impossível. Em tudo nota-se que é uma superprodução convencional: música a preencher os silêncios, fotografia, roteiro e direção sem nenhum ângulo inovador. O pessoal acostumado ao cinemão não vai se decepcionar.
O bom moço por excelência Tom Hanks faz um encarregado pelas execuções no corredor da morte, lá pelos anos 30. Ele cuida de uma cadeia com mais guardas que prisioneiros (dá pra ver que o índice de criminalidade aumentou barbaridades desde então). Seu maior problema é um guarda sádico e covarde com costas quentes. Chega um grandalhão acusado de assassinar duas garotinhas, mas basta olhar pra ele para concluir que ele é inocente. Ainda por cima, este gigante tem o dom de curar doenças. Há também um ratinho que meio que se transforma no mascote da prisão.
Não quero que minha verve sarcástica contagie esta resenha. Eu gostei do filme. Chorei baldes, principalmente nas cenas envolvendo o camundongo. Só que "À Espera de um Milagre" deveria ser encurtado. Existem cenas absolutamente dispensáveis. Por exemplo, precisamos mesmo que um dos prisioneiros diga ao guardinha de Tom Hanks "você é bom"? Claro que não, o Tom é sempre bom. Também poderíamos sobreviver sem que um outro diga de um bandidão: "ele é mau". A bandeira não é necessária pra que o espectador perceba o maniqueísmo desde os primeiros momentos. Não é suficiente que sejamos manipulados, temos ainda que receber tudo mastigadinho.
A seqüência inteira em que Tom visita o ex-advogado do gigante cai na mesma linha do descartável. Parece que só foi colocada lá para marcar o reencontro entre Tom e Gary Sinise, parceiros naquela aberração que é "Forrest Gump". A opinião do advogado não acrescenta nada. Faz tempo que sacamos que o grandalhão é a inocência em forma de gente, um homem iluminado, um enviado dos céus.
Todo filme sobre a pena de morte é contra a pena de morte. Não dá pra mostrar algo tão grotesco e legitimá-lo. Hollywood, porém, é pura hipocrisia. Poucas indústrias defendem tanto a pena máxima como esta do entretenimento. Quantos filmes você já viu onde o vilão, depois de aprontar mil e uma, vai para a prisão pagar seus pecados? (Lembre-se que os prisioneiros nas produções de cadeia geralmente não são culpados, são heróis). Prisão é anticlimático, e funciona apenas como castigo a longo prazo. Logo, pra nossa catarse coletiva, o bandido sempre morre de maneira hedionda. E nada de morrer uma ou duas vezes, não. Queremos sangue. Às vezes ocorre assim: vilão leva vários tiros, vira picadinho, explode, cai de um prédio de vinte andares, é atropelado por um caminhão lá embaixo. Quando o mocinho passa por perto, o bandido dá seu último suspiro e ataca o herói, que só então o mata em definitivo. Estamos vingados!
Em "À Espera de um Milagre" há dois vilões, e ambos são exemplarmente punidos. Parece que a pena de morte é errada por ser aplicada por um governo, mas nada contra fazer justiça com as próprias mãos.
O gigante, muito bem interpretado por Michael Clarke Duncan (indicado ao Oscar de coadjuvante - ele é a alma do filme), é um pouco o retardado de "Ratos e Homens", um pouco Frankenstein. Coitado do Michael! Este é seu primeiro papel, e pode-se dizer, o último. Tem uma anedota que conta que o tubarão e o dinossauro de Spielberg reclamam por não poderem fazer Shakespeare, por estarem condenados a um único papel. Com Michael acontece o mesmo. Há mais personagens disponíveis para o ratinho do filme (vide "Stuart Little", "O Colecionador de Ossos") que para um grandalhão que, além de tudo, é negro.
A cena do prisioneiro assistindo a "O Picolino" antes da execução remete automaticamente àquela dos homens vendo "Gilda" em "Um Sonho de Liberdade". Este outro drama de prisão é um dos clássicos da trágica década de 90. Também foi dirigido por Frank Darabont, também baseado em Stephen King. "À Espera de um Milagre" é legal, mas prova como é difícil um raio cair duas vezes no mesmo lugar. Tomara que Darabont se liberte para tocar outros projetos. Milagre por milagre, o único de 99 até agora foi "Beleza Americana".

Lola Aronovich é professora de inglês e cinéfila/lola@netkey.com.br


Altman diverte com "A
Fortuna de Cookie", já em vídeo

Luiz Zanin Oricchio
Agência Estado

Muita gente se decepcionou com "A Fortuna de Cookie", o mais recente Robert Altman a baixar por aqui. Certo, não chega aos pés de "Nashville", "Short Cuts" ou "O Jogador". Mas, também, ninguém é obrigado a apresentar uma obra-prima por ano, não é? Ainda mais quando produz como Altman, que parece descansar quando está trabalhando. O lançamento de "Cookie" (Top Tape) em vídeo é boa chance para uma reavaliação de um filme que, se não é grande, pelo menos parece bem divertido.
Sem se contar que, ao lado da diversão, traz o olhar de Altman, sempre ácido e agudo, sobre os costumes do seu país. No caso, o sul. A pequena cidade sulista, onde cada um tem seus segredos e cada qual conhece os defeitos do próximo, já que, por definição, ninguém conhece perfeitamente os seus próprios. A veterana Patricia Neal faz a Cookie do título, velhinha que certo dia aparece morta. Ninguém sabe ao certo se se suicidou ou foi assassinada. E há os parentes que desejam deixar o caso na sombra, para se apoderar da herança da falecida.
Glenn Close monta sua vilã em tom de caricatura. A bela Liv Tyler aparece como a sobrinha desleixada, algo masculinizada (se isso fosse possível), o rosto perfeito sujo de graxa. Tudo no fundo é apenas comédia. Uma história simples, que não se estraga pelo fim previsível. Mesmo porque, nesse caso em particular, o desfecho é que menos importa. Altman preocupa-se mais em compor cada personagem. Coloca a câmera sobre cada um deles, segue-o, examina-o.
Tem uma arma de análise, que se não é infalível, pelo menos parece eficiente: sua humanidade. Simpatiza com os tipos que coloca na tela. Mesmo com uma vilã como a criada por Glenn Close, responsável no fundo por todos os distúrbios da cidadezinha. Mas que não é tão má pessoa assim. Apenas terrivelmente confusa.
"A Fortuna de Cookie" é aquele tipo de filme despretensioso, feito para divertir, mas trai a sua origem. Nenhum trabalho de Altman pertence inteiramente ao gênero descartável. Mesmo nesse, com toda a sua humildade, vê-se uma maneira original de enxergar uma comunidade pequena. Há nelas, e o arguto Altman sabe disso, aqueles famosos segredos de Polichinelo, ou seja, que todo mundo conhece, mas ninguém fala a respeito. Essas verdades tabus, de certa forma, dão consistência à comunidade.
Embora seja uma consistência retrógrada porque se refere a algum tipo de culpa coletiva. Cabe a um olhar esperto desvendar esse mistério, cuja solução todos os participantes conhecem. Em benefício do prazer do espectador.


Marisa Orth e a
Banda Vexame se reúnem

São Paulo - A atriz Marisa Orth e a Banda Vexame prometem mais uma vez arrancar lágrimas e risos da platéia, com seu repertório de pérolas da música brega brasileira, no espetáculo "Jardim das Delícias", que estréia hoje em São Paulo. Longe dos palcos há três anos, a banda volta trazendo novidades como a participação do premiado Gringo Cardia, responsável pela direção e cenografia. Porém tal sofisticação não deve preocupar os fãs da apresentadora Maralu Menezes. "Ela continua politicamente incorreta, grossa e muito engraçada", garante Marisa. Fernando Salém, um dos fundadores da Vexame, nascida em 1989, mais uma vez é o responsável pelos arranjos e direção musical.


Crônica

Carnaval, bundas, peitos, etc.

Olsen Jr.

O Carnaval é uma estação de lazer que para mim não existe. Mas como ignorá-lo? Todos os jornais falam, nesta época do ano, das beldades que atendendo a um chamado de mil demônios, revelam todos os seus talentos dançando e tirando a roupa. Não só falam como mostram. Acredito, no fundo, somos todos sadomasoquistas, que o diga a televisão, ao vivo e em cores. A mesmice sempre culmina ganhando as primeiras páginas. Nesta época de "vale-tudo" para ganhar os 15 minutos famosos preconizados por Andy Warhol, busco pôr a minha leitura em dia. Estou com uma biografia de Freud, do Peter Gay, presente da minha filha em meu último aniversário (junho do ano passado) e uma do Camus, presente de um Natal de 98, de alguém que já amei, mas como afirma o poeta, muitos relacionamentos se acertam pela ruptura e não pela reconciliação. Quando certas verdades se tornam evidentes, é necessária muita presença de espírito para não perder o bom humor. O que de fato vale a pena, o tempo se encarrega de revelar. Um belo livro "Geografia Cultural", do Paul Claval; um livro de poemas do Goethe, a "Trilogia da Paixão"; uma seleção com as melhores "Entrevistas da Revista Playboy", da LP&M; seis revistas publicadas em formato de livro "Livro de Cabeceira da Mulher", da década de sessenta, pela Civilização Brasileira, que tive a sorte de encontrar num sebo aqui da Capital; "Máximas e Mínimas do Barão de Itararé", da MPM um belo presente, e finalmente, os dois últimos livros de contos do meu amigo Fausto Wolff: "O Homem e Seu Algoz" e "O Nome de Deus". Este último não se classificou para o prêmio "Jabuti" deste ano. Segundo Fausto, o discípulo superou o mestre. Discordo. Rebeldes não possuem mestres e também não deixam discípulos, apenas comem o pão que o diabo amassou para construírem o próprio caminho. Como sacrificamos e somos sacrificados, nos olham com desdém desde que não cheguemos a lugar nenhum; caso consigamos, ouviremos não "o toque de gaita e de violão" como preconiza a música nativista e hino do Rio Grande, "Canto Alegretense", mas o murmúrio covarde e aliciador das predições feitas depois dos acontecimentos, celebradas por expressões como "eu sabia"... "eu não disse?"... enfim, é um dos riscos do caminho que escolhemos. Estes livros todos, já estavam aqui para serem lidos no Carnaval do ano passado e, ouso afirmar, daquele de 98. Devo ter realizado ações mais confortantes para deixá-los de lado. Este ano, pelo menos no Carnaval, não seria diferente. Tinha recebido um "ultimato" da Editora da Universidade (UFSC) para entregar o romance "Estranhos no Paraíso" no qual deveria apenas dar uma última leitura e fazer uma e outra revisão que achasse necessária. Não poderia decepcionar o amigo Alcides Buss, até porque o interesse deveria ser meu, afinal, não se aprova todos os dias uma obra com mais de 300 páginas e se menospreza sua publicação. O livro em questão, já havia sido um dos dois finalíssimos do Prêmio "Luis Delfino" em 1989 (aliás, estou cansado de ir para a final, sorry) as pessoas só lembram dos vencedores, quando lembram. Com a literatura não é diferente. Bem, paralelamente a isso, havia a promessa da visita de uma prima com uma amiga vindas do Norte do Estado para passarem estes feriados em minha casa. É, "te vira", como afirma o gaudério. Chegaram no sábado à tarde. Jantamos na "Casa do Chico", foi quando a Celina (que não era a minha prima, com o perdão da rima) se referiu a um amigo que ela teve... por que, teve? Pergunto. Porque ele morreu, esclareceu ela. Não me lembro do que se tratava, mas era um referente, embora morto. No domingo fiz um caldo de peixe, coisa do "Guinness Book", foi quando, outra vez, ela se referiu a alguém, para ilustrar a conversa, e que já tinha morrido. Na segunda, fomos ao "Santo Domingo", bom ambiente, bom papo, boa música, evidentemente, jazz... lá pelas tantas, a moça cita um exemplo de um velho amigo, que tinha morrido, e que esclarece a situação que tínhamos discutido. Como se tratasse da terceira vez que o "referente" capaz de trazer "alguma luz" para o colóquio era um cidadão morto, e não se tratava da mesma pessoa, tive que intervir. Você já percebeu, afirmo, que todas as pessoas que elucidaram alguma coisa na tua vida, já estão mortas? Ela pareceu "despertar" para a novidade, com uma exclamação, entre surpresa e preocupada "é mesmo", "não fiz por querer", "coincidência"... pelo sim e pelo não, se alguém perguntar por mim, por favor, suplico, não vai dizer que me conheceu, afinal, tenho ainda muito por fazer neste mundinho terreno... rimos um pouco. Na terça-feira o Valdir Alves aparece, bebemos apenas umas vinte cervejas, alguns gim-tônicas, acredito, estávamos um tanto fora de forma quando afirmou que o "Prêmio Jabuti" era tão importante que deveria mesmo ser entregue lá em Nova York... elas saíram na quarta-feira, e fiquei com a estranha sensação de que não realizei o trabalho a que me havia proposto, quer dizer, ainda não conclui, mas me empenhei, até domingo, termino. Ah! Quanto as bundas, peitos, etc.?... Vão ler os jornais, pô! Estão pensando o quê?


 
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