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ANotícia
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A reconquista do Oeste
Atoleiro

Estradas precárias foram impecilho
para desenvolvimento do interior |
Saga

Mural de Hiedy Assis Corrêa,
em Caçador, imortaliza Guerra do Contestado. No detalhe
(abaixo), a capa do livro |
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O
livro "Santa Catarina no Século XX" mostra as
contradições da modernização do Estado
e enriquece a historiografia
Émerson Rodrigo Santi
Especial para o Anexo
Referindo-se
ao discurso de 1º de janeiro de 1936 do então presidente
Getúlio Vargas sobre o projeto nacional da "marcha
para o campo", o escritor Graciliano Ramos revela não
somente sua condescendência com a proposta progressista
de "reconquista do Oeste" (a conquista havia sido efetivada
pelas bandeiras vicentistas), devido aos benefícios que
ela traria ao matuto miserável geograficamente isolado
até então, como também cifra formas de fixar
o homem rural no campo. Eis o texto de Graciliano: "Melhorados
e aumentados os meios de transporte, utilizados os nossos recursos
em toda a superfície do país, especialmente o carvão,
o petróleo e o ferro, o que originará melhor distribuição
demográfica e elevação conseqüente
do nível cultural, os camponeses não mais precisarão
buscar na cidade o que ela não lhes pode oferecer."
Com uma abordagem analítica e usufruindo de vasta bibliografia,
além do privilégio de dialogar com o fato já
ocorrido, o professor e antropólogo Silvio Coelho dos
Santos lançou olhar prospectivo e organizou um "livro-álbum"
(devido ao farto material iconográfico agregado ao término
de cada texto) de título "Santa Catarina no Século
XX", publicado pela Editora da UFSC com a participação
de mais quatro articulistas: Paulo Fernando Lago, Carlos Humberto
Corrêa, Alcides Abreu e Hoyêdo Nunes Lins. O professor
Sílvio inicia a obra discutindo a tentativa de implantação
desse projeto de modernização do Brasil e seu impacto
na sociedade catarinense. Modernidade essa representada pela
ampliação dos meios de transporte com a ferrovia
e o trem.
A idéia positivista da "ordem e progresso",
fertilizada ainda no final do império e concebida na República,
buscava a unanimidade na recém-constituída nação
republicana brasileira. Uma nação constitucionalmente
definida como politicamente organizada, com povo, território
e governo soberano. Para se legitimar soberano, o governo necessitava
dominar os limites do território nacional. É nesse
contexto que o professor Sílvio, sempre partindo da realidade
catarinense, problematiza a questão da proposta de modernidade
no início do século 20 e seus desdobramentos na
vida cotidiana, social e política do Estado.
O ponto nevrálgico da discussão é a representação
contraditória da modernidade que, numa proposta de consolidação
do território nacional através da construção
da estrada de ferro São Paulo/Rio Grande do Sul, expõe
as duas faces da moeda progressista: escoamento de produtos,
deslocamento de tropas, contratação de mão-de-obra,
distribuição demográfica, penetração
de imigrantes e descendentes no interior, por um lado, e por
outro a "fúria suicida entre as populações
prejudicadas" pela expropriação coordenada
não somente por advogados e políticos ligados à
Brazil Railway Company empresa concessionária da
construção da estrada de ferro como também
por seguranças armados da companhia. O episódio
eminente desse empreendimento capitalista é o conflito
denominado Guerra do Contestado (1912-1915), envolvendo forças
militares republicanas e sertanejos liderados pelo monge José
Maria.
As pretensões de distribuição demográfica
e fixação do homem no campo foram incompatíveis
com a forma de desenvolvimento econômico estabelecido e
o processo de modernização de Santa Catarina, de
forma similar ao nacional, fez-se através de inúmeras
contradições, como analisa o autor. Paulo Fernando
Lago discute o tema "a terra e o homem" descrevendo
tecnicamente o espaço ocupado pelos primeiros imigrantes
e sua intervenção extrativista e predatória
no meio geográfico, em contraposição à
neutralidade dos povos pré-ocidentais (silvícolas),
principalmente pela rústica tecnologia que desenvolveram.
Oferece ainda os limites e as dimensões territoriais do
Estado, comparando-o com os vizinhos do Sul. A discussão
estende-se ainda à simbiose das formas de exploração
da terra e do mar a partir da penetração de italianos
e alemães, resultando na síntese e aprimoramento
de técnicas de produção. O autor afirma:
"Grupos imigrados portavam, desde o início, conhecimentos
agronômicos, técnicas de processamento de matérias-primas
e de comercialização bem mais diversificados e
avançados em relação aos nacionais presentes
e aos açorianos que chegaram um século antes."
Merece atenção especial o ensaio "A Criatividade
Intelectual: Dependência e Liberdade", de Carlos Humberto
Corrêa, que traça um panorama cultural desde a formação
de núcleos intelectuais "hercilistas" (partidários
de Hercílio Luz) até a criação da
UFSC na década de 60. Corrêa discute o binômio
atividade intelectual e política afirmando: "A criatividade
intelectual ainda não mostrava competência para
se separar do poder político que a protegia e a incentivava
a desenvolver-se desde que esse movimento estivesse em seu favor".
Esse dado acaba limitando e caracterizando a cultura catarinense
durante muito tempo: tanto pela centralização artística
e intelectual na capital quanto pela efetivação
das primeiras instituições culturais do Estado,
também nascidas na ilha. A análise oferece subsídios
para a compreensão do processo de desenvolvimento intelectual
em Santa Catarina e os espasmos culturais que a definem pela
estreita ligação com a esfera política.
Mas esse apelo à intervenção estatal não
é de uso exclusivo da cultura. Ao discutir o tema "Santa
Catarina: Tradição e Mudança", Alcides
Abreu descreve a preocupação do Estado de buscar
o "bem comum" e, através de planejamento, racionalizar
a administração do território seja pela
cartilha da Cepal (Comissão Econômica para a América
Latina) ou pelos acordos do Mercosul.
Terceirização
Cortes nas grandes empresas acabaram trazendo oportunidades de
negócios para micro e pequeno empresário.
AN_Economia |
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Encerrando o livro, Hoyêdo Nunes Lins
diagnostica os males de Santa Catarina no ensaio intitulado "O
Alvorecer de um Novo Século". Supõe alternativas
para os dilemas impostos aos catarinenses e aponta: "É
decisivo o reingresso da política de desenvolvimento na
agenda social... diversamente do que entoa o mantra neoliberal,
o setor público deve ser fortalecido...".
A publicação "Santa Catarina no Século
XX" apresenta um panorama interdisciplinar do Estado e,
apesar da instabilidade e "incongruências" antevistas
pelo organizador em seu prefácio, soma observações
e análises relevantes para a historiografia estadual.
Festa roqueira agita
área rural de Joinville
Dezoito bandas
se apresentam hoje e amanhã no Salão Jacobs
Joinville - Dezoito bandas em dois dias de shows: o primeiro
Encontro Eco Rock leva para fora do galpão de Guaramirim,
em caráter inédito, a experiência do Curupira
Rock Club em eventos que mesclam a música e o camping
e promove no Salão Jacobs, no Piraí, a reunião
de grupos de seis cidades para um final de semana marcado pela
diversidade sonora. O Eco Rock é uma idéia antiga
cuja viabilidade foi comprovada pessoalmente por Ivair Nicocelle,
diretor do Curupira, em eventos como o 1º Jacocoricó
99 - A Festa Caipirocore, em junho do ano passado, no mesmo palco
do Salão Jacobs.
A festa inicia hoje, às 20 horas, com shows da Ilíada,
Die Heissen Kartoffel e Morbo (de Jaraguá do Sul), da
Repulsores (de Schroeder), da Fly-X (de Guaramirim), da Enzime,
Briefly e Madeixas (de Blumenau), da Tods e Neo (de Curitiba)
e da Vacine (de Joinville). A gama de estilos coberta na noite
de abertura vai das diferentes expressões metálicas
(Ilíada e Morbo) ao hardcore (Enzime e Repulsores), passando
pelo guitar (Vacine e Tods) e até pelo pop (um dos elementos
que o Madeixas agrega ao seu som). Amanhã, a festa inicia
às 14 horas e apresenta ao público as performances
da MDP, Morks e UTI (de Blumenau), Kill the Future (de Schroeder),
Aneurisma e Acoustic Dream (de Joinville) e Zirighidu (de Jaraguá
do Sul), mantendo o clima de babel sonora graças aos extremos
praticados pela Acoustic Dream (o nome denuncia, é uma
banda de formato acústico) e pelo thrash metal da Morks.
Sensualidade
Sambista com os pés no chão: Viviane Araújo
ganha destaque no Carnaval e faz planos para a TV.
AN_Tevê |
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O Eco Rock, além dos shows, terá
área para camping. Edson Luis de Souza, um dos coordenadores
do Curupira, acredita que mais duas datas podem ser reservadas
neste ano para promoções do clube fora da sua sede
tradicional. Excursões para os shows saem de Jaraguá
do Sul (371-7256, com Edson), Guaramirim (no Curupira, com Ivair),
Joinville (473-5390, com Fernando) e Blumenau. O Salão
Jacobs fica na estrada para a cachoeira do Piraí, na Vila
Nova, em Joinville. O ingresso para cada dia de shows custa R$
5,00, mas quem chegar ao Piraí com as excursões
pode pagar apenas R$ 7,00 pela festival todo, com direito a área
para acampamento.
Programas bizarros se
espalham na TV americana
Nova York - Aproveitando a polêmica causada pela exibição
do programa "Who Wants to Marry a Multi-Millionaire?"
("Quem quer se casar com um multimilionário?"),
as redes de televisão americanas preparam uma nova safra
de programas que mostram pessoas comuns em situações
bizarras. Em "Big Brother", da CBS, previsto para estrear
no meio do ano, 24 câmaras e 59 microfones registrarão
o que vai acontecer quando 10 voluntários forem colocados
dentro de uma casa, sem contato com o exterior, durante 100 dias.
Em "Making the Band," que será exibido na ABC
a partir do próximo dia 24, os integrantes de uma banda
formada por garotos serão filmados a partir do dia em
que se conhecerem até o momento da primeira turnê.
"Survivor," criado pela CBS, mostrará uma equipe
recrutando 16 voluntários numa ilha tropical na costa
de Borneo, no Pacífico Sul, para participar de um inusitado
concurso cujo vencedor receberá um prêmio de um
milhão de dólares.
Em "Who Wants to Marry a Multi-Millionaire?", que foi
ao ar em 15 de fevereiro, um magnata escolheu, entre 50 participantes
desconhecidas, aquela com quem iria se casar. A rede de televisão
Fox desistiu de reexibir o programa devido a preocupações
com o passado do multimilionário. Os noivos anunciaram
que vão anular o acordo pré-nupcial quando voltarem
da lua-de-mel no Caribe, paga pela Fox.
Em "Wed at First Sight," da Universal Television, uma
mulher escolherá um marido entre três candidatos,
após questioná-los sobre seus hábitos e
preferências e assistir a um vídeo sobre suas vidas.
Já em "I Do, I Don't", produzido pela Twentieth
TV, casais a caminho de uma capela em Las Vegas ganharão
o casamento e a lua-de-mel se participarem de um teste de compatibilidade
em frente a uma platéia que decidirá se eles devem
subir ao altar.
Feira
A Sociedade dos Escritores de Blumenau entregou a programação
cultural que elaborou para os seus associados, visando o primeiro
semestre de 2000, e que estará integrada à mesma
programação do Instituto Blumenau 150 Anos. Dela
fazem parte o Domingo Livre da Prefeitura e alguns eventos especiais
que serão realizados na FURB, através da Pró-reitoria
de Extensão Comunitária. Hoje acontece a Feira
do Livro, que acontece paralelamente ao Domingo Livre e reunirá
os escritores associados, que poderão comercializar suas
obras.
Documentário
O "Cultura Documento" de hoje, às 20h30, destaca
a obra de dois importantes artistas plásticos brasileiros.
Um dos maiores escultores da atualidade, o mineiro Amilcar de
Castro, mostra sua obra no documentário que leva seu nome.
Ele descreve seus trabalhos e fala sobre os movimentos artísticos
e históricos pelos quais passou. O documentário
"Franciso Brennand - O Demiurgo" traz as idéias
e a obra deste ceramista pernambucano de 72 anos e influenciado
por Picasso e Miró.
Show
A banda florianopolitana Os Chefes faz show hoje, às 23
horas, no Café São Rock (Av. Atlântica, Barra
Sul), em Balneário Camboriú, encerrando o 4º
Encontro Sul-americano de Motociclismo. Um dos grupos mais fortes
da noite da Ilha, Os Chefes partem do blues para um repertório
que abrange também os grandes clássicos do rock'n'roll,
soul, country e rhythm'n'blues. O couvert custa R$ 7,00 para
homens e R$ 2,00 para mulheres. Mais informações
sobre Os Chefes, repertório e arquivos de áudio
estão em http://www.oschefes.com.
Opinião
Fragmentos de uma crise anunciada
Sérgio Luiz Gadini
Especial para o Anexo
O relatório da avaliação das condições
de oferta de graduação, referente aos cursos de
economia, jornalismo, engenharia elétrica e mecânica,
divulgado na semana passada pelo Ministério da Educação,
não deve apavorar boa parte dos profissionais da área
que já passaram pela universidade. Afinal, o documento
apenas confirma uma situação que, apesar de certa
dificuldade em ser aceito, é de conhecimento público
há muito neste País.
Dados do relatório indicam que 94 dos 410 cursos avaliados
(equivalente a 23% do total) não oferecem as condições
de ensino adequadas aos seus alunos. Pelos critérios avaliados,
isso significa que os referidos cursos receberam pelo menos dois
conceitos insuficientes nos três ítens avaliados
pelas comissões de verificação (condições
das instalações físicas/laboratoriais, qualificação
do corpo docente e organização didático-pedagógica
do curso).
Por área, o negócio parece complicar mais no jornalismo:
dos 86 cursos avaliados 44 (51%) tiveram pelo menos dois ítens
com conceito insuficiente (CI). Além dos 44 cursos de
jornalismo, 38 de economia (21% das 178 faculdades avaliadas),
11 de engenharia mecânica (16% dos 68 avaliados) e 2 de
engenharia elétrica (2,5% dos 78 cursos avaliados), todos
com dois ou mais conceitos insuficientes, também são
considerados sem condições mínimas de qualidade
para funcionar. E, portanto, após a avaliação
do desempenho acadêmico em três edições
do Exame Nacional de Cursos (Provão), serão submetidos
à renovação do seu reconhecimento. Daí
porque não há motivo para ficar montando ranking
de escola, como algumas empresas ou jornais têm feito,
a cada resultado divulgado. Como se isso fosse um dado final.
A Avaliação das Condições de Oferta,
iniciada em 1998, é parte integrante do Sistema Nacional
de Avaliação do Ensino Superior, juntamente com
o Exame Nacional de Cursos. É importante lembrar que a
avaliação só é realizada nos cursos
de graduação que já possuem credenciamento
junto ao MEC. Os cursos já avaliados em suas condições
de oferta em 1998 e 99 abrangem cerca de 26% do total de alunos
matriculados no ensino superior brasileiro e cerca de 35% dos
concluintes de cursos superiores de graduação.
As visitas nas escolas de comunicação foram realizadas
por comissões de professores de todo o País entre
os meses de outubro de novembro do ano passado.
Os dados, antes de sugerir qualquer forma de caça às
bruxas, expressam alguns fragmentos de uma crise já há
muito anunciada na universidade brasileira. No item instalações
laboratoriais, por exemplo, que inclui e prevê estúdio
de rádio e TV, laboratório de fotografia e redação
informatizada, a maioria dos cursos está abaixo do mínimo
necessário: 73% receberam classificação
insuficiente (CI) e 13%, condições regulares (CR).
Assim, apenas 14% dos 86 cursos avaliados possuem condições
boas (CB) ou muito boas (CMB) em termos estruturais. Diversas
faculdades também não possuem sequer computador
ou, quando têm, a quantidade é insuficiente aos
alunos matriculados. Em números, equivale dizer que três
quartos dos cursos de jornalismo do País têm instalações
laboratoriais inadequadas.
O relatório da avaliação indica ainda que
aproximadamente 51% do corpo docente dos cursos de jornalismo
avaliados possuem qualidade CB (condições boas)
ou CMB (condições muito boas). Mas esses mesmos
referenciais caem para 36% (dos cursos em situações
CB ou CMB) quando se avalia a dedicação dos profissionais
qualificados aos respectivos cursos (dedicação
exclusiva ou demais critérios que garantem um maior envolvimento
ao cotidiano do ensino universitário).
Por mais que se possa questionar a coerência e a forma
como são apresentados os critérios da avaliação,
é importante lembrar que o ensino superior brasileiro
(e, portanto, com o jornalismo não é nada diferente)
vem registrando uma abertura indiscriminada de cursos, muitas
vezes, sem as mínimas condições de estrutura
e formação. E, vale dizer, não apenas nas
universidades públicas que, pela avaliação,
estão em situação aparentemente menos crítica.
Daí porque não há nada de muito estranho
nos números do relatório. Ao contrário,
deve servir de alerta a todos os profissionais da área
e, acima de tudo, aos estudantes que estão prestes a ingressar
na universidade.
Atrações sobre rodas
O subcompacto alemão Opel Agila é uma das atrações
do Salão de Genebra, que apresenta os mais recentes lançamentos
mundiais.
AN_Veículos |
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Afinal, se a própria sociedade não
pensar uma forma de controle e melhoria das condições
de formação profissional, também preocupada
em garantir aos formandos uma visão crítica e plural
da realidade social, logo logo os números podem ficar
mais assustadores. Talvez, pior do que hoje indica o relatório
divulgado. E isso, ao que parece, os profissionais da área
de jornalismo começam a pautar com mais seriedade. Os
dados apresentados sugerem essa preocupação pública
em não esconder nada do que pode ser mudado. De preferência,
para melhor. Em outras áreas, caso a situação
esteja muito diferente, seria razoável desconfiar um pouco.
Sérgio Luiz Gadini (slgadini@uepg.br)
é jornalista, professor universitário e membro
da Comissão Nacional de Especialistas em Jornalismo
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| Manchetes AN |
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| Leia também |
Dia da poesia ganha
exposição em Blumenau
Mostra traz vida
e obra de poetas
Marli Rudnik
Blumenau A poesia catarinense, de Cruz e Sousa a Lindolf
Bell, da perfeição métrica ao apelo visual,
está em exposição na Biblioteca Pública
Fritz Müller, em Blumenau. Para homenagear o Dia da Poesia,
comemorado em 14 de março, a biblioteca está apresentando
a vida e obra de nomes expressivos da poesia do Estado e de novos
escritores blumenauenses que vêm se destacando no País.
A mostra de livros, fotos e poemas permanece aberta à
visitação até terça-feira, das 8
às 17h30 (hoje, das 8 às 12 horas).
A poesia é um dos gêneros de leitura mais procurados
na biblioteca de Blumenau. Mas salvo pelos nomes consagrados,
a poesia catarinense ainda amarga o esquecimento nas estantes.
"Quando se fala em poesia se pensa logo em Carlos Drumond
de Andrade ou Pablo Neruda, mas os escritores locais muitas vezes
têm uma linguagem mais clara e simples, que desperta o
interesse do público que os conhece", avalia a auxiliar
da biblioteca, Marlete de Borba, responsável pela exposição.
A mostra reúne poetas experientes e os novatos, blumenauenses
e catarinenses, os históricos e os contemporâneos,
os que primam pela métrica e rima perfeitas e aqueles
que fazem da poesia contemporânea um trabalho visual e
despojado. A poesia, na lucidez ou na fantasia. Assim, nomes
como Lindolf Bell, Cruz e Sousa e Alcides Buss aparecem ao lado
de Maike Krause, premiada no Concurso Nacional de Poesia de 1999.
Os poemas de Péricles Prade, Tânia Rodrigues, José
Endoença Martins e Dennis Radünz também estão
na exposição, que tem o objetivo de educar o público
a apreciar este gênero de leitura.
"Bem Brasil" volta ao
vivo
com novos cenário e vinheta
Programa da Cultura começa
nova fase amanhã, com Daúde e Rita Ribeiro
Com um visual diferente, o "Bem Brasil" volta ao
vivo amanhã, às 11 horas, direto do Sesc Interlagos.
Para marcar a estréia do novo cenário e da nova
vinheta, duas grandes cantoras da chamada nova safra da MPB:
a baiana Daúde e a maranhense Rita Ribeiro. O programa
inédito tem apresentação de Wandi Doratiotto.
Daúde mostra as músicas de seu novo CD, "Simbora",
que traz músicas de seus dois álbuns anteriores
em versões inéditas. Já Rita Ribeiro apresenta
as músicas de seu segundo trabalho, "Pérolas
aos Povos".
Criado pelo cenógrafo da TV Cultura, Célio Inada,
com supervisão de Marcelo Oka, o novo cenário do
"Bem Brasil" traz uma estrutura metálica especial
que permite acrescentar novos elementos. A intenção
é criar uma "cara nova" com aplicações
periódicas, obtendo um efeito renovador. Já o Departamento
de Computação assina a vinheta moderna, ágil
e marcante que também está estreando no programa.
O palco também foi modificado. A produção
do SESC ampliou o espaço cênico, permitindo que
os músicos fiquem mais à vontade e com uma proximidade
melhor junto ao público.
O programa pode ser visto ao vivo, com entrada gratuita, mediante
a retirada de convite, no Sesc Interlagos (Av. Manoel Alves Soares,
1.100, Interlagos). Os ingressos podem ser adquiridos em todas
as unidades do Sesc, com exceção de Interlagos.
Os sócios do Sesc podem entrar sem convites, pagando R$
0,50. Os não associados, que não têm convite,
pagam R$ 2,50. O programa recebe ainda caravanas. Os interessados
devem se inscrever pelo telefone (0XX11) 5970-3500. O telespectador
também pode participar, enviando sugestões pelo
correio. O endereço é Caixa Postal 11.544 - CEP
05049 -970 - São Paulo, SP.
Daúde nasceu na Bahia e mudou-se para o Rio de Janeiro
com 11 anos. Foi no Rio que se formou como cantora, estudando
com o barítono Paulo Fortes, na Escola Villa-Lobos. O
prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos
de Arte), como cantora revelação do ano em 1995,
veio já em seu primeiro trabalho como profissional. Daúde
coloca toda a qualidade de voz e interpretação
à serviço de um repertório eclético,
que vai de Caetano Veloso a Nelson Sargento, passando pelo mais
variado leque de gêneros musicais.
A música de Rita Ribeiro é marcada por influências
de seu estado natal, o Maranhão. Ela mistura ritmos como
reggae, folk e funk com o canto das caixeiras maranhenses, o
tambor de mina e outras influências populares. Trabalha
a garganta desde os 15 anos e estudou com Madalena Bernardes
e Ná Ozetti. Nos anos 80, cantava no grupo vocal Vira
Canto e fazia backing vocal para Chico Maranhão e Josias
Sobrinho. Estudava veterinária e enfermagem e conheceu
Zeca Baleiro na Universidade Federal do Maranhão, onde
ele cursava jornalismo e agronomia. Desde 90 investe na carreira
em São Paulo.
"Bem Brasil" completa agora em 2000 nove anos, sempre
aos domingos, a partir das 11 horas. É transmitido direto
do Sesc Interlagos para 45 emissoras de 18 estados brasileiros.
Apresentado pelo músico Wandi Doratiotto, o programa procura
contemplar os mais diversos estilos da música brasileira,
dos grandes nomes aos novos talentos. Já estiveram no
programa, importantes nomes da MPB, grupos de pagode, rock, reggae,
samba e representantes da música sertaneja.
O programa estreou em maio de 1991 para trazer de volta os espetáculos
ao ar livre. Transmitido, na época, direto da Cidade Universitária,
começou a promover semanalmente shows abertos ao público.
No programa de estréia, a atração foi Altamiro
Carrilho e sua Banda, seguindo a linha do programa que tinha
como base o choro. "Bem Brasil" tem reapresentação
no mesmo dia, à meia-noite e meia. No próximo domingo,
o convidado é Gabriel O Pensador.
Hebdomadário
Dois olhos na noite inerme
Joel Gehlen
A menina não tem 4 anos e está trabalhando em
jornada noturna. Um homem, uma mulher - que idade teriam? - e
os quatro filhos. Duas meninas e dois meninos. Aproveitam a noite
de Carnaval para recolher latinhas de cerveja vazias. Desempregado,
é a chance de ganhar um dinheirinho. Recolhe as latas,
leva para casa, amaça e vai amontoando num canto. Na Quarta-feira
de Cinzas, depois que a folia acabar, toca para o depósito
de seu Mundinho. Puxando o carro de mão no sobe e desce
das centenárias ladeiras. Talvez consiga o suficiente
para pôr em dia a caderneta da mercearia do Miram, onde
fia o de comer.
Seria um serviço mais tranqüilo não houvesse
tanta concorrência. Muita gente catando lata, é
um retrato da realidade. Por isso leva toda a família
e o carrinho de madeira. Cada um pega um saco plástico
e sai pela rua em festa atento a qualquer lata. É preciso
circular, pois, elas não ficam muito tempo no chão.
Como estão em seis, conseguem fazer um arrastão,
cada um vai por um lado, depois trazem e despejam na carrocinha,
onde a caçula toma conta contra possíveis gatunos.
A menina - um fiapo de gente - é a sentinela das latas
ajuntadas no carrinho. Passa a noite inteira sentada num pequeno
banco de madeira. Blusinha de lá contra a brisa fria da
madrugada. Cabelinho de anjo - uma cacho de acácia - amarrado
para trás, os braços cruzados, encosta-se no poste,
jogando a cabeça ao léu, nada a atrai. Fica nesta
posição um longo tempo. Ao clima festivo do carnaval,
oferece sua mais inocente indiferença. Embaixo do bico
da luz da rua, ela é uma fonte resplandecente. Os olhos
atravessam a multidão para depositarem-se lá no
longe da baía da Babitonga, onde um navio com bandeira
da Coréia flutua fantasmagórico na carne escura
da noite.
Não, a menina não está ali nem vigia latas
vazias. Este é apenas o corpo, espantalho e palha e roupa
velha. Resignado corpo, mesmo em tão tenra idade. Tem
aquele olhar alheio dos cegos e o sentido aguçado de rejeição
a tudo que a circunda. Seu espírito habita as imperscrutáveis
ilhas da imaginação.
Com o dom infantil de entrar para o país das maravilhas
em um passe de mágica, ela passeia entre estreles indiferentes.
Que todos se esbaldem de tanto correr e pular, que importa a
música chatíssima, as latas que pingam no carrinho,
a mulata e o marinheiro norueguês, o frio da madrugada
e esta brisa que teima em desfazer o seu cabelo? Atrás
daqueles olhos translúcidos não há um espelho
refletindo esta hora baldia, nem as névoas do sono ou
as angústias mundanas. Em sua vigília de boneca
de pano, nada corrói a inocência, nenhuma nódoa
no tecido branco do resto de sua vida.
Joel Gehlen é jornalista e editor.
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