Joinville         -          Sábado, 11 de Março de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  

















A reconquista do Oeste

Atoleiro

Estradas precárias foram impecilho para desenvolvimento do interior

Saga

Mural de Hiedy Assis Corrêa, em Caçador, imortaliza Guerra do Contestado. No detalhe (abaixo), a capa do livro

O livro "Santa Catarina no Século XX" mostra as contradições da modernização do Estado e enriquece a historiografia

Émerson Rodrigo Santi
Especial para o Anexo

Referindo-se ao discurso de 1º de janeiro de 1936 do então presidente Getúlio Vargas sobre o projeto nacional da "marcha para o campo", o escritor Graciliano Ramos revela não somente sua condescendência com a proposta progressista de "reconquista do Oeste" (a conquista havia sido efetivada pelas bandeiras vicentistas), devido aos benefícios que ela traria ao matuto miserável geograficamente isolado até então, como também cifra formas de fixar o homem rural no campo. Eis o texto de Graciliano: "Melhorados e aumentados os meios de transporte, utilizados os nossos recursos em toda a superfície do país, especialmente o carvão, o petróleo e o ferro, o que originará melhor distribuição demográfica e elevação conseqüente do nível cultural, os camponeses não mais precisarão buscar na cidade o que ela não lhes pode oferecer."
Com uma abordagem analítica e usufruindo de vasta bibliografia, além do privilégio de dialogar com o fato já ocorrido, o professor e antropólogo Silvio Coelho dos Santos lançou olhar prospectivo e organizou um "livro-álbum" (devido ao farto material iconográfico agregado ao término de cada texto) de título "Santa Catarina no Século XX", publicado pela Editora da UFSC com a participação de mais quatro articulistas: Paulo Fernando Lago, Carlos Humberto Corrêa, Alcides Abreu e Hoyêdo Nunes Lins. O professor Sílvio inicia a obra discutindo a tentativa de implantação desse projeto de modernização do Brasil e seu impacto na sociedade catarinense. Modernidade essa representada pela ampliação dos meios de transporte com a ferrovia e o trem.
A idéia positivista da "ordem e progresso", fertilizada ainda no final do império e concebida na República, buscava a unanimidade na recém-constituída nação republicana brasileira. Uma nação constitucionalmente definida como politicamente organizada, com povo, território e governo soberano. Para se legitimar soberano, o governo necessitava dominar os limites do território nacional. É nesse contexto que o professor Sílvio, sempre partindo da realidade catarinense, problematiza a questão da proposta de modernidade no início do século 20 e seus desdobramentos na vida cotidiana, social e política do Estado.
O ponto nevrálgico da discussão é a representação contraditória da modernidade que, numa proposta de consolidação do território nacional através da construção da estrada de ferro São Paulo/Rio Grande do Sul, expõe as duas faces da moeda progressista: escoamento de produtos, deslocamento de tropas, contratação de mão-de-obra, distribuição demográfica, penetração de imigrantes e descendentes no interior, por um lado, e por outro a "fúria suicida entre as populações prejudicadas" pela expropriação coordenada não somente por advogados e políticos ligados à Brazil Railway Company ­ empresa concessionária da construção da estrada de ferro ­ como também por seguranças armados da companhia. O episódio eminente desse empreendimento capitalista é o conflito denominado Guerra do Contestado (1912-1915), envolvendo forças militares republicanas e sertanejos liderados pelo monge José Maria.
As pretensões de distribuição demográfica e fixação do homem no campo foram incompatíveis com a forma de desenvolvimento econômico estabelecido e o processo de modernização de Santa Catarina, de forma similar ao nacional, fez-se através de inúmeras contradições, como analisa o autor. Paulo Fernando Lago discute o tema "a terra e o homem" descrevendo tecnicamente o espaço ocupado pelos primeiros imigrantes e sua intervenção extrativista e predatória no meio geográfico, em contraposição à neutralidade dos povos pré-ocidentais (silvícolas), principalmente pela rústica tecnologia que desenvolveram. Oferece ainda os limites e as dimensões territoriais do Estado, comparando-o com os vizinhos do Sul. A discussão estende-se ainda à simbiose das formas de exploração da terra e do mar a partir da penetração de italianos e alemães, resultando na síntese e aprimoramento de técnicas de produção. O autor afirma: "Grupos imigrados portavam, desde o início, conhecimentos agronômicos, técnicas de processamento de matérias-primas e de comercialização bem mais diversificados e avançados em relação aos nacionais presentes e aos açorianos que chegaram um século antes."
Merece atenção especial o ensaio "A Criatividade Intelectual: Dependência e Liberdade", de Carlos Humberto Corrêa, que traça um panorama cultural desde a formação de núcleos intelectuais "hercilistas" (partidários de Hercílio Luz) até a criação da UFSC na década de 60. Corrêa discute o binômio atividade intelectual e política afirmando: "A criatividade intelectual ainda não mostrava competência para se separar do poder político que a protegia e a incentivava a desenvolver-se desde que esse movimento estivesse em seu favor". Esse dado acaba limitando e caracterizando a cultura catarinense durante muito tempo: tanto pela centralização artística e intelectual na capital quanto pela efetivação das primeiras instituições culturais do Estado, também nascidas na ilha. A análise oferece subsídios para a compreensão do processo de desenvolvimento intelectual em Santa Catarina e os espasmos culturais que a definem pela estreita ligação com a esfera política.
Mas esse apelo à intervenção estatal não é de uso exclusivo da cultura. Ao discutir o tema "Santa Catarina: Tradição e Mudança", Alcides Abreu descreve a preocupação do Estado de buscar o "bem comum" e, através de planejamento, racionalizar a administração do território seja pela cartilha da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina) ou pelos acordos do Mercosul.
Terceirização
Cortes nas grandes empresas acabaram trazendo oportunidades de negócios para micro e pequeno empresário.  AN_Economia 
Encerrando o livro, Hoyêdo Nunes Lins diagnostica os males de Santa Catarina no ensaio intitulado "O Alvorecer de um Novo Século". Supõe alternativas para os dilemas impostos aos catarinenses e aponta: "É decisivo o reingresso da política de desenvolvimento na agenda social... diversamente do que entoa o mantra neoliberal, o setor público deve ser fortalecido...".
A publicação "Santa Catarina no Século XX" apresenta um panorama interdisciplinar do Estado e, apesar da instabilidade e "incongruências" antevistas pelo organizador em seu prefácio, soma observações e análises relevantes para a historiografia estadual.


Festa roqueira agita
área rural de Joinville

Dezoito bandas se apresentam hoje e amanhã no Salão Jacobs

Joinville - Dezoito bandas em dois dias de shows: o primeiro Encontro Eco Rock leva para fora do galpão de Guaramirim, em caráter inédito, a experiência do Curupira Rock Club em eventos que mesclam a música e o camping e promove no Salão Jacobs, no Piraí, a reunião de grupos de seis cidades para um final de semana marcado pela diversidade sonora. O Eco Rock é uma idéia antiga cuja viabilidade foi comprovada pessoalmente por Ivair Nicocelle, diretor do Curupira, em eventos como o 1º Jacocoricó 99 - A Festa Caipirocore, em junho do ano passado, no mesmo palco do Salão Jacobs.
A festa inicia hoje, às 20 horas, com shows da Ilíada, Die Heissen Kartoffel e Morbo (de Jaraguá do Sul), da Repulsores (de Schroeder), da Fly-X (de Guaramirim), da Enzime, Briefly e Madeixas (de Blumenau), da Tods e Neo (de Curitiba) e da Vacine (de Joinville). A gama de estilos coberta na noite de abertura vai das diferentes expressões metálicas (Ilíada e Morbo) ao hardcore (Enzime e Repulsores), passando pelo guitar (Vacine e Tods) e até pelo pop (um dos elementos que o Madeixas agrega ao seu som). Amanhã, a festa inicia às 14 horas e apresenta ao público as performances da MDP, Morks e UTI (de Blumenau), Kill the Future (de Schroeder), Aneurisma e Acoustic Dream (de Joinville) e Zirighidu (de Jaraguá do Sul), mantendo o clima de babel sonora graças aos extremos praticados pela Acoustic Dream (o nome denuncia, é uma banda de formato acústico) e pelo thrash metal da Morks.
Sensualidade
Sambista com os pés no chão: Viviane Araújo ganha destaque no Carnaval e faz planos para a TV.  AN_Tevê 
O Eco Rock, além dos shows, terá área para camping. Edson Luis de Souza, um dos coordenadores do Curupira, acredita que mais duas datas podem ser reservadas neste ano para promoções do clube fora da sua sede tradicional. Excursões para os shows saem de Jaraguá do Sul (371-7256, com Edson), Guaramirim (no Curupira, com Ivair), Joinville (473-5390, com Fernando) e Blumenau. O Salão Jacobs fica na estrada para a cachoeira do Piraí, na Vila Nova, em Joinville. O ingresso para cada dia de shows custa R$ 5,00, mas quem chegar ao Piraí com as excursões pode pagar apenas R$ 7,00 pela festival todo, com direito a área para acampamento.


Programas bizarros se
espalham na TV americana

Nova York - Aproveitando a polêmica causada pela exibição do programa "Who Wants to Marry a Multi-Millionaire?" ("Quem quer se casar com um multimilionário?"), as redes de televisão americanas preparam uma nova safra de programas que mostram pessoas comuns em situações bizarras. Em "Big Brother", da CBS, previsto para estrear no meio do ano, 24 câmaras e 59 microfones registrarão o que vai acontecer quando 10 voluntários forem colocados dentro de uma casa, sem contato com o exterior, durante 100 dias.
Em "Making the Band," que será exibido na ABC a partir do próximo dia 24, os integrantes de uma banda formada por garotos serão filmados a partir do dia em que se conhecerem até o momento da primeira turnê. "Survivor," criado pela CBS, mostrará uma equipe recrutando 16 voluntários numa ilha tropical na costa de Borneo, no Pacífico Sul, para participar de um inusitado concurso cujo vencedor receberá um prêmio de um milhão de dólares.
Em "Who Wants to Marry a Multi-Millionaire?", que foi ao ar em 15 de fevereiro, um magnata escolheu, entre 50 participantes desconhecidas, aquela com quem iria se casar. A rede de televisão Fox desistiu de reexibir o programa devido a preocupações com o passado do multimilionário. Os noivos anunciaram que vão anular o acordo pré-nupcial quando voltarem da lua-de-mel no Caribe, paga pela Fox.
Em "Wed at First Sight," da Universal Television, uma mulher escolherá um marido entre três candidatos, após questioná-los sobre seus hábitos e preferências e assistir a um vídeo sobre suas vidas. Já em "I Do, I Don't", produzido pela Twentieth TV, casais a caminho de uma capela em Las Vegas ganharão o casamento e a lua-de-mel se participarem de um teste de compatibilidade em frente a uma platéia que decidirá se eles devem subir ao altar.


Feira
A Sociedade dos Escritores de Blumenau entregou a programação cultural que elaborou para os seus associados, visando o primeiro semestre de 2000, e que estará integrada à mesma programação do Instituto Blumenau 150 Anos. Dela fazem parte o Domingo Livre da Prefeitura e alguns eventos especiais que serão realizados na FURB, através da Pró-reitoria de Extensão Comunitária. Hoje acontece a Feira do Livro, que acontece paralelamente ao Domingo Livre e reunirá os escritores associados, que poderão comercializar suas obras.

Documentário
O "Cultura Documento" de hoje, às 20h30, destaca a obra de dois importantes artistas plásticos brasileiros. Um dos maiores escultores da atualidade, o mineiro Amilcar de Castro, mostra sua obra no documentário que leva seu nome. Ele descreve seus trabalhos e fala sobre os movimentos artísticos e históricos pelos quais passou. O documentário "Franciso Brennand - O Demiurgo" traz as idéias e a obra deste ceramista pernambucano de 72 anos e influenciado por Picasso e Miró.

Show
A banda florianopolitana Os Chefes faz show hoje, às 23 horas, no Café São Rock (Av. Atlântica, Barra Sul), em Balneário Camboriú, encerrando o 4º Encontro Sul-americano de Motociclismo. Um dos grupos mais fortes da noite da Ilha, Os Chefes partem do blues para um repertório que abrange também os grandes clássicos do rock'n'roll, soul, country e rhythm'n'blues. O couvert custa R$ 7,00 para homens e R$ 2,00 para mulheres. Mais informações sobre Os Chefes, repertório e arquivos de áudio estão em http://www.oschefes.com.


Opinião

Fragmentos de uma crise anunciada

Sérgio Luiz Gadini
Especial para o Anexo

O relatório da avaliação das condições de oferta de graduação, referente aos cursos de economia, jornalismo, engenharia elétrica e mecânica, divulgado na semana passada pelo Ministério da Educação, não deve apavorar boa parte dos profissionais da área que já passaram pela universidade. Afinal, o documento apenas confirma uma situação que, apesar de certa dificuldade em ser aceito, é de conhecimento público há muito neste País.
Dados do relatório indicam que 94 dos 410 cursos avaliados (equivalente a 23% do total) não oferecem as condições de ensino adequadas aos seus alunos. Pelos critérios avaliados, isso significa que os referidos cursos receberam pelo menos dois conceitos insuficientes nos três ítens avaliados pelas comissões de verificação (condições das instalações físicas/laboratoriais, qualificação do corpo docente e organização didático-pedagógica do curso).
Por área, o negócio parece complicar mais no jornalismo: dos 86 cursos avaliados 44 (51%) tiveram pelo menos dois ítens com conceito insuficiente (CI). Além dos 44 cursos de jornalismo, 38 de economia (21% das 178 faculdades avaliadas), 11 de engenharia mecânica (16% dos 68 avaliados) e 2 de engenharia elétrica (2,5% dos 78 cursos avaliados), todos com dois ou mais conceitos insuficientes, também são considerados sem condições mínimas de qualidade para funcionar. E, portanto, após a avaliação do desempenho acadêmico em três edições do Exame Nacional de Cursos (Provão), serão submetidos à renovação do seu reconhecimento. Daí porque não há motivo para ficar montando ranking de escola, como algumas empresas ou jornais têm feito, a cada resultado divulgado. Como se isso fosse um dado final.
A Avaliação das Condições de Oferta, iniciada em 1998, é parte integrante do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior, juntamente com o Exame Nacional de Cursos. É importante lembrar que a avaliação só é realizada nos cursos de graduação que já possuem credenciamento junto ao MEC. Os cursos já avaliados em suas condições de oferta em 1998 e 99 abrangem cerca de 26% do total de alunos matriculados no ensino superior brasileiro e cerca de 35% dos concluintes de cursos superiores de graduação. As visitas nas escolas de comunicação foram realizadas por comissões de professores de todo o País entre os meses de outubro de novembro do ano passado.
Os dados, antes de sugerir qualquer forma de caça às bruxas, expressam alguns fragmentos de uma crise já há muito anunciada na universidade brasileira. No item instalações laboratoriais, por exemplo, que inclui e prevê estúdio de rádio e TV, laboratório de fotografia e redação informatizada, a maioria dos cursos está abaixo do mínimo necessário: 73% receberam classificação insuficiente (CI) e 13%, condições regulares (CR). Assim, apenas 14% dos 86 cursos avaliados possuem condições boas (CB) ou muito boas (CMB) em termos estruturais. Diversas faculdades também não possuem sequer computador ou, quando têm, a quantidade é insuficiente aos alunos matriculados. Em números, equivale dizer que três quartos dos cursos de jornalismo do País têm instalações laboratoriais inadequadas.
O relatório da avaliação indica ainda que aproximadamente 51% do corpo docente dos cursos de jornalismo avaliados possuem qualidade CB (condições boas) ou CMB (condições muito boas). Mas esses mesmos referenciais caem para 36% (dos cursos em situações CB ou CMB) quando se avalia a dedicação dos profissionais qualificados aos respectivos cursos (dedicação exclusiva ou demais critérios que garantem um maior envolvimento ao cotidiano do ensino universitário).
Por mais que se possa questionar a coerência e a forma como são apresentados os critérios da avaliação, é importante lembrar que o ensino superior brasileiro (e, portanto, com o jornalismo não é nada diferente) vem registrando uma abertura indiscriminada de cursos, muitas vezes, sem as mínimas condições de estrutura e formação. E, vale dizer, não apenas nas universidades públicas que, pela avaliação, estão em situação aparentemente menos crítica. Daí porque não há nada de muito estranho nos números do relatório. Ao contrário, deve servir de alerta a todos os profissionais da área e, acima de tudo, aos estudantes que estão prestes a ingressar na universidade.
Atrações sobre rodas
O subcompacto alemão Opel Agila é uma das atrações do Salão de Genebra, que apresenta os mais recentes lançamentos mundiais.  AN_Veículos 
Afinal, se a própria sociedade não pensar uma forma de controle e melhoria das condições de formação profissional, também preocupada em garantir aos formandos uma visão crítica e plural da realidade social, logo logo os números podem ficar mais assustadores. Talvez, pior do que hoje indica o relatório divulgado. E isso, ao que parece, os profissionais da área de jornalismo começam a pautar com mais seriedade. Os dados apresentados sugerem essa preocupação pública em não esconder nada do que pode ser mudado. De preferência, para melhor. Em outras áreas, caso a situação esteja muito diferente, seria razoável desconfiar um pouco.

Sérgio Luiz Gadini (slgadini@uepg.br) é jornalista, professor universitário e membro da Comissão Nacional de Especialistas em Jornalismo

Manchetes AN

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10/03 - Homem ao mar das paixões
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05/03 - Da ironia da etiqueta à ética do sarcasmo
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Dia da poesia ganha
exposição em Blumenau

Mostra traz vida e obra de poetas

Marli Rudnik

Blumenau ­ A poesia catarinense, de Cruz e Sousa a Lindolf Bell, da perfeição métrica ao apelo visual, está em exposição na Biblioteca Pública Fritz Müller, em Blumenau. Para homenagear o Dia da Poesia, comemorado em 14 de março, a biblioteca está apresentando a vida e obra de nomes expressivos da poesia do Estado e de novos escritores blumenauenses que vêm se destacando no País. A mostra de livros, fotos e poemas permanece aberta à visitação até terça-feira, das 8 às 17h30 (hoje, das 8 às 12 horas).
A poesia é um dos gêneros de leitura mais procurados na biblioteca de Blumenau. Mas salvo pelos nomes consagrados, a poesia catarinense ainda amarga o esquecimento nas estantes. "Quando se fala em poesia se pensa logo em Carlos Drumond de Andrade ou Pablo Neruda, mas os escritores locais muitas vezes têm uma linguagem mais clara e simples, que desperta o interesse do público que os conhece", avalia a auxiliar da biblioteca, Marlete de Borba, responsável pela exposição.
A mostra reúne poetas experientes e os novatos, blumenauenses e catarinenses, os históricos e os contemporâneos, os que primam pela métrica e rima perfeitas e aqueles que fazem da poesia contemporânea um trabalho visual e despojado. A poesia, na lucidez ou na fantasia. Assim, nomes como Lindolf Bell, Cruz e Sousa e Alcides Buss aparecem ao lado de Maike Krause, premiada no Concurso Nacional de Poesia de 1999. Os poemas de Péricles Prade, Tânia Rodrigues, José Endoença Martins e Dennis Radünz também estão na exposição, que tem o objetivo de educar o público a apreciar este gênero de leitura.


"Bem Brasil" volta ao vivo
com novos cenário e vinheta

Programa da Cultura começa nova fase amanhã, com Daúde e Rita Ribeiro

Com um visual diferente, o "Bem Brasil" volta ao vivo amanhã, às 11 horas, direto do Sesc Interlagos. Para marcar a estréia do novo cenário e da nova vinheta, duas grandes cantoras da chamada nova safra da MPB: a baiana Daúde e a maranhense Rita Ribeiro. O programa inédito tem apresentação de Wandi Doratiotto. Daúde mostra as músicas de seu novo CD, "Simbora", que traz músicas de seus dois álbuns anteriores em versões inéditas. Já Rita Ribeiro apresenta as músicas de seu segundo trabalho, "Pérolas aos Povos".
Criado pelo cenógrafo da TV Cultura, Célio Inada, com supervisão de Marcelo Oka, o novo cenário do "Bem Brasil" traz uma estrutura metálica especial que permite acrescentar novos elementos. A intenção é criar uma "cara nova" com aplicações periódicas, obtendo um efeito renovador. Já o Departamento de Computação assina a vinheta moderna, ágil e marcante que também está estreando no programa. O palco também foi modificado. A produção do SESC ampliou o espaço cênico, permitindo que os músicos fiquem mais à vontade e com uma proximidade melhor junto ao público.
O programa pode ser visto ao vivo, com entrada gratuita, mediante a retirada de convite, no Sesc Interlagos (Av. Manoel Alves Soares, 1.100, Interlagos). Os ingressos podem ser adquiridos em todas as unidades do Sesc, com exceção de Interlagos. Os sócios do Sesc podem entrar sem convites, pagando R$ 0,50. Os não associados, que não têm convite, pagam R$ 2,50. O programa recebe ainda caravanas. Os interessados devem se inscrever pelo telefone (0XX11) 5970-3500. O telespectador também pode participar, enviando sugestões pelo correio. O endereço é Caixa Postal 11.544 - CEP 05049 -970 - São Paulo, SP.
Daúde nasceu na Bahia e mudou-se para o Rio de Janeiro com 11 anos. Foi no Rio que se formou como cantora, estudando com o barítono Paulo Fortes, na Escola Villa-Lobos. O prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), como cantora revelação do ano em 1995, veio já em seu primeiro trabalho como profissional. Daúde coloca toda a qualidade de voz e interpretação à serviço de um repertório eclético, que vai de Caetano Veloso a Nelson Sargento, passando pelo mais variado leque de gêneros musicais.
A música de Rita Ribeiro é marcada por influências de seu estado natal, o Maranhão. Ela mistura ritmos como reggae, folk e funk com o canto das caixeiras maranhenses, o tambor de mina e outras influências populares. Trabalha a garganta desde os 15 anos e estudou com Madalena Bernardes e Ná Ozetti. Nos anos 80, cantava no grupo vocal Vira Canto e fazia backing vocal para Chico Maranhão e Josias Sobrinho. Estudava veterinária e enfermagem e conheceu Zeca Baleiro na Universidade Federal do Maranhão, onde ele cursava jornalismo e agronomia. Desde 90 investe na carreira em São Paulo.
"Bem Brasil" completa agora em 2000 nove anos, sempre aos domingos, a partir das 11 horas. É transmitido direto do Sesc Interlagos para 45 emissoras de 18 estados brasileiros. Apresentado pelo músico Wandi Doratiotto, o programa procura contemplar os mais diversos estilos da música brasileira, dos grandes nomes aos novos talentos. Já estiveram no programa, importantes nomes da MPB, grupos de pagode, rock, reggae, samba e representantes da música sertaneja.
O programa estreou em maio de 1991 para trazer de volta os espetáculos ao ar livre. Transmitido, na época, direto da Cidade Universitária, começou a promover semanalmente shows abertos ao público. No programa de estréia, a atração foi Altamiro Carrilho e sua Banda, seguindo a linha do programa que tinha como base o choro. "Bem Brasil" tem reapresentação no mesmo dia, à meia-noite e meia. No próximo domingo, o convidado é Gabriel O Pensador.


Hebdomadário

Dois olhos na noite inerme

Joel Gehlen

A menina não tem 4 anos e está trabalhando em jornada noturna. Um homem, uma mulher - que idade teriam? - e os quatro filhos. Duas meninas e dois meninos. Aproveitam a noite de Carnaval para recolher latinhas de cerveja vazias. Desempregado, é a chance de ganhar um dinheirinho. Recolhe as latas, leva para casa, amaça e vai amontoando num canto. Na Quarta-feira de Cinzas, depois que a folia acabar, toca para o depósito de seu Mundinho. Puxando o carro de mão no sobe e desce das centenárias ladeiras. Talvez consiga o suficiente para pôr em dia a caderneta da mercearia do Miram, onde fia o de comer.
Seria um serviço mais tranqüilo não houvesse tanta concorrência. Muita gente catando lata, é um retrato da realidade. Por isso leva toda a família e o carrinho de madeira. Cada um pega um saco plástico e sai pela rua em festa atento a qualquer lata. É preciso circular, pois, elas não ficam muito tempo no chão. Como estão em seis, conseguem fazer um arrastão, cada um vai por um lado, depois trazem e despejam na carrocinha, onde a caçula toma conta contra possíveis gatunos.
A menina - um fiapo de gente - é a sentinela das latas ajuntadas no carrinho. Passa a noite inteira sentada num pequeno banco de madeira. Blusinha de lá contra a brisa fria da madrugada. Cabelinho de anjo - uma cacho de acácia - amarrado para trás, os braços cruzados, encosta-se no poste, jogando a cabeça ao léu, nada a atrai. Fica nesta posição um longo tempo. Ao clima festivo do carnaval, oferece sua mais inocente indiferença. Embaixo do bico da luz da rua, ela é uma fonte resplandecente. Os olhos atravessam a multidão para depositarem-se lá no longe da baía da Babitonga, onde um navio com bandeira da Coréia flutua fantasmagórico na carne escura da noite.
Não, a menina não está ali nem vigia latas vazias. Este é apenas o corpo, espantalho e palha e roupa velha. Resignado corpo, mesmo em tão tenra idade. Tem aquele olhar alheio dos cegos e o sentido aguçado de rejeição a tudo que a circunda. Seu espírito habita as imperscrutáveis ilhas da imaginação.
Com o dom infantil de entrar para o país das maravilhas em um passe de mágica, ela passeia entre estreles indiferentes. Que todos se esbaldem de tanto correr e pular, que importa a música chatíssima, as latas que pingam no carrinho, a mulata e o marinheiro norueguês, o frio da madrugada e esta brisa que teima em desfazer o seu cabelo? Atrás daqueles olhos translúcidos não há um espelho refletindo esta hora baldia, nem as névoas do sono ou as angústias mundanas. Em sua vigília de boneca de pano, nada corrói a inocência, nenhuma nódoa no tecido branco do resto de sua vida.

Joel Gehlen é jornalista e editor.


 
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