Joinville         -          Domingo, 12 de Março de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  

















Guerra vã entre
instituições de letra morta

Disputa entre duas entidades literárias em Blumenau retrata decadência no universo das letras

Mauro Galvão
Especial para o Anexo

Falta poesia. Afirmativamente: falta. Ou, se não ausente estiver, muito à margem está nos debates acerca da criação, quase que simultânea, em Blumenau, de duas entidades criadas, supostamente, para representar o escritor. Os membros da Associação Blumenauense de Escritores contestam o processo de implantação da Academia Blumenauense de Letras, fundada um mês depois da primeira. Agora as duas se digladiam em busca de espaço e consolidação. A discussão tornou-se paradoxalmente polêmica: divide o meio literário com um discurso de unidade, pois ambas entidades dizem ter vindo para "congregar" a classe.
A Associação (também chamada Sociedade) dos Escritores de Blumenau, hoje contando com 22 associados, foi criada em outubro último, após três meses de debates acerca, e só acerca, do estatuto. Exatamente um mês depois é fundada, para ira dos "associados", a Academia Blumenauense de Letras. Os membros da Sociedade repudiaram os autodenominados imortais, questionaram o processo de fundação da Academia. Chegaram a formular uma carta aberta ao presidente da Academia Catarinense de Letras, Paschoal Pítsica ­ em que primeiro condenam e depois pedem explicações ­ sobre a homologação, por aquela casa, da Academia de Blumenau.
Na carta, os signatários chegam a afirmar que a implantação da Academia se deu "de maneira sórdida". O forte argumento usado pela Sociedade é o critério subjetivo de que a Academia carece de representatividade: "Nenhum dos mais conceituados escritores de Blumenau foi convidado". Ainda, no texto, fica evidenciado o ciúme: os societários é que queriam fundar a academia.
Em texto publicado no Anexo (edição de 22 de fevereiro), Eduardo Alencar de Azambuja, presidente da Sociedade de Escritores, reafirma a idéia de que a criação de academia foi plagiada: "Tanto foi que tudo se deu na surdina". Alencar acusa o presidente da Academia, Marcello Ricardo de Almeida, de "personalista" e "egocêntrico", chegando ao requinte de compará-lo ao cuco de Andaluzia, pássaro que é um "parasita social que abusa da boa-fé alheia", e zomba do fato de que três dos nove membros dessa "representativa" instituição sejam da mesma família: "Academia de quintal, para as crianças brincarem". A ironia vai mais além: chama a academia de "instituição do chazinho", onde "se declara imortal aquele que não tem onde cair morto".
Por outro lado, Marcello de Almeida se esquiva das acusações de tentar se promover fundando uma academia. "Temos um projeto coletivo, queremos congregar a classe", repete. Para isso, até colocou um telefone à disposição para quem quiser se tornar imortal ­ já apelidado de "disque imortalidade". De tabela, revida o ataque dos associados com um adjetivo: sectários. Dentro desse espírito de "congregar a classe", a entidade lançou um originalíssimo concurso para estimular a competição. Trata-se de um concurso nacional de poesia que premiará com medalhas os três primeiros finalistas.
Se há em ambas instituições troca de ironia, o escárnio e o riso também não deixa de estar em quem vê de fora a briga dos que se autodenominam representantes dos escritores de Blumenau. "Falta-lhes, a uns e outros, humor e experiência: humor porque se levam demasiado a sério; experiência porque deveriam saber que o texto, e apenas o texto, representa o escritor, nunca instituições", declara o poeta Dennis Radünz, que conclui estarem ambas entidades mergulhadas no equívoco. A celeuma entre associados e imortais até rendeu vários poemas a Dennis (leia nesta página). Da sátira à paródia, os textos evidenciam a futilidade de propósitos em instituições nas quais os membros buscam apenas estar em evidência.
O professor de literatura José Endoença Martins classifica a briga como mera "disputa de espaço" e como "desserviço para a literatura da cidade". Cético, também questiona se representar o escritor é possível a uma entidade. Martins, que é um atento pesquisador da manifestação literária da cidade, cita os nomes de Lindolf Bell, Geraldo Luz e Martinho Bruning para declarar, ácido: "Os mortos são muito mais representativos do que os vivos".
Mas os amantes do burocratismo, do livro-ponto, protocolo, chá e crachá, alheiam-se a esse tipo de discussão. Alencar, alimentando discórdia, já semeia, nesse campo estéreo, a idéia de criar uma segunda academia em Blumenau. No meio de todo esse embate entre posições e proteção de torres de marfim, o debate acerca do texto, da produção literária, aguarda. Pelo menos dos que se perdem discutindo quem ou quem merece a oficialização.

Mauro Galvão é poeta em Blumenau, autor de "Sincretinismo" (editora Letras Contemporâneas) e "As Idades da Pedra" (editora Cultura em Movimento)


polêmica das letras
 
Dennis Radünz
 
quem esses que simulam
se se mudam e se anulam
sob cargos e entidades,
que se medem pela derme
importantes e impotentes,
ou se domam pelo medo
de passar a eternidade?
uns: aqueles: os fulanos

 

 
que se criam em colônias,
quase ocos, centenários,
e aquém e acaso ecoam:
        ultrapassados


Lair lança livro na quarta-feira

Anos dourados
A vaidade ajudou Taís Fersoza a absorver o universo de 1958, época em que se passa a novela "Esplendor".  AN_Tevê 
Joinville ­ A Editora Letra D'Água lança, na próxima quarta-feira, às 21 horas, o livro "Girassol, Giralua - Prosa Poética e Imagens", da escritora e fotógrafa Lair Leoni Bernardoni. O livro é um apanhado de fotos e textos produzidos por Lair nos últimos anos, produção espalhada pelas páginas no formato de cartas, bilhetes, postais e mesmo pequenas recordações como flores e saquinhos de areia. O lançamento do livro acontece na Galeria Lascaux, em Joinville, onde, simultaneamente, o artista plástico e arquiteto paulista Claudio Tozzi abre sua exposição de telas, mostra que reúne o trabalho de três décadas e passa pela visão abstrata do artista pelas cidades, pelas flores e pelos elementos da natureza.


Um espírito de
contradição organizado

Aos 82 anos, o crítico e professor Antonio Candido é um dos últimos intelectuais brasileiros que merecem o título

"Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta/ As sensações renascem de si mesmas sem repouso/ Oh espelhos oh! Pirineus! ôh caiçara!/ Se um deus morrer, irei no Piauí buscar outro."
Mário de Andrade
, em "Remate de Males"

Alexandre Carrasco
Especial para o Anexo

Joinville ­ Em número especial de 1999, "Remate de Males", revista do departamento de teoria literária da Universidade Estadual de Campinas, homenageia Antonio Candido ­ crítico, intelectual, professor. Considerando a homenagem de um ponto de vista doméstico, nada mais justo. Afinal, trata-se do organizador do departamento de teoria literária e do primeiro diretor do Instituto dos Estudos da Linguagem da Unicamp. Mas, em se tratando de Antonio Candido, não há ponto de vista que, sendo único, dê conta de seus feitos, nem ambiente doméstico que comporte seu tamanho. Note-se: desde a famosa revista "Clima", passando pelo clássico de interpretação do Brasil "A Formação da Literatura Brasileira", para culminar no marco que representa o ensaio "Dialética da Malandragem", há, para falar como Paulo Arantes, "dialética por todos os lados": portanto, variação de pontos de vista, leituras de múltiplas entradas, movimento de canto de boca cheio de mistérios; em uma palavra, espírito de contradição organizado. Vem, dessa forma, muito a propósito, o belo nome da revista da Unicamp: em tempos espinhudos como esses, dar-se ao luxo de pensar com quem pensa e não recua nem concede diante da empresa que assume é, sem dúvida, um remate para muitos males.
Aliás, a indicação sobre a origem do nome da revista, de resto bem conhecida de seu público ("o título da revista reproduz os tipos usados no ante-rosto da edição original da obra deste nome de Mário de Andrade, S.P. 1930"), reitera uma filiação que vale para Antonio Candido: do impacto do modernismo paulista e suas conquistas teóricas, acumuladas e ampliadas graças a uma boa aplicação do capital excedente da oligarquia paulistana (aplicação essa que lhe rendeu até a pecha de progressista): a criação da Universidade de São Paulo. O encontro desses dois elementos, não tendo nisso nada de épico, proporcionou aos jovens moços e moças, ingressantes na então Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências, uma inusitada dupla formação: por um lado, a redescoberta do Brasil pelo modernismo; por outro, a aquisição de uma formação internacional, isto é, a oferta no atacado de cultura humanista. Dessa conjunção é possível imaginar com que exigência de rigor e de pertinência pensa Antônio Candido. Note-se a seguinte passagem da "Formação da Literatura Brasileira":
"Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; e se não a amarmos, ninguém o fará por nós. Se não lermos as obras que a compõem, ninguém as tomará do esquecimento, descaso ou incompreensão. Ninguém, além de nós, poderá dar vida a essas tentativas muitas vezes débeis, outras vezes fortes, sempre tocantes, em que os homens do passado, no fundo de uma terra inculta, em meio a uma aclimatação penosa da cultura européia, procuravam estilizar para nós, seus descendentes, os sentimentos que experimentavam, as observações que faziam ­ dos quais se formaram os nossos. A certa altura de 'Guerra e Paz', Tolstói fala nos 'ombros e braços de Helena, sobre os quais se estendia por assim dizer o polimento que haviam deixado milhares de olhos fascinados por sua beleza'. A leitura produz efeito parecido em relação às obras que anima. Lidas com discernimento, revivem na nossa experiência, dando em compensação a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito. Neste caso, o espírito do Ocidente, procurando uma nova morada nesta parte do mundo."
Note-se ­ de permeio, como de resto sempre preferiu a discrição de Antonio Candido ­, o núcleo duro de "Formação" é apresentar, sempre a partir do que chama "casos concretos" (portanto, mediante estudos de casos e evitando uma língua teórica qualquer), esse duplo movimento que constitui a literatura como "sistema". O duplo movimento ­ movimento duplo no sentido mas único na direção, quer dizer, do centro à periferia, da periferia ao centro ­ não poderia, entretanto, retroceder enquanto a paisagem social da então colônia não estivesse ainda em vias de definição, quer dizer, não se apresentasse como mediação inteligível. Daí os dois volumes da obra coordenarem os momentos decisivos dessa formação de uma literatura que, querendo se fazer figurativa, fazia-se engajada na construção de um país de fato inexistente.
Tem-se arcadismo e romantismo, segundo critério de lastro histórico, por um lado, e capacidade expressiva de outro, isto é, no momento em que a complexidade da vida na colônia implica uma diferenciação da metrópole e surge como figuração. (A polêmica do romantismo em "A Formação da Literatura Brasileira", se há ou não e em que medida, longe de estar encerrada, reatualiza-se numa polêmica entre modernos e pós-modernos e pode ser traduzida naquele que cerca o gênero "história" e pergunta-se se o esgotamento do projeto moderno não implica o próprio esgotamento da história.) Ora, "retratando o desejo dos brasileiros de ter uma literatura", compõem um ponto de vista que procura encontrar um método histórico e estético, simultaneamente.
Mais tarde, no pequeno prefácio que abrirá "O Discurso e a Cidade", Candido redefinirá o foco, sem entretanto perdê-lo, através da expressão "redução estrutural": "O processo por cujo intermédio a realidade do mundo e do ser se torna, na narrativa ficcional, componente de uma estrutura literária, permitindo que esta seja estudada em si mesma, como algo autônomo."

A revista

Composta de uma antologia de escritos inéditos em livro do próprio Antonio Candido, a revista guarda para o bom leitor certas preciosidades. "Poesia ao Norte", publicado no jornal Folha da Manhã em 13 de junho de 1943, é um pequeno escrito sobre dois então desconhecidos poetas do norte, "rapazes apenas saídos da adolescência: o Sr. Guilherme Barata, do Pará, e o Sr. João Cabral de Melo Neto, de Pernambuco".
Publicado novamente no ano passado, por ocasião da morte de Cabral, o que impressiona é a clarividência e precisão na apreciação do primeiro livro de João Cabral, "Pedra do Sono". Candido escreve: "Trabalhando um material caprichoso, como é o do sonho e da associação livre, o Sr. Cabral de Melo tem necessidade de um certo rigor por assim dizer construtivista. Daí se fechar dentro de seus poemas, onde há um mínimo de matéria discursiva e um máximo de liberação do vocábulo ­ entendendo-se por tal a tendência para deixá-lo valer por si, manifestando o poder de sugestão que possui". Dessa forma o crítico vai revelando ao poeta presente o poeta futuro; e hoje mais que ontem o pequeno artigo revela sua posteridade e sua perseverança.
Dos outros treze artigos ou conferências há ainda duas que merecem indicação explícita. Em "Euclides da Cunha sociólogo", publicado na ocasião do cinqüentenário de "Os Sertões" no jornal O Estado de São Paulo, ao mesmo tempo que apresenta certo envelhecimento de uma possível sociologia euclidiana e mesmo a insuficiência de certas análises, mostra o poder revelador que tem "Os Sertões", poder que deriva justamente de figurar, em cores, o fenômeno Canudos, dando existência a um Brasil estranho a si mesmo.
Finalmente, "Transcendência do regional", resenha publicada no Suplemento Literário número 1 de O Estado de São Paulo, em 6 de outubro de 1956, a propósito de "Grande Sertão: Veredas", cumpre brilhantemente o propósito a que foi destinado em exíguos sete parágrafos: ler é preciso, sobretudo Guimarães Rosa. Completa a revista uma bibliografia do homenageado, cuidadosamente elaborada por Sonia Sachs.
Quisera essas linhas tivessem a mesma sorte (e aqui apenas a sorte explicaria um destino comum) de tantas escritas por Antonio Candido e não só oferecesse a notícia de um texto mas sugerisse esse fato sempre presente atrás dos textos e não raro atrás desse textos: os livros (e só se trata dos grandes) são como a vida colhida num espelho.

  • Alexandre Carrasco é doutorando em filosofia pela USP e mora em Joinville


Antonio Candido em
digressão sentimental

No auge do processo de privatização, em manifestação no auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, ao lado do economista Paulo Nogueira Batista Jr., Antonio Candido aguardava o momento de pronunciar-se. Apresentado pelo então diretor da FAU como "conhecido crítico que pela primeira vez, e por tão nobre motivo, fazia-se presente no auditório dessa escola", no momento devido corrigiu um lapso na sua apresentação. Informava a audiência que já estivera ali, e por um motivo muito similar: para dizer não. (Na primeira greve de docentes da USP, durante o regime militar, Antonio Candido era diretor da associação dos docentes). E esse "não" cujas aspas indicam não se tratar de uma negativa qualquer, bem ilustra um outro lado de Antonio Candido que, ao fim e ao cabo é seu único lado, o de intelectual, palavra que, se perdeu a credibilidade midiática (essa nunca deve ser levada a sério), não soube negar o conceito que sempre supôs; para que não se esqueça da origem moderna não (apenas) da palavra mas, sobretudo, do conceito, a partir do caso Dreyfus: homem de pensamento e de posição. Antonio Candido é assim.
Daí valer para ele o juízo que emite sobre Sérgio Buarque de Holanda, a propósito de um estudo que faz sobre a ocorrência de idéias radicais na vida intelectual nacional: em ambos os casos há uma "franca opção pelo povo". Destarte, a um jovem estudante presente no auditório da FAU-USP cuja melhor qualidade é o entusiasmo, resta copiar, em epílogo, palavras de um poeta cuja consciência aguda do "não" não impediu a voz de armar-se; justo o oposto (e homens da mesma estatura podem travar um diálogo imaginário): "O poeta/ declina de toda responsabilidade/ na marcha do mundo capitalista/ e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas/ promete ajudar/ a destruí-lo/ como um pedreira, uma floresta/ um verme." (AL)


Frases

Turismo
A queda acentuada do fluxo de visitantes em fevereiro não ofuscou os resultados obtidos em dezembro e janeiro.  AN_Economia 
"Nós fomos queimados na fogueira durante a Inquisição. Somente em Portugal e no Brasil foram 32 homossexuais queimados pelos inquisidores"

"Porque homossexual pobre vai ser chamado de "viado" e "bicha louca". Homossexual rico ou "estudado" vai ser respeitado como intelectual"

"Queremos fortalecer o movimento em Santa Catarina, que é um dos Estados com dificuldades de organização, talvez pela cultura mais conservadora"


Viver a diferença
com dignidade

Um dos líderes do movimento homossexual, Toni Reis fala sobre a luta contra o preconceito

Clóvis Gruner
Especial para o Anexo

Ele ficou conhecido nacionalmente em 1996, quando seu namorado, o inglês David Harrad, foi ameaçado de extradição por viver ilegalmente no Brasil. A história foi manchete dos principais jornais e revistas brasileiros e virou livro: "O Direito de Amar ­ A história de um casal gay". O episódio serviu principalmente para consolidar a militância e a liderança de Toni Reis, um dos principais nomes do movimento homossexual brasileiro e presidente do Grupo Dignidade de Conscientização e Emancipação Homossexual, de Curitiba, fundado em 1992. Nascido há 35 anos em Limeira, no interior do Paraná, Toni é graduado em letras pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduado em sexualidade humana. É segundo suplente de vereador pelo PT ­ recebeu 2.734 votos nas eleições municipais de 1996. Nesta entrevista ao Anexo, ele fala sobre preconceito, violência, guetos e do projeto de lei que proíbe a discriminação por orientação sexual, entre outros assuntos. Temas que discute com seus companheiros do Dignidade e principalmente com David que, sim, vive hoje legalmente no país e com quem Toni completa, em março, dez anos de vida comum.

Entrevista
Toni Reis

O assassinato recente de Edson Neris da Silva por um grupo de skinheads, em São Paulo, é uma atitude isolada ou reflete ainda, em parte, um sentimento de intolerância presente na sociedade brasileira?
Toni Reis ­ O assassinato do Edson não é um fato novo para nós da comunidade homossexual. Nos últimos dez anos foram registrados mais de 1.800 casos de homossexuais barbaramente assassinados. Esse foi um caso que repercutiu porque se trata de uma violência organizada. Foi um episódio que sensibilizou o próprio governo e mobilizou a opinião pública. Mas há outra violência, que é cotidiana. Há a violência psicológica, a intolerância e o preconceito que nós, homossexuais, vivemos no dia-a-dia.

O que está na origem do preconceito?
Toni ­ No Brasil convivemos com a intolerância contra o diferente. Temos a mania de buscar bodes expiatórios. Os skinheads, por exemplo, atribuem aos homossexuais a culpa pela decadência moral da sociedade. Não existe apenas uma causa para o preconceito. As religiões judaico-cristãs ensinam que somos pecadores e, ao interpretar a Bíblia sem pensar no momento histórico em que ela foi escrita, justificam uma interpretação machista que também discrimina a mulher. A própria ciência carrega, muitas vezes, uma carga muito grande de preconceito, influenciada às vezes pela igreja. Isso é historico: nós fomos queimados na fogueira durante a Inquisição. Somente em Portugal e no Brasil foram 32 homossexuais queimados pelos inquisidores, vítimas da intolerância religiosa. Depois fomos taxados de criminosos. Até recentemente a medicina classificava a homossexualidade como doença, no código 309 da OMS. E isso só foi revogado em 1993. Com a organização dos homossexuais (e hoje temos uma Associação Internacional de Gays, Lésbicas e Travestis e também uma associação brasileira, além de grupos espalhados por diversas cidades) isso está mudando, porque estamos procurando passar informações e discutir com a sociedade.

A organização é o melhor meio de se defender da violência?
Toni ­ Qualquer pessoa que se sinta violentada nos seus direitos precisa se organizar, discutir e denunciar. Isso é fundamental. Conseguimos em Curitiba resultados excelentes. Hoje somos reconhecidos como entidade de utilidade pública nas esferas municipal, estadual e federal. E isso faz com que as pessoas passem a nos respeitar como seres humanos e cidadãos. Violência a gente revida com educação, conscientização e informações corretas, que não discriminem as outras pessoas. É preciso se preocupar com a ação de grupos como os skinheads, porque hoje são os homossexuais, amanhã serão os nordestinos, os negros... A intolerância é sempre abominável.

Você concorreu a vereador em 96. A atuação partidária é também uma alternativa de defesa dos interesses e direitos da comunidade gay?
Toni ­ A política é importante e está na vida de qualquer cidadão. A política partidária é difícil, porque há muita corrupção e personalismo. Mas é onde estão as decisões do poder e se definem os rumos do país. Então é preciso participar e ser o mais coerente possível. É recomendação da nossa entidade nacional que as pessoas saiam candidatas e que coloquem na pauta o respeito ao gênero, ao diferente. Estamos atuando para buscar o apoio dos partidos no respeito não apenas aos homossexuais, mas às mulheres, negros, judeus. Às pessoas menos favorecidas e que sofrem a discriminação cotidianamente. Além disso, uma candidatura conquista espaço na mídia, nas universidades etc. O debate é importante para levar a mensagem da cidadania e do respeito às pessoas e fazer cumprir a Constituição brasileira, que é uma das mais bonitas do mundo mas que muitas vezes, na prática, não é respeitada.

Há, hoje, organizações homossexuais nas principais cidades brasileiras. Por outro lado, em municípios menores essa mesma organização praticamente inexiste, ainda que os problemas sejam os mesmos: preconceito, violência, Aids. Como chegar às pequenas cidades?
Toni ­ Onde houver homem e mulher há homossexuais. E só conseguiremos vencer o preconceito e conquistar nossa dignidade onde existir organização forte, criativa e persistente. Precisamos provar que temos credibilidade e capacidade, o que o heterossexual muitas vezes não precisa. O homossexual precisa ser bom, e muito bom, para ser respeitado. Estamos desenvolvendo atualmente um projeto chamado Somos, que tem por objetivo constituir novas entidades. No Paraná já temos oito grupos formados e a intenção é formar outros três no interior. Além disso queremos fortalecer o movimento em Santa Catarina, que é um dos estados com dificuldades de organização, talvez pela sua cultura mais conservadora. Já temos formados e atuantes os grupos Fazendo a Diferença, em Blumenau, e o Nostro Mundo, em Florianópolis. Agora, estamos procurando pessoas interessadas em Joinville e Itajaí para participar de um curso de formação, tanto na defesa dos interesses dos homossexuais quanto na prevenção à Aids.

E como está a organização em Joinville?
Toni ­ Toda e qualquer entidade começa com duas ou três pessoas. Temos alguns contatos mas as pessoas têm muito medo de assumir e começar o trabalho. Vamos precisar de líderes despojados e corajosos. Porque é preciso coragem e dignidade para assumir e dizer: "Sou homossexual, ser humano, cidadão e preciso me organizar".

Apesar de toda a organização, que vem crescendo especialmente nos últimos anos, ainda é bastante comum entre os homossexuais a convivência em guetos, bares e boates gays, por exemplo. É também uma reação ao preconceito?
Toni ­ Há uma tendência social, entre os grupos humanos, de procurar e se encontrar com os iguais. Isso não é uma exclusividade dos homossexuais. Além disso, no gueto você não está só. É respeitado. É preciso ir no gueto, porque é bom. Mas é preciso também conviver com os diferentes, em sociedade. Desconfio um pouco dessa tendência de se ter um bar, um banco ou uma padaria para homossexuais. Não precisamos ter salas de aulas especiais para gays. Temos de viver como o arco-íris, que é o nosso símbolo internacional: cada um com sua cor, com sua religião e orientação sexual. Respeitando o espaço comum e a pluralidade.

Quem sofre mais com o preconceito: gays, lésbicas ou travestis?
Toni ­ Todos sentem. Mas os gays tendem a sofrer mais porque se assumem mais. O maior número de denúncias em entidades e organizações é dos gays. A lésbica muitas vezes é discriminada por ser mulher mas permanece submissa, na surdina, e não assume. Por outro lado, os travestis sofrem muito por serem homossexuais e prostitutos. São dois estigmas: a homossexualidade e a prostituição. Além de serem marginalizados pela sociedade, enfrentam a violência policial. Além disso, muitos deles têm um nível sócio-cultural muito baixo e sofrem também por serem pobres.

A ascensão social diminui o preconceito?
Toni ­ Acho muito importante que os homossexuais estudem. Porque homossexual pobre vai ser chamado de "viado" e "bicha louca". Homossexual rico ou "estudado" vai ser respeitado como intelectual e pela sua posição social. Isso é comum principalmente no ambiente familiar onde os pais, embora lamentem ter um filho viado, o respeitam "porque ele é doutor". É preciso ser muito macho para assumir que se é homossexual, ter muita persistência e muitas vezes superar os heteros pelo conhecimento.

Ser aceito e respeitado pela família é importante no momento de assumir a condição de homossexual, não é?
Toni ­ O momento mais difícil é assumir para você mesmo. Chegar na frente do espelho e dizer: "sou gay e gosto de homem". Porque não passa apenas pelo sexo, mas pelo afeto e o carinho. Superada esta etapa, fica mais fácil assumir perante a família, a escola etc.

O projeto de lei da deputada Marta Suplicy, que propõe o reconhecimento da união civil de casais do mesmo sexo, continua tramitando no Congresso. Como está a movimentação em torno da sua aprovação?
Toni ­ Este é um projeto que surgiu de uma discussão internacional. É o que chamamos de parceria civil registrada. É uma lei importante porque reconhece os direitos de herança e convivência. Veja o meu caso: vivo há dez anos com meu companheiro. Estamos construindo um patrimônio e se eu morrer estas coisas têm que ficar com ele, e não com a minha família. Não se trata de casamento, mas de um contrato civil que regulamenta as uniões homossexuais. Mas atualmente nossa prioridade é a aprovação de uma lei que proíbe a discriminação por orientação sexual. Ela irá permitir que empresas e escolas, por exemplo, que discriminem, sejam processadas, multadas ou advertidas. Estamos em um processo de discussão nacional, porque queremos que o projeto de lei seja apresentado ao Congresso pelo Ministério da Justiça.

Em recente entrevista a "IstoÉ", o presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis, Claudio Nascimento, falou a respeito de uma campanha nacional contra a violência, a ser deflagrada em todo o país pelas entidades homossexuais. Como será a participação do Dignidade?
Toni ­ Apoiamos sempre todas as iniciativas nacionais e internacionais. Estaremos em vigília permanente. Em Curitiba, estamos sempre denunciando a violência contra homossexuais, com manifestações na Boca Maldita, e cobrando uma ação eficaz das autoridades. O principal objetivo dessa campanha nacional é trazer outras pessoas e movimentos para essa luta. Porque os homossexuais não são os únicos a sofrer com a violência: há os negros, as mulheres que são espancadas e mortas por seus próprios maridos. Juntos, vamos permanecer em vigília. A transformação começa a partir daí.

Scooters
A possibilidade de liberação dos ciclomotores ou scooters para menores de 18 anos no Brasil ainda rende polêmica.  AN_Veículos 
O Dignidade está completando oito anos de atividades. O que mudou nesse período?
Toni ­ Agora é fácil ser gay (risos). Há mais participação, publicações dirigidas ao público gay e a mídia não mostra mais apenas o homossexual estereotipado. A violência policial também diminuiu. O projeto de lei da deputada Marta Suplicy gerou muita discussão em todo o Brasil. Isso é muito importante. A situação evoluiu. O Dignidade começou com cinco pessoas. Hoje somos 364 filiados e uma entidade reconhecida pela sociedade. E esperamos ter uma vida longa.

  • Clóvis Gruner é jornalista e mestrando em História Social pela Universidade Federal do Paraná.


Bazar de idéias

Germano Jacobs

Craque da tela

Billy Wilder, quando se fala em cinema, é referência obrigatória. Põe no chinelo cineastas moderninhos que usam e abusam da tecnologia para tapear os incautos com filmes vazios de idéias e conteúdo. Wilder, que foi homenageado recentemente pelo canal a cabo Telecine 5, começou sua carreira como roteirista ­ o que nunca deixou de ser ­ para depois assumir a produção e direção. Drama. Comédia. Não escolhia gênero: matava no peito, driblava o lanterninha e estufava a tela. O endiabrado austríaco, entre tantas maravilhas da sétima arte, dirigiu a melhor comédia deste século: "Quanto Mais Quente Melhor", com Jack Lemonn, Tony Curtis e Marilyn Monroe. O roteiro é dele e I.A.L. Diamond, seu parceiro fiel.

Milagre ­ Escola de samba com mais de cinco mil participantes no espaço exíguo do Sambódromo é, realmente, um milagre. Milagre brasileiro. Nem Cecil B. de Mille, nos seus bons tempos, seria capaz de dirigir aquela zorra, que no fim dá certo, ninguém sabe como.

Leptospirose ­ O rato, transmissor ambulante de doenças, que causa horror ao ser humano, pode ser visto como símbolo do politicamente incorreto nas histórias em quadrinhos e nos desenhos animados. É um personagem simpático, esperto, que, apesar de sua fragilidade e pequenez, acaba levando a melhor sobre seus inimigos, principalmente, é claro, o gato. Graças a Mickey, o ratinho queridinho, Walt Disney construiu um império. Tom jamais conseguiu dar uma dentro com o Jerry. O Supermouse, cheio de si, enfrentava de igual para igual o Super-Homem. Agora, a bola da vez é o "Pequeno Stuart Little", em cartaz nos cinemas do País. E o danado ainda contracena com gente de carne e osso, honra que Jerry teve com Gene Kelly, numa famosa seqüência de dança.

Vai mesmo ­ Novembro do ano passado, em Curitiba, foi encenada no Teatro Guaíra (Guairinha) a ópera "O Elixir do Amor", de Donizetti. Graças às presenças do veterano Rio Novello e da revelação Douglas Hahn, no papel do sargento Belcore, o espetáculo se sustentou. Os dois não permitiram que Donizetti se revirasse no túmulo. O barítono joinvilense, aliás, interpretará o vilão Gonzalez da ópera "O Guarani", de Carlos Gomes, com regência de Isaac Karabtchevsky e com estréia marcada para o dia 13 de maio, no Teatro Alfa, em São Paulo. Podem crer: com o talento que Deus lhe deu, Douglas Hahn vai longe.

Eterno Noel ­ Certa vez pediram a um estagiário de jornalismo uma matéria sobre Noel Rosa. "Noel Rosa? Quem é esse cara?". Noel Rosa, ó meu, é simplesmente um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos. Na sua curta, mas bem aproveitada vida, deixou 250 composições, algumas delas, como "Conversa de Botequim", simplesmente geniais. O querido Noel, quando deu o último suspiro, tinha apenas 26 anos.

Eureca ­ Nos Festivais de Cinema de Gramado sempre aparecia uma figura estranha, que agitava a serra gaúcha com sua "loucura" pré-definida. Peninha, o trapalhão, ia para os debates para falar e falar, sem início-meio-fim. Era para esquentar o ambiente, mesmo. Peninha é Eduardo Bueno, o autor best-seller, que descobriu o filão dos livros sobre a história do Brasil, a começar pela viagem de Pedro Álvares Cabral à Terra de Santa Cruz, em 1500. Grande sacada.

Dramalhão ­ Na novela "Terra Nostra", que tem momentos inspirados, principalmente quando estão em cena Raul Cortez, Antônio Fagundes e Débora Duarte ­ que presença, Dio mio! ­, com muita freqüência baixa o espírito de algum caboclo mexicano no autor Benedito Rui Barbosa. E dá-lhe dramalhão. Numa cena, Cláudia Raia chorou tanto, mas tanto, que parecia temporal, daqueles que alagam a paulicéia desvairada.

Mestre ­ Por falar em livro, "Notícia de um Seqüestro", de Gabriel García Márquez (Editora Record, 318 páginas), é uma aula de jornalismo. E de literatura. Inveja saudável do mestre colombiano, um ourives das letras, como diz o tradutor Eric Nepomuceno, na orelha. Quem ainda não leu, deve correr para recuperar o tempo perdido.

Manchetes AN

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10/03 - Homem ao mar das paixões
09/03 - A eterna elegância das bicicletas
08/03 - Teatro renasce em São Bento
07/03 - Cenas de impacto imediato
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05/03 - Da ironia da etiqueta à ética do sarcasmo

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Gêmeos dão novo fôlego aos quadrinhos brasileiros com "O Girassol e a Lua"

GLEBER PIENIZ

Joinville ­ Há tempos não se via no Brasil uma dupla tão coesa nos quadrinhos quanto Gabriel Bá e Fábio Moon. Também pudera: gêmeos talhados na militância underground através de fanzines e conseqüentes trabalhos para jornais como "Folha de São Paulo", "Notícias Populares" e o "Estadão", a dupla cresceu dividindo material de desenho, técnicas e idéias. "10 Pãezinhos", seu zine de HQs, ganhou corpo e virou livro, sendo brindado recentemente pela Via Lettera Editora com uma edição primorosa para a história "O Girassol e a Lua", obra a quatro mãos que quebra a tradição de trabalhos solitários comum aos quadrinhos brasileiros e apresenta ao grande público um produto envolvente, sedutor e extremamente profissional.
Toda a história de "O Girassol e a Lua" é apresentada aos leitores através de Annie, garota que descobre, por acaso, o diário e os recortes de jornal deixados por Komarov, um jovem músico que se envolve numa trama de obsessão, perseguição, amor, violência e vingança. Junto com o enorme amigo Romeo, Komarov evita que um assassino serial estupre e mate uma misteriosa menina chamada Kelsie. Em reconhecimento, a pequena lhe presenteia com o Coração do Mar, amuleto que segundo as crenças difundidas pelos marinheiros dá a proteção das sereias aos homens. O ato de heroísmo, no entanto, desperta a ira do assassino, que promete vingar-se do vocalista d'Os Gigantes e passa a cumprir sua promessa seqüestrando Val, a paixão mal resolvida do rapaz.
Annie, em capítulos, vai conhecendo um pouco mais de Komarov e seus passos, desde os encontros e desencontros com Val e seu resgate espetacular das mãos do assassino, até o encontro final do músico com o criminoso - um duelo no mar de onde apenas um dos combatentes poderia sair vivo. Ao final da história, definitivamente envolvida pelas informações a que teve acesso, Annie torna-se também protagonista do enredo, encerrando à sua maneira aquilo que parece, a princípio, um emaranhado de ações inexplicadas e efeitos incompreensíveis - tanto para si, personagem, quanto para o leitor. A sequëncia de leitura é construída pelos gêmeos através de um intrigante sistema de revezamento que alterna os fatos violentos do passado (pela arte de Gabriel Bá) e suas conseqüências no presente (desenhada por Fábio Moon).

ESTILOS

Moon aprendeu com o irmão (apenas quinze minutos mais novo) os truques do desenho em preto e branco, padrão estético utilizado pela dupla em todas as páginas de "O Girassol e a Lua", com exceção da capa e da contracapa. Seu traço é limpo, claro, delicado e preciso nas linhas curvas, dando forma a apenas uma pequena parte de toda a história - 18 páginas contra as 69 desenhadas pelo mais velho. Bá, por sua vez, tem traço mais grosseiro, reto, sombrio e agressivo, fazendo um bom uso da luz e da sombra, deixando o detalhamento dos ambientes muitas vezes entregue à imaginação do leitor, tamanho o poder de sugestão de suas composições. O contraste entre dois estilos tão diferentes confere a "O Girassol e a Lua" uma envolvente seqüência onde os flagrantes de tempo se intercalam com tratamentos estéticos muito próprios, estando o presente representado por uma luminosidade reconfortante e o passado, por sombras de dúvida e insegurança.
A história escrita por Moon e Bá se constitui numa metáfora muito bem tramada onde Komarov (o girassol em questão) busca na vingança contra o estuprador (o sol) um presente para Val (a lua). Como todo o girassol - flor conhecida por virar-se conforme o astro-rei caminha pelo céu - o herói se deixa seduzir pelo brilho que sua natureza obriga a reverenciar e esquece que a lua, sua amada, também precisa dele. Outra referência encontrada na história - desta vez, resolvida em desenhos - remete às artes plásticas, mais precisamente ao pintor holandês Vincent Van Gogh, encarnado na figura do assassino tendo, inclusive, sua orelha decepada no início dos conflitos. Van Gogh, para quem sofre do pecado de não conhecer sua obra, tornou-se célebre por pintar, entre outras séries famosas, "Os Girassóis".

UNIVERSAL

Komarov, Romeo, Val, Kelsie e Annie vivem em um lugar que mescla características brasileiras a elementos universais, sendo impossível definir precisamente onde se localiza (o ilustrador Fábio Abreu resumiu-a sucintamente, como "uma típica cidade de quadrinhos"). Moon e Bá, pelo visto, não pretendem dar à história uma nacionalidade, ancorando-a fragilmente no Brasil apenas por força da língua utilizada nos diálogos. As onomatopéias utilizadas nas cenas de ação, os nomes e os figurinos escolhidos para os personagens e mesmo o design dos carros e das locações deixam margem para muitas interpretações e a certeza de que todas as cenas poderiam acontecer em qualquer lugar do mundo, comprovando a vocação dos gêmeos para brilhar no cenário internacional dos quadrinhos, um caminho que já começou a ser trilhado no ano passado, quando "Roland-days of Wrath" - minissérie em quatro edições escrita por Shane Amaya e desenhada pela dupla - ganhou o prêmio 1999 Xeric Foundation Grant nos EUA.
"10 Pãezinhos - O Girassol e a Lua" não é vendido em revistarias, sendo encontrado apenas em livrarias especializadas em quadrinhos ou através de pedido direto à Via Lettera Editora: rua Iperoig, 337 - São Paulo/SP - CEP 05016-000, telefone (11)3862-0760 ou e-mail (vialettera@uol.com.br).


Warner lança
preciosidades em vídeo e DVD

"Bonnie e Clyde", "Os Eleitos" e "Uma Rua Chamada Pecado" ganham cópias renovadas, boa chance para redescobrir momentos genias de grandes diretores

Luiz Carlos Merten
Agência Estado

Três preciosidades da Warner Home Video são lançadas pela empresa em versões simultâneas para DVD e vídeo. Na verdade, já existiam nas locadoras, mas agora estão saindo em sell thru, a venda direta para o consumidor. Some-se a isso o tríplice lançamento em DVD - os três nesta primeira quinzena do mês - e está feita a festa dos cinéfilos. Mesmo que o vídeo seja uma mídia condenada e, como o vinil foi substituído pelo CD, também venha a ser superado pela massificação do DVD, são daquelas obras que valem ter numa videoteca. Só que, para ser moderninho, você tem de pensar agora numa deveteca, também.
"Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas", "Os Eleitos" e "Uma Rua Chamada Pecado". A obra-prima de Arthur Penn, um clássico de Elia Kazan e, entre os dois, o melhor filme de Philip Kaufman. Todos em edições de DVD enriquecidas por comentários de produção, menu interativo e índice para escolha de cenas. "Os Eleitos" também ganhou trilha sonora remasterizada e a versão de "Uma Rua Chamada Pecado" é do diretor, com três minutos a mais em relação à montagem da cópia distribuída nos cinemas nos anos 50. São imagens condenadas pela rígida censura de Hollywood na época. Nada de sexo explícito, apenas sugestões e diálogos que foram considerados muito fortes para o cinema americano da época.
Há uma ponte que vai de "...E o Vento Levou", de Victor Fleming, no fim dos anos 30, até "ET", de Steven Spielberg, no começo dos anos 80. Dois filmes sobre o tema da volta ao lar, tão caro aos diretores americanos. Há outra ponte entre "...E o Vento Levou" e "Uma Rua Chamada Pecado". A Blanche Dubois de Vivien Leigh descende da Scarlett O'Hara interpretada pela mesma Vivien Leigh. A beldade sulista do clássico de 1939 vira a mulher decadente, pateticamente sedutora do outro clássico, de 1951.
Antes de virar filme, "Uma Rua Chamada Pecado" foi peça de sucesso que o próprio Kazan dirigiu no palco. É um dos melhores textos de Tennessee Williams. No original, chama-se "A Streetcar Named Desire" - "Um Bonde Chamado Desejo". Como tal foi encenada no País. No cinema ganhou outro título, e não se pode dizer que seja dos mais inspirados. Blanche, a degeneração da beldade sulista Scarlett, diz lá pelas tantas que precisa viver da caridade de estranhos. Blanche também diz que não quer realismo, quer magia. É uma das grandes personagens femininas que já viram a cena neste século e a atuação espetacular de Vivien está entre as três ou quatro melhores registradas por uma câmera. Blanche vive com a irmã, casada com o brutal Kowalski. Com sua força e sensualidade, ele destrói o frágil mundo de sonhos em que ela se refugia. Se Vivien é uma Blanche brilhante, Marlon Brando não é menos emblemático como Kowalski. As T-shirts que ele usa, moldando os músculos, causaram forte impacto na época. Brando era um deus, Kazan, que naquela época iniciou seu triste envolvimento com o macarthismo, já era um autor preocupado em mostrar na telas as emoções humanas, as paixões que se recusam a ser reprimidas.

Analogia

"Bonnie e Clyde" é de 1967. Arthur Penn estava no auge e hoje o leitor jovem, acostumado a James Cameron e cia., talvez se pergunte: Arthur quem? Penn, um dos grandes, senão o maior diretor americano dos anos 60. Ele ainda entrou grande pelos anos 70, principalmente quando fez "Um Lance no Escuro", mas logo iniciou a decadência, uma das mais desconcertantes e vertiginosas de Hollywood. É um filme do tempo em que Penn fazia filmes para estabelecer a analogia entre o revólver e o pênis. Bonnie Parker e Clyde Barrow foram gângsteres americanos dos anos 30. Quando o filme começa, ela, interpretada por Faye Dunaway, está no auge da insatisfação. Sua atração é atraída por aquele ladrão, Clyde (Warren Beatty). Ele é impotente. Lançam-se numa espiral vertiginosa de roubos a bancos, experimentando, na excitação das armas e dos roubos, o prazer que ele não consegue oferecer a ela na cama. Viram ídolos do público, mitos.
Penn narra sua história por meio de uma violência cômica embalada pela música de banjo. A partir da cena do milharal, o filme vira uma tragédia. Clyde consegue fazer sexo com Bonnie, mas a essa altura o sistema já fechou seu cerco sobre eles. É um raro e grande filme. Não perdeu nada de sua força.
"Os Eleitos" é de 1983. Uma adaptação do livro-reportagem de Tom Wolfe sobre a apopéia da conquista espacial americana. Philip Kaufman mostra o programa Mercury, a preparação dos primeiros astronautas dos Estados Unidos, naquele tempo em que a União Soviética era uma potência e a conquista do espaço era uma guerra de propaganda entre os dois grandes inimigos. De um lado, os astronautas e suas mulheres.
De outro, olímpico, solitário, o Chuck Yeager interpretado por Sam Shepard. O melhor piloto de sua geração, o mais hábil e corajoso, infelizmente pouco adequado para um programa que transformava os astronautas em máquinas manipuladas desde o centro de lançamento de Cabo Kennedy (que, na época, ainda era Canaveral).
Momento sublime, de gênio: Chuck Yeager voa sozinho, no seu jato, mais alto do que qualquer outro homem já foi. Simultaneamente, Kaufman mostra seus antigos colegas astronautas numa convenção política no Texas. Um clone do ex-presidente Lyndon Johnson apresenta Miss Sally Ran. Surge a mulher envolta em plumas para fazer um strip-tease ao som de "Clair de Lune". Ela dança. Os astronautas trocam olhares entre eles - olhares que dizem tudo o que as palavras não transmitem. As plumas viram nuvens e aparece Yeager no seu avião. Você vai ver de novo quantas vezes quiser, favorecido por essa qualidade que o DVD tem de chegar mais rapidamente às cenas. A grandeza do cinema passa, com certeza, pelos eleitos de Kaufman.


Crônica

O ferrão do mandi

Conta-se de um jovem Hnar, de nome Jhñ, certo dia em que, ao debruçar-se sobre um pequeno charco, para pegar uma liana aquática com que teceria seus intermináveis nós, ao colocar a mão na água retirou-a de imediato. É que um pimelodídeo siluriforme, raça de pequenos e muito suspicazes peixes, picou-lhe o dedo médio. Assim o relatou o cisterciense Rivaldo Sacrati (ver "O Martírio de Isidor Cavaltar", in "Na Gare da Estação Primavera", pág. 170, Ed. Letra D'Água, 1999), no oitavo volume das "Litterae Insulanae", o que atesta a historicidade do evento, embora seja este um dado novo na desconhecida história do povo Hnar, que, como é sabido, desconhecia ilações cronológicas. Registre-se todavia o caso como protomito ou pré-lenda, no subjetivo inconsciente desse povo (ver estudo de Edvarus Baumanicus, no seu "Styrische Liederbuch von Hnarenvolk", exemplar único no Brasil, "Delle Uffizzi", em Roma). Mas a verdade é que o aguilhão do mandi, na mão do pequeno Jhñ, talvez tenha calado mais fundo no lento desenvolvimento dos Hnar, seminalmente provocado pelos mercadores bercos durante o século 3 a.C.. Hoje disseminados pelo mundo, os remanescentes Hnar ainda são a-históricos e a-cronológicos e continuam a enterrar suas medrosas suspeições nos silêncios obstinados em relação ao seu universo cultural. Dificilmente, ou talvez jamais, conseguirão evoluir completamente como humanos, pois, sempre timoratos como os coelhos e cervídeos de olhos mansos e amendoados, continuarão a ignorar-se uns aos outros. Positivo, na evolução Hnar, é que eles aprenderam a temer o mandi, e todos os peixes, inclusive a água. Por isso não são pescadores ou marinheiros e não contemplam as estrelas. Preferem a quietude da árvore, cuja gorda sombra os protege, porventura, de perigosos mandis. Modernos pesquisadores, constatando o arfar desses estranhos remanescentes em façanhudices etílicas que promovem e alardeiam, travestidos com primitivas peles de renas e de alces, que escoiceiam e corneiam antes de acomodarem-se ao redor de certas árvores, ainda recitam, meditabundos, o que, sabe-se agora, não é o arremedo de um canto pré-gregoriano, pois o mantra "nnndo!... nnndo!...", em eterno gerundivo, jamais evoluiu, na sua quieta e ignorante paz.

Tempo de Champak ­ É novamente tempo de Champak, a védica floração dos amarelos, doirando encostas e planuras da minha terra catarina. Ora os fedegosos estalam suas lâminas de puro ouro entre o moriente roxo das quaresmeiras, e aqui o gaio amarelo coroa a ramagem dos angicos de copas arredondadas; acolá rebrilha o sol nas seivas cristalizadas de mil árvores de cássias, que pendem como pingentes jóias, luzindo brilhos nos seus áureos cachos... e eis, ali na baixada, o casto amarelo das mimoseiras, inserindo na leve penugem de suas florezinhas as suavidades do doce mamilo da Caá. Pelos campos, parece que tudo isso é uma oferta da natureza a antecipar outoniças dádivas, antes da íntima hibernação das raízes e renovação de seivas. O homem, comovido, esquece do machado e do fogo, pois é o tempo de agradecer à natureza.

Nós e o "louco" ­ Igualmente às aranhas, costumamos encapsular tudo o que é diferente: o louco, que ostenta uma face diversa da nossa, há de ser engolido por nós, mas terá postergada a deglutição, pois o ser humano tem um tempo certo, um momento adequado para devorar o seu diverso. A cápsula que envolve a vítima descuidada servirá também para esconder o seu desconhecido e portanto desagradável rosto e impedir seus gestos despropositados e incivis. A cápsula com que o envolvemos, seja esta de silêncios ou de covarde trama de maledicências, mostra-nos que é confortável esconder as opiniões contrárias e as novas como se fossem sujeiras a ocultar sob um tapete. Como os ácaros entre o pó dos estofados e as aranhas que encapsulam suas vítimas, é necessário esconder o inimigo ou o desconhecido, transformando-o em alimento maduro para nossos interesses e vaidades.

Os homens palimpsestos ­ Há pessoas que se prestam a assumir outras faces e outras opiniões, e mesmo outras preferências, como se fossem verdadeiros palimpsestos ambulantes. Palimpsesto, sabeis, é o suporte de uma escrita, reaproveitado. Seja por raspagens, lavagens, esfregações, os suportes como o linho, o pergaminho, os papiros, as madeiras e até as tabuinhas de argila eram rasurados ou raspados para reaproveitamento. Como a engenhosidade humana é muito vasta, quase tanto quanto seus interesses, os primeiros textos, raspados dos seus suportes, podiam ser total ou parcialmente substituídos, o que, no caso, produzia falsificações. Os homens que se deixam raspar, seja por temor, por mesquinho interesse ou por pura violência, exibem sempre outras letras e opiniões, outras palavras ou cores: refletem apenas aquilo que os tornou palimpsestos. São como coisa morta, reciclada, que depois de certo número de reaproveitamentos serão descartáveis, pois já terão perdido qualquer vestígio do que terão sido ontem.

A alfa, Aleph ­ Iluminando o ocidente de uma pérola, o mistério do Aleph descortinava um inútil universo: é que já estava perdida a palavra que o definia, bem como a sublime imagem, única e verdadeiramente simples, que estava esquecida ou incompreendida por falta do entendimento que os homens, mudos, inventam. Daí o sábio intuiu que o universo é uma palavra humana ­ e o seu amigo, desconhecido, contém a verdade do Aleph, o começo de todos os tempos, assim como contém o homem que a contempla e perquire. E o Aleph, guardado na mão de Deus, é um signo indecifrável e indecifrado.


Teatro, música e cinema
no aniversário da Capital

Programação inicia hoje com concerto, mostra fotográfica e exibição de filmes

Ana Cláudia Menezes

Florianópolis ­ A comemoração pelo aniversário da Capital, que completa 274 anos no próximo dia 23, começa a ser celebrado hoje com o início do Circuito Cultural Banco do Brasil. O evento se estende até o próximo domingo e abrangerá cinema, teatro, música, fotografia e artes plásticas.
O ponto alto da programação inclui a Mostra Nacional do Cinema, com sete dos oito filmes dirigidos por mulheres cineastas, e os shows de Elba Ramalho, no dia 17, e de Chico César e Zeca Baleiro, no dia 18, sempre no Teatro Ademir Rosa, no Centro Integrado de Cultura (CIC). Mas há espaço também para artistas menos conhecidos do público, como Diamandu e o acordeonista Toninho Ferragutti, que dividirão a mesma noite com a cantora paraibana, que completou 20 anos de carreira no ano passado.
A programação do Circuito Cultural Banco do Brasil terá um enfoque voltado às comunidades carentes. O ingresso para a maioria dos eventos serão livros infantis ou um quilo de alimento não-perecível, a ser doado a entidades filantrópicas da Capital. Para os espetáculos infantis, a entrada é gratuita.
Os eventos destinados às crianças iniciam na quinta-feira, com um show dos Irmãos Brothers e Cia. de Encenações Musicais, no ginásio do Sesc, na Prainha. A mesma programação infantil será repetida na sexta-feira e sábado, também no Sesc. No domingo pela manhã, os internos e pacientes do Hospital Infantil Joana de Gusmão, no bairro Agronômica, ganharão um show dos Irmãos Brothers.
O Circuito Banco do Brasil traz de volta a Florianópolis duas revelações dos anos 90: o paraibano Chico César e o maranhense Zeca Baleiro, desta vez num mesmo show. Nascido em Catolé do Rocha, Chico César prepara o lançamento do CD "Mama Mundi", o quarto de uma carreira que lhe deu o Prêmio Sharp 1995 de artista-revelação. O álbum terá a participação de percusionistas como Marcos Suzano e Naná Vasconcelos, o guitarrista e violonista Mário Manga, do Premeditando o Breque, e o acordeonista Toninho Ferragutti, que se apresentará no CIC no dia 17.
Zeca Baleiro tem 14 anos de estrada, mas foi com o CD "Por Onde Estará Stephen Fry?", lançado em 1997, que o maranhense chegou ao estrelato, com 90 mil cópias vendidas. O compositor escapou da "síndrome do segundo disco" ao colocar no mercado "Vô Imbolá", alcançando tanto sucesso quanto o primeiro álbum e chegando a 72 mil cópias até o final do ano passado. Também no ano passado foi a vez de conquistar o mundo: apresentou-se em Cannes, teve o primeiro disco lançado pela gravadora Totem, de Paris, e conquistou portugueses e franceses nos festivas de Famalicão e Montreux. Para este ano, a idéia é musicar os poemas da escritora Hilda Hilst no próximo CD e voltar à Europa.
Vinte e dois anos depois de ter se apresentado na peça "A Ópera do Malandro", de Chico Buarque, Elba Ramalho prepara o lançamento de mais um álbum, desta vez duplo ­ parte dele, ao vivo, foi gravado durante a festa junina do Teatro Castro Alves, em Salvador (BA). Algumas das novas canções podem ser ouvidas no show da próxima sexta-feira no CIC. Elba contará em seu novo CD com a participação de Chico Buarque, Zé Ramalho, Lenine, Nana Caymmi, Geraldo Azevedo, Margareth Menezes, Dominguinhos e Alceu Valença.


Programação

Mostra Nacional do Cinema
Local: Cinema do CIC
Horário: 19 horas
Ingresso: arrecadação de livros de literatura infantil (novo ou usado) ou 1 quilo de alimento não-perecível

Hoje - "Kenoma", de Eliane Café
Amanhã - "Crede-mi", de Bia Lessa
Dia 14 - "Guarani", de Norma Benguel
Dia 15 - "Como Ser Solteiro", de Rosane Swartmann
Dia 16 - "Fica Comigo", de Tisuka Yamasaki
Dia 17 - "Doces Poderes", de Lúcia Murati
Dia 18 - "Um Céu de Estrelas", de Tatá Amaral
Dia 19 - "Coração dos Deuses", de Geraldo Morais

Lançamento do Circuito Cultural BB
Local: Cinema do CIC
Quando: hoje, às 21 horas
Ingresso: para convidados

Coquetel com apresentação do pianista Marcelo Bratke e músicos
Locais: Camerata Florianópolis, Alberto Andrés Heller, Vitelli e Grupo Nosso Choro

Shows musicais
Local: Teatro Ademir Rosa, no CIC
Horário: 21 horas

Dia 17 - Elba Ramalho e Banda/Diamandu e Toninho Ferragutti
Dia 18 - Chico César e Zeca Baleiro
Ingresso: R$ 15,00 e R$ 7,50 (estudantes), mais 1 quilo de alimento não-perecível

Espetáculos infantis

Dia 16 e 18 (10h) e dia 17 (16h) - Irmãos Brothers e Cia. de Encenações Musicais
Local: Ginásio de Esportes do SESC
Entrada franca

Dia 19 - "Coração dos Deuses" (teatro), de Geraldo Morais
Local: Teatro Ademir Rosa, no CIC
Horários: 10 e 16 horas
Entrada franca

Mostra de artes
Mostra oceanofotográfica do CCBB-Rio e das artistas plásticas Vera Sabino e Maria Celeste Neves
Quando
: de 12 a 21 de março, das 13 às 21 horas
Local: Espaço Lindolf Bell, no CIC
Ingresso: arrecadação de livros de literatura infantil (novo ou usado) ou 1 quilo de alimento não-perecível

Teatro
Dia 18
- "Eu sou mais 500", com Tadeu Aguiar e Eduardo Bakr
Local: Teatro Ademir Rosa, no CIC
Horário: 11 horas
Entrada: 1 quilo de alimento não-perecível

Endereços:
Centro Integrado de Cultura (CIC)
: Avenida Irineu Bornhausen, 5600, telefone (48) 333-2166
Ginásio de Esportes do Sesc: Travessa Syriaco Atherino, 100, bairro Prainha, telefone (48) 222-4034


 
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