Joinville         -          Segunda-feira, 13 de Março de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  

















Otimismo
Barreto afirma que o cinema brasileiro tem plenas condições de tornar-se uma indústria competitiva. "Ele poderia ser uma poderosa arma da nossa cultura, um instrumento da cidadania"

Confiança no
produto nacional

O diretor Fábio Barreto reafirma sua fé no cinema brasileiro em evento na Capital

Ana Cláudia Menezes

"Vale a pena acreditar no cinema brasileiro". A afirmação do cineasta Fábio Barreto deixou uma sensação de esperança e conforto aos mais de cem estudantes, produtores e atores que lotaram a sala de multimídia do Museu de Imagem e do Som (MIS), em Florianópolis, na noite de sexta-feira, para ouvir do diretor de "O Quatrilho" um diagnóstico sobre a produção cinematográfica que vem sendo feita no Brasil. O debate intitulado "Deus e o Diabo na Terra do Cinema Brasileiro" foi o primeiro contato do diretor carioca com o público catarinense antes do curso de interpretação de atores que ele ministra a partir do próximo final de semana.
Otimista, Barreto garantiu que o cinema brasileiro só tem um único destino depois de sucessivas fases de altos e baixos. "Existe um mercado gigantesco e que não tem mais volta, apesar da campanha de oposição", disse, referindo-se a artigos publicados na revista "Veja" e no jornal "Folha de S. Paulo", desqualificando profissionais. "Vale a pena acreditar", repetiu. A afirmação arrancou aplausos do público.
Supervisor do núcleo de cinema da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, Fábio Barreto disse que a produção cinematográfica brasileira conta com um elemento que há décadas diferencia o que é feito aqui e em outros países, principalmente nos Estados Unidos, que produzem anualmente uma "enxurrada de filmes descartáveis". Para ele, o cinema de conteúdo, com preocupações humanísticas e sociais, acompanha o Brasil desde a sua fase áurea, com os estúdios da Atlântida e Vera Cruz parodiando Hollywood.
Depois veio o período do Cinema Novo, com Nélson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Luiz Carlos Barreto (pai dos irmãos Bruno e Fábio Barreto), Cacá Diegues, Arnaldo Jabor e Leon Hirzmann. Nos anos mais difíceis da ditadura militar, explicou Fábio Barreto, os cineastas utilizaram o cinema como "arma de conscientização", influenciado pelo neorrealismo italiano de Roberto Rossellini e aplaudido de pé nos festivais internacionais de Berlim, Veneza e Cannes. "Este cinema não interessava (à ditadura) por causa de sua linguagem hermética e crítica", analisou.
Com a criação da Embrafilme no final dos anos 60 e o sucesso da pornonanchada, a década de 70 testemunhou o auge do cinema brasileiro. Segundo dados apresentados por Barreto, uma fatia de 35% a 40% do mercado havia sido conquistada pelos filmes brasileiros, exibidos em 3.500 cinemas espalhados nas capitais e no interior. É desta época sucessos como "Pixote", "Xica da Silva", "A Dama do Lotação" e "Dona Flor e seus Dois Maridos", entre outros. "Aquela década foi a prova de que o brasileiro gosta do cinema brasileiro", constata.
Na década seguinte, com a crise do petróleo, o governo Figueiredo e a inflação, muitas distribuidoras estrangeiras pararam de mandar filmes para salas de cinema do interior que, por causa disso, tiveram que ser fechadas, encolhendo o número para 1.200. "Acabaram virando supermercados, bancos e igrejas evangélicas", explicou Barreto. O ano de 1986 foi o último em que o Brasil ainda teve uma produção de boa qualidade, com "Eu Sei Que Vou te Amar", "Com Licença Eu Vou à Luta" e "O Homem da Capa Preta".

Renascimento

O cinema brasileiro deu a volta por cima, no entanto. Depois da criação da Lei do Audiovisual, há cinco anos, a produção nacional já toma conta de 10% do mercado. "Imagina, são só cinco anos e o Brasil já está disputando Oscars (1996, 1997 e 1999) e outros festivais importantes", anima-se Barreto, que dirigiu também "Índia" (82), "O Rei do Rio" (85), "Luzia Homem (87)" e "Bella Donna" (98), e produziu "Garota Dourada", de Antônio Calmon, rodado em Garopaba em 1982.
Segundo Barreto, o cinema no Brasil tem plenas condições de tornar-se uma indústria competitiva, com geração de empregos. "O cinema brasileiro poderia ser mais forte do que é, como uma poderosa arma da nossa cultura, um instrumento da cidadania", disse. Ele defende que a atividade cinematográfica seja desvinculada do Ministério da Cultura e passe a ser administrada por uma agência, como a Agência Nacional do Petróleo, ligada diretamente ao gabinete da presidência da República. "Hoje o Ministério da Cultura cuida de tudo, de banda de música, de cinema, de banda de pífanos, de orquestra. Tudo ao mesmo tempo não dá certo", criticou.
Defensor do telefilme e da tese de que a televisão deve apoiar o cinema brasileiro, Barreto afirmou também que a Lei Rouanet está passando por um balanço, depois de ter sofrido uma espécie de "canabalização", com a distribuição de verba a pessoas que não possuíam experiência prévia em produção. Entre os casos mais conhecidos está o do ator Guilherme Fontes, que buscou recursos junto ao Ministério para filmar "Chatô", baseado no romance biográfico escrito por Fernando Morais sobre a vida do magnata das comunicações Assis Chateaubriand. O filme, com orçamento total de R$ 12 milhões, já consumiu R$ 8 milhões em dinheiro público mas sua produção está suspensa desde maio do ano passado. Outro exemplo foi o da atriz Norma Bengell. Na prestação de contas do filme "O Guarani", baseado no romance de José de Alencar e que o CIC apresenta amanhã, às 19 horas, a diretora apresentou notas frias no valor de R$ 1,35 milhão.


Curso selecionará atores para filme

O curso de interpretação para cinema e TV inicia no próximo sábado, dia 18, na sala de multimídia do Museu da Imagem e do Som (MIS), no Centro Integrado de Cultura (CIC), em Florianópolis, e terá a presença do cineasta carioca Fábio Barreto durante quatro finais de semana. Organizadas pelo Estúdio de Atores, as aulas serão divididas em três turmas, aos sábados, das 17 às 21 horas, e aos domingos, das 10 às 14 horas e das 15 às 19 horas.
A divisão dos grupos será feita de acordo com a faixa etária e o nível profissional dos participantes, ou seja, se o aluno ou aluna tem experiência anterior em algum trabalho de interpretação. Para o diretor Fábio Barreto, esta será a oportunidade de selecionar atores e atrizes para preencher as vagas de 45 personagens do filme "Jacobina", baseado no livro "Videiras de Cristal", do escritor gaúcho Luiz Antônio Assis Brasil. "Vou analisar o trabalho individual de cada pessoa e identificar o potencial intuitivo do ator, sem me preocupar tanto com a performance e o texto", explicou Barreto. Maiores informações podem ser obtidas pelo telefone (0xx48) 222-2010.
Anos dourados
A vaidade ajudou Taís Fersoza a absorver o universo de 1958, época em que se passa a novela "Esplendor".  AN_Tevê 
Outro assunto que deverá mobilizar a comunidade cinematográfica da Capital nesta semana é a chegada de uma comitiva da cidade francesa de La Rochelle. Entre os objetivos de uma série de reuniões que acontecem a partir de hoje estão a assinatura de convênios nas áreas econômica, científica, tecnológica e cultural. Na quinta-feira, às 16 horas, os franceses serão recebidos na sala de multimídia do MIS pelo diretor do Museu, Eduardo Paredes, além de cineastas e atores locais. Eles apresentarão propostas de intercâmbio entre Florianópolis e La Rochelle aos interessados que quiserem estudar cinema, design e história em quadrinhos na França, inclusive com bolsa de estudos. Em Florianópolis, o encontro está sendo articulado pelo Parque da Francofonia, cuja sede no Brasil está na Capital. (ACM)

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Luiz Carlos Merten
Agência Estado

Em cartaz desde a semana passada, "Regras da Vida" tem feito chorar legiões de espectadores. Aliás, nunca tantos filmes indicados para o Oscar investiram tanto na emoção pelo drama humano. é possível chorar também em "à Espera de um Milagre", de Frank Darabont, e no admirável "O Informante", de Michael Mann, com a comovente implosão do personagem de Russell Crowe. "Regras da Vida" é um filme do sueco Lasse Hallstrom, que já ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro com "Minha Vida de Cachorro". Concorre a sete estatuetas: melhor filme, direção, roteiro adaptado, ator coadjuvante (Michael Caine), trilha sonora, montagem e direção de arte. Desde que foi cooptado pelo cinema americano, Hallstrom só fez um bom filme. Talvez nem fosse tão bom, mas era emotivo sem pieguice e ainda foi um dos primeiros filmes a chamar a atenção para Leonardo DiCaprio, "Gilbert Grape - Aprendiz de Sonhador".
Nos seus melhores momentos, Hallstrom é um diretor que se sente à vontade relatando histórias de pequenas vidas, de gente como a gente. Histórias cheias de pequenos detalhes. A de "Regras da Vida" mostra o veterano Caine, que pode ganhar seu segundo Oscar de coadjuvante (já recebeu um por "Hannah e Suas Irmãs") como o médico que dirige um orfanato. Ele tem um aprendiz
interpretado por Tobey Maguire. O rapaz é médico sem diploma, um prático.
O filme começa mostrando a vida no orfanato. Maguire resolve trilhar caminho próprio. Cai no mundo. Vai parar numa fazenda no interior, como trabalhador rural. Envolve-se num caso de estupro entre pai e filha. É chamado a substituir Caine, com direito a diploma falso e tudo. Ele retoma o caminho de volta ou segue em frente? É o dilema moral que encaminha o filme para o desfecho.
Hallstrom poderia ter feito um belíssimo filme, pois o roteiro de John Irving, adaptado de seu romance, está longe de ser desinteressante. Mistura grandes e pequenos temas - o drama da orfandade, as dificuldades do rito de passagem, o mecanismo do desejo e também o aborto e as drogas (o médico é viciado). O personagem de Maguire, Wells, vive o despertar do sexo com a namorada do rapaz que o acolheu em sua fazenda. Um pai deseja a própria filha. São temas fortes que o filme termina diluindo na pasteurização da mise-en-scne.
Não é ruim assistir a "Regras da Vida" e os mais emotivos vão chorar de verdade, pois Hallstrom tem um talento todo especial para dirigir crianças. Muitas cenas no orfanato, a ansiedade das crianças quando vêem chegar alguém interessado numa adoção, são verdadeiramente sinceras e passam uma emoção genuína. São os melhores momentos do filme. O cumprimento de Caine ("Boa-noite príncipes do Maine") pode até entrar para a relação das réplicas famosas do cinema. Mas os excessos sentimentais da história cobram seu preço.
Talvez não seja o sentimentalismo da história. Uma história pode ser sentimental, mas não precisa ser narrada com pieguice. É o que Hallstrom faz. É um diretor que se perdeu em Hollywood. O artista sensível e inspirado de "Minha Vida de Cachorro" está fazendo filmes cada vez mais pastosos. O fato de estar na corrida do Oscar com "Regras da Vida" levanta dúvidas quanto ao futuro de sua carreira. Hallstrom, referendado pela Academia de Hollywood, pode acabar convencido de que está fazendo a coisa certa.


 
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