Joinville         -          Quarta-feira, 15 de Março de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  

















Rigor russo

Uma das salas especiais da escola e bailarinas do Bolshoi ensaiando para a apresentação de sexta: (Abaixo) aparato estrutural melhor do que muitas escolas de Primeiro Mundo, segundo os próprios russos

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Aberta a Escola
Boshoi do Brasil

A maior companhia de dança do mundo inaugura hoje a primeira filial em 224 anos de história

Foram meses de preparação envolvendo atividade física, burocrática e financeira, obras e análises curriculares, testes, audições e estudos para que Joinville pudesse se adaptar às necessidades de uma instituição secular que, a partir de hoje, tem a responsabilidade de abrigar. Fundado em março de 1776, em Moscou, o Teatro Bolshoi inaugura às 19 horas, no Centreventos Cau Hansen, a sua primeira filial fora da Rússia, elegendo a cidade sede de um dos quatro maiores festivais de dança do mundo para construir sua escola e difundir deste lado do oceano os padrões de ensino e postura artística que o tornam a mais respeitada companhia de dança de todo o planeta. "O mais importante para mim é este evento, que assegura seu lugar de honra na história da Escola do Bolshoi", revela o diretor geral e artístico da companhia, o bailarino Vladimir Vasiliev.
Em Joinville, a Escola do Teatro Bolshoi abre as portas oferecendo duas linhas de estudo: a primeira, o curso de formação profissional, tem oito anos de duração e recebe, na sua turma inaugural, 149 alunos. Suas aulas iniciam no dia 20 de março. A segunda linha, o curso de desenvolvimento e aperfeiçoamento (com dois anos por categoria: mirim, júnior, sênior e profissional), recebe 46 bailarinos de vários Estados do Brasil e mesmo uma aluna da Inglaterra para aulas que iniciam no dia 27 de março. "Esta escola vai constituir, além de grandes artistas, cidadãos preparados para o mundo", diz o prefeito Luiz Henrique da Silveira. Cada um dos bailarinos inscritos na escola deve pagar, em média, R$ 300,00 como mensalidade, mas 100 alunos carentes do curso de formação profissional, escolhidos entre estudantes da rede municipal de ensino, têm bolsa de estudo garantida. Os 195 alunos que compõem as turmas inaugurais do Bolshoi no Brasil foram rigorosamente selecionados em audições que aconteceram em novembro do ano passado e fevereiro deste ano. A coordenação do projeto de implantação da escola é da russa Alla Mickalchenko e a supervisão geral é da brasileira Jô Braska Negrão.
As obras de construção da escola levaram 57 dias e tiveram o apoio financeiro da Caixa Econômica Federal (R$ 300 mil) e do grupo português Sonae (R$ 150 mil), através da Lei do Mecenato. A prefeitura de Joinville busca, agora, captar R$ 1 milhão para o projeto que, além de suprir a escola com 10 pianos e móveis para uso dos estudantes, também prevê a construção de um teatro de 500 lugares sob o palco principal do Centreventos. O auditório - já batizado com o nome do artista plástico Juarez Machado - faz parte do complexo de salas da Escola do Bolshoi, mas tem a garantia do prefeito Luiz Henrique de que abrirá as portas para a comunidade para espetáculos mais intimistas e apresentações de artistas locais, servindo também como sede para o cineclube de Joinville.
O Ballet Bolshoi tem suas origens em 1773, com a criação da Escola Coreográfica de Moscou. De lá para cá, a instituição tem formado estrelas internacionais da dança como Maya Plissetskaia, Vladimir Vasiliev, Ekaterina Maximova e Yuri Grigorovich, revelados ao mundo através de espetáculos como "Romeu e Julieta", "Giselle", "O Lago dos Cisnes" e "Dom Quixote", entre outros. Hoje, em toda a estrutura do Teatro Bolshoi, trabalham 2,5 mil funcionários - destes, 1.250 artistas divididos em atividades como a ópera, a mímica, o coral e a orquestra, além do balé.
A escola de balé russa, mais do que formar bailarinos, procura dar aos seus alunos uma formação cultural e artística abrangente, motivo pelo qual mantém uma linha de estudos que vai do científico regular às aulas de dança (clássica, dueto, popular, folclórica e moderna), passando por aulas de teatro, arte, estética, educação musical e piano (em que o pianista é tão importante quanto o professor de dança). Os cerca de 600 alunos da Escola Coreográfica de Moscou aprendem música, história da arte e fundamentos coreográficos com a mesma aplicação com que se dedicam à prática do balé. Conhecida mundialmente por suas performances na dança clássica, a companhia russa busca, simultaneamente, aperfeiçoar também seu repertório contemporâneo.
Scooters
A possibilidade de liberação dos ciclomotores ou scooters para menores de 18 anos no Brasil ainda rende polêmica.  AN_Veículos 
A Escola do Teatro Bolshoi no Brasil segue a mesma metodologia ditada pela escola de Moscou, mas adapta no programa dos cursos as cadeiras de dança popular, onde os estudantes tomarão contato com as vertentes e expressões brasileiras da dança. Em Joinville, a instituição conta com seis professores brasileiros (Carlos Cavalcante, Denys Nevidomyy, Elisiane Wiggers, Larissa de Araújo, Maria Antonieta Spadari e Maristela Mara Teixeira) e dois russos (Galina Bocatyriova e Andrei Smirnov, ambos formados no curso superior do Instituto de Artes Cênicas de Moscou). O complexo escolar instalado no Centreventos Cau Hansen é composto por salas de aula com piso e tratamento acústico especial, laboratório cênico multimeio (com vídeo, material de camarim, maquiagem, iluminação e outros elementos), recepção, biblioteca, estúdio de piano, sala de preparação de figurinos, adereços e cenários, sala de ginástica, vestiários, cantina e refeitório, sala de estar e um jardim interno para recreio. As aulas acontecem em três períodos: das 8 às 11 horas, das 14 às 17 horas e das 17 às 20 horas.


Há cem anos nascia
um brasileiro polêmico

Controvertido e ambíguo, Gilberto Freire deixou publicadas mais de 120 obras no País e exterior

Liliam Rana
Agência estado

"Conservador revolucionário" ou "anarquista construtivo"? Tanto faz, e se a definição for construída de paradoxos, então estamos falando mesmo sobre Gilberto Freire. Ele nasceu em Recife, no dia 15 de março de 1900, e sua carreira foi composta por mais de 120 obras publicadas, no Brasil e exterior. Durante muito tempo, revelou-se com assuntos controvertidos, sempre preocupado em dizer quem somos, quais são nossas raízes e a nossa verdadeira história. O objetivo era a interpretação da sociedade brasileira. Recebeu tanto críticas quanto elogios, mas o fato de ser uma pessoa polêmica lhe agradava muito.
Alfabetizado em inglês no início do século, estudou ciências políticas e sociais na Universidade de Baylor, no Texas. Mais tarde, completou seu mestrado em sociologia e doutorado em antropologia na Universidade de Columbia, em Nova York. Quando retornou ao Brasil, em 1923, escreveu para os jornais "Diário de Pernambuco" e "A Província". Ao publicar "Casa Grande & Senzala", consagrou-se mundialmente. O prefácio de "Casa Grande & Senzala" mostra uma de suas influências, Franz Boas, antropólogo americano, que o ajudou a desenvolver a teoria sobre a miscigenação das raças. O livro causou grande impacto na sociedade, analisando o povo brasileiro no período colonial.
Em 1936, lança o segundo volume da série, "Sobrados & Mucambos", que aborda a decadência do "patriarcado" rural e o desenvolvimento urbano. Trata-se do período de transição ocorrido por influência da vinda da corte portuguesa até o 2º Império. Quando publicou o que seria o último volume da trilogia, em 1959, "Ordem e Progresso", o trabalho de Freire apresentou-se mais maduro, segundo seus colegas. Nesse período, seus discursos eram mais políticos, pois em 1946 participou da Assembléia Constituinte como deputado federal. Apoiou o golpe de 64 e o regime militar, conquistando a antipatia do meio acadêmico.

ÚLTIMA OBRA

Antes de falecer, em 1987, por infecção respiratória e insuficiência renal aguda, Freire lançou "Modos de Homem & Modas de Mulher". Nessa obra, ele sugere aos estilistas da época que criem formas mais exuberantes, de acordo com a mulher dos trópicos. Indicava tecidos mais leves e a utilização de acessórios mais característicos da nossa cultura, como sandálias ou tamancos. Era o contraponto da moda importada da Europa. Entretanto, o livro torna-se mais um louvor sobre as formas da mulher morena e um discurso em defesa de sua silhueta mais arredondada. A sugestão da moda feminina indica uma capacidade criativa da mulher de se enfeitar, dentro das tradições populares, enquanto "modos" do homem passam a valer pelas maneiras próprias do sexo masculino.
Uma indicação do que seria realmente o último volume da série "Casa Grande & Senzala" foi encontrada por pesquisadores uruguaios, na própria casa de Freire. Em 1997, surgiu o prefácio de "Jazigos e Covas Rasas", e acredita-se que seria abordada a cultura brasileira com relação à morte. O autor pretendia fechar a análise do declínio da sociedade patriarcal no País.
Controvertido e ambíguo, Gilberto Freire era ora amado, ora odiado. Mesmo depois de ser renegado durante o regime militar, em 1984 apóia o movimento pelas diretas e a candidatura de Tancredo Neves, reconquistando os intelectuais. Mas sua ambivalência procurava provocar a aceitação igual das diversidades da nossa cultura. O presente desse sociólogo brasileiro à sociedade vem em forma de conciliação do passado e presente, superando-se conflitos. Teses, no mínimo polêmicas, mas que não se limitaram no pensamento do autor e, às vezes, foram utilizadas com vocabulário agressivo. Na verdade, Gilberto Freire queria construir uma "intelectualidade" unicamente identificada com a nacionalidade brasileira.
Apesar de o acusarem de não fazer ciência, mas literatura, ele tinha consciência da mistura das raças e, com isso, a formação da sociedade brasileira. Sendo exagerado, ou não, ele abriu espaço para interpretarem novamente o País.


Argentina traz curso
de dança a Joinville

Joinville - O Sesc de Joinville promove, nos próximos dez dias, um curso de tango, salsa e merengue ministrado pela professora argentina Marilú Fischer. A primeira aula do intensivo acontece hoje e é gratuita. O curso é dividido em turmas adultas e infantis e encerra com um espetáculo no dia 25 de março, com entrega de certificados. "O encerramento é chamado de 'Bailes do Século', onde os alunos se apresentam e mostram o que aprenderam nas duas semanas de aulas", explica a bailarina, que abandonou uma carreira de instrumentadora médica e fonoaudióloga para se dedicar exclusivamente ao ensino da dança.
Marilú nasceu em Mar del Plata e desde criança tem feito da dança a sua atividade mais prazerosa. Estudou o sapateado americano com o mestre Liber Seall, inaugurando em 1987, na sua cidade natal, uma escola voltada para este estilo. Entre 1988 e 1989, dirigiu as comédias musicais "Sucedió una vez" e "Entre el Amor y la Guerra" e, um ano depois, abriu no Parque Hotel de Montevidéu uma filial uruguaia de sua escola de sapateado. Ainda em 1990, participou de programas de televisão em companhia do professor Nestor Soler. Depois de criar espetáculos apresentados em hotéis e escolas bilíngües na Argentina durante vários anos, passou a ministrar seus cursos também no Uruguai e no Brasil, passando por várias cidades do Rio Grande do Sul e chegando agora, depois de formar mais de 600 dançarinos, a Santa Catarina.
"O tango é uma dança mundial e a salsa e o merengue, por serem da América Central, também foram adotados na Argentina. Os três têm em comum essa sensualidade", resume a coreógrafa, explicando o motivo de ter escolhido esses estilos distintos como pilares do seu curso. Durante as aulas que tem dado no Brasil, Marilú pôde perceber que o tango tem grande chance de tornar-se uma dança popular, uma vez que os bailarinos brasileiros têm um dom que não pode ser ensinado: "O homem brasileiro tem uma sensualidade muito grande e, em duas semanas, está pronto como dançarino, aprende a conduzir pelas mãos. Todos os alunos, mesmo aqueles que nunca dançaram, são especiais", revela.
O curso de tango, salsa e merengue é dividido em quatro turmas: infantil (das 16 às 17 horas), terceira idade (das 17h30 às 18h30) e adulto (das 19 às 20h30 e das 21 às 22h30), com aulas que vão de segunda-feira a sábado. Para as duas turmas de adultos, o curso custa R$ 30,00. Crianças e idosos pagam R$ 25,00 pelas aulas. Mais informações podem ser obtidas no Sesc de Joinville (rua Itaiópolis, 470, América - mesmo local das aulas) ou pelo telefone (0xx47) 433-3100.


Indaial comemora 66 anos
com noite multicultural

Indaial - Artistas de todas as correntes e estilos se unem em Indaial para comemorar de forma eclética e bem humorada o ano 2000 no Brasil tropical. Artes plásticas, poesia, música e literatura são os ingredientes de uma festa promovida pela Fundação Indaialense de Cultura para celebrar o 66º aniversário da cidade e também os 500 anos do Brasil. "Sarau Brasileiro em Noite Tropical" é o nome do evento programado para as 20 horas de hoje, no Salão de Exposições da FIC. Os convidados devem trajar roupas tropicais.
A exposição coletiva de arte indaialense já é uma tradição no aniversário da cidade. No mês de março, uma grande mostra congrega artistas nascidos ou adotados por Indaial. Este ano, 21 artistas participam da coletiva, apresentando 40 obras de todos os estilos, linguagens, técnicas e temáticas. Uma outra exposição vai reunir 25 artistas de Ascurra, Blumenau, Florianópolis, Indaial, Rio do Sul e Timbó, que trabalham arte decorativa (porcelana e faiança). As duas exposições permanecem abertas à visitação até 9 de abril, das 8 às 12 horas e das 13h30 às 17h30, inclusive nos finais de semana.
A novidade das comemorações culturais pelo aniversário de Indaial está na abertura das exposições. Para celebrar o município e todas as formas de arte nele cultivadas, o "Sarau Brasileiro em Noite Tropical" contará com performances musicais, poéticas e literárias. Os poetas convidados a declamar Indaial em versos são Dennis Radünz, Marcelo Steil, Marco Struve, Rosa Hernandes (Paloma), Tânia Rodrigues, Adair Aguiar e Wilmar Harbs. A exibição musical dos ex-integrantes da Banda Açus (Ademir Neves, Décio Saut, Hamilton Evaristo, Odair Frainer e Sérgio França) será uma homenagem ao poeta Lindolf Bell. Os músicos Décio Saut, Denise Patrício, Josileide Gaio e a Banda Municipal Werner Pabst também fazem apresentações de MPB.
Dois lançamentos marcam a noite indaialense. A escritora Edltraud Zimmermann Fonseca apresenta "Memórias de D. Edi", texto autobiográfico inspirado no velho diário da autora. As memórias integram o sexto livro de Edltraud, que participou de 15 antologias e tem projeto de editar em breve o terceiro título da trilogia biográfica contando sua experiência política e relatos de viagens.
O segundo lançamento da noite é "Lágrimas de Amor", obra poética de John Marcos Zechner. O livro tem como proposta mostrar o amor na forma pura, desnuda de cobranças entre os amores vividos, sonhados e desejados. John nasceu em Blumenau e mora em Indaial há 36 anos. O autor havia participado em 1999 da Antologia Poética Brasileira, com cinco poemas editados.


FCC paga vencedores do
6º Salão Vítor Meireles

Florianópolis - A Fundação Catarinense de Cultura (FCC) está pagando esta semana os seis artistas premiados no 6º Salão Nacional Vítor Meirelles, realizado em 1998. O prêmio total de R$ 50 mil será distribuído entre Paulo Whitaker (de São Paulo), o grande vencedor, que leva R$ 15 mil; Daniel Acosta (RS), cujo prêmio é de R$ 10 mil; Maria Clara Fernandes (SC), também com R$ 10 mil; Paulo Gaiad (SC), Gabriela Machado (RS) e Elias Murad (SP), esses com direito a um prêmio de R$ 5 mil. O atraso no pagamento se deu especialmente em função de dificuldades financeiras encontradas pela atual administração, segundo diz Iaponan Soares, diretor-geral da FCC.
Turismo
A queda acentuada do fluxo de visitantes em fevereiro não ofuscou os resultados obtidos em dezembro e janeiro.  AN_Economia 
O 6º Salão Vítor Meireles teve 907 artistas inscritos, representando 19 Estados brasileiros. Santa Catarina, com 195 inscritos, liderou o ranking do número de inscrições, seguido por São Paulo (164 artistas), Paraná (114), Minas Gerais (cem), Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro (ambos com 95 inscritos). Foi apresentado um total de 6.985 obras, em várias linguagens. A comissão julgadora, integrada pelos críticos de arte Tadeu Chiarelli e Agnaldo Farias, de São Paulo, e pelo artista plástico João Otávio Neves, de Santa Catarina, escolheu obras de 34 artistas para compor o salão, que foi realizado no Museu de Arte de Santa Catarina (Masc) entre os dias 3 e dezembro de 1998 e 1º de março de 1999.
O Salão Vítor Meireles foi criado em 1992, durante a passagem anterior de Iaponan pela fundação. Segundo ele, o salão será reeditado este ano mais amplo, com dimensão para se firmar como referência nas artes plásticas do Sul do Brasil. Atualmente, a administração da FCC está levantando valores para definir os custos da próxima edição, especialmente com relação ao prêmio, que deverá ter novo valor.


Rede Vida vai discutir a
qualidade da programação

"Viver Brasil" deve entrar no ar em abril e terá opinião do telespectador

Flávia Guerra
Agência Estado

O telespectador insatisfeito com a qualidade dos programas da televisão brasileira poderá reclamar na própria TV. O programa "Viver Brasil", que deve estrear em abril na Rede Vida, vai reunir especialistas para debater a programação da TV brasileira e, mais que isso, estender essa discussão aos telespectadores. Para o publicitário Wagner Bezerra, que criou o programa com Heloísa Dias, o momento é mais que oportuno.
"Em 50 anos de televisão, essa discussão nunca foi oficializada no Brasil", diz. "Está mais do que na hora de ser preparado um código de ética para controlar a programação", completa. Até agora um dos poucos meios oficiais de crítica e análise da programação tem sido a linha "Voz do Cidadão" (0800 612211), criada pela Subcomissão de Rádio e TV da Comissão de Educação do Congresso Nacional. Outro exemplo é "Guardando o Lixo na Sala?", da TV Comunitária de Brasília.
Bezerra também ressalta que, apesar de já haver vários grupos que discutem a qualidade e a ética dos programas, eles ainda estão pouco organizados e articulados. "Além disso, há pouco interesse no que a sociedade tem a dizer", ressalta. "Além de discutir, nosso principal objetivo é ouvir o público".
O publicitário, que também escreveu o livro "Manual do Telespectador Insatisfeito" (Summus Editorial, 130 págs., R$ 17,80), espera apenas ajuda financeira para pôr seu projeto no ar. "Já acertamos a transmissão pela Rede Vida e quem serão os convidados; só falta a parceria", afirma. Para ele, a razão para criar o programa foi a mesma que o levou a escrever o manual. "Vi meu filho imitando o strip-tease que viu em uma novela e percebi que o maior educador do País é a televisão".
Para que as novas gerações não sejam educadas por programas como os do Ratinho, Xuxa e filmes de violência, Bezerra resolveu fazer o que muitos brasileiros já fazem: acompanhar e reivindicar o direito de opinar sobre a programação televisiva do País. Para o publicitário, é importante deixar claro que não se trata de censura, mas de controle e diálogo. "A censura existe em uma ditadura e esse caso é o oposto; queremos abrir a discussão a todos, até mesmo a quem faz a TV no Brasil", conta. "É muito difícil definir o que é bom senso e é por isso que é tão importante discutir antes de tomar qualquer decisão". Essa discussão deve partir da sociedade.
"Afinal, ninguém é dono de TV no Brasil, mas possuidor do direito de transmissão; esse direito pertence a nós". E cita casos de sucesso de controle da programação: "Na França, se a emissora desrespeita esse código de ética, além de pagar multas, pode até perder esse direito e, nos Estados Unidos, há comissões que fiscalizam as concessões públicas".
A idéia de Wagner Bezerra é estender a discussão feita por grupos de especialistas, como Marta Suplicy e Lalo Leal Filho, e educadores, para a população. "Seremos o primeiro programa a dar voz à sociedade", garante. O formato já está definido. "Será um programa de auditório, com cerca de 60 pessoas e haverá dois debatedores e um mediador", adianta.
Os temas serão debatidos e escolhidos por uma comissão, de acordo com os fatos da semana. A cada programa, a reportagem vai entrevistar a população de uma cidade diferente. "Haverá também dois debatedores e um mediador; durante o programa, o público do auditório também vai poder dar sua opinião".
Além de discutir o conteúdo da programação, "Viver Brasil" deve abordar temas relacionados à Lei de Comunicação Eletrônica de Massa e o "Manual de Controle e Qualidade da Programação", cuja criação foi proposta às emissoras brasileiras pelo secretário nacional dos Direitos Humanos, José Gregori. "O Manual", que trata dessas e de outras questões sobre a regulamentação da TV brasileira, servirá de referência às discussões.


Crônia

Novos Koans

WILSON BUENO

Koans, digo de novo, são microestórias, miniparábolas, com que uma das mais luminosas vertentes búdicas, o zen-budismo, funda os seus "preceitos", sendas que podem arrancar um discípulo atento do sono para a vigília, do sonho para o despertar, conduzindo-o ao "céu daqui", ao céu deste lugar, pois para o budismo só nossa passagem cá por este vale de lágrimas é o que conta, exalta e consola.
Fazer da vida, da breve vida humana, sempre reiniciada em sucessivas "reencarnações", brusca flor da eternidade, é o que querem estas estórias imantadas da humaníssima busca de um deus que dance e celebre em vosso coração a dança alegre de existir. Por uma única e estreita (estreita?) passagem - a da poesia como ofício de viver.
Quem se habilita?

ARMADILHAS DA PAIXÃO

Depois de cinco dias de severo jejum, o jovem discípulo entra, sorrateiro, na cozinha do mosteiro, com o claro propósito de enganar a fome cruciante com ao menos uma maçã. Sem que isto signifique, de modo algum, a intenção de desistir do seu determinado projeto, mas apenas o desejo de torná-lo suportável e assim, inclusive, alcançar concluir, com êxito, a "tarefa" a que se impusera.
Precárias são as pulsões humanas. E quase sempre enganosas...
Topando na cozinha com o mestre-cozinheiro, gordo e de luzidia calva, o jovem discípulo, enfraquecido pelo jejum, vê nele o Buda e curva-se diante do deus como quem acabou de entrar num céu cristão. O mestre-cozinheiro, que além de gordo e de luzidia calva, é um acabado sábio, não hesita:
- Não é assim que se encontra o Buda, meu jovem...
- Cinco dias de jejum, esta súbita iluminação e ainda me dizes que não é assim que se encontra o Buda? É bem como nos koans antigos: depois de muitas privações, venho aqui atrás de uma maçã, apenas uma maçã, para poder prosseguir o jejum e me vejo, através de ti, frente a frente com o Buda. É a supresa, o satori, a iluminação!
- Não, tudo o que a tua fraca carne vê nesse momento é uma suculenta maçã e um gordo cozinheiro.
- E o Buda que és, não vejo?
- Não. Só poderás enxergar o teu próprio Buda, dentro de teu coração, quando não existirem mais maçãs e nem gordos cozinheiros. E, gentil, levanta o pano que cobria uma tigela e dali retira e estende ao discípulo faminto, robusta coxa de pato - sangrenta e crua.

JARDINS PEREGRINOS

O discípulo se propõe aprender a cuidar das flores do mosteiro com o mais célebre de todos os célebres mestres-jardineiros que jamais existiu em todo o Tibet.
Para tanto, viaja três anos seguidos, sem nunca deixar de semear jardins por onde passe, em busca de Tai Pu. Por esses imprevistos da sorte, a cada vez que está próximo de alcançar a cidade do mestre-jardineiro, este se muda para outra distante e desconhecida aldeia, chamado que é, com freqüência, sobretudo para conhecer novos jardins e novos jardineiros.
Ao chegar em Ti Chiang, depois de muitos jardins precariamente semeados pelo caminho, exausto e já decidido a abandonar a empreitada, o jovem monge é informado que o mestre-jardineiro não foi muito longe, tendo saído há poucas horas com destino a uma aldeia bem próxima dali. O discípulo sente revigoradas todas as forças - nunca estivera tão perto de encontrar Tai Pu.
Sem mais delongas, na estrada já, atrás do mestre, longe vê dele o vulto magro na distância. Cada vez mais rápido, embora ultrapassados todos os limites da exaustão, começa a acenar e a gritar por Tai Pu. E quando este percebe, velhíssimo embora, retorna do caminho, quase correndo, também no limite do que parecia um enorme cansaço, vindo em direção do jovem monge.
Anos dourados
A vaidade ajudou Taís Fersoza a absorver o universo de 1958, época em que se passa a novela "Esplendor".  AN_Tevê 
Ao se encontrarem, no meio da estrada, o discípulo, antes de desmaiar, ainda consegue ouvir nitidamente de Tai Pu:
- Mestre-jardineiro! Mestre-jardineiro! Por que foges de mim? Há três anos eu vos procuro para aprender convosco a arte de cultivar jardins, do modo como fazes, sem deixar de ser, assim como vens demonstrando a perseguir-me os rastros, um monge andante e peregrino... Fácil cultivar um jardim que regamos todos os dias...

SOL DO MEIO-DIA

- Mestre, o que é o zen?
- Estás vendo aquela estrela?
- Que estrela, mestre? A única estrela ao meio-dia é o sol! E ele não pode ser o zen. Olhar para o sol, a esta hora, cega.
- O zen é não ver o sol.
- Como assim?
- O zen é só a estrela que o sol é agora.

Manchetes AN

Das últimas edições de Anexo
14/03 - Crianças serão a cara do Bolshoi
13/03 - Confiança no produto nacional
12/03 - Guerra vã entre instituições de letra morta
11/03 - A reconquista do Oeste
10/03 - Homem ao mar das paixões
09/03 - A eterna elegância das bicicletas
08/03 - Teatro renasce em São Bento

Leia também

Lairlirismo em
prosa e imagens

Livro de estréia da fotógrafa Lair Bernardoni é lançado hoje na Galeria Lascaux

Joinville ­ Será lançado hoje o livro "Girassol, Giralua", de Lair Leoni Bernardoni. Artista de renome internacional, a fotógrafa Lair está estreando na literatura com uma obra de prosa poética acompanhada de fotografias de sua autoria. A maioria dos textos foi publicada no Anexo.
Lair Bernardoni apresenta na escrita a mesma "usina emocional" que lhe é peculiar na arte fotográfica. Escrevendo, ela atinge o "lairlirismo" de suas imagens que fez Mário Quintana compará-la aos poetas na busca de "eternizar o momento que passa".
Os 20 textos reunidos em "Girassol, Giralua" retratam países, pessoas, lugares e momentos, a partir do prisma da emoção. Trata-se de um tocante canto à irmandade das pessoas, povos, nações, onde a beleza e o êxito alheios são exaltados com amor fraterno. Assim, cidades como Buenos Aires e Nova York, países como Canadá, Chile e Áustria, e personalidades literárias como Pablo Neruda e Antoine de Saint-Exupéry recebem as mais profundas palavras de amor e gratidão.
"Girassol, Giralua" é também um livro de viagem. Porém não descreve lugares, mas recolhe os sentimentos provocados por estes lugares. Lair escreve de uma rua, um rio, uma janela, como quem desvenda paisagens interiores. Talvez por retratar as imagens exteriores o suficiente através de sua Nikon, na escrita prefira o que é invisível aos olhos. A viagem de Lair Leoni Bernardoni é mais afetiva que geográfica.
Como nos livros de viagens comuns, a autora esteve em Giverny, Isla Negra, Granada, Buenos Aires, Saint Maurice-de-Rémens, Viena, Nova York, Napoli, Rothemburg; mas ela também faz o leitor viajar pelo espetáculo suntuoso de uma flor, retornar à infância numa noite de luar, descobrir através dos correios a notícia imponderável de um amor vivido e revivivo através de cartões postais.
As fotografias revelam o tom impressionista de paisagens e personagens que desfilam por sua narrativa. Mas, o mais encantador são as imagens pertencentes ao baú de viagens de Lair: folhas e flores secas, passagens, bilhetes, rótulos, pétalas, preciosidades que só um coração sensível reconhece o valor. Neles, a autora reparte o momento, e não seu significado.
"Girassol, Giralua" constitui-se em um livro primoroso, em seus aspectos gráfico e editorial, impecavelmente impresso e com refinado acabamento. Com suas 162 páginas impressas em policromia, o livro possui capa dura e pequenos detalhes artesanais que oferecem grandes surpresas ao leitor, como envelopes com carta, areia da praia de Isla Negra, no Chile, e pétalas de jasmim ou sementes de girassol.
Assinam textos de apresentação da obra o professor Pasquale Cipro Neto, articulista do jornal "Folha de S. Paulo" e apresentador do programa "Nossa Língua Portuguesa", na TV Cultura/SP; o poeta Lindolf Bell, grande incentivador e prefaciador do livro; e o cronista Sérgio da Costa Ramos. Enfim, trata-se de uma obra deleitável aos olhos e tocante ao coração.

Ficha técnica
Livro
: "Girassol, Giralua", de Lair Bernardoni. Editora: Letra D'Água (rua Vital Brasil, 132, Joinville, fone/fax (47) 425-1804 e 9971-0861). Lançamento: hoje, na Galeria Lascaux (Marechal Deodoro, 333 ­ Joinville), a partir das 21 horas. Páginas: 162. Valor: R$ 50,00.


A autora

Nascida em São Francisco do Sul, Santa Catarina, em 1938, Lair Leoni Bernardoni é fotógrafa de renome internacional. Sua obra já foi exposta nos mais importantes centros culturais do mundo, como o Rockfeller Center, de Nova York e a Galeria Debret, em Paris; além de outras capitais como Washington, Atenas, Roma, Madri, Montevidéu, Viena, Ottawa e Buenos Aires. No Brasil, foram inúmeras exposições, sendo a mais importante no Museu de Arte de São Paulo (Masp).
A fotógrafa possui três obras no acervo do Musée Français de la Photographie, sendo a única sul-americana a pertencer ao elenco do Image Bank, instituição com mais de 70 sucursais em todo o mundo.


Pássaro-leitor sobrevoa o livro

Fernando José Karl
Especial para o Anexo

Segundo Buda, antes de alcançar a iluminação, o discípulo já deve estar iluminado. Lair Leoni Bernardoni, flor nativa da ilha de São Francisco do Sul, seguiu à risca a lição do mestre e se iluminou a vida inteira de luz, só para vazá-la, sob a forma de livro, no vaso da alma dos seus leitores.
Ânfora urdida com o fino linho da imaginação, o livro de Lair pode ser considerado uma obra-prima do gênero, com seu design límpido, impressão impecável e refinado acabamento onde se destacam pequenos detalhes artesanais. "Girassol, Giralua" é a quintessência de quintais e viagens, álbuns de família que abrem chagas antigas, tal como a infância perdida. E mais: cuidado, muito cuidado com as pétalas de jasmim e sementes de girassol, adereços significativos que aparecem de repente em "Girassol, Giralua" e perfumam com nostalgia o tempo em que as mulheres enchiam os livros e cadernos com flores e brisas inesquecíveis.
O escritor Péricles Prade elucida os mistérios lairianos: "No caso de Lair Bernardoni, o halo dos artifícios nas fotos é resultado de sua provocação, elemento proposital da composição, afastando com sabedoria alquímica e percepção aquilina, as lantejoulas do rococó, para impor a mitologia atraente de um estilo pessoal, conquanto se note, aqui e ali, generosas recordações da Belle Èpoque, numa linguagem de nítido sabor nostálgico".
A eternidade se enamorou das fotografias impressionistas desta caçadora do que na imagem é música e arrebatamento. O anjo da língua deu-lhe estrutura gramatical para que Lair desfiasse poesia, também, ao relatar suas viagens. Cada página de "Girassol, Giralua" é evocação e destino, e Lair sabe que escrever é lidar com as espumas flutuantes do tempo, apalpá-las para talvez encontrar ali algum vestígio de pérola.

Pássaro-leitor

Como se fosse um pássaro-leitor, sobrevôo a matéria encadernada de "Girassol, Giralua". De longe a capa do livro é um quadrado 20x20cm; de perto é um anjo que acaricia com os lábios imenso girassol, cercado de verde. À direita e acima da capa, pequeno selo com a palavra mágica Serendipity convida para o sortilégio de uma aventura, já que Serendipity, em curtas palavras, é uma espécie de segredo que sempre nos dá mais do que desejamos. O pássaro-leitor, com frágeis garras, abre o livro e a luz da escritura de Mário Quintana não lhe cega os olhos, antes o enternece com a lembrança de que poeta e fotógrafo se parecem porque ambos procuram "eternizar o momento que passa". A seguir vêm os prefácios de Lindolf Bell, Pasquale Cipro Neto e Sérgio Costa Ramos. Bell, um dos mais importantes poetas catarinenses, assim escreve sobre Lair: "Delicada tessitura e ritmo. Cenas de um filme de luz própria. A indiferença aqui não encontra abrigo".
O pássaro-leitor continua a folhear o álbum lairiano e, súbito, se depara com a flor da Vitória-Régia a esconder o colo de certa mulher mirando a silenciosa manhã de sol. Continuum de langor e seda, depara-se o leitor com uma grande história de amor, tendo como personagens cartões-postais que se encontram em delícias d'amore.
Um pouco mais adiante, Lair escreve e fotografa o planeta do pequeno príncipe Saint-Exupéry. Pergunta ela: "Onde estive?" E responde: "Onde sempre sonhei, desejei estar". Visita os símbolos de Pablo Neruda e Matilde em Isla Negra, de onde vem a areia, agora repartido em cada livro.
Na página aberta como janela, agora Lair nos oferenda a Áustria florida para o mundo. Passamos pela bicicleta amarela diante de sua casa em Balneário Camboriú e chegamos a duas glicínias e um Monet, recordações lairianas sobre sua visita ao refúgio desse mestre francês do impressionismo. Katyusha, som de balalaika, conta sua passagem pela Rússia.
O penúltimo texto de "Girassol, Giralua", a travessia da Babitonga, relata com fotos tocantes, imagens de Lair criança na bicicleta de três rodas, cavalgando o cavalo impossível da infância ou segurando o balão que ali está, pequena lua frágil.
O volume ainda nos reserva, ao final, grata surpresa, mas esta só saberá o leitor que adquirir o livro. Faz parte do estilo de Lair Bernardoni, quando regressa de suas inúmeras viagens, presentear os amigos com os mais díspares suvenires: pedras, areias, cartões-postais etc. "Girassol, Giralua", se posso defini-lo, é mais um presente, só que agora volumoso, sumarento, que Lair concede a todos nós.


Exposição em Joinville traz
o melhor de Claudio Tozzi

Mostra inicia hoje apresentando várias fases do artista plástico paulista

GLEBER PIENIZ

Joinville - Expostas pela primeira vez em Santa Catarina, as obras do paulista Claudio Tozzi fazem uma síntese sem palavras das duas vocações de seu artífice: arquiteto e artista plástico. Do primeiro, guardam o rigor, o olhar matemático, a preocupação com a ocupação racional do espaço, da distribuição das formas, do equilíbrio e da plausibilidade; do segundo, evidenciam o delírio criativo, a conquista dos terrenos pertinentes ao subjetivo, a expressão de verdades individuais através de uma linguagem conciliatória com o público e, sobretudo, expressam a capacidade de romper com limites formais, explodindo as barreiras entre o possível e o impossível. "Eu tenho um processo de pensamento que aproxima a arte e a arquitetura", diz Tozzi ao Anexo, por telefone. "A preparação e a estruturação têm muito de razão, mas a execução é mais emoção". Até o dia 4 de abril, esta amálgama de conceitos pode ser vista na Galeria Lascaux, em Joinville. A maior das salas da galeria reserva, a partir de hoje, uma de suas paredes aos trabalhos feitos entre 1992 e 1995, obras com clara predominância das linhas geométricas cuja percepção superficial pode pregar peças ao sugerir apenas simplicidade. As escadas propostas por Tozzi não são demonstrações gratuitas de domínio do pigmento, do equilíbrio e da composição: no aspecto temático, vão além das aparências e, de maneira abstrata, constroem sedutores ambientes de passagem (não por acaso, esta "passagem" dá título a uma das telas) e, no aspecto técnico, driblam o fácil acesso do olhar ao mascarar - com texturas muito peculiares obtidas com a ponta do pincel redondo - as cores, os volumes e as linhas.
São justamente as texturas que nublam e enevoam os assuntos principais a maior das particularidades que Tozzi apresenta nesta exposição de quadros em tinta acrílica sobre tela. Bem pronunciadas em seus trabalhos de temática urbana (ora feitas de branco absoluto, ora compostas de milhares de pontos multicores) e diluídas quase à extinção nas obras das fases mais atuais ("Passagem", um exemplo), estas retículas conferem a cada peça exposta um ar de mistério que não se dissipa mesmo sob a mais minuciosa observação e insinuam uma profundidade que atribui mesmo à mais figurativa de suas obras um caráter abstrato - conceito que pode ser aplicado às escadas e até às flores de evidente caráter impressionista.

Leitura completa

Além de flores e escadas, a exposição que tem curadoria de Sandra Setti apresenta ao público catarinense alguns dos períodos mais representativos da arte de Tozzi: as cenas de abordagem figurativa (uma multidão sob a chuva, os coletores de café), as paisagens naturais de árvores e céu e os cenários retilíneos compostos de prédios e detalhes eminentemente urbanos - além das araras e papagaios ora intactos, ora fragmentados em incontestável aproximação com a pop art. "Peguei várias fases que permitissem uma leitura completa do meu trabalho", explica o paulista, que tem apenas uma passagem pela região Sul em seu currículo: uma exposição feita no Paraná, no ano passado.
A trajetória de Claudio Tozzi como artista plástico iniciou em 1963, ano em que venceu o concurso de cartazes do 9º Salão de Arte Moderna. Em quase 40 anos de carreira, participou de várias edições da Bienal de São Paulo e expôs seus trabalhos na Argentina, na Inglaterra, na Itália, na Colômbia, na Espanha, nos EUA, na Alemanha, em Cuba, na Dinamarca, na França e no Japão, lugares tão numerosos quanto as referências presentes em seu trabalho: nas diversas fases estéticas, nota-se influências do cubismo, do construtivismo, do futurismo, do impressionismo e da já citada pop art. Não vêm a Joinville, no entanto, seus trabalhos mais célebres como aqueles em que o tema principal são os parafusos ou os astronautas, obras que alcançam valores respeitáveis no mercado de arte nacional e internacional. "Toda esta fase mais antiga da pop art está com colecionadores", revela o artista, que hoje busca na ruptura dos quadriláteros tradicionais das telas um caminho para sintetizar pintura e escultura. E se o assunto é preço, a mostra que resume trinta anos de criatividade de Tozzi na Galeria Lascaux tem outro grande atrativo: como se trata da estréia do artista paulista em terras catarinenses, seus trabalhos chegam a público com descontos consideráveis - vão de R$ 2,4 a R$ 5,5 mil.


 
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