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ANotícia
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- Rigor russo

Uma das salas especiais da escola e bailarinas
do Bolshoi ensaiando para a apresentação de sexta:
(Abaixo) aparato estrutural melhor do que muitas escolas de Primeiro
Mundo, segundo os próprios russos
Fotos Croma Imagem
Aberta a Escola
Boshoi do Brasil
A maior companhia
de dança do mundo inaugura hoje a primeira filial em 224
anos de história
Foram
meses de preparação envolvendo atividade física,
burocrática e financeira, obras e análises curriculares,
testes, audições e estudos para que Joinville pudesse
se adaptar às necessidades de uma instituição
secular que, a partir de hoje, tem a responsabilidade de abrigar.
Fundado em março de 1776, em Moscou, o Teatro Bolshoi
inaugura às 19 horas, no Centreventos Cau Hansen, a sua
primeira filial fora da Rússia, elegendo a cidade sede
de um dos quatro maiores festivais de dança do mundo para
construir sua escola e difundir deste lado do oceano os padrões
de ensino e postura artística que o tornam a mais respeitada
companhia de dança de todo o planeta. "O mais importante
para mim é este evento, que assegura seu lugar de honra
na história da Escola do Bolshoi", revela o diretor
geral e artístico da companhia, o bailarino Vladimir Vasiliev.
Em Joinville, a Escola do Teatro Bolshoi abre as portas oferecendo
duas linhas de estudo: a primeira, o curso de formação
profissional, tem oito anos de duração e recebe,
na sua turma inaugural, 149 alunos. Suas aulas iniciam no dia
20 de março. A segunda linha, o curso de desenvolvimento
e aperfeiçoamento (com dois anos por categoria: mirim,
júnior, sênior e profissional), recebe 46 bailarinos
de vários Estados do Brasil e mesmo uma aluna da Inglaterra
para aulas que iniciam no dia 27 de março. "Esta
escola vai constituir, além de grandes artistas, cidadãos
preparados para o mundo", diz o prefeito Luiz Henrique da
Silveira. Cada um dos bailarinos inscritos na escola deve pagar,
em média, R$ 300,00 como mensalidade, mas 100 alunos carentes
do curso de formação profissional, escolhidos entre
estudantes da rede municipal de ensino, têm bolsa de estudo
garantida. Os 195 alunos que compõem as turmas inaugurais
do Bolshoi no Brasil foram rigorosamente selecionados em audições
que aconteceram em novembro do ano passado e fevereiro deste
ano. A coordenação do projeto de implantação
da escola é da russa Alla Mickalchenko e a supervisão
geral é da brasileira Jô Braska Negrão.
As obras de construção da escola levaram 57 dias
e tiveram o apoio financeiro da Caixa Econômica Federal
(R$ 300 mil) e do grupo português Sonae (R$ 150 mil), através
da Lei do Mecenato. A prefeitura de Joinville busca, agora, captar
R$ 1 milhão para o projeto que, além de suprir
a escola com 10 pianos e móveis para uso dos estudantes,
também prevê a construção de um teatro
de 500 lugares sob o palco principal do Centreventos. O auditório
- já batizado com o nome do artista plástico Juarez
Machado - faz parte do complexo de salas da Escola do Bolshoi,
mas tem a garantia do prefeito Luiz Henrique de que abrirá
as portas para a comunidade para espetáculos mais intimistas
e apresentações de artistas locais, servindo também
como sede para o cineclube de Joinville.
O Ballet Bolshoi tem suas origens em 1773, com a criação
da Escola Coreográfica de Moscou. De lá para cá,
a instituição tem formado estrelas internacionais
da dança como Maya Plissetskaia, Vladimir Vasiliev, Ekaterina
Maximova e Yuri Grigorovich, revelados ao mundo através
de espetáculos como "Romeu e Julieta", "Giselle",
"O Lago dos Cisnes" e "Dom Quixote", entre
outros. Hoje, em toda a estrutura do Teatro Bolshoi, trabalham
2,5 mil funcionários - destes, 1.250 artistas divididos
em atividades como a ópera, a mímica, o coral e
a orquestra, além do balé.
A escola de balé russa, mais do que formar bailarinos,
procura dar aos seus alunos uma formação cultural
e artística abrangente, motivo pelo qual mantém
uma linha de estudos que vai do científico regular às
aulas de dança (clássica, dueto, popular, folclórica
e moderna), passando por aulas de teatro, arte, estética,
educação musical e piano (em que o pianista é
tão importante quanto o professor de dança). Os
cerca de 600 alunos da Escola Coreográfica de Moscou aprendem
música, história da arte e fundamentos coreográficos
com a mesma aplicação com que se dedicam à
prática do balé. Conhecida mundialmente por suas
performances na dança clássica, a companhia russa
busca, simultaneamente, aperfeiçoar também seu
repertório contemporâneo.
Scooters
A possibilidade de liberação dos ciclomotores ou
scooters para menores de 18 anos no Brasil ainda rende polêmica.
AN_Veículos |
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A Escola do Teatro Bolshoi no Brasil segue
a mesma metodologia ditada pela escola de Moscou, mas adapta
no programa dos cursos as cadeiras de dança popular, onde
os estudantes tomarão contato com as vertentes e expressões
brasileiras da dança. Em Joinville, a instituição
conta com seis professores brasileiros (Carlos Cavalcante, Denys
Nevidomyy, Elisiane Wiggers, Larissa de Araújo, Maria
Antonieta Spadari e Maristela Mara Teixeira) e dois russos (Galina
Bocatyriova e Andrei Smirnov, ambos formados no curso superior
do Instituto de Artes Cênicas de Moscou). O complexo escolar
instalado no Centreventos Cau Hansen é composto por salas
de aula com piso e tratamento acústico especial, laboratório
cênico multimeio (com vídeo, material de camarim,
maquiagem, iluminação e outros elementos), recepção,
biblioteca, estúdio de piano, sala de preparação
de figurinos, adereços e cenários, sala de ginástica,
vestiários, cantina e refeitório, sala de estar
e um jardim interno para recreio. As aulas acontecem em três
períodos: das 8 às 11 horas, das 14 às 17
horas e das 17 às 20 horas.
Há cem anos nascia
um brasileiro polêmico
Controvertido e
ambíguo, Gilberto Freire deixou publicadas mais de 120
obras no País e exterior
Liliam Rana
Agência estado
"Conservador revolucionário" ou "anarquista
construtivo"? Tanto faz, e se a definição
for construída de paradoxos, então estamos falando
mesmo sobre Gilberto Freire. Ele nasceu em Recife, no dia 15
de março de 1900, e sua carreira foi composta por mais
de 120 obras publicadas, no Brasil e exterior. Durante muito
tempo, revelou-se com assuntos controvertidos, sempre preocupado
em dizer quem somos, quais são nossas raízes e
a nossa verdadeira história. O objetivo era a interpretação
da sociedade brasileira. Recebeu tanto críticas quanto
elogios, mas o fato de ser uma pessoa polêmica lhe agradava
muito.
Alfabetizado em inglês no início do século,
estudou ciências políticas e sociais na Universidade
de Baylor, no Texas. Mais tarde, completou seu mestrado em sociologia
e doutorado em antropologia na Universidade de Columbia, em Nova
York. Quando retornou ao Brasil, em 1923, escreveu para os jornais
"Diário de Pernambuco" e "A Província".
Ao publicar "Casa Grande & Senzala", consagrou-se
mundialmente. O prefácio de "Casa Grande & Senzala"
mostra uma de suas influências, Franz Boas, antropólogo
americano, que o ajudou a desenvolver a teoria sobre a miscigenação
das raças. O livro causou grande impacto na sociedade,
analisando o povo brasileiro no período colonial.
Em 1936, lança o segundo volume da série, "Sobrados
& Mucambos", que aborda a decadência do "patriarcado"
rural e o desenvolvimento urbano. Trata-se do período
de transição ocorrido por influência da vinda
da corte portuguesa até o 2º Império. Quando
publicou o que seria o último volume da trilogia, em 1959,
"Ordem e Progresso", o trabalho de Freire apresentou-se
mais maduro, segundo seus colegas. Nesse período, seus
discursos eram mais políticos, pois em 1946 participou
da Assembléia Constituinte como deputado federal. Apoiou
o golpe de 64 e o regime militar, conquistando a antipatia do
meio acadêmico.
ÚLTIMA OBRA
Antes de falecer, em 1987, por infecção respiratória
e insuficiência renal aguda, Freire lançou "Modos
de Homem & Modas de Mulher". Nessa obra, ele sugere
aos estilistas da época que criem formas mais exuberantes,
de acordo com a mulher dos trópicos. Indicava tecidos
mais leves e a utilização de acessórios
mais característicos da nossa cultura, como sandálias
ou tamancos. Era o contraponto da moda importada da Europa. Entretanto,
o livro torna-se mais um louvor sobre as formas da mulher morena
e um discurso em defesa de sua silhueta mais arredondada. A sugestão
da moda feminina indica uma capacidade criativa da mulher de
se enfeitar, dentro das tradições populares, enquanto
"modos" do homem passam a valer pelas maneiras próprias
do sexo masculino.
Uma indicação do que seria realmente o último
volume da série "Casa Grande & Senzala"
foi encontrada por pesquisadores uruguaios, na própria
casa de Freire. Em 1997, surgiu o prefácio de "Jazigos
e Covas Rasas", e acredita-se que seria abordada a cultura
brasileira com relação à morte. O autor
pretendia fechar a análise do declínio da sociedade
patriarcal no País.
Controvertido e ambíguo, Gilberto Freire era ora amado,
ora odiado. Mesmo depois de ser renegado durante o regime militar,
em 1984 apóia o movimento pelas diretas e a candidatura
de Tancredo Neves, reconquistando os intelectuais. Mas sua ambivalência
procurava provocar a aceitação igual das diversidades
da nossa cultura. O presente desse sociólogo brasileiro
à sociedade vem em forma de conciliação
do passado e presente, superando-se conflitos. Teses, no mínimo
polêmicas, mas que não se limitaram no pensamento
do autor e, às vezes, foram utilizadas com vocabulário
agressivo. Na verdade, Gilberto Freire queria construir uma "intelectualidade"
unicamente identificada com a nacionalidade brasileira.
Apesar de o acusarem de não fazer ciência, mas literatura,
ele tinha consciência da mistura das raças e, com
isso, a formação da sociedade brasileira. Sendo
exagerado, ou não, ele abriu espaço para interpretarem
novamente o País.
Argentina traz curso
de dança a Joinville
Joinville - O Sesc de Joinville promove, nos próximos
dez dias, um curso de tango, salsa e merengue ministrado pela
professora argentina Marilú Fischer. A primeira aula do
intensivo acontece hoje e é gratuita. O curso é
dividido em turmas adultas e infantis e encerra com um espetáculo
no dia 25 de março, com entrega de certificados. "O
encerramento é chamado de 'Bailes do Século', onde
os alunos se apresentam e mostram o que aprenderam nas duas semanas
de aulas", explica a bailarina, que abandonou uma carreira
de instrumentadora médica e fonoaudióloga para
se dedicar exclusivamente ao ensino da dança.
Marilú nasceu em Mar del Plata e desde criança
tem feito da dança a sua atividade mais prazerosa. Estudou
o sapateado americano com o mestre Liber Seall, inaugurando em
1987, na sua cidade natal, uma escola voltada para este estilo.
Entre 1988 e 1989, dirigiu as comédias musicais "Sucedió
una vez" e "Entre el Amor y la Guerra" e, um ano
depois, abriu no Parque Hotel de Montevidéu uma filial
uruguaia de sua escola de sapateado. Ainda em 1990, participou
de programas de televisão em companhia do professor Nestor
Soler. Depois de criar espetáculos apresentados em hotéis
e escolas bilíngües na Argentina durante vários
anos, passou a ministrar seus cursos também no Uruguai
e no Brasil, passando por várias cidades do Rio Grande
do Sul e chegando agora, depois de formar mais de 600 dançarinos,
a Santa Catarina.
"O tango é uma dança mundial e a salsa e o
merengue, por serem da América Central, também
foram adotados na Argentina. Os três têm em comum
essa sensualidade", resume a coreógrafa, explicando
o motivo de ter escolhido esses estilos distintos como pilares
do seu curso. Durante as aulas que tem dado no Brasil, Marilú
pôde perceber que o tango tem grande chance de tornar-se
uma dança popular, uma vez que os bailarinos brasileiros
têm um dom que não pode ser ensinado: "O homem
brasileiro tem uma sensualidade muito grande e, em duas semanas,
está pronto como dançarino, aprende a conduzir
pelas mãos. Todos os alunos, mesmo aqueles que nunca dançaram,
são especiais", revela.
O curso de tango, salsa e merengue é dividido em quatro
turmas: infantil (das 16 às 17 horas), terceira idade
(das 17h30 às 18h30) e adulto (das 19 às 20h30
e das 21 às 22h30), com aulas que vão de segunda-feira
a sábado. Para as duas turmas de adultos, o curso custa
R$ 30,00. Crianças e idosos pagam R$ 25,00 pelas aulas.
Mais informações podem ser obtidas no Sesc de Joinville
(rua Itaiópolis, 470, América - mesmo local das
aulas) ou pelo telefone (0xx47) 433-3100.
Indaial comemora 66 anos
com noite multicultural
Indaial - Artistas de todas as correntes e estilos se unem
em Indaial para comemorar de forma eclética e bem humorada
o ano 2000 no Brasil tropical. Artes plásticas, poesia,
música e literatura são os ingredientes de uma
festa promovida pela Fundação Indaialense de Cultura
para celebrar o 66º aniversário da cidade e também
os 500 anos do Brasil. "Sarau Brasileiro em Noite Tropical"
é o nome do evento programado para as 20 horas de hoje,
no Salão de Exposições da FIC. Os convidados
devem trajar roupas tropicais.
A exposição coletiva de arte indaialense já
é uma tradição no aniversário da
cidade. No mês de março, uma grande mostra congrega
artistas nascidos ou adotados por Indaial. Este ano, 21 artistas
participam da coletiva, apresentando 40 obras de todos os estilos,
linguagens, técnicas e temáticas. Uma outra exposição
vai reunir 25 artistas de Ascurra, Blumenau, Florianópolis,
Indaial, Rio do Sul e Timbó, que trabalham arte decorativa
(porcelana e faiança). As duas exposições
permanecem abertas à visitação até
9 de abril, das 8 às 12 horas e das 13h30 às 17h30,
inclusive nos finais de semana.
A novidade das comemorações culturais pelo aniversário
de Indaial está na abertura das exposições.
Para celebrar o município e todas as formas de arte nele
cultivadas, o "Sarau Brasileiro em Noite Tropical"
contará com performances musicais, poéticas e literárias.
Os poetas convidados a declamar Indaial em versos são
Dennis Radünz, Marcelo Steil, Marco Struve, Rosa Hernandes
(Paloma), Tânia Rodrigues, Adair Aguiar e Wilmar Harbs.
A exibição musical dos ex-integrantes da Banda
Açus (Ademir Neves, Décio Saut, Hamilton Evaristo,
Odair Frainer e Sérgio França) será uma
homenagem ao poeta Lindolf Bell. Os músicos Décio
Saut, Denise Patrício, Josileide Gaio e a Banda Municipal
Werner Pabst também fazem apresentações
de MPB.
Dois lançamentos marcam a noite indaialense. A escritora
Edltraud Zimmermann Fonseca apresenta "Memórias de
D. Edi", texto autobiográfico inspirado no velho
diário da autora. As memórias integram o sexto
livro de Edltraud, que participou de 15 antologias e tem projeto
de editar em breve o terceiro título da trilogia biográfica
contando sua experiência política e relatos de viagens.
O segundo lançamento da noite é "Lágrimas
de Amor", obra poética de John Marcos Zechner. O
livro tem como proposta mostrar o amor na forma pura, desnuda
de cobranças entre os amores vividos, sonhados e desejados.
John nasceu em Blumenau e mora em Indaial há 36 anos.
O autor havia participado em 1999 da Antologia Poética
Brasileira, com cinco poemas editados.
FCC paga vencedores
do
6º Salão Vítor Meireles
Florianópolis - A Fundação Catarinense
de Cultura (FCC) está pagando esta semana os seis artistas
premiados no 6º Salão Nacional Vítor Meirelles,
realizado em 1998. O prêmio total de R$ 50 mil será
distribuído entre Paulo Whitaker (de São Paulo),
o grande vencedor, que leva R$ 15 mil; Daniel Acosta (RS), cujo
prêmio é de R$ 10 mil; Maria Clara Fernandes (SC),
também com R$ 10 mil; Paulo Gaiad (SC), Gabriela Machado
(RS) e Elias Murad (SP), esses com direito a um prêmio
de R$ 5 mil. O atraso no pagamento se deu especialmente em função
de dificuldades financeiras encontradas pela atual administração,
segundo diz Iaponan Soares, diretor-geral da FCC.
Turismo
A queda acentuada do fluxo de visitantes em fevereiro não
ofuscou os resultados obtidos em dezembro e janeiro.
AN_Economia |
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O 6º Salão Vítor Meireles
teve 907 artistas inscritos, representando 19 Estados brasileiros.
Santa Catarina, com 195 inscritos, liderou o ranking do número
de inscrições, seguido por São Paulo (164
artistas), Paraná (114), Minas Gerais (cem), Rio Grande
do Sul e Rio de Janeiro (ambos com 95 inscritos). Foi apresentado
um total de 6.985 obras, em várias linguagens. A comissão
julgadora, integrada pelos críticos de arte Tadeu Chiarelli
e Agnaldo Farias, de São Paulo, e pelo artista plástico
João Otávio Neves, de Santa Catarina, escolheu
obras de 34 artistas para compor o salão, que foi realizado
no Museu de Arte de Santa Catarina (Masc) entre os dias 3 e dezembro
de 1998 e 1º de março de 1999.
O Salão Vítor Meireles foi criado em 1992, durante
a passagem anterior de Iaponan pela fundação. Segundo
ele, o salão será reeditado este ano mais amplo,
com dimensão para se firmar como referência nas
artes plásticas do Sul do Brasil. Atualmente, a administração
da FCC está levantando valores para definir os custos
da próxima edição, especialmente com relação
ao prêmio, que deverá ter novo valor.
Rede Vida vai discutir a
qualidade da programação
"Viver Brasil"
deve entrar no ar em abril e terá opinião do telespectador
Flávia Guerra
Agência Estado
O telespectador insatisfeito com a qualidade dos programas
da televisão brasileira poderá reclamar na própria
TV. O programa "Viver Brasil", que deve estrear em
abril na Rede Vida, vai reunir especialistas para debater a programação
da TV brasileira e, mais que isso, estender essa discussão
aos telespectadores. Para o publicitário Wagner Bezerra,
que criou o programa com Heloísa Dias, o momento é
mais que oportuno.
"Em 50 anos de televisão, essa discussão nunca
foi oficializada no Brasil", diz. "Está mais
do que na hora de ser preparado um código de ética
para controlar a programação", completa. Até
agora um dos poucos meios oficiais de crítica e análise
da programação tem sido a linha "Voz do Cidadão"
(0800 612211), criada pela Subcomissão de Rádio
e TV da Comissão de Educação do Congresso
Nacional. Outro exemplo é "Guardando o Lixo na Sala?",
da TV Comunitária de Brasília.
Bezerra também ressalta que, apesar de já haver
vários grupos que discutem a qualidade e a ética
dos programas, eles ainda estão pouco organizados e articulados.
"Além disso, há pouco interesse no que a sociedade
tem a dizer", ressalta. "Além de discutir, nosso
principal objetivo é ouvir o público".
O publicitário, que também escreveu o livro "Manual
do Telespectador Insatisfeito" (Summus Editorial, 130 págs.,
R$ 17,80), espera apenas ajuda financeira para pôr seu
projeto no ar. "Já acertamos a transmissão
pela Rede Vida e quem serão os convidados; só falta
a parceria", afirma. Para ele, a razão para criar
o programa foi a mesma que o levou a escrever o manual. "Vi
meu filho imitando o strip-tease que viu em uma novela e percebi
que o maior educador do País é a televisão".
Para que as novas gerações não sejam educadas
por programas como os do Ratinho, Xuxa e filmes de violência,
Bezerra resolveu fazer o que muitos brasileiros já fazem:
acompanhar e reivindicar o direito de opinar sobre a programação
televisiva do País. Para o publicitário, é
importante deixar claro que não se trata de censura, mas
de controle e diálogo. "A censura existe em uma ditadura
e esse caso é o oposto; queremos abrir a discussão
a todos, até mesmo a quem faz a TV no Brasil", conta.
"É muito difícil definir o que é bom
senso e é por isso que é tão importante
discutir antes de tomar qualquer decisão". Essa discussão
deve partir da sociedade.
"Afinal, ninguém é dono de TV no Brasil, mas
possuidor do direito de transmissão; esse direito pertence
a nós". E cita casos de sucesso de controle da programação:
"Na França, se a emissora desrespeita esse código
de ética, além de pagar multas, pode até
perder esse direito e, nos Estados Unidos, há comissões
que fiscalizam as concessões públicas".
A idéia de Wagner Bezerra é estender a discussão
feita por grupos de especialistas, como Marta Suplicy e Lalo
Leal Filho, e educadores, para a população. "Seremos
o primeiro programa a dar voz à sociedade", garante.
O formato já está definido. "Será um
programa de auditório, com cerca de 60 pessoas e haverá
dois debatedores e um mediador", adianta.
Os temas serão debatidos e escolhidos por uma comissão,
de acordo com os fatos da semana. A cada programa, a reportagem
vai entrevistar a população de uma cidade diferente.
"Haverá também dois debatedores e um mediador;
durante o programa, o público do auditório também
vai poder dar sua opinião".
Além de discutir o conteúdo da programação,
"Viver Brasil" deve abordar temas relacionados à
Lei de Comunicação Eletrônica de Massa e
o "Manual de Controle e Qualidade da Programação",
cuja criação foi proposta às emissoras brasileiras
pelo secretário nacional dos Direitos Humanos, José
Gregori. "O Manual", que trata dessas e de outras questões
sobre a regulamentação da TV brasileira, servirá
de referência às discussões.
Crônia
Novos Koans
WILSON BUENO
Koans, digo de novo, são microestórias, miniparábolas,
com que uma das mais luminosas vertentes búdicas, o zen-budismo,
funda os seus "preceitos", sendas que podem arrancar
um discípulo atento do sono para a vigília, do
sonho para o despertar, conduzindo-o ao "céu daqui",
ao céu deste lugar, pois para o budismo só nossa
passagem cá por este vale de lágrimas é
o que conta, exalta e consola.
Fazer da vida, da breve vida humana, sempre reiniciada em sucessivas
"reencarnações", brusca flor da eternidade,
é o que querem estas estórias imantadas da humaníssima
busca de um deus que dance e celebre em vosso coração
a dança alegre de existir. Por uma única e estreita
(estreita?) passagem - a da poesia como ofício de viver.
Quem se habilita?
ARMADILHAS DA PAIXÃO
Depois de cinco dias de severo jejum, o jovem discípulo
entra, sorrateiro, na cozinha do mosteiro, com o claro propósito
de enganar a fome cruciante com ao menos uma maçã.
Sem que isto signifique, de modo algum, a intenção
de desistir do seu determinado projeto, mas apenas o desejo de
torná-lo suportável e assim, inclusive, alcançar
concluir, com êxito, a "tarefa" a que se impusera.
Precárias são as pulsões humanas. E quase
sempre enganosas...
Topando na cozinha com o mestre-cozinheiro, gordo e de luzidia
calva, o jovem discípulo, enfraquecido pelo jejum, vê
nele o Buda e curva-se diante do deus como quem acabou de entrar
num céu cristão. O mestre-cozinheiro, que além
de gordo e de luzidia calva, é um acabado sábio,
não hesita:
- Não é assim que se encontra o Buda, meu jovem...
- Cinco dias de jejum, esta súbita iluminação
e ainda me dizes que não é assim que se encontra
o Buda? É bem como nos koans antigos: depois de muitas
privações, venho aqui atrás de uma maçã,
apenas uma maçã, para poder prosseguir o jejum
e me vejo, através de ti, frente a frente com o Buda.
É a supresa, o satori, a iluminação!
- Não, tudo o que a tua fraca carne vê nesse momento
é uma suculenta maçã e um gordo cozinheiro.
- E o Buda que és, não vejo?
- Não. Só poderás enxergar o teu próprio
Buda, dentro de teu coração, quando não
existirem mais maçãs e nem gordos cozinheiros.
E, gentil, levanta o pano que cobria uma tigela e dali retira
e estende ao discípulo faminto, robusta coxa de pato -
sangrenta e crua.
JARDINS PEREGRINOS
O discípulo se propõe aprender a cuidar das flores
do mosteiro com o mais célebre de todos os célebres
mestres-jardineiros que jamais existiu em todo o Tibet.
Para tanto, viaja três anos seguidos, sem nunca deixar
de semear jardins por onde passe, em busca de Tai Pu. Por esses
imprevistos da sorte, a cada vez que está próximo
de alcançar a cidade do mestre-jardineiro, este se muda
para outra distante e desconhecida aldeia, chamado que é,
com freqüência, sobretudo para conhecer novos jardins
e novos jardineiros.
Ao chegar em Ti Chiang, depois de muitos jardins precariamente
semeados pelo caminho, exausto e já decidido a abandonar
a empreitada, o jovem monge é informado que o mestre-jardineiro
não foi muito longe, tendo saído há poucas
horas com destino a uma aldeia bem próxima dali. O discípulo
sente revigoradas todas as forças - nunca estivera tão
perto de encontrar Tai Pu.
Sem mais delongas, na estrada já, atrás do mestre,
longe vê dele o vulto magro na distância. Cada vez
mais rápido, embora ultrapassados todos os limites da
exaustão, começa a acenar e a gritar por Tai Pu.
E quando este percebe, velhíssimo embora, retorna do caminho,
quase correndo, também no limite do que parecia um enorme
cansaço, vindo em direção do jovem monge.
Anos dourados
A vaidade ajudou Taís Fersoza a absorver o universo de
1958, época em que se passa a novela "Esplendor".
AN_Tevê |
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Ao se encontrarem, no meio da estrada, o discípulo,
antes de desmaiar, ainda consegue ouvir nitidamente de Tai Pu:
- Mestre-jardineiro! Mestre-jardineiro! Por que foges de mim?
Há três anos eu vos procuro para aprender convosco
a arte de cultivar jardins, do modo como fazes, sem deixar de
ser, assim como vens demonstrando a perseguir-me os rastros,
um monge andante e peregrino... Fácil cultivar um jardim
que regamos todos os dias...
SOL DO MEIO-DIA
- Mestre, o que é o zen?
- Estás vendo aquela estrela?
- Que estrela, mestre? A única estrela ao meio-dia é
o sol! E ele não pode ser o zen. Olhar para o sol, a esta
hora, cega.
- O zen é não ver o sol.
- Como assim?
- O zen é só a estrela que o sol é agora.
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| Leia também |
Lairlirismo em
prosa e imagens
Livro de estréia
da fotógrafa Lair Bernardoni é lançado hoje
na Galeria Lascaux
Joinville Será lançado hoje o livro "Girassol,
Giralua", de Lair Leoni Bernardoni. Artista de renome internacional,
a fotógrafa Lair está estreando na literatura com
uma obra de prosa poética acompanhada de fotografias de
sua autoria. A maioria dos textos foi publicada no Anexo.
Lair Bernardoni apresenta na escrita a mesma "usina emocional"
que lhe é peculiar na arte fotográfica. Escrevendo,
ela atinge o "lairlirismo" de suas imagens que fez
Mário Quintana compará-la aos poetas na busca de
"eternizar o momento que passa".
Os 20 textos reunidos em "Girassol, Giralua" retratam
países, pessoas, lugares e momentos, a partir do prisma
da emoção. Trata-se de um tocante canto à
irmandade das pessoas, povos, nações, onde a beleza
e o êxito alheios são exaltados com amor fraterno.
Assim, cidades como Buenos Aires e Nova York, países como
Canadá, Chile e Áustria, e personalidades literárias
como Pablo Neruda e Antoine de Saint-Exupéry recebem as
mais profundas palavras de amor e gratidão.
"Girassol, Giralua" é também um livro
de viagem. Porém não descreve lugares, mas recolhe
os sentimentos provocados por estes lugares. Lair escreve de
uma rua, um rio, uma janela, como quem desvenda paisagens interiores.
Talvez por retratar as imagens exteriores o suficiente através
de sua Nikon, na escrita prefira o que é invisível
aos olhos. A viagem de Lair Leoni Bernardoni é mais afetiva
que geográfica.
Como nos livros de viagens comuns, a autora esteve em Giverny,
Isla Negra, Granada, Buenos Aires, Saint Maurice-de-Rémens,
Viena, Nova York, Napoli, Rothemburg; mas ela também faz
o leitor viajar pelo espetáculo suntuoso de uma flor,
retornar à infância numa noite de luar, descobrir
através dos correios a notícia imponderável
de um amor vivido e revivivo através de cartões
postais.
As fotografias revelam o tom impressionista de paisagens e personagens
que desfilam por sua narrativa. Mas, o mais encantador são
as imagens pertencentes ao baú de viagens de Lair: folhas
e flores secas, passagens, bilhetes, rótulos, pétalas,
preciosidades que só um coração sensível
reconhece o valor. Neles, a autora reparte o momento, e não
seu significado.
"Girassol, Giralua" constitui-se em um livro primoroso,
em seus aspectos gráfico e editorial, impecavelmente impresso
e com refinado acabamento. Com suas 162 páginas impressas
em policromia, o livro possui capa dura e pequenos detalhes artesanais
que oferecem grandes surpresas ao leitor, como envelopes com
carta, areia da praia de Isla Negra, no Chile, e pétalas
de jasmim ou sementes de girassol.
Assinam textos de apresentação da obra o professor
Pasquale Cipro Neto, articulista do jornal "Folha de S.
Paulo" e apresentador do programa "Nossa Língua
Portuguesa", na TV Cultura/SP; o poeta Lindolf Bell, grande
incentivador e prefaciador do livro; e o cronista Sérgio
da Costa Ramos. Enfim, trata-se de uma obra deleitável
aos olhos e tocante ao coração.
Ficha técnica
Livro: "Girassol, Giralua", de Lair Bernardoni.
Editora: Letra D'Água (rua Vital Brasil, 132, Joinville,
fone/fax (47) 425-1804 e 9971-0861). Lançamento:
hoje, na Galeria Lascaux (Marechal Deodoro, 333 Joinville),
a partir das 21 horas. Páginas: 162. Valor: R$
50,00.
A autora
Nascida em São Francisco do Sul, Santa Catarina, em
1938, Lair Leoni Bernardoni é fotógrafa de renome
internacional. Sua obra já foi exposta nos mais importantes
centros culturais do mundo, como o Rockfeller Center, de Nova
York e a Galeria Debret, em Paris; além de outras capitais
como Washington, Atenas, Roma, Madri, Montevidéu, Viena,
Ottawa e Buenos Aires. No Brasil, foram inúmeras exposições,
sendo a mais importante no Museu de Arte de São Paulo
(Masp).
A fotógrafa possui três obras no acervo do Musée
Français de la Photographie, sendo a única sul-americana
a pertencer ao elenco do Image Bank, instituição
com mais de 70 sucursais em todo o mundo.
Pássaro-leitor sobrevoa
o livro
Fernando José Karl
Especial para o Anexo
Segundo Buda, antes de alcançar a iluminação,
o discípulo já deve estar iluminado. Lair Leoni
Bernardoni, flor nativa da ilha de São Francisco do Sul,
seguiu à risca a lição do mestre e se iluminou
a vida inteira de luz, só para vazá-la, sob a forma
de livro, no vaso da alma dos seus leitores.
Ânfora urdida com o fino linho da imaginação,
o livro de Lair pode ser considerado uma obra-prima do gênero,
com seu design límpido, impressão impecável
e refinado acabamento onde se destacam pequenos detalhes artesanais.
"Girassol, Giralua" é a quintessência
de quintais e viagens, álbuns de família que abrem
chagas antigas, tal como a infância perdida. E mais: cuidado,
muito cuidado com as pétalas de jasmim e sementes de girassol,
adereços significativos que aparecem de repente em "Girassol,
Giralua" e perfumam com nostalgia o tempo em que as mulheres
enchiam os livros e cadernos com flores e brisas inesquecíveis.
O escritor Péricles Prade elucida os mistérios
lairianos: "No caso de Lair Bernardoni, o halo dos artifícios
nas fotos é resultado de sua provocação,
elemento proposital da composição, afastando com
sabedoria alquímica e percepção aquilina,
as lantejoulas do rococó, para impor a mitologia atraente
de um estilo pessoal, conquanto se note, aqui e ali, generosas
recordações da Belle Èpoque, numa linguagem
de nítido sabor nostálgico".
A eternidade se enamorou das fotografias impressionistas desta
caçadora do que na imagem é música e arrebatamento.
O anjo da língua deu-lhe estrutura gramatical para que
Lair desfiasse poesia, também, ao relatar suas viagens.
Cada página de "Girassol, Giralua" é
evocação e destino, e Lair sabe que escrever é
lidar com as espumas flutuantes do tempo, apalpá-las para
talvez encontrar ali algum vestígio de pérola.
Pássaro-leitor
Como se fosse um pássaro-leitor, sobrevôo a matéria
encadernada de "Girassol, Giralua". De longe a capa
do livro é um quadrado 20x20cm; de perto é um anjo
que acaricia com os lábios imenso girassol, cercado de
verde. À direita e acima da capa, pequeno selo com a palavra
mágica Serendipity convida para o sortilégio de
uma aventura, já que Serendipity, em curtas palavras,
é uma espécie de segredo que sempre nos dá
mais do que desejamos. O pássaro-leitor, com frágeis
garras, abre o livro e a luz da escritura de Mário Quintana
não lhe cega os olhos, antes o enternece com a lembrança
de que poeta e fotógrafo se parecem porque ambos procuram
"eternizar o momento que passa". A seguir vêm
os prefácios de Lindolf Bell, Pasquale Cipro Neto e Sérgio
Costa Ramos. Bell, um dos mais importantes poetas catarinenses,
assim escreve sobre Lair: "Delicada tessitura e ritmo. Cenas
de um filme de luz própria. A indiferença aqui
não encontra abrigo".
O pássaro-leitor continua a folhear o álbum lairiano
e, súbito, se depara com a flor da Vitória-Régia
a esconder o colo de certa mulher mirando a silenciosa manhã
de sol. Continuum de langor e seda, depara-se o leitor com uma
grande história de amor, tendo como personagens cartões-postais
que se encontram em delícias d'amore.
Um pouco mais adiante, Lair escreve e fotografa o planeta do
pequeno príncipe Saint-Exupéry. Pergunta ela: "Onde
estive?" E responde: "Onde sempre sonhei, desejei estar".
Visita os símbolos de Pablo Neruda e Matilde em Isla Negra,
de onde vem a areia, agora repartido em cada livro.
Na página aberta como janela, agora Lair nos oferenda
a Áustria florida para o mundo. Passamos pela bicicleta
amarela diante de sua casa em Balneário Camboriú
e chegamos a duas glicínias e um Monet, recordações
lairianas sobre sua visita ao refúgio desse mestre francês
do impressionismo. Katyusha, som de balalaika, conta sua passagem
pela Rússia.
O penúltimo texto de "Girassol, Giralua", a
travessia da Babitonga, relata com fotos tocantes, imagens de
Lair criança na bicicleta de três rodas, cavalgando
o cavalo impossível da infância ou segurando o balão
que ali está, pequena lua frágil.
O volume ainda nos reserva, ao final, grata surpresa, mas esta
só saberá o leitor que adquirir o livro. Faz parte
do estilo de Lair Bernardoni, quando regressa de suas inúmeras
viagens, presentear os amigos com os mais díspares suvenires:
pedras, areias, cartões-postais etc. "Girassol, Giralua",
se posso defini-lo, é mais um presente, só que
agora volumoso, sumarento, que Lair concede a todos nós.
Exposição em Joinville
traz
o melhor de Claudio Tozzi
Mostra inicia hoje
apresentando várias fases do artista plástico paulista
GLEBER PIENIZ
Joinville - Expostas pela primeira vez em Santa Catarina,
as obras do paulista Claudio Tozzi fazem uma síntese sem
palavras das duas vocações de seu artífice:
arquiteto e artista plástico. Do primeiro, guardam o rigor,
o olhar matemático, a preocupação com a
ocupação racional do espaço, da distribuição
das formas, do equilíbrio e da plausibilidade; do segundo,
evidenciam o delírio criativo, a conquista dos terrenos
pertinentes ao subjetivo, a expressão de verdades individuais
através de uma linguagem conciliatória com o público
e, sobretudo, expressam a capacidade de romper com limites formais,
explodindo as barreiras entre o possível e o impossível.
"Eu tenho um processo de pensamento que aproxima a arte
e a arquitetura", diz Tozzi ao Anexo, por telefone. "A
preparação e a estruturação têm
muito de razão, mas a execução é
mais emoção". Até o dia 4 de abril,
esta amálgama de conceitos pode ser vista na Galeria Lascaux,
em Joinville. A maior das salas da galeria reserva, a partir
de hoje, uma de suas paredes aos trabalhos feitos entre 1992
e 1995, obras com clara predominância das linhas geométricas
cuja percepção superficial pode pregar peças
ao sugerir apenas simplicidade. As escadas propostas por Tozzi
não são demonstrações gratuitas de
domínio do pigmento, do equilíbrio e da composição:
no aspecto temático, vão além das aparências
e, de maneira abstrata, constroem sedutores ambientes de passagem
(não por acaso, esta "passagem" dá título
a uma das telas) e, no aspecto técnico, driblam o fácil
acesso do olhar ao mascarar - com texturas muito peculiares obtidas
com a ponta do pincel redondo - as cores, os volumes e as linhas.
São justamente as texturas que nublam e enevoam os assuntos
principais a maior das particularidades que Tozzi apresenta nesta
exposição de quadros em tinta acrílica sobre
tela. Bem pronunciadas em seus trabalhos de temática urbana
(ora feitas de branco absoluto, ora compostas de milhares de
pontos multicores) e diluídas quase à extinção
nas obras das fases mais atuais ("Passagem", um exemplo),
estas retículas conferem a cada peça exposta um
ar de mistério que não se dissipa mesmo sob a mais
minuciosa observação e insinuam uma profundidade
que atribui mesmo à mais figurativa de suas obras um caráter
abstrato - conceito que pode ser aplicado às escadas
e até às flores de evidente caráter impressionista.
Leitura completa
Além de flores e escadas, a exposição
que tem curadoria de Sandra Setti apresenta ao público
catarinense alguns dos períodos mais representativos da
arte de Tozzi: as cenas de abordagem figurativa (uma multidão
sob a chuva, os coletores de café), as paisagens naturais
de árvores e céu e os cenários retilíneos
compostos de prédios e detalhes eminentemente urbanos
- além das araras e papagaios ora intactos, ora fragmentados
em incontestável aproximação com a pop art.
"Peguei várias fases que permitissem uma leitura
completa do meu trabalho", explica o paulista, que tem apenas
uma passagem pela região Sul em seu currículo:
uma exposição feita no Paraná, no ano passado.
A trajetória de Claudio Tozzi como artista plástico
iniciou em 1963, ano em que venceu o concurso de cartazes do
9º Salão de Arte Moderna. Em quase 40 anos de carreira,
participou de várias edições da Bienal de
São Paulo e expôs seus trabalhos na Argentina, na
Inglaterra, na Itália, na Colômbia, na Espanha,
nos EUA, na Alemanha, em Cuba, na Dinamarca, na França
e no Japão, lugares tão numerosos quanto as referências
presentes em seu trabalho: nas diversas fases estéticas,
nota-se influências do cubismo, do construtivismo, do futurismo,
do impressionismo e da já citada pop art. Não vêm
a Joinville, no entanto, seus trabalhos mais célebres
como aqueles em que o tema principal são os parafusos
ou os astronautas, obras que alcançam valores respeitáveis
no mercado de arte nacional e internacional. "Toda esta
fase mais antiga da pop art está com colecionadores",
revela o artista, que hoje busca na ruptura dos quadriláteros
tradicionais das telas um caminho para sintetizar pintura e escultura.
E se o assunto é preço, a mostra que resume trinta
anos de criatividade de Tozzi na Galeria Lascaux tem outro grande
atrativo: como se trata da estréia do artista paulista
em terras catarinenses, seus trabalhos chegam a público
com descontos consideráveis - vão de R$ 2,4
a R$ 5,5 mil.
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