Joinville         -          Domingo, 26 de Novembro de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  

















MODA CULTURAL



Fotos:
Guilherme Ternes

Xavier Serrano Hortelano lamenta padrão cultural de beleza que confunde estética com erotismo e estimula tendência social anoréxica
Foto: Divulgação/Original PB

Avidez de consumo
causa sofrimentos

Psicoterapeuta avalia mudanças globais, coisificação humana e vazio existencial

Renato Schebela
Especial para Anexo

O psicoterapeuta espanhol Xavier Serrano Hortelano, um dos maiores expoentes dos estudos pós - Reich, realizou duas palestras na Capital nesta semana, abordando o sofrimento emocional, vazio existencial e também à saúde - anorexia e bulimia, e a relação dessas com o culto ao corpo. O palestrante falou sobre a nova ecologia humana e as conseqüências da globalização sobre o bem-estar dos cidadãos, tema de seu novo livro "Ao Raiar do Século 21", a ser lançado em breve na Espanha.
Diretor da Escola Espanhola de Terapia Reichiana, Xavier Serrano Hercolano é psicoterapeuta pós-reichiano. Ele está em Santa Catarina acompanhando a formação de um grupo de profissionais brasileiros, e acredita que a globalização e as mudanças rápidas que se processam em nível mundial estão causando um aumento das enfermidades psíquicas, emocionais e da própria imunologia humana. "Estamos vivendo uma crise ecológica, crise de identidade como espécie e crise de valores humanos em nível global" reconhece Serrano. "As mudanças têm sido apenas quantitativas e podem nos causar muitos danos", avalia.
Recém chegado de uma Jornada de Ecologia e Espiritualidade realizada em Tenerife, onde participou da elaboração de um manifesto assinado por cientistas de várias áreas e já encaminhado à Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), Serrano acredita que as causas diretas dessa situação de crise - econômicas, sociais, demográficas e políticas - são múltiplas e requerem um enfoque multidisciplinar voltado às tradições espirituais e humanistas.
Numa visão profunda, Serrano entende que a crise ecológica é uma manifestação da percepção fragmentada que nossas sociedades tiveram da natureza. "A cultura ficou isolada da natureza e o ser humano se anulou em relação ao intrincado tecido de inter-relações que constituem a própria vida."
Para o psicoterapeuta e outros cientistas reunidos em Tenerife, essa crise também é a manifestação da dessacralização da natureza. "A Terra ficou reduzida a um mundo de objetos mortos, uma espécie de máquina que o ser humano explora com o único objetivo de satisfazer seus sempre crescentes desejos, que desembocam em uma avidez de consumo." Essa avidez, segundo o espanhol, responde por um lado, ao sofrimento emocional e o vazio existencial do ser humano, tema abordado em uma das palestras. É a alienação do caráter sagrado da vida. Por outro lado é a incessante estimulação ao consumo promovida pelo sistema econômico atual.
Estimulação que chega ao ponto de se impor um padrão cultural para a estética corporal. Motivo que leva muitas pessoas a cultuarem o corpo quase como um fator de sobrevivência, enfoque da segunda palestra: "A Imagem Corporal e os Modelos Culturais. Uma Abordagem da Anorexia e da Bulimia. Para ele, esse culto é quase um subcontato patologizado do tipo narcisista, com uma "coisificação da pessoa em detrimento de um modelo formal de beleza, onde se confunde estética com erotismo". E justifica que por trás dessa moda cultural há interesses econômicos que devem ser analisados com maior atenção.
O especialista admite que o índice de anorexia e bulimia está crescendo muito e criando um alarme de insanidade em muitos países. "Muitas adolescentes são induzidas à auto agredirem-se através da anulação do próprio instinto, com o intuito de conseguirem o modelo que elas entendem ser aquele exigido para serem aceitas e queridas." Meios de comunicação, moda, conversações em família, comportamento dos pais, carências afetivas e amorosas na primeira infância são alguns fatores que contribuem para essa tendência. "Falta de apetite, um estado de ânimo depressivo ou maníaco, o isolamento e o emagrecimento brusco são sintomas que a família deve observar para prevenir um processo de anorexia", recomenda Serrano.

Ética

Para Xavier Serrano, os reflexos das mudanças globais sobre o homem estão exigindo urgência numa tomada de consciência coletiva, incluindo aí uma "ética de moderação, de respeito e harmonia com o ambiente e em relação ao próprio homem. A sociedade civil precisa se organizar", diz. Para ele, cada cidadão deve assumir a defesa dos ecossistemas, nos âmbitos local, regional e planetário. Da mesma forma os dirigentes políticos devem assumir responsabilidade real, no momento de reconhecerem a gravidade da situação e de fomentar as mudanças necessárias, seja nas atitudes ou no comportamento da sociedade. Postura que passa pela recuperação da percepção de uma realidade vital mais ampla, e com maior contato com nossas necessidades e afetos.
É o novo paradigma holístico, tão bem definido como "ecológico" pelo físico Fritjof Crapa, autor de "O Ponto de Mutação", e que teve no austríaco Wilhelm Reich um precursor no que se refere a saúde do homem. Como estudioso da ecologia humana, Reich investigou intuitivamente as leis do funcionamento do ser vivo e da energia vital, criando um sistema científico denominado "orgonomia", atualizado por vanguardistas como os italianos Federico Navarro, Gino Ferri e pelo próprio Xavier Serrano. Os três são hoje os nomes mais destacados nos estudos pós-reichianos, tendo desenvolvido técnicas que facilitam a aplicação da teoria de Reich.
Patrícia de Sabrit volta em alto estilo
Atriz retorna ao Brasil para estrelar "Vidas Cruzadas".  AN_Tevê 
Trabalhando paralelamente com a clínica e a prevenção da enfermidade, a orgonomia pós-reichiana contribui para a modificação desses ecossistemas destrutivos, dos quais participamos todos desde o início da vida. E interagindo ainda com outras disciplinas, como a homeopatia, gestalt, acupuntura, fitoterapia e os oligoelementos, a orgonomia busca a harmonia entre os distintos ecossistemas e uma ecologia global e humana. "Uma forma de contribuir para diminuir a enfermidade, o sofrimento e o desequilíbrio ecológico de nosso planeta Gaia", conclui Serrano.


Carlito Carvalhosa revela
contradições da matéria

Livro e exposição do artista levantam um universo de questões dialéticas entre certeza e incertezas do mundo real

Walter de Queiroz Guerreiro
Especial para Anexo

Pode a obra de arte ser um não-lugar, não remeter a qualquer referência do mundo real, ser abstração pura, longe do processo de formação das imagens eidéticas? Carlito Carvalhosa, artista matérico da Geração 80, tem proposto pinturas e esculturas que continuamente questionam a ambigüidade no conhecimento do mundo real, criando obras que aparentemente não representam nada, como Lorenzo Mammi afirma: não são.
A atual exposição no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, em São Paulo, coincidindo com o lançamento de monografia sobre boa parte da produção do artista, pela Cosac & Naify, levanta um universo de questões dialéticas, entre certeza e incertezas do mundo real.
Característica determinante na produção de arte contemporânea é a necessidade de um código individual de interpretação, que pode não estar explícito, contudo podendo ser intuído através dos sentidos. A obra plástica cria uma poética própria, tornando-se necessário identificar o código criado pelo artista, o caráter semântico, pois embora se proponha negar imagens, termina sempre criando formas que configuram signos, transmitindo do nível microfísico das estruturas sensações macrofísicas da realidade.
Qual o código de Carlito Carvalhosa? Penso, como Jorge Luis Borges, que seja a anulação dos sentidos, que contrariando as considerações metafísicas o espaço seria um incidente no tempo, e as sensações táteis, olfativas, auditivas e visuais, simples miragens do intelecto. Carvalhosa busca o essencial, mas não acredita nas essências, suas esculturas (e pinturas) são a denúncia do engodo, as esculturas tiram partido das propriedades intrínsecas da matéria, o gesso sendo por excelência a imagem da ilusão. Os pares formais que definem a matéria, a partir da dialética mais essencial, a da resistência duro-mole, definem a ambivalência da matéria sólida.
Gesso, como a porcelana já utilizada, e a cera empregada em suas pinturas matéricas questionam nossas sensações do mundo. Nas atuais esculturas de gesso, o que é harmonia, peso, maleabilidade, compacidade? Um corpo trabalhado, dúbio, aparentemente leve quando realmente pesa centenas de quilos, falso por excelência por que essencialmente plástico, tornar-se duro, quebradiço, friável, compacto nas superfícies contínuas enquanto repleto de meandros em seu interior, ele é aquilo que não é, e apesar disso tudo remete sim, à imagem de um mundo existente.
Abaixo das imagens fundamentais dos rochedos, das superfícies inexpugnáveis e extremamente duras, surgem cavernas, fiordes, espera-se a transparência das águas. O interior não corresponde ao exterior, as imagens primordiais que explicariam o universo, nos dão conta de paradoxos. A ambivalência das imagens é a ambivalência dos sentidos, temos vontade de ver, mas o que realmente vemos?

Vida subterrânea

O cerne da matéria demonstra a fragilidade da matéria, o refúgio da cavidade é o das imagens arquetípicas, a primeira e última morada dos seres humanos. E mais longe podemos ir, lembraremos formas gigantescas de ossos, arquitetura básica em sua essência, extensos túneis de uma vida subterrânea.
Nas esculturas de porcelana (1997) palpitava já essa vida subterrânea, de caráter misterioso, separando interior de exterior. A porcelana em si é um paradoxo, matéria maleável, plástica, mole, nascida da união da terra e água, fermentada pelo ar e cozida pelo fogo, do processo alquímico tornando-se dura, vítrea, impermeável. O esmalte lhe dá dureza excepcional, a luz ali refletida repele o gesto, a qualidade tátil e sensual do barro transforma-se em algo frio, diferente do mármore, afastando qualquer sensação de algo vivo.
Carvalhosa perfura as peças, permite sondagens deste mundo interior, insinua possibilidades de se compreender a construção, o constructo da matéria. Os orifícios, como Lorenzo Mammi aponta, dão para espaços negros, ilimitados, impalpáveis, de um lado o branco total, dentro o infinito, e no umbral das cavidades transbordam dúvidas profundas, o negativo do universo. Parece-me totalmente desnecessário e redundante, a eventual aplicação de tubos a esses orifícios, às vezes em diâmetros sucessivamente menores, aplicados ou insinuando-se em direção a eles, sondagens sugeridas de um mundo inexeqüível.
A dialética da exclusão, do pensamento bipolar, transparece nas opções de Carlito Carvalhosa, sinalizando a relatividade da imaginação material, da resistência no valor dos signos, que ultrapassam a própria condição do artista criar, chegando ao grau-zero da expressão. A obra de arte, por ser expressão semiótica, é objeto que reflete outro objeto, e mimética pelo próprio fato de ser linguagem. Merleau­ Ponty indica essa capacidade da arte, de querer descobrir a pretensa positividade das coisas, seu valor residindo não como detentora da verdade, e sim como matriz de idéias, e nisto reside a importância da obra de Carlito Carvalhosa, demonstrar aos sentidos os paradoxos da matéria.

  • Walter de Queiroz Guerreiro, crítico de arte

Exposição: Gabinete de Arte Raquel Arnaud, rua Arthur de Azevedo, 401, fone (11) 3083-6322 São Paulo até 9 dezembro. Livro: Carlito Carvalhosa, organizador Lorenzo Mammi, Cosac & Naify editores, 176 páginas.


Nas telas, a vida
e a obra de Aleijadinho

O cineasta Geraldo Santos Pereira concretiza sonho de transformar em filme a trajetória do famoso escultor mineiro

Alessandra Ferreira
Agência Estado

Foi lançado na última terça-feira, em Belo Horizonte, no Cine Humberto Mauro, o filme "O Aleijadinho", do cineasta mineiro Geraldo Santos Pereira. O filme mostra a intensa vida do artista e recupera os mestres de maior influência para sua formação, como o pai, o arquiteto português Manoel Francisco Lisboa, os artesãos João Gomes Batista, Francisco Xavier de Brito e Manoel da Costa Ataíde, e o poeta e inconfidente Cláudio Manoel da Costa, em cuja biblioteca Aleijadinho conheceu e estudou a obra dos mestres do barroco europeu. Segundo Geraldo Pereira, o filme tenta mostrar o lado humano do artista. O cineasta conta que um primeiro roteiro para o filme foi feito por seu irmão, já falecido, Renato Santos Pereira. Geraldo fez adaptações, uma vez que a versão de Renato realçava os aspectos históricos de uma maneira muito didática.
O filme relata trechos de sua vida pessoal, retratando seu envolvimento amoroso com a mestiça Helena, com quem teve um filho que recebeu o nome do avô, Manoel Francisco. A história do filme é antiga. Geraldo conta que a idéia surgiu em 1954, quando ele e o irmão Renato, então assistentes de direção da Vera Cruz, fizeram uma viagem a Ouro Preto. Franco Zampari, que na época presidia a companhia, quis encampar a idéia, e um pré-roteiro chegou a ser feito. Mas devido aos problemas enfrentados pela Vera Cruz não foi possível prosseguir com o projeto.
Depois disso, Geraldo e Renato trabalharam como cineastas em algumas produções, com destaque para "O Seminarista" , de 1977. Em 1995, a idéia voltou à tona. Por meio lei do audiovisual, foram captados, até 1998, R$ 2,4 milhões. Naquele ano, Renato morreu, mas Geraldo não desistiu. As filmagens foram feitas entre agosto e outubro de 1999, em Ouro Preto, Mariana e Congonhas do Campo. Com a ajuda do escritor Rui Mourão, também diretor do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, Geraldo fez algumas alterações históricas e recompôs os diálogos e hábitos da época. "A vida na época era muito simples, com poucos móveis e ambiente precário", diz Mourão.
Segundo Geraldo, a história que ele conta tem "80% de verdade histórica e o resto de ficção". A veracidade é baseada em documentos históricos, livros e conhecimento de historiadores. No filme, por exemplo, o cineasta, por opção pessoal, omite a família branca do escultor e altera nomes de algumas personagens.
O ator Maurício Gonçalves, no papel de Aleijadinho, diz que tentou ser fiel à intenção do roteiro de realçar o aspecto humano do escultor. "Procurei seguir o que o texto pregava e grande parte da caracterização ficou por conta da maquiagem. Deixei tudo por conta da intuição", afirma Gonçalves. Além dele, o filme tem no elenco Carlos Vereza (Cláudio Manoel da Costa), Edwin Luisi (Manoel Francisco Lisboa), Ruth de Souza (Joana Lopes). Os figurinos são de Raul Belém Machado e Marney Heittman e a música e regência de Edino Krieger.

História

Geraldo diz que mais do que contar uma história, o filme tem a função de resgatar aspectos importantes da cultura mineira. "Minas Gerais é um berço histórico e cultural. A diversidade aqui é encantadora, dos sertões às cidades históricas", afirma. "Estamos vivendo uma ótima fase, com uma vasta diversidade temática. Temos o drama social, o filme histórico, a comédia, o filme nordestino, o sulista", comemora Pereira.
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Entretanto, Geraldo considera o cinema mineiro ainda tímido dentro desta nova fase do cinema brasileiro. "Por Minas ter esta importância histórica, nosso cinema tem de ser mais ousado". Na ocasião do lançamento do filme, que vai contar com a presença do governador Itamar Franco, Geraldo vai fazer um apelo para a criação de uma lei do cinema mineiro, com mecanismos específicos para financiar as produções do Estado.
Depois do lançamento oficial, o filme será exibido, nas principais cidades de Minas, uma das primeiras da fila é Juiz de Fora. Haverá ainda uma exibição pública, na Praça Tiradentes, em Ouro Preto, um desejo pessoal de Geraldo Pereira. Em seguida, o filme entra em circuito nacional.

Manchetes AN

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25/11 - Feliz encontro de talentos em Blumenau
24/11 - O brilho finalmente alcança a rua
23/11 - Em busca da imagem real
22/11 - Duo no Sonora Brasil
21/11 - Eduardo Iglesias - Pintor, gravador e escultor divulga, em Joinville, obras em litografia
20/11 - A responsabilidade de preservar
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MITO DO ROCK

Morto há quatro anos, Renato Russo, líder do "Legião Urbana" completaria 40 aniversários em 2000
Arquivo AN/Outubro de 1994

Eros & Tanathos
memórias da irmã de Renato Russo

Com saudade eterna, Carmem Teresa Manfredini revela singularidades do cantor e compositor

Osmar Gomes
Especial para o Anexo

Admirador de Brasília, o líder do Legião Urbana em muitas de suas letras cantou sua aldeia, com crítica social e reflexões sobre a política, o amor, a religião... Jornalista antes de assumir de vez sua condição de músico, o menino prodígio criou seu codinome, Russo, a partir de sua identificação com o iluminista francês Jean-Jacques Rousseau. Morto faz quatro anos, ele completaria 40 aniversários em 2000, mesma idade da Capital do Brasil. Assim como os livros, a música, a filosofia e a espiritualidade estiveram injetados em sua experiência de vida, as drogas também o acompanharam, principalmente a bebida alcoólica. Mas, conforme a única irmã, Carmem Teresa Manfredini, 37 anos, ele chegou a experimentar até heroína.
Pai de Giuliano Manfredini, hoje com 11 anos, que mora com os avós Renato e Maria do Carmo, o mito do rock and roll nacional sempre preferiu a amizade com as mulheres e teve vários casos com elas. Com relação a sua orientação sexual, porém, os tempos mudaram após o lançamento de Stonewall, disco que celebrou os 25 anos, em 1994, do conflito entre homossexuais e a polícia nova-iorquina provocado pela repressão sexual. Dali em diante ele declarou à família e ao público que era homossexual. Mas, se viveu o tempo todo o mito do amor romântico, segundo a irmã, não encontrou o que queria e essa foi uma de suas infelicidades. Carmem afirma também que o cantor morreu de depressão, "teria uma sobrevida de muito tempo". Era angustiado e vivia sob o signo de Eros, o deus do amor, e Tanathos, o deus da morte.
Quanto aos fãs, que formam uma espécie de religião urbana, eles estão à espera de canções inéditas. Porém, ela afirma que Renato não as deixou na gaveta. O que se sabe é que ele escreveu uma peça de teatro e fez muitos manuscritos sobre música, amor... Os textos poderão ser editados pela família, com participação de três amigos artistas do compositor, os quais estavam no apartamento dele no dia em que morreu, em outubro de 1996. Entre os amigos estava Denise Bandeira.
Apesar de terem muitos amigos e primos no Rio de Janeiro, a relação com Brasília foi ótima logo no início, de acordo com Carmem, "porque que era uma cidade bastante diferente...". "Lá também tinha uma desvantagem, porque a gente dividia o mesmo quarto e aqui cada um teve seu quarto... eu acho que ele gostou muito disso", lembra. A cidade era bastante diferente em 1973, não havia tanta violência, embora já existissem conflitos entre gangues, entre os boys e os punks, do que o poeta falava também em suas músicas urbanas.
Renato, de acordo com ela, gostava muito do espaço aberto, livre, proporcionado pela paisagem da cidade. "Gostava de olhar pela janela e ver o planalto, que era totalmente diferente do Rio e de outras cidades que tinham serra, mar... Ele achava bonito aqui... meio pacífico assim...", destaca Carmem. Mas a cidade do poeta ainda não valorizou, de fato, sua gigantesca obra. Somente está mantido no papel, até hoje, o projeto Memorial Renato Russo. No entanto, as homenagens dos fãs são constantes, todos os dias. "Estão sempre enviando correspondências, descobrem o telefone, às vezes ficam aqui em frente querendo falar com a gente. É uma loucura", observa a irmã do ídolo.
No apartamento da família, localizado na Asa Sul, há um acervo do artista. "Para o Memorial, nós cederíamos roupas, livros, instrumentos musicais, objetos pessoais dele... Seria um presente para a cidade em termos turísticos", defende Carmem. O Memorial será um museu dinâmico, moderno, multimídia. "Onde as pessoas possam ouvir uma música da banda, entrevistas dele, será um museu interativo... é bem interessante a idéia."

As pessoas do poeta

Nas letras, quando ele cita nomes, tais como Eduardo e Mônica, João do Santo Cristo, Leila, o poeta descrevia o comportamento de personagens. São todos nomes fictícios, confirma Carmem, embora a crítica relacione "Leila", uma das músicas do disco "A Tempestade", a uma prima de Renato. "Leila foi, acima de tudo, uma homenagem que ele quis fazer às grandes amigas mulheres, pois ele sempre teve amigas mulheres...".
"Eduardo e Mônica", outro hit tão famoso, fala de muitos casais amigos com diferença de idade, como o Dado (Dado Villa-Lobos) e a Fernanda, por exemplo. "A Fernanda tem oito anos a mais que o Dado. Outros casais também, com diferenças de três, quatro, cinco anos...estão na música. Então, ele brincou com isso", revela Carmem.
João de Santo Cristo, o nome mais citado na música "Faroeste Caboclo", é um recorte social. Renato circulava bastante pelo Distrito Federal. "Ele trabalhou como jornalista em uma rádio do Ministério da Agricultura... então, ele ia muito para as cidades-satélite, onde conversou com muitas pessoas, pois ele adorava conversar para tirar experiência para as próprias letras...", lembra.
Mas não foi a cidade que o inspirou a trilhar o caminho do rock, de acordo com a irmã: "Não foi a cidade em si. Foi a própria influência musical dele. Ele ouvia de tudo, os clássicos, gostava dos eruditos. Teve uma época em que ele fez pesquisas em música nacional, ouviu não só MPB, mas muita música do Nordeste, aquelas antigas que eram tocadas por bandas em coretos de pracinha. Isso na adolescência um pouco tardia, talvez estivesse com 15 ou 16 anos", destaca. Desde pequeno, o enfant terrible do rock nacional lia muitíssimo e escrevia bem, de acordo com a irmã. "Tudo indica que Renato escreveu também uma peça de teatro, que não está no amplo acervo da família. Não me lembro do tema nem do título, nem cheguei a lê-la. O Felemos (integrante do Capital Inicial) deve saber onde está esta peça, de repente está até com ele."


Sexo, amor, drogas,
rock and roll e aids

Nos anos 80 surgiram várias bandas de fôlego em Brasília. À exceção do "Paralamas do Sucesso", que nasceu antes, "Legião" e "Capital Inicial", por exemplo, vieram da "Turma da Colina". Herbert Vianna, vocalista do Paralamas, foi quem deu um empurrãozinho no Legião junto à primeira gravadora com qual firmaram contrato.
"A Turma da Colina" era punk, no sentido literal, de acordo com Carmem: "De alfinete, de cabelo colorido, de coturno, de ouvir Sex Pistols e The Clash e tudo isso...". Nesse momento, foi fundada a primeira banda de Renato, a "Aborto Elétrico", junto com o Felemos e o Flávio Lemos, que hoje são do "Capital Inicial". "Não sei como eles se conheceram, mas eles moraram na Colina, que é ali acima da Universidade de Brasília (UnB). Felemos e Flávio eram recém-chegados da Inglaterra, e também eram cultos, inteligentes. Daí meu irmão os encontrou, estavam meio perdidos, aí eles formaram 'A Tchurma da Colina', que deu em todas as bandas'."
O susto que os pais levaram quando ele assumiu que era punk, foi o mesmo quando Renato revelou sua homossexualidade. "Meus pais não gostariam que o filho deles fosse homossexual, porque eles queriam aquela coisa de um rapaz com esposa, cinco filhos, churrasco no final de semana...Mas ele fez essa opção sexual e eles respeitaram e tudo...".
Quanto ao amor pelos homens, no fundo, no fundo Renato Russo era muito romântico. "Eu acho que ele queria ficar quietinho com uma pessoa, tomando seu chazinho, abraçadinho na chuva, porque ele adorava chuva... Então, assim, o que ele não conseguiu, no fundo, foi o amor, de repente ele até morreu um pouco triste por causa disso porque o que ele queria, realmente, era o amor...
A dependência química de Renato foi uma tristeza para a família. "Só por Hoje" é uma música relacionada à tentativa de recuperação da saúde, segundo a irmã. "Não sou e nunca fui contra o homossexualismo, aliás alguns dos meus melhores amigos são homossexuais e estou preparada para ter um filho ou uma filha homossexual, porque é uma tendência natural. Agora, dependência química é algo muito sério. Porque um homossexual como ele tentava ser feliz e, talvez, se ele não tivesse sido dependente químico, ele teria sido feliz como homossexual."
Bebidas alcoólicas eram o item número um da lista de drogas usadas pelo cantor, mas ele chegou a experimentar até heroína, conforme a irmã. "...Ele tentou heroína sim... Eu me lembro que ele disse ´eu experimentei heroína´ e eu disse que era muito heavy, heroína é realmente pesada. Mas o problema maior era o álcool, porque ele tinha parado com drogas uma época mas aí meio que foi pro álcool e o álcool é terrível...".
A infecção pelo vírus da aids, provavelmente, foi resultada de relações sexuais de risco, "certamente quando estava alcoolizado, não se preveniu, não sabia o que estava fazendo, porque ele era a pessoa que mais pedia para que os outros se prevenissem".
Carmem diz que ele era muito consciente a respeito da síndrome. "Foi uma das primeiras pessoas que pesquisaram sobre o vírus, lia muito, importava livros, queria informações sobre o desenvolvimento e a origem da doença. De repente foi um descaso, uma infelicidade, um infortúnio, um destino, de repente é aquilo que ele cantou ´os bons morrem jovens´". Ele tomava coquetel de medicamentos para inibir a evolução da síndrome, mas desistiu, confirma a irmã. "Olha, os médicos disseram que o Renato não morreu do vírus porque ele tinha a chance de longa sobrevida. Foi depressão. No dia-a-dia, ele era alegre e tudo, mas a alma dele era triste... Ele disse para nós ´já falei tudo que tinha que falar, estou esgotado, fui uma pessoa honesta, trabalhei com honestidade, falei as coisas, estou cansado e não tenho mais nada para falar´".

Religare

A irmã afirma que o compositor era muito religioso, mas não era do tipo que freqüentava igreja. Imagem de Jesus Cristo e da Virgem Maria estavam sempre em suas gavetas. "Ele era muito espiritual, sem essa de católico ou protestante. Ele rezava, muito, acho que rezava toda noite. Não no sentido de credo ("Ave Maria", "Pai Nosso"), mas ele sempre estava em contato, sempre estava pensando."
O santo preferido de Renato era São Franciso de Assis, tanto que ele assistiu ao filme "Irmão Sol, Irmã Lua" (Franco Zefirelli) "umas quatrocentas vezes". Mas não era radical e bebia de citações de várias religiões. Até provérbios árabes inspiraram o eclético artista. Um deles é "a ignorância é vizinha da maldade" (aparece na contracapa do CD "A Tempestade"). "Teve aquele evento, por exemplo, O Chute da Santa, ele ficou muito indignado com aquilo, foi um terror para ele, que achou uma total falta de respeito...Antes de ele morrer, por exemplo, ele falou ´estou em paz com Deus, eu não devo mais nada a ninguém, eu já me entendi com ele´, acho que é uma coisa bonita, você chegar a esse ponto e ir em paz", lembra Carmem.

Spirituals de Porco

Carmem veio à luz três anos e dez meses depois do famoso irmão. Ambos nasceram no Rio de Janeiro. Chegaram em Brasília 13 anos após a inauguração da cidade inventada por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.
Além de professora, a única irmã, que tantas lembranças guarda da convivência com o líder do Legião Urbana, é cantora também. Integra o grupo "Spirituals de Porco", que interpreta músicas de vários estilos, do spirituals e jazz à música popular brasileira. Bem conhecido na Capital, o grupo recebe convites para apresentações em São Paulo e se prepara para gravar um primeiro disco. A pergunta chata e mais comum todos já sabem, como é ser artista e irmã de um cara tão famoso? Ela, educamente, responde com clareza que não é nada fácil por um lado lidar com essa situação, mas que por outra via até acaba servindo de marketing para o "Spirituals". "As pessoas, quando sabem que sou irmã de Renato Russo, porque não deixei de assinar o nome Manfredini, passam a prestar mais atenção na gente."
Carmem segura as lágrimas em alguns momentos quando fala sobre o irmão, mas, como a vida é para ser vivida, ela segue seu caminho, rega suas flores... e canta seus spirituals! (OG)


 
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