|
ANotícia
|
Avidez de consumo
causa sofrimentos
Psicoterapeuta
avalia mudanças globais, coisificação humana
e vazio existencial
Renato Schebela
Especial para Anexo
O
psicoterapeuta espanhol Xavier Serrano Hortelano, um dos maiores
expoentes dos estudos pós - Reich, realizou duas palestras
na Capital nesta semana, abordando o sofrimento emocional, vazio
existencial e também à saúde - anorexia
e bulimia, e a relação dessas com o culto ao corpo.
O palestrante falou sobre a nova ecologia humana e as conseqüências
da globalização sobre o bem-estar dos cidadãos,
tema de seu novo livro "Ao Raiar do Século 21",
a ser lançado em breve na Espanha.
Diretor da Escola Espanhola de Terapia Reichiana, Xavier Serrano
Hercolano é psicoterapeuta pós-reichiano. Ele está
em Santa Catarina acompanhando a formação de um
grupo de profissionais brasileiros, e acredita que a globalização
e as mudanças rápidas que se processam em nível
mundial estão causando um aumento das enfermidades psíquicas,
emocionais e da própria imunologia humana. "Estamos
vivendo uma crise ecológica, crise de identidade como
espécie e crise de valores humanos em nível global"
reconhece Serrano. "As mudanças têm sido apenas
quantitativas e podem nos causar muitos danos", avalia.
Recém chegado de uma Jornada de Ecologia e Espiritualidade
realizada em Tenerife, onde participou da elaboração
de um manifesto assinado por cientistas de várias áreas
e já encaminhado à Organização das
Nações Unidas para Educação, Ciência
e Cultura (Unesco), Serrano acredita que as causas diretas dessa
situação de crise - econômicas, sociais,
demográficas e políticas - são múltiplas
e requerem um enfoque multidisciplinar voltado às tradições
espirituais e humanistas.
Numa visão profunda, Serrano entende que a crise ecológica
é uma manifestação da percepção
fragmentada que nossas sociedades tiveram da natureza. "A
cultura ficou isolada da natureza e o ser humano se anulou em
relação ao intrincado tecido de inter-relações
que constituem a própria vida."
Para o psicoterapeuta e outros cientistas reunidos em Tenerife,
essa crise também é a manifestação
da dessacralização da natureza. "A Terra ficou
reduzida a um mundo de objetos mortos, uma espécie de
máquina que o ser humano explora com o único objetivo
de satisfazer seus sempre crescentes desejos, que desembocam
em uma avidez de consumo." Essa avidez, segundo o espanhol,
responde por um lado, ao sofrimento emocional e o vazio existencial
do ser humano, tema abordado em uma das palestras. É a
alienação do caráter sagrado da vida. Por
outro lado é a incessante estimulação ao
consumo promovida pelo sistema econômico atual.
Estimulação que chega ao ponto de se impor um padrão
cultural para a estética corporal. Motivo que leva muitas
pessoas a cultuarem o corpo quase como um fator de sobrevivência,
enfoque da segunda palestra: "A Imagem Corporal e os Modelos
Culturais. Uma Abordagem da Anorexia e da Bulimia. Para ele,
esse culto é quase um subcontato patologizado do tipo
narcisista, com uma "coisificação da pessoa
em detrimento de um modelo formal de beleza, onde se confunde
estética com erotismo". E justifica que por trás
dessa moda cultural há interesses econômicos que
devem ser analisados com maior atenção.
O especialista admite que o índice de anorexia e bulimia
está crescendo muito e criando um alarme de insanidade
em muitos países. "Muitas adolescentes são
induzidas à auto agredirem-se através da anulação
do próprio instinto, com o intuito de conseguirem o modelo
que elas entendem ser aquele exigido para serem aceitas e queridas."
Meios de comunicação, moda, conversações
em família, comportamento dos pais, carências afetivas
e amorosas na primeira infância são alguns fatores
que contribuem para essa tendência. "Falta de apetite,
um estado de ânimo depressivo ou maníaco, o isolamento
e o emagrecimento brusco são sintomas que a família
deve observar para prevenir um processo de anorexia", recomenda
Serrano.
Ética
Para Xavier Serrano, os reflexos das mudanças globais
sobre o homem estão exigindo urgência numa tomada
de consciência coletiva, incluindo aí uma "ética
de moderação, de respeito e harmonia com o ambiente
e em relação ao próprio homem. A sociedade
civil precisa se organizar", diz. Para ele, cada cidadão
deve assumir a defesa dos ecossistemas, nos âmbitos local,
regional e planetário. Da mesma forma os dirigentes políticos
devem assumir responsabilidade real, no momento de reconhecerem
a gravidade da situação e de fomentar as mudanças
necessárias, seja nas atitudes ou no comportamento da
sociedade. Postura que passa pela recuperação da
percepção de uma realidade vital mais ampla, e
com maior contato com nossas necessidades e afetos.
É o novo paradigma holístico, tão bem definido
como "ecológico" pelo físico Fritjof
Crapa, autor de "O Ponto de Mutação",
e que teve no austríaco Wilhelm Reich um precursor no
que se refere a saúde do homem. Como estudioso da ecologia
humana, Reich investigou intuitivamente as leis do funcionamento
do ser vivo e da energia vital, criando um sistema científico
denominado "orgonomia", atualizado por vanguardistas
como os italianos Federico Navarro, Gino Ferri e pelo próprio
Xavier Serrano. Os três são hoje os nomes mais destacados
nos estudos pós-reichianos, tendo desenvolvido técnicas
que facilitam a aplicação da teoria de Reich.
Patrícia de Sabrit volta em alto estilo
Atriz retorna ao Brasil para estrelar "Vidas Cruzadas".
AN_Tevê |
|
Trabalhando paralelamente com a clínica
e a prevenção da enfermidade, a orgonomia pós-reichiana
contribui para a modificação desses ecossistemas
destrutivos, dos quais participamos todos desde o início
da vida. E interagindo ainda com outras disciplinas, como a homeopatia,
gestalt, acupuntura, fitoterapia e os oligoelementos, a orgonomia
busca a harmonia entre os distintos ecossistemas e uma ecologia
global e humana. "Uma forma de contribuir para diminuir
a enfermidade, o sofrimento e o desequilíbrio ecológico
de nosso planeta Gaia", conclui Serrano.
Carlito Carvalhosa revela
contradições da matéria
Livro e exposição
do artista levantam um universo de questões dialéticas
entre certeza e incertezas do mundo real
Walter de Queiroz Guerreiro
Especial para Anexo
Pode a obra de arte ser um não-lugar, não remeter
a qualquer referência do mundo real, ser abstração
pura, longe do processo de formação das imagens
eidéticas? Carlito Carvalhosa, artista matérico
da Geração 80, tem proposto pinturas e esculturas
que continuamente questionam a ambigüidade no conhecimento
do mundo real, criando obras que aparentemente não representam
nada, como Lorenzo Mammi afirma: não são.
A atual exposição no Gabinete de Arte Raquel Arnaud,
em São Paulo, coincidindo com o lançamento de monografia
sobre boa parte da produção do artista, pela Cosac
& Naify, levanta um universo de questões dialéticas,
entre certeza e incertezas do mundo real.
Característica determinante na produção
de arte contemporânea é a necessidade de um código
individual de interpretação, que pode não
estar explícito, contudo podendo ser intuído através
dos sentidos. A obra plástica cria uma poética
própria, tornando-se necessário identificar o código
criado pelo artista, o caráter semântico, pois embora
se proponha negar imagens, termina sempre criando formas que
configuram signos, transmitindo do nível microfísico
das estruturas sensações macrofísicas da
realidade.
Qual o código de Carlito Carvalhosa? Penso, como Jorge
Luis Borges, que seja a anulação dos sentidos,
que contrariando as considerações metafísicas
o espaço seria um incidente no tempo, e as sensações
táteis, olfativas, auditivas e visuais, simples miragens
do intelecto. Carvalhosa busca o essencial, mas não acredita
nas essências, suas esculturas (e pinturas) são
a denúncia do engodo, as esculturas tiram partido das
propriedades intrínsecas da matéria, o gesso sendo
por excelência a imagem da ilusão. Os pares formais
que definem a matéria, a partir da dialética mais
essencial, a da resistência duro-mole, definem a ambivalência
da matéria sólida.
Gesso, como a porcelana já utilizada, e a cera empregada
em suas pinturas matéricas questionam nossas sensações
do mundo. Nas atuais esculturas de gesso, o que é harmonia,
peso, maleabilidade, compacidade? Um corpo trabalhado, dúbio,
aparentemente leve quando realmente pesa centenas de quilos,
falso por excelência por que essencialmente plástico,
tornar-se duro, quebradiço, friável, compacto nas
superfícies contínuas enquanto repleto de meandros
em seu interior, ele é aquilo que não é,
e apesar disso tudo remete sim, à imagem de um mundo existente.
Abaixo das imagens fundamentais dos rochedos, das superfícies
inexpugnáveis e extremamente duras, surgem cavernas, fiordes,
espera-se a transparência das águas. O interior
não corresponde ao exterior, as imagens primordiais que
explicariam o universo, nos dão conta de paradoxos. A
ambivalência das imagens é a ambivalência
dos sentidos, temos vontade de ver, mas o que realmente vemos?
Vida subterrânea
O cerne da matéria demonstra a fragilidade da matéria,
o refúgio da cavidade é o das imagens arquetípicas,
a primeira e última morada dos seres humanos. E mais longe
podemos ir, lembraremos formas gigantescas de ossos, arquitetura
básica em sua essência, extensos túneis de
uma vida subterrânea.
Nas esculturas de porcelana (1997) palpitava já essa vida
subterrânea, de caráter misterioso, separando interior
de exterior. A porcelana em si é um paradoxo, matéria
maleável, plástica, mole, nascida da união
da terra e água, fermentada pelo ar e cozida pelo fogo,
do processo alquímico tornando-se dura, vítrea,
impermeável. O esmalte lhe dá dureza excepcional,
a luz ali refletida repele o gesto, a qualidade tátil
e sensual do barro transforma-se em algo frio, diferente do mármore,
afastando qualquer sensação de algo vivo.
Carvalhosa perfura as peças, permite sondagens deste mundo
interior, insinua possibilidades de se compreender a construção,
o constructo da matéria. Os orifícios, como Lorenzo
Mammi aponta, dão para espaços negros, ilimitados,
impalpáveis, de um lado o branco total, dentro o infinito,
e no umbral das cavidades transbordam dúvidas profundas,
o negativo do universo. Parece-me totalmente desnecessário
e redundante, a eventual aplicação de tubos a esses
orifícios, às vezes em diâmetros sucessivamente
menores, aplicados ou insinuando-se em direção
a eles, sondagens sugeridas de um mundo inexeqüível.
A dialética da exclusão, do pensamento bipolar,
transparece nas opções de Carlito Carvalhosa, sinalizando
a relatividade da imaginação material, da resistência
no valor dos signos, que ultrapassam a própria condição
do artista criar, chegando ao grau-zero da expressão.
A obra de arte, por ser expressão semiótica, é
objeto que reflete outro objeto, e mimética pelo próprio
fato de ser linguagem. Merleau Ponty indica essa capacidade
da arte, de querer descobrir a pretensa positividade das coisas,
seu valor residindo não como detentora da verdade, e sim
como matriz de idéias, e nisto reside a importância
da obra de Carlito Carvalhosa, demonstrar aos sentidos os paradoxos
da matéria.
- Walter de Queiroz Guerreiro, crítico de arte
Exposição: Gabinete
de Arte Raquel Arnaud, rua Arthur de Azevedo, 401, fone (11)
3083-6322 São Paulo até 9 dezembro. Livro:
Carlito Carvalhosa, organizador Lorenzo Mammi, Cosac & Naify
editores, 176 páginas.
Nas telas, a vida
e a obra de Aleijadinho
O cineasta Geraldo
Santos Pereira concretiza sonho de transformar em filme a trajetória
do famoso escultor mineiro
Alessandra Ferreira
Agência Estado
Foi lançado na última terça-feira, em
Belo Horizonte, no Cine Humberto Mauro, o filme "O Aleijadinho",
do cineasta mineiro Geraldo Santos Pereira. O filme mostra a
intensa vida do artista e recupera os mestres de maior influência
para sua formação, como o pai, o arquiteto português
Manoel Francisco Lisboa, os artesãos João Gomes
Batista, Francisco Xavier de Brito e Manoel da Costa Ataíde,
e o poeta e inconfidente Cláudio Manoel da Costa, em cuja
biblioteca Aleijadinho conheceu e estudou a obra dos mestres
do barroco europeu. Segundo Geraldo Pereira, o filme tenta mostrar
o lado humano do artista. O cineasta conta que um primeiro roteiro
para o filme foi feito por seu irmão, já falecido,
Renato Santos Pereira. Geraldo fez adaptações,
uma vez que a versão de Renato realçava os aspectos
históricos de uma maneira muito didática.
O filme relata trechos de sua vida pessoal, retratando seu envolvimento
amoroso com a mestiça Helena, com quem teve um filho que
recebeu o nome do avô, Manoel Francisco. A história
do filme é antiga. Geraldo conta que a idéia surgiu
em 1954, quando ele e o irmão Renato, então assistentes
de direção da Vera Cruz, fizeram uma viagem a Ouro
Preto. Franco Zampari, que na época presidia a companhia,
quis encampar a idéia, e um pré-roteiro chegou
a ser feito. Mas devido aos problemas enfrentados pela Vera Cruz
não foi possível prosseguir com o projeto.
Depois disso, Geraldo e Renato trabalharam como cineastas em
algumas produções, com destaque para "O Seminarista"
, de 1977. Em 1995, a idéia voltou à tona. Por
meio lei do audiovisual, foram captados, até 1998, R$
2,4 milhões. Naquele ano, Renato morreu, mas Geraldo não
desistiu. As filmagens foram feitas entre agosto e outubro de
1999, em Ouro Preto, Mariana e Congonhas do Campo. Com a ajuda
do escritor Rui Mourão, também diretor do Museu
da Inconfidência, em Ouro Preto, Geraldo fez algumas alterações
históricas e recompôs os diálogos e hábitos
da época. "A vida na época era muito simples,
com poucos móveis e ambiente precário", diz
Mourão.
Segundo Geraldo, a história que ele conta tem "80%
de verdade histórica e o resto de ficção".
A veracidade é baseada em documentos históricos,
livros e conhecimento de historiadores. No filme, por exemplo,
o cineasta, por opção pessoal, omite a família
branca do escultor e altera nomes de algumas personagens.
O ator Maurício Gonçalves, no papel de Aleijadinho,
diz que tentou ser fiel à intenção do roteiro
de realçar o aspecto humano do escultor. "Procurei
seguir o que o texto pregava e grande parte da caracterização
ficou por conta da maquiagem. Deixei tudo por conta da intuição",
afirma Gonçalves. Além dele, o filme tem no elenco
Carlos Vereza (Cláudio Manoel da Costa), Edwin Luisi (Manoel
Francisco Lisboa), Ruth de Souza (Joana Lopes). Os figurinos
são de Raul Belém Machado e Marney Heittman e a
música e regência de Edino Krieger.
História
Geraldo diz que mais do que contar uma história, o
filme tem a função de resgatar aspectos importantes
da cultura mineira. "Minas Gerais é um berço
histórico e cultural. A diversidade aqui é encantadora,
dos sertões às cidades históricas",
afirma. "Estamos vivendo uma ótima fase, com uma
vasta diversidade temática. Temos o drama social, o filme
histórico, a comédia, o filme nordestino, o sulista",
comemora Pereira.
Novo motor eleva vendas do Classe A
Monovolume da Mercedes-Benz fica mais gostoso de dirigir
e ganha mercado graças ao novo propulsor de 1.9 l e 125
cavalos de potência.
AN_Veículos |
|
Entretanto, Geraldo considera o cinema mineiro
ainda tímido dentro desta nova fase do cinema brasileiro.
"Por Minas ter esta importância histórica,
nosso cinema tem de ser mais ousado". Na ocasião
do lançamento do filme, que vai contar com a presença
do governador Itamar Franco, Geraldo vai fazer um apelo para
a criação de uma lei do cinema mineiro, com mecanismos
específicos para financiar as produções
do Estado.
Depois do lançamento oficial, o filme será exibido,
nas principais cidades de Minas, uma das primeiras da fila é
Juiz de Fora. Haverá ainda uma exibição
pública, na Praça Tiradentes, em Ouro Preto, um
desejo pessoal de Geraldo Pereira. Em seguida, o filme entra
em circuito nacional.
 |
 |
| Manchetes AN |
|
|
|
 |
 |
| Leia também |
MITO DO ROCK

Morto há quatro anos, Renato Russo, líder do "Legião
Urbana" completaria 40 aniversários em 2000
Arquivo AN/Outubro de 1994 |
Eros & Tanathos
memórias da irmã de Renato Russo
Com saudade eterna,
Carmem Teresa Manfredini revela singularidades do cantor e compositor
Osmar Gomes
Especial para o Anexo
Admirador de Brasília, o líder do Legião
Urbana em muitas de suas letras cantou sua aldeia, com crítica
social e reflexões sobre a política, o amor, a
religião... Jornalista antes de assumir de vez sua condição
de músico, o menino prodígio criou seu codinome,
Russo, a partir de sua identificação com o iluminista
francês Jean-Jacques Rousseau. Morto faz quatro anos, ele
completaria 40 aniversários em 2000, mesma idade da Capital
do Brasil. Assim como os livros, a música, a filosofia
e a espiritualidade estiveram injetados em sua experiência
de vida, as drogas também o acompanharam, principalmente
a bebida alcoólica. Mas, conforme a única irmã,
Carmem Teresa Manfredini, 37 anos, ele chegou a experimentar
até heroína.
Pai de Giuliano Manfredini, hoje com 11 anos, que mora com os
avós Renato e Maria do Carmo, o mito do rock and roll
nacional sempre preferiu a amizade com as mulheres e teve vários
casos com elas. Com relação a sua orientação
sexual, porém, os tempos mudaram após o lançamento
de Stonewall, disco que celebrou os 25 anos, em 1994, do conflito
entre homossexuais e a polícia nova-iorquina provocado
pela repressão sexual. Dali em diante ele declarou à
família e ao público que era homossexual. Mas,
se viveu o tempo todo o mito do amor romântico, segundo
a irmã, não encontrou o que queria e essa foi uma
de suas infelicidades. Carmem afirma também que o cantor
morreu de depressão, "teria uma sobrevida de muito
tempo". Era angustiado e vivia sob o signo de Eros, o deus
do amor, e Tanathos, o deus da morte.
Quanto aos fãs, que formam uma espécie de religião
urbana, eles estão à espera de canções
inéditas. Porém, ela afirma que Renato não
as deixou na gaveta. O que se sabe é que ele escreveu
uma peça de teatro e fez muitos manuscritos sobre música,
amor... Os textos poderão ser editados pela família,
com participação de três amigos artistas
do compositor, os quais estavam no apartamento dele no dia em
que morreu, em outubro de 1996. Entre os amigos estava Denise
Bandeira.
Apesar de terem muitos amigos e primos no Rio de Janeiro, a relação
com Brasília foi ótima logo no início, de
acordo com Carmem, "porque que era uma cidade bastante diferente...".
"Lá também tinha uma desvantagem, porque a
gente dividia o mesmo quarto e aqui cada um teve seu quarto...
eu acho que ele gostou muito disso", lembra. A cidade era
bastante diferente em 1973, não havia tanta violência,
embora já existissem conflitos entre gangues, entre os
boys e os punks, do que o poeta falava também em suas
músicas urbanas.
Renato, de acordo com ela, gostava muito do espaço aberto,
livre, proporcionado pela paisagem da cidade. "Gostava de
olhar pela janela e ver o planalto, que era totalmente diferente
do Rio e de outras cidades que tinham serra, mar... Ele achava
bonito aqui... meio pacífico assim...", destaca Carmem.
Mas a cidade do poeta ainda não valorizou, de fato, sua
gigantesca obra. Somente está mantido no papel, até
hoje, o projeto Memorial Renato Russo. No entanto, as homenagens
dos fãs são constantes, todos os dias. "Estão
sempre enviando correspondências, descobrem o telefone,
às vezes ficam aqui em frente querendo falar com a gente.
É uma loucura", observa a irmã do ídolo.
No apartamento da família, localizado na Asa Sul, há
um acervo do artista. "Para o Memorial, nós cederíamos
roupas, livros, instrumentos musicais, objetos pessoais dele...
Seria um presente para a cidade em termos turísticos",
defende Carmem. O Memorial será um museu dinâmico,
moderno, multimídia. "Onde as pessoas possam ouvir
uma música da banda, entrevistas dele, será um
museu interativo... é bem interessante a idéia."
As pessoas do poeta
Nas letras, quando ele cita nomes, tais como Eduardo e Mônica,
João do Santo Cristo, Leila, o poeta descrevia o comportamento
de personagens. São todos nomes fictícios, confirma
Carmem, embora a crítica relacione "Leila",
uma das músicas do disco "A Tempestade", a uma
prima de Renato. "Leila foi, acima de tudo, uma homenagem
que ele quis fazer às grandes amigas mulheres, pois ele
sempre teve amigas mulheres...".
"Eduardo e Mônica", outro hit tão famoso,
fala de muitos casais amigos com diferença de idade, como
o Dado (Dado Villa-Lobos) e a Fernanda, por exemplo. "A
Fernanda tem oito anos a mais que o Dado. Outros casais também,
com diferenças de três, quatro, cinco anos...estão
na música. Então, ele brincou com isso", revela
Carmem.
João de Santo Cristo, o nome mais citado na música
"Faroeste Caboclo", é um recorte social. Renato
circulava bastante pelo Distrito Federal. "Ele trabalhou
como jornalista em uma rádio do Ministério da Agricultura...
então, ele ia muito para as cidades-satélite, onde
conversou com muitas pessoas, pois ele adorava conversar para
tirar experiência para as próprias letras...",
lembra.
Mas não foi a cidade que o inspirou a trilhar o caminho
do rock, de acordo com a irmã: "Não foi a
cidade em si. Foi a própria influência musical dele.
Ele ouvia de tudo, os clássicos, gostava dos eruditos.
Teve uma época em que ele fez pesquisas em música
nacional, ouviu não só MPB, mas muita música
do Nordeste, aquelas antigas que eram tocadas por bandas em coretos
de pracinha. Isso na adolescência um pouco tardia, talvez
estivesse com 15 ou 16 anos", destaca. Desde pequeno, o
enfant terrible do rock nacional lia muitíssimo e escrevia
bem, de acordo com a irmã. "Tudo indica que Renato
escreveu também uma peça de teatro, que não
está no amplo acervo da família. Não me
lembro do tema nem do título, nem cheguei a lê-la.
O Felemos (integrante do Capital Inicial) deve saber onde está
esta peça, de repente está até com ele."
Sexo, amor, drogas,
rock and roll e aids
Nos anos 80 surgiram várias bandas de fôlego
em Brasília. À exceção do "Paralamas
do Sucesso", que nasceu antes, "Legião"
e "Capital Inicial", por exemplo, vieram da "Turma
da Colina". Herbert Vianna, vocalista do Paralamas, foi
quem deu um empurrãozinho no Legião junto à
primeira gravadora com qual firmaram contrato.
"A Turma da Colina" era punk, no sentido literal, de
acordo com Carmem: "De alfinete, de cabelo colorido, de
coturno, de ouvir Sex Pistols e The Clash e tudo isso...".
Nesse momento, foi fundada a primeira banda de Renato, a "Aborto
Elétrico", junto com o Felemos e o Flávio
Lemos, que hoje são do "Capital Inicial". "Não
sei como eles se conheceram, mas eles moraram na Colina, que
é ali acima da Universidade de Brasília (UnB).
Felemos e Flávio eram recém-chegados da Inglaterra,
e também eram cultos, inteligentes. Daí meu irmão
os encontrou, estavam meio perdidos, aí eles formaram
'A Tchurma da Colina', que deu em todas as bandas'."
O susto que os pais levaram quando ele assumiu que era punk,
foi o mesmo quando Renato revelou sua homossexualidade. "Meus
pais não gostariam que o filho deles fosse homossexual,
porque eles queriam aquela coisa de um rapaz com esposa, cinco
filhos, churrasco no final de semana...Mas ele fez essa opção
sexual e eles respeitaram e tudo...".
Quanto ao amor pelos homens, no fundo, no fundo Renato Russo
era muito romântico. "Eu acho que ele queria ficar
quietinho com uma pessoa, tomando seu chazinho, abraçadinho
na chuva, porque ele adorava chuva... Então, assim, o
que ele não conseguiu, no fundo, foi o amor, de repente
ele até morreu um pouco triste por causa disso porque
o que ele queria, realmente, era o amor...
A dependência química de Renato foi uma tristeza
para a família. "Só por Hoje" é
uma música relacionada à tentativa de recuperação
da saúde, segundo a irmã. "Não sou
e nunca fui contra o homossexualismo, aliás alguns dos
meus melhores amigos são homossexuais e estou preparada
para ter um filho ou uma filha homossexual, porque é uma
tendência natural. Agora, dependência química
é algo muito sério. Porque um homossexual como
ele tentava ser feliz e, talvez, se ele não tivesse sido
dependente químico, ele teria sido feliz como homossexual."
Bebidas alcoólicas eram o item número um da lista
de drogas usadas pelo cantor, mas ele chegou a experimentar até
heroína, conforme a irmã. "...Ele tentou heroína
sim... Eu me lembro que ele disse ´eu experimentei heroína´
e eu disse que era muito heavy, heroína é realmente
pesada. Mas o problema maior era o álcool, porque ele
tinha parado com drogas uma época mas aí meio que
foi pro álcool e o álcool é terrível...".
A infecção pelo vírus da aids, provavelmente,
foi resultada de relações sexuais de risco, "certamente
quando estava alcoolizado, não se preveniu, não
sabia o que estava fazendo, porque ele era a pessoa que mais
pedia para que os outros se prevenissem".
Carmem diz que ele era muito consciente a respeito da síndrome.
"Foi uma das primeiras pessoas que pesquisaram sobre o vírus,
lia muito, importava livros, queria informações
sobre o desenvolvimento e a origem da doença. De repente
foi um descaso, uma infelicidade, um infortúnio, um destino,
de repente é aquilo que ele cantou ´os bons morrem
jovens´". Ele tomava coquetel de medicamentos para
inibir a evolução da síndrome, mas desistiu,
confirma a irmã. "Olha, os médicos disseram
que o Renato não morreu do vírus porque ele tinha
a chance de longa sobrevida. Foi depressão. No dia-a-dia,
ele era alegre e tudo, mas a alma dele era triste... Ele disse
para nós ´já falei tudo que tinha que falar,
estou esgotado, fui uma pessoa honesta, trabalhei com honestidade,
falei as coisas, estou cansado e não tenho mais nada para
falar´".
Religare
A irmã afirma que o compositor era muito religioso,
mas não era do tipo que freqüentava igreja. Imagem
de Jesus Cristo e da Virgem Maria estavam sempre em suas gavetas.
"Ele era muito espiritual, sem essa de católico ou
protestante. Ele rezava, muito, acho que rezava toda noite. Não
no sentido de credo ("Ave Maria", "Pai Nosso"),
mas ele sempre estava em contato, sempre estava pensando."
O santo preferido de Renato era São Franciso de Assis,
tanto que ele assistiu ao filme "Irmão Sol, Irmã
Lua" (Franco Zefirelli) "umas quatrocentas vezes".
Mas não era radical e bebia de citações
de várias religiões. Até provérbios
árabes inspiraram o eclético artista. Um deles
é "a ignorância é vizinha da maldade"
(aparece na contracapa do CD "A Tempestade"). "Teve
aquele evento, por exemplo, O Chute da Santa, ele ficou muito
indignado com aquilo, foi um terror para ele, que achou uma total
falta de respeito...Antes de ele morrer, por exemplo, ele falou
´estou em paz com Deus, eu não devo mais nada a
ninguém, eu já me entendi com ele´, acho
que é uma coisa bonita, você chegar a esse ponto
e ir em paz", lembra Carmem.
Spirituals de Porco
Carmem veio à luz três anos e dez meses depois
do famoso irmão. Ambos nasceram no Rio de Janeiro. Chegaram
em Brasília 13 anos após a inauguração
da cidade inventada por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.
Além de professora, a única irmã, que tantas
lembranças guarda da convivência com o líder
do Legião Urbana, é cantora também. Integra
o grupo "Spirituals de Porco", que interpreta músicas
de vários estilos, do spirituals e jazz à música
popular brasileira. Bem conhecido na Capital, o grupo recebe
convites para apresentações em São Paulo
e se prepara para gravar um primeiro disco. A pergunta chata
e mais comum todos já sabem, como é ser artista
e irmã de um cara tão famoso? Ela, educamente,
responde com clareza que não é nada fácil
por um lado lidar com essa situação, mas que por
outra via até acaba servindo de marketing para o "Spirituals".
"As pessoas, quando sabem que sou irmã de Renato
Russo, porque não deixei de assinar o nome Manfredini,
passam a prestar mais atenção na gente."
Carmem segura as lágrimas em alguns momentos quando fala
sobre o irmão, mas, como a vida é para ser vivida,
ela segue seu caminho, rega suas flores... e canta seus spirituals!
(OG)
|
|
|