Joinville         -          Quinta-feira, 30 de Novembro de 2000         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  

















Múltiplo

João Bosco se aventura pelo samba, o reggae e o rap e recupera antigos sucessos no formato "banquinho-e-violão"

Os vários ritmos
de João Bosco

Músico passeia por gêneros distintos no show que faz hoje, no CIC, em Florianópolis

Acompanhado de cinco instrumentistas, o cantor e compositor João Bosco faz hoje o show de lançamento de seu mais recente disco, "Na Esquina", no Teatro Ademir Rosa, do Centro Integrado de Cultura (CIC), na Capital. A cantora Elizah abre a noite acompanhada do violonista Luiz Meira e do percussionista Guello. O disco é o 20º de sua carreira e o segundo em que exercita a parceria com o filho Francisco, letrista para o qual a crítica tem reservado fartos elogios. Os instrumentistas da banda juntam-se à voz e ao violão do artista mineiro, num passeio musical pelo jazz, bolero, bossa-nova, samba e até reggae e rap. A afinidade musical entre Bosco e a cantora Elizah tem antecedentes e aconteceu durante o Festival de Música de Itajaí, em setembro, e rendeu à cantora a oportunidade de abrir o show no CIC.
No primeiro bloco do show, Bosco (voz e violão) e os músicos (teclado, guitarra, bateria e percussão) experimentam o que o artista chama de "cruzamento rítmico". O início é dado com o reggae "Mama Palavra", passando pelo samba-afro "Ronco da Cuíca" e pelo samba baiano, em parceria com Waly Salomão e Antônio Cícero, "Zona de Fronteira". Esta parte do show é fechada com o rap "Ditodos", feita em parceria com o filho (como todas do novo disco).
A segunda parte é acústica, uma espécie de reunião de todos os grandes sucessos: "Jade", "Quando o Amor Acontece", "Linha de Passe", entre outros. Para o bis, Bosco tem optado pelo hit "Papel Marchê", acompanhado da novíssima "Passos do Amador", uma versão de "Fool Rush in", de Rude Bloom e Johnnt Mercer. Em suas entrevistas, João costuma dizer que esta última composição, que abre seu mais recente CD, resume sua atitude em relação à carreira. "Quero ser sempre um amador, não quero perder o olhar ingênuo. Para mim, a ingenuidade é, longe de ser defeito, uma virtude a ser cultivada".
A cantora Elizah, que iniciou sua carreira em Florianópolis e hoje está radicada em São Paulo, vai cantar músicas do repertório de seu mais recente show, "Tomadinho pelo Samba Louco Pra Sambar", apresentado em Lisboa, que inclui composições de João Gilberto, Lenine, Tom Jobim, entre outros.

O QUÊ: Show de JOÃO BOSCO E BANDA, com abertura da cantora ELIZAH. QUANDO: Hoje, às 21h. ONDE: Teatro Ademir Rosa do Centro Integrado de Cultura (CIC). Av. Irineu Bornhausen, 5.600, Florianópolis, tel.: (0xx48) 333-2166. QUANTO: R$ 30,00/R$ 15,00 (estudantes), na bilheteria do CIC ou nas Óticas Guanabara, rua Deodoro, 21, tel.: (0xx48) 224-1404.


Roteiro

  • "Mama Palavra"
  • "Holofotes"
  • "Ronco da Cuíca"
  • "Odilê Odilá"
  • "Zona de Fronteira"/"Metamorfose"
  • "Ditodos"
  • "Nação"
  • "Na Esquina"
  • "Desenho de Giz"
  • "Enquanto Espero"
  • "Memória da Pele"
  • "Coisa Feita"
  • "Benguele"/"Incompatibilidade de Gênios"
  • "Granito"/"Jade"
  • "Quando o Amor Acontece"
  • "Corsário"
  • "Linha de Passe"
  • "Passos de Amador"
  • "Papel Machê"
  • "Gagabirô"


Livro resgata os
50 anos da Fiesc

Obra escrita por Christina Baumgarten será lançada hoje

Florianópolis - Um livro marca os 50 anos da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc). A partir de um mix de produtos culturais que eternizem, não só a data emblemática, mas também a própria história, a entidade decidiu investir em uma publicação de resgate do passado. A obra "A Reinvenção da Economia Catarinense - A História da Fiesc e seus Líderes", da jornalista e escritora blumenauense Christina Baumgarten, será lançado hoje, durante a assembléia geral da entidade.
A autora reconstrói um amplo universo, desde personalidades, fatos, peculiaridades, casos, histórias emocionantes, grandes realizações. Esse rico acervo, ainda na memória dos mais antigos e em papéis empoeirados, são retomados desde os ideais de alguns homens de visão que "pensaram" a entidade
O livro enquadra-se na qualificação de produto cultural contemporâneo, amplia o trabalho da imprensa cotidiana, penetra em campos até então vistos superficialmente, recupera o conhecimento de fatos específicos. A obra discute o panorama que provocou o surgimento da entidade, as lutas enfrentadas para implantá-la, destacando o pioneirismo da iniciativa. Também enumera as fases, as diversas administrações e suas diferentes realizações e aquisições.
Christina Baumgarten atualmente é editora de inúmeros jornais segmentados. Já publicou dois livros, o primeiro de poesia (Edição da autora, 1993) e o segundo uma biografia romanceada (HB Editora, 1999). Desde 1996, dirige a Hermann Baumgarten Editora, onde atua como editora-chefe. "A medida que o tempo passa, fica clara a necessidade de manter viva a história das instituições e pessoas que construíram as bases da nossa sociedade. Pesquisar, redigir e editar este livro é também uma homenagem a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, deixaram a sua marca pessoal nesta trajetória", situa a autora.
No prefácio, o atual presidente da Fiesc, Fernando Xavier Faraco, situa o surgimento e a grandeza da entidade. De acordo com ele, a escritora Christina Baumgarten conseguiu extrair do tempo e tornar matéria viva os principais episódios que culminaram com a fundação e os que tiveram destaque nos 50 anos subseqüentes.
O leitor, situa o empresário, não encontrará um texto pesado de economia industrial ou uma fria e burocrática resenha de eventos empresariais. "A autora, além de mostrar que sabe esgrimir com as palavras, catando-as como pedras preciosas para tecer a sua prosa, consegue transformar aquilo que poderia ser extremamente árido, numa história que prende o leitor do começo ao fim."
O texto, define faraco, tem um estilo fluente e leve, porém é denso em informações. Conjugando seu talento de escritora com a atividade jornalística, imprime a objetividade e a exatidão dos dados do bom e competente jornalismo, com a arte da literatura.

O QUÊ: Lançamento do livro "A Reinvenção da Economia Catarinense - A História da Fiesc e seus Líderes", de Christina Baumgarten. QUANDO: Hoje, às 16h. ONDE: Hall de entrada da sede da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), rod. Admar Gonzaga, 2.765, Itacorubi, Florianópolis, tel.: (xx48) 234-0122. QUANTO: R$ 10,00.


Projeto que discute
dança fecha o ano

Florianópolis - O projeto Corpos que Falam encerra as atividades do ano hoje, às 10h30, com a vídeo-palestra Corpo de Idéias, na Sala Multimídia do Centro Integrado de Cultura (CIC). A palestrante é a bailarina Jussara Xavier, mestranda do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e
Semiótica da Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP) e especialista em dança cênica.
Na palestra, Jussara Xavier exibirá os vídeos "Nazareth", com música de José Miguel Wisnick, sobre a obra do compositor Ernesto Nazareth; "Bach", criação livre sobre a obra ed J.S. Bach, com música de Marco Antônio Guimarães; e "Parabelo", mesclando músicas de Tom Zé e José Miguel Wisnick. As peças foram coreografadas por Rodrigo Pederneiras.
O QUÊ: Vídeo-palestra Corpo de Idéias, dentro do projeto Corpos que Falam. QUANDO: Hoje, às 10h30. ONDE: Sala Multimídia do Centro Integrado de Cultura (CIC), av. Irineu Bornhausen, 5600, entrada gratuita.


Encontro de antropólogos
discute saber indígena


Florianópolis - Antropólogos da França, Bélgica, Peru e Brasil discutem xamanismo e saberes de culturas indígenas no encontro antropológico "Saberes Indígenas: Cosmologia, Ecologia e Política", que começa hoje na Ilha de Santa Catarina.
As discussões, patrocinadas pela Comunidade Européia, estendem-se até amanhã, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Organizado pelo Departamento de Antropologia e pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, o evento propõe como tema a relação entre saberes, sistemas simbólicos e xamanismo; o papel desses saberes no manejo do meio ambiente; os processos mediante os quais os saberes são criados, apropriados e transmitidos; a regulação legal do reconhecimento dos direitos intelectuais nativos e as suas implicações legais e políticas.
O encontro reúne os pesquisadores do projeto Transformação e Transmissão dos Saberes sobre o Meio ambiente em Meio indígena e Mestiço (Tsemim), procedentes de instituições belgas, brasileiras, francesas e peruanas.
O Tsemim, patrocinado pela Comissão Européia , desenvolveu entre 1998 e 2000 pesquisas sobre a elaboração e a transmissão dos saberes tradicionais a respeito do meio ambiente em comunidades indígenas e mestiças. Procurava-se uma aproximação crítica ao modo como é produzida e distribuída a ciência indígena, fugindo de estereótipos como "sabedoria milenar", "saber empírico" ou "proximidade à natureza" suas fontes essenciais. O projeto busca compreender o papel desse conhecimento dentro dos projetos de desenvolvimento sustentável promovidos na região amazônica.
As atividades do Tsemim, que inicialmente abarcavam o Acre na Amazônia brasileira e parte da amazônia peruana, tiveram que ser limitadas finalmente ao Peru, em função da incerta situação criada no Brasil pela falta de políticas públicas efetivas de pesquisa e proteção do patrimôniobiológico. Incentivados por essa experiência, e preocupados com o futuro das pesquisas nessa área, os participantes do Tsemim decidiram incorporar ao evento uma discussão sobre os problemas legais e políticos associados ao conhecimento tradicional do meio ambiente.

Programação

Hoje

  • Manhã - Saberes Indígenas, Cosmologia e Xamanismo.
  • Tarde - Conhecimento e Manejo do Meio ambiente em Comunidades Indígenas e "mestiças".

Amanhã

  • Manhã: Saber, Parentesco e Autoridade: a Economia Interna do Saber Indígena.
  • Tarde: Os Direitos Intelectuais dos Povos Indígenas no Cenário Nacional e Global.

Além das quatro mesas redondas estão previstas atividades paralelas, como exposições e exibição de vídeos.

  • Inscrições - No valor de R$ 15,00 podem ser feitas no primeiro dia do evento, no Departamento de Antropologia da UFSC, Campus de Trindade, Florianópolis).
  • Informações - oscar@cfh.ufsc.br


Descanso com charme e sofisticação
Pousadas aliam localização privilegiada e bons serviços.  AN_Turismo 
Oficina - A Aliança Musical, loja de instrumentos musicais, em parceria com alguns músicos e professores de música de Joinville está promovendo desde segunda-feira um workshop. Das 19 às 21 horas as pessoas interessadas em aprender noções básicas sobre vários instrumentos podem comparecer ao auditório da loja. Hoje, é a vez do contrabaixo e da guitarra e amanhã o professor André Stevernagel mostra os segredos da bateria, dando dicas sobre como escolher uma, os movimentos básicos e os ritmos brasileiros. O loja fica na rua Dr. João Colin, 376. Mais informações pelo telefone (0xx47) 422-0953.

Teatro - Estréia amanhã, em Videira, no teatro do Colégio Imaculada Conceição, a peça "Meno Male". O protagonista da história escrita por Juca de Oliveira é o italiano Nicola, um chofer de táxi que leva uma vida normal, junto à filha Angelina, uma adolescente cuja vida se complica por causa de um relacionamento com alguém que quer subir na vida. A peça é um trabalho do grupo "Artistas de Baco".

Manchetes AN

Das últimas edições de Anexo
29/11 - Em defesa da boa música
28/11 - Os primeiros movimentos de um sonho
27/11 - Todas as homenagens para Cartola
26/11 - Avidez de consumo causa sofrimentos
25/11 - Feliz encontro de talentos em Blumenau
24/11 - O brilho finalmente alcança a rua
23/11 - Em busca da imagem real

Leia também

VIVA VOZ
Agenor de Oliveira, o Cartola, fundador da Mangueira

Saudade do mais lírico sambista do Brasil

Nos 20 anos de morte, todas as homenagens a Cartola, o compositor que elevou o samba à categoria de excelência

Débora sabino
Especial para Anexo

Há exatos 20 anos, o samba no morro da Mangueira virou choro: morria o seu fundador, o sambista Cartola, que, além de compor e cantar, teve seu papel ao mostrar gente pobre, sofrida, de cima do morro, quase sempre negra ou parda, tornando-os o símbolo da brasilidade. Cantou também o amor, a exemplo de "As Rosas não Falam", seu maior sucesso.
Data especial hoje para o morro, a escola de samba, o Rio de Janeiro e para a viúva do compositor, dona Zica, quando em vários locais do País acontecem homenagens com exposições de foto, debates sobre a musicalidade de Cartola e até a reedição de suas músicas.
Brusque prestou sua homenagem à Cartola na última segunda-feira, coma presença da viúva do compositor. O Coral da Fundação Educacional de Brusque em sua primeira apresentação fez um "Tributo à Cartola". Sempre emocionada, dona Zica cantou junto, contou histórias do seu amor e das composições. Ao final, ao ouvir "Verde que te Quero Rosa", o hino da Mangueira, ela, aos 87 anos, sambou para toda a platéia.
Ela e Cartola se conheciam desde criança. "Quando era moça, ele já era casado e eu participava dos ensaios na Mangueira, com o casal e sempre os respeitei." Anos mais tarde, ele apareceu na casa do companheiro Carlos Cachaça, seu cunhado, e começou a conversar sobre a vida: ambos estavam viúvos. A partir deste dia, ele passou a procurá-la até que propôs o namoro. "No começo eu não quis, pois ele tinha fama de mulherengo, mas como eu estava viúva, não fazendo nada mesmo... aceitei." Dona Zica viveu 23 anos feliz ao lado do companheiro, que compôs em sua homenagem algumas de suas músicas.
A famosa "As Rosas não Falam" surgiu após ambos observarem uma roseira plantada por Cartola, que cresceu com muitas flores e intenso perfume. Ela relembra que o compositor trancou-se no quarto uma manhã inteira e antes do almoço, mostrou a música. "Desconfiada, perguntei quem era a mulher perfumada e ele disse que era eu. Fiquei feliz", explica.
Cartola sempre apreciou a mesa de um bar, onde bebericava, brincava com o violão e compôs muitos sucessos. Algumas destas composições se perderam no tempo, nunca foram gravadas e acabaram esquecidas. Junto com seu companheiro de samba e rodas e bar, Carlos Cachaça, o primeiro sucesso foi "Pudesse meu Ideal", no Carnaval de 1932. A partir daí, especialmente no final de década de 30, o samba conquistava status de manifestação cultural, recebendo, inclusive, apoio do governo, que estava interessado na consolidação dos símbolos nacionais.
Para sustentar a família, Cartola fazia samba e trabalhava em construções. Com a morte da primeira mulher, Deolinda, afastou-se dos amigos, saiu do morro da Mangueira e parou de fazer música. Foi encontrado anos mais tarde, já casado com dona Zica. Eles tinham o restaurante Zicartola, que reunia amigos e tornou-se ponto de encontro de compositores e músicos. Com o novo amor, ele voltou para a Mangueira e voltou a fazer samba. Desaparecido do meio musical, no início da década de 50, Cartola foi encontrado trabalhando como lavador de carros. Descoberto por Sérgio Porto - o famoso Stanislaw Ponte Preta, este tratou de reinseri-lo no meio artístico.
Reconquistando o sucesso, deixou a Mangueira e foi viver em Jacarepaguá, ao final de sua vida, para poder descansar. Com quase 70 anos, Cartola estava feliz: conseguira o sucesso e conquistara certa estabilidade financeira, junto com Zica, os filhos adotivos e netos. No final dos anos 70 descobriu que estava com câncer na faringe e as idas e vindas do hospital de tornaram constantes. Quando faleceu, a multidão cantava baixinho "As Rosas não Falam". Sobre o caixão, estavam as bandeiras da Mangueira e do Fluminense.
"Faço samba, música pra guardar dentro de si eternamente, no seu coração e não apenas na sua coleção de discos", disse, em 1980, pouco antes de morrer. Muitos interpretaram Cartola: Eliseth Cardoso, Marisa Monte, Cazuza e até Carmem Miranda, levando os sambas para os Estados Unidos.


Família quer lançar livro
e fundar um museu no RJ

Hoje dona Zica vive a divulgar a vida e a obra de Cartola. Freqüentemente recebe visitas de escolas em sua casa, vai a universidades e eventos artísticos, a fim de relembrar o compositor. Ela está cuidando ainda da edição do livro "Na Passarela da Vida", sobre a trajetória do músico. A família também planeja abrir, no Rio de Janeiro, um museu com as lembranças de Cartola.
A sua outra paixão é a Mangueira, participando dos desfiles desde o início. Hoje diz que não tem mais pique, em função da idade, por isso desfila num carro alegórico e não numa ala, como antigamente. Dona Zica ainda trabalha com a escola de samba, que realiza projetos sociais, para mais de 3 mil meninos do morro, com aulas de informática, cursos profissionalizantes e o esporte. Para ela, a Mangueira é tudo. Está sempre envolvida no Carnaval e nas decisões da escola.
Segundo dona Zica, a escola ainda valoriza os moradores do bairro. Dedica quatro alas para a população do morro da Mangueira, e as pessoas que desfilam em outras alas têm que doar as fantasias. Para ela, o samba de hoje não é mais o mesmo de antigamente; "antes era mais melodioso, mais gostoso". Diz ainda que a famíliapossui muitas composições de Cartola que não foram gravadas. "Mas a mídia não quer. Agora só quer saber dessas bundas...", critica. (DS)


O épico "Gladiador"
chega às locadoras

Ridley Scott dá vida nova a um gênero esquecido por Hollywood

Luiz Carlos Merten
Agência Estado

Foi uma jogada arriscada de Ridley Scott. O cineasta que gosta de se definir como um criador de mundos já viajou ao futuro para criar, com "Blade Runner - O Caçador de Andróides", um dos filmes de ficção científica mais famosos do cinema. Também viajou ao passado e aí foi menos feliz com "1492", sua reconstituição da saga de Cristóvão Colombo. Ridley Scott está de volta ao passado. Você talvez já tenha visto "Gladiador" no cinema. O vídeo já está à disposição nas locadoras, e pode-se prever um estouro.
Scott arriscou e venceu. O risco era a sua tentativa de ressuscitar um gênero considerado morto, como o épico greco-romano. O último grande filme do gênero chamou-se, significativamente, "A Queda do Império Romano". Custou tão caro, e faturou tão pouco, que levou à bancarrota o produtor Samuel Bronston, que havia tentado estabelecer um império cinematográfico para produzir só filmes épicos na Espanha. Após o espetacular "El Cid", "A Queda" também marcou o que a maioria da crítica, nos anos 60, considerou um desastre do diretor Anthony Mann. Não é. "A Queda" tem cada vez mais admiradores interessados em revalorizar o filme de Mann.
Um historiador importante, Cedric Gibbons, identifica na corrupção do poder a origem da derrocada de Roma. Sua tese, que inspirou Mann e seus roteiristas (Ben Barzman e Basilio Franchina), é retomada por Scott. Quando Marco Aurélio escolhe seu general, Máximo (Russell Crowe), como sucessor desencadeia a ira do filho, Cômodo, que trama para matar o pai e antecipar-se na sucessão. Cômodo transforma seu general em escravo, o escravo vira gladiador e, na arena romana, enfrenta o imperador semilouco (até mesmo de desejo incestuoso pela irmã).
É um filme grandioso, até mesmo quando incorpora recursos visuais da MTV ao épico romano. Scott também viu "Spartacus", de Stanley Kubrick, o mais belo de todos os épicos romanos. Kubrick documentou de forma definitiva o processo de transformação do escravo em gladiador, que Scott torna mais sucinto, até para fugir à comparação. Mas onde "Gladiador" é mais interessante é justamente nas cenas de arena. Pode-se ver nessas cenas espetaculares, em que os gladiadores se matam numa coreografia violenta e o solo se abre para dar passagem a feras selvagens, o que não deixa de ser uma metáfora do próprio cinema de Hollywood.
O imperador de Roma dá pão e circo ao povo. Literalmente. Scott, na verdade, fez um grande filme subversivo contra Hollywood e o conceito de espetáculo dominante na indústria. Pessimista na sua viagem ao futuro (com "Blade Runner"), o cineasta não o é menos ao viajar ao passado. O destino reservado ao herói realça o caráter sombrio de "Gladiador". É um belo filme tanto quanto, definitivamente, Russell Crowe firma-se como um raro e grande ator.


 
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