Joinville
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Domingo, 8 de Abril de 2001
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Santa Catarina - Brasil
ANotícia
RIQUEZA
Acervo de Wolfgang Ludwig Rau inclui quadros, livros, gravuras,
fotografias, documentos, mapas e até móveis relativos
à vida de Anita Garibaldi e seu companheiro, Giuseppe
Garibaldi Fotos: Sídnei Cruz/ARQUIVO/AN/10/8/1999
Preciosidades de
Wolfgang Rau
Acervo garibaldino
do pesquisador pode ser adquirido por R$ 100 mil pelo governo
do Estado
Ana Cláudia Menezes
O
deputado Joares Ponticelli (PPB) apresentou na última
terça-feira, na reunião da Comissão de Constituição
e Justiça (CCJ) da Assembléia Legislativa, o parecer
favorável ao projeto de lei encaminhado pelo governo do
Estado para adquirir o acervo garibaldino do pesquisador Wolfgang
Ludwig Rau, no valor de R$ 100 mil.
O relatório do parlamentar é o primeiro passo para
que o Executivo possa dar continuidade ao processo de compra
do material do historiador, cujas pesquisas iniciaram no final
da década de 1960 e inclui quadros, livros, gravuras,
fotografias, documentos, mapas, móveis - só para
citar algumas das preciosidades sobre Anita Garibaldi e seu companheiro,
Giuseppe Garibaldi, e a Revolução Farroupilha.
Depois da CCJ, o projeto passará por mais duas comissões
- a de Finanças e de Educação e Cultura,
até ser submetido ao plenário.
Pelo projeto de lei, o acervo será cedido em regime de
comodato (empréstimo gratuito) ao município de
Laguna. Este, por conta da possibilidade de receber o acervo,
encomendou ao Instituto de Patrimônio Histórico
Artístico Nacional (Iphan), um projeto de restauração
do prédio que antigamente abrigou a usina elétrica
da cidade, com características luso-brasileiras, na entrada
de Laguna. A idéia é abrir o espaço para
pesquisadores interessados no assunto. "A doação
existe e o acervo virá para Laguna", assegura a diretora
de museus da Fundação Lagunense de Cultura, Maria
Elizabeth Guilhon Antunes.
O destino do acervo é aguardada com ansiedade pela família
de Wolfgang Rau, nascido na Suíça em 1916, arquiteto
formado pela Faculdade de Engenharia do Paraná e autor
de vários livros sobre o tema. Entre eles, "Anita
Garibaldi - O Perfil de uma Heroína Brasileira",
primeira publicação sobre o assunto, lançada
em 1975 e referência para outros pesquisadores que continuaram
a investigar a vida da "Heroína de Dois Mundos",
nascida em 1821 em local ainda não confirmado - a polêmica
se divide entre Laguna e Tubarão.
Quem conheceu o acervo garibaldino de Rau, acomodado em uma sala
no município de São José, reconhece a sua
importância para o Estado. "Para a história
de Laguna, de Santa Catarina, é fundamental. Espero que
este processo não demore muito e que seja disponibilizado
logo aos pesquisadores", diz a historiadora Elisabete Neves
Pires, gerente de Organização e Funcionamento de
Museus da Fundação Catarinense de Cultura (FCC)
e responsável pelo levantamento quantitativo do acervo
de Wolfgang Rau.
Durante uma semana, em setembro do ano passado, Elisabete registrou
cada uma das peças do historiador para fundamentar o projeto
de lei enviado pelo governo do Estado à Assembléia.
O que ela encontrou representa a dedicação de Rau
a um tema pelo qual ele se apaixonou e dedicou toda a sua vida.
Antes de ser cedido ao município de Laguna, Elisabete,
que é especialista em museologia, alerta para a necessidade
de restauração de algumas peças e a realização
de "um inventário rigoroso" do material.
Quem conheceu o acervo de Rau é ciente da importância
do material para a preservação da história
de Anita e Giuseppe Garibaldi. O jornalista Celso Martins, de
A Notícia visitou-o algumas vezes, como parte de sua pequisa
para elaborar o livro "Aninha virou Anita", lançado
em 1999. "É o acervo mais importante do mundo, dito
por todos os conhecedores do assunto e, inclusive, pelos remanescentes
da família de Garibaldi da Itália", conta.
"Tudo o que existe sobre Anita, o Rau tem", diz.
A aquisição do acervo garibaldino de Rau foi um
compromisso verbal feito pelo governador Esperidião Amin
no lançamento do livro "Anita Garibaldi, uma Heroína
Brasileira", do jornalista Paulo Markun, em 1999, e durante
as comemorações pelos 150 anos da morte de Anita.
Para Markun, a aquisição do acervo é de
"extrema importância" para Santa Catarina. "O
Rau dedicou a vida toda ao assunto. Acho louvável a atitude
do governo. Ele fez a sua parte", diz.
Selo joinvilense Estelar
Music lança CD com festa
Quatro bandas fazem
show hoje para celebrar o "Controle"
Rubens Herbst
Joinville - Pela segunda vez, o selo joinvilense Estelar Music
rastreia a cena roqueira independente do Brasil e traz à
tona boas novidades, condensadas na coletânea "Controle".
As 22 bandas presentes - seis delas de Santa Catarina - contribuem
com uma faixa cada, revelando um variada gama de estilos e uma
qualidade que o grande público nem sonha existir longe
das rádios e dos programas de auditório. O lançamento
oficial do CD acontece hoje, no Big Bowlling, com a Festa Estelar,
animada por Astromato (Campinas), Sanchez, Stereotroia (Joinville)
e Low Tech All Superstars (Blumenau).
Depois de esgotadas as 500 cópias da coletânea "Em
Órbita" (1999), a Estelar se uniu ao selo paulista
Underpress para garantir uma prensagem maior (mil exemplares)
e distribuição mais ampla do novo projeto. Nele,
o esquema é diferente de outras coletâneas do gênero,
em que as bandas pagam para participar e depois recuperam o investimento
recebendo um determinado número de cópias. Já
em "Controle", os grupos cederam suas canções
gratuitamente, para em seguida adquirirem os CDs a preço
de custo e revendê-los. Segundo Elton Costa, 23 anos, dono
e faz-tudo da Estelar, esse processo tem menos riscos e a bandas
- que normalmente contam cada tostão - não precisam
desembolsar antecipadamente.
Se "Em Órbita" era dominada pelas guitar bands,
"Controle" apresenta uma maior diversidade de estilos.
"É para atrair um público mais amplo",
explica Elton. Mas não pense em arroubos românticos,
pandeiros ou barulheira extrema. Na maioria das faixas, devaneios
guitarrísticos convivem com melodias harmoniosas e ganchudas,
como demonstram Shed (Taboão da Serra - SP), Neo (Curitiba)
e os campineiros do Astromato. Com duas demos e o CD "Melodias
de uma Estrela Falsa", lançado no final do ano passado,
na bagagem, o grupo está pronto para o estrelato com seu
power pop com letras em português.
A face suave (com eventuais passagens noise) do estilo se revela
nas canções dos cariocas do Pelvs, dos paranaenses
Grenade (eminentemente acústico), Universo Paralelo (com
pitadas orientais) e Tods (melancolia em dia de sol) e os gaúchos
do Screams of Life, que fazem uma espécie de "MPB
ruidosa".
Entres os mais afeitos à pauleira bruta, destaque para
o hardcore destruidor do Noção de Nada e os gaúchos
Walverdes, que comprovam, com seu fabuloso mix de punk e heavy,
que são um caso único no Sul do País. Os
melhores elementos do grunge (crueza, melodia e vocais fortes)
formam o som do First Resist, de Santos, enquanto o Dago Red,
de Fortaleza, joga Iggy Pop e Velvet Undergound no liquidificador
do bom gosto. O melhor, no entanto, fica reservado para a violência
dos consagrados paulistas do Pin Ups (ainda com Alê nos
vocais) e de seus conterrâneos do Thee Butchers Orchestra,
cujo psychobilly demencial é uma grata surpresa.
É preciso dizer, porém, que as bandas catarinenses
não fazem feio perante os colegas de outros Estados. Vindas
de Blumenau, Enzime, Madeixas e Minds Away mostram personalidade
explorando diferentes vertentes do rock'n'roll. Enzime faz hardcore
melódico com riffs e vocais de primeira; Madeixas compensa
o som abafado com ótimas melodias e perfeita interação
entre vozes femininas e masculinas; e o Minds Away aposta em
fraseados delicados com um leve acento folk.
Os Ambervisions, da Capital, são apenas competentes em
sua surf music, e o joinvilense Vacine presta tributo aos gloriosos
Pixies em "O Eremita", sem envergonhá-los. Também
de Joinville, o Sanchez reitera a premissa de que a garagem é
o melhor lugar do mundo para se fazer rock básico e poderoso.
"Cidade das Flores Murchas" não reproduz o ataque
do grupo ao vivo, mas faz aumentar a doce sensação
de que o disco de estréia já está demorando.
O quê: Festa Estelar, com shows das bandas Astromato,
Sanchez, Stereotroia e Low Tech All Superstars. Quando:
Hoje, às 18h. Onde: Big Bowlling, rua São
Paulo, 185, Joinville, tel.: (0xx47) 433-1233. Quanto:
R$ 5,00 (no local, antes do show). Compra: e-mail estelarmusic@hotmail.com
ou pelo tel.: (0xx47) 436-7050, a R$ 10,00.
Wry se supera em novo disco
Joinville - É aquela velha história: se tal
banda tivesse nascido na Inglaterra ou nos Estados Unidos estaria
famosa, espalhando influência, vendendo milhões
de discos, fazendo turnês ao redor do planeta, bláblábláblá,
como se todos os artistas mundialmente conhecidos tivessem saído
da Europa ou da América. O caso do Wry, porém,
é notável. É de se imaginar o patamar em
que o grupo de Sorocaba (SP) estaria caso fosse cria do Primeiro
Mundo. Exagero? Nem tanto, se for levado em conta o segundo CD
do quarteto, o recém-lançado "Heart-Experience".
O Wry nasceu em 1993, abusando da microfonia e sem se importar
com brasileirices ou fusões vazias - o inglês sempre
foi a língua oficial e as influências (Beatles,
Sex Pistols, The Who, Sonic Youth, Jane's Addiction) passavam
longe da MPB. As coisas começaram a acontecer em 1995,
ano da apresentação no festival JuntaTribo 2 e
do lançamento da elogiadíssima demo-tape "Morangoland".
Com a distorção sob controle e produzindo canções
de grande teor melódico (um pé na psicodelia, outro
no punk rock), o Wry chegou ao CD de estréia em 1998.
Lançado pela Holiday Records, "Direct" é
uma das coisas mais legais surgidas no rock brasileiro nos anos
90, o que, aliado a performances incendiárias, deu ao
quarteto a merecida notoriedade no underground nacional.
"Heart-Experience" aprofunda as inclinações
psicodélicas da banda, expressas por um turbilhão
de guitarras empapuçadas de efeitos em constante movimento.
Canções mais longas, entremeadas por passagens
delicadas e coladas umas às outras, finais falsos e o
uso de cordas convidam o ouvinte para uma jornada colorida em
meio a descargas elétricas. É barulho direcionado
à contemplação, ainda que canções
como "Distancity", "77:00", "You Know
Why" e "Jesus Beggar" incitem à bateção
de cabeça. Coisa de quem passou a adolescência ouvindo
só gente boa e agora compõe maravilhas como "The
New Radio Station n.1", na ânsia de criar um clássico.
Faixas movidas a ácido ("Beautiful Sickness",
"Slice Loving Night") e adrenalina ("Man in Black")
convivem com outras de faro pop incomum para os padrões
nacionais ("In the Breeze", "Her Sunshine",
"That's Me on the Corner"). A gravação
crua, "na cara", e o belíssimo tratamento visual,
contribuem para tornar "Heart-Experience" um marco
da cena independente brasileira - infelizmente, para ser apreciada
por uns poucos felizardos. (RH)
O quê: Heart-Experience, do Wry. Lançamento:
Tamborete Entertainment. Onde: www.wrymusic.com
ou tels.: fones (0xx15) 233-2955/(0xx21) 372-2792. Quanto:
R$ 14,00.
Encontro musical festeja 5
anos do Esquina Brasilis
Brusque - Para marcar os cinco anos do grupo vocal Esquina
Brasilis, acontece hoje, o show "Encontros", que reúne
32 cantores, entre eles os atuais e ex-integrantes. A proposta
é relembrar os espetáculos do passado. Com direção
musical do cantor carioca do Coral Garganta Profunda, Celso Branco,
a apresentação prevê uma grande confraternização
entre os músicos, muitos deles hoje seguindo carreira
na região. A apresentação será no
anfiteatro da Febe, às 20h30.
No repertório, as canções que consagraram
espetáculos, como "Sentimento Brasileiro", em
homenagem ao compositor Chico Buarque. Cazuza, Vinícius
de Moraes, Caetano, João Bosco, Villa Lobos, Lô
Borges, Milton Nascimento e Expresso são alguns dos compositores
interpretados pelo Esquina Brasilis.
O cantor Beto Dunker apresentará a canção
"Viajando Sem Você", faixa do seu CD "O
Tempo", que tem a participação do grupo vocal.
Além do repertório, cuidadosamente escolhido, o
show vai ter ainda os figurinos de todos os outros.
A preparação para o show dos cinco anos iniciou
em março, quando o grupo começou as reuniões
para escolher o repertório e os outros detalhes. Na última
semana aceleraram os preparativos, com a vinda do integrante
do grupo vocal Garganta Profunda, Celso Branco, o diretor do
espetáculo. Os cantores reuniram-se diariamente, intensificando
os ensaios para a apresentação de hoje. Conforme
o maestro do grupo, Sérgio Westrupp, o resultado foi satisfatório,
pois todos estavam afinados.
Westrupp lembra a trajetória do grupo, lembrando que muitos
integrantes seguiram carreira, alguns com destaque. Entre eles,
a cantora Giana Cervi, hoje acompanhando o músico Daniel
Montero, em shows no litoral catarinense. Também o conjunto
Xamã, formado por Valmir Ludwig, Cegala e Didi. Outros
cantores, como Luciano Coelho, Felinho, Bernardo Cardeal e Patrícia
Lübke, que se apresentam em bares de Brusque e região,
com MPB e rock. Destacou também o cantor Rodrigo Vechi,
que hoje dirige o grupo vocal Alina Lamparina e o Intermezzo.
A Música Popular Brasileira (MPB) virou moda em Brusque,
em bares, festas e shows musicais.
O Esquina Brasilis já tem agendado o Circuito Catarinense
de Música, com o apoio da Fundação Catarinense
de Cultura (FCC) e da Prefeitura de Brusque. O grupo deve apresentar-se
em 11 cidades, começando por Gaspar, dia 26 de abril.
Outros componentes devem participar do Circuito Brusquense, que
deve iniciar em maio, nos bairros da cidade. O objetivo é
levar a MPB a lugares nunca antes visitados por grupos vocais.
O apoio é da Prefeitura e Unimed de Brusque.
"Goya" mostra a
decadência de Saura
O espanhol Carlos Saura também já foi considerado
o maior de seu País. Mas isso foi antes que Pedro Almodóvar
tomasse de assalto o cinema da Espanha, a princípio com
seu humor escrachado e marginal e hoje, na plena maturidade de
seus recursos, após filmes como "Carne Trêmula"
e "Tudo sobre Minha Mãe", instalado no trono
como um dos reis do cinema atual em todo o mundo. Grande Almodóvar.
Eclipsou Saura, embora seja mais certo dizer que o próprio
Saura se eclipsou sozinho. A prova é "Goya",
um filme visualmente suntuoso, mas dramaticamente débil,
lançado em DVD e vídeo pelo selo Cannes.
Saura fez o que não deixa de ser um ensaio surreal - a
sua interpretação da vida e obra do pintor que
faz parte das glórias da Espanha. Em cenas marcadas pela
teatralidade, ele alterna passagens da infância, da juventude
e velhice do artista, interpretado por Francisco Rabal e José
Coronado. Algumas cenas são interessantes, na medida em
que Saura faz coexistirem, na mesma imagem, passado e presente,
retomando procedimentos dramáticos que Alf Sjoberg usou
em sua versão de Senhorita Júlia e depois foram
repetidos por Ingmar Bergman ("Morangos Silvestres")
e Paul Newman ("Rachel, Rachel") - embora seja difícil
dizer que Bergman tenha repetido alguma coisa, de alguém.
Na verdade, ele aperfeiçoou Sjoberg e "Morangos Silvestres"
é melhor que "Senhorita Júlia", por mais
que esse filme desfrute de boa reputação entre
os cinéfilos.
Por mais que "Goya" seja decepcionante (e é),
não é inútil assistir a esse filme e isso
por dois motivos. O primeiro deles é a fotografia deslumbrante
de Vittorio Storaro, um mestre da luz, aqui trabalhando num registro
da cor de forma a reproduzir, na tela, as texturas dos quadros
de Goya. E o outro é justamente a mais teatral das cenas,
quando Saura recria a série de Goya sobre a guerra, com
a valiosa contribuição do grupo Fura dels Baus.
"Goya" não exibe o Saura intimista, por momentos
surreal e sempre carregado de simbolismo, que criou universos
imaginários para criticar, com dureza, a sociedade espanhola
na época do franquismo. Essa morbidez, que havia no cinema
de Saura, era perfeita para expressar/criticar o franquismo.
Com a redemocratização da Espanha, o autor perdeu
seu centro. Perdeu-se em filmes mais abertos e hoje é
um pálido carbono de si mesmo. (LCM)
Brechó de
Florianópolis expõe capas de LPs com trilhas sonoras
de novelas que emocionaram o País
Ana Cláudia Menezes
Florianópolis - Um pequeno brechó de roupas
usadas, no centro de Florianópolis, transformou-se num
espaço saudosista para quem acompanhou e se deliciou com
as tramas da teledramaturgia brasileira nas últimas décadas.
Afinal, quem não prendeu a respiração, chorou,
deu gargalhadas, acompanhando até o último capítulo
uma novela? Pois foram essas algumas das emoções
que os irmãos Marcelo e Romy Luciano Machado compartilharam
com milhões de telespectadores brasileiros desde a infância,
quando, meninos em Florianópolis, ganharam de uma tia
a trilha sonora de "Véu de Noiva", novela escrita
por Janete Clair em 1969 e estrelada por Cláudio Marzo
e Regina Duarte.
A capa de "Véu de Noiva" abre a mostra Memória
'Som Livre' da Telenovela Brasileira, em exposição
até o dia 30 de abril no brechó Misteriosa Ilha,
de Marcelo e Romy. Na entrada da loja, uma manequim, com um vestido
da década de 60, segura a capa do disco, "convidando"
para uma leitura mais atenta de outras 90 que integram a exposição.
Todas elas fazem parte da coleção de Romy Luciano,
que também é ator.
Através dos encartes, é possível viajar
pelo mundo das telenovelas e analisar, também, um pouco
da cultura do País nas últimas décadas.
Até hoje elas ditam moda, incorporam a linguagem das ruas
nos diálogos dos personagens, falam de política
e provocam rebuliço no comportamento das pessoas.
Marcelo e Romy idealizaram a mostra depois das comemorações
dos 50 anos da televisão no Brasil, no ano passado - as
telenovelas, segundo eles, não mereceram um capítulo
à altura de sua importância. "A novela existe
desde o nascimento da TV. O que aconteceu foi que, depois de
1963, as apresentações passaram a ser mais regulares",
explica o artista plástico Marcelo Machado.
De "Véu de Noiva", primeiro exemplar da coleção
de Romy, até "Kananga do Japão", exibida
em 1991 pela extinta TV Manchete, a exposição tem
ainda capas de "Estúpido Cúpido", "Nina",
"O Casarão", Top Model", "Ninho da
Serpente", "Carinhoso", "Os Gigantes",
"O Profeta", "Dona Beija", "Locomotivas",
"O Todo Poderoso", só para citar alguns dos
sucessos que até hoje são lembrados por muitas
pessoas. As capas estão expostas nas paredes do brechó,
em meio a roupas de segunda mão. Os clientes podem ainda
escutar as próprias músicas dos LPs.
Marcelo e Romy conhecem muitas das histórias em torno
das telenovelas e de como elas foram utilizadas pelos governantes.
Eles contam que na Rússia, por exemplo, de tão
famosa que era "Mulheres de Areia", o governo daquele
país resolveu transmiti-la nos dias anteriores a uma importante
eleição para evitar que os eleitores viajassem
para outros lugares e deixassem de comparecer ao pleito. No Brasil,
durante o período da ditadura, as novelas sofreram com
as amarras da censura.
"A telenovela é uma fábrica de mito, daquilo
com que o telespectador se identifica. O mito não é
para ser questionado, é para ser vivido na sua realidade.
O homem está deixando a sua fantasia de lado e se tornando
mais prático", explica Marcelo Machado.
O QUÊ: Exposição Memória
'Som Livre' da Telenovela Brasileira. QUANDO: Até
o dia 30 de abril, de segunda a sexta, das 9 às 18h30,
e aos sábados, das 9 às 12h. ONDE: Brechó
Misteriosa Ilha, praça Pereira Oliveira, edifício
Visconde de Ouro Preto, 18, loja 12, Centro, Florianópolis,
tel.: (0xx48) 224-8051.
Ivo Silva guarda
imagens da Capital
Florianópolis - Há oito anos sem realizar uma
exposição individual, o artista plástico
Ivo Silva está reservando uma coleção de
imagens de Florianópolis, criadas com tinta acrílica
sobre tela, para uma exposição ainda sem data marcada.
Em novembro de 2000, ele foi selecionado para o 3º Salão
Nacional Arte de Viver, promovido pela Janssen - Cilag Farmacêutica
Ltda. com utilização da Lei de Incentivo à
Cultura. De São Paulo, onde será realizada a mostra,
a obra selecionada - uma tela abstrata, novidade no conjunto
de sua obra - segue para Paris. A empresa ainda planeja editar
um livro com os quadros e os currículos dos participantes
do salão.
Ao completar 35 anos de trajetória, Ivo Silva guarda em
segredo as telas abstratas que devem ser apresentadas em mostra
especial idealizada em dois locais possíveis, a galeria
de arte da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) ou o
Centro Integrado de Cultura (CIC). Enquanto não acerta
as datas e o local, o artista povoa as paredes de seu ateliê
com retratos da cultura da Ilha de Santa Catarina.
Em sua fase mais recente, além da abstração,
o pintor tem interferido no cenário ilhéu. O bar
Ponto Chic, ou Senadinho, localizado no calçadão
da Felipe Schmidt, inclui na decoração telas onde
o artista retrata jovens, imagens do Carnaval e flores, inéditas
nas sua composição plástica. A novidade
floral é motivada por um pequeno jardim cultivado por
sua mãe.
Ivo Silva nasceu em Ratones, no Norte da Ilha de Santa Catarina,
onde seus avós possuíam engenho de farinha, açúcar
e de cachaça. Atualmente, reside em Capoeiras. Em Florianópolis,
ele realizou a primeira exposição em 1968 na antiga
Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC). Na época era aluno do Colégio de Aplicação.
O trabalho de estréia reunia esculturas em madeira, técnica
adotada por dez anos, até o dia em que se encantou com
telas e tintas. Mais tarde, o material começou a provocar
problemas a sua saúde.
Hoje o pintor contabiliza mais de 60 exposições.
Seu último quadro, ainda no cavalete e somente com as
linhas do desenho, documenta imagens de barcos na Barra da Lagoa.
"Tenho uma fixação pela Barra", confessa.
Aos 49 anos, o artista vive essencialmente da pintura. Somente
abandonou os pincéis quando trabalhou, por dois anos,
no Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). Em seu ateliê,
localizado em Capoeiras, mantém uma exposição
permanente e aceita obras por encomenda. Há pouco mais
de um ano, pintou os principais patrimônios arquitetônicos
ilhéus a pedido da diretoria do Hotel Fayal.
Ivo Silva não se enquadra em nenhuma escola estética,
mas estudou o impressionismo, de onde vem boa dose da inspiração.
Nos seus quadros o que aparece não é necessariamente
a interferência da tendência predominantemente francesa
do final do século 19. O artista, que já pintou
todas as igrejas históricas de Florianópolis, é
notadamente primitivista, como ele próprio admite, e segue
seu caminho sem respeitar as regras da perspectiva, atraindo
os admiradores de sua obra para detalhes muitas vezes imperceptíveis
na cena real.
O QUÊ: ATELIÊ DO ARTISTA IVO SILVA. ONDE:
Rua Conde Afonso Celso, 89, Capoeiras, tels.: (0xx48) 9968-5908
e 248-0434. QUANDO: Exposição Permanente.
Visitação de segunda a sexta, das 9 às 12h.
Visitas podem ser agendadas por telefone. QUANTO: Entre
R$ 380,00 a R$ 2.800,00.
A subversão do terror clássico
"O Jovem Frankenstein",
em que Mel Brooks faz rir da obra de Mary Shelley, é lançado
em DVD
Luiz Carlos Merten
Agência Estado
São Paulo - Há tempos Mel Brooks é carta
fora do baralho, mas houve um tempo em que ele era grande - um
dos grandes do humor, no cinema americano, no começo dos
anos 70. Foi a época em que ele fez "O Jovem Frankenstein",
lançado em DVD pela Fox. O disco digital é cheio
de extras. Além das tradicionais seleção
de cenas e escolha de legendas, traz cenas cortadas, erros de
rodagem, making of e um comentário do próprio ator
e diretor, tornando ainda mais divertido assistir a essa versão
particular do romance de Mary Shelley.
O cinema contou muitas vezes a história do barão
Frankenstein, que cria um novo homem à base de restos
de cadáveres. O objetivo era quase sempre assustar e,
desde o Frankenstein de James Whale, em 1931, alguns desses filmes
- aquele, especialmente - viraram clássicos de terror.
Mel Brooks resolveu fazer rir com a sua versão da história
do infeliz monstro. Há humor na sua fantasia de terror,
mas a mistura não faz de "O Jovem Frankenstein"
um antecessor dessa corrente atual que tanto sucesso faz, como
os filmes da série "Pânico" e "Todo
Mundo em Pânico".
Este último arrebentou nas bilheterias brasileiros e é,
acredite, o maior sucesso de público da Lumire, uma empresa
que tem, na sua carteira de distribuição, títulos
de prestígio como "Central do Brasil" e "O
Paciente Inglês". A Lumire aposta agora no terror
teen de Drácula 2000", em cartaz em todo o País.
O filme não é de todo ruim, mas se ressente de
um elenco sem carisma. Enfim, é outra história
que não vem ao caso quando o assunto é "O
Jovem Frankenstein".
Na sua grande fase, na época desse filme, de "Banzé
no Oeste "e também de "Alta Ansiedade"
e "Silent Movie", Melvin Kaminsky - que entrou para
a história do show biz como Mel Brooks - revelou uma preferência
toda especial por fazer humor em cima dos gêneros clássicos
da produção de Hollywood. Fez isso com o western,
o suspense à Hitchcock, mas nenhum de seus filmes é
mais eficiente do que "O Jovem Frankenstein", quando
Brooks se voltou para o terror. Ele tomou como ponto de partida
o Frankenstein de 1931.
Contra a vontade dos produtores, fez o filme em preto-e-branco,
nos próprios cenários onde havia sido rodado o
clássico antigo, tudo isso com a predisposição,
certamente alcançada, de capturar a atmosfera e a textura
do trabalho de Whale. Mas, como o objetivo de Brooks é
fazer rir com os mesmos elementos que Whale usava para provocar
medo, para mexer com áreas sombrias do espectador - e
dele mesmo, como se pôde verificar no belo filme a ele
dedicado: "Deuses e Monstros" -, a seriedade de "O
Jovem Frankenstein" é constantemente subvertida por
piadas que fazem parte da antologia da comédia cinematográfica.
O ponto de partida é o mesmo. Querendo igualar-se a Deus,
o barão, que também é doutor, Frankenstein
resolve criar um homem à sua imagem e semelhança.
Para isso rouba cadáveres e, com um pedaço daqui,
outro dali, monta o seu homem, ao qual uma engenhoca científica
consegue insuflar o sopro da vida.
Só que dá tudo errado. A experiência é
reversível, o monstro começa a apodrecer, libera
pulsões homicidas. Tudo o que é denso, macabro
e assustador no livro de Mary Shelley (e na versão de
Whale, a mais famosa), vira aqui alavanca para o riso. Assim,
o ajudante do barão -cientista, Igor, interpretado por
Marty Feldman - aquele comediante de olhos esbugalhados que integrava
a trupe do diretor -, é um corcunda cuja corcova está
sempre mudando de lado, ora à esquerda, ora à direita.
Pelos padrões de hoje, pode ser considerado politicamente
incorreto, mas é hilariante.
Como o cinema de Mel Brooks sempre teve o pé no burlesco,
o barão e o monstro recriam o número Puttin' on
the Ritz, de forma também hilária. Mas o grande
momento do filme é o encontro do monstro com o cego -
interpretado por Gene Hackman, numa participação
especial.
Serviço
O Jovem Frankenstein (Young Frankenstein). EUA, 1974. Direção
e interpretação de Mel Brooks, com Gene Wilder.
Fox. P&B, DVD, R$ 35,00.