Joinville         -          Domingo, 8 de Abril de 2001         -          Santa Catarina - Brasil
 
 
ANotícia  












RIQUEZA
Acervo de Wolfgang Ludwig Rau inclui quadros, livros, gravuras, fotografias, documentos, mapas e até móveis relativos à vida de Anita Garibaldi e seu companheiro, Giuseppe Garibaldi
Fotos: Sídnei Cruz/ARQUIVO/AN/10/8/1999


Preciosidades de
Wolfgang Rau

Acervo garibaldino do pesquisador pode ser adquirido por R$ 100 mil pelo governo do Estado

Ana Cláudia Menezes

O deputado Joares Ponticelli (PPB) apresentou na última terça-feira, na reunião da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembléia Legislativa, o parecer favorável ao projeto de lei encaminhado pelo governo do Estado para adquirir o acervo garibaldino do pesquisador Wolfgang Ludwig Rau, no valor de R$ 100 mil.
O relatório do parlamentar é o primeiro passo para que o Executivo possa dar continuidade ao processo de compra do material do historiador, cujas pesquisas iniciaram no final da década de 1960 e inclui quadros, livros, gravuras, fotografias, documentos, mapas, móveis - só para citar algumas das preciosidades sobre Anita Garibaldi e seu companheiro, Giuseppe Garibaldi, e a Revolução Farroupilha. Depois da CCJ, o projeto passará por mais duas comissões - a de Finanças e de Educação e Cultura, até ser submetido ao plenário.
Pelo projeto de lei, o acervo será cedido em regime de comodato (empréstimo gratuito) ao município de Laguna. Este, por conta da possibilidade de receber o acervo, encomendou ao Instituto de Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan), um projeto de restauração do prédio que antigamente abrigou a usina elétrica da cidade, com características luso-brasileiras, na entrada de Laguna. A idéia é abrir o espaço para pesquisadores interessados no assunto. "A doação existe e o acervo virá para Laguna", assegura a diretora de museus da Fundação Lagunense de Cultura, Maria Elizabeth Guilhon Antunes.
O destino do acervo é aguardada com ansiedade pela família de Wolfgang Rau, nascido na Suíça em 1916, arquiteto formado pela Faculdade de Engenharia do Paraná e autor de vários livros sobre o tema. Entre eles, "Anita Garibaldi - O Perfil de uma Heroína Brasileira", primeira publicação sobre o assunto, lançada em 1975 e referência para outros pesquisadores que continuaram a investigar a vida da "Heroína de Dois Mundos", nascida em 1821 em local ainda não confirmado - a polêmica se divide entre Laguna e Tubarão.
Quem conheceu o acervo garibaldino de Rau, acomodado em uma sala no município de São José, reconhece a sua importância para o Estado. "Para a história de Laguna, de Santa Catarina, é fundamental. Espero que este processo não demore muito e que seja disponibilizado logo aos pesquisadores", diz a historiadora Elisabete Neves Pires, gerente de Organização e Funcionamento de Museus da Fundação Catarinense de Cultura (FCC) e responsável pelo levantamento quantitativo do acervo de Wolfgang Rau.
Durante uma semana, em setembro do ano passado, Elisabete registrou cada uma das peças do historiador para fundamentar o projeto de lei enviado pelo governo do Estado à Assembléia. O que ela encontrou representa a dedicação de Rau a um tema pelo qual ele se apaixonou e dedicou toda a sua vida. Antes de ser cedido ao município de Laguna, Elisabete, que é especialista em museologia, alerta para a necessidade de restauração de algumas peças e a realização de "um inventário rigoroso" do material.
Quem conheceu o acervo de Rau é ciente da importância do material para a preservação da história de Anita e Giuseppe Garibaldi. O jornalista Celso Martins, de A Notícia visitou-o algumas vezes, como parte de sua pequisa para elaborar o livro "Aninha virou Anita", lançado em 1999. "É o acervo mais importante do mundo, dito por todos os conhecedores do assunto e, inclusive, pelos remanescentes da família de Garibaldi da Itália", conta. "Tudo o que existe sobre Anita, o Rau tem", diz.
A aquisição do acervo garibaldino de Rau foi um compromisso verbal feito pelo governador Esperidião Amin no lançamento do livro "Anita Garibaldi, uma Heroína Brasileira", do jornalista Paulo Markun, em 1999, e durante as comemorações pelos 150 anos da morte de Anita. Para Markun, a aquisição do acervo é de "extrema importância" para Santa Catarina. "O Rau dedicou a vida toda ao assunto. Acho louvável a atitude do governo. Ele fez a sua parte", diz.


Selo joinvilense Estelar
Music lança CD com festa

Quatro bandas fazem show hoje para celebrar o "Controle"

Rubens Herbst

Joinville - Pela segunda vez, o selo joinvilense Estelar Music rastreia a cena roqueira independente do Brasil e traz à tona boas novidades, condensadas na coletânea "Controle". As 22 bandas presentes - seis delas de Santa Catarina - contribuem com uma faixa cada, revelando um variada gama de estilos e uma qualidade que o grande público nem sonha existir longe das rádios e dos programas de auditório. O lançamento oficial do CD acontece hoje, no Big Bowlling, com a Festa Estelar, animada por Astromato (Campinas), Sanchez, Stereotroia (Joinville) e Low Tech All Superstars (Blumenau).
Depois de esgotadas as 500 cópias da coletânea "Em Órbita" (1999), a Estelar se uniu ao selo paulista Underpress para garantir uma prensagem maior (mil exemplares) e distribuição mais ampla do novo projeto. Nele, o esquema é diferente de outras coletâneas do gênero, em que as bandas pagam para participar e depois recuperam o investimento recebendo um determinado número de cópias. Já em "Controle", os grupos cederam suas canções gratuitamente, para em seguida adquirirem os CDs a preço de custo e revendê-los. Segundo Elton Costa, 23 anos, dono e faz-tudo da Estelar, esse processo tem menos riscos e a bandas - que normalmente contam cada tostão - não precisam desembolsar antecipadamente.
Se "Em Órbita" era dominada pelas guitar bands, "Controle" apresenta uma maior diversidade de estilos. "É para atrair um público mais amplo", explica Elton. Mas não pense em arroubos românticos, pandeiros ou barulheira extrema. Na maioria das faixas, devaneios guitarrísticos convivem com melodias harmoniosas e ganchudas, como demonstram Shed (Taboão da Serra - SP), Neo (Curitiba) e os campineiros do Astromato. Com duas demos e o CD "Melodias de uma Estrela Falsa", lançado no final do ano passado, na bagagem, o grupo está pronto para o estrelato com seu power pop com letras em português.
A face suave (com eventuais passagens noise) do estilo se revela nas canções dos cariocas do Pelvs, dos paranaenses Grenade (eminentemente acústico), Universo Paralelo (com pitadas orientais) e Tods (melancolia em dia de sol) e os gaúchos do Screams of Life, que fazem uma espécie de "MPB ruidosa".
Entres os mais afeitos à pauleira bruta, destaque para o hardcore destruidor do Noção de Nada e os gaúchos Walverdes, que comprovam, com seu fabuloso mix de punk e heavy, que são um caso único no Sul do País. Os melhores elementos do grunge (crueza, melodia e vocais fortes) formam o som do First Resist, de Santos, enquanto o Dago Red, de Fortaleza, joga Iggy Pop e Velvet Undergound no liquidificador do bom gosto. O melhor, no entanto, fica reservado para a violência dos consagrados paulistas do Pin Ups (ainda com Alê nos vocais) e de seus conterrâneos do Thee Butchers Orchestra, cujo psychobilly demencial é uma grata surpresa.
É preciso dizer, porém, que as bandas catarinenses não fazem feio perante os colegas de outros Estados. Vindas de Blumenau, Enzime, Madeixas e Minds Away mostram personalidade explorando diferentes vertentes do rock'n'roll. Enzime faz hardcore melódico com riffs e vocais de primeira; Madeixas compensa o som abafado com ótimas melodias e perfeita interação entre vozes femininas e masculinas; e o Minds Away aposta em fraseados delicados com um leve acento folk.
Os Ambervisions, da Capital, são apenas competentes em sua surf music, e o joinvilense Vacine presta tributo aos gloriosos Pixies em "O Eremita", sem envergonhá-los. Também de Joinville, o Sanchez reitera a premissa de que a garagem é o melhor lugar do mundo para se fazer rock básico e poderoso. "Cidade das Flores Murchas" não reproduz o ataque do grupo ao vivo, mas faz aumentar a doce sensação de que o disco de estréia já está demorando.

O quê: Festa Estelar, com shows das bandas Astromato, Sanchez, Stereotroia e Low Tech All Superstars. Quando: Hoje, às 18h. Onde: Big Bowlling, rua São Paulo, 185, Joinville, tel.: (0xx47) 433-1233. Quanto: R$ 5,00 (no local, antes do show). Compra: e-mail estelarmusic@hotmail.com ou pelo tel.: (0xx47) 436-7050, a R$ 10,00.


Wry se supera em novo disco

Joinville - É aquela velha história: se tal banda tivesse nascido na Inglaterra ou nos Estados Unidos estaria famosa, espalhando influência, vendendo milhões de discos, fazendo turnês ao redor do planeta, bláblábláblá, como se todos os artistas mundialmente conhecidos tivessem saído da Europa ou da América. O caso do Wry, porém, é notável. É de se imaginar o patamar em que o grupo de Sorocaba (SP) estaria caso fosse cria do Primeiro Mundo. Exagero? Nem tanto, se for levado em conta o segundo CD do quarteto, o recém-lançado "Heart-Experience".
O Wry nasceu em 1993, abusando da microfonia e sem se importar com brasileirices ou fusões vazias - o inglês sempre foi a língua oficial e as influências (Beatles, Sex Pistols, The Who, Sonic Youth, Jane's Addiction) passavam longe da MPB. As coisas começaram a acontecer em 1995, ano da apresentação no festival JuntaTribo 2 e do lançamento da elogiadíssima demo-tape "Morangoland". Com a distorção sob controle e produzindo canções de grande teor melódico (um pé na psicodelia, outro no punk rock), o Wry chegou ao CD de estréia em 1998. Lançado pela Holiday Records, "Direct" é uma das coisas mais legais surgidas no rock brasileiro nos anos 90, o que, aliado a performances incendiárias, deu ao quarteto a merecida notoriedade no underground nacional.
"Heart-Experience" aprofunda as inclinações psicodélicas da banda, expressas por um turbilhão de guitarras empapuçadas de efeitos em constante movimento. Canções mais longas, entremeadas por passagens delicadas e coladas umas às outras, finais falsos e o uso de cordas convidam o ouvinte para uma jornada colorida em meio a descargas elétricas. É barulho direcionado à contemplação, ainda que canções como "Distancity", "77:00", "You Know Why" e "Jesus Beggar" incitem à bateção de cabeça. Coisa de quem passou a adolescência ouvindo só gente boa e agora compõe maravilhas como "The New Radio Station n.1", na ânsia de criar um clássico.
Faixas movidas a ácido ("Beautiful Sickness", "Slice Loving Night") e adrenalina ("Man in Black") convivem com outras de faro pop incomum para os padrões nacionais ("In the Breeze", "Her Sunshine", "That's Me on the Corner"). A gravação crua, "na cara", e o belíssimo tratamento visual, contribuem para tornar "Heart-Experience" um marco da cena independente brasileira - infelizmente, para ser apreciada por uns poucos felizardos. (RH)

O quê: Heart-Experience, do Wry. Lançamento: Tamborete Entertainment. Onde: www.wrymusic.com ou tels.: fones (0xx15) 233-2955/(0xx21) 372-2792. Quanto: R$ 14,00.


Encontro musical festeja 5
anos do Esquina Brasilis

Brusque - Para marcar os cinco anos do grupo vocal Esquina Brasilis, acontece hoje, o show "Encontros", que reúne 32 cantores, entre eles os atuais e ex-integrantes. A proposta é relembrar os espetáculos do passado. Com direção musical do cantor carioca do Coral Garganta Profunda, Celso Branco, a apresentação prevê uma grande confraternização entre os músicos, muitos deles hoje seguindo carreira na região. A apresentação será no anfiteatro da Febe, às 20h30.
No repertório, as canções que consagraram espetáculos, como "Sentimento Brasileiro", em homenagem ao compositor Chico Buarque. Cazuza, Vinícius de Moraes, Caetano, João Bosco, Villa Lobos, Lô Borges, Milton Nascimento e Expresso são alguns dos compositores interpretados pelo Esquina Brasilis.
O cantor Beto Dunker apresentará a canção "Viajando Sem Você", faixa do seu CD "O Tempo", que tem a participação do grupo vocal. Além do repertório, cuidadosamente escolhido, o show vai ter ainda os figurinos de todos os outros.
A preparação para o show dos cinco anos iniciou em março, quando o grupo começou as reuniões para escolher o repertório e os outros detalhes. Na última semana aceleraram os preparativos, com a vinda do integrante do grupo vocal Garganta Profunda, Celso Branco, o diretor do espetáculo. Os cantores reuniram-se diariamente, intensificando os ensaios para a apresentação de hoje. Conforme o maestro do grupo, Sérgio Westrupp, o resultado foi satisfatório, pois todos estavam afinados.
Westrupp lembra a trajetória do grupo, lembrando que muitos integrantes seguiram carreira, alguns com destaque. Entre eles, a cantora Giana Cervi, hoje acompanhando o músico Daniel Montero, em shows no litoral catarinense. Também o conjunto Xamã, formado por Valmir Ludwig, Cegala e Didi. Outros cantores, como Luciano Coelho, Felinho, Bernardo Cardeal e Patrícia Lübke, que se apresentam em bares de Brusque e região, com MPB e rock. Destacou também o cantor Rodrigo Vechi, que hoje dirige o grupo vocal Alina Lamparina e o Intermezzo. A Música Popular Brasileira (MPB) virou moda em Brusque, em bares, festas e shows musicais.
O Esquina Brasilis já tem agendado o Circuito Catarinense de Música, com o apoio da Fundação Catarinense de Cultura (FCC) e da Prefeitura de Brusque. O grupo deve apresentar-se em 11 cidades, começando por Gaspar, dia 26 de abril. Outros componentes devem participar do Circuito Brusquense, que deve iniciar em maio, nos bairros da cidade. O objetivo é levar a MPB a lugares nunca antes visitados por grupos vocais. O apoio é da Prefeitura e Unimed de Brusque.


"Goya" mostra a
decadência de Saura

O espanhol Carlos Saura também já foi considerado o maior de seu País. Mas isso foi antes que Pedro Almodóvar tomasse de assalto o cinema da Espanha, a princípio com seu humor escrachado e marginal e hoje, na plena maturidade de seus recursos, após filmes como "Carne Trêmula" e "Tudo sobre Minha Mãe", instalado no trono como um dos reis do cinema atual em todo o mundo. Grande Almodóvar. Eclipsou Saura, embora seja mais certo dizer que o próprio Saura se eclipsou sozinho. A prova é "Goya", um filme visualmente suntuoso, mas dramaticamente débil, lançado em DVD e vídeo pelo selo Cannes.
Saura fez o que não deixa de ser um ensaio surreal - a sua interpretação da vida e obra do pintor que faz parte das glórias da Espanha. Em cenas marcadas pela teatralidade, ele alterna passagens da infância, da juventude e velhice do artista, interpretado por Francisco Rabal e José Coronado. Algumas cenas são interessantes, na medida em que Saura faz coexistirem, na mesma imagem, passado e presente, retomando procedimentos dramáticos que Alf Sjoberg usou em sua versão de Senhorita Júlia e depois foram repetidos por Ingmar Bergman ("Morangos Silvestres") e Paul Newman ("Rachel, Rachel") - embora seja difícil dizer que Bergman tenha repetido alguma coisa, de alguém. Na verdade, ele aperfeiçoou Sjoberg e "Morangos Silvestres" é melhor que "Senhorita Júlia", por mais que esse filme desfrute de boa reputação entre os cinéfilos.
Por mais que "Goya" seja decepcionante (e é), não é inútil assistir a esse filme e isso por dois motivos. O primeiro deles é a fotografia deslumbrante de Vittorio Storaro, um mestre da luz, aqui trabalhando num registro da cor de forma a reproduzir, na tela, as texturas dos quadros de Goya. E o outro é justamente a mais teatral das cenas, quando Saura recria a série de Goya sobre a guerra, com a valiosa contribuição do grupo Fura dels Baus.
"Goya" não exibe o Saura intimista, por momentos surreal e sempre carregado de simbolismo, que criou universos imaginários para criticar, com dureza, a sociedade espanhola na época do franquismo. Essa morbidez, que havia no cinema de Saura, era perfeita para expressar/criticar o franquismo. Com a redemocratização da Espanha, o autor perdeu seu centro. Perdeu-se em filmes mais abertos e hoje é um pálido carbono de si mesmo. (LCM)

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Em algum
lugar do passado

Brechó de Florianópolis expõe capas de LPs com trilhas sonoras de novelas que emocionaram o País

Ana Cláudia Menezes

Florianópolis - Um pequeno brechó de roupas usadas, no centro de Florianópolis, transformou-se num espaço saudosista para quem acompanhou e se deliciou com as tramas da teledramaturgia brasileira nas últimas décadas. Afinal, quem não prendeu a respiração, chorou, deu gargalhadas, acompanhando até o último capítulo uma novela? Pois foram essas algumas das emoções que os irmãos Marcelo e Romy Luciano Machado compartilharam com milhões de telespectadores brasileiros desde a infância, quando, meninos em Florianópolis, ganharam de uma tia a trilha sonora de "Véu de Noiva", novela escrita por Janete Clair em 1969 e estrelada por Cláudio Marzo e Regina Duarte.
A capa de "Véu de Noiva" abre a mostra Memória 'Som Livre' da Telenovela Brasileira, em exposição até o dia 30 de abril no brechó Misteriosa Ilha, de Marcelo e Romy. Na entrada da loja, uma manequim, com um vestido da década de 60, segura a capa do disco, "convidando" para uma leitura mais atenta de outras 90 que integram a exposição. Todas elas fazem parte da coleção de Romy Luciano, que também é ator.
Através dos encartes, é possível viajar pelo mundo das telenovelas e analisar, também, um pouco da cultura do País nas últimas décadas. Até hoje elas ditam moda, incorporam a linguagem das ruas nos diálogos dos personagens, falam de política e provocam rebuliço no comportamento das pessoas.
Marcelo e Romy idealizaram a mostra depois das comemorações dos 50 anos da televisão no Brasil, no ano passado - as telenovelas, segundo eles, não mereceram um capítulo à altura de sua importância. "A novela existe desde o nascimento da TV. O que aconteceu foi que, depois de 1963, as apresentações passaram a ser mais regulares", explica o artista plástico Marcelo Machado.
De "Véu de Noiva", primeiro exemplar da coleção de Romy, até "Kananga do Japão", exibida em 1991 pela extinta TV Manchete, a exposição tem ainda capas de "Estúpido Cúpido", "Nina", "O Casarão", Top Model", "Ninho da Serpente", "Carinhoso", "Os Gigantes", "O Profeta", "Dona Beija", "Locomotivas", "O Todo Poderoso", só para citar alguns dos sucessos que até hoje são lembrados por muitas pessoas. As capas estão expostas nas paredes do brechó, em meio a roupas de segunda mão. Os clientes podem ainda escutar as próprias músicas dos LPs.
Marcelo e Romy conhecem muitas das histórias em torno das telenovelas e de como elas foram utilizadas pelos governantes. Eles contam que na Rússia, por exemplo, de tão famosa que era "Mulheres de Areia", o governo daquele país resolveu transmiti-la nos dias anteriores a uma importante eleição para evitar que os eleitores viajassem para outros lugares e deixassem de comparecer ao pleito. No Brasil, durante o período da ditadura, as novelas sofreram com as amarras da censura.
"A telenovela é uma fábrica de mito, daquilo com que o telespectador se identifica. O mito não é para ser questionado, é para ser vivido na sua realidade. O homem está deixando a sua fantasia de lado e se tornando mais prático", explica Marcelo Machado.

O QUÊ: Exposição Memória 'Som Livre' da Telenovela Brasileira. QUANDO: Até o dia 30 de abril, de segunda a sexta, das 9 às 18h30, e aos sábados, das 9 às 12h. ONDE: Brechó Misteriosa Ilha, praça Pereira Oliveira, edifício Visconde de Ouro Preto, 18, loja 12, Centro, Florianópolis, tel.: (0xx48) 224-8051.


Ivo Silva guarda
imagens da Capital

Florianópolis - Há oito anos sem realizar uma exposição individual, o artista plástico Ivo Silva está reservando uma coleção de imagens de Florianópolis, criadas com tinta acrílica sobre tela, para uma exposição ainda sem data marcada. Em novembro de 2000, ele foi selecionado para o 3º Salão Nacional Arte de Viver, promovido pela Janssen - Cilag Farmacêutica Ltda. com utilização da Lei de Incentivo à Cultura. De São Paulo, onde será realizada a mostra, a obra selecionada - uma tela abstrata, novidade no conjunto de sua obra - segue para Paris. A empresa ainda planeja editar um livro com os quadros e os currículos dos participantes do salão.
Ao completar 35 anos de trajetória, Ivo Silva guarda em segredo as telas abstratas que devem ser apresentadas em mostra especial idealizada em dois locais possíveis, a galeria de arte da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) ou o Centro Integrado de Cultura (CIC). Enquanto não acerta as datas e o local, o artista povoa as paredes de seu ateliê com retratos da cultura da Ilha de Santa Catarina.
Em sua fase mais recente, além da abstração, o pintor tem interferido no cenário ilhéu. O bar Ponto Chic, ou Senadinho, localizado no calçadão da Felipe Schmidt, inclui na decoração telas onde o artista retrata jovens, imagens do Carnaval e flores, inéditas nas sua composição plástica. A novidade floral é motivada por um pequeno jardim cultivado por sua mãe.
Ivo Silva nasceu em Ratones, no Norte da Ilha de Santa Catarina, onde seus avós possuíam engenho de farinha, açúcar e de cachaça. Atualmente, reside em Capoeiras. Em Florianópolis, ele realizou a primeira exposição em 1968 na antiga Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Na época era aluno do Colégio de Aplicação. O trabalho de estréia reunia esculturas em madeira, técnica adotada por dez anos, até o dia em que se encantou com telas e tintas. Mais tarde, o material começou a provocar problemas a sua saúde.
Hoje o pintor contabiliza mais de 60 exposições. Seu último quadro, ainda no cavalete e somente com as linhas do desenho, documenta imagens de barcos na Barra da Lagoa. "Tenho uma fixação pela Barra", confessa.
Aos 49 anos, o artista vive essencialmente da pintura. Somente abandonou os pincéis quando trabalhou, por dois anos, no Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). Em seu ateliê, localizado em Capoeiras, mantém uma exposição permanente e aceita obras por encomenda. Há pouco mais de um ano, pintou os principais patrimônios arquitetônicos ilhéus a pedido da diretoria do Hotel Fayal.
Ivo Silva não se enquadra em nenhuma escola estética, mas estudou o impressionismo, de onde vem boa dose da inspiração. Nos seus quadros o que aparece não é necessariamente a interferência da tendência predominantemente francesa do final do século 19. O artista, que já pintou todas as igrejas históricas de Florianópolis, é notadamente primitivista, como ele próprio admite, e segue seu caminho sem respeitar as regras da perspectiva, atraindo os admiradores de sua obra para detalhes muitas vezes imperceptíveis na cena real.

O QUÊ: ATELIÊ DO ARTISTA IVO SILVA. ONDE: Rua Conde Afonso Celso, 89, Capoeiras, tels.: (0xx48) 9968-5908 e 248-0434. QUANDO: Exposição Permanente. Visitação de segunda a sexta, das 9 às 12h. Visitas podem ser agendadas por telefone. QUANTO: Entre R$ 380,00 a R$ 2.800,00.


A subversão do terror clássico

"O Jovem Frankenstein", em que Mel Brooks faz rir da obra de Mary Shelley, é lançado em DVD

Luiz Carlos Merten
Agência Estado

São Paulo - Há tempos Mel Brooks é carta fora do baralho, mas houve um tempo em que ele era grande - um dos grandes do humor, no cinema americano, no começo dos anos 70. Foi a época em que ele fez "O Jovem Frankenstein", lançado em DVD pela Fox. O disco digital é cheio de extras. Além das tradicionais seleção de cenas e escolha de legendas, traz cenas cortadas, erros de rodagem, making of e um comentário do próprio ator e diretor, tornando ainda mais divertido assistir a essa versão particular do romance de Mary Shelley.
O cinema contou muitas vezes a história do barão Frankenstein, que cria um novo homem à base de restos de cadáveres. O objetivo era quase sempre assustar e, desde o Frankenstein de James Whale, em 1931, alguns desses filmes - aquele, especialmente - viraram clássicos de terror. Mel Brooks resolveu fazer rir com a sua versão da história do infeliz monstro. Há humor na sua fantasia de terror, mas a mistura não faz de "O Jovem Frankenstein" um antecessor dessa corrente atual que tanto sucesso faz, como os filmes da série "Pânico" e "Todo Mundo em Pânico".
Este último arrebentou nas bilheterias brasileiros e é, acredite, o maior sucesso de público da Lumire, uma empresa que tem, na sua carteira de distribuição, títulos de prestígio como "Central do Brasil" e "O Paciente Inglês". A Lumire aposta agora no terror teen de Drácula 2000", em cartaz em todo o País. O filme não é de todo ruim, mas se ressente de um elenco sem carisma. Enfim, é outra história que não vem ao caso quando o assunto é "O Jovem Frankenstein".
Na sua grande fase, na época desse filme, de "Banzé no Oeste "e também de "Alta Ansiedade" e "Silent Movie", Melvin Kaminsky - que entrou para a história do show biz como Mel Brooks - revelou uma preferência toda especial por fazer humor em cima dos gêneros clássicos da produção de Hollywood. Fez isso com o western, o suspense à Hitchcock, mas nenhum de seus filmes é mais eficiente do que "O Jovem Frankenstein", quando Brooks se voltou para o terror. Ele tomou como ponto de partida o Frankenstein de 1931.
Contra a vontade dos produtores, fez o filme em preto-e-branco, nos próprios cenários onde havia sido rodado o clássico antigo, tudo isso com a predisposição, certamente alcançada, de capturar a atmosfera e a textura do trabalho de Whale. Mas, como o objetivo de Brooks é fazer rir com os mesmos elementos que Whale usava para provocar medo, para mexer com áreas sombrias do espectador - e dele mesmo, como se pôde verificar no belo filme a ele dedicado: "Deuses e Monstros" -, a seriedade de "O Jovem Frankenstein" é constantemente subvertida por piadas que fazem parte da antologia da comédia cinematográfica. O ponto de partida é o mesmo. Querendo igualar-se a Deus, o barão, que também é doutor, Frankenstein resolve criar um homem à sua imagem e semelhança. Para isso rouba cadáveres e, com um pedaço daqui, outro dali, monta o seu homem, ao qual uma engenhoca científica consegue insuflar o sopro da vida.
Só que dá tudo errado. A experiência é reversível, o monstro começa a apodrecer, libera pulsões homicidas. Tudo o que é denso, macabro e assustador no livro de Mary Shelley (e na versão de Whale, a mais famosa), vira aqui alavanca para o riso. Assim, o ajudante do barão -cientista, Igor, interpretado por Marty Feldman - aquele comediante de olhos esbugalhados que integrava a trupe do diretor -, é um corcunda cuja corcova está sempre mudando de lado, ora à esquerda, ora à direita. Pelos padrões de hoje, pode ser considerado politicamente incorreto, mas é hilariante.
Como o cinema de Mel Brooks sempre teve o pé no burlesco, o barão e o monstro recriam o número Puttin' on the Ritz, de forma também hilária. Mas o grande momento do filme é o encontro do monstro com o cego - interpretado por Gene Hackman, numa participação especial.

Serviço
O Jovem Frankenstein (Young Frankenstein). EUA, 1974. Direção e interpretação de Mel Brooks, com Gene Wilder. Fox. P&B, DVD, R$ 35,00.


 
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