Joinville         -          Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2001         -          Santa Catarina - Brasil
 
 
ANotícia  












CARNAVAL ILHÉU
Entre os retratos de foliões, o ilustrador Edgar Vasques (abaixo) registra com aquarelas a vida animal e uma "Popozuda"
Fotos Divulgação

Vasques está no Vazio

Ao lado de duas mostras fotográficas, cartunista gaúcho expõe 15 desenhos em novo espaço cultural criado em Florianópolis

Jeferson Lima

Três exposições ocupam o Vazio Espaço Cultural, galeria de arte e bar, recém inaugurado no Centro da Capital. São duas mostras fotográficas e uma de desenhos do cartunista e ilustrador Edgar Vasquez. Gaúcho de Porto Alegre, Edgar visita Florianopolis desde a década de de 70 e durante os anos 80, o artista desenhou - depois coloriu com aquarela - as imagens que captou do Carnaval ilhéu nos arredores da praça 15.
São 15 desenhos, nos quais ele elabora retratos de foliões. Entre as pinturas, há algumas que merecem destaque. "Descanso do Guerreiro" mostra uma carnavalesca exausta depois de uma noite de folia com uma das mãos na cabeça. Noutra imagem, realizada em 1983, aparece o bloco da Aids, quando a doença começou a dar seus primeiros sinais. Na imagem há quatro enfermeiros e um doente sobre uma maca. Um deles leva um tubo de soro para o doente deitado. "Naturalmente tratava-se de cachaça", diz Vasquez, que veio a Florianópolis abrir a mostra na sexta-feira.
Os desenhos de Vasquez ainda mostram uma "Futura Mamãe", "Titia", "Popozuda", "Duas Damas", "Rebolado", "Trombeta", "Princezinho", "Sem Palpite", entre outras. Na pintura "Jogo do Bicho", o artista gaúcho retratou um conjunto de bichos, apresentando um leão e um jacaré bem-humorados, entre outras figuras dos jogo. Parte desta seqüência de desenhos apresentada no Vazio, já foi exposta para o público de Florianópolis em 1991, no ex-bar Ressaca, na avenida Beira-mar Norte, com imagens do verão e do Carnaval.
Uma das mostras fotográficas é "20 Anos do Império dos Sentidos", bloco carnavalesco fundado em 1981. A agremiação reunia estudantes e professores do curso de jornalismo e funcionários da Eletrosul. O grupo criava suas próprias canções e promovia concurso de fantasias em praça pública, nos arredores do bar Roma.
A segunda exposição fotográfica é "Recordando os Carnavais do Havana". No local onde hoje funciona o Vazio Espaço de Arte, havia nos anos 80 o Havana bar. O proprietário, Amilton Alexandre, o Mosquito, um dos estudantes presos em 1979, durante o protesto contra a visita do então general-presidente João Batista Figueiredo, criou no lugar um espaço que reunia a juventude de esquerda da cidade.
O painel com as fotos foi montado a partir de fotografias fornecidas pelos próprios freqüentadores do Carnaval do Havana. Nas imagens aparecem a economiária Suzana Cardoso, o fotógrafo Philippe Arruda e os jornalistas Ricardinho Medeiros, Vana Goulart e João Mendonça. O bar já está fechado há mais de dez anos e a proposta de Amilton para a galeria de arte é fazer o espaço funcionar periodicamente com exposições e bar.

O QUÊ: REVIVAL DO CARNAVAL DOS ANOS 80. ONDE: Vazio Espaço Cultural, rua Saldanha Marinho, s/nº, centro. QUANDO: Até 15 de março. Visitação: De segunda a sábado das 19 às 23h. QUANTO: Gratuito.


Histórias do Carnaval
carioca viram livro

Do surgimento de Zé Pereira ao sambódromo, publicação resgata a maior festa do Brasil

Beatriz Coelho Silva
Agência Estado

Rio - O Carnaval carioca tem uma história de mais de cem anos e mil histórias que viraram folclore e foram incorporadas ao imaginário da cidade. Para separar o que é real do que é anedota, o ator, produtor de shows e escritor Haroldo Costa lançou, nesta semana, ""100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro", livro simpático que traz, em pouco mais de 200 páginas, com muitas ilustrações de época, um resumo de como a festa se tornou o que é hoje, um grande espetáculo para turistas no sambódromo, e um momento de convivência democrática, nos blocos que surgem aos borbotões nos bairros da cidade.
Costa tem autoridade para falar do assunto. Carioca da Piedade, na zona Norte, brinca o Carnaval desde a infância e acompanha a festa profissionalmente há 40 anos, como jurado do desfile das escolas de samba e, atualmente, como comentarista da transmissão da TV Globo. Durante o resto do ano, vive também da música e da cultura popular. "Sou uma espécie de biscateiro, porque produzo e dirijo shows no Brasil e no exterior, pesquiso e escrevo sobre o Carnaval e sou ator, quando me chamam", conta. Modéstia dele, já que sua estréia como ator foi no papel- título na primeira montagem de "Orfeu da Conceição", que juntou pela primeira vez, em 1956, Tom Jobim e Vinícius de Morais.
Salgueirense de coração desde 1963, quando a escola fez Chica da Silva entrar para a história do Brasil, Haroldo Costa vive o Carnaval até os cabelos. É casado com Mary, uma das três irmãs Marinho (as outras são Norma e Olívia), mulatas esculturais que fizeram escola como passistas do Salgueiro, entre os anos 60 e 70. Norma, por sua vez, é casada com o cartunista Lan, que fez a capa do livro e com quem Haroldo tem discussões iradas - para decidir qual escola é melhor: se seu Salgueiro ou a Portela do artista ítalo-carioca. "Ainda bem que ele começa a briga em casa, pelo mesmo motivo, e aparece aqui para fazer as pazes", brinca Haroldo. "Nós nos damos tão bem que estamos até pensando em atualizar nossa história do Carnaval
com texto meu e ilustrações dele, intitulada é Hoje!, lançada nos anos 70."

Pesquisas

"100 Anos de História do Carnaval do Rio de Janeiro" foi encomendado pela Editora Vitale e escrito no segundo semestre do ano passado, com base em pesquisas na Biblioteca Nacional e em arquivos particulares - os do próprio Haroldo Costa ou os de amigos. "Antigamente, a imprensa dava muito mais espaço para o Carnaval. Jornais como "O País", "Gazeta de Notícias", "Correio da Manhã" e até o "Jornal do Brasil" tinham colunas fixas sobre o assunto, a partir de setembro. Havia também uma Associação de Cronistas Carnavalescos, muito atuante", explica. "Edições desses jornais e livros de pesquisadores, como Hiran Araújo, Jota Efegê e Eneida de Moraes, foram minha principal fonte de consulta."
Para facilitar a vida do leitor, o livro é dividido em 20 capítulos, que tratam de vários aspectos da festa desde sua origem, ainda no tempo da colônia. Foi quando, segundo Haroldo Costa, os açorianos que chegaram ao Rio trouxeram o entrudo, brincadeira que consistia em jogar nos incautos bolas de cera (os limões de cheiro) que explodiam ao atingir o alvo, molhando a vítima com perfume, água ou outros líquidos menos publicáveis. A manifestação cresceu quando os negros trouxeram para ela sua música e dança, tiradas do candomblé. Segundo Haroldo Costa, desde os primórdios o Carnaval é uma festa democrática, em que o povo e a elite se misturam sem problemas.
"O entrudo era proibido, mas até os dois imperadores, dom Pedro 1º e dom Pedro 2º, adoravam a brincadeira. No início, os escravos só participavam fabricando a água de cheiro e carregando a água que os moradores dos sobrados jogavam em quem passava na rua", lembra o pesquisador. "Lá pelo fim da primeira metade do século 19, depois que o Zé Pereira apareceu, os cordões e blocos começaram a se organizar para sair na rua. Nesta época, os negros passaram a participar, com seus cantos e dança de candomblé, e a festa cresceu em tamanho e importância. Intelectuais como José de Alencar e José do Patrocínio se misturavam à multidão para brincar o Carnaval."

Batendo o bumbo

O citado Zé Pereira é o comerciante José Nogueira de Azevedo Paredes, que, no Carnaval de 1846, comprou um bumbo e saiu pela cidade tocando e cantando polcas e maxixes, gêneros musicais da época. Fez tanto sucesso que virou personagem do teatro musicado. Nos anos seguintes, grupos semelhantes espalharam-se pela cidade. O primeiro baile de Carnaval foi um pouco antes, em 1840, num hotel do Largo do Rocio (hoje Praça Tiradentes), por iniciativa de uma atriz italiana que queria reproduzir aqui a atmosfera do Carnaval veneziano. Já o primeiro grupo organizado a sair na rua foi o Congresso de Sumidades Carnavalescas, que desfilou pela rua do Ouvidor, no centro, em 1855, tendo o escritor José de Alencar entre os foliões. Já nessa época, a mania de grandeza do carioca classificou a festa como "o maior Carnaval do mundo".
Apesar de o título falar só de cem anos de história, Haroldo Costa achou importante contar esses precedentes. "Meu foco é o século 20, mas era preciso situar a história, para não parecer que tenha surgido do nada. O Carnaval existe em vários outros lugares, como New Orleans, nos Estados Unidos, Nice, Cannes e Veneza, na Europa, e no Caribe. Mas só no Brasil espalhou-se por todo o País", observa. "O do Rio, e, mais recentemente, os de Salvador e Recife são os mais famosos, mas todas as cidades têm Carnaval, não importa o tamanho ou a localização."

"100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro", de Haroldo Costa, Editora Vitale


Exagerado, Hannibal
peca no mau gosto

Lola Aronovich
Especial para Anexo

Se eu pudesse resumir "Hannibal" em uma só palavra, seria "argh". Em todos os sentidos. E, se minha recomendação servisse pra alguma coisa, eu diria: não deixe de ver o primeiro ("O Silêncio dos Inocentes"). Por favor, deixe de ver o segundo.
Pelo andar da carruagem, deu pra perceber que não sou uma fã de "Hannibal". O maior sentimento é de decepção, de enganação. Como um filme tão digno como o de 1991 pode virar um caça-níqueis tão descarado em 2001? Será que o público que vai ao cinema se infantilizou tanto assim em uma década?
A resposta parece ser "sim". Siga a lógica. Os espectadores que hoje comparecem às salas de exibição haviam acabado de deixar as fraldas em 1991. Tinham, no máximo, sete anos. Nunca ouviram falar em "Silêncio dos Inocentes". Se algum deles viu sem querer, deve ter achado meio chatinho, tinha tanto diálogo, né? Na verdade, era um thriller psicológico de primeira, com personagens bem construídos e mais sugestão que apelação; enfim, um terror sutil. Imagina se adolescente quer assistir a isso? Ele quer mais é ver sangue. Teen é aquele bicho que adora surfar nos sites de aberrações da Internet (onde confere pessoas deformadas e constata que até que sua aparência não está tão bizarra assim, em comparação) e que conta os detalhes de "Faces da Morte" para seus amiguinhos. Daí o que faz a equipe de Dino de Laurentis? Captando bem o estilo da época, exageraram nas nojeiras, tornaram tudo explícito, retiraram qualquer tentativa de profundidade. A cena do cérebro, por exemplo, em que uma vítima come pedaços de seu próprio crânio, não tem outro propósito além do sadismo declarado. Aposto que esta cena apenas já garante a propaganda boca-a-boca entre os adolescentes.
Tudo está desvirtuado em "Hannibal". Se, em "Silêncio", o canibal era um psicanalista brilhante e de bom gosto, um gourmet, nesta continuação ele gasta o tempo fazendo piadinhas e trocadilhos infames. Clarice Starling, a intrépida agente do FBI, tornou-se insossa nas mãos de Julianne Moore. Com todo respeito à Julianne, que normalmente é excelente atriz, no final, quando sua personagem está tonta, nem pareceu que ela teve que atuar. E Anthony Hopkins aparece preguiçoso, com uma placa de "estou aqui pelo dinheiro" na testa. O grande Hopkins não se encontrava exatamente na flor da idade na época de "Silêncio" - tinha 54 anos. Dez anos se passaram, e a gente pode ver cada ruga em seu rosto de canibal. A idade pesou. Quando ele se prepara para retalhar alguém, ficamos com medo que ele dê mau jeito nas costas. O serial killer geriátrico não mais assusta.
Normal. Ridley Scott virou diretor de aluguel. E andaram espalhando umas heresias sobre Jodie Foster, que recusou o papel de Clarice. Ou não quiseram pagar o cachê de 20 milhões pra ela, ou ela rejeitou o filme por uma questão de princípios. Qualquer que seja o motivo, Jodie acertou mais uma vez. É uma das atrizes com mais cérebro em Hollywood.
O desolador é que o roteiro é baseado num best-seller palatável assinado por Thomas Harris, e foi adaptado por David Mamet, um dos maiores dramaturgos americanos contemporâneos, que dispensa apresentações (mas, se você insiste, é ele o autor de "Jogo de Emoções" e "As Coisas Mudam" - e como mudam!), e por Steven Zaillian, diretor do ótimo "Lances Inocentes" e roteirista de nada mais nada menos que "A Lista de Schindler". Como uma dupla dessas redige algo tão acéfalo quanto "Hannibal"?
A melhor seqüência, digamos a única que revela algum talento por parte dos envolvidos, ocorre em Florença, quando o detetive italiano tenta colher uma impressão digital do canibal. Só que, infelizmente, não tem nada a ver com a história. Há também um milionário com o rosto desfigurado que sonha em se vingar de Hannibal. E a gente se identifica com quem?
Se você acha que esta será a última ceia, esqueça. O terceiro episódio (ou quarto; o personagem já dava o ar de sua graça nos anos 80) chegará rapidinho. Antes que caiam os dentes do velhinho canibal.

Manchetes AN
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Mistérios nos
caminhos da leitura

Livro infanto-juvenil nasce do prazer de inventar e não cai em clichês moralistas

Néri Pedroso

Joinville - O livro "A Concha das Mil Coisas Maravilhosas do Velho Caramujo" é encantador. Conquista não só as crianças e pré-adolescentes, a quem a obra é dedicada, mas também os adultos. Escrito por Josely Vianna Baptista, que já foi colaboradora do Anexo, e ilustrado por Guilherme Zamoner, oferece quatro histórias infanto-juvenis. O narrador de "Sereias com Asas", "Um Búzio Macambúzio no Paraíso", "O Rinoceronte de Dürer" e a "História Maravilhosa do Coro de Corais", é um simpático caramujo milenar que já atravessou o mundo e sabe contar suas aventuras como poucos. Salvo de uma tempestade numa praia por Jero e Julia, é levado para uma caverna, onde relata aos pequenos descobertas e apuros.
Com sutilezas ­ histórias onde o bem não luta contra o mal, sem clichês moralistas, a autora comunga o prazer de inventar, fantasiar. A idéia de transformar um caramujo em personagem nasceu em caminhadas litorâneas e na atenta observação dos grafismos que embelezam as conchas. "Para o Caramujo, conta a autora, o rumo é um caminho a caminhar, não existe a bipolaridade bem versus mal, certo versus errado."
As contradições são da vida, tanto que o narrador também aparece vulnerável, é um cara que se perde em miúdezas, revela-se impaciente, tem medo, ronca e sonha utopicamente em encontrar, a Concha das Conchas, a sua cara-metade. Mas também é generoso, aprecia as viagens, valoriza as descobertas feitas pelo mundo, guarda com carinho as experiências que viveu aqui, lá, acolá. É um museu ambulante.

Outras qualidades

Sem rebuscamentos exagerados, o livro propõe uma linguagem mais apurada. Ao usar palavras pouco comuns no vocabulário infanto-juvenil, a autora comunga um pouco da sua experiência. "Aos 10 anos, conta ela, ganhei de meus pais uma coleção de livros de Júlio Verne, e fiquei fascinada com as palavras desconhecidas, misteriosas e sonoras que pontilhavam as histórias, como, por exemplo, as que nomeavam partes do navio: mezena, verga, vela que se enverga na carangueja no mastro da ré, cesto de gávea, ovén, mastaréu de velacho, e assim por diante. Havia também um vocabulário marinho sofisticado: sargaços, regiões abissais, vôos de pilotos (os pássaros) etc. Pra mi, as palavras desconhecidas, cujo sentido eu 'adivinhava'pelo contexto da história."
Definindo o texto como um campo magnético, Josely Vianna Baptista crê que, como ela, os leitores podem dar às palavras um novo sentido, algo muito pessoal. "Penso que é legal para as crianças encontrar esses "mistérios" no caminho da leitura, isso se eles estiverem, como eu disse, contextualizados. Faz com que saiam um pouco do território conhecido e se aventurem na selva da linguagem."
Com o ilustrador, a autora mergulha em iconografias do passado, reproduzindo imagens de outros séculos, de naus, sereia, rinocerontes e um peixe voador. Como resultado, uma obra que se contrapõe ao efêmero, assegura prazer, eleva o espírito e amplia conhecimentos.

"A Concha das Mil Coisas Maravilhosas do Velho Caramujo", de Josely Vianna Baptista, com ilustrações por Guilherme Zamoner, Edições Mirabilia, 10 páginas, R$ 16,00. Encomendas: mirabilia@onda.com.br


O MELHOR - "Gladiador", de Ridley Scott, com 12 indicações para o Oscar, foi considerado o melhor filme do ano pela Academia de Cinema britânica, enquanto Jamie Bell, 14 anos, arrebatou o prêmio de melhor ator, vencendo os favoritos de Hollywood, por seu papel em "Billy Elliot". Julia Roberts, também indicada ao Oscar, recebeu o prêmio de melhor atriz por sua interpretação em "Erin Brockovich".


Primórdios do mestre

George Lucas volta em DVD com "Loucuras de Verão", que ele rodou nos anos 70

Luiz Carlos Merten
Agência Estado

São Paulo - Muito já se escreveu sobre a trilogia formada por "Guerra nas Estrelas", "O Império Contra-Ataca" e "O Retorno de Jedi", e também sobre "Guerra nas Estrelas, Episódio I - A Ameaça Fantasma", que retomou a série, tanto tempo depois. George Lucas produz atualmente o episódio 2 da nova série. Prepare-se para ler e ouvir muita coisa sobre esse filme, marcado para estrear em 2002, ao longo do ano. Tanto se fala nesse Lucas visionário, que colocou o marketing e os efeitos especiais na berlinda de Hollywood, erigindo um império e mudando a face do cinema - pelo menos o industrial -, que as pessoas até esquecem que o produtor da série com "Indiana Jones", o mega-empresário do cinema dirigiu, no começo dos anos 70, um pequeno filme que virou cult. Seu título: "American Graffiti". No Brasil, ficou sendo "Loucuras de Verão".
É uma produção da Universal que está sendo lançada em DVD, no País, pela Columbia. O disco digital vem carregado de extras, incluindo making of, entrevista com o o diretor e os atores, trailer de cinema e testes de cenas. Para colecionadores, é imperdível. "Loucuras de Verão" é de 1973, numa época em que, passada a fase radical da contracultura, o cinema americano tentava reatar, em chave nostálgica, com as próprias tradições americanas. Mas não é um filme careta ou chapa-branca, feito para vender o que ainda restava do sonho americano. E nem poderia ser diferente, porque naquela época, a América, devorada pela Guerra do Vietnã, não tinha mais tempo (nem disposição) para sonhar.
Foi nesse quadro que surgiu a história dos amigos numa pequena cidade americana. O ano é 1962, eles são graduandos e a maioria ainda está preocupada em perder a virgindade - o que faz de "Loucuras de Verão" um dos precursores de uma série de pornochanchadas americanas que, desde então, inundaram as telas de todo o mundo. O filme gerou uma série de suprodutos cinematográficos. Não pode ser acusado por isso. Nem o fato deve diminuir as virtudes que ostenta.
Richard Dreyfuss virou astro por sua participação nesse filme, que o catapultou ao primeiro plano de Hollywood, posição confirmada, a seguir, por "Tubarão" e "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", ambos de Steven Spielberg, antes que ele iniciasse a viagem na bebida e nas drogas que tanto prejudicou sua carreira. Mas o filme impulsionou outras carreiras. Paul Le Matt, Ronny Howard e Charles Martin Smith completam o núcleo básico dos amigos, aparecendo Cindy Williams e Candy Clark como algumas de suas garotas. Ronny passou a assinar-se depois somente Ron Howard e, como tal, virou diretor, assinando grandes sucessos de público, senão de crítica, com o "Apollo 13". Entre os demais atores, numa participação ainda pequena, aparece Harrison Ford, que depois virou superstar interpretando "Guerra nas Estrelas" e, a seguir, a série com "Indiana Jones", que Lucas produziu e Spielberg dirigiu.
Tudo isso é história e ajudou a alimentar o culto em torno de "Loucuras de Verão". Mas há a magia do próprio filme, da sua história, do seu elenco. Os rachas de carros, a trilha de rock. O melhor de tudo vem no fim, quando um letreiro conta o que ocorreu com aqueles rapazes e moças. Alguns deles foram convocados para lutar no Vietnã e até morreram no Sudeste Asiático. Desfecho melancólico para um filme que podia ser nostálgico de um passado que parecia bom, mas não deixa de ter os pés no chão, numa época (os 70) em que a América perdia a inocência e percebia que seu antigo sonho virara pesadelo.


 
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