Joinville         -          Domingo, 10 de Junho de 2001         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

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Cientistas otimistas
com a cura da Aids

Nova geração de vacina deve sair em cinco anos e combater a doença, que já matou 22 milhões

Daniel Q. Haney
Associated Press

Ninguém sabe dizer ao certo quando começou a epidemia de Aids. Mas em 5 de junho de 1981, um relatório da Secretaria de Saúde dos Estados Unidos citava uma estranha doença em Los Angeles. Nos oito meses anteriores, cinco pessoas morreram vítimas de um tipo raro de pneumonia. A doença era causada pelo Pneumocystis carinii, um germe que normalmente se abriga em pessoas com o sistema imunológico enfraquecido. Além disso, aqueles homens pareciam saudáveis e tinham entre 20 e 30 anos.
O relatório resumiu os exames laboratoriais e os históricos médicos dos pacientes. Mas uma pista saltou aos olhos: os cinco eram homossexuais. O motivo da doença era um mistério. Mas o relatório levantou cautelosamente uma teoria. Talvez os sistemas imunológicos deles tivessem sido expostos a algum agente comum que os tornou vulneráveis a vírus normalmente inofensivos. Talvez seja uma "doença transmitida pelo contato sexual".
A hipótese foi publicada no diário semanal "Doença e Mortalidade", do Centro de Controle Epidemiológico (CCE), e mostrou-se correta. Aqueles foram os primeiros cinco casos nos quais foi reconhecida a síndrome da imunodeficiência adquirida, conhecida como Aids, doença que até agora já matou mais de 22 milhões de pessoas em todo o mundo.
Tão triste quanto a própria tragédia humana, não há dúvidas de que a Aids será muito pior sem uma monumental campanha científica para encontrar sua origem, entender como se prolifera e criar tratamento. No geral, especialistas estão otimistas quanto a novos progressos num futuro próximo. Mesmo assim, as vitórias são agridoces para alguns envolvidos desde o início.
"A ciência deve se orgulhar, mas não deve ficar feliz", diz o doutor Robert Gallo, da Universidade de Maryland, co-descobridor do vírus da Aids. "Nunca tivemos um momento de reflexão pacífica no qual pudéssemos dizer: 'Nossa! Conseguimos.'" O trabalho de Gallo no início dos anos 80 culminou na descoberta de um sistema de detecção do vírus para evitar a proliferação da Aids por meio de transfusões de sangue. Isto estabeleceu a base de medicamentos que eventualmente fazem com que a Aids deixe de ser uma sentença de morte e passe a ser uma doença crônica, mas não fatal.
Mas a descoberta de Gallo não gerou uma vacina que impedisse a contaminação, como previam os mais otimistas. E, sem a vacina, o vírus da Aids disseminou-se de forma explosiva nas regiões mais pobres do mundo, especialmente a África, onde vivem dois terços das 36 milhões de pessoas hoje infectadas.


Testes em macacos dão resultado

A possibilidade de se descobrir uma vacina para a Aids é desconhecida enquanto a doença entra em sua terceira década.
Um dia existirá uma vacina para a Aids? "É claro. A questão é saber quanto esforço e quanto tempo serão necessários", diz o doutor Seth Berkley, presidente da International Aids Vaccine Initiative. Ao longo dos anos, pesquisadores sempre se questionaram sobre se isto seria possível. Vacinas normais fazem com que o organismo produza anticorpos para bloquear a infecção. Infelizmente, os seres humanos parecem incapazes de produzir anticorpos poderosos o bastante para conter o HIV. Sem isso, a vacina ainda é improvável. Mas os pesquisadores estão empolgados.
Em testes realizados em macacos, diversas vacinas experimentais parecem funcionar. Apesar de não evitarem a infecção, elas contêm o vírus ativando glóbulos brancos protetores chamados células assassinas. Normalmente, essas vacinas misturam genes do vírus da Aids com o de algum micróbio, como na vacina contra a varíola. Não se sabe se isto funcionará em seres humanos. Mas se os testes prosseguirem no ritmo atual, Berkley afirma que uma nova geração de vacina estará disponível dentro de cinco ou seis anos.
Quantos norte-americanos mais serão infectados? O CCE estima que 40.000 norte-americanos são infectados por ano. O número manteve-se estável na última década. Atualmente, entre 800.000 e 900.000 norte-americanos convivem com o vírus. Cerca de um terço não sabe. (DH)


Campanhas poderão contribuir

O CCE informa que será possível cortar o número de infecções pela metade se houver uma campanha generalizada para identificar essas pessoas, para que elas não disseminem a doença. Os tratamentos contra a Aids utilizados desde meados dos anos 90 também podem mudar características da epidemia, mas não se sabe se para melhor ou pior. Os remédios diminuem a quantidade de vírus no organismo, tornando mais difícil a transmissão. Mas também deixa as pessoas mais relaxadas com relação ao uso de preservativos, aumentando o risco de exposição. "É difícil saber se um anulará o outro", diz a doutora Helene Gayle, chefe de Aids do CCE.
Haverá uma epidemia de Aids entre heterossexuais nos países desenvolvidos? Para Gayle, é improvável. A epidemia heterossexual na África resulta em grande parte de condições inexistentes em países industrializados. Isto inclui poucas informações sobre a Aids, excesso de trabalhadores migrantes, alto índice de prostituição, relutância ao uso da camisinha e falta de tratamento a doenças sexualmente transmissíveis.
Mesmo assim, a transmissão entre heterossexuais cresce lentamente nos Estados Unidos, principalmente entre mulheres negras e hispânicas de baixa renda. Entre os fatores que aumentam o risco estão: sexo em troca de drogas - crack em especial - e relações sexuais com viciados e bissexuais. (DH)


Casos de Aids

Mundo

- Desde o diagnóstico do primeiro caso de Aids no início dos anos 80, cerca de 58 milhões de homens, mulheres e crianças de menos de 15 anos contraíram o vírus HIV
- Destes, cerca de 22 milhões morreram de Aids (principalmente mulheres), a grande maioria nos países da África
- Atualmente, 36,1 milhões de pessoas são soropositivas ao HIV ou doentes de Aids, a maioria também no continente africano (19,7 milhões de homens, 14,7 milhões de mulheres e 1,4 milhões de crianças).
- Somente no ano de 2000, o total de pessoas mortas por Aids foi de 3 milhões de pessoas (1,3 milhões de mulheres, 1,2 milhões de homens e 500 mil crianças)
(Fonte: Unidade de Pesquisa Clínica/Hospital Francês Dia, do Serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias do Hospital Pitié-Salpêtrière, em Paris)

Brasil

- 203.353 casos notificados desde 1980
- 151.298 (74,4%) são do sexo masculino
- 52.055 (25,6%) são do sexo feminino
- 7.088 (3,5%) dos casos atingem menores de 13 anos
- Há no País 11,2 casos por grupos de 100 mil habitantes
- 113 mil óbitos foram registrados entre 1987 e 1999
- 78% das mortes - sexo masculino (sendo que 90% entre 29 e 49 anos e 75% são da região Sudeste)
- 2,5% dos óbitos atingem mulheres

Santa Catarina

- 7.395 casos notificados até hoje
- Até 1999, dos 6.883 doentes de Aids registrados em SC nos últimos quinze anos, 57,9% estavam vivos e 42,1% morreram
- Os municípios com maior incidência de Aids no País são Itajaí (SC), com 143,4 casos por 100 mil habitantes, e Balneário Camboriú (SC), com 134,1 casos por 100 mil habitantes
(Fonte: Secretaria Estadual da Saúde)

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Resistência do
vírus é preocupação

Os temores sobre a diminuição do efeito dos remédios contra a Aids não se comprovaram. A maior parte dos pacientes passa bem, apesar dos temores com relação a possíveis efeitos colaterais no longo prazo. "Gostaria de acreditar que as pessoas sobrevivessem por 35 ou 40 anos com o uso de drogas antivirais, mas ainda há dúvidas por causa do alto nível tóxico desses remédios", comenta o doutor Anthony Fauci, chefe do Instituto de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos.
Alguns efeitos colaterais que fazem as pessoas desistirem do tratamento são redistribuição anormal da gordura pelo corpo e diversas complicações metabólicas, como excesso de açúcar no sangue e colesterol. O afinamento dos ossos é o sintoma mais recente.
Outra preocupação é a resistência. O vírus poderia tornar-se imune às drogas e os pacientes precisariam utilizar combinações diferentes. Às vezes faltam opções. Mas os pacientes continuam saudáveis se o tratamento prossegue. Os vírus estão tão enfraquecidos por suas mutações resistentes às drogas que seus danos são relativamente ínfimos.
Todas as 14 drogas contra a Aids atualmente no mercado atacam uma das duas enzimas utilizadas pelo HIV para se reproduzir. São elas a protease e a transcriptase reversa. Empresas farmacêuticas trabalham em novos remédios com a mesma função, inclusive algumas que funcionam contra cepas resistentes do vírus.

Alvos

Também em teste estão medicamentos que exploram diversos alvos do ciclo vital do vírus. É provável que em breve sejam aprovadas drogas que impeçam o vírus de juntarem-se às células sangüíneas, primeiro passo da infecção. O líder desta categoria é um remédio da Trimeris Inc. chamado T-20, mas há outros em desenvolvimento. O vírus é composto por mais de 10 proteínas. Potencialmente, todas elas podem ser bloqueadas por remédios. É provável que o principal alvo seja a integrase, utilizada pelo vírus para entrar em células de DNA, mas os pesquisadores dizem que os progresso são lentos.
Os transtornos da pílula já diminuíram consideravelmente. E mais avanços estão por vir. No início dos tratamentos combinados, os pacientes tomavam 30 ou mais pílulas por dia, algumas com comida, outras com água e algumas ainda com o estômago vazio. O total diminuiu para oito ou dez pílulas duas vezes por dia. E o número diminui ainda mais. "O ideal é reduzir o processo a algo simples como escovar os dentes ou tomar uma vitamina diária", diz o doutor Eugene Sun, dos laboratórios Abbott. As empresas farmacêuticas tentam mesclar diversos medicamentos em apenas uma pastilha. O método mais fácil por enquanto é o Trizivir, da GlaxoSmithKline. Toma-se apenas uma pílula duas vezes ao dia.
A cura para a Aids é improvável, pelo menos da forma como o vírus é observado hoje pelos especialistas. O motivo: o HIV se estabelece na memória do sistema imunológico, células de vida longa que mantêm os registros de todos os micróbios encontrados pelo organismo durante a vida de um indivíduo. O doutor Robert Siliciano, da Universidade Johns Hopkins, calcula serem necessários 73 anos para que essas células de memória morram totalmente, o que "garante essencialmente a persistência do vírus durante toda a vida".
Porém, muitos dizem haver um pessimismo exagerado. O doutor David Ho, do Centro de Pesquisas Aaron Diamond Aids, em Nova York, acredita que as células de memória tenham vida mais curta. Ele testa uma combinação superpotente de drogas cujo objetivo é romper o ciclo, permitindo a morte de todas as células de memória infectadas pelo HIV, dentro de três ou quatro anos. (Daniel Q. Haney/Associated Press)


 
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