Joinville
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Domingo, 25 de Março de 2001
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Santa Catarina - Brasil
ANotícia
Incertezas à vista
nos dez anos do Mercosul
Argentina, a segunda
maior economia da região, pode afundar o bloco do Cone
Sul
Cristiano Escobar Maia
O
horizonte de aniversário dos 10 anos do Mercosul, que
se comemoram amanhã, apresenta fortes nuvens com risco
de naufragar caso a crise na Argentina - a segunda potência
econômica do bloco atrás do Brasil - agrave-se.
Economistas, governo e indústria estão pessimistas.
As perspectivas são de retração na movimentação
econômica entre os países membros.
Hoje os investimentos argentinos no Brasil - de acordo com a
embaixada do Brasil em Buenos Aires - chegam a US$ 2,1 bilhões
e geram 13 mil empregos. Neste item, o Brasil leva vantagem.
Nos 10 anos de Mercosul, as empresas brasileiras investiram US$
1,4 bilhão e geraram 6,4 mil empregos. O comércio
entre os quatro sócios do Mercosul saltou de US$ 4,1 bilhões
para mais de US$ 20 bilhões.
Se os números atestam o acerto histórico em se
criar o Mercosul, o bloco está passando por um período
de instabilidade. Caso o Mercosul vá à pique, Santa
Catarina será duramente afetada porque os países
do bloco - capitaneados pela Argentina - são os principais
destinos comerciais dos produtos catarinenses. Entre os 10 países
para quem as indústrias de Santa Catarina mais exportam,
dois são do Mercosul - Argentina, segundo colocado, e
Paraguai, nono no ranking - e juntos representam 19,69%. Só
para a Argentina, os catarinenses exportaram, no ano passado,
US$ 294,48 milhões; ou 10,85% do total. As exportações
para os países do bloco - US$ 471,10 milhões ano
passado - representam 15,38% do total catarinense.
Este valor é muito bom se comparado com os parcos US$
52,26 milhões de 1990 quando o Mercosul nasceu - mas analisado
minuciosamente a qualidade dos produtos exportados por Santa
Catarina percebe-se uma concentração exagerada
nos comodities, alguns até com valores agregados como
frango congelado, papel cartão tipo "kraftliner"
e carnes. "A questão é que precisamos agregar
produtos tecnológicos a nossa pauta de exportações",
comenta o presidente da Câmara de Assuntos Tributários
e Legislativos da Fiesc, Glauco José Corte.
Faltam produtos de alta tecnologia que possuam elevado valor
agregado, como bens da indústria de informática
ou de máquinas pesadas. Dos cinco produtos mais exportados,
em janeiro deste ano, para a Argentina, apenas um não
é um commodity. A exceção fica com os motocompressores
herméticos que somaram US$ 1,16 milhões FOB, um
terço dos US$ 3,50 milhões acumulados pela venda
de papel cartão tipo "kraftliner".
O primeiro esboço oficial de criação de
um bloco econômico unindo Brasil, Argentina, Uruguai e
Paraguai aconteceu em 1986 quando Sarney assinou a Ata de Integração
Argentino-Brasileiro com seu colega Raul Alfonsín. A ata
instituiu o Programa de Integração e Cooperação
Econômica (PICE) que deveria proporcionar e equacionar
um espaço econômico comum entre os dois países.
Em 1988, os dois países assinaram o Tratado de Integração,
Cooperação e Desenvolvimento. Em 6 de julho de
1990, Collor de Mello e Menem firmaram a Ata de Buenos Aires
e em agosto Paraguai e Uruguai juntaram-se ao processo de integração.
Finalmente, em 26 de março de 1991, os países membros
assinaram o Tratado de Assunção para a Constituição
do Mercosul.
Harmonia entre leis é um
dos grandes problemas
A legislação brasileira de defesa do consumidor
é um dos mais moderna do mundo. Está anos a frente
do que existe na Argentina, Uruguai e Paraguai. Os outros sócios
do Mercosul não querem nem ouvir falar em igualar suas
legislações por cima, com base na brasileira. E
no Brasil não existem possibilidade de rebaixar os níveis
de defesa ao consumidor brasileiro. Este é apenas um dos
problemas enfrentados pelos técnicos e políticos
do Mercosul e que devem ser harmonizados.
Também é preciso que harmonize-se a legislação
trabalhista para evitar absurdos como o que acontece no México.
Beneficiando-se dos incentivos laborais mexicanos e da mão-de-obra
barata, empresas norte-americana mudaram suas linhas de montagem
para lá, fabricam e exportam para os Estados Unidos.
"Precisamos ter sólidas regras trabalhistas antes
de pensarmos em nos alinharmos com outros blocos, fato que considerado
irreversível", diz a professa de Relações
Internacionais Karine Silva, da Universidade do Vale do Itajaí
(Univali) e da Univeridade Federal de Santa Catarina (UFSC).
(CEM)
Santa Catarina e o Mercosul Os números do
comércio com o bloco econômico (em US$ milhões)
Acordo interregional
dependeria de solução de controvérsias na
área agrícola
Cristiano Escobar Maia
Florianópolis - Os analistas apontam que basicamente
existem quatro cenários possíveis para o Mercosul
nos próximos anos, três deles são pelo alinhamento
com outros grandes blocos comerciais - Área de Livre Comércio
das Américas (Alca) a qual se integrariam México,
Estados Unidos e Canadá, do Nafta; União Européia
(UE) ou, a terceira alternativa, a união aos dois ao mesmo
tempo ou manter a unidade do bloco do Mercosul e não
se emparelhar com outros parceiros.
Economias e governos acreditam que a quarta alternativa é
a mais difícil de seguir. Os mais otimistas acham que
a opção por alinhar aos dos grandes centros de
comércio mundial (Alca, com o Nafta, ou União Européia)
é quase impossível de ser conseguida por conta
da possível intransigência e dos efeitos geopolíticos
que estão envolvidos na questão.
"Acho difícil os Estados Unidos aceitarem uma proposta
como esta, que até seria uma das melhores soluções
caso o Mercosul se impusesse nas rodadas de negociação",
sustenta a professora de Relações Internacionais,
Karine de Souza Silva, da Universidade do Vale do Itajaí
(Univali) e doutoranda em Direito Internacional pela Universidade
Federal de Santa Catarina (UFSC).
Alinhamento
A professora acredita que a melhor opção para
os países do Mercosul seria o alinhamento com a União
Européia, mas desde que os países sulamericanos
consigam acordos econômicos benéficos e as relações
extra-econômicas (culturais, educacionais e profissionais,
entre outras) possam crescer. "Creio ser mais difícil
conseguir esse tipo de expansão de acordos entre blocos
com a Alca capitaneada pelos Estados Unidos", frisa Karine.
Do ponto de vista econômico, um dos maiores problemas da
integração com a União Européia,
está no campo agrícola. As negociações
agrícolas estão caminhando em ritmo mais que gelado.
Os europeus dizem que os sulamericanos são intransigentes
e, nas reuniões de Bruxelas (Bélgica), semana passada,
assumiram uma atitude de confronto com a UE.
Brasil quer liberação
rural antes de 2006
O Brasil defende a liberalização do mercado
europeu antes da reforma da política agrícola comum
marcada para acontecer apenas em 2006. A UE contesta a atitude
sul americana e diz que dos US$ 17 bilhões de importações
agrícolas que os países do bloco europeu recebem,
US$ 10 bilhões vêem da América do Sul. Por
outro lado, o chefe da delegação sul-americana,
o paraguaio Juan Buffe acredita que integração
com a UE seja irreversível.
Para que isso acontece de fato, o Mercosul quer que a UE incremente
o comércio mas em condições de equilíbrio.
Os sul americanos também querem manter acordo com os europeus
sem dar as costas à Alca (leia-se Estados Unidos), corrigir
déficits com a União Européia, abrir o mercado
agrícola para os produtos sul americanos e receber mais
investimentos diretos europeus.
Essa discussão do Mercosul em cima da agricultura - que
representa mais de 50% das exportações para a UE
- é sintomática. "Se o Mercosul quiser crescer
e ser forte nas negociações com os outros blocos
econômicos terá que fazer concessões mas
terá, sobretudo que se impor e dizer o que quer. Terá
que fazer decisões políticas", comenta a professora
Karine. Junto com os países do Nafta, a UE é um
dos principais destinos das exportações de Santa
Catarina.
No ano passado, Santa Catarina enviou para a UE US$ 727,54 milhões
em exportações que representaram um aumento de
7,4% em relação às US$ 677,53 milhões
de 1999. Para o Nafta, principal destino das exportações
de Santa Catarina, foram US$ 769,76 milhões em 2000, com
crescimento de 7,2% em relação aos US$ 718,25 milhões
de 1999. O terceiro parceiro comercial de Santa Catarina é
o Mercosul (US$ 417,10 milhões) e o quarto são
os países do chamado bloco dos Tigres Asiáticos
que participam com US$ 93,73 milhõres das exportações
do Estado.
Como Santa Catarina, a Europa é o principal destino das
exportações do Mercosul. Em 1999, US$ 16,5 bilhões
- cerca de 50% do que a América Latina exportou para a
UE - foi dos quatro países do Mercosul. Em compensação,
no mesmo ano as importações do Mercosul somaram
US$ 19,1 bilhões, ou 47% do que a América Latina
comprou dos europeus. (CEM)
Para Camex, solidariedade
no bloco tem limites
Rio, - O secretário-executivo da Câmara de Comércio
Exterior (Camex), Roberto Giannetti da Fonseca, disse que existe
um limite para solidariedade do Brasil à Argentina. "Iremos
apoiar no limite do possível", afirmou. Segundo ele,
esse limite será estabelecido caso a caso, mas tem como
parâmetro a decisão de que não sejam comprometidos
os interesses do Brasil e das empresas brasileiras.
Giannetti explicou que ao Brasil interessa uma Argentina "sadia
e recuperada" e que seria "muito pior" se o País
deixasse que os argentinos aprofundassem na sua crise. O secretário
admitiu que as exportações com destino à
Argentina tendem a cair com o aprofundamento da crise naquele
país e disse que é possível que o governo
venha a apoiar as companhias nacionais que têm negócios
lá. "Mas será inevitável alguma perda",
afirmou.
O secretário considerou a vinda do ministro Domingo Cavallo
ao Brasil como uma prova de coesão do Mercosul. Ele acrescentou
que o apoio do Brasil à Argentina será discutido
mais detalhadamente na reunião do Grupo Mercado Comum
(GMC), que acontece no próximo dia 2 em Buenos Aires.
Giannetti deu essas declarações em seminário
sobre exportações na sede do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Moveleiros querem
ampliar os negócios
São Bento do Sul Santa Catarina vendeu ao Mercosul,
no ano passado, cerca de US$ 11 milhões em móveis
o que corresponde a apenas 9,8% do total vendido pelo país.
Em São Bento do Sul, maior pólo moveleiro do estado,
menos de 3% das vendas externas são destinadas aos países
do Mercosul, mas há uma tendência de crescimento
através da conquista de nichos consumidores de produto
de maior valor agregado, como o Chile, por exemplo. No ano passado
o Brasil vendeu US$ 111,2 milhões em móveis para
a Argentina, Uruguai e Paraguai o que corresponde a 22,38% do
total exportado. Em âmbito nacional as vendas de 2000 ao
Mercosul foram cerca de 60% superiores às exportações
de 1999.
Para os moveleiros, apesar do baixo volume de vendas, os dez
anos de Mercosul deixam um saldo positivo. A base industrial
moveleira do Brasil tem estrutura tecnológica melhor que
os concorrentes dos países vizinhos.
Os móveis em painéis produzidos para o mercado
interno têm boa aceitação no Mercosul o que
garante às indústrias estruturas já preparadas
para atender os pedidos. No pólo a situação
é diferente, pois a maioria das fábricas trabalha
com móveis de madeira maciça ao gosto dos clientes
europeus e norte-americanos. "Nosso preço também
é competitivo o que garante espaço para crescer",
avalia Pedro Paulo Pamplona, coordenador do Programa de Incremento
das Exportações Moveleiras (Promóvel).
Negócios com o Mercosul trazem duas vantagens para os
fabricantes de móveis brasileiros. As empresas de maior
porte podem negociar sozinhas, sem intermediários e as
pequenas podem organizar-se em consórcios para exportar
pequenos lotes, repartindo a carga. Pamplona acredita, que mesmo
sem fabricar móveis à base de painéis, São
Bento do Sul pode conquistar nichos do Mercosul utilizando componentes,
insumos diferenciados como MDF, aço e vidro que agregam
valor ao produto. (Marília Maciel)
Relação exige cautela
A relação comercial com os vizinhos também
exige cautela. A instabilidade econômica da Argentina,
o risco de inadimplência e de ações protecionistas
ainda amedronta os moveleiros nacionais. "O ingresso das
moveleiras catarinenses no Mercosul está sendo lento e
gradual, mas isso é bom porque aumenta as margens de segurança",
avalia o coordenador do Promóvel, Pedro Paulo Pamplona.
A Móveis James, especializada em estofados, é uma
das poucas empresas são-bentenses com volume de vendas
representativas ao Mercosul. Cerca de 25% de seus produtos vão
para o Uruguai, Argentina e Paraguai. Graças à
qualidade de seus produtos, a James conquistou um nicho classe
A no Mercosul. A Produmex também vende dormitórios
de pinus para o Uruguai, mas as cargas ainda não são
freqüentes.
A Móveis Weihermann, que acaba de conquistar a ISO 14001,
já anunciou que pretende aumentar as exportações
ao Mercosul. Algumas vendas para o Chile, Argentina e Uruguai
já foram efetuadas. Em abril uma missão comercial
do Chile deve visitar fábricas de móveis em São
Bento do Sul. (MM)
Vendas do setor têxtil ao
bloco somam US$ 88,9 milhões
Implantação
do mercado comum tem avaliação positiva de empresários.
Exportações são destaque
Ula Weiss
Blumenau - Dez anos foram tempo suficiente para o setor têxtil
catarinense descobrir no Mercosul um mercado para bons negócios.
Atualmente, segundo dados da Federação das Indústrias
de Santa Catarina (Fiesc), o Estado exporta cerca de US$ 300
milhões em manufaturados têxteis. Deste total, as
vendas para os países do bloco foram de US$ 88,9 milhões
em 2000. Um acréscimo de US$ 11 milhões em relação
a 1999, que totalizou US$ 77,5 milhões. E também
maior que em 1998, quando somaram US$ 73,1 milhões.
Com estes números crescentes e tendo em vista que Blumenau
sedia as maiores empresas do pólo catarinense, também
as maiores exportadoras, claro que no balanço do que o
Mercosul trouxe de bom, a avaliação é positiva.
"Este é um mercado importante para nosso setor",
admite Ulrich Kuhn, presidente do sindicato das indústrias
do município (Sintex).
A definição de Kuhn é complementada por
Arlindo Schulz, diretor do Centro Internacional de Negócios
de Blumenau, que vai mais além. "O Mercosul não
é só significativo por consumir os produtos fabricados
na cidade, mas também por ter sido o motivador para que
muitas pequenas e médias empresas de nossa região
se tornassem exportadoras".
Schulz assinala que a proximidade geográfica, a facilidade
do idioma e a isenção de taxas intra-Mercosul nas
trocas comerciais funcionaram como a mola para as empresas que
antes nunca tinham faturado com pedidos no exterior tivessem
a sua oportunidade.
O lado ruim do Mercosul, segundo Schulz, foi sentido pelos produtores
agrícolas, como os que possuem culturas de alho e cebola.
"Com a concorrência mais forte dos vizinhos, que tinham
melhor preço e qualidade, tiveram sérias dificuldades."
Mas mesmo assim, continua o diretor do Centro Internacional de
Negócios, há fatores que são positivos.
"Os agricultores passaram pelo processo de globalização,
tendo que se esforçar para colher mais, mais barato e
melhor. Já os consumidores brasileiros ganharam de todas
formas".
Na opinião de João Henrique Marcheesky, diretor
da centenária indústria têxtil Buettner,
de Brusque, o Mercosul para os têxteis tem sido uma experiência
comercial positiva. Lembra que, no início, o pequeno pólo
produtivo que a Argentina possui sofreu um impacto assim como
os plantadores de cebola e alho, no Brasil. Mas destaca que houve
uma superação desse efeito e os artigos de Santa
Catarina são consumidos em escala pelos países
que integram o bloco.
Novas oportunidades de comércio
Joinville - O Mercosul completa 10 anos e, apesar de não
ser efetivamente um bloco unido econômica e culturalmente,
ao contrário do que acontece com a União Européia
(UE), trouxe muitas vantagens para os empresários do Norte
de Santa Catarina. Segundo Décio Silva, diretor-presidente
da Weg, que têm duas empresas na Argentina desde o ano
passado, a criação do Mercosul marcou um novo momento
no comércio exterior para a empresa. "Cerca de 9%
do nosso mercado externo está concentrado nas vendas para
países integrantes do Mercosul, o que representa 3% do
faturamento global do grupo", revela Silva.
Ao longo desses 10 anos iniciais, a Weg estima que em números
globais já foram negociados com a Argentina cerca de RS$
91 milhões. "Nosso crescimento se deu em maior parte
na Argentina, já que no Paraguai e no Uruguai já
liderávamos o mercado antes da criação do
Mercosul", salienta o empresário.
A crise na Argentina preocupa, mas na opinião do professor
de economia internacional da Universidade da Região de
Joinville (Univile), Kuniberto Sacht, não compromete o
bloco econômico. "Já passamos por outras crises
internamente, inclusive mais complicadas que a da Argentina.
Ademais, os empresários catarinenses estão vacinados
contra os problemas dos vizinhos. Eles estão alertas e
não apostam mais todas as suas fichas no Mercosul",
avalia.
Segundo ele ainda, a indústria catarinense sofreria muito
mais se sua pauta de exportação estivesse baseada
nos bens de capitais. "Mas esse percentual significa apenas
10% do que se vende para a Argentina. O comércio entre
os dois países é muito mais forte no setor de bens
de consumo", explica.
Décio ainda acha que falta muito para que o Mercosul atinja
a condição de bloco unificado. "Há
muitos entraves burocráticos, questões aduaneiras
e o livre comércio ainda é limitado. Acho que até
aqui o Mercosul cumpriu apenas 50% de sua missão",
avalia. (Jeferson Ribeiro)
Barreiras dificultam
integração regional
Setores mais prejudicados
são o automobilístico, autopeças, têxtil,
agrícola e eletroeletrônico
Marcos Horostecki
Chapecó - Discussões envolvendo produtos têxteis,
garantias para a venda de automóveis, peças e eletrodomésticos
e nenhum acerto definitivo para os produtos primários
como cereais e carnes (frangos, suínos e bovinos). Para
o setor agrícola e agroindustrial a situação
do Mercosul é a mesma há pelo menos quatro anos.
Produtores e empresas ainda esperam pela definição
de questões sanitárias, pela desburocratização
das alfândegas e pela efetiva participação
nas decisões do bloco.
Segundo o presidente da Federação da Agricultura
do Estado de Santa Catarina (Faesc), José Zeferino Pedroso,
está mais do que na hora de os governos sentarem, discutirem
e implantarem de vez o bloco econômico - com todas as suas
características de fronteiras mais livres e até
moeda única. "O setor primário têm sido
duramente penalizado por esse atraso na evolução
das negociações. Estamos pagando o pato" ,
disse.
O dirigente observa que a agricultura e pecuária são
os únicos setores produtivo do País que não
tem sido chamado para negociar e discutir o crescimento do Mercosul.
Vem recebendo decisões prontas e o resultado é
o constante prejuízo a produtores e empresas.
Fatos decorrentes dessa situação são a importação
de leite com dumping, que praticamente arrasou a produção
em Santa Catarina, no final da década de 90, e as constantes
taxações argentinas na carne suína e de
frango produzidas no Estado "As crises isoladas de países
membros têm afetado a todos e o setor primário sempre
sai prejudicado".
O presidente da federação agrícola prega
o interesse e uma participação maior do setor primário
nas mesas de negociação como fórmula para
a resolução do problema. Pedroso também
acredita que o País precisa se impor e pressionar pela
tomada de decisões o mais rápido possível.
Caso isso não ocorra a conclusão da implantação
do bloco econômico, a derradeira adoção da
moeda única pode demorar mais uma década para ocorrer.
Pontos positivos
O único ponto positivo visto pelo dirigente, até
agora, está no indicativo de abertura comercial e no incremento
das relações políticas. Os países
já se comportam como bloco econômico embora a maioria
ainda tenha receio dos resultados que serão computados
pela balança comercial depois que todos os acertos forem
feitos.
Mesmo com todos os problemas e principalmente com o perde e ganha
do setor primário, Pedroso avalia que as lideranças
não devem desistir da implantação do bloco
econômico. Aposta que ele será muito importante
na relação com outros blocos já constituídos,
como o Europeu, e na garantia de mercados futuros para os produtos
locais. "O que nós precisamos é efetivar a
integração, definindo políticas básicas,
acertando um acordo sanitário e desburocratizando as fronteiras.
Isso seria muito importante", conclui.
Bloco transformou déficit
catarinense em superávit
Florianópolis - Nos dez anos de Mercosul, a balança
comercial de Santa Catarina com os países do bloco tem
sido favorável com o Estado, embora apresenta um queda
após 1997. No primeiro ano do Mercosul, Santa Catarina
exportava US$ 52,26 milhões e importava US$ 115,61 milhões
com um saldo negativo na balança comercial de US$ 63,34
milhões e uma movimentação corrente - soma
de exportações e importações - de
US$ 167,88 milhões.
Passados 10 anos, a situação inverteu-se . De negativo,
passou, em 2000, para US$ 152,17 milhões positivos quando
o Estado exportou US$ 417,10 milhões e importou US$ 264,93
milhões com movimentação corrente de US$
682,03 milhões. No período, a movimentação
corrente cresceu 306,5%, as exportações 698% e
as importações 129%.
Este ano, a crise Argentina e a falta de diversificação
da pauta de exportações catarinenses, fez a Federação
das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) assumir uma atitude
conservadora em relação ao seu principal parecido
do Mercosul. "Ano passado as exportações cresceram
10,35%, para 2001 assumimos uma posição conservadora
com a expectativa de apenas manter nosso volume de comércio
bilateral", diz Glauco Côrte, da Fiesc.
O melhor ano para as exportações catarinenses -
segundo os números da Secretaria de Comércio Exterior
- ocorreu em 1997 quando o Estado chegou ao teto de US$ 487,27
milhões. Mas também neste ano importou muito -
US$ 447,87 milhões - chegando a uma movimentação
corrente de US$ 935,14 milhões números jamais atingidos
novamente. Na história do Mercosul, o saldo acumulado
chega a US$ 477,61 milhões, a favor de Santa Catarina.
A movimentação corrente, nos 10 anos do bloco,
entre o Estado e Mercosul, chegou a US$ 6,07 bilhões.
(Cristiano Escobar Maia)