Joinville
-
Domingo, 25 de Março de 2001
-
Santa Catarina - Brasil
ANotícia
P
O
L
Í
T
I
C
A
ENTREVISTA / Welson Gasparini
"Como pode
a LRF ser igual para São Paulo, que tem milhões
de habitantes, e para um município pequeno de 1,5 mil
habitantes? Está se buscando que os objetivos da lei sejam
preservados, mas que haja uma simplificação para
os municípios pequenos."
"É preciso acabar
com o turismo do
dinheiro público"
Presidente da Associação
Brasileira dos Municípios defende mudanças na LRFe
no pacto federativo
Jefferson Dalmoro
Reforma tributária e uma flexibilização
da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) para os pequenos municípios.
Com estes objetivos mais de quatro mil prefeitos estiveram reunidos
em Brasília dos dias 13 a 15 de março. O 6º
Congresso Brasileiro de Municípios foi o primeiro ato
dos administradores municipais em Brasília neste ano.
Para abril, está marcada a marcha dos prefeitos, com reivindicações
semelhantes. O presidente da Associação Brasileira
de Municípios (ABM), que organizou o evento, Welson Gasparini,
defende que o governo federal precisa rever a Lei Fiscal.
Em encontro com o presidente Fernando Henrique Cardoso, uma comitiva
de prefeitos entregou um documento com 13 reivindicações.
Uma delas é o pedido de um prazo de dois anos para que
os municípios que tiveram queda na arrecadação
ou que estão entre os mil mais pobres do Brasil, conforme
dados da Organização das Nações Unidas
(ONU), entrem no limite de 54% de gastos com funcionalismo público.
O outro item considerado importante pela ABM é a reforma
tributária e uma redivisão do bolo dos impostos.
Em entrevista para A Notícia, o presidente da ABM explica
e justifica as reivindicações dos prefeitos. Gasparini
afirma que é preciso rever as obrigações
e os direitos dos municípios e cobra a diminuição
do centralismo de Brasília. "É um crime o
que se faz: recolhe-se o imposto do município, que vai
para o Estado e para o governo federal; depois volta para o Estado,
e ao chegar na Prefeitura, não retorna nem a metade do
dinheiro. É preciso acabar com esse turismo do dinheiro
público", adverte.
"Uma das
coisas que defendemos é a simplificação
da lei para as pequenas prefeituras, como é para as empresas.
As micro e pequenas empresas têm um tratamento especial
por parte do governo para simplificar justamente as suas operações
contábeis, mantendo todos os rigores da fiscalização."
A Notícia - Um documento com reivindicações
foi entregue ao presidente Fernando Henrique Cardoso durante
o 6º Congresso Brasileiro de Municípios. Qual o principal
item deste documento?
Welson Gasparini - A Lei de Responsabilidade Fiscal. É
uma lei muito importante que está em debate nacional.
Os prefeitos não estão pedindo a revogação,
como se não quisessem ser fiscalizados ou controlados.
Um prefeito honesto não tem medo de fiscalização.
Pelo contrário, os políticos honestos querem limpar
o nome da política. Agora, infelizmente, aparece muito
o negativo. Às vezes, um prefeito que rouba na administração
ou que é irresponsável, de repente dá a
impressão de que todos os prefeitos são assim,
que em todas as prefeituras há desvio de dinheiro, quando
é um caso e existem 5.559 prefeitos.
AN - Então, qual é a reivindicação
dos prefeitos em relação à LRF?
Gasparini - Uma das coisas que defendemos e que muitos presidentes
de tribunais de contas defendem, além de outras entidades,
é a simplificação da lei para as pequenas
prefeituras. A lei é tão complexa que juristas
divergem na interpretação e os tribunais de contas
estão fazendo cursos entre os seus técnicos. Como
pode a Lei de Responsabilidade Fiscal ser igual para São
Paulo, que tem milhões de habitantes e um orçamento
que é o terceiro maior do Brasil, e para um município
pequeno de 1,5 mil habitantes? Então está se buscando
que os objetivos da lei sejam preservados, mas que haja uma simplificação
para os municípios pequenos.
AN - Como seria esta simplificação?
Gasparini - Aí entra o contexto contábil. O objetivo
é simplificar, como é para as empresas. As micro
e pequenas empresas têm um tratamento especial por parte
do governo para simplificar justamente as suas operações
contábeis mantendo todos os rigores da fiscalização.
Também está se pedindo um prazo de dois anos para
adaptação no que diz respeito ao gasto com funcionalismo.
Nós estamos solicitado isso para os municípios
que tiveram queda na arrecadação e os mais pobres
do Brasil. Temos municípios que tiveram queda de quase
40% na sua arrecadação. Se eles tiverem de imediatamente
reduzir o seu gasto com funcionalismo a 54% de um orçamento
que ficou 40% menor, a Prefeitura fica inviável. Isso
não é possível porque os serviços
essenciais não podem ser fechados.
AN - Durante o encontro, alguns prefeitos comentaram que
a lei é muito contábil e pouco social. Que um prefeito
pode fechar escolas, fechar postos de saúde, mas se ele
cumprir a questão fiscal está tudo bem. Que avaliação
o senhor faz?
Gasparini - Estes prefeitos deram depoimentos corretos e o documento
que entregamos ao presidente foi justamente representando essa
angústia. Porque quando se fala em saneamento da administração,
significa que o prefeito tem de tomar todas as providências,
cortar toda a despesa desnecessária, cobrar os tributos
corretamente, afinal, fazer uma administração técnica.
Mas, se depois de ter feito tudo isso, ainda assim não
se enquadrar na lei, ele não pode fechar uma escola, por
exemplo, para se adequar. Isso é um crime. Então,
solicitamos que a lei seja reexaminada nesses aspectos e que
seja dado um prazo para o prefeito se adaptar a essa nova realidade.
AN - Alguns prefeitos disseram que faltou no 6º Congresso
de Municípios o debate da reforma tributária, de
um novo pacto federativo. A participação dos municípios
no bolo era de 19% em 1988 e hoje está em 14%. Isso dificulta
também o cumprimento da lei, porque falta dinheiro. Como
o senhor avalia essa questão? Faltou o debate da reforma
tributária?
Gasparini - É um tema muito complexo. Já realizamos
vários encontros estaduais e temos posição
bem firmada nesse sentido. A reforma tributária é
fundamental junto com um pacto federativo. Agora, é preciso
um pacto federativo em que seja definido claramente o que é
obrigação do governo federal, dos governos estaduais
e dos prefeitos. Hoje, essa responsabilidade está diluída
e cai tudo nas costas do prefeito. Feita esta definição
clara das tarefas de cada nível de governo, então
a reforma tributária deverá ser feita de forma
que atenda a responsabilidade de cada um. É lógico
que quem tem de receber mais na partilha dos tributos é
o município, pois tudo é feito lá.
"A reforma
tributária é fundamental junto com um pacto federativo.
Agora, é preciso um pacto federativo em que seja definido
claramente o que é obrigação do governo
federal, dos governos estaduais e dos prefeitos. Hoje, essa responsabilidade
está diluída e cai tudo nas costas do prefeito."
AN - O ideal é acabar com esse centralismo de Brasília?
Gasparini - Lógico. Você não pode administrar
um país como o nosso, com essa extensão territorial,
dos gabinetes de Brasília. É um absurdo. Você
vê no orçamento federal, por exemplo, verba para
construir uma sala de aula no Amazonas ou um posto de saúde
no Rio Grande do Sul. Essa verba deveria ser automática
do município. O dinheiro sai do município e vai
para Brasília, para depois voltar para o prefeito comprar
um ônibus. Esse turismo do dinheiro tem a interferência
política de deputados, de senadores. Isso tem de acabar.
AN - Essa distribuição regional do dinheiro,
como é que o senhor avalia isso hoje? Há muita
distorção? Quem produz mais ganha menos ou quem
produz menos ganha mais? Como está isso?
Gasparini - A reforma tributária tem de acabar com isso.
Há muitas distorções. Nós temos municípios
que nadam em dinheiro. Um município que tem uma refinaria
de petróleo e uma população pequena não
sabe o que fazer com tanto dinheiro. E há outros municípios
com a população muito grande, mas que não
têm uma movimentação econômica que
gera muita riqueza. Além disso, há no Brasil as
diferenças econômicas, regionais e sociais. Há
municípios onde a pobreza é absoluta. O prefeito
não tem nem condições de cobrar tributos,
porque é uma população extremamente pobre.
É um município que tem de ser subsidiado. Aqui
é que pode se fazer uma redistribuição da
renda pública. Se tivéssemos uma melhor distribuição,
nós não teríamos imigrantes dos municípios
pobres criando os bolsões de pobreza.
AN - Como é que a ABM vai atuar junto ao Congresso
Nacional em relação a reforma tributária?
Gasparini - Primeiro, fortalecendo a frente parlamentar municipalista.
Temos muitos deputados que são ex-prefeitos, ex-vereadores
e outros que não passaram pelas prefeituras, mas que defendem
a descentralização administrativa e o fortalecimento
dos municípios. Todos esses deputados serão convidados
a integrar a frente, que vai trabalhar junto com a ABM para concretizar
no Congresso Nacional os projetos de interesse dos municípios.
Vamos, além disso, manter contato com os presidentes da
Câmara dos Deputados, do Senado e com todas as lideranças
partidárias, pedindo um comprometimento com as causas
municipalistas. Uma delas, a TIP, que levamos a Fernando Henrique,
o presidente já determinou ao deputado Artur Virgílio
(PSDB-MG, líder do Governo no Congresso) que apresse a
tramitação da Pec (Projeto de Emenda Constitucional)
que regulariza a cobrança da taxa de iluminação
pública. Hoje essa taxa é considerada inconstitucional
e muitas prefeituras estão perdendo uma parcela muito
forte da receita municipal.
AN - Há um projeto do Executivo no Congresso Nacional
que trata da titularidade da água. Como é que os
municípios devem trabalhar essa questão e qual
a posição da ABM?
Gasparini - A ABM é a favor da autonomia municipal e de
que essa titularidade continue com o município. Só
voluntariamente, como é o caso em vários Estados
que têm companhia estadual de saneamento básico,
que o prefeito cedeu a titularidade através de concessão.
Pode ceder até para uma empresa privada, através
de uma licitação, mas a autonomia da decisão
deve sempre ser do prefeito. Há o problema das regiões
metropolitanas, em que você atravessa uma rua e já
está em outra cidade, e a infra-estrutura se intercomunica.
Nestes casos, tem de haver um entendimento. O projeto no Congresso
justifica que não é possível ficar autônomo
se está interligado. Acho que isso precisa de ampla discussão
e que é possível os prefeitos chegarem a um entendimento,
para decidirem sobre o destino do saneamento básico nas
áreas metropolitanas.
"Você
não pode administrar um país como o nosso, com
essa extensão territorial, dos gabinetes de Brasília.
É um absurdo. Você vê no orçamento
federal, por exemplo, verba para construir uma sala de aula no
Amazonas ou um posto de saúde no Rio Grande do Sul. Essa
verba deveria ser automática do município."
AN - Alguns prefeitos falaram que o 6º Congresso dos
Municípios teve muita divulgação do governo
federal e pouco debate dos problemas das prefeituras. Como é
que o senhor avalia esta crítica?
Gasparini - Depende do objetivo do congresso. A 6ª edição,
especificamente, tinha este objetivo: a integração
das administrações municipais com os projetos federais.
Há um desconhecimento dos programas federais e por isso
o prefeito deixa de ter uma aplicação de recursos
em seu município. Este congresso tinha mais o interesse
de obter do governo federal explicações para serem
repassadas diretamente aos prefeitos, para não ficar aquela
coisa distante. Prefeitos, principalmente de cidades pequenas,
dificilmente chegariam a um ministério para falar com
um ministro. No congresso, ele ouviu o ministro dando explicações.
Nós tivemos uma tribuna livre e, quem quis debater lá,
esteve à vontade. Só que a maioria preferiu ouvir
informações que para eles são fundamentais.