Joinville         -          Quinta-feira, 04 de Outubro de 2001         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  



 







POSITIVO
Feliz com a capa da Time, Max de Castro pontua importante não só para si mesmo mas para a música e cultura brasileira
Fotos: Divulgação

O Brasil tem
Max de Castro

Com rasgados elogios, a revista Time dá capa para o cantor e compositor brasileiro

Carmen Miranda, Pelé, samba, bossa nova, o Cristo Redentor - ícones brasileiros que já estão no imaginário do mundo, como referências da arte, da cultura, do futebol. Agora uma novidade que poucos ainda reconhecem. O cantor e compositor Max de Castro está na capa da Time americana, apontado como um líder da próxima onda da música brasileira.
O texto, assinado por Christopher John Farley e Sergio Martins, afirma que "a maioria dos estrangeiros muito provavelmente não sabe que São Paulo é o lar de Max de Castro, um carioca de 28 anos, multi-instrumentalista que pode simplesmente ser o talento musical mais original surgido no Brasil nas últimas três décadas. E isso não é pouca coisa. A música no Brasil é como a luz do sol: é natural, é elementar, ilumina todo lugar, toda curva de rio, todo aspecto da vida".
Os autores fazem um retrospecto da música brasileira, destacando o samba, a bossa nova, o movimento tropicalista. "A essa tradição, Max de Castro traz um som que mescla com fluidez, inteligência e sucesso gêneros diferentes - samba, bossa nova, drum'n'bass, hip-hop e soul - em música futurista que ecoa o passado", pontua o texto da Time, analisando com cuidado o trabalho de Castro, desde o álbum de estréia, "Samba Raro", lançado no ano passado pelo selo Trama.
"As letras, todas em português, têm uma simplicidade cativante e sutil", definem os jornalistas. Outra chave para o charme do CD que vendeu cerca de 30 mil cópias é que algumas das canções misturam trechos de clássicos brasileiros. Por exemplo, a enérgica "Afrosamba" incorpora elementos da canção "Canto de Ossanha", de 1966, do violonista Baden Powell.
"Os brasileiros, elogiam os jornalistas, adoram seus músicos. Eles resistem à investida dos norte-americanos, Britney Spears e 'N Syncs, Stainds e Limp Bizkits. Cerca de 70% dos CDs vendidos no Brasil são de artistas brasileiros - uma porcentagem mais alta de música local do que é vendida na França, Itália, Grã-Bretanha ou qualquer outro país europeu."
O perfil de Max de Castro vasculha a infância no Rio, as influências na música soul norte-americana, trazendo depoimentos de amigos como João Marcello Boscoli, responsável pela Trama. Mergulhar na música brasileira foi uma questão de lógica. Seu pai Wilson Simonal foi pioneiro numa mistura de soul e bossa nova que descartou o estilo sussurrante da última a favor de vocais mais agressivos. O artista vive modestamente em um apartamento de três quartos em São Paulo com a mãe, a irmã, uma coleção de 4 mil LPs e suas três guitarras favoritas.
A Time comenta inclusive a acusação anônima que transformou Simonal em um delator da polícia na ditadura militar. Com a reputação destruída, sem emprego, mudou-se para um bairro simples em São Paulo, deixou a mulher e os filhos em 1991, quando Max tinha 18 anos. Simonal morreu, doente e sem dinheiro, no ano passado. "As pessoas que escrevem a história da música brasileira agem como se ele nunca tivesse existido. Ninguém pode calcular o preço que a minha família pagou por isso", lamenta Castro, que sonha entrar numa loja de disco norte-americana e encontrar 'Samba Raro' não na seção de world music, mas ao lado de pessoas que admira como Prince e Stevie Wonder.
Ao falar sobre a capa no Brasil, Max de Castro diz que ficou muito feliz porque é mais um reconhecimento do trabalho. "É importante não só para mim mas para a música brasileira. E também porque a cultura brasileira está novamente chamando atenção." No que depender da Time, o futuro de Max de Castro é grande.


Salão Elke Hering
vira palco de debates

Artistas de SC colocam em questão excesso de poder e descaso nesta quinta mostra coletiva

REGIS MALLMANN

Florianópolis - Criado para se transformar em mais uma oportunidade para mostrar por quais caminhos anda a arte contemporânea, o Salão Elke Hering de Arte Contemporânea, em sua quinta edição, conseguiu uma unamidade rara nesse tipo de mostra coletiva: provocar a ira de parte da classe artística e até de patrocinadores. Com montagem marcada pela polêmica por causa de conflitos internos na organização, o salão se converteu em palco de debates sobre excesso de poder e até descaso com a arte, algo que, na opinião do artista plástico Zé Lacerda, acabou por prejudicar sua participação na exposição depois que a obra com a qual foi selecionado na categoria referência especial foi atingida e danificada pela chuva.
Lacerda ainda não se conforma com o episódio que acabou por lançá-lo, com um grupo de colegas artistas plásticos de Florianópolis - autodenominado de "Vaca Amarela" -, numa luta para mostrar que há algo de muito estranho no reino das artes plásticas em Santa Catarina. Disposto a levantar a polêmica, ele e os amigos resolveram participar da abertura do salão, no último dia 27, levando para Blumenau uma surpresa, uma intervenção silenciosa. Eles é quem foram surpreendidos pelos trabalhos de Lacerda expostos, o que acabou por impor um caráter ainda mais importante e emblemático à atividade.
Mesmo com manchas provocadas pela água, os três trabalhos de Lacerda - em técnica de plotagem - estavam lá, em meio às demais obras, como se nada tivesse acontecido. "Chegaram a sugerir que eu cortasse a parte estragada", lamenta. Ele garante que, ao saber que a chuva havia atingido sua obra, sugeriu o reembolso do prejuízo, comprometendo-se em mandar outros trabalhos da série selecionada. Não obteve resposta, um claro sinal, na sua opinião, da inversão de valores que ocorre com a produção artística em Santa Catarina. "A arte institucionalizada se torna mais importante do que o criador", reclama, lançando sua queixa também à crítica, que para ele está igualmente voltada para o institucional.

Solidariedade

Parceiro de Zé Lacerda nessa luta para abrir portas à discussão, o artista plástico Roberto Freitas - que tinha uma obra no salão, retirada em solidariedade ao colega - concorda com esse "desvio de valores" e aponta para a falta de um debate criativo em torno dos salões de arte como um problema ainda mais grave. "Nos anos 70, os salões nacionais tinham valor porque havia discussão, amparo intelectual", justifica. A artista plástica Elisa Noronha vê uma espécie de "lei do silêncio" protegendo o establishment. Ela, que também retirou da exposição um trabalho seu, acha que é preciso discutir, valorizar o artista local, para evitar que ele busque fora de Santa Catarina o reconhecimento que não encontra aqui.

CRÍTICA SILENCIOSA

Batizada de "Área de Instabilidade com Chuva Ocasional ao Longo do Período", a performance protagonizada por Zé Lacerda e os demais artistas - um total de oito nomes - do "Vaca Amarela" durante a abertura do 5º Salão Elke Hering de Arte Contemporânea não pretendeu ser um ato panfletário, algo que defendesse apenas uma postura mais séria dos organizadores diante de uma obra estragada pela chuva. Eles buscavam mais, queriam alertar para o impasse vivido pelo artista catarinense, escravo, segundo eles, de um sistema cristalizado e que privilegia sempre um mesmo grupo em detrimento de novos valores.
Obtiveram, em Blumenau, reações as mais diversas, desde as simpáticas, recebebidas de outros artistas anônimos que reclamam seu espaço, até olhares de repulsa, esses, obviamente, lançados por gente que se sentiu atingida por um petardo silencioso, mas que pode ter resultados mais expressivo do que muita passeata com gritaria e palavras de ordem.


Opinião

O artista desrespeitado

Zé Lacerda

Os salões de arte têm sido questionados ao longo da história quanto a sua legitimidade na promoção cultural. Se é verdade que, por um lado, eles tiveram uma grande importância na história das artes no Brasil, dentro de um determinado contexto específico, por outro lado, curiosamente, esta importância se deu mais pela atitude de artistas como Barrio, Antonio Manuel, Nelson Leiner, entre muitos outros, que o reverteram num laboratório prático de pesquisa e debate artístico.
Portanto, penso que este espaço de debate deva ser a justificativa contemporânea, para se organizar um salão de arte hoje.
A outra questão problemática num salão é a função de responsabilidade social do crítico de arte. Este deveria cumprir a sua função intelectual de aproximar o público das questões contemporâneas da arte, de forma simples, inteligente e responsável. A falsa crítica normalmente vem escondida, atrás de um discurso chato e confuso. Só na tensão equilibrada entre artista, público e crítica é possível que se funcione um salão de arte.
Hoje, pouquíssimos salões de arte no Brasil são respeitados pela maioria dos artistas sérios e atuantes, já que além das questões levantadas acima, o próprio formato desses eventos regula e limita parte dos meios contemporâneos de produção e veiculação artística.
O fato de que minhas propostas plásticas tenham sido destruídas pela chuva, antes mesmo de serem expostas ao público, contrariando minha vontade, por pura imprudência da organização do 5º Salão Elke Hering de Arte Contemporânea, e o fato de que a organização não assumiu a responsabilidade pelo acontecido, se negando a pagar pelos danos, usando justificativas teóricas absolutamente inadequadas, não devem ser interpretados como situações isoladas. Ao contrário, são exemplos, como demonstração prática para os artistas plásticos desatentos, de como temos sido desrespeitados enquanto artistas e enquanto público, por alguns que se dizem promotores de cultura.
Entre as conseqüências mais graves deste desrespeito para o Estado de Santa Catarina, está a fuga de jovens artistas potenciais, para a busca de outros campos de trabalho e a descrença de artistas sérios na atuação local.
Salões de arte como o de Blumenau, e outros como em Itajaí ou Florianópolis, que não resultam em registros de imagens, de textos e debates, não têm nenhum valor histórico ou cultural, e ainda, na maioria dos casos, são formas de autopropaganda institucional em que o artista faz o papel de outdoor (de graça!). Têm sido formas muito baratas de se maquiar a falta de uma política cultural competente, efetiva e responsável, na promoção do debate das questões relevantes nas artes em nosso tempo e espaço.

  • Zé Lacerda, artista plástico


Jornalista de A Notícia
recebe prêmio nacional

Joinville - Pelo segundo ano consecutivo, o jornal A Notícia recebe o diploma de Jornalista Amigo da Criança, um reconhecimento da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) aos profissionais de imprensa que colaboram para levar à sociedade brasileira questões pertinentes à infância e adolescência.
Depois de Aline Felkl, reconhecida no ano passado por uma matéria publicada na editoria de Estado, o editor-assistente do Anexo, Rubens Herbst, foi escolhido para receber o diploma, entregue na terça-feira, em Brasília, com outros 53 jornalistas de vários Estados. Herbst responde pela página semanal "Planeteen". Em Santa Catarina, são três os jornalistas a conquistar esse reconhecimento.
O projeto Jornalista Amigo da Criança foi criado em 1997 para qualificar a cobertura jornalística sobre as questões da infância e da adolescência, influenciando no pensamento do público e colaborando para construir novos valores na sociedade brasileira. O objetivo é o reconhecimento da criança e do adolescente como seres em condição peculiar de desenvolvimento, que precisam ser cuidados e ter prioridade absoluta nas políticas públicas, além de estabelecer, nas redações dos 80 maiores meios de comunicação do País, a presença de jornalistas especializados na área.
O projeto conta com o patrocínio da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur) e Fundo das Nações Unidas para a Infância e Adolescência (Unicef). Fundação Abrinq e McCann também são parceiras no projeto, cujo logotipo é assinado por Ziraldo.

Manchetes AN
Das últimas edições de Anexo
03/10 - Mais perto do Olimpo
02/10 - Busto ainda reluz na rua das Palmeiras
01/10 - Arte em vidro, poderosa ferramenta
30/09 - Questionamentos com eco
29/09 - Novo sopro no cinema catarinense
28/09 - O anjo negro do jazz
27/09 - Cariocas do Blues Etílicos fazem shows em SC

Leia também

Carpintaria de ribeira

Livro registra imagens da arte milenar preservada às margens do rio Itajaí-açu

Itajaí - Itajaí ganha noite significativa hoje, com o lançamento de uma obra que está provocando o maior tititi na cidade. Curisos, os leitores só falam na beleza e no apuro técnico do projeto. O livro "Carpintaria das Ribeiras do Rio Itajaí-açu" reúne os itajaienses Ronaldo Silva Júnior, Antônio Carlos Floriano e Antônio Carlos (Toni) Cunha, que fazem sessão de autógrafo hoje, às 20h30, na Casa da Cultura Dide Brandão.
Trata-se de um livro de fotografias que explora os mistérios do mar e sobretudo uma arte ainda manual na região ribeirinha de Itajaí, ofício antigo, preservado por homens simples em estaleiros de Itajaí e Navegantes, nas duas margens do rio Itajaí-açu. Fruto de quase dois anos, a equipe produziu 2 mil imagens, das quais 130 foram selecionadas para a obra.
Ronaldo, Floriano e Toni Cunha mergulharam no mundo dos estaleiros, em busca da compreensão do contexto que eles desejavam registrar. "Quando se fotografa pessoas, é preciso estabelecer uma certa intimidade com a rotina delas, compartilhar histórias, emoções, buscar uma cumplicidade no trabalho", explica Ronaldo.
A apresentação reúne o historiador Edison d'Ávila e o escritor Dennis Radünz. "As atividades de carpintaria de ribeira ou construção naval, como hoje é chamada, remontam à época anterior à fundação da cidade de Itajaí", comenta d'Ávila. Neto de carpinteiro, Radünz traduz, em texto, as fotos em preto e branco que revelam o trabalho dos homens que preservam a arte da carpintaria de ribeira na região de Itajaí. Ele faz referências à mitologia e aos registros históricos para falar da origem da construção de embarcações, citando lendas antigas e o conto bíblico da Arca de Noé.
Os mil exemplares de "Carpintaria das Ribeiras do Rio Itajaí-açu" conta com o patrocínio do Porto de Itajaí, com projeto aprovado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura.

O quê: Lançamento Carpintaria das Ribeiras do Rio Itajaí-açu. QUANDO: Hoje, 20h30 ONDE: Casa da Cultura Dide Brandão, rua Hercílio Luz, 323, centro, Itajaí (47) 341-6134. QUANTO: R$ 15,00.


Bons contemporâneos

"A Hora do Show" e "Copacabana", dois títulos que valem uma passada no CIC

Gilberto Gerlach
Especial para o Anexo

Florianópolis - Intensa programação na sala do Centro Integrado de Cultura (CIC) nesta semana: além do lançamento do curta catarinense "Ilha", de Zeca Pires, dois inéditos. Obras que estão marcando o cinema contemporâneo: da América do Norte, o irreverente Spike Lee de "A Hora do Show", comédia que acerta em cheio, e o brasileiro de Carla Camurati, um hino à terceira idade, "Copacabana".
O título brasileiro dessa última obra de Spike Lee é "A Hora do Show" e lhe permite mostrar sua veia polêmica em ebulição, em filme marcante! O título original - "Bamboozled" - significa algo como "imbecilidades", muito citada por Malcolm X, inclusive no filme que Spike fez sobre ele.
Mais do que nunca, Spike aparece aqui como o bufão do rei, colocando todas as questões que importam e que desagradam, ao mesmo tempo que seu status lhe protege das represálias advindas por sua irreverência.
O próprio Spike não está no filme, ou melhor, ele está, mas por trás de uma máscara, não somente no sentido cartesiano, mas também naquele da tragédia grega, isto é, a máscara sob a qual ele se esconde serve de porta-voz que amplifica sua mensagem. Essa máscara é a de Pierre Delacroix, aliás Dela, um negro de origem não precisa (seu nome francês talvez pertença ao crioulo aristocrático, de origem haitiana), que escreve para um grande canal de TV roteiros adultos e responsáveis: o problema colocado é, pois, o do negro, mas também o do artista ou intelectual trabalhando no seio da mídia.
Culto, letrado, consciência social e dicção impecável, Dela percebe que tem em mãos um meio capaz de sensibilizar o público para a questão dos negros. Recorre, então, a grosseiras caricaturas, espécie de remake dos shows dos menestréis dos séculos 19 e 20, não duvidando de que esses retratos suscitarão o escândalo, a ira do auditório e a exigência de espetáculos sérios como os que ele pretende mostrar.
Evoca-se, aqui nesse filme, como o próprio Spike confirma, certos títulos como "Um Rosto na Multidão" (Kazan) e "Networt" (Lumet). Mais distante, o célebre "A Ópera dos 4 Vinténs" (Brecht - Weill - Pabst).
Carla Camurati conseguiu com seu falso "Carlota Joaquina" suscitar as possibilidades de fazer cinema. Saiu-se melhor com a encenação de "A Serva Padrona", seu segundo longa-metragem, ópera filmada, para um público restrito. Agora, fazendo uma viagem pela Copacabana de antigamente, surpreende mais uma vez, cativando seu público fiel. O personagem de Marco Nanini está com 90 anos e passa a se lembrar de sua Copacabana dos anos 20: os bordéis, a passagem do Graff Zeppeling, os bailes e o Hotel Copacabana.

  • Gilberto Gerlach, diretor do Cineclube Nossa Senhora do Desterro

 
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