Joinville         -          Sexta-feira, 05 de Outubro de 2001         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  



 







AMÉRICA
Dustin Hoffman, De Niro e Anne Heche, estão em "Mera Coincidência"
Foto: Divulgação

A política
como dona da cena

Ciclo de Cinema, em Joinville, divulga obras que documentam o lado sombrio da humanidade

Os filmes políticos que marcaram época são tema do Ciclo de Cinema que a Fundação Cultural de Joinville (FCJ) exibe, a partir deste sábado, no Complexo Cultural Antarctica. Gratuitas, as sessões deste mês contemplam produções de Robert Rossen, Barry Levinson, Costa-Gavras, Mike Nichols, Gillo Pontecorvo, Alan Pakula, Fred Zinnermann e Sidney Lumet. Os filmes foram selecionados pelo pesquisador de cinema Herbert Holetz e pelo diretor de ação cultural da FCJ, Jair Mendes.
Para abrir o ciclo, os organizadores escolheram "A Grande Ilusão" (EUA, 1949), de Robert Rossen, um filme que narra a trajetória de um político do interior dos EUA desde o início da carreira, como um idealista, até ser engolido pelos jogos de poder, transformando-se num corrupto demagogo. Considerado pela crítica como "avançado demais para seu tempo", a obra continua atual graças "ao teor ácido de sua mensagem".
Na seqüência, dia 7, o ciclo exibe "Mera Coincidência" (EUA, 1997), de Barry Levinson. Com Dustin Hoffman, Robert De Niro, Anne Heche e Woody Harrelson, trata-se de uma sátira divertida sobre o uso e o abuso do poder na América. O ciclo prossegue no próximo final de semana com "Z", de Konstantinos Costa-Gavras e "Segredos do Poder", de Mike Nichols.
Os cinemas de Joinville também começam a exibir neste final de semana a produção nacional "Bicho de Sete Cabeças", com Rodrigo Santoro no papel principal. No Estado chega "Hora do Rush 2", uma aventura repleta de ação, humor e despretensão. Superior ao original, "Hora do Rush 2" tem a vantagem de dispensar as apresentações dos personagens e equilibrar melhor o dueto enre Jackie Chan e Chris Tucker. Outro filme em cartaz é "Como Cães e Gatos", uma comédia infantil simpática, cujo "elenco" é um bando de cachorros e gatos que agem como pessoas normais.

O QUÊ: Ciclo de Cinema - Filmes Políticos. QUANDO: Sábado e domingo, às 19h. ONDE: Complexo Cultural Antarctica, rua 15 de Novembro, 1.383, centro, Joinville. QUANTO: Gratuito.

  • Confira a programação de CINEMA em Santa Catarina.


DENSIDADE
"Um Tempo para Embebedar Cavalos": cinema de virtudes artesanais
Foto: Divulgação

Iraniano reencontra a
grandeza do neorealismo

Gilberto Gerlach
Especial para o Anexo

Florianópolis - "Um Tempo para Embebedar Cavalos", filme iraniano de Bahman Ghobadi, foi premiado em Cannes 2000 com a Palma de Ouro ­ assim como haviam sido antes, "O Balão Branco", de Jafar Panahi, "A Maçã", "O Quadro Negro", de Samira Makmalbaf e "Djomeh", de Hassan Yektapanah.
O diretor Ghobadi fora assistente de Kiarostami em "O Vento nos Levará", da mesma forma que Panahi fora em "Através das Oliveiras". Num cinema de virtudes artesanais, a formação se faz através do contato com os mais velhos ­ exemplo de Makhmalbaf pai com filha. Todos esses realizadores têm em comum um cinema minimalista cujas tramas repousam sobre o modesto canevas de crônicas aparentemente não ásperas.
"Um Tempo para Embebedar Cavalos" se desenrola no universo despojado de uma família sem pais. Cinco órfãos se defrontam com a vida como adultos precoces: a mãe morrera ao dar luz a um filho; o pai fora morto na explosão de uma mina, fronteira entre Irã e Iraque e também região do povo curdo. O filho mais velho faz o papel de chefe da família. O outro, de 15 anos, sofre de uma doença congenital, um corpo disforme com uma cabeça quase normal, numa vontade infinita de viver.
Ghobadi, ao fazer a descrição deste adolescente, o faz miraculosamente, escapando-se de qualquer miserabilismo possível: não há nenhum olhar suspeito nesta representação da miséria humana. Ao final, sem pathos nem retórica, Ghobadi nos oferece a imagem do adolescente que leva o irmão, através da fronteira nevasca do Iraque, onde venderá o asno para conseguir o dinheiro para operar o irmão.
O filme reencontra a grandeza do neorealismo, narrativa desdramatizada, décors naturais, atores não profissionais, visão documentária. O filme se passa na fronteira invernosa entre Irã e Iraque ­ zona conturbada e propícia ao contrabando. Pessoas que sobrevivem graças ao tráfico de pneumáticos que eles transportam nas costas dos asnos, enfrentando o rigor do frio e o furor das balas.
Ghobadi sempre nos surpreende em sua narrativa. A representação autêntica dos animais aos quais dão a beber fortes doses de álcool para que possam melhor resistir ao frio. O cineasta nos faz sentir fisicamente a duração de uma marcha sobre a neve. Seu filme é também um testemunho sobre as crianças privadas de suas atenções, crianças exploradas, meninas que se casam cedo, seres isolados mas também ­ e aí reside a grandeza ­ que não precisam de ninguém para afirmar sua dignidade e viver sua batalha cotidiana com pleno conhecimento de causa.

  • Gilberto Gerlach, diretor do Cineclube Nossa Senhora dos Desterro


Curitibanos da Sexofone
lançam CD em Joinville

Grupo divulga álbum que traz 11 faixas inéditas e inclui também hits já consagrados pelo público

Joinville - A banda curitibana Sexofone lança hoje, em Joinville, seu primeiro CD. Intitulado "Acorde - Escute - Escuto", o projeto conta com a participação dos músicos Ivo Rodrigues (Blindagem e ex-Chave), Charlie Thompson, Christopher Harris (Cracker Jack), Aline, Isabela e Ângelo Roman (Roda Viva), Alessandro do Trompete, Osmário, Gabriel (Trio Quintina) e os irmãos Berenice e Sandro.
Criada em 1993 por Ângelo Neto e Fábio Ciba, a Sexofone só começou a tocar profissionalmente em 1997, no bar Empório São Francisco, tornando-se, rapidamente, prestigiada pelo público. Desde então, acumula apresentações marcantes no currículo e já tocou ao lado de grandes nomes do rock nacional, como os paulistas do Velhas Virgens e do Made in Brazil.
Em julho de 1998, definiu sua formação atual, com a saída de Carlos Gustavo (atualmente no Bartenders) e a entrada de Claudinho Brasil (bateria e voz). Com um repertório eclético, porém fiel às raízes do rock, passeia de Mutantes a Stevie Ray Vaughan, de Beatles a Chico Buarque.
O CD, que está sendo apresentado em Joinville, possui 11 faixas inéditas, incluindo hits consagrados pelo público, como "A Bola", além cover da banda paulistana Casa das Máquinas. A Sexofone foi uma das finalistas do festival Heineken Blues.

O QUÊ: Apresentação da Banda Sexofone e lançamento do CD Acorde - Escute - Escuto. QUANDO: Hoje, às 23h. ONDE: Cais 90, rua Conde D'Eu, 90, centro, Joinville, tel.: (47) 423-2058. QUANTO: R$ 5,00. Preço do CD: não divulgado.


Butt Spencer leva nova
combinação de som ao PR

Joinville - No mundo do ska/hardcore, Voodoo Glow Skulls é mais do que um nome - é uma legenda. Em turnê para divulgar "Symbolic", quinto disco de uma carreira que já dura 13 anos, a banda americana passa por Curitiba, hoje, onde toca no V8. Mas os fãs do estilo têm bons motivos para chegar mais cedo ao show, já que os joinvilenses do Butt Spencer são uma das atrações, ao lado da Confusion e Randal Grave.
O momento é realmente especial para o septeto catarinense. Além de tocar no mesmo palco que os reis do skacore mundial, o Butt Spencer está lançando seu primeiro CD oficial, o independente "Dogmas, Dilemas e Perguntas Sem Respostas". Nele, o grupo deixou para trás os rótulos e direcionou seu som para um amálgama de influências diversas, que vai do ska ao punk e passa pelo jazz e até a disco music, resultando numa eficiente combinação de peso e suingue. "Fizemos algo que não se espera de uma banda de ska, punk e hardcore", atesta o guitarrista Rafael.
Lançado no ano passado, "Symbolic" é uma tentativa do Voodoo Glow Skulls de transcender o rótulo skacore. Ao mesmo tempo em que mantém o ritmo frenético que fez a alegria dos fãs ao longo dos anos, o grupo recorre às influências que sublinharam sua música por muito tempo. Linhas de vocal e baixo de hip-hop dominam "Drop In" e "The Devil Made Me Do It," enquanto uma guitarra extremamente pesada e metal carrega "Musical Therapy" e "High Society". O afinado naipe de metais traz influências desde o funk até o ska tradicional. "Symbolic" ainda conta com as participações de Mark, vocalista do Guttermouth, em "We´re Back", e do Reverendo Jim Heath (Reverend Horton Heat), que empresta sua pegada roqueira a "El Mas Chingón".

O quê: Show com Voodoo Glow Skulls, com abertura do Butt Spencer. Quando: Hoje, às 22h. Onde: V8, av. Getúlio Vargas, 3.308, Água Verde, Curitiba, tel: (41) 242-7524. Quanto: R$ 20,00. Excursão de Joinville, tel: (47) 9108-7917 (Rafael).


Nélson Cavaquinho ganha
homenagem de sambistas

Florianópolis - Os sambistas do grupo Bom Partido e a cantora Maria Helena prestam um tributo a Nélson Cavaquinho no mês em que o compositor carioca completaria 90 anos. A homenagem acontece no Casarão Choperia e Restaurante, em Florianópolis, às 21 horas de hoje, e terá no repertório alguns dos principais sucessos de Cavaquinho, morto em 18 de fevereiro de 1986, aos 76 anos. O show faz parte de uma série de tributos que o Bom Partido vem fazendo desde maio do ano passado para resgatar composições e a história de antigos sambistas, como Noel Rosa, Clara Nunes, Jovelina Pérola Negra, Zé Keti, Zininho, Cartola e Elias Marujo.
Entre as músicas que serão apresentadas estão "A Flor e o Espinho", "Pranto de Poeta", "Degraus da Vida" (com Antônio Braga e César Brasil), "Quando me Chamar Saudade", "Minha Festa", "Cuidado com a Outra", "Eu e as Flores" (com Jair do Cavaquinho), "Vou Partir" e "Rugas" (com Augusto Garcez e Ari Monteiro), entre outras. Também está no repertório um dos sambas-canção mais conhecidos dele, "Folhas Secas" (com Guilherme de Brito), que será cantado por Maria Helena. Também entram no show "O Sol Nascerá", de Cartola, e "Não Quero mais Amar Ninguém", de Cartola e Carlos Cachaça, parceiros de Nélson Cavaquinho na Mangueira e em rodas de samba.
Apesar de ser um nome bastante conhecido, Cavaquinho não é um artista popular, considera o vocalista Dinho, do Bom Partido. "O povo não conhece muito o som dele, e ele é um músico de muito valor", diz. Além de Dinho (cavaco), estão no grupo Amarildo (surdo), Marcelo (pandeiro), Bira (violão sete cordas) e o trio de pastoras Jandira (percussão), Josiane e Júlia.

O QUÊ: Tributo a Nélson Cavaquinho, com grupo Bom Partido e participação especial de Maria Helena. QUANDO: Hoje, às 21h. ONDE: Casarão Choperia e Restaurante, praça 15 de Novembro, 320, centro, Florianópolis, tel.: (48) 222-9092. QUANTO: R$ 4,00.


Seguidores do rockabilly
têm encontro em festival

Argentina Pelvis entre as atrações do evento que começa hoje

Ana Maria Tonial
Especial para o Anexo

Curitiba - Mistura de rythm e blues, country e western, o rockabilly surgiu no início da década de 50 como uma das designações da forma mais primitiva de rock'n'roll. Seguidores saudosistas desse gênero musical disputam mercado há muito tempo e ganham agora o 1º Festival Latino-americano de Rockabilly, no Vintage Café, de hoje até domingo. Nesta primeira edição, apresentam-se 11 grupos do Brasil e Argentina. "Los Diaños", de Curitiba, abre o show hoje, seguido pela também curitibana "The Rocket's", além da argentina "Pelvis" e "Spulecat's", de São Paulo.
A habilidade dos brancos em executar o ritmo criado por negros norte-americanos fez com que cada executante fosse taxado de rockabilly, apelido carinhoso que se dá hoje aos ídolos do velho e bom "rock raiz". Nomes como Bill Halley, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Eddie Cochran, Carl Perkins e Little Richard são ícones desse estilo que embalou gerações. Mas talvez seu mais lendário intérprete seja Elvis Presley, o primeiro rockabilly, seguido por Beatles, Hollies, Rolling Stones e outros. O extinto Coke Luxe, fundado por Eddy Teddy, foi o primeiro a gravar um disco no Brasil. Kid Vinil e João Penca e seus Miquinhos Amestrados são outros representantes.
Com metade do repertório formada por composições próprias, todas em português, a Banda V8 considera o festival uma chance dos músicos trocarem idéias. O fundador do grupo surgido em 1993, Mario Vizoli, o Johny Bravo, foi convidado por Luiz Teddy, filho de Eddy, para gravar uma faixa de CD em tributo à banda Coke Luxe. Em Curitiba, a V8 toca em bares e, em dezembro, grava o primeiro disco. Dez das 12 faixas terão músicas e letras próprias. O estilo rockabillyano de ser: cabelos com topetes, costeletas, jaquetas de couro em conjunto com o jeans desbotado e camisetas de cores berrantes e gola levantada, usados no dia-a-dia, chamam atenção. "Somos um objeto estranho no meio da multidão", definem-se. As bandas que se apresentam no festival provam que querem ser mais do que simples covers.
O Big Fish, mais recente grupo de rockabilly de Curitiba, fundado há sete meses, gravará o primeiro CD, independente, em novembro, com 12 músicas próprias. Também prima pelas letras em português, seguindo o romantismo dos anos 50. Amanhã, apresentam-se as bandas Patrulha Noturna, de São Paulo; Red Cadillac, do Rio de Janeiro; Rebeldes, de Porto Alegre; e Ovos Presley, de Curitiba. No domingo, comandam o show a local Big Fish; Rádio Texas, da Argentina; e Banda V8.
O organizador do festival e fundador da The Rocket's, Victor Pschera, diz estar crescendo o interesse pelo rockabilly. Por trás disso, há um mercado consumidor. Duas empresas automotivas lançaram recentemente automóveis com design da década de 50, por exemplo, além dos eternos jeans e camisetas que nunca saem de moda. "Paul McCartney lançou há pouco um CD só com músicas da década de 50. Tudo isso favorece o consumo do rockabilly", lembra.

O QUÊ: 1º Festival Latino-americano de Rockabilly. ONDE: Vintage Café, rua Dr. Muricy, 1.091. QUANDO: Hoje e amanhã, às 23h; domingo, às 20h. QUANTO: R$ 7,50 e 1 kg de alimento não-perecível (antecipado), R$ 10,00 (no dia). Para três dias, R$ 15,00 (para três dias, antecipados) e no dia o ingresso custa R$ 10,00. Antecipados: loja Barulho Recordes, no Shopping Omar, e no Vintage Café, pelo tel.: (41) 224-4167.

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Arte na rua

Interferência urbana na Ilha une Clara e Flávia Fernandes

Regis Mallmann

Florianópolis - O que é isso? Essa foi a pergunta mais comum feita por quem passou pela rua Vítor Meireles, no centro da Capital, entre a manhã da última quarta-feira e o final da tarde de ontem. Ocupado pela instalação "Cheiovazio", das artistas plásticas Flávia e Clara Fernandes, o trecho entre a praça 15 de Novembro e o Museu Vítor Meireles se transformou num verdadeiro laboratório de interpretações, com muita gente parando para ver de perto a interferência procedida no espaço por ambas com uso de materiais tão distintos como arame farpado, cipó, plástico e água.
A aventura de levar para as ruas o que costumam mostrar entre quatro paredes não é uma experiência nova para as duas artistas, que apesar de carregarem o mesmo sobrenome não são parentes. Elas consideram essa atividade uma forma diferente de apresentar suas idéias, abrindo um leque para atingir um público maior, principalmente gente que não costuma ir a museus ou galerias. "Normalmente, quem aprecia arte é uma elite", analisa Clara, que já participou de uma instalação coletiva montada há alguns anos no mesmo local. Batizadas de "vácuos", as tramas de cipó e arame farpado que levou para o largo do Museu Vítor Meireles, segundo ela, "simbolizam o interior do ser humano".
Usando suporte mais artificial, Clara Fernandes cobriu os antigos paralelepídedos da rua - que é fechada para o trânsito de carros - com o que ela chamou de "lentes de água", um conjunto de bolsas de vários tamanhos feitas com plástico cheias de água. A proposta, segundo ela, foi "trabalhar a organicidade dentro da linearidade", referindo-se ao ambiente onde instalou suas chamativas criações, que dividiam o espaço com um enorme cubo de plástico inflado com ar, refletindo com exatidão a proposta do "Cheiovazio".
Com interferências urbanas realizadas em vários pontos da cidade, como o Terminal Rodoviário Rita Maria e o Mercado Público, Flávia também considera a obra exposta esta semana um oportunidade interagir com o cenário onde está montada, no caso da rua Vítor Meireles, alterando as características áridas e de linhas lineares impostas pelos prédios de concreto.


Concessões ao preconceito

Final feliz entre soropositivos revela prática retrógrada na novelinha "Malhação"

Fernando Miragaya
TV Press

"Malhação" sempre se esforçou para ser uma novela politicamente correta. Os autores da trama global, no entanto, parecem nem sempre seguir o comportamento dos personagens. Depois de brigar com meio mundo e lutar contra o preconceito, a soropositiva Érika e seu amado Touro resolveram se divorciar. Tudo para a personagem de Samara Felippo ter um arranjadíssimo final feliz com outro portador do vírus da Aids. E, de quebra, livrar o romântico Touro, interpretado por Roger Gobeth, do "fantasma da contaminação".
Com isso, "Malhação" acabou cedendo ao próprio preconceito. Ou seja, parece que Érika, por ser aidética, só pode ser feliz ao lado de uma pessoa também contaminada. É como se a novela estivesse recomendando a formação de guetos, como faz quando mostra negros que só namoram negras ou judeus que só se relacionam com judias. Essa tendência de "evitar misturas" é uma prática retrógrada que acaba deixando à mostra a faceta preconceituosa da televisão.
"Malhação" sempre procurou mesclar os clichês comuns a qualquer novela com situações normais a jovens, embutindo mensagens politicamente corretas. Armas, violência, gravidez na adolescência, tabagismo, drogas, poluição, entre outros assuntos, já foram abordados e discutidos dentro da trama, sempre com posições arcáicas e intransigentes deixadas a cargo dos vilões. Um exemplo é a gravidez de Bia, papel de Fernanda Nobre. A mimada personagem tratava a gestação e até o próprio filho recém-nascido com imaturidade e descaso.
Além de causar indignação aos outros personagens, os autores sempre arranjam um meio de dar um "embasamento técnico" para essas questões. No caso de Bia, sempre surgiam os conselhos e orientações da Dra. Jackie, a médica interpretada por Lucélia Santos. Profissionais como psicólogos e policiais também surgem na trama para debater assuntos polêmicos como drogas e porte de armas. Isso sem contar a postura dos personagens fixos que assumem o perfil de geração saúde, mas sem alienação.
O problema é que a novela exagerou no caso de Érika e Touro. Tanto antes do casamento entre os dois personagens como depois. Afinal, o casal viveu um típico "dramalhão" e travou uma verdadeira guerra, porque os pais do rapaz não aceitavam em hipótese alguma que o filho casasse com uma soropositiva. Uma postura, aliás, que não chega a ser surpreendente e reflete uma preocupação que muitos pais, se expostos à mesma situação, teriam com o futuro dos filhos.
Mas agora os autores acabaram exagerando na dose mais uma vez. Resolveram fazer Érika se apaixonar por um soropositivo bonitinho e disponível que, oportunamente, "apareceu" na trama como um príncipe encantado de conto de fadas que chega para tranqüilizar as famílias conservadoras. A sofrida personagem realmente merecia um final decente, tendo em vista a sua importância na linha de conscientização que a novela tenta pregar. Só que, meses depois dela sumir da trama, os responsáveis por "Malhação" não tiveram cuidado com a personagem e tampouco com o delicado assunto. Não se sabe se por pressão de pesquisas ou por conta própria, os autores acabaram arranjando um final tão passível de críticas quanto os comportamentos ultrapassados que volta e meia são tão "malhados" em "Malhação".


Saga italiana

A saga da imigração italiana sob o ponto de vista de Benjamin Gallotti e descendentes conduz o texto do livro "Mais Histórias da Casa da Vó", lançado hoje, às 19 horas, no Espaço Cultural Fernando Beck da Agência de Fomento Catarinense (Badesc). Baseada nos manuscritos deixados por Beatriz Gallotti Peixoto Amin e organizados pela sobrinha Nícia Cherem Ribas, a história é centrada em casos pitorescos ocorridos no casarão dos Gallotti, em Tijucas.


 
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