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Domingo, 6 de Janeiro de 2002
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Santa Catarina - Brasil
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Morte de Cássia
Eller gera debate
Especialistas divergem
sobre inquérito que investiga hipóteses de homicídio
e overdose
O
inquérito aberto na 10ª Delegacia de Polícia
do Rio para apurar a morte da cantora e compositora Cássia
Eller despertou um debate jurídico sobre as investigações
de uma morte que pode ter sido causada por excesso de drogas,
apesar da insistência da família dela de que foi
provocada por uma antiga doença cardíaca. "Não
vejo absolutamente nada que pudesse sugerir um crime. Para existir
uma investigação, há necessidade de existir
um fato, há de haver, obrigatoriamente, indícios
da existência de um crime", diz o advogado criminalista
Luiz Guilherme Vieira, que nesta semana escreveu um artigo questionando
a investigação policial neste caso.
Na madrugada seguinte à morte de Cássia, os policiais
que estiveram na casa de saúde onde a cantora morreu,
às 19h05, disseram que a morte seria apurada porque o
laudo médico não indicava claramente a causa do
óbito e o noticiário da televisão falava
na hipótese de overdose. No dia seguinte, o coordenador
de Operações Especiais da Polícia Civil,
Marcos Reimão, informou que as informações
apresentadas pela Clínica Santa Maria tinham sido "insuficientes
e inconclusivas" e, por isso, era preciso uma investigação
preliminar.
Nos dias seguintes, os policiais acrescentaram à justificativa
que, se fosse overdose, seria necessário apurar a rede
de tráfico de entorpecentes envolvida no caso. "Se
a morte for provocada por overdose, vai-se investigar o traficante?
Isso é brincadeira. Há que se respeitar a memória
da pessoa morta, a dor da família", insiste Vieira.
O advogado lembra que há diversos casos de morte por drogas
que não chegam à delegacia. No máximo, há
uma necropsia para detectar a causa da morte e, em seguida, "expede-se
um auto, enterra-se e ponto final". O advogado constitucionalista
e professor Luís Roberto Barroso, da Universidade Estadual
do Rio de Janeiro (Uerj), falando em tese, lembra que "toda
morte sobre a qual haja suspeita de não ter sido natural
deve ser investigada para excluir a possibilidade de ter sido
causada por terceiro". Neste caso, a missão da polícia
seria a de investigar se houve homicídio. Excluída
essa hipótese, o caso estaria encerrado.
Para o professor e jurista Celso Bastos, da Universidade de São
Paulo (USP), o simples fato de morrer com uso de droga não
é crime. "Se não, haveria a situação
impossível de investigar toda morte por drogas. Ainda
a família ter de ver enlamear a reputação
de uma pessoa", acrescenta.
Bastos lembra que o caso de Cássia é completamente
diferente da morte do seqüestrador da estudante Patrícia
Abravanel, filha do empresário Sílvio Santos, Fernando
Dutra Pinto, ocorrido na quarta-feira. Neste outro caso, diz
o jurista, "há suficientes indícios para se
suspeitar de homicídio". Bastos lembra ainda que
cabe ao juiz decidir sobre a abertura ou não de processo
criminal. "O magistrado não determina abertura de
processo se não houver o mínimo de indício
de crime", afirma.
Pai da cantora reage e
sugere tese de homicídio
A polêmica sobre a causa da morte da cantora Cássia
Eller, ocorrida no dia 29 de dezembro, ganhou tom criminal com
a entrevista concedida por Altair Eller, pai de Cássia,
à revista semanal "IstoÉ", que chega
às bancas neste final de semana. Segundo a reportagem,
o sargento reformado, de 66 anos, diz que "não descarta
a possibilidade de homicídio". "Não quero
acusar ninguém, mas pode ter sido uma morte provocada
por uma triangulação amorosa", sugere Altair
na entrevista.
Na relação mencionada ele envolve a percussionista
Elaine Moreira, conhecida como Lan Lan, que levou Cássia
à clínica Santa Maria, em Laranjeiras, zona sul
do Rio, onde ela morreu depois de três paradas cardiorrespiratórias,
e a companheira da cantora Maria Eugênia Vieira Martins,
com quem Cássia vivia há 14 anos. Entretanto, numa
entrevista concedida sexta-feira por Maria Eugênia a "O
Globo On Line", ela diz que as declarações
do pai de Cássia podem fazer parte de uma tentativa de
denegrir sua imagem.
Nas declarações dadas a "IstoÉ",
Altair Eller garante que vai lutar na Justiça pela guarda
do neto Francisco Ribeiro Eller, de 8 anos, e pela tutela de
seus bens. A reportagem destaca que a relação entre
Cássia e Lan Lan era sabida e aceita por Maria Eugênia
e as três chegaram a ser vistas juntas.
Retiro
A percussionista Lan Lan passou os últimos dias descansando
na Bahia. Segundo seu advogado, Artur Lavigne, ela fará
declarações somente na quinta-feira, quando retornar
da viagem. Os porteiros do prédio onde Cássia Eller
morava, em Cosme Velho, também na zona sul do Rio, depuseram
na polícia dando informações conflitantes
sobre horários e situações que envolveram
a cantora na manhã do dia 29.
O empresário de Cássia Eller, Ronaldo Villas, depois
de saber das declarações do pai da cantora à
revista "IstoÉ", afirmou: "Ele deve estar
muito bem informado, deve estar bem consciente do que disse.
Eu adoraria falar com todo mundo sobre a carreira, a pessoa da
Cássia. Mas acho que o momento é de respeitar a
família e colaborar com a polícia, que está
fazendo o seu trabalho. Cada um tem que assumir suas declarações."
Cardiologista
contesta irmã
O cardiologista Rafael Leite Luna, que atuou como consultor
da equipe médica que atendeu Cássia Eller, disse
sexta-feira que é pequena a probabilidade de a morte da
cantora ter sido causada por um problema cardíaco agravado
por um reumatismo que ela sofreu quando criança - versão
apresentada por uma das irmãs da cantora, Carla Eller.
Luna, que é ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia
(SBC), explicou que o reumatismo provoca complicação
nas válvulas do coração e que pode ter reflexo
anos depois da doença. Mas ressalvou que, com os avanços
da medicina, esse tipo de problema tornou-se raro. "O reumatismo
pode provocar estreitamento da válvula mitral, que faz
com que o sangue não chegue em quantidade suficiente à
cavidade. A longo prazo, isso pode acabar levando à morte",
afirmou o médico.
Especialistas ouvidos pela reportagem da Agência Estado
acreditam que a hipótese mais provável é
que as três paradas cardíacas sofridas pela artista
há uma semana tenham tido outra origem, porque, se a roqueira
sofresse de complicações no coração
decorrentes de um reumatismo, ela teria sentido sintomas como
cansaço e sonolência, muito comuns nesses casos.
"Calmantes"
"Como se tratava de uma pessoa ativa, que fazia inúmeros
shows, é difícil acreditar que Cássia tivesse
esse tipo de problema. Ela não morreria subitamente sem
antes apresentar sinais da doença", disse um conceituado
cardiologista que preferiu não se identificar.
Como Cássia passou a noite anterior à sua morte
bebendo cerveja - conforme contou a percussionista Lan Lan, que
ensaiava com ela, o médico acredita que a artista tenha
consumido também algum tipo de droga, combinada ou não
com remédios (a própria Cássia contou aos
médicos da Casa de Saúde Santa Maria que havia
tomado calmantes).
Companheira
pede guarda do filho
Amanhã, Maria Eugênia Martins, companheira da
cantora e compositora Cássia Eller, entrará com
uma ação de tutela pedindo a guarda do filho da
roqueira, Francisco Eller, mais conhecido como "Chicão",
de 8 anos, a quem ajudou a criar. Antevendo que, no caso de sua
morte, os pais poderiam requerer à Justiça o direito
de criar o menino, a roqueira manifestou o desejo de passar para
Eugênia a guarda de Chicão. Mas, conforme conta
o advogado dela, Marcos Campuzano, a intensa agenda de shows
não permitiu que o processo fosse iniciado.
"A intenção de Cássia era transferir
a guarda provisória do filho para Eugênia ainda
em vida para que ela fosse a mãe dele enquanto Cássia
estivesse viajando pelo País, fazendo shows. Se algo lhe
acontecesse, como houve agora, Cássia queria que a guarda
permanente ficasse com Eugênia. Francisco tinha duas mães
e Cássia queria que a Justiça soubesse disso",
contou o advogado, que acompanhava a cantora havia cerca de dois
anos.
"Tenho papéis que vão ajudar muito nesse caso,
embora não haja nenhum documento assinado por Cássia
em que ela passe a guarda para Eugênia", disse, acrescentando
que se reuniu com Cássia e a companheira para tratar da
questão em agosto. Ronaldo Vilas e Felipe Casqueira, empresários
de Cássia, testemunharam o encontro, de acordo com Campuzano.
O advogado vem mantendo contato com Eugênia desde a morte
da cantora e contou que ela ficou "bastante chateada"
com as declarações do pai de Cássia, o militar
Altair Eller, à revista "Isto é" - em
que ele afirma querer que Chicão more com ele em Fortaleza.
"Eugênia vai lutar por Chicão. Ela sempre foi
muito presente na vida dele, às vezes, até mais
do que a própria Cássia, que tinha muitos compromissos",
informou.
"Tenho certeza de que a Justiça vai levar em consideração
o fato de Eugênia ser uma pessoa totalmente equilibrada
e apta a manter o ambiente familiar em que ele vinha sendo criado.
Deixá-lo com o avô seria uma ruptura emocional muito
grande, já que os dois não têm uma ligação
forte." Conforme a cantora contou em entrevistas, Chicão
a chamava de mãe, enquanto Eugênia era a "mainha".
Especialista em direitos autorais, Campuzano defendia os interesses
de Cássia junto à gravadora Universal, além
de também tratar de questões pessoais da artista.
Ele disse que a gravadora tinha um seguro de vida de Cássia,
que seria pago em situações de incapacidade parcial
ou permanente (como a morte) da contratada, mas afirmou desconhecer
se ela havia feito um seguro próprio beneficiando Chicão
- embora a cantora tenha dito que os bens deveriam ficar com
o filho e a companheira, quando ela morresse.
Porto Alegre - Depois de 27 horas de tensão e suspense,
o sequestrador de um lotação, em Porto Alegre,
rendeu-se à polícia gaúcha e libertou as
três mulheres e dois homens que ainda mantinha como reféns
no microônibus.
Identificado como João Sérgio dos Santos Pereira,
de 27 anos, o sequestrador não tinha antecedentes criminais
e trabalhava como cozinheiro da Receita Federal. Encapuzado,
vestindo um colete à prova de balas, o sequestrador -
que até então se identificava como "Paulo"
- saiu da lotação às 12h05min, acompanhado
dos reféns, todos em bom estado de saúde, e foi
encaminhado ao Departamento Estadual de Investigações
Criminais (Deic), onde foi submetido a exames médicos
e prestou os primeiros depoimentos.
O desfecho bem sucedido do sequestro ocorreu após uma
conversa direta de João Sérgio com o secretário
estadual de Justiça e Segurança, José Paulo
Bisol, que lhe deu garantias de vida e de um processo justo,
além de ajuda à sua família pela Secretaria
do Trabalho e Ação Social. (Sérgio Gobetti
/Agência Estado)
FHC garante
apoio total
à Argentina
Brasilia O presidente Fernando Henrique Cardoso telefonou
para Eduardo Duhalde a fim de prestar solidariedade e garantir
apoio do Brasil ao novo governo argentino. Fernando Henrique
prometeu ainda estimular organismos internacionais a oferecerem
ajuda aos argentinos. FHC citou o Banco Mundial.
No telefonema de 15 minutos, Fernando Henrique e Eduardo Duhalde
trataram da próxima reunião de cúpula do
Mercosul. O presidente argentino gostaria que o encontro fosse
já na semana que vem. Fernando Henrique alegou que sua
agenda de viagens irá a Rússia no dia 14
o impediria e sugeriu a última semana de janeiro.
Assessores de Fernando Henrique afirmam que seria precipitada
uma reunião de cúpula na semana que vem. O Brasil
prefere conhecer primeiro o teor das medidas do pacote argentino
para analisar possíveis resultados e tomar posições.
A gravidade da crise da Argentina impede qualquer atitude
impensada, diz um assessor próximo de Fernando Henrique.
Um dos temas certos da reunião de cúpula do Mercosul
além da crise e do pacote anunciado será
a presidência do bloco assumida este mês pelo governo
argentino. Eduardo Duhalde o quinto presidente da Argentina,
nos últimos 15 dias ouviu também o relato
de Fernando Henrique sobre a conversa que manteve com o presidente
dos Estados Unidos, George W. Bush, na mesma linha de apoio ao
governo argentino.