Joinville         -          Terça-feira, 23 de Julho de 2002         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANotícia  




 




TESTEMUNHA
Lourival Sant'Anna (ao lado) foi o único repórter brasileiro a entrar no Afeganistão depois do atentado de 11 de setembro nos Estados Unidos
Foto: JOSE CORDEIRO - AE (ao lado), Divulgação (abaixo)

Na rota
do desespero

"Viagem ao Mundo dos Taleban" será lançado hoje, na Capital, com a presença do autor, o jornalista Lourival Sant'Anna

Florianópolis - O jornalista Lourival Sant'Anna foi o único repórter brasileiro, e um dos poucos do mundo, a entrar no Afeganistão depois do atentado de 11 de setembro, nos Estados Unidos. Ele mergulhou nesta sociedade pouco conhecida, entrevistou membros da organização terrorista Al- Qaeda, líderes do Taleban e também pessoas comuns. Todos esses relatos, além da sua percepção sobre a primeira guerra do século 21, estão em "Viagem ao Mundo dos Taleban" (Geração Editoral), que será lançado hoje, na Capital, com a presença do autor.
Sant'Anna esteve no Afeganistão como enviado especial do jornal "O Estado de S. Paulo". Preocupado em relatar os fatos, ele não impõe uma verdade, ciente que a história é um processo aberto, envolvendo pessoas reais, com sentimentos e dúvidas, nem sempre coerentes. O autor evita forjar conclusões, escapando da armadilha de apontar mocinhos e bandidos.
Cada personagem do livro do jornalista é um retrato vivo do drama que se desenrola no Afeganistão, onde a vida se articula a partir de referências étnicas, seguida pela vivência religiosa e, só no fim, pela identificação com as fronteiras nacionais. Surge então um retrato de um país condenado pela geografia, artificial e imposta pela colonização.
Segundo o autor, o que mais emocionou foi "ver aqueles pais indo de um lado para o outro, tentando procurar uma saída, um lugar seguro para seus filhos", lembra. "Todas as fronteiras estavam fechadas, e os funcionários da Organização das Nações Unidas (ONU) e das agências humanitárias tinham sido expulsos do país. As famílias se deslocavam em todos os sentidos. Não havia uma rota comum. Era um movimento contraditório, que indicava o desespero."

O QUÊ: Lançamento do livro VIAGEM AO MUNDO DOS TALEBAN, de Lourival Sant'Anna.QUANDO: Hoje, às 20h. Às 18h30, palestra e debate abertos ao público. ONDE: Auditório do Centro de Comunicação e Expressão (CCE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), campus, Trindade, Florianópolis, tel.: (48) 331-9351. QUANTO: R$ 25,00.


A terra vazia
e vaga de Neuert

Marco Anselmo Vasques
Especial para o Anexo

Florianópolis ­ Quando, em 1999, o advogado e escritor catarinense Werner Neuert publicou seu primeiro livro de contos "Do Ofício de Matar Bois" (Editora Garapuvu) já se mostrou um autor com o domínio da técnica narrativa, um cronista da vida urbana e um observador perspicaz do menos-homem. Trouxe, também, a dureza cada vez mais sólida no panorama urbano à maneira de Fernando Bonassi e uma concisão na linguagem que remete a Dalton Trevisan. A obra tem a crueza de "Deus e o Diabo na Terra do Sol". Terra?
Agora, acaba de ser lançado o segundo livro do autor. "A Terra Estava Vazia e Vaga" (Editora Hemisfério Sul) revela uma escritura minimalista, apavorante e de uma ironia sombria. O autor continua com as temáticas já exploradas em sua primeira obra, onde se destacam os desvalidos, os desqualificados, os traídos, os traidores, os supostos irrecuperáveis, ou seja, os que vagam vazios sobre a Terra. O autor estabelece a dicotomia entre o profano e o sacro,
Werner surpreende na linguagem, pois reduz algumas de suas histórias a duas, três, quatro linhas. Um flagrante do dia-a-dia a cada texto. O livro, dividido em duas partes, traz na primeira "Histórias", que contém os haicais ocidentais, textos mínimos que registram o grotesco urbano e suburbano. "Histórias Longas", o segundo momento, carrega as marcas de "Histórias", com uma ou outra exceção de caráter mais sutil e de linguagem menos crua, como é o caso do conto "Bom Dia Borboletas".
Neuert não é um aventureiro daqueles que publicam um único livro, apenas por vaidade, e depois desiste da vida literária. As duas obras já comprovam um autor com um projeto delineado em busca de realização. Trata-se de um criador obcecado pela concisão, pela imagem simples do cotidiano da vida brasileira, pelo humor negro e pela nudez humana.
Esse catarinense, nascido em Indaial no fatídico 1964, entra no cenário da literatura catarinense com vigor. Os personagens e situações criados em "A Terra Estava Vazia e Vaga" constroem uma partitura da psique do homem moderno e dialogam com a obra de Nelson Rodrigues. Essas confluências entre linguagens e temáticas em nada diminuem a escritura de Werner. Leia e verá.

Marco Anselmo Vasques, poeta e diretor teatral.

"Do Ofício de Matar Bois", Werner Neuert, Editora Garapuvu, 1999, 72 páginas, R$ 10,00.

"A Terra Estava Vazia e Vaga", Werner Neuert, Editora Hemisfério Sul, 2002, 99 páginas, R$ 15,00.


Evento na Capital
discute os rumos da comunicação

Com palestras, workshops e mostra de filmes, Festival Multimeios reúne publicitários e jornalistas

Florianópolis - O Festival Multimeios, que começou ontem à noite, irá reunir até sábado publicitários e jornalistas discutindo as diversas formas de comunicação. Entre os convidados estão os publicitários Wagner Zaratin e J. Roberto Whitaker Penteado, os jornalistas Zeca Camargo e Juca Kfouri e o humorista Bussunda.
A organização do festival é da Unijúnior, empresa de comunicação da Universidade do Sul (Unisul) formada por estudantes de jornalismo, publicidade e cinema e vídeo. "Estamos reunindo estudantes e profissionais dos três Estados do Sul, de São Paulo e do Rio Janeiro para debater os rumos da comunicação", afirma José Augusto Martins, estudante de publicidade e coordenador do evento.
O evento é formatado com workshop e grupos de discussão, realizados no centro de cursos da Unisul, mostra de curtas e filmes publicitários e palestras, estes últimos programados para acontecer no Centro Integrado de Cultura (CIC). A primeira palestra aconteceu ontem à noite, Action Marketing ou no media? O que é e Como Funciona, com Wagner Zaratin, diretor do Action Marketing F/Nazca S&S. Hoje, o convidado é Zeca Camargo, apresentador do "Fantástico", que abordará O Fenônemo do Reality Show no Brasil. Amanhã é a vez do jornalista esportivo Juca Kfouri.

O QUÊ: 3º FESTIVAL MULTIMEIOS. QUANDO: Até sábado, a partir das 14h. ONDE: Workshops e grupos de estudos: Centro de Cursos da Unisul, rua Deodoro, 204, centro, Florianópolis; palestras: Teatro Ademir Rosa; mostras de curtas e filmes: Museu da Imagem e do Som (MIS); shows: Café Matisse, todos no Centro Integrado de Cultura (CIC), av. Irineu Bornhausen, 5.600, Agronômica, tel.: (48) 333-2166. QUANTO: Palestras, R$ 10,00 cada; workshops e grupos de estudo, inscrições já esgotadas.
INFORMAÇÕES: www.festivalmultimeios.com.br

Programação

As atrações e horários do Festival Multimeios

Hoje
Das 14 às 18h30 - Mostra de curtas e filmes publicitários premiados.
20h - Palestra O Fenônemo do Reality Show no Brasil, com Zeca Camargo
22h30- Show acústico com Candybar

Amanhã (quarta)
Das 14 às 18h30 - Mostra de vídeos independentes
20h - Palestra Jornalismo Esportivo,com Juca Kfouri
22h30 - Show Ana Losekann & Jobert


Banda marcial de
Brusque se apresenta na Alemanha

Debora Sabino
Especial para Anexo

Brusque - A Banda Marcial Colégio São Luiz embarcou ontem para a Alemanha para divulgar o CD "Metais e Percussão", gravado pelos 40 músicos que integram o grupo, além de realizar intercâmbio com conjuntos alemães. Os integrantes ficam duas semanas no país, na região de Regensburg, apresentando-se em escolas, Prefeitura, centro de compras e cervejarias. Conforme o maestro Sérgio Freitas, esta é a segunda banda colegial catarinense a gravar um CD. Com dez músicas, o CD foi gravado no auditório da Fundação Educacional de Brusque, e lançado no dia 15 de julho.
No repertório estão "Aquarela do Brasil" (Ary Barroso), "El Capitan" (John Philip souza), "Flashdance" (Giorgio Moroder), "Canção da Infantaria" (Thiers Cardoso), "Novena Rhapsody For Band" (James Swearinger), "Hino Nacional Brasileiro" (Francisco Manoel da Silva), "Expressions In Music" (Jo Bonte), "Copacabana" (João de Barro e Alberto Ribeiro), "Anna Júlia" (Marcelo Camelo) e "Macho Man" (Jaches Morali/ Henri Belolo/ Victor Willis/ Beaur Whitehead). Todas as músicas foram autorizadas pelas gravadoras, com exceção de "Anna Júlia", cuja autorização foi feita pelo próprio autor, Marcelo Camelo. "Escolhemos um repertório eclético, com compositores brasileiros, marchas e outras músicas mais clássicas", explica Freitas.
Além dos 40 músicos que participam da viagem, outros 50 integram o grupo, fazendo parte da escolinha e também linha de frente, com pelotão de bandeiras. Entre os integrantes estão alunos e ex-alunos do Colégio São Luiz e estudantes de outros colégios. A idade varia entre 12 e 80 anos. Os CDs estão à venda no próprio colégio, a R$ 10,00. Interessados podem adquirir o disco através do telefone (47) 351-1200, ramal 218.


Caçador faz
cadastro de artistas

Adriano Ribeiro
Especial para o Anexo

Caçador - Descobrir novos talentos. Esse é um dos objetivos do Departamento Municipal de Cultura de Caçador, que há cerca de um mês está realizando o cadastramento de artesãos e artistas de diversos gêneros. A intenção é formar um cadastro preciso dos valores caçadorenses, que terão espaços em eventos realizados pelo município. Até o momento, 50 artistas já disponibilizaram seus dados.
"Queremos também efetivar um intercâmbio entre os artistas do centro e aqueles que moram no bairro", explica a coordenadora de serviços administrativos da Cultura, Vera Lúcia Braun Berardi. A municipalidade quer popularizar a arte, interagindo simultaneamente com pessoas que dispõem de opções em espaços para exposições e outros praticamente desconhecidos.
Assim que o cadastro ficar pronto, os artistas terão à disposição o espaço da Casa da Cultura. A idéia também é oferecer espaços nas chamadas ruas de lazer. Nesses locais, a coordenadora vislumbra artistas com técnicas e linguagens diferenciadas, mostrando suas habilidades ao público caçadorense. "Assim vamos resgatar valores artísticos e culturais, estimulando os novos", pondera.
Os interessados no cadastramento devem entrar em contato com o Departamento de Cultura pelo telefone (49) 563-2266, ou na rua Curitibanos, 600, centro.


Produção de SC
concorre em Gramado

Florianópolis - Santa Catarina estará representada mais uma vez no Festival de Gramado - Cinema Brasileiro e Latino com um curta-metragem. "Alumbramentos", de Laine Milan, vai concorrer na categoria com outras 25 produções - 14 em 35 e 11 em 16 milímetros. Em sua 30ª edição, o evento, que acontece entre os dias 12 e 17 de agosto na cidade da serra gaúcha, terá a participação de 14 longas-metragens, sendo cinco documentários, a novidade deste ano.
O curta-metragem em 35mm de Laine Milan foi produzido em parte com recursos obtidos através do Prêmio Cinemateca - Fundação Catarinense de Cultura, que no ano passado distribuiu mais de R$ 1 milhão em dinheiro para o setor no Estado. A produção de 18 minutos, com roteiro de Marcelo Esteves, se passa na década de 40, durante a Segunda Guerra Mundial, na localidade de Ribeirão da Ilha, em Florianópolis, onde os moradores, entre eles o menino Francisco, vivem alheios aos acontecimentos no mundo.
A história mostra como o Francisco, vive uma época de alumbramentos. Ele está em plena fase de uma intensa paixão pelas palavras, em especial aquelas que não conhece e ouve pelas esquinas. Entre um mergulho e outro nos verbetes do seu velho dicionário, ele está prestes a descobrir um mundo novo. No elenco, os atores Leandro W. De Melo, Carlos Valente, Raul Ferreira, Marcello Trigo, Luigi Cutolo, Elliane Carpes, Luciana Makowiecky, Tina Rinaldi, Marcella Machado.


Indaial sedia
encontro de patinação

Blumenau - Um show de destreza e equilíbrio é o que promete o 1º Festival Catarinense de Shows de Patinação Artística Sobre Rodas, que acontece de hoje a sexta-feira, em Indaial. Cinco grupos de Maravilha, Itajaí, Presidente Getúlio, Iporã do Oeste e Indaial integram as apresentações diárias nas categorias infantil, júnior e sênior.
O encontro premia com troféus e medalhas os melhores em solo feminino, dupla mista, grupo, produção, coreógrafo, figurino, trilha sonora e melhor show nas três categorias. As apresentações acontecem de hoje até quinta, e, no último dia, a programação prevê um show especial com os campeões. Entre os critérios, serão observados os quesitos interpretação (estilo), facilidade de execução dos movimentos (firmeza e equilíbrio), sincronismo musical, variedade de movimentos e figurino.
Os grupos Clube Maravilha Sobre Rodas, de Maravilha, Clube de Patinação Rodas de Ouro, de Itajaí, Cia. De Dança e Patinagem Roda Viva, de Presidente Getúlio, Clube de Patinação Asas da Liberdade, de Iporã do Oeste, e Patinação Artística da Fundação Indaialense de Cultura, de Indaial, vão se apresentar todos os dias, com coreografias diferentes que duram em média três minutos. As mais demoradas, que duram em média dez minutos, serão executadas pelos solos.
Indicado para participantes de academias, agremiações, associações, clubes, profissionais e estudantes de artes cênicas, o festival também oferece as oficinas arquitetura da moda, interpretação teatral, ioga e equilíbrio emocional e patinação artística. A iniciativa é da Federação Catarinense de Patinação Artística, em parceria com a Fundação Indaialense de Cultura.

O QUÊ: 1º Festival Catarinense de Shows de Patinação Artística Sobre Rodas. ONDE: Ginásio Municipal de Esportes Sérgio Luiz Peters, rua Dr. Blumenau, 5, centro, Indaial, tel: (47) 333-2990. QUANDO: De hoje a sexta, às 20h. OFICINAS: De hoje a sexta, das 9 às 12h e das 14 às 17h. QUANTO: R$ 15,00 (oficinas); gratuito (apresentações de hoje a quinta); R$ 2,00 (sexta).


Vale a pena
ver de novo?

"Homens de Preto 2" repete piadas do original, mas tem bons momentos

Lola Aronovich
Especial para o Anexo

Joinville - Antes de me acusarem de não gostar de filme algum, quero manifestar que amo de paixão "Homens de Preto". O de 1997, bem entendido. Ri de montão com aquela escrachada ficção científica. Até a considerei a melhor produção do ano. Adoro o mote "salvando a Terra da escória do Universo", ou algo assim. Adoro o personagem da Linda Fiorentino, que trabalhava num necrotério e dizia "Odeio os vivos". Adoro a alquimia entre o Will Smith e o Tommy Lee Jones. Adoro o clima de história em quadrinhos, e até a música-tema. "MIB" é tão inventivo e audaz que a gente relega seu custo abusivo e torce pra que a fórmula não vire uma franquia.
Então, havia necessidade de fazer "MIB 2"? Provavelmente não. Mas fui toda faceira assistir à seqüência. Afinal, o trailer era ótimo. E não é que o número dois não seja engraçadinho. Ele tem boas piadas. É só que todos os chistes legais estão no trailer. Juro! Quero que minha mãe seja abduzida por um monstro intergalático se eu estiver mentindo. O cãozinho que canta "I Will Survive"? Tá no trailer. Aliás, ele rouba as cenas em que aparece. O diálogo entre o Will e um ET numa língua que lembra rap? Tá no trailer. A cara do Tommy ao ser abordado no correio? Idem. E também tá lá a melhor piada do filme, em que um agente chega dirigindo um carrão, estaciona e é sugado pelo volante. O Tommy pergunta se o carro sempre vem com esse acessório, e o Will responde: "Antes vinha com um negão, mas ele sempre era parado pela polícia". O politicamente incorreto foi uma das qualidades do "MIB" do último milênio.
Fora isso, não dá pra entender por que inventam de fazer uma seqüência, se o pessoal não tem nada de novo pra acrescentar. É só pra reciclar as piadas? No primeiro "MIB", a dupla de preto salvava o universo. Desta vez, tchan tchan, eles salvam o universo. E, depois de cinco anos de intensa negociação salarial, Tommy e Will parecem cansados. Pra compensar, eles contracenam com monstrinhos toda a hora. Mas até os aliens ficam chatos depois de um tempo. E o vilão de 97 era mais convincente, mais assustador. Agora eles têm de enfrentar uma vilã de lingerie que vira milhares de serpentes. Ela é interpretada pela Lara Flynn Boyle arqueando as sobrancelhas, e é tão curvilínea quanto uma cobra esticada.
O maior problema está no roteiro sem amarração. Não dá pra entender por que, no início, o Will é um expert que derrota sozinho um minhocão. Assim que o Tommy é desneuralizado (não pergunte), o Will transforma-se num incompetente. O que aconteceu, transfusão de cérebros? E algumas piadinhas simplesmente não funcionam. Por exemplo, posso estar falando por mim, mas eu já desconfiava que o Michael Jackson era um ser de outro planeta. A anedota sobre o Spielberg, produtor do filme, soa contida demais; e o prólogo, que seria uma paródia do célebre trash do Ed Wood, foi tão sem graça que já me deixou preocupada.
Ainda assim, "MIB 2" não é o pior dos mundos. Vale a pena ver o rosto embasbacado dos americanos ao serem desmemorizados por aquele trocinho especial. Pena que seja tão "vale a pena ver de novo", né?

Lola Aronovich, cronista de cinema, lola@netkey.com.br

Manchetes AN

 Das últimas edições de Anexo
22/07 - As belezas e mudanças da cultura indígena
21/07 - Patrimônio paleontológico
20/07- Arte e emoção
19/07 - Sutil fronteira
18/07 - Ferramentas históricas
17/07 - Japão abre festival de Jaraguá do Sul
16/07 - Deborah Colker traz seu brilho para Joinville
15/07 - "La Chunga" é o grande vencedor

Leia também

Animação
em Jaraguá

2º Festival de Formas Animadas entusiasma organizadores, que já começam a preparar a edição 2003

Marlise Groth

Joinville - O Festival de Formas Animadas da Cidade de Jaraguá do Sul chegou ao fim, mas a comissão organizadora já inicia os preparativos para a edição de 2003. Segundo o coordenador-geral do evento, Gilmar Moretti, a segunda versão do festival serviu para amadurecer a idéia. "Ainda nesta semana vamos fazer uma reunião para discutir o processo e definir a linha que adotaremos no próximo ano", argumentou.
De acordo com Moretti, o 2º Festival superou expectativas. Um dos pontos que favoreceu o acesso do público aos espetáculos foi a abertura do grande teatro da Sociedade Cultura Artística (Scar), com capacidade para mil espectadores. Entre as apresentações realizadas na Scar, escolas, praças e fábricas, a estimativa é de que 8.300 pessoas tenham prestigiado o evento que iniciou na quarta-feira, com apresentação do Dondoro Theater, do Japão, e encerrou no domingo, com "As Aventuras do Professor Tiridá", espetáculo de Augusto Bonequeiro e Ângela Escudero, de Fortaleza (CE).
Reconhecidos internacionalmente na arte do mamulengo, os cearenses também subiram ao palco outras duas vezes com "Em Matéria de Tá e Coisa Tudo Mais é Benedito" e "Fuleragem", espetáculo de ventriloqüismo apresentado no piano-bar da Scar. No final de semana, o mau tempo também deu uma trégua é não comprometeu o desfile que reuniu bonequeiros, comunidade, banda e um grupo folclórico local.
Este ano, as apresentações teatrais foram realizadas no pequeno e grande teatro e piano-bar da Scar, na unidade da Weg 2, Marisol e Duas Rodas, no Centro Social Constância Piazera, Escola Municipal Antônio Estanislau Ayroso, Escola Municipal Alberto Bauer, praça Ângelo Piazera e shopping Breithaupt. "No próximo ano pretendemos contar com a participação direta de um grupo local. Para isso, queremos dar continuidade ao trabalho iniciado na oficina de bonecos, ampliando o contato da comunidade com essa linguagem cênica", explica Moretti.
A alegria das crianças e o ecletismo do público são as lembranças que Sérgio Tastaldi, produtor da Turma do Papum, vai levar para Florianópolis. Segundo ele, o evento foi muito importante para a troca de informações entre os bonequeiros e para a divulgação dessa linguagem teatral.
Entre as sugestões que deixa para a próxima edição está a criação de uma bancada de discussão entre o público e os bonequeiros. "Uma espécie de sofá da Hebe Camargo, realizado antes dos espetáculos, para que todos tenham a chance de questionar o trabalho do ator, as técnicas empregadas e a linha de desenvolvimento do espetáculo." Com vontade para voltar em 2003, ele até se dispõe a mediar o "sofá da Hebe". "Faríamos um encontro de bonecos, bonequeiros e público, e estreitaríamos ainda mais essa relação", declara, lembrando que a discussão, antes do espetáculo, aumentaria o respeito e a curiosidade sobre o trabalho. A Turma do Papum também ressalta a acolhida e a surpresa proporcionada pela "turma do café". "Eles deixaram um recadinho na bandeja desejando boa sorte e conseguiram emocionar a todos", completa Márcia Pagani.
Para o bonequeiro Willian Sievert, de Rio do Sul, integrante da Cia. dos Bonecos, o evento foi acolhedor e bem organizado. "Gostei do que vi, mas sugiro que no próximo ano tenham mais cuidado com a luz de serviço da cabine de som e luz e com a luz das portas de entrada. Isso me incomodou um pouco", disse. Para Eduardo de Souza Custódio, produtor da Cia. Gente Falante, de Porto Alegre, oficinas reunindo a comunidade e os próprios bonequeiros poderiam ampliar a dimensão do festival. "A troca de experiências serviria para mostrar as várias indicações dessa arte como a saúde, a pedagogia, a literatura, a publicidade e o próprio cinema", garante. O festival contou com apoio da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, e Prefeitura de Jaraguá do Sul.


Momento teatral raro

Peça encenada em Joinville estimula reflexões sobre os avanços científicos e tecnológicos do último século

Eliane Lisbôa
Especial para o Anexo

Florianópolis ­ "O engenho dos homens nos ofereceu, nos últimos cem anos, tanta coisa que teria podido facilitar uma vida livre e feliz, se o progresso entre os homens se efetuasse ao mesmo tempo que o progresso sobre as coisas. Ora, o laborioso resultado se assemelha, para nossa geração, ao que seria uma navalha para uma criança de três anos. A conquista de fabulosos meios de produção não trouxe a liberdade, mas as angústias e a fome. Pior ainda, os progressos técnicos fornecem os meios de aniquilar a vida humana e tudo que foi duramente criado pelo homem." O pensamento de Albert Einstein move toda a construção de "O Princípio - Tríptico Cênico", montado pela Dionisos Teatro, em Joinville, que traz Borges de Garuva de volta à cena teatral catarinense.
O espetáculo está apoiado no texto de Guilherme Figueiredo, "O Princípio de Arquimedes", que apresenta o confronto entre o sábio Arquimedes e um soldado, quando a cidade de Siracusa cai sob domínio romano. Borges de Garuva escreveu mais outras duas cenas, todas se passando no contexto da Segunda Guerra Púnica (219-202 a.C.), e uma espécie de prólogo, em torno da mesma questão: a quem serve a evolução do conhecimento humano.
O prólogo lança uma série de reflexões a respeito da posição do homem hoje no mundo, e as três cenas se seguem num desenho claro. O foco é o jogo entre dois personagens, em luta por suas idéias. Na primeira cena, o filósofo Zelão recusa-se a permanecer numa Roma belicista e é perseguido por seu discípulo, o tribuno Flávio. Este quer convencê-lo a ficar, pois precisa do mestre para garantir seu próprio brilho, até que finalmente termina matando o filósofo. Na cena seguinte, novo confronto, agora entre o sábio Aristo e seu discípulo. Ao tomar conhecimento de que o grande engenho em que estiveram trabalhando por tanto anos é uma poderosa máquina mortífera, o discípulo enfrenta o mestre, sendo então assassinado por Aristo. E a última cena encerra o espetáculo com a morte de Arquimedes pelas mãos do soldado romano.
As três cenas trabalham com um tema básico, a relação do homem com a guerra, e como o avanço científico e tecnológico pode afastar o homem de si mesmo, de sua humanidade, tornando-se simplesmente ele também uma máquina criadora de engenhos.
É um espetáculo de idéias, portanto, que nos põe frente a nós mesmos e ao nosso tempo, que questiona a voracidade com que vamos avançando, sem preocuparmo-nos para onde vamos, o que fazemos de nós mesmos e em volta de nós, com tudo o que somos capazes de elaborar.
Neste sentido, "O Princípio" é um momento teatral raro, ao nos possibilitar reflexões mais profundas sobre o que tem significado o enorme avanço científico e tecnológico do último século, pois coloca o teatro a serviço de seu tempo, fazendo com que o homem se veja em cena, e se veja também a partir da grande cena da existência.
O trabalho, no entanto, apresenta um grande risco: o de um retorno a um teatro excessivamente discursivo, onde as falas trazem tudo em si mesmas. Para evitar-se isso, há ainda um percurso a fazer, sobretudo de ritmo, em particular na caminhada de Zelão e Flávio. A idéia é quase singela, com os pequenos focos que se transportam de um ponto a outro, mas termina se perdendo no arrastar-se da cena
A importante defesa da simplicidade que o espetáculo faz, com seu despojamento, a readaptação dos materiais cênicos para cada novo momento à vista do público, os atores se preparando e maquiando em cena, tudo isto, que deve criar uma intimidade entre palco e platéia, exige um encadeamento ainda maior do espetáculo, e não o contrário. Pois essa intimidade é feita também de nossa vontade de ver o que se passa em seguida, de compreender os elos que nos estão sendo propostos construir, porque é disso que se faz este teatro, de nossa própria participação enquanto elaboradores de sentido.
Precisamos, sim, deste encontro maior com os atores e com a própria cena, na sua limpidez, mas também na sua inteireza enquanto movimento, voz, espaço, e sobretudo ritmo. Outra riqueza do
espetáculo, o trabalho musical de Guilhermo Santiago, que vem se colocando como um importante pesquisador da música ao serviço do teatro, ou mais do que isso, transformando música e cena num único elemento.

Eliane Lisbôa, crítica de teatro.

 
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