Joinville         -          Domingo, 17 de Março de 2002         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

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Entrevista / Gaudêncio Torquato

"Na minha visão, somente nas últimas duas semanas será decidida a eleição. O eleitor vai parar, racionalizar e comparar os candidatos."

"Será uma
campanha eleitoral suja"

Consultor e professor da USP, Gaudêncio Torquato prevê disputa acirrada na disputa pela presidência

Jefferson Saavedra

O consultor político e professor da Universidade de São Paulo (USP) Gaudêncio Torquato está convencido de uma campanha acirrada nas eleições presidenciais. A investigação sobre uma empresa da governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PFL), seria apenas o começo. "Será uma campanha suja", afirmou Torquato. Um dos pioneiros do marketing político no Brasil, o especialista escreve para dezenas de jornais sobre a cena política. Na área de política, marketing e comunicação empresarial, Torquato publicou cinco livros. O consultor também faz parte do conselho curador da Fundação Ulysses Guimarães, mantida pelo PMDB.
Apesar da efervescência em torno da disputa pelo Palácio do Planalto, Torquato acredita em muitas mudanças até a realizações das convenções, em junho. O principal entrave para trazer um pouco de clareza ao quadro da sucessão seriam as dúvidas surgidas depois da determinação de verticalização das alianças. "Essas questões serão resolvidas nos próximos dias", diz ele, aventando a hipótese de reversão da verticalização. Na última quarta-feira, antes de participar do 15º Congresso Brasileiro de Vereadores, realizado entre os dias 10 e 14 em Joinville, Gaudêncio Torquato conversou com a reportagem de A Notícia.

"O Lula tem um problema histórico. Ele patina no espaço que já é dele. Lula não significa um fato novo. Quem salvou o PT, por incrível que pareça, foi a verticalização das alianças, fazendo que com o PT volte à sua unidade tradicional e seu espaço na esquerda."

A Notícia ­ Os desdobramentos da verticalização das alianças ainda são uma incógnita?
Gaudêncio Torquato ­ Na minha visão, a verticalização virou as regras do jogo. Na verdade, está provocando muitas dúvidas. Claro que há um movimento para derrubá-la, por meio de decreto legislativo ou através de uma ação direta de inconstitucionalidade. Essas questões serão resolvidas nos próximos dias.

AN ­ Mas a verticalização não é irreversível?
Torquato ­ Ainda existe essa possibilidade de mudança na medida que o Congresso Nacional poderá dar vazão a insatisfação de alguns partidos, como o PT, o PMDB e o PFL, por exemplo. A dificuldade maior é passar pela Câmara. No Senado, Renan Calheiros quer isso. O problema todo é o seguinte: a partir da divulgação das pesquisas de ontem (na última quarta-feira) há novos posicionamentos com a subida do José Serra e a queda de Roseana Sarney. Essa reviravolta vai trazer novos posicionamentos sobre a verticalização.

AN ­ Vai se mudar as regras conforme as conveniências? Casuísmo?
Torquato ­ A política sendo alterada a cada instante; o rolo compressor do governo; o poder da mídia, à frente a Rede Globo; enfim, esse rolo compressor está determinando os novos passos da opinião pública, que está sendo muito influenciada pelos fatos recentes. como as denúncias contra Roseana e a visibilidade do Serra proporcionada pela programa eleitoral na televisão. Com esse reposicionamento, mudam as posições no Congresso. Agora, mesmo que a coligação vertical seja um fato interessante para o fortalecimento dos partidos, exigindo a coerência doutrinária, no curto prazo pode ser interpretada como casuísmo, porque não cumpriu a regra de que deveria ter sido feita a um ano. Isso rompe aquela regra de que o jogo já havia começado e houve mudança. É claro que há suspeitas que Tribunal Superior Eleitoral teria atendido a um desejo maior de atender a candidatura de José Serra. O que temos que observar é o seguinte. O quadro político está mudando e vai mudar mais ainda. Há uma questão que vai ficar no ar, caso a verticalização seja mantida: os partidos que não fizerem coligação no plano federal, não tiverem candidatura própria à Presidência, eles poderão coligar a torto e direito no Estado?

AN ­ Sim, poderão.
Torquato ­ O problema é que existem interpretações diferentes. Essa de que as coligações nos Estados são livres se não há candidatura nacional é a voz corrente. Mas existe quem pensa diferente. Só a partir da resolução dessas dúvidas, o que deve acontecer nos próximos dias, é que as águas poderão correr mais tranqüilas.

AN ­ Mas faltam apenas pouco mais de seis meses para a eleição.
Torquato ­ Primeiro vou colocar uma aritmética complicada. Hoje tem 25% para o Lula, 19% para o Serra, 15% da Roseana, mais 12% do Ciro, mais 10% do Garotinho, mais 5% do Itamar e do Enéas. Se somar tudo, dá 90% do eleitorado brasileiro. Aí você pergunta? 90% do eleitorado está definido? Eu respondo que não. Pois se você fizer a pergunta: "você tem candidato", dois terços do eleitorado vão responder que não. Há uma dissonância. Dois terços não têm candidato mas as pesquisas apontam 90% com candidato.

"O que derrubou a Roseana? Os dossiês contra seu marido, a investigação nas suas empresas, a vida pregressa da família dela. Aquela foto das notas de R$ 50,00 é mais importante para o eleitor do que todo o palavrório investigativo. Acredito que Roseana vai renunciar nos próximos dias."

AN ­ Mas o que há? O cardápio de candidatos não agrada?
Torquato ­ Não é isso, é que as pesquisas flagram a exposição: eu vi fulano na televisão, ou seja, a pesquisa mostra a visibilidade do candidato. Na minha visão, somente nas últimas duas semanas será decidida a eleição. O eleitor vai parar, racionalizar e comparar os candidatos.

AN ­ Decidir no final não é voto emocional?
Torquato ­ Não, pelo contrário. O eleitor não quer decidir rápido. Essa eleição será diferente das anteriores. Dessa vez não tem o "grande" Plano Real: os candidatos estão mais "japoneses", todos parecidos, pensando no mesmo nível. Vai ser um contra o outro, não mais uma grande idéia. Nesse sentido, será uma campanha polarizada que vai para o segundo turno. E aqui começa tudo do zero.

AN ­ O Lula contra alguém?
Torquato ­ Lula ganhou uma sobrevida com depois das denúncias contra a Roseana. Ele vai se reposicionar. E quem mais vai? Hoje provavelmente o Serra. Pode ser o Anthony Garotinho. Até o Ciro Gomes. Por que não? Ele agrega votos regionais. Ciro poderá subir com os eventos com a Roseana. A partir do fato de que o Nordeste tem 27% dos votos, ele tem chance.

AN - Mas em março de 1994 e 1998, Lula também "estava" no segundo turno...
Torquato - O Lula tem um problema histórico. Ele patina no espaço que já é dele. Lula não significa um fato novo. No momento em que o PT quebra sua unidade na tentativa de se coligar com o PL, não funciona. Quem salvou o PT, por incrível que pareça, foi a verticalização das alianças, fazendo que com o PT volte à sua unidade tradicional e seu espaço na esquerda. Esse quadro será interessante. Na minha visão, a partir de agora os candidatos vão se apresentar de maneira mais objetiva ao eleitorado. Com propostas, e não com emoções...

AN ­ Uma campanha esvaziada de marketing?
Torquato - Não, mas o marketing vai privilegiar o discurso. Não adianta alguém ser vendido como sabonete: no primeiro impacto, desmorona. Neste ano, a eleição vai para o segundo turno, será uma campanha mais racional, mais acirrada. Prevejo uma campanha também suja. Aliás, já começou. É a guerra dos porões, dos subterrâneos, dossiês. É buscar fatos negativos da vida dos candidatos.

"O marketing vai privilegiar o discurso. Não adianta alguém ser vendido como sabonete: no primeiro impacto, desmorona. Neste ano, a eleição vai para o segundo turno, será uma campanha mais racional, mais acirrada."

AN - 1989 vai se repetir?
Torquato - Na minha visão, aquele depoimento da Miriam Cordeiro (ex-mulher de Lula) foi decisivo. Veja agora, o que derrubou a Roseana? Os dossiês contra seu marido, a investigação nas suas empresas, a vida pregressa da família dela. Aquela foto das notas de R$ 50,00 é mais importante para o eleitor do que todo o palavrório investigativo. A imagem vale por mil palavras. Aquela imagem vai ficar até o final da campanha. Mas acredito que Roseana vai renunciar nos próximos dias.

AN - Quem ganhou com a saída do PFL do governo?
Torquato - Foi o maior erro da vida do PFL. Saiu do governo sem ter feito uma lição de casa profunda. Todos sabiam que o tiroteio iria cair sobre o Jorge Murad, marido da Roseana. Por que o PFL não trabalhou nesses conceitos antes? Agora só resta ao PFL voltar, humilhado, aos braços do José Serra. Ou então tentar uma outra alternativa.

AN - Quem seria o plano B?
Torquato - É o Aécio Neves (presidente da Câmara dos Deputados pelo PSDB de Minas Gerais). Poderia ser o Aécio, caso o Serra não suba nas pesquisas. Ele poderia reunir novamente o PSDB, PFL e PMDB. Mas esse plano B só será usado se o Serra não decolar.

AN - O PFL não passou a rejeitar o PSDB?
Torquato - Não. A rejeição é à figura de José Serra. Quanto ao PSDB, é ao contrário. O relacionamento é bom com o presidente Fernando Henrique. Mas o quadro está mudando muito. O Serra cresceu quase 50%, a Roseana caiu bastante.

AN - O que o eleitorado brasileiro espera de um presidente?
Torquato - Ele quer um cidadão ético, honesto, sério e experiente. O presidente tem que transmitir segurança para realizar o avanço. Esse avanço não é virar a mesa, como pensava o PT. Tanto que o partido percebeu isso, através de pesquisas qualitativas, e está mais maleável para ampliar seu espectro. Embora existam pessoas que acreditam que isso faz o partido perder pontos. O Serra também se adapta: vai manter a estabilidade, mas vai investir na área "social". O grande ponto negativo do atual governo, que vai aflorar na campanha, é o investimento no social: emprego, violência generalizada, a exclusão social, que coloca 50 milhões de brasileiros na miséria.

AN - Mas qual o grau de esperança do eleitorado brasileiro?
Torquato - O presidente ainda representa a figura do pai do pátria. O povo brasileiro tem esperança. Se ele não tem escola, segurança, saúde, culpa o presidente. A autoridade simboliza a melhoria de vida do cidadão. Se não tiver esperança na autoridade, vai se segurar em quê?

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