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RITUAL

Cortejo imperial, realizado ontem de manhã, em Santo Antônio de Lisboa: transferência simbólica de poder ao povo
Fotos: Gilherme Ternes

Santo Antônio de Lisboa realiza Festa do Divino
Evento social e religioso é tradição na comunidade, que está completando 250 anos, desde a ocupação açoriana

Marlova Aseff

Bandeirolas vermelhas e brancas tremulavam sobre as ruas principais da localidade de Santo Antônio de Lisboa, ontem pela manhã, quando 20 homens da Irmandade do Divino Espírito Santo se perfilaram em frente à igreja. Vestindo capas vermelhas, tendo a cruz católica à frente, se dirigiram à casa do imperador para buscar o cortejo imperial, dando início assim ao último dia da Festa do Divino e Nossa Senhora das Necessidades. A realização do cortejo durante a festa do Divino Espírito Santo é uma tradição trazida pelos açorianos à Ilha de Santa Catarina no século 18.
A festividade, que ocorre em Santo Antônio de Lisboa desde 1754, é o principal evento social e religioso do lugar que completa este ano 250 anos de fundação. Desde a última quarta-feira, milhares de pessoas passaram pela festa, que foi animada por shows musicais, teatro, apresentações do folclore ilhéu, além de programação religiosa com missas e novena. Ontem à noite, um baile com o conjunto Os Serranos encerrou os festejos.
O cortejo imperial, formado por crianças e adolescentes vestidos com ricas roupas em lilás e violeta, desfilou ontem pela manhã ao som da banda Amor à Arte. A população do lugarejo parou para admirar a beleza das vestimentas e soltou rojões em louvor ao Divino Espírito Santo e à Nossa Senhora.
Para a missa da manhã, a igreja de Nossa Senhora das Necessidades, antigo prédio em estilo colonial barroco, foi decorada com arranjos de lírios brancos, margaridas e rosas vermelhas. Bandeiras do Divino e pombas brancas também ornaram o templo. O coral Santa Cecília, da Catedral Metropolitana de Florianópolis, conferiu o tom sacro à celebração, que ficou lotada de fiéis. O ponto alto da missa ocorreu quando o rei foi coroado, numa alusão ao ritual iniciado pela rainha Isabel (1270/1336) , de Portugal. A monarca, nos festejos do Espírito Santo, transferia simbolicamente poderes reais a uma pessoa do povo durante três dias.
Uma das principais características da festa é a forte participação da comunidade. Além do trabalho voluntário de 120 pessoas, este ano, foram arrecadados R$ 20 mil para organizar as atividades. Somente no domingo, foram servidos cerca de 900 almoços, num consumo médio de 300 quilos de carne e 150 frangos. Com o dinheiro arrecadado, a igreja se mantém por todo o ano.
Não é difícil encontrar entre os organizadores descendentes dos primeiros habitantes do lugar. "Este é sempre o dia mais feliz do ano para nós", afirma Sérgio Luiz Ferreira, que nos últimos quatros meses trabalhou na organização. Ele faz parte da 14ª geração de descendentes do sargento-mor Manuel Manso de Avelar, que se estabeleceu em Sambaqui no início do século 18. Ferreira explica que o Divino Espírito Santo é homenageado mais tarde em Santo Antônio (as demais festas da Ilha costumam ocorrer em maio e junho, época de Pentecostes) porque a comunidade honra também Nossa Senhora das Necessidades, cuja data de celebração é 8 de setembro.
O coveiro aposentado Ireno Bittencourt, 65 anos, desde pequeno participa da festa. Há pelo menos 30 anos, ele ingressou na Irmandade do Divino Espírito Santo. Neste domingo, Ireno ia à frente da procissão, carregando a cruz. "Uma honra e um orgulho", definiu, emocionado.


GERAÇÕES

Crianças participam da festa: tradição mantida.
POVO

Ireno Bittencourt carrega cruz com "honra e orgulho".

Família tem imperadores

A história da família de Gabriel Vaz Pires, 40 anos, confunde-se com a da Festa do Divino Espírito Santo. Seus antepassados migraram da Ilha Terceira do Arquipélago dos Açores em uma das primeiras levas de açorianos que chegaram à então freguesia de Nossa Senhora das Necessidades e Santo Antônio a partir de 1748. Com eles, veio a tradição popular do cortejo imperial, quando crianças e adolescentes vestidos de nobres desfilam guardados pela Irmandade do Espírito Santo.

SUCESSÃO

Em 1935, o pai de Gabriel, Roldão da Rocha Pires, foi convidado para ser o imperador da celebração religiosa, figura responsável por angariar fundos e organizar a festividade. Roldão escolheu seu filho Benjami- para fazer as vezes de rei. Tinha início aí uma tradição de imperadores e reis festeiros na família Pires. Trinta e três anos depois, em 1968, Benjami- viria a ser o imperador da festa, e Gabriel, então com oito anos, viveu seus dias de monarca. Passaram-se duas décadas e, em 1998, foi a vez de Gabriel assumir a responsabilidade de ser o imperador, levando Lucas, seu filho primogênito como rei. Gabriel Vaz Pires já consegue vislumbrar o futuro: "Um dia meu filho será imperador", prevê. (MA)


BENJAMIN

"Rei" em 1935
1968

Gabriel (C) foi o eleito
1998

Lucas (D) assume "trono"

Símbolos do divino

- A bandeira, juntamente com a coroa de prata lavrada, o cetro de prata (encimado por uma pomba), e a salva, também de prata, onde ficam depositados a coroa e o cetro, são os símbolos centrais da festa. A bandeira é vermelha, com uma pomba branca bordada ao centro, sustentada por um mastro em cuja ponta figura uma pombinha branca (ou prateada), enfeitada de flores e fitas multicoloridas, geralmente doadas como pagamento de promessas.

- Corte e Cortejo Imperial: A corte é formada pelo Imperador e Imperatriz (crianças e adolescentes) que representam dom Diniz e dona Isabel, reis de Portugal e instituidores da tradição em 1296, e um conjunto de seis a oito pares de crianças que desempenham o papel de pajem e damas da Corte. Todos vestem trajes de época, ricamente bordados.

- O cortejo imperial é montado obedecendo uma ordem hierárquica estabelecida: porta-bandeira (ou alferes da bandeira), damas e pajens, imperador e imperatriz, o casal Imperador levando o conjunto de insígnias do divino (coroa e cetro), autoridades ecleseásticas e civis, provedor e membros da Irmandade do Divino Espírito Santo, convidados e acompanhamento de banda musical. O cortejo desfila durante os dias da festa.

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