Florianópolis         -          Domingo, 16 de Junho de 2002         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

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Memória

TRADIÇÃO E FÉ
À esquerda, Santo Antônio, em oratório criado por Marcelus Ribas; à direita, imagens de santos de autoria do artista plástico Cláudio Andrade; e, ao alto, peças do boi-de-mamão feitas em barro por Ademar Melo; peças integram exposição comemorativa ao aniversário da Casa Açoriana
Fotos Carlos Pereira

A brigo da história

Instalado em prédio construído há 200 anos, Centro Cultural Casa Açoriana Artes & Tramóias completa 17 anos de atividade em Santo Antônio de Lisboa

JEFERSON LIMA

O Centro Cultural Casa Açoriana Artes & Tramóias Ilhoas comemorou nesta semana 17 anos de atividade e a data foi celebrada com a abertura da exposição "Santos Juninos e Seus Oratórios", de Cláudio Andrade e Marcelus Ribas. Instalado num casarão de 200 anos, o centro cultural tem uma história de intimidade da comunidade. Foi um dos primeiros prédios a receber energia elétrica, e a primeira TV da localidade foi ligada ali no início da década de 70. A novidade atraia os moradores do bairro, que faziam fila para assistir televisão.
Há poucas informações sobre a história do casarão que abriga a Casa Açoriana. Segundo a historiadora Sara Regina dos Reis, pelas portas e janelas, dobradiças e fechaduras, a edificação é possivelmente do período que vai de 1790 a 1810. Faz parte de um conjunto arquitetônico ainda conservado, próximo à igreja de Nossa Senhora das Necessidades, construída entre 1750 e 1756.
A igreja foi visitada em 1845 pelo imperador D. Pedro 2º e pela imperatriz Thereza Christina, quando o casarão já havia sido construído. Não é exagero, então, estabelecer um contexto de ficção e dizer que imperador e imperatriz caminharam diante da edificação e observaram a beleza do prédio.
Galeria de arte e museu particular do artista plástico João Otávio Neves Filho, o Janga, a Casa Açoriana combina em seu acervo arte popular e tendências contemporâneas. Foi criada em 1985 - o aniversário foi comemorado na última quinta-feira, dia de Santo Antônio -, mas suas raízes históricas são anteriores. No final dos anos 70, o Grupo Mão-de-Pilão - integrado por artistas do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina - promoveu a primeira coletiva de arte fora do Centro da cidade. O grupo reunia-se no bar do Dico, onde hoje é o bar dos Açores, localizado entre a igreja e a Casa Açoriana.

ESTREBARIA

Até onde se sabe, a casa serviu como residência durante a maior parte de sua existência, foi entreposto comercial e nos anos 50 e 60 sediou posto do correio, mas no final dessa década estava abandonada, e servia como estrebaria. A própria comunidade tinha vergonha do local, situado bem no centro da vila. Havia uma corrente, comum 30 anos atrás, que sugeria a derrubada do casarão e construção de uma edificação mais moderna no local. Graças ao sentimento de preservação de Janga e Jandira Lorenz, o imóvel está em pé até hoje. O casal de artistas adquiriu o prédio entre 1979/80, e como não tinha dinheiro disponível, a restauração só foi acontecer cinco anos depois, em 1985, quando foi implantado o centro cultural.
A Casa promoveu artistas plásticos que não tinham espaço nas décadas nas galerias tradicionais. Entre esses pintores estão Elias Andrade (o Índio), Neri Andrade, Tercília dos Santos, só para citar alguns deles. Foi também através da casa, que artistas como Dona Adelina, Marta Medeiros e Ademar Melo tiveram um alento no momento em que estavam bastante desiludidos com o desestímulo à cultura popular.
A inauguração do Centro aconteceu em 13 de junho de 1985, com uma coletiva de arte. Na época, um dos aliados desses projetos culturais era o dentista e fotógrafo Campolino Alves, que fotografava as manifestações nas comunidades e depois retornava ao local para projetar slides com as imagens captadas.
"Com isso as comunidades iam se reconhecendo, despertando valores culturais no momento em que o espaço urbano estava se expandindo, e entre os artistas havia a preocupação de que a cultura popular não se perdesse", diz Janga. A casa era o sinal de que a comunidade de artistas estava disposta a marcar presença no cenário cultural. Por sugestão de Esperidião Amin, então secretário de obras do Estado, Janga e o engenheiro Francisco Bittencourt elaboram o projeto da praça Roldão da Rocha Pires, localizada ao lado do calçadão de Santo Antônio, uma das primeiras ruas calçadas de Santa Catarina.

COMANDO
Janga mantém galeria e museu particular

ESCOLINHA

Durante alguns anos, a escolinha de artes serviu de ateliê de arte para adolescentes e cumpriu o papel de galeria de arte. No houve cursos de tapeçaria e de fotografia. No acervo, há hoje em exposição todo tipo ade manifestação da cultura plástica, em várias técnicas, pintura, escultura, cerâmica, palha, madeira, rendas, tecelagem.
Janga faz a curadoria e preserva a produção artística com uma sensibilidade peculiar ao homem litorâneo. "Não é uma proposta saudosista, mas uma consciência de resistência Cultural", avalia. Mas desde que esta abordagem da cultura popular estava bastante consolidada, Janga passou a prestigiar também a linguagem contemporânea. A partir de 1995, começou a reunir artistas como Rubens Oestroem, Paulo Gaiad, Flávia Fernandes, Fernando Lindote, José Quadros, Lena Peixer e Raquel Stolf, entre outros.
"São artistas do primeiro time da contemporaneidade. A arte não pode estar parada no tempo", diz Janga. A própria exposição que comemora os 17 anos da casa tem um vínvulo bastante afinado entre a arte popular e o contemporâneo. A Casa recebe visitantes dos cinco continentes do mundo e virou referência num guia parisiense publicado em francês e inglês. Embora tenha hoje um vínculo com gente de todos os lugares, mantém um vínculo com a comunidade. A casa já foi sede da festa do Divino e seus objetos convidam os visitantes a descobir a arte bem humorada de sua prateleiras e paredes, bem ao jeito do ilhéu, meio gaiato, meio místico.

O QUÊ: Mostra "SANTOS JUNINOS E SEUS ORATÓRIOS", DE CLÁUDIO ANDRADE E MARCELUS RIBAS. ONDE: Casa Açoriana Artes & Tramóias Ilhoas. Rua Cônego Serpa, 30, Santo Antônio de Lisboa, tel.: 235-1262. QUANDO: Até 30 de junho, de segunda a quarta, das 9 às 12 horas e das 13 às 18 horas; quinta e sexta, das 13 às 23 horas; sábado, das 10 às 23 horas; e domingo, das 10 às 19 horas. QUANTO: entrada franca.

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