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Memória
TRADIÇÃO
E FÉ
À esquerda, Santo Antônio, em oratório
criado por Marcelus Ribas; à direita, imagens de santos
de autoria do artista plástico Cláudio Andrade;
e, ao alto, peças do boi-de-mamão feitas em barro
por Ademar Melo; peças integram exposição
comemorativa ao aniversário da Casa Açoriana
Fotos Carlos
Pereira
A brigo da história
Instalado em prédio
construído há 200 anos, Centro Cultural Casa Açoriana
Artes & Tramóias completa 17 anos de atividade em
Santo Antônio de Lisboa
JEFERSON LIMA
O
Centro Cultural Casa Açoriana Artes & Tramóias
Ilhoas comemorou nesta semana 17 anos de atividade e a data foi
celebrada com a abertura da exposição "Santos
Juninos e Seus Oratórios", de Cláudio Andrade
e Marcelus Ribas. Instalado num casarão de 200 anos, o
centro cultural tem uma história de intimidade da comunidade.
Foi um dos primeiros prédios a receber energia elétrica,
e a primeira TV da localidade foi ligada ali no início
da década de 70. A novidade atraia os moradores do bairro,
que faziam fila para assistir televisão.
Há poucas informações sobre a história
do casarão que abriga a Casa Açoriana. Segundo
a historiadora Sara Regina dos Reis ,
pelas portas e janelas, dobradiças e fechaduras, a edificação
é possivelmente do período que vai de 1790 a 1810.
Faz parte de um conjunto arquitetônico ainda conservado,
próximo à igreja de Nossa Senhora das Necessidades,
construída entre 1750 e 1756.
A igreja foi visitada em 1845 pelo imperador D. Pedro 2º
e pela imperatriz Thereza Christina, quando o casarão
já havia sido construído. Não é exagero,
então, estabelecer um contexto de ficção
e dizer que imperador e imperatriz caminharam diante da edificação
e observaram a beleza do prédio.
Galeria de arte e museu particular do artista plástico
João Otávio Neves Filho, o Janga, a Casa Açoriana
combina em seu acervo arte popular e tendências contemporâneas.
Foi criada em 1985 - o aniversário foi comemorado na última
quinta-feira, dia de Santo Antônio -, mas suas raízes
históricas são anteriores. No final dos anos 70,
o Grupo Mão-de-Pilão - integrado por artistas do
Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina - promoveu
a primeira coletiva de arte fora do Centro da cidade. O grupo
reunia-se no bar do Dico, onde hoje é o bar dos Açores,
localizado entre a igreja e a Casa Açoriana.
ESTREBARIA
Até onde se sabe, a casa serviu como residência
durante a maior parte de sua existência, foi entreposto
comercial e nos anos 50 e 60 sediou posto do correio, mas no
final dessa década estava abandonada, e servia como estrebaria.
A própria comunidade tinha vergon ha
do local, situado bem no centro da vila. Havia uma corrente,
comum 30 anos atrás, que sugeria a derrubada do casarão
e construção de uma edificação mais
moderna no local. Graças ao sentimento de preservação
de Janga e Jandira Lorenz, o imóvel está em pé
até hoje. O casal de artistas adquiriu o prédio
entre 1979/80, e como não tinha dinheiro disponível,
a restauração só foi acontecer cinco anos
depois, em 1985, quando foi implantado o centro cultural.
A Casa promoveu artistas plásticos que não tinham
espaço nas décadas nas galerias tradicionais. Entre
esses pintores estão Elias Andrade (o Índio), Neri
Andrade, Tercília dos Santos, só para citar alguns
deles. Foi também através da casa, que artistas
como Dona Adelina, Marta Medeiros e Ademar Melo tiveram um alento
no momento em que estavam bastante desiludidos com o desestímulo
à cultura popular.
A inauguração do Centro aconteceu em 13 de junho
de 1985, com uma coletiva de arte. Na época, um dos aliados
desses projetos culturais era o dentista e fotógrafo Campolino
Alves, que fotografava as manifestações nas comunidades
e depois retornava ao local para projetar slides com as imagens
captadas.
"Com isso as comunidades iam se reconhecendo, despertando
valores culturais no momento em que o espaço urbano estava
se expandindo, e entre os artistas havia a preocupação
de que a cultura popular não se perdesse", diz Janga.
A casa era o sinal de que a comunidade de artistas estava disposta
a marcar presença no cenário cultural. Por sugestão
de Esperidião Amin, então secretário de
obras do Estado, Janga e o engenheiro Francisco Bittencourt elaboram
o projeto da praça Roldão da Rocha Pires, localizada
ao lado do calçadão de Santo Antônio, uma
das primeiras ruas calçadas de Santa Catarina.
COMANDO
Janga mantém galeria e museu particular
ESCOLINHA
Durante alguns anos, a escolinha de artes serviu de ateliê
de arte para adolescentes e cumpriu o papel de galeria de arte.
No houve cursos de tapeçaria e de fotografia. No acervo,
há hoje em exposição todo tipo ade manifestação
da cultura plástica, em várias técnicas,
pintura, escultura, cerâmica, palha, madeira, rendas, tecelagem.
Janga faz a curadoria e preserva a produção artística
com uma sensibilidade peculiar ao homem litorâneo. "Não
é uma proposta saudosista, mas uma consciência de
resistência Cultural", avalia. Mas desde que esta
abordagem da cultura popular estava bastante consolidada, Janga
passou a prestigiar também a linguagem contemporânea.
A partir de 1995, começou a reunir artistas como Rubens
Oestroem, Paulo Gaiad, Flávia Fernandes, Fernando Lindote,
José Quadros, Lena Peixer e Raquel Stolf, entre outros.
"São artistas do primeiro time da contemporaneidade.
A arte não pode estar parada no tempo", diz Janga.
A própria exposição que comemora os 17 anos
da casa tem um vínvulo bastante afinado entre a arte popular
e o contemporâneo. A Casa recebe visitantes dos cinco continentes
do mundo e virou referência num guia parisiense publicado
em francês e inglês. Embora tenha hoje um vínculo
com gente de todos os lugares, mantém um vínculo
com a comunidade. A casa já foi sede da festa do Divino
e seus objetos convidam os visitantes a descobir a arte bem humorada
de sua prateleiras e paredes, bem ao jeito do ilhéu, meio
gaiato, meio místico.
O QUÊ: Mostra "SANTOS JUNINOS E SEUS ORATÓRIOS",
DE CLÁUDIO ANDRADE E MARCELUS RIBAS. ONDE: Casa
Açoriana Artes & Tramóias Ilhoas. Rua Cônego
Serpa, 30, Santo Antônio de Lisboa, tel.: 235-1262. QUANDO:
Até 30 de junho, de segunda a quarta, das 9 às
12 horas e das 13 às 18 horas; quinta e sexta, das 13
às 23 horas; sábado, das 10 às 23 horas;
e domingo, das 10 às 19 horas. QUANTO: entrada
franca.
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