s
Florianópolis         -          Domingo, 30 de Junho de 2002         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

ANcapital  

Ú  
L  
T  
I  
M  
A  

P  
Á  
G  
I  
N  
A  















Memória

TRAJETÓRIA
A partir do alto da página, Linderode, cidade natal do alemão Ernesto Pausewang e o navio em que o imigrante veio para o Brasil; acima, a filha, Conceição e, abaixo, ele com a mulher, Flora, e uma amiga

Campo de concentração

Área no bairro da Trindade serviu de presídio político na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial. Parentes de pessoas presas no local lembram o episódio

JEFERSON LIMA

Depois que a ditadura do Estado Novo do presidente Getúlio Vargas pendeu para o apoio aos países aliados, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), foram criados no Brasil oito campos de concentração para reclusão de imigrantes e descendentes de alemães, italianos e japoneses, os chamados súditos do Eixo. Em Santa Catarina havia dois campos, um em Joinville, o Presídio Político Oscar Schneider, e outro em Florianópolis, o Presídio Político da Trindade, uma seção agrícola da Penitenciária Estadual, onde hoje está localizado a prefeitura da campus da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Nesse campo, quase todos eram imigrantes alemães radicados há anos no Brasil e casados com brasileiras. Um dos personagens dessa história dramática é Ernesto Pausewang, um alemão que veio jovem para o Brasil, em 1923, aos 22 anos, e durante os anos duros da guerra amargou no campo de concentração da Trindade. Ernesto morreu em 1986, com 85 anos, e não gostava de falar sobre o assunto, segundo recorda sua filha, a professora Maria da Conceição Pausewang, 55 anos, moradora na Trindade.
O alemão era técnico industrial e trabalhou boa parte de sua vida na manutenção de máquinas da fábrica de bordados Hoepcke. Chegou no Brasil praticamente sem nada e construiu um grande patrimônio. A retaliação ao povo alemão ganhou em Florianópolis contornos de manifestação pública. O busto de Carl Hoepcke, na praça Getúlio Vargas, foi derrubado em 1942. Como forma de humilhação, os detentos da prisão política no Brasil eram obrigados a ingerir óleo diesel e de rícino, que provocavam diarréa.
"Era uma forma de demonstrar poder", diz a professora Marlene de Fáveri, autora da tese de doutorado "Memórias de Uma (Outra) Guerra: Cotidiano e Medo Durante a 2ª Guerra em Santa Catarina", defendida na pós-graduação em história da UFSC. "As torturas às vezes aconteciam por puro sadismo. Noutras vezes, as prisões ocorriam porque simplesmente um brasileiro não gostava de um vizinho alemão e o denunciava à polícia política", completa o jornalista Aluízio Batista Amorim, autor do livro "Nazismo em Santa Catarina", publicado pela editora Insular em 2000.
A cadeia política da Trindade recebia também muitos presos do interior. É o caso do pastor luterano Hermann Stoer, arrancado de sua família em agosto de 1942, e trazido do Vale do Itajaí para Florianópolis. Pertencente à Igreja de Confissão Luterana no Brasil, o religioso só foi libertado em abril do ano seguinte. Hermann nasceu em Stuttgart, tinha 34 anos quando foi detido, era casado e pai de quatro filhas. Sua única atividade era a pregação religiosa e participava de uma festa de aniversário quando foi preso.
Hermann deixou desenhos que retratavam sua reclusão na cadeia. Depois que ganhou a liberdade, passou a fazer as suas pregações em português. Já o morador de Florianópolis, o austríaco Herbert Gustav Erich Molenda, ficou preso por seis meses, a partir de dezembro de 1942, no presídio da Trindade por ter cantado a música "Noite Feliz" em alemão.

Americanos ensinaram técnicas de tortura

Aluízio Amorim diz que assim como aconteceu na ditadura militar iniciada em 1964, durante a Segunda Guerra um grupo de americanos veio para o Brasil para ensinar técnicas de tortura aos brasileiros. Segundo a professora Marlene de Fáveri, em todo o Estado houve repressão aos alemães e italianos, principalmente. Em São Paulo, como havia uma presença mais significativa de imigrantes japoneses, os representantes dessa etnia foram fortemente torturados. As principais cadeias políticas em Santa Catarina eram localizadas em Blumenau, Joinville, Rio Negrinho, São Bento do Sul, Trombudo Central e Ibirama. "As prisões ocorriam porque eles eram considerados espiões que estavam passando informação para a Alemanha", diz Marlene. Segundo ela apurou, os presos eram essencialmente homens e somente duas mulheres teriam sido detitas em Santa Catarina por motivos políticos. "Muitas vezes eram presos somente porque falavam alemão ou italiano, o que estava proibido pelo edital da Secretaria de Segurança Pública do Estado (veja quadro).
Conforme Marlene, não há informações de que os presos tenham sido torturados. Mas é confirmado que sofriam maus tratos, inclusive dormir em colchão duro, trabalhar pesado e não receber visita. Segundo ainda é possível constatar na tese de Marlene, a Escola Alemã, na rua Nereu Ramos, no Centro de Florianópolis, foi desativada para servir de Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS), e seus porãos também serviram de cadeia. A prisão da Trindade teria funcionado mais ativamente entre 1942 e 1943. Os campos de concentração no Brasil só foram desativados no final da guerra, em agosto de 1945.

TESTEMUNHA
Martinha Maria Pires, de 89 anos, viúva de Lídio Tiburcio Pires, que foi auxiliar agrícola no campo de concentração da Trindade

Imigrante alemão foi um
dos confinados na prisão

Ernesto Pausewang chegou no Brasil praticamente sem nada, a não ser por uma mala de roupas, que acabou caindo na água quando ele chegava em Florianópolis. Recuperou seus objetos completamente encharcados. "Não sabia falar uma palavra em português quando chegou", diz Conceição. Veio como imigrante para trabalhar na agricultura, acompanhado de um casal e de um amigo, Rudolf Maling, que montou uma fábrica de brinquedos de madeira em Rio do Sul. Ernesto casou em 1935 com a tijuquense Maria Flora Pausewang, que conheceu em Urussanga, onde ela era professora.O casal teve cinco filhos. Ernesto, nessa época, já era viúvo e tinha um filho do primeiro casamento, Max, um menino que ficou mudo depois de ter sofrido meningite. Olga Boppré, sua primeira mulher, morreu no parto do segundo filho.
O imigrante alemão nasceu na cidade de Linderode e nunca aprendeu corretamente o português. Conceição recorda que sua mãe tentava ensinar a ele a pronúncia correta do português, mas Ernesto tinha dificuldades em articular certas palavras. Além de trabalhar na fábrica de renda Hoepcke, consertava máquinas de costura, ferro elétrico, bomba d'água. Gostava de contar piadas e admirava um cafezal florido. Até morrer, Ernesto ia todas as tardes tomar café junto com Conceição, com os grãos de café que ele mesmo havia moído numa máquina que tinha em casa. O imigrante nunca quis naturalizar-se brasileiro. Foi preso em casa e certa vez, na cadeia, foi punido por reclamar do pequeno tamanho dos pães que eles recebiam. Ernesto só voltou ao seu país de origem 50 anos depois para visitar parentes. Érica, a irmã mais jovem, havia morrido na guerra.
Flora, a esposa de Ernesto, lecionou durante boa parte de sua vida na Escola Olívio Amorim, onde hoje é o Departamento de Adminstração Escolar (DAE) da UFSC. Além de sua dedicação à profissão de técnico industrial, Ernesto montou o único cinema da Trindade, entre 1968 e 69, na rua Cônego Bernardo, que ele cuidava com a ajuda de um filho. Não gostava de barulho dos espectadores durante a sessão, mas não podia evitar a euforia do público. Ernesto e Flora eram participantes da vida do bairro, chegando a receber uma homenagem da comunidade local que dedicou a ele o nome de um edifício na rua Lauro Linhares e a ela a denominação da avenida em frente ao Hospital Universitário.
Outra moradora da Trindade que recorda o episódio do campo de concentração é Bárbara Kons, 78 anos. Nascida em Antônio Carlos, se mudou para o bairro aos 12 anos. Aos 18 já estava casada. Ela recorda que havia muita tortura. "Os presos apanhavam e eram amarrados com lencóis", diz ela. Já o motorista da reportagem da TV Barriga Verde, Hélcio Lídio Pires, 49 anos, conta que seu pai, Lídio Tibúrcio Pires, foi auxiliar de agricultura no campo de concentração. Lídio morreu em 1981, aos 72 anos. Sua esposa, Martinha Maria Pires, e mãe de Hélcio, ainda é viva e está com 89 anos. Nasceu no Córrego Grande e mora hoje na Trindade. Com uma memória fraca e audição reduzida, Martinha tem pouca recordação da época em que o marido trabalhava na seção agrícola da penitenciária. Ela tem mais lembranças da época em que funcionou no local uma ala feminina, onde eram confinadas mulheres de várias lugares do Estado que haviam cometido outros crimes.


Confira
Íntegra do Edital da Secretaria de Segurança

O Doutor Francisco Gottardi, Secretário dos Negócios de Segurança Pública, de ordem superior, faz público que:
1º Os estrangeiros naturais dos países com os quais o Brasil rompeu relações diplomáticas e comerciais, isto é, o Japão, a Alemanha e a Itália, devem comunicar a sua residência às autoridades policiais, no prazo de quinze dias, a contar desta data;
2º Ficam proibidos, a contar desta data, os hinos, cantos e saudações que lhes sejam peculiares, bem como o uso dos idiomas dos países acima apontados;
3º É vedado aos súditos dos países mencionados:
a) mudar de residência sem comunicação prévia ao Serviço de Registro de Estrangeiros, na Capital, e às Delegacias de Polícia, no interior do Estado;
b) reunir-se, ainda que em casas particulares, a título de comemorações de caráter privado (aniversários, bailes, banquetes etc.)
c) viajar de uma para outra localidade sem licença da Polícia (Salvo-Conduto).
4º A Delegacia de Ordem Política e Social faça cumprir o presente edital.

- Secretaria de Segurança Pública, aos 28 de janeiro de 1942 - Florianópolis. (Publicado no Diário Oficial do Estado).

Manchetes ANC
Das últimas edições de Última Página
29/06 - Última rodada decide hoje os finalistas do segundo turno
28/06 - Futsal do Colegial tenta se reabilitar no Estadual
27/06 - Bruno Fontes disputa os Jogos Mundiais na França
26/06 - Avaí decide o futuro no Estadual contra o Criciúma
25/06 - Avaí fatura R$ 1,4 milhão em apenas duas semanas
24/06 - Santa Cruz e Ajax são os líderes do futebol amador
23/06 - Luciana Cesconetto volta aos palcos em monólogo

 

Copyright © 2000 AN Capital - Fone/fax: 055-0xx48 224 7788 e 224 2638 - Rua Leoberto Leal, 4 - Centro - CEP 88.015-080 - Florianópolis - SC - BRASIL -
 
Por: Torque Comunicação e Internet