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Memória
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TRAJETÓRIA
A partir do alto da página, Linderode, cidade natal
do alemão Ernesto Pausewang e o navio em que o imigrante
veio para o Brasil; acima, a filha, Conceição e,
abaixo, ele com a mulher, Flora, e uma amiga
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Campo de concentração
Área no
bairro da Trindade serviu de presídio político
na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial. Parentes
de pessoas presas no local lembram o episódio
JEFERSON LIMA
Depois
que a ditadura do Estado Novo do presidente Getúlio Vargas
pendeu para o apoio aos países aliados, durante a Segunda
Guerra Mundial (1939-1945), foram criados no Brasil oito campos
de concentração para reclusão de imigrantes
e descendentes de alemães, italianos e japoneses, os chamados
súditos do Eixo. Em Santa Catarina havia dois campos,
um em Joinville, o Presídio Político Oscar Schneider,
e outro em Florianópolis, o Presídio Político
da Trindade, uma seção agrícola da Penitenciária
Estadual, onde hoje está localizado a prefeitura da campus
da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Nesse campo, quase todos eram imigrantes alemães radicados
há anos no Brasil e casados com brasileiras. Um dos personagens
dessa história dramática é Ernesto Pausewang,
um alemã o que veio jovem
para o Brasil, em 1923, aos 22 anos, e durante os anos duros
da guerra amargou no campo de concentração da Trindade.
Ernesto morreu em 1986, com 85 anos, e não gostava de
falar sobre o assunto, segundo recorda sua filha, a professora
Maria da Conceição Pausewang, 55 anos, moradora
na Trindade.
O alemão era técnico industrial e trabalhou boa
parte de sua vida na manutenção de máquinas
da fábrica de bordados Hoepcke. Chegou no Brasil praticamente
sem nada e construiu um grande patrimônio. A retaliação
ao povo alemão ganhou em Florianópolis contornos
de manifestação
pública. O busto de Carl Hoepcke, na praça Getúlio
Vargas, foi derrubado em 1942. Como forma de humilhação,
os detentos da prisão política no Brasil eram obrigados
a ingerir óleo diesel e de rícino, que provocavam
diarréa.
"Era uma forma de demonstrar poder", diz a professora
Marlene de Fáveri, autora da tese de doutorado "Memórias
de Uma (Outra) Guerra: Cotidiano e Medo Durante a 2ª Guerra
em Santa Catarina", defendida na pós-graduação
em história da UFSC. "As torturas às vezes
aconteciam por puro sadismo. Noutras vezes, as prisões
ocorriam porque simplesmente um brasileiro não gostava
de um vizinho alemão e o denunciava à polícia
política", completa o jornalista Aluízio Batista
Amorim, autor do livro "Nazismo em Santa Catarina",
publicado pela editora Insular em 2000.
A cadeia política da Trindade recebia também muitos
presos do interior. É o caso do pa stor
luterano Hermann Stoer, arrancado de sua família em agosto
de 1942, e trazido do Vale do Itajaí para Florianópolis.
Pertencente à Igreja de Confissão Luterana no Brasil,
o religioso só foi libertado em abril do ano seguinte.
Hermann nasceu em Stuttgart, tinha 34 anos quando foi detido,
era casado e pai de quatro filhas. Sua única atividade
era a pregação religiosa e participava de uma festa
de aniversário quando foi preso.
Hermann deixou desenhos que retratavam sua reclusão na
cadeia. Depois que ganhou a liberdade, passou a fazer as suas
pregações em português. Já o morador
de Florianópolis, o austríaco Herbert Gustav Erich
Molenda, ficou preso por seis meses, a partir de dezembro de
1942, no presídio da Trindade por ter cantado a música
"Noite Feliz" em alemão.
Americanos ensinaram técnicas
de tortura
Aluízio Amorim diz que assim como aconteceu na ditadura
militar iniciada em 1964, durante a Segunda Guerra um grupo de
americanos veio para o Brasil para ensinar técnicas de
tortura aos brasileiros. Segundo a professora Marlene de Fáveri,
em todo o Estado houve repressão aos alemães e
italianos, principalmente. Em São Paulo, como havia uma
presença mais significativa de imigrantes japoneses, os
representantes dessa etnia foram fortemente torturados. As principais
cadeias políticas em Santa Catarina eram localizadas em
Blumenau, Joinville, Rio Negrinho, São Bento do Sul, Trombudo
Central e Ibirama. "As prisões ocorriam porque eles
eram considerados espiões que estavam passando informação
para a Alemanha", diz Marlene. Segundo ela apurou, os presos
eram essencialm ente homens e somente
duas mulheres teriam sido detitas em Santa Catarina por motivos
políticos. "Muitas vezes eram presos somente porque
falavam alemão ou italiano, o que estava proibido pelo
edital da Secretaria de Segurança Pública do Estado
(veja quadro).
Conforme Marlene, não há informações
de que os presos tenham sido torturados. Mas é confirmado
que sofriam maus tratos, inclusive dormir em colchão duro,
trabalhar pesado e não receber visita. Segundo ainda é
possível constatar na tese de Marlene, a Escola Alemã,
na rua Nereu Ramos, no Centro de Florianópolis, foi desativada
para servir de Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS),
e seus porãos também serviram de cadeia. A prisão
da Trindade teria funcionado mais ativamente entre 1942 e 1943.
Os campos de concentração no Brasil só foram
desativados no final da guerra, em agosto de 1945.
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TESTEMUNHA
Martinha Maria Pires, de 89 anos, viúva de Lídio
Tiburcio Pires, que foi auxiliar agrícola no campo de
concentração da Trindade
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Imigrante alemão foi um
dos confinados na prisão
Ernesto Pausewang chegou no Brasil praticamente sem nada,
a não ser por uma mala de roupas, que acabou caindo na
água quando ele chegava em Florianópolis. Recuperou
seus objetos completamente encharcados. "Não sabia
falar uma palavra em português quando chegou", diz
Conceição. Veio como imigrante para trabalhar na
agricultura, acompanhado de um casal e de um amigo, Rudolf Maling,
que montou uma fábrica de brinquedos de madeira em Rio
do Sul. Ernesto casou em 1935 com a tijuquense Maria Flora Pausewang,
que conheceu em Urussanga, onde ela era professora.O casal teve
cinco filhos. Ernesto, nessa época, já era viúvo
e tinha um filho do primeiro casamento, Max, um menino que ficou
mudo depois de ter sofrido meningite. Olga Boppré, sua
primeira mulher, morreu no parto do segundo filho.
O imigrante alemão nasceu na cidade de Linderode e nunca
aprendeu corretamente o português. Conceição
recorda que sua mãe tentava ensinar a ele a pronúncia
correta do português, mas Ernesto tinha dificuldades em
articular certas palavras. Além de trabalhar na fábrica
de renda Hoepcke, consertava máquinas de costura, ferro
elétrico, bomba d'água. Gostava de contar piadas
e admirava um cafezal florido. Até morrer, Ernesto ia
todas as tardes tomar café junto com Conceição,
com os grãos de café que ele mesmo havia moído
numa máquina que tinha em casa. O imigrante nunca quis
naturalizar-se brasileiro. Foi preso em casa e certa vez, na
cadeia, foi punido por reclamar do pequeno tamanho dos pães
que eles recebiam. Ernesto só voltou ao seu país
de origem 50 anos depois para visitar parentes. Érica,
a irmã mais jovem, havia morrido na guerra.
Flora, a esposa de Ernesto, lecionou durante boa parte de sua
vida na Escola Olívio Amorim, onde hoje é o Departamento
de Adminstração Escolar (DAE) da UFSC. Além
de sua dedicação à profissão de técnico
industrial, Ernesto montou o único cinema da Trindade,
entre 1968 e 69, na rua Cônego Bernardo, que ele cuidava
com a ajuda de um filho. Não gostava de barulho dos espectadores
durante a sessão, mas não podia evitar a euforia
do público. Ernesto e Flora eram participantes da vida
do bairro, chegando a receber uma homenagem da comunidade local
que dedicou a ele o nome de um edifício na rua Lauro Linhares
e a ela a denominação da avenida em frente ao Hospital
Universitário.
Outra moradora da Trindade que recorda o episódio do
campo de concentração é Bárbara Kons,
78 anos. Nascida em Antônio Carlos, se mudou para o bairro
aos 12 anos. Aos 18 já estava casada. Ela recorda que
havia muita tortura. "Os presos apanhavam e eram amarrados
com lencóis", diz ela. Já o motorista da reportagem
da TV Barriga Verde, Hélcio Lídio Pires, 49 anos,
conta que seu pai, Lídio Tibúrcio Pires, foi auxiliar
de agricultura no campo de concentração. Lídio
morreu em 1981, aos 72 anos. Sua esposa, Martinha Maria Pires,
e mãe de Hélcio, ainda é viva e está
com 89 anos. Nasceu no Córrego Grande e mora hoje na Trindade.
Com uma memória fraca e audição reduzida,
Martinha tem pouca recordação da época em
que o marido trabalhava na seção agrícola
da penitenciária. Ela tem mais lembranças da época
em que funcionou no local uma ala feminina, onde eram confinadas
mulheres de várias lugares do Estado que haviam cometido
outros crimes.
Confira
Íntegra do Edital
da Secretaria de Segurança
O Doutor Francisco Gottardi, Secretário dos Negócios
de Segurança Pública, de ordem superior, faz público
que:
1º Os estrangeiros naturais dos países com os quais
o Brasil rompeu relações diplomáticas e
comerciais, isto é, o Japão, a Alemanha e a Itália,
devem comunicar a sua residência às autoridades
policiais, no prazo de quinze dias, a contar desta data;
2º Ficam proibidos, a contar desta data, os hinos, cantos
e saudações que lhes sejam peculiares, bem como
o uso dos idiomas dos países acima apontados;
3º É vedado aos súditos dos países
mencionados:
a) mudar de residência sem comunicação prévia
ao Serviço de Registro de Estrangeiros, na Capital, e
às Delegacias de Polícia, no interior do Estado;
b) reunir-se, ainda que em casas particulares, a título
de comemorações de caráter privado (aniversários,
bailes, banquetes etc.)
c) viajar de uma para outra localidade sem licença da
Polícia (Salvo-Conduto).
4º A Delegacia de Ordem Política e Social faça
cumprir o presente edital.
- Secretaria de Segurança Pública, aos 28 de
janeiro de 1942 - Florianópolis. (Publicado no Diário
Oficial do Estado).
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