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ARTE
Da esquerda para a direita, o três reis Magos;
menino Jesus; e Nossa Senhora, em montagem de 1983 na UFSC
Fotos: Reproduções Osvaldo
Nocetti
  
PASSADO
Da esquerda para a direita, três montagens
na UFSC, rei Mago em 1983; Nossa Senhora em 1981; e imagem da
década de 70
Presépio revisitado
Jone Cezar de Araújo
dirige e monta o atual presépio da praça 15 criado
por Franklin Cascaes 74
JEFERSON LIMA
O
presépio montado na praça 15 é uma tradição
iniciada em 1974 pelo pesquisador e escritor Franklin Cascaes
e pelo museólogo Gelci José Coelho, o Peninha.
Atualmente a direção artística é
de Jone Cezar de Araújo e nesta edição a
obra ganhou novos elementos. Uma delas é a introdução
de animais juntos aos reis representando os continentes. O elefante
simboliza a Ásia, o camelo, a África, e o cavalo,
a Europa. Tradicionalmente montado embaixo da figueira, há
dois anos é feito junto ao monumento da Guerra do Paraguai.
Peninha relata que em 1972, como estudante de História,
visitou junto com colegas e com uma professora a Bienal de Arte
de São Paulo. Quando retornou a Florianópolis montou
no ano seguinte um presépio tropicalista em frente ao
Museu de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC). Somente o menino Jesus era uma peça tradicional,
as outras eram elaboradas com a flora da Ilha, principalmente
catuto, folhas de piteira e barba de velho. A cabeça dos
carneiros era feita de chuchu.
A influência primordial do presépio de Peninha era
de Cascaes. O professor já montava a encenação
do nascimento do menino Jesus na Catedral Metropolitana, utilizando
piteira e cacto. Segundo Peninha, seu presépio tropicalista
montado em frente ao museu provocou a reação de
muitos professores. Segundo ele, em função da formação
clássica, européia e polida da academia, não
conseguiram ver beleza numa arte elaborada com elementos da natureza.
A exposição foi movimentada com a presença
de turistas, comunidade e estudantes de outras áreas que
nunca circulavam pelo museu. Em 1974, Cascaes monta o presépio
na praça 15. Segundo Peninha, até a sua morte,
em março de 1983, o pesquisador foi um entusiasta do presépio,
que não foi montado somente em 1981 e 1982 porque o idealizador
havia sido maltratado pelos dirigentes do órgão
municipal de turismo, que depois do prazo da exposição
removiam para o lixo as peças elaboradas pelo artista.
Antes de fazer o presépio na praça 15, o pesquisador
da cultura ilhoa já fazia no início dos anos 60
intervenções na praça 15, quando ainda não
era pavimentada. Cascaes enfiava mourões em volta da figueira
e pendurava desenhos, com lendas, mitos e o cotidiano da Ilha
de Santa Catarina. O assunto foi transformado em matéria
veiculada na época pela rádio Guarujá.
MÃE
A figueira da praça 15 sempre teve uma presença
importante na vida de Florianópolis e possui um caráter
de mãe da Ilha, de proteção, segundo avalia
Peninha. Para ele, os ilhéus sempre tiveram medo de perder
aquela que é a principal árvore da cidade e também
em função disso o presépio era realizado
sob ela. Quando Cascaes morreu, em 1983, foi realizado um presépio
especial em homenagem ao seu autor, utilizando todos os componentes
popularizados por ele.
No decorrer dos anos, os personagens do nascimento de Jesus foram
ganhando outros perfis. São José, por exemplo,
já foi oleiro, pescador, lavrador; Nossa Senhora foi lavadeira
e rendeira, entre outras profissões. Numa das edições
do presépio, Peninha introduziu um varal com fraldas e
não faltou contestação sobre o fio repleto
de panos brancos. O museólogo diz que o Natal brasileiro
está muito "atacado pelo papai noel de barba e roupas
quentes que nada tem a ver com o Natal brasileiro, que acontece
em pleno verão".
TEAR
Obra de arte tipicamente ilhoa desde a sua primeira edição,
o presépio da figueira sempre fez sucesso entre os transeuntes
praça 15. Na edição deste ano, a montagem
ganhou trajes feitos com mantas elaborados por Ezaltina Ana de
Oliveira, 70 anos, num tear de 300 anos, pertencente à
sua família, que dedica-se à atividade há
seis gerações.
Segundo Jone, em suas viagens à Itália, França,
Espanha e Portugal - onde o presépio é largamentente
cultivado - a edição florianopolitana do nascimento
de Cristo é bastante admirada. Na última versão,
elaborada por Jone, o menino Jesus por feito pelo ceramista Vado,
de São José. Ao redor da manjedoura há 12
anjos com versos da tradição do Pão-por-Deus.
A cena tem também a presença da rendeira e do pescador,
entre outros personagens.
Os trajes são decorados com conchas do mar e as cabeças
são feitas com porongos. Sementes servem como olhos e
barbas de velho como cabelo. Estrela e asas dos anjos são
feitas de palmeiras tropicais. A cena ainda é decorada
com cerâmicas e balaios. Tudo para simbolizar, segundo
Jone Cezar, o significado do nascimento, uma renovação
da vida apesar de todas as dificuldades e todos os problemas
que o mundo enfrenta.
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