Florianópolis         -          Domingo, 10 de Novembro de 2002         -          Santa Catarina - Brasil
 
 

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ARTE
Da esquerda para a direita, o três reis Magos; menino Jesus; e Nossa Senhora, em montagem de 1983 na UFSC
Fotos: Reproduções Osvaldo Nocetti

PASSADO
Da esquerda para a direita, três montagens na UFSC, rei Mago em 1983; Nossa Senhora em 1981; e imagem da década de 70

Presépio revisitado

Jone Cezar de Araújo dirige e monta o atual presépio da praça 15 criado por Franklin Cascaes 74

JEFERSON LIMA

O presépio montado na praça 15 é uma tradição iniciada em 1974 pelo pesquisador e escritor Franklin Cascaes e pelo museólogo Gelci José Coelho, o Peninha. Atualmente a direção artística é de Jone Cezar de Araújo e nesta edição a obra ganhou novos elementos. Uma delas é a introdução de animais juntos aos reis representando os continentes. O elefante simboliza a Ásia, o camelo, a África, e o cavalo, a Europa. Tradicionalmente montado embaixo da figueira, há dois anos é feito junto ao monumento da Guerra do Paraguai.
Peninha relata que em 1972, como estudante de História, visitou junto com colegas e com uma professora a Bienal de Arte de São Paulo. Quando retornou a Florianópolis montou no ano seguinte um presépio tropicalista em frente ao Museu de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Somente o menino Jesus era uma peça tradicional, as outras eram elaboradas com a flora da Ilha, principalmente catuto, folhas de piteira e barba de velho. A cabeça dos carneiros era feita de chuchu.
A influência primordial do presépio de Peninha era de Cascaes. O professor já montava a encenação do nascimento do menino Jesus na Catedral Metropolitana, utilizando piteira e cacto. Segundo Peninha, seu presépio tropicalista montado em frente ao museu provocou a reação de muitos professores. Segundo ele, em função da formação clássica, européia e polida da academia, não conseguiram ver beleza numa arte elaborada com elementos da natureza.
A exposição foi movimentada com a presença de turistas, comunidade e estudantes de outras áreas que nunca circulavam pelo museu. Em 1974, Cascaes monta o presépio na praça 15. Segundo Peninha, até a sua morte, em março de 1983, o pesquisador foi um entusiasta do presépio, que não foi montado somente em 1981 e 1982 porque o idealizador havia sido maltratado pelos dirigentes do órgão municipal de turismo, que depois do prazo da exposição removiam para o lixo as peças elaboradas pelo artista.
Antes de fazer o presépio na praça 15, o pesquisador da cultura ilhoa já fazia no início dos anos 60 intervenções na praça 15, quando ainda não era pavimentada. Cascaes enfiava mourões em volta da figueira e pendurava desenhos, com lendas, mitos e o cotidiano da Ilha de Santa Catarina. O assunto foi transformado em matéria veiculada na época pela rádio Guarujá.

MÃE

A figueira da praça 15 sempre teve uma presença importante na vida de Florianópolis e possui um caráter de mãe da Ilha, de proteção, segundo avalia Peninha. Para ele, os ilhéus sempre tiveram medo de perder aquela que é a principal árvore da cidade e também em função disso o presépio era realizado sob ela. Quando Cascaes morreu, em 1983, foi realizado um presépio especial em homenagem ao seu autor, utilizando todos os componentes popularizados por ele.
No decorrer dos anos, os personagens do nascimento de Jesus foram ganhando outros perfis. São José, por exemplo, já foi oleiro, pescador, lavrador; Nossa Senhora foi lavadeira e rendeira, entre outras profissões. Numa das edições do presépio, Peninha introduziu um varal com fraldas e não faltou contestação sobre o fio repleto de panos brancos. O museólogo diz que o Natal brasileiro está muito "atacado pelo papai noel de barba e roupas quentes que nada tem a ver com o Natal brasileiro, que acontece em pleno verão".

TEAR

Obra de arte tipicamente ilhoa desde a sua primeira edição, o presépio da figueira sempre fez sucesso entre os transeuntes praça 15. Na edição deste ano, a montagem ganhou trajes feitos com mantas elaborados por Ezaltina Ana de Oliveira, 70 anos, num tear de 300 anos, pertencente à sua família, que dedica-se à atividade há seis gerações.
Segundo Jone, em suas viagens à Itália, França, Espanha e Portugal - onde o presépio é largamentente cultivado - a edição florianopolitana do nascimento de Cristo é bastante admirada. Na última versão, elaborada por Jone, o menino Jesus por feito pelo ceramista Vado, de São José. Ao redor da manjedoura há 12 anjos com versos da tradição do Pão-por-Deus. A cena tem também a presença da rendeira e do pescador, entre outros personagens.
Os trajes são decorados com conchas do mar e as cabeças são feitas com porongos. Sementes servem como olhos e barbas de velho como cabelo. Estrela e asas dos anjos são feitas de palmeiras tropicais. A cena ainda é decorada com cerâmicas e balaios. Tudo para simbolizar, segundo Jone Cezar, o significado do nascimento, uma renovação da vida apesar de todas as dificuldades e todos os problemas que o mundo enfrenta.

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