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Memória
Transformação
À esquerda, flagrantes de 1982, época
em que apenas duas pontes faziam a ligação entre
a Ilha e o Continente; e a situação atual onde
o aterro deu lugar a uma ocupação de espaço
desordenada, fugindo ao projeto de Burle Marx |
"Colcha de Retalhos"
Elaborado pelo
paisagista Roberto Burle Marx, projeto original do aterro da
Baía Sul acabou sendo totalmente desvirtuado
Celso Martins
"O
aterro da Baía Sul morreu enquanto projeto original, perdeu
sua objetividade e virou uma grande co lcha
de retalhos, fruto dos interesses diversos sobre a área".
A conclusão é do professor Valmir Oléias
com base em estudos dos projetos e documentos da época
de sua execução e entrevistas com engenheiros e
arquitetos envolvidos na iniciativa. A concepção
de ocupação do local, segundo ele, elaborada pelo
paisagista Roberto Burle Marx, foi totalmente "desvirtuada".
O plano inicial de ocupação previa o aumento
do espaço físico do centro da Capital (tumultuada
por causa do sistema viário inadequado), a ampliação
do comércio da cidade, a criação de um centro
político-administrativo e de um centro de lazer para Florianópolis.
"O governo do Estado acabou se concentrando apenas no aspecto
político-administrativo e no sistema viário, deixando
de lado os demais objetivos", destaca Oléias.
Ao todo o projeto de Burle Marx previa 23 intervenções
no aterro, mas foram executados apenas oito. "Longe do Estado
assumir o gerenciamento do local, através da adoção
de políticas públicas, promovendo e incentivando
o desenvolvimento de determinadas atividades e políticas
de lazer em escala social, sua presença teve limitações
diante da implantação do projeto de urbanização,
pois sua execução por etapas esteve condicionada
a objetivos reduzidos".
Oléias aponta várias razões para o abandono
do projeto original, como sua execução por etapas,
a proposta de venda de 25% da área e as resistências
ao negócio e o tombamento e seu posterior abandono pelos
governantes. Devido a isso, o aterro se transformou num "espaço
vazio, obsoleto e subutilizado", destaca.
Segundo o engenheiro Colombo Salles, ex-governador e responsável
pela obra, ouvido por Eléias, o planejamento viário
de Florianópolis estava voltado para a
ponte Hercílio Luz, ocasionando congestionamentos freqüêntes
na avenida Rio Branco e imediações.
O objetivo básico do aterro, desde a etapa de projeto
até sua execução, era o de "distribuir
o sistema viário", servir de centro administrativo
e comercial, abrigar uma escola básica grande, a construção
de residências para pessoas de baixa renda que trabalhavam
no Centro" e de propiciar um espaço de "lazer
para Florianópolis", destaca o ex-governador.
Para a execução do projeto do aterro, estimado
em US$ 15 milhões, foi feito um empréstimo no valor
de US$ 12 milhões, junto ao Mittland Bank. Esse valor,
segundo Oléias, seria quitado, em parte, com a venda de
25% do aterro para a iniciativa privada, proposta que encontrou
resistências da Câmara de Vereadores, onde se destacaram
as dezenas de pronunciamentos do falecido vereador Waldemar da
Silva Filho (Caruso).
Num desses pronunciamentos, Caruso usou um trocadilho de
palavras que ficou famoso para afirmar que "a comercialização
seria o enterro do aterro da antiga Desterro". A resistência
observada na Câmara foi suficiente para que essa idéia
fosse abandonada, apesar de não ter havido nenhum envolvimento
da opinião pública.
Mas a responsabilidade pela "colcha de retalhos"
em que se transformou o aterro da Baía Sul, deve ser dividida
entre a população, "que não soube se
apropriar desse espaço de lazer", e o governo do
Estado, "por não haver estimulado nem executado nenhuma
política de valorização desse mesmo lazer",
salienta Eléias.
"A ment alidade
do trabalho que predomina na população de Florianópolis,
faz com que o lazer seja encarado como algo para as horas vagas,
quando der tempo", raciocina o professor. "Hoje já
começa a aparecer uma espécie de racionalismo sustentável,
onde o lazer passa a ser visto como oportunidade para a geração
de renda e emprego, junto com o turismo e a cultura", o
que não existia nas décadas de 1970 e 1980.
As principais instalações existentes no aterro
da Baía Sul (Parque Metropolitano Dias Velho), além
do sistema viário, passarela e viadutos, são a
Passarela Nego Quirido, CentroSul, Terminal Rodoviário
Rita Maria, estação de tratamento de esgotos da
Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan), Escola
de Trânsito do Detran-SC, Federação Catarinense
de Remo, a feira Direito do Campo e três terminais de transportes
coletivos.
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Perda
Para Oléias, o aterro ficou obsoleto
Foto: Ricardo Mega
Projeto original
A proposta de Burle Marx previa:
· Palácio do Governo
· Assembléia Legislativa
· Secretarias de Estado
· Palácio da Justiça
· Prefeitura de Florianópolis
· Museu
· Teatro
· Biblioteca
· Prédio dos Correios e Telefônica
· Centro Comercial
· Centro localizado
· Escritórios para a iniciativa privada
· Hotel
· Garagens
· Restaurante-bar
· Quadra de futebol
· Quadra de basquete
· Aeromodelismo
· Velomodelismo
· Posto de abastecimento da Petrobrás
· Play-ground
· Terminal de ônibus
· Tribunal de Contas
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Cronologia
1952
Elaborado o primeiro plano diretor de Florianópolis,
a pedido do prefeito Paulo Fontes, executado pelo escritório
de engenharia Paiva-Ribeiro-Graeff.
1967
O prefeito Acácio Garibaldi S. Thiago solicita ao governo
Federal a execução do aterro da Baía Sul.
1971
No dia 19 de setembro, o Governo do Estado contrata o escritório
técnico J. C. Figueiredo-Ferraz para a elaboração
do projeto de engenharia final do aterro.
1972
O município de Florianópolis desiste dos direitos
de preferência sobre os acréscimos de Marinha (aterro),
através do prefeito nomeado, coronel Ary Pereira Oliveira.
No mesmo ano, foi assinado em 24 de julho o contrato de construção
da ponte Colombo Salles, com três pistas de cada lado,
estilo de ponte dupla, entre o Departamento de Estradas de Rodagens
de Santa Catarina (DER-SC) e a firma Norberto Odebrecht S. A.
1973
Modificado o contrato de construção da ponte,
beneficiando a empresa Norberto Odebrecht, iniciativa do então
ministro Elizeu Rezende, no dia 31 de agosto. Ciro Gevaerd, diretor
do BESC-Turismo, revela em 31 de agosto que existem 60 empresários
interessados na compra de parte do aterro. Em 13 de dezembro,
o governo Federal autoriza o governo do Estado a fazer o aterro
(decreto federal nº 73.244/73).
1974
Concluído o aterro hidráulico da Baía Sul
(24 de janeiro), realizado pela draga Sergipe. A lei nº
5.015 autoriza o governo do Estado a vender 25% da área
do aterro, através de anteprojeto do governador Colombo
Machado Salles, aprovado pela Assembléia Legislativa.
1976
O plano diretor de 1952 ainda está em vigor e começa
a ser discutido outro pelo Escritório de Planejamento
(Esplan).
1978
Através do decreto nº 5.392 o aterro é tombado
- iniciativa do governador Antônio Carlos Konder Reis.
Revogada a legislação que permitia a venda de parte
do aterro, aprovada pela Assembléia Legislativa.
1993
O aterro que se encontrava sob responsabilidade do DER-SC é
transferido do governo do Estado à Prefeitura de Florianópolis.
1994
Iniciada a discussão do novo plano diretor da Capital
pela Câmara de Vereadores, aprovado em 1998.
Fonte: "O lazer no aterro da Baía Sul em Florianópolis:
o abandono de um grande projeto". Tese de mestrado de Valmir
José Oléias, 1994, UFSC.
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