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Joinville         -         Domingo, 21 de Setembro de 2003        -          Santa Catarina - Brasil
 
 

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Memória
Transformação
À esquerda, flagrantes de 1982, época em que apenas duas pontes faziam a ligação entre a Ilha e o Continente; e a situação atual onde o aterro deu lugar a uma ocupação de espaço desordenada, fugindo ao projeto de Burle Marx

"Colcha de Retalhos"

Elaborado pelo paisagista Roberto Burle Marx, projeto original do aterro da Baía Sul acabou sendo totalmente desvirtuado

Celso Martins

"O aterro da Baía Sul morreu enquanto projeto original, perdeu sua objetividade e virou uma grande colcha de retalhos, fruto dos interesses diversos sobre a área". A conclusão é do professor Valmir Oléias com base em estudos dos projetos e documentos da época de sua execução e entrevistas com engenheiros e arquitetos envolvidos na iniciativa. A concepção de ocupação do local, segundo ele, elaborada pelo paisagista Roberto Burle Marx, foi totalmente "desvirtuada".

O plano inicial de ocupação previa o aumento do espaço físico do centro da Capital (tumultuada por causa do sistema viário inadequado), a ampliação do comércio da cidade, a criação de um centro político-administrativo e de um centro de lazer para Florianópolis. "O governo do Estado acabou se concentrando apenas no aspecto político-administrativo e no sistema viário, deixando de lado os demais objetivos", destaca Oléias.

Ao todo o projeto de Burle Marx previa 23 intervenções no aterro, mas foram executados apenas oito. "Longe do Estado assumir o gerenciamento do local, através da adoção de políticas públicas, promovendo e incentivando o desenvolvimento de determinadas atividades e políticas de lazer em escala social, sua presença teve limitações diante da implantação do projeto de urbanização, pois sua execução por etapas esteve condicionada a objetivos reduzidos".

Oléias aponta várias razões para o abandono do projeto original, como sua execução por etapas, a proposta de venda de 25% da área e as resistências ao negócio e o tombamento e seu posterior abandono pelos governantes. Devido a isso, o aterro se transformou num "espaço vazio, obsoleto e subutilizado", destaca.

Segundo o engenheiro Colombo Salles, ex-governador e responsável pela obra, ouvido por Eléias, o planejamento viário de Florianópolis estava voltado para a ponte Hercílio Luz, ocasionando congestionamentos freqüêntes na avenida Rio Branco e imediações.

O objetivo básico do aterro, desde a etapa de projeto até sua execução, era o de "distribuir o sistema viário", servir de centro administrativo e comercial, abrigar uma escola básica grande, a construção de residências para pessoas de baixa renda que trabalhavam no Centro" e de propiciar um espaço de "lazer para Florianópolis", destaca o ex-governador.

Para a execução do projeto do aterro, estimado em US$ 15 milhões, foi feito um empréstimo no valor de US$ 12 milhões, junto ao Mittland Bank. Esse valor, segundo Oléias, seria quitado, em parte, com a venda de 25% do aterro para a iniciativa privada, proposta que encontrou resistências da Câmara de Vereadores, onde se destacaram as dezenas de pronunciamentos do falecido vereador Waldemar da Silva Filho (Caruso).

Num desses pronunciamentos, Caruso usou um trocadilho de palavras que ficou famoso para afirmar que "a comercialização seria o enterro do aterro da antiga Desterro". A resistência observada na Câmara foi suficiente para que essa idéia fosse abandonada, apesar de não ter havido nenhum envolvimento da opinião pública.

Mas a responsabilidade pela "colcha de retalhos" em que se transformou o aterro da Baía Sul, deve ser dividida entre a população, "que não soube se apropriar desse espaço de lazer", e o governo do Estado, "por não haver estimulado nem executado nenhuma política de valorização desse mesmo lazer", salienta Eléias.

"A mentalidade do trabalho que predomina na população de Florianópolis, faz com que o lazer seja encarado como algo para as horas vagas, quando der tempo", raciocina o professor. "Hoje já começa a aparecer uma espécie de racionalismo sustentável, onde o lazer passa a ser visto como oportunidade para a geração de renda e emprego, junto com o turismo e a cultura", o que não existia nas décadas de 1970 e 1980.

As principais instalações existentes no aterro da Baía Sul (Parque Metropolitano Dias Velho), além do sistema viário, passarela e viadutos, são a Passarela Nego Quirido, CentroSul, Terminal Rodoviário Rita Maria, estação de tratamento de esgotos da Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan), Escola de Trânsito do Detran-SC, Federação Catarinense de Remo, a feira Direito do Campo e três terminais de transportes coletivos.

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Perda
Para Oléias, o aterro ficou obsoleto
Foto: Ricardo Mega

Projeto original
A proposta de Burle Marx previa:

· Palácio do Governo
· Assembléia Legislativa
· Secretarias de Estado
· Palácio da Justiça
· Prefeitura de Florianópolis
· Museu
· Teatro
· Biblioteca
· Prédio dos Correios e Telefônica
· Centro Comercial
· Centro localizado
· Escritórios para a iniciativa privada
· Hotel
· Garagens
· Restaurante-bar
· Quadra de futebol
· Quadra de basquete
· Aeromodelismo
· Velomodelismo
· Posto de abastecimento da Petrobrás
· Play-ground
· Terminal de ônibus
· Tribunal de Contas

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Cronologia

1952
Elaborado o primeiro plano diretor de Florianópolis, a pedido do prefeito Paulo Fontes, executado pelo escritório de engenharia Paiva-Ribeiro-Graeff.
1967
O prefeito Acácio Garibaldi S. Thiago solicita ao governo Federal a execução do aterro da Baía Sul.
1971
No dia 19 de setembro, o Governo do Estado contrata o escritório técnico J. C. Figueiredo-Ferraz para a elaboração do projeto de engenharia final do aterro.
1972
O município de Florianópolis desiste dos direitos de preferência sobre os acréscimos de Marinha (aterro), através do prefeito nomeado, coronel Ary Pereira Oliveira. No mesmo ano, foi assinado em 24 de julho o contrato de construção da ponte Colombo Salles, com três pistas de cada lado, estilo de ponte dupla, entre o Departamento de Estradas de Rodagens de Santa Catarina (DER-SC) e a firma Norberto Odebrecht S. A.
1973
Modificado o contrato de construção da ponte, beneficiando a empresa Norberto Odebrecht, iniciativa do então ministro Elizeu Rezende, no dia 31 de agosto. Ciro Gevaerd, diretor do BESC-Turismo, revela em 31 de agosto que existem 60 empresários interessados na compra de parte do aterro. Em 13 de dezembro, o governo Federal autoriza o governo do Estado a fazer o aterro (decreto federal nº 73.244/73).
1974
Concluído o aterro hidráulico da Baía Sul (24 de janeiro), realizado pela draga Sergipe. A lei nº 5.015 autoriza o governo do Estado a vender 25% da área do aterro, através de anteprojeto do governador Colombo Machado Salles, aprovado pela Assembléia Legislativa.
1976
O plano diretor de 1952 ainda está em vigor e começa a ser discutido outro pelo Escritório de Planejamento (Esplan).
1978
Através do decreto nº 5.392 o aterro é tombado - iniciativa do governador Antônio Carlos Konder Reis. Revogada a legislação que permitia a venda de parte do aterro, aprovada pela Assembléia Legislativa.
1993
O aterro que se encontrava sob responsabilidade do DER-SC é transferido do governo do Estado à Prefeitura de Florianópolis.
1994
Iniciada a discussão do novo plano diretor da Capital pela Câmara de Vereadores, aprovado em 1998.

Fonte: "O lazer no aterro da Baía Sul em Florianópolis: o abandono de um grande projeto". Tese de mestrado de Valmir José Oléias, 1994, UFSC.

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