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Exílio do corpo

Antônio Carlos Secchin defende a presença da carne e volúpia nos misteriosos esconderijos souseanos

Especialista em literatura brasileira, o doutor Antônio Carlos Secchin, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, veio a Florianópolis em novembro do ano passado, a convite da Assembléia Legislativa, para marcar a abertura do centenário da morte de Cruz e Sousa com uma palestra. Surpreendeu com uma análise do erotismo presente nos poemas souseanos, comumente associados ao transcendentalismo e espiritualismo, duas fortes características do estilo Simbolista. Em "Cruz e Sousa - o Desterro do Corpo", Secchin afirma e confirma com uma série de versos citados em sua tese que o poeta ía além da pura abstração, ausência de carne ou puro espírito. Revela: "Falta corpo em Cruz e Sousa, sobra espírito, mas este não explícito ao corpo pode ser interpretado como um sim implícito."

Secchin transcende à crítica cristalizada e pergunta: "Onde está o corpo, em que medida este corpo exilado, desterrado, não é uma nostalgia, um fascínio pelo próprio corpo?" Ele próprio estimula uma resposta ao argumentar que há, no caso Cruz e Sousa, uma relação muito ambígua entre corpo, matéria e prazer. "Aparentemente há um repúdio à materialidade e ao meu ver essa recusa está escondendo o fascínio por este corpo."

Ele avisa aos oponentes de sua nova versão que não pretende descaracterizar o Simbolismo e nem dizer que o poeta nascido em Desterro não tenha sido abstrato. "Quero mostrar os canais laterais, os fluxos que apresentam essa matéria, corpo e prazer. Muitas vezes as pessoas só querem apenas o que já sabem, a abstração, por exemplo."

Voz subterrânea

A importância de Cruz e Sousa para a literatura brasileira, segundo ele, é fenomenal. "A voz subterrânea do Simbolismo de Cruz e Sousa, especialmente, representou a rigor um caminho mais importante para a poesia do século 20 do que a risonha e muito satisfeita visão dos parnasianos. O Simbolismo, acredito, tornou-se conexão para o Modernismo."

Mesmo que os modernistas não tenham reconhecido, os simbolistas à revelia foram seus antecessores, na opinião de Secchin. "Os modernistas não puderam ou não quiseram reconhecer essa dívida", ressalta. Cruz e Sousa não significou quase nada para grande parte dos modernistas. "Pior para eles, porque teriam aprendido muito e teriam evitado equívocos em suas poesias se tivessem ouvido as lições da poesia de Cruz e Sousa. O Simbolismo era um movimento que não incomodava muito aos modernistas porque não tinha a hegemonia do poder literário, cultural e político. O inimigo a abater era o Parnasianismo. Portanto, os modernistas perderam muito tempo demolindo estátuas que já estavam ocas."

Outra corrente modernista, porém, representadas por Tasso da Silveira, Murilo Araújo e principalmente Cecília Meirelles, é considerada neosimbolista, segundo o doutor em literatura brasileira. "De modo algum estes escritores ficaram surdos à música do Simbolismo e cegos à herança da poesia de Cruz e Sousa. Meirelles ficou produzindo uma obra da maior qualidade muito mais vinculada a uma tradição de Cruz e Sousa do que à ruptura com o Parnasianismo proposta pela Semana da Arte de 22." (OG)


Poeta Rodrigo de Haro lê Cruz e Sousa em homenagem na Assembléia Legislativa
Foto: Rosane Lima

Lado elegante e sincero do poeta desterrado

Autor de biografia insólita expõe o mundo da inquietação, tormento da alma de Cruz e Sousa, "um desses homens para quem a burrice era pecado imperdoável"

Rodrigo de Haro também preparou sua homenagem a Cruz e Sousa neste centenário de morte. Está prestes a concluir uma tarefa nada simples. Resgata, com um texto em que mistura realidade e ficção, detalhes do homem e da obra. Avisa desde já quais são os sinos de seu tombeau, um estilo literário de origem francesa utilizado nas homenagens póstumas: "Antes de ser negro, ele foi líder de uma escola que se opunha ao progresso proposto pela civilização industrial".

"No túmulo de Cruz e Sousa", título do livro, não é uma lamentação. "É um buquê, um levantamento de temas", explica. No momento Rodrigo dedica-se a uma seqüência onde analisa datas e a aproximação de Cruz e Sousa com o que aconteceu na sua época. "Ser um simbolista, naquela época, era tomar um caminho de uma contestação muito forte. Até hoje a crítica literária oficial brasileira fica um tanto preocupada com o Simbolismo, tenta reduzi-lo porque não tinha origem nacional (e o que são as origens nacionais?), como se os parnasianos tivessem. É que o Simbolismo é uma linha estética que valoriza elementos malditos, sacrílegos, noturnos, proibidos, ocultos, procurava a noite, queria desestabilizar a tranqüilidade áurea do mundo do Olavo Bilac (poeta paranasiano)."

Cruz e Sousa, como simbolista, busca também o mundo da inquietação, do tormento da alma, conforme as leituras de Rodrigo. "Até hoje, ao ler e refletir sobre estrofes de Cruz e Sousa, você passa por esse frisson. Uma leitura sistemática da obra, com atenção ao lado mais pertubador no plano existencial, é muito útil. Ele sempre mistura muito, em 'Missal' por exemplo, o erotismo e o litúrgico. Você vai penetrando aqueles missais e vão se levantando formas, evocações de lascívia. Ele era um obcecado. Cruz e Sousa fala de freiras loucas, de Lesbos e tudo isso tem sido evitado. Não exista ainda quem tenha encarado frontalmente as preocupações mais violentas de Cruz e Sousa. Eu imagino os tremores de terra provocados naquela época pelas poesias dele publicadas nos jornais."

O livro-homenagem é dividido em várias seqüências, crônicas. Rodrigo entra em algumas linhas. Permite-se a lembranças dele e de amigos, como Pedro Garcia e Iaponan Soares, sobre o que viveram nos ano 50. "Em nossas andanças noturnas em um lugar que ainda era a ilha de Cruz e Sousa, com uma paisagem dramática, longe de ser uma cidade acanhada como falam alguns historiadores tomados pelo sentimento de inferioridade, mas uma cidade autenticamente barroca, misteriosa, singular, mantínhamos o sentimento da presença do poeta. Entre o vapor da fumaça do bar, das borboletas noturnas, dos marinheiros, intelectuais, pessoas comuns, sentia-se a presença de Cruz e Sousa, que era um personagem da cidade", argumenta.

Certa noite, quando todos estavam mais ou menos bêbados - esse espisódio pertence ao livro - imaginaram que Cruz e Sousa tinha acabado de sentar-se em uma mesa ao fundo do bar em que estavam. "É claro que isso ficava entre a brincadeira e o sério. Depois ele saía e a nós íamos até a mesa e tinha alguma coisa escrita. Imaginávamos que fosse um soneto. Isso tudo fazia com que ele estivesse vivo", frisa.

Outro fragmento para evocar a dimensão da presença do poeta nos anos 50 aborda uma irreverente saudação ao poeta. O busto de Cruz e Sousa - hoje instalado na praça 15 de Novembro - ficava no antigo largo do quiosque e por não ser fixo acabava passando de mão em mão. "Este busto passeava à noite. Era uma das graças esotéricas dos rapazes passear de carro, exibindo o busto de bronze. Saiam em procissão. Muitas vezes, eu também vi, o monumento amanhecia coberto de flores, velas. Ele foi retirado do local por uma elucubração arbitrária e foi colocado no jardim em frente ao Palácio Cruz e Sousa."

Nós da gravata

Em outra seqüência, Rodrigo resgata a passagem de Cruz e Sousa pelo teatro. Abre o texto com a frase "Sete negros conduzem...". "Quero descrever, com isso, o que era o teatro brasileiro daquela época. Segundo depoimentos de viajantes, era um teatro predominantemente negro. Por sinal, a arte brasileira, sobretudo no Império, era predominante afro. O mundo de maior liberdade é o teatro e passou a ser evidentemente uma atração para o elemento africano. Cruz e Sousa, como ponto (encarregado de lembrar textos) de uma companhia, não esteve só. Oficialmente ele foi ponto só, mas ele aparecia em cena para declamar poemas."

Há outro trecho que fala dos nós das gravatas. Rodrigo argumenta que essa pequena história dos costumes - como se andava, falava, vestia-se - se perde facilmente. "E é aí que está a vida exatamente, porque é o lado mais revelador das pessoas e eu tento puxar Cruz e Sousa desta forma. O que me aborrece muito é a cristalização da imagem de Cruz e Sousa como negrinho sofredor. É uma maneira de mantê-lo atrelado à posição de submisso, logo ele que foi um homem extremamente elegante, altivo, rápido e sarcástico. Mesmo que ariano (raça considerada superior pelo nazista Adolf Hitler) fosse, dificilmente ele seria tolerado pela mediocridade porque tinha um espírito muito crítico. Cruz e Sousa era desses homens para quem a burrice e a mediocridade são pecados imperdoáveis."

Rodrigo chega a perguntar-se qual seria o nó de gravata preferido pelo poeta. Fez um levantamento. Descobre que o nó chamado rossini só era desfeito com uma tesourada. Cruz e Sousa, de acordo com a biografia, gastava tudo que ganhava, como professor de francês e inglês, com roupas e objetos do aparato pessoal.

Antes que interpretem mal sua idéia das gravatas e elegância, o poeta contemporâneo antecipa sua defesa: "Não quero minimizar, com isso, a tragédia de Cruz e Sousa, é evidente que ela existiu. Na medida em que ele caiu, foi mais trágico do que se ele fosse um coitadinho acostumado com o sofrimento, adaptado a uma inferioridade. Claro que vou passo a passo, fazendo até um final mais terrível. Houve uma evidente discriminação racial, mas houve também a discriminação contra o que ocorre com qualquer homem ambicioso e consciente de seu próprio valor. Ainda é e será assim por muito tempo em Florianópolis. Cruz e Sousa foi vítima de inveja na Desterro (Florianópolis) do século passado." (OG)

Violões que falam

Extrair a imagem poética dos versos de Cruz e Sousa foi o caminho percorrido pela fotógrafa Rosane Lima, que uma vez desafiada mergulhou no poema "Violões que Choram...", criado em janeiro de 1897. A inquietude e dilacerante musicalidade dos versos conduzem o imaginário. "O que o poeta enfrentou no seu tempo, revive-se ainda hoje em cenas cotidianas de dor, lamento e sofrimento", define a profissional que se aproxima do universo sombrio e solitário de Cruz e Sousa em imagens tão poéticas quanto a construção cruzsouseana. Neste breve ensaio sobressaem os sonhos fatigados, a melancolia do anjo, a miséria humana, os violões que falam.

   

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1 Moderno antes de ser eterno
2 Ilustre desconhecido
3 Poesias de Cruz e Sousa
4 Desafio contra a ordem e o progresso
5 Exílio do corpo


Secchin: "O Simbolismo tornou-se conexão para o Modernismo"
Foto: Rosane Lima

Referência divina para pequeno grupo

Apesar da dívida dos modernistas, para Secchin Cruz e Sousa é um poeta reconhecido no Brasil. "Quando ele morre, os historiadores e poetas só podiam falar dele através de 'Broquéis', porque os outros dois livros de poesia são publicações póstumas. Eu acho até espantoso, portanto, pela série de irregularidades apresentadas em 'Broquéis', terem reverenciado, falado bem ou mal de um poeta que havia um publicado apenas um livro de poesias. Passou a ser uma referência divina para o seu grupo pequeno, no Rio de Janeiro, assim como para seus inimigos. Se fosse um poeta desprezível, os paranasianos não teriam procurado parodiá-lo. Veja só, com um livro menos forte ele conseguiu provocar uma celeuma na ordem do dia."

Em segundo plano

Para Secchin há boas edições sobre a poética souseana no Brasil. "Temos uma edição de 1923 do amigo dedicadíssimo de Cruz e Sousa, o Nestor Vítor. Nos anos 40, em São Paulo, foi publicada uma outra de Fernando Góes. Depois vieram uma primeira edição de Andrade Muricy e uma segunda em 1961. No centenário de 'Broquéis', recebemos uma ótima edição da professora Zahidé Muzart (Universidade Federal de Santa Catarina). Mas eu diria que no Brasil não somente Cruz e Sousa deveria ser mais estudado, mas toda a poesia brasileira, que sempre está em segundo plano porque a predominância do gosto popular é o romance." (OG)

 

Antonio Hohlfeldt
"... Ao se fundar a Academia Brasileira de Letras, em 1896, Cruz e Sousa não é lembrado para a primeira formação do instituto, o que se considera, até hoje, como enorme injustiça a seu talento." Crítico de literatura

Nestor Vítor
"Cruz e Sousa é um precursor trés vezes: precursor de sua raça, precursor de uma nova orientação no mundo do espírito, precursor de uma parte do Novo Continente, pois que só agora ele está querendo dizer ao que vem." Amigo pessoal e escritor

João Pinto da Silva
"Ninguém soube transmitir, como ele, em meia dúzia de palavras, aquela 'quantidade de espírito sugestivo, qualquer coisa como uma corrente subterrânea de pensamento, não visível, indefinida', de que fala o sombrio Edgar Poe." Crítico

Sílvio Romero
"Nada de 'pose'. Outra qualidade da arte de Cruz e Sousa é o poder evocativo de muitas de suas poesias. Ele não descreve, nem narra." Crítico

Nelson Tangerini
"É hora de Cruz e Sousa ocupar o lugar de destaque que merece. Precisamos acabar com esta história de que o poeta tinha vergonha de ser negro. Logo ele, que foi abolicionista, que lutou pela causa negra." Jornalista e professor

Austregésilo de Athayde
"Foi no Rio de Janeiro que Cruz e Sousa ganhou renome nacional, vencendo preconceitos racistas e obsessões sociais que as gerações seguintes repudiaram e suas obras póstumas atestam precisamente a solidez e perenidade do seu talento." Escritor

Vítor Viana
"Num meio literário que se aburguesava, que se tornava excessivamente prosaico, Cruz e Sousa no Brasil, como os simbolistas da França, arrebentou como uma nova expressão, fazendo voltar a poesia às fontes puras da emoção." Crítico

Ronald de Carvalho
"Ele introduziu em nossas letras aquele horror da forma concreta, de que já o grande Goethe se lastimava no fim do século 18. E tal serviço, em verdade, não é pequeno, em um país onde a poesia flue mais da ponta dos dedos que do coração." Crítico


ANespecial
Edição especial de ANcapital nos 100 anos da morte de Cruz e Sousa

Adriana Ferronatto
Editora chefe de ANcapital

Néri Pedroso
Edição e projeto editorial

Jeferson Lima, Maurício de Oliveira e Osmar Gomes
Pesquisa e Textos

Rosane Lima
Fotografia

Frank e Ayrton Cruz
Arte

Iaponan Soares
Agradecimento

ANcapital
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