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Maldito dos versos musicais

Cruz e Sousa atravessou a vida num silêncio escuro. Errante, trêmulo, triste e vaporoso, o negro e sublime poeta nascido na Desterro de 1861 suportou o peito dilacerado com a convicção da glória.

O Cisne Negro não se amedrontou diante de austeras portas lacradas. Maldito pela grandeza e pelo elixir ardente de versos capazes de arrebatar paixões até a atualidade, quando se completam os cem anos de morte.

De pranto e luar, sangue e sensualidade, lágrimas e terra construiu uma obra de estímulo às paixões indefiníveis. Mestre do Simbolismo no Brasil, aliou genialidade a um meticuloso rigor. Celebrado só depois de morto, o Poeta de Desterro foi um homem apaixonado, autor de versos transcendentais que ganharam o mundo.

Ele via a perfeição como celeste ciência, mas não saboreou a imortal conquista. Antes de morrer tuberculoso em Minas Gerais, em 19 de março de 1898, o poeta ensinou a alma palpitante, a fibra e sobretudo que "era preciso ter asas e ter garras".


Moderno antes de ser eterno

Seguidor da vanguarda francesa, Cruz e Sousa cria o Simbolismo no Brasil e revela-se um homem engajado com as lutas do seu tempo

Forças adormecidas de angústia e sonho sustentam a vida e a obra de Cruz e Sousa, autor de versos incompreendidos porque inovadores e inseridos na trilha da vanguarda francesa da época. O Cisne ou Poeta Negro, como alguns o chamavam, ao mesmo tempo em que produzia uma poética que o colocou ao lado de Mallarmé, Rimbaud e Verlaine, também desafiou o mundo com sua escrita contundente. "Não lhe bastou ser poeta, foi um jornalista engajado com as lutas de seu tempo", situa o poeta paranaenese Paulo Leminski em uma biografia publicada em 1983.

Negro numa sociedade escravocrata, Cruz e Sousa fez militância contra a escravatura. Pesquisadora do assunto, a professora-doutora Zahidé Lupinacci Muzart, do departamento de letras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), lembra que nos anos 80 do século 19, Cruz e Souza e seu grupo discutiam as questões cadentes de seu tempo e lutavam fundando jornais, folhas, semanários alternativos...

Ele não se fechou a sete chaves numa torre de marfim, não abraçando a causa abolicionista, confome equivoca-se o crítico Fernando Góes, em estudo introdutório para uma nova edição da obra completa do poeta, em 1943. "Não foi indiferente à causa, muito pelo contrário", salienta o estudioso Iaponan Soares, dono do acervo mais completo sobre Cruz e Sousa no Brasil.

Em 1961, quando preparou outra edição de obras completas de Cruz e Sousa, Andrade Muricy, em comemoração ao aniversário de nascimeto, "fez importante coleta de dispersos, entre eles algumas páginas abolicionistas, duas das quais publicadas em livros, mas poucos conhecidas: "O Padre" e "Crianças Negras", além de outros. Quando passou pela Bahia, em 1885, o poeta participou do movimento abolicionista local, proferindo palestra. Seus escritos sobre o tema só muito mais tarde chegaram ao conhecimento da crítica.

A comprovação mais evidente da militância no movimento pela libertação dos escravos é sua participação na sociedade carnavalesca "Diabo a Quatro", que, em 1887, desencadeia campanha pelo abolicionismo, com plena cobertura da imprensa. Um dos textos mais inteligentes contra o escravagismo, escrito no jornal "A Regeneração" e intitulado "O Abolicionismo", é contuntende e articulado. "Não se liberta o escravo por pose, por chiquismo, para que pareça a gente brasileira elegante e graciosa antes as nações disciplinadas e cultas", dispara Cruz e Sousa.

O poeta ainda publicou em inúmeros outros jornais brasileiros, especialmente em Florianópolis e no Rio de Janeiro, para onde mudou-se definitivamente em 1890. Trabalhava por um magro salário.


Único neto de Cruz e Sousa
morreu doente e decepcionado

Descendentes vivem ainda com dificuldades no Rio de Janeiro, onde o poeta está enterrado

Ercy Cruz e Sousa, 75 anos, matriarca da família, vive no Realengo, no Rio de Janeiro. Ela foi casada com Sílvio, único neto de Cruz e Sousa, que morreu em 1955. Durante sua vida ele foi marinheiro, mas também trabalhou como eletricista e vendia peixe para sustentar a família. Quando morreu, Ercy tinha 32 anos e ficou com seis filhos para criar. Nunca mais casou. "Para que, meu filho?", indaga ela.

A matriarca, que está bastante doente, perdeu as contas do número de descendentes do poeta. Na última contagem feita por ela, havia 36 netos, 20 bisnetos e outra quantidade de tataranetos. Há outros que estão fora das contas de Ercy, que mora com a filha Dina Tereza Cruz e Sousa, 58 anos e com a neta Emilena, 22 anos. As três moram numa casa modesta, com dois quartos, sala, cozinha e banheiro, com piso de madeira e paredes de alvenaria. Emilene e o primo Anderson são até onde se sabe os únicos descendentes do simbolista Cruz e Sousa que chegaram a ensaiar algumas letras, mas desistiram da carreira de escritores. A justificativa de Emilene para não ter persisitido na profissão foi porque não queria passar pelo mesmo sofrimento de seu tataravó-poeta.

Pensão do governo

Ercy, a filha e a neta sobrevivem de uma pensão do governo do Estado de Santa Catarina, paga desde a década de 50 sob determinação do então governo Irineu Bornhausen. Apesar de não ser descendente direta de Cruz e Sousa, Ercy também tem sangue de artista nas veias. Até hoje ela amarga a frustação de não ter acompanhado uma excursão para a Alemanha. Era cantora de música afro e cantava em peças teatrais. Um empresário ligou para seu vizinho, convidando-a para a excursão, mas o recado não chegou aos seus ouvidos. Era uma época em que ela trabalhava de lavadeira durante o dia. À noite fazia o papel de uma cantora dos Palmares. O sonho de tornar-se uma estrela e reverter o quadro de miséria ficou sepultado no tempo. (JL)

Família enfrenta signo da fatalidade

Sílvio morreu muito doente. Ercy diz que o motivo de sua morte foi decepção com a vida. Lia muito jornal, andava pelas ruas para dissipar sua dor. Recomendava sempre que os filhos não abandonassem a escola. "Sem estudo vocês não serão nada", dizia. Poucos da família estudaram. Uma das descendentes de Cruz estudou um pouco. "Quase formou-se professora", comenta ela.

Sílvio é filho de João da Cruz e Sousa, quarto e último filho de Cruz, que nasce postumamente em 1898. Os outros três filhos morrem antes de atingir a adolescência. O próprio João Filho morre antes dos 20 anos. Mas deixa Francelina Maria da Conceição grávida. Ela também enfrenta o signo da fatalidade de Cruz e Sousa. Morre atropelada num desfile de Carnaval. Sílvio perdeu a mãe ainda muito jovem e é criado por Alexia Mancebo, uma paulista com uma boa situação financeira que vivia no Rio e tinha o maior carinho pelo garoto. Ela criou e educou o neto de Cruz.

Baú

Até março de 1988, Dina guardou com carinho um baú herdado do pai que guardava manuscritos e roupas do poeta. Todo cuidado não preservou o baú de uma enchente que o destruiu. Entre os valiosos papéis, havia muitas correspondências que se perderam para sempre. Havia também poemas avulsos e fotografias. Da pequena casa de dois cômodos, que abrigava bisnetos e trinetos do poeta, pouca coisa sobrou. A enxurrada levou móveis e muitas roupas dos quartos e salas, deixando rachaduras e buracos na parede.

Mausoléu

Dina já esqueceu a última vez que freqüentou o túmulo do avô. Brincando ela diz que o túmulo é limpo e recebe flores somente quando se comemora alguma data alusiva ao poeta. Segundo Manoel Gomes, autor do livro do "Palácio Rosado ao Palácio Cruz e Sousa", o mausoléu definitivo do poeta foi inaugurado em 5 de agosto de 1943. Foi construído pelo governador Nereu Ramos, no cemitério São Francisco Xavier, segundo projeto do escultor Hildegardo Leão Veloso. Na solenidade de inauguração, informa Manoel, o embaixador Edmundo da Luz Pinto e o poeta Tasso da Silveira discursaram enaltecendo a obra do poeta. (JL)

  Leia também
1 Moderno antes de ser eterno
2 Ilustre desconhecido
3 Poesias de Cruz e Sousa
4 Desafio contra a ordem e o progresso
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Luta contra as injustiças sociais

Cruz e Sousa praticou essencialmente um jornalismo cultural que era também crítico. Depois de "O Colombo", publica regularmente na "Tribuna Popular". "Como este jornal desapareceu da Biblioteca Pública, pode-se ainda estudar Cruz e Sousa como jornalista na coleção do semanário 'O Moleque', que ele dirigiu por seis meses", acrescenta Zahidé, lembrando que o poeta "não tinha medo das palavras e usava-as com vigor contra as injustiças sociais".

"O Moleque", publicado durante um ano (1884 a 85), era um períodico de formato pequeno, ilustrado litograficamente. Com humor, sátiras e caricaturas, criticava os costume e a política. Com passagem em inúmeros outros jornais da crítica brasileira, R. Magalhães Júnior, seu biógrafo mais apurado, destaca os pseudônimos do poeta na imprensa brasileira: Felisberto, Filósofo Alegre, Coriolano Scévola, Habitué, Zé K. e Trac.

Iaponan lembra outros, Heráclito, Zat e Zot e afirma que na imprensa catarinense, Cruz usou ainda outros pseudônimos. Em "O Moleque", Zat, Zot, Zut. Com relação ao pseudônimo Zé K., Magalhães Júnior vai mais longe e revela o anagrama do Z de Cruz e da conjunção que o liga a Sousa, sendo K a transposição para essa consoante do som de C + A, isto é, da primeira e da última letra de seu nome literário.

Cruz e Sousa já era moderno, antes de ser eterno. (JL)


1861
Nascimento do poeta em 24 de novembro, Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis. Filho do escravo mestre-pedreiro Guilherme e da escrava liberta, Carolina Eva da Conceição, negros puros.

1869
Ingresso na escola pública, depois de receber as primeiras letras de dona Clarinda Fagundes de Souza, mulher do marechal Ghilherme Xavier de Sousa, em cuja casa o poeta foi criado.

1871
Matrícula no Ateneu Providencial Catarinense, onde lecionava o alemão Fritz Müller. Cruz e Sousa estudou com distinção grego, latim, inglês, francês, português, matemática e ciências naturais.

1881
Fundação, com Virgílio Várzea e Santos Lostada, do jornal literário "Colombo". Viagem ao Rio Grande do Sul, de navio, acompanhado a Companhia Dramática Julieta dos Santos, como ponto teatral.

1884
Nova viagem ao Norte do país. Aclamações abolicionista ao poeta na Bahia. Em 1885 publica o livro de poemas em prosa "Tropos e Fantasias" em parceria com Virgílio Várzea. Dirige o jornal "O Moleque".

1888
No Rio, entra em contato com Luís Delfino, B. Lopes e Nestor Vítor. Este tornar-se mais tarde grande amigo, admirador e editor do poeta. Leituras de Edgar Allan Poe e de alguns simbolistas europeus.

1888
Abolição da escravatura. Durante estada no Rio, apresenta a José do Patrocínio um livro de versos chamado "Cambiantes", que não chegou a ser publicado. O livro continha poemas abolicionistas.

1890
Muda-se definitivamente para a capital federal, onde trabalha como noticiarista da revista "A Cidade do Rio de Janeiro". Leitura de Mallarmé. Colabora na "Revista Ilustrada" e no jornal "Novidades".


     
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