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AN Especial Ecologia 25 de novembro de 1999















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O maior desafio que nos espera na virada do milênio está sem dúvida relacionado com a questão ambiental. A capacidade humana de encontrar soluções para os problemas causados por anos de degradação inconsciente definirá a viabilidade de recursos naturais para todos os seres vivos da Terra. Preservar. Este deve ser o verbo mais utilizado por todos os setores econômicos e pela sociedade em geral para garantir a sobrevivência terrena.

A preservação do meio ambiente vai além do simples ato de não, por exemplo, prender um pássaro silvestre na gaiola. Ela engloba procedimentos industriais corretos e afinados com os conceitos de reciclagem e não inclusão de resíduos tóxicos na natureza, envolve investimentos e acima de tudo consciência. Inclui também, ações pessoais, como a reciclagem do lixo doméstico e a separação do que é reaproveitável. O caminho a ser seguido é longo e o tempo bastante curto.

Todos nós, indivíduos participantes deste processo degenerativo ao longo dos anos, devemos soar, agora, a sirene de alerta para uma mudança de proceder. A preservação ambiental é a oportunidade que a humanidade tem para perpetuar sua existência.

O caderno ambiental do jornal A Notícia apresenta as iniciativas de preservação ambiental de algumas empresas que já estão em sintonia com esta mentalidade e, por isso, recebeu o reconhecimento do 7º Prêmio Expressão de Ecologia. São verdadeiros paradigmas em novo contexto de comportamento frente ao meio ambiente. Além desse tema, o caderno fala também sobre as flores, esse importante componente da natureza, que além de presentear nossos olhos com beleza, são responsáveis pela reprodução das plantas, garantindo a biodiversidade da flora.


As flores dos
jardins de nossas casas

Concurso envolve cada vez mais a comunidade

A 61ª Festa das Flores realizada entre os dias 13 e 21 de novembro foi um sucesso na avaliação dos organizadores. Este ano, cerca de 100 mil pessoas visitaram os pavilhões da Expoville. Entre elas, grupos da terceira idade e turistas que vieram de várias regiões do País como Bahia, Recife e Manaus.

Além do sucesso de público, o coordenador Vilmar de Souza garante que o evento foi viável financeiramente. "Ao contrário do que ocorreu em 1998, quando tivemos um déficit, este ano conseguiremos pagar todas as despesas da Festa", comemora. A média de visitação na 61ª Festa das Flores oscilou entre 4,5 mil e 8 mil pessoas de segunda a quinta-feira. Entre os motivos do sucesso desta edição do evento, aponta o coordenador geral, está o empenho dos colaboradores e integrantes da Agremiação Joinvilense de Amadores de Orquídeas (Ajao) e da nova estratégia de mídia.

"Adotamos uma forma de mídia alternativa. O concurso de reportagens lançado pela Adjori (Associação dos Jornais do Interior) estimulou a publicação de notícias sobre a Festa das Flores em todo o Estado e ajudou muito na divulgação", avalia Vilmar de Souza, lembrando que a comissão organizadora enviou 3,8 mil malas-diretas para grupos de terceira idade e aproveitou para divulgar o evento nos maiores encontros de turismo promovidos no Brasil. O workshop gastronômico realizado pelo Senac - que incluiu a elaboração de pratos à base de orquídeas - também foi um dos diferenciais apontados pela coordenação.

A exemplo dos anos anteriores, mais uma vez os apaixonados por plantas e flores puderam participar do Concurso de Jardins. A iniciativa tem incentivado a comunidade a embelezar ainda mais as residências, empresas e escolas. Hobby e terapia para alguns, trabalho para outros, o fato é que a preocupação com o meio ambiente está absorvendo tempo e dedicação cada vez maior dos joinvilenses. Na avaliação dos vencedores do concurso realizado no ano passado, já é possível perceber o quanto a cidade está florida e bela.

Inovações

Este ano, a comissão organizadora do concurso fez algumas inovações e avaliou quatro categorias: jardins escolares, jardins empresariais, residências grandes e residências pequenas. Em 1998, o evento incluia premiação para os jardins rurais, que nesta edição foram incorporados à categoria residencial. Vencedor na categoria jardins residenciais com mais de 100 metros quadrados no ano passado, Paulo Grunewald se inscreveu novamente e, desta vez, conquistou o 3º lugar, agora na categoria residências grandes.

Amante de flores e plantas,o empresário dedica algumas horas semanais para a manutenção do jardim. "Sempre gostei de jardinagem, mas faltava tempo. Há cerca de dois anos passei a me dedicar mais à natureza", revela o morador do bairro Atiradores. Os investimentos para manter o jardim sempre bonito variam muito. No caso de Paulo Grunewald foram gastos, para a edição do concurso realizado em 1998, aproximadamente R$ 6 mil, mas ele diz que é possível economizar bastante utilizando apenas a criatividade. "As plantas adultas, compradas em empresas especializadas, são as mais caras", avisa.

Melita Kleinschmidt, que no ano passado venceu a categoria jardins rurais, conquistou este ano o terceiro lugar na categoria residências pequenas. Situada na estrada Dona Francisca (km 10), a casa em estilo enxaimel sempre chamou a atenção dos viajantes. "Em 1998, decidimos concorrer na última hora e nem sabíamos que haviam escolhido nossa casa. Melita passa as horas de folga cuidando das plantas e flores que embelezam a residência e conta sempre com a ajuda das filhas. "É um orgulho ver tanta dedicação reconhecida", disse.

Escolas e empresas também passaram a se dedicar à natureza, tornando os ambientes mais coloridos. O Colégio Elias Moreira cuida dos jardins há anos. O primeiro reconhecimento no concurso veio em 1993. De lá para cá, a classificação em primeiro lugar se tornou rotina. Os investimentos com a manutenção do jardim giram em torno de R$ 800, 00 e, comprovando a superioridade, o colégio venceu, este ano, mais uma edição do concurso. A Tigre S/A, que começou a investir no meio ambiente há cerca de quatro anos, foi mais uma vez a vencedora na categoria jardim empresarial. Orlando Brümmer, responsável pela manutenção dos jardins da empresa, disse que os trabalhos começaram modestamente. Com o tempo a empresa ampliou a área de jardins.

Concurso de jardins/1999

Categoria jardins escolares

  • 1º lugar: Colégio Cenecista José Elias Moreira
  • 2º lugar: Escola Técnica Tupy
  • 3º lugar: Caic Mariano Costa

Categoria jardins empresariais

  • 1º lugar: Tigre S/A Tubos e Conexões
  • 2º lugar: Hipermercado Big
  • 3º lugar: Anthurium Parque Hotel Ltda

Categoria jardins residenciais pequenos

  • 1º lugar: Cenildo Merkle
  • 2º lugar: Adolfo Krieger
  • 3º lugar: Melita Kleinschmidt

Categoria jardins residenciais grandes

  • 1º lugar: Alci Anita Massotti
  • 2º lugar: Margaret Rieper
  • 3º lugar: Paulo Grunewald


As irresistíveis bromélias conquistam cada vez mais a simpatia dos amantes de flores
Foto: Arquivo AN

Paixão incontida pelas exóticas bromélias

Até a Internet já é fonte de consultas sobre novas espécies

O engenheiro agrônomo Carlos Alberto Nascimento do Amaral não tem vergonha de dizer que fez o caminho da roça. Optou pelo trabalho no campo aos 15 anos, quando seus pais compraram um sítio, no interior de Joinville. As idas e vindas ao sítio o fizeram descobrir o amor pela natureza e a necessidade de trabalhar com ela. Mal sabia que, anos mais tarde, teria nas flores e outras plantas sua principal fonte de renda.

Há três anos a família de Amaral é uma das principais expositoras de bromélias na Festa das Flores de Joinville, como resultado de um trabalho que começou com pesquisa de mercado, cursos de capacitação e, como em qualquer outro investimento, com grandes chances de erros e acertos. A escolha pela bromélia, segundo o engenheiro, não aconteceu por acaso. Amaral apostou na cultura da espécie após descobrir que a maior parte dos exemplares vendidos em Joinville vinham de São Paulo ou eram retirados da mata .

A antiga paixão de colecionador e a boa propagação das plantas o fez voltar os olhos para o potencial econômico do cultivo. Assim, conta, nasceu o Sítio das Bromélias. Ver o trabalho dar certo também levou tempo. O clima era excelente mas o excesso de cuidados atrapalhou um pouco. Prova disso era o adubo em exagero em plantas escuras - as neoregílias - que, ao invés de crescer, ganhavam uma tonalidade verde. Para sanar as dúvidas, o engenheiro buscou ajuda nos cursos da Epagri, em Florianópolis e em Pirabeiraba e até em Curitiba. Aprendeu muito com os amadores, que na região criam bromélias com as orquídeas. Isso sem falar na internet, grande fonte de consulta para informações sobre novas espécies, insumos e outras itens relacionados ao cultivo de plantas.

Perigo

Uma das maiores preocupações do engenheiro, que também trabalha com paisagismo, é o repovoamento da mata da região para combater problemas causados pelo extrativismo ilegal de plantas nativas. "As pessoas não devem comprar bromélias e orquídeas na beira de estrada sem comprovar a procedência. Isso é crime ambiental", alerta. Confiante- e tendo os pássaros como aliados-, Amaral aposta dobrar o número de espécies e exemplares ao redor do sítio em menos de dez anos. "Novas espécies, propagadas pelos pássaros que se alimentam da semente da planta cultivada no viveiro, não agridem o ambiente. Isso aumenta a biodiversidade", explica.

Exóticas, as bromélias não cabem em qualquer lugar. Palavra de quem entende e acredita que a arquitetura da casa ou condomínio deve servir de moldura ao trabalho desenvolvido no jardim. O primeiro passo para realizar um bom trabalho de paisagismo, segundo o engenheiro, é verificar se a empresa que vai realizar o serviço tem uma assessoria técnica. Caso contrário, o cliente pode ser prejudicado com problemas de solo e com espécies de plantas erradas para o ambiente. Elas podem não se adaptar ou, em outros casos, causar danos futuros à residência.

O profissional também deve respeitar o gosto do cliente, porém, evitando extravagâncias observando as tendências tropicais e européias. "Um exemplo é ter palmeiras em torno da piscina. Pinheiro também não combina com este tipo de ambiente", diz. Uma das plantas em alta no momento, segundo Amaral, são as chamadas onze-horas. Espécie multicolorida e resistente, que alegra qualquer jardim. Dentro de casa valem as orquídeas, as bromélias, os lírios da paz ou pequenas árvores em vasos como o fuccus, a palmeira areca e a raphis.

Uma boa ventilação é essencial para bom desenvolvimento das espécies. "Às vezes a planta tem água, luz, adubo mas morre por falta de ventilação", ensina o agrônomo. Embora imitem a beleza das plantas naturais, as artificiais não têm futuro nos ambientes internos ou jardins, acredita o engenheiro. "As pessoas estão investindo mais em si próprias, estão pensando no futuro, diminuindo o uso do plástico, dos aditivos químicos, do açúcar. A planta artificial não traz os benefícios da natural. Enquanto os cuidados com uma planta verdadeira se transformam em terapia, a artificial é inerte".

Nas próximas semanas, Amaral deve iniciar um programa de profissionalização de mão de obra em Araquari. A terra do maracujá vai ganhar garis e desempregados com noções de jardinagem, gerando novos postos de trabalho.


A diversidade de espécies (ao lado e abaixo)
Fotos: Divulgação

Associação tenta resgatar espécies raras

O comércio de bromélias é um mercado em ascensão

Rio do Sul - A exploração florestal indiscriminada da mata atlântica tem ameaçado a extinção de várias espécies nativas. Entre elas estão as bromélias, que se tornaram conhecidas na Europa já na época das navegações portuguesas e espanholas ao Novo Mundo. Na tentativa de resgatar algumas variedades das famílias bromeliáceas, que compreendem mais de 2,5 mil espécies e ainda combater o extrativismo ilegal, a Associação de Preservação do Meio Ambiente do Alto Vale do Itajaí (Apremavi) iniciou há quatro anos em seu viveiro, na localidade de Alto Dona Luíza, em Atalanta, a reprodução de sementes. A principal delas é conhecida como poço-de-jacó, uma variedade endêmica do interior das florestas da região, variedade rara e em fase de extinção. O comércio de bromélias é um mercado em ascensão. Devido ao seu grande valor ornamental elas vêm conquistando um novo público. Apesar da legislação federal proibir a sua retirada da mata para fins de comercialização, o extrativismo é cada vez maior. O engenheiro florestal da Apremavi, Leandro Casanova, disse que é preciso maior fiscalização, no sentido de diminuir a pressão extrativista, no que diz respeito a preservação das espécies. Ele prevê que se nenhuma atitude for tomada rapidamente a riqueza genética das bromélias, assim como de todos os outros organismos que habitam esse ecossistema, se perderão de forma irreversível.

Casanova diz que as sementes das mudas de bromélias produzidas no viveiro da Apremavi são coletadas maduras, diretamente nas matas. Depois é feita a semeadura propriamente dita. Este trabalho de reprodução iniciou em 95 e até agora foram produzidas mais de 25 mil mudas. No total são desenvolvidas cinco espécies nativas da região. A mais linda delas, com floração vistosa e prolongada é a variedade denominada de poço-do-jacó (Bilbergia alfonsi-joannis Reitz). Além de endêmica das florestas do Alto Vale do Itajaí, faz parte da lista das espécies raras e encontra-se em processo de extinção. "Foi por esta razão que a Apremavi iniciou esse trabalho de reprodução a partir das sementes", justificou Casanova.

A comercialização das mudas está começando praticamente agora. É que as bromélias chamam a atenção apenas quando se encontram floridas. Casanova explicou que estas espécies nativas demoram um pouco para florescer. O valor das mudas varia entre R$ 3,50 e R$ 5,00 a unidade - a mais cara é o poço-de-jacó. Os pedidos podem ser feitos no escritório da Apremavi, em Rio do Sul, ou no próprio viveiro, que fica em Alto Dona Luíza, distante seis quilômetros do centro de Atalanta. As bromélias, conhecidas também como gravatás, são uma grande família botânica, agrupadas em 51 gêneros, tipicamente das Américas, ocorrendo dos Estados Unidos até o norte da Patagônia. As espécies brasileiras são extremamente apreciadas em todo o mundo, tanto pelas cores, formas e desenhos da própria planta, quanto da inflorescência. .O popular abacaxi foi a primeira espécie levada para o Velho Mundo por Cristóvão Colombo em 1493.

Homens que amam flores

Joinville - "Você se torna responsável por aquilo que cativa". A frase de Saint Exupéry, autor do livro "O pequeno príncípe", descreve o trabalho dos floricultores em cada amanhecer. O orquidófilo joinvilense Bernardo Ritzmann, 80 anos e o amigo Heins Fissmer, 65 anos, são exemplos práticos da frase que conquistou leitores em todo o mundo. Os dois são responsáveis por uma centena de espécies. Entre as famosas orquídeas, exóticas bromélias e plantas de menor destaque, somam uma coleção de mais de 5 mil plantas.

Ritzmann está há 50 anos na Agremiação Joinvilense de Amadores de Orquídeas (Ajao). Fissmer há 38 e dizem ter as plantas como filhos, como uma terapia. "São como nossas crianças. Você as vê nascer, protege, dá água, aduba, conversa com elas e depois as vê amadurecer, florir. As pessoas estranham ver os produtores conversando com as orquídeas mas isso é uma coisa natural e importante para quem lida com elas. Algumas esposas chegam a ter ciúmes das plantas".

E é este carinho e dedicação, aliado à técnica e conhecimentos científicos que os profissionais do Centro de Treinamento da Epagri, em conjunto com a Fundação Municipal 25 de Julho e o Mercaflor, em Joinville, tentam passar aos produtores rurais que buscam na floricultura um novo nicho de mercado. Segundo o engenheiro agrônomo e coordenador dos cursos de floricultura ministrados pela Epagri na Fundação 25 de Julho, José Mariano Perobelli, os cursos começaram a ser desenvolvidos no município em 1996 e, entre os módulos um e dois, já capacitaram cerca de 700 produtores rurais.

O trabalho tem apoio da Secretaria de Estado e Desenvolvimento Rural e da Agricultura com um cronograma de atividades para o ano todo. Somando os módulos um e dois do curso principal, a equipe da Epagri de Pirabeiraba já realizou 14 encontros de capacitação. O primeiro módulo apresenta noções gerais de botânica, onde se aprende a conhecer o funcionamento da planta, as partes que a compõem, sua classificação e o nome científico.

No segundo, começam as questões administrativas do processo de cultivo. O terceiro módulo que deve ter suas primeiras edições iniciadas em breve, ensina a constituição legal do negócio.. O Mercaflor entra no programa abrindo as propriedades dos produtores lá estabelecidos para visitação. Em Itajaí, a Epagri ensina a reduzir os custos finais de um viveiro de plantas, que pode encarecer em até 50% a mais com uso indevido e indiscriminado de agrotóxicos e fertilizantes. O curso é ministrado desde 1997 para produtores de mudas e essências florestais, técnicos e leigos. O diretor do centro de treinamento, engenheiro agrônomo Arlindo Cervo, é um erro pedir auxílio em balcões de agropecuárias. O correto, ensina, é buscar informações com um técnico.

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AN especial

  • Coordenação: Roberto Ravali
  • Edição de textos: Celso Machado
  • Reportagem: Jeferson Luiz Ribeiro, Genara Rigotti, Graziela Lindner, Marlise Groth, Luís Fernando Assunção, Roberto Ravali, Cristiano Maia Escobar, Orlando Pereira e Marília Maciel.
  • Editor de Arte: Pierre Themotheo
  • Edição de fotografia: Carlos Alberto da Silva
  • Programação visual: Christiane Dalla Costa
  • Tratamento de Imagens: Odair Jaroczinski
  • Conselho editorial: Ari Lazzari, Luis Fernando Assunção, Carlos Massud Costa, Gert Roland Fischer, Roberto Ravalli, Luiz Meneghim, Lira Queiroz Krüger.
  • Comitê Sistema de Gestão Ambiental (SGA) de A Notícia: Carlos Massud Costa, Carlos Dotto Martins, Roberto Budal Arins, Jorge Antônio Dias, Ari Lazzari, Vladimir Damásio, Lira Queiroz Krüger, Luis José Meneghim, Ulisses Gomes, Jorge Arnaldo Orioni, Luis Fernando Assunção, Adão Gonçalves, Roseli de Souza Barros, Ana Cláudia Tambosi.

Orquídeas

Esculturas do Criador da natureza

Orquidário fundado há quase um século tem cerca de 50 mil plantas e exporta para mercados da Europa, Estados Unidos e Japão

Joinville/Corupá - São dois os grandes produtores de flores no mundo hoje. Um é a natureza, que precisa delas para se reproduzir e garantir a biodiversidade das espécies, o outro é o homem, que produz sementes, mudas e faz germinações laboratoriais para revender flores exóticas e, às vezes, também as produz para garantir a perpetuação de algumas espécies mais raras. Porém, os produtores garantem que mesmo quando são produzidas com finalidade comercial, o cultivador precisa ter amor pelo que faz.

Caso não existissem esse belos elementos da natureza, a fauna seria muito menos diversificada, mesmo porque a existência das plantas em cada local depende de sua adaptação ao meio e isso só é garantido pela polinização, possível apenas através das flores, que são o conjunto de órgãos genitais das plantas, e os agentes naturais que as ajudam na reprodução.

O estigma, parte feminina da flor, e o pólem, o órgão reprodutor masculino dela, são os responsáveis por essa função de reprodução. Porém, eles dificilmente agem sozinhos na flor, poucas delas são hermafroditas, por isso a natureza precisa dos insetos, como as abelhas, para garantir o processo. Eles é que transportam o pólen de uma flor para outra, garantindo a fecundação.

Nas orquídeas, por exemplo, esse processo é ainda um pouco mais complicado. Além do inseto polinizador, para que a fecundação natural seja bem sucedida é preciso a existência de uma bactéria chamada Rhizoctonia repens. Ela é produtora de uma enzima que garante a fecundação por completo.

Considerando esse tipo de dificuldade, é que deve se dar muita importância para a produção em laboratório e em grande escala. O Orquidário Catarinense, funcionando desde 1906, em Corupá, é um dos bons exemplos do trabalho feitos com flores no estado. A empresa passa de pai para filho há três gerações, sempre objetivando a produção de flores e a sua garantia de sobrevivência.

Alvim Seidel, o proprietário do Orquidário Catarinense e um dos maiores pesquisadores de orquídeas e bromélias de Santa Catarina, cedeu anos de sua vida desbravando matas em mais de 20 viagens expedicionárias, no Brasil e em países vizinhos, onde descobriu aproximadamente 100 espécies diferente de plantas, que levam seu nome na nomeclatura internacional, contribuindo imensamente para a fauna mundial. Atualmente, ele administra do Orquidário junto com o filho, mas infelizmente não pode mais seguir com sua pesquisa devido às rígidas leis de proteção ambiental, que proíbe até a disseminação de pesquisas importantes como essa.

A empresa exporta cerca de 60% de sua produção para Europa, Estados Unidos e Japão, o restante é destinado para o mercado interno. "É muito importante nesse ramo não ser ganancioso e apreciar realmente as flores, caso contrário isso se torna apenas um comércio, que por alguns é feito até mesmo de forma ilegal", comenta Seidel.

Segundo ele ainda, para conquistar o mercado externo é preciso ter muita credibilidade e cumprir muitas determinações ambientais. "Não devemos esquecer que os principais interessados em garantir a manutenção de uma maior números de espécies somos justamente nós, os produtores", afirma ele. O orquidário tem cerca de 3 mil espécies diferentes e abriga aproximadamente 50 mil plantas, porém só revende por atacado. "Nossos principais clientes são os colecionadores", garante o filho de Alvim, Donato Seidel.

O constante crescimento do interesse geral da população por flores também exige uma produção maior de plantas e a criação de espécies diferentes que se adaptem a meios diferentes ao que estavam acostumadas. Hoje, há uma infinidade de flores criadas em laboratório com cores e folhagens que somente a criação humana e a fertilização em laboratório, com uma ajudinha da genética, são capazes de produzir. Contudo nem essas "flores de proveta" perdem sua beleza e importância naturais.

Explosão de cores onde a orquídea é a rainha da festa há seis décadas

Na bagagem dos imigrantes europeus, que fundaram Joinville em março de 1851, além do espírito empreendedor, a disposição para o trabalho e a esperança de um futuro melhor, vieram também as tradições. E uma delas, que se mantém até hoje, é o amor pelas flores. O solo e o clima propícios da região, especialmente Joinville, incentivaram cada morador a cultivar seu jardim com muitas flores. A primeira exposição acabou acontecendo em novembro de 1936 na Sociedade Harmonia Lyra, e recebeu o nome de Exposição de Flores e Artes (EFA).

Na época, a cidade tinha apenas 30 mil habitantes e se tornou um hobby de muitos moradores recolher orquídeas em meio a mata atlântica para cultivá-las em casa. Foram estes orquidófilos os primeiros que quiseram expor suas orquídeas aos amigos. A mulheres juntaram às flores, trabalhos manuais, bordados e artesanato que formaram uma exposição inusitada com fotografias, objetos antigos, selos, moedas e obras do artistas plásticos locais. Adolfo Trinks, Adalberto Schmalz e o médico Norberto Bachmann, tiveram a idéia de reunir as coleções de orquídeas uma vez por ano, em época propícia, para o povo em geral conhecer as espécies.

Naquela primeira exposição, em meio as flores e os trabalhos artísticos estava também uma estátua modelada por Fritz Alt. A idéia dos orquidófilos e dos organizadores foi de apresentar as orquídeas ao público naturalmente, como se estivessem num grande jardim. Para isso foi necessário recorrer também a outras flores, plantas e árvores ornamentais. Nada muito difícil na antiga Dona Francisca, como era conhecida a cidade no passado, o paraíso das orquídeas, em particular o gênero dendrobium, cuja exemplar mais disseminado é o D.nobile e suas variedades. Ainda em 1906 o então presidente da República, Afonso Pena, passou por Joinville e, impressionado com a beleza dos jardins da região, disse: "Joinville é o jardim do Brasil".

O historiador Apolinário Ternes afirma em seu livro sobre os 60 anos da Festa das Flores que o apogeu do evento foi nos anos 50 e 60, quando era considerado o evento do ano. Já na primeira edição, a cidade foi sobrevoada pelo dirigível Hindenburg, fato que mereceu destaque num jornal do Rio de Janeiro, pois a bordo da aeronave estava uma comitiva de ministros do governo do presidente Getúlio Vargas. Em 63 anos Joinville assistiu a antiga exposição de flores e artes se transformar em numa festa que hoje tem por objetivo ser um crescente balcão de negócios.

Durante todo este tempo a festa, foi interrompida apenas nos anos de 1941 e 1942, em consequência da 2ª Guerra Mundial. O que era lazer é, cada vez mais, um atraente nicho de mercado. A 61ª Festa das Fores pretende ser um marco da história do evento, conforme o presidente da Agremiação Joinvilense de Amadores de Orquídeas (Ajao), Pedro Holderbaum, responsável pela organização da festa. A Ajao foi criada em 1938 e reúne atualmente cerca de 130 associados com idades entre 12 e 90 anos, todos apaixonados por orquídeas. "O evento, aprimorado a cada ano, já recebeu vários prêmios de destaque como o de "Evento Turístico Nacional", lembra Holderbaum.

Realizada nos pavilhões da Expoville, a Festa das Flores envolve moradores, escolas, comerciantes e fábricas, em concursos de jardins e vitrines bastante disputados. A pareticipação da comunidade e as transformações da cidade, deram a Joinville o título de "Cidade das Flores". E a exposição passou a mostrar também plantas ornamentais e novas espécies de flores que complementam o paisagismo, a cada ano se baseado em um tema central diferente. As flores continuam sendo o maior atrativo, mas paralelamente ocorrem o mercado de flores e plantas ornamentais, espaço cultural, programas para crianças e idosos, feira com produtos para o lar, entre outros.

Mais de meio século depois as estrelas principais continuam sendo as orquídeas. Atraem a admiração de estudiosos e leigos por suas formas delicadas, pela beleza e pela diversidade. Calcula-se que em todo mundo existam mais de 25 mil espécies desta planta, que tem grande capacidade de adaptação e pode ser encontrada tanto em regiões tropicais e subtropicais, quanto em locais de clima temperado e até subártico. Os colecionadores pioneiros buscavam na mata os exemplares que admiravam. Hoje, porém, está prática já não é mais comum.

Os orquidófilos estão fazendo o caminho contrário, devolvendo à natureza as plantas originadas em sementeiras. Na Festa das Flores foi mantido o caráter didático e ecológico. São realizadas oficinas destinadas à pintura, argila e outras técnicas, que estimulam principalmente nas crianças, o interesse por atividades sensoriais e desenvolvem sua criatividade. Não faltam também os atrativos que tradicionalmente fazem parte da programação das festas em Santa Catarina: muita dança, música, comida típica, alegria e diversão.

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