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Especial |
149
anos - De Joinville para o mundo |
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C I Ê N C I A
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T E C N O L O G I A
Maternidade
Darci Vargas
Primeiro estabelecimento
brasileiro do setor a ganhar prêmio do Unicef exibe índices
de países desenvolvidos
A
primeira maternidade pública do País a ganhar do
Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância)
o título de Maternidade Segura, ainda em outubro de 1996,
foi a Darci Vargas de Joinville. Para receber o título
a maternidade foi avaliada por técnicos do Ministério
da Saúde, que levam em consideração oito
passos básicos que devem ser seguidos pelos funcionários
da instituição no tratamento das futuras mamães.
No Brasil, as mulheres em idade reprodutiva representam 25% da
população geral. O risco reprodutivo é 30
vezes maior do que nos países desenvolvidos, e a taxa
de mortalidade materna no país corresponde a 134 mortes
para cada 100 mil nascidos vivos. Isto significa que a cada duas
horas uma mulher morre no Brasil devido a complicações
decorrentes da gravidez, parto ou pós-parto. Em Joinville
a taxa de mortalidade materna é de apenas 24,2 para cada
100 mil nascidos vivos e na Darci Vargas são atendidas
a maioria das parturientes.
O objetivo do projeto Maternidade Segura é, através
de um conjunto de critérios e procedimentos técnicos,
mobilizar profissionais que atuam direta ou indiretamente nos
cuidados da mulher, relacionados à saúde reprodutiva
e, por conseqüência, na assistência à
criança. O administrador da maternidade, Ilson José
Vitório, acredita que este prêmio foi um complemento
ao título Hospital Amigo da Criança, conseguido
em setembro de 1994 e que tem como enfoque central o incentivo
e consolidação do aleitamento materno.
A referência mundial de mortalidade neonatal precoce é
de dez mortes a cada mil nascidos vivos. Na Darci Vargas, a mortalidade
é de 7,9 mortes para cada mil nascidos vivos. E a sua
taxa de mortalidade neonatal precoce em crianças com peso
inferior a 2,5 quilos é de 73,4 mortes para cada mil nascidos
vivos, um índice também inferior à referência
mundial, que é de 120 mortes para cada mil nascidos vivos.
O projeto Maternidade Segura faz parte do esforço do Ministério
da Saúde, da Federação Brasileira de Ginecologia
e Obstetrícia, do Fundo das Nações Unidas
para Infância (Unicef), da Organização Pan-americana
da Saúde (Opas/OMS) e do Fundo de População
das Nações Unidas. Este ano a Maternidade completa
53 anos de atendimentos à comunidade e acumula um série
de títulos que reconhecem as inovações no
atendimento humanizado à mulher e ao recém-nascido.
A maternidade também concorreu ao prêmio Galba de
Araújo. Foram escolhidos cinco estabelecimentos no país
que atendem pelo SUS e desenvolvem programas específicos,
voltados a mulher, ao recém-nascido e ao incentivo de
parto normal e aleitamento materno. O índice de cesarianas
aceitável pelo Ministério de Saúde é
de 40%. A Darci Vargas faz a intervenção cirúrgica
em apenas 26% dos casos e sua meta é baixar para 20%.
Em 93 o índice era de 40% de cesárias . Hoje, a
cada mês são mais de 600 nascimentos e somente em
156 casos são realizadas cesarianas. "No caso do
título Maternidade Segura, cada um dos oito passos requer
uma série de programas internos e externos e muita compreensão
dos funcionários", frisa Ilson. (GR)
Endereço: Rua Miguel Couto, no
bairro Anita Garibaldi.
Data de fundação: 16 de abril de 1947.
Prêmios de expressão no exterior: em setembro de
1994 recebeu o título de Hospital Amigo da Criança;
em outubro de 1996, ganhou o título de Maternidade Segura,
dado pelo Unicef.
Números de hoje: 6,5 mil atendimentos ambulatoriais por
mês e 830 internações, com índices
de qualidade acima da média mundial.
Cleusa Coral-Ghanem
Médica é
uma das autoridades mundiais em oftalmologia e atua nas principais
entidades
internacionais do setor
Determinação
para superar desafios e uma incessante busca por novos conhecimentos.
Com estas características, uma jovem saiu do interior
de Nova Veneza, no Sul do Estado, para completar os estudos,
formar-se em medicina em Florianópolis e, recém-formada
e recém-casada, chegar a Joinville para construir uma
sólida carreira. Passados quase 30 anos, o trabalho desenvolvido
pela equipe da doutora Cleusa Coral-Ghanem na oftalmologia (principalmente
na área de doenças externas, que envolvem córnea
e adaptação a lentes de contato) extrapolou as
fronteiras de Santa Catarina e do País, conquistando o
reconhecimento no meio médico-científico mundial.
Hoje, Cleusa Coral acumula a chefia do Departamento de Lentes
de Contato do Hospital de Olhos Sadalla Amin Ghanem, em Joinvile,
com a missão de ser representante internacional da Sociedade
Brasileira de Lentes de Contato e Córnea (Soblec) - da
qual já foi presidente - e membro da diretoria do International
Contact Lens Society of Ophthalmolgist (ICLSO), que reúne
a cúpula da oftalmologia mundial na área de doenças
externas. "Isto me permite saber o que está sendo
fabricado ou estudado para ser lançado. Eu sei que não
posso resolver tudo, mas se tiver alguma possibilidade de resolver
o problema do meu paciente eu sei até para onde indicar",
diz a médica.
O caminho percorrido até obter o reconhecimento profissional
não foi simples e muitos obstáculos tiveram que
superados. Cleusa Coral lembra que em Nova Veneza a família
morava em um local onde não havia sequer energia elétrica.
"Eu estudava à luz de velas", recorda. Porém,
a mãe (a professora Hilda Coral) era uma mulher com grande
curiosidade intelectual e estimulou a filha desde pequena a ler,
a viajar, a buscar o máximo de conhecimentos possível.
O interesse pela medicina vem desde menina, talvez inspirada
no exemplo da tia Maria Coral, que era parteira prática
em Siderópolis e depois fez enfermagem. "Também
ela optou por ir embora, romper com as raízes para poder
crescer", diz.
A vocação aflorou cedo e ainda adolescente Cleusa
rumou para Florianópolis em busca da formação
profissional. Na Faculdade de Medicina da Universidade Federal
de Santa Catarina ela conheceu o futuro marido, Emir Ghanem -
na época também estudante - e descobriu os fascínios
da especialidade à qual se dedicaria em sua carreira profissional:
a oftalmologia. "O sentido da visão é quase
um milagre, envolvendo processos extremamente complexos e elaborados",
explica, comentando que a paixão pela oftalmologia é
compartilhada por toda a família. "Há de ter
um componente genético, pois nossos dois filhos, ambos
médicos, também serão oftalmologistas",
diz, ressaltando ainda o trabalho do sogro, também oftalmo,
Sadalla Amin Ghanem.
A chegada a Joinville ocorreu com o casamento com Emir, que era
joinvilense e já trabalhava na cidade. "Ele me ensinou
muita coisa. Mas o resto foi autodidata. Aproveitei todos os
cursos e simpósios que tinha para evoluir", revela,
ressaltando que com a mudança para Joinville a descontração
da vida acadêmica foi deixada de lado, cedendo espaço
para uma rotina de muito trabalho e seriedade.
A dedicação joinvilense ao trabalho influenciou
no desenvolvimento da carreira. "Você entra em um
ritmo de muito trabalho. Acredito que evoluí muito em
minha profissão até pelo meio em que estava vivendo",
constata a médica.
A trajetória rumo ao cenário internacional começou
em 1993, quando a equipe de Cleusa Coral-Ghanem organizou, em
Joinville, o Simpósio Internacional de Lentes de Contato
e Córnea. Com um relacionamento bom com as empresas, na
época, solicitou à Johnson & Johnson que trouxesse
o presidente da Sociedade Americana de Lentes de Contato para
o evento. "E eles trouxeram", conta, lembrando que
veio também o presidente internacional da empresa. Ainda
em 1993, Cleusa Coral assumiu a presidência da Soblec,
projetando no mundo o trabalho realizado no Brasil e aumentando
a credibilidade para o País.
No simpósio internacional da Sociedade Americana de Lentes
de Contato, em janeiro de 1994, em Las Vegas, já a convidaram
para dar palestras e para compor a mesa diretora, junto com o
presidente. "Eles começaram a me olhar de outra forma".
Daí para frente o entrosamento com os especialistas norte-americanos
foi aumentando.
Na ocasião, Cleusa Coral foi convidada para assistir à
criação de uma sociedade que reunisse a cúpula
da oftalmologia mundial. Única mulher presente na solenidade
de fundação, ela detalhou o que era a Soblec e
o trabalho realizado no Brasil. "Eles ficaram surpresos
e suspenderam a fundação. Aguardaram eu mandar
todos os papéis para a Soblec integrar a sociedade",
relata, referindo-se à International Contact Lens Society
of Ophthalmolgist, entidade que hoje tem o poder de negociar
com as grandes empresas fabricantes. Pertence à sociedade
o Canadá, os EUA, o bloco europeu, a Índia, o Japão
e o Brasil, único representante da América Latina.
"Abriram as portas para a gente e foram surgindo convites
para fazer trabalhos conjuntos", conta, exemplificando que
hoje está escrevendo o livro "Lentes de Contato,
do Básico ao Avançado" (em fascículos)
em conjunto com o professor Stein - profissional renomado no
Canadá, com mais de 15 livros publicados - e o professor
Freemann, que é presidente de todas as residências
em oftalmologia nos EUA. (MCD)
Onde nasceu: Nova Veneza, no Sul de
Santa Catarina.
Bairros onde viveu: Glória e Atiradores.
Lugares que freqüenta: Harmonia-Lyra, restaurante do Prinz
e o Sopp
Um momento inesquecível: "A ampliação
do centro oftalmológico da então Clínica
Sadalla Amin Ghanem, com a inauguração do Centro
de Diagnóstico, em 1992. Foi a base para a criação
do Hospital de Olhos."
Onde atua: trabalha em Joinville, mas atua no mundo inteiro como
representante da Soblec, como integrante da International Contact
Lens Society of Ophthalmolgist e como representante do Brasil
na International Association on Contact Lens Educators, com sede
na Austrália.
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Museu de Sambaqui
Acervo do Masj
é referência para a comunidade científica
mundial e atrai pesquisadores das grandes universidades
Criado oficialmente em 22 de dezembro de 1969 para abrigar
o material coletado pelo pesquisador amador Guilherme Tiburtius,
o Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville foi inaugurado
em 14 de outubro de 1972, chegando aos dias de hoje como ponto
de referência cada vez mais respeitado pela comunidade
científica mundial quando o assunto são pesquisas
sobre o homem da antigüidade, seus hábitos, costumes
e atividades. Às vésperas de completar 30 anos
de atividade, o Masj trilha simultaneamente duas linhas de atuação
que podem parecer contraditórias à primeira vista
mas, se analisadas com atenção, revelam uma instituição
de perfil abrangente.
A primeira destas linhas aponta para um aprofundamento ainda
maior das pesquisas sobre o homem de sambaqui, seu nível
de conhecimento tecnológico e seus primeiros contatos
com o colonizador europeu. Descobertas recentes de estruturas
vegetais e vestígios cerâmicos nos sítios
arqueológicos próximos à foz do rio Cubatão
têm alimentado teses bastante interessantes sobre a vida
dos primeiros habitantes da região de Joinville mas, se
por enquanto se resumem apenas a suposições à
espera de confirmação, já confirmam publicamente
a intenção das equipes do Masj de mergulhar em
direção às origens dos movimentos de ocupação
destas redondezas: um atestado de preocupação científica
com a comunidade que cerca o museu.
A segunda linha de atuação faz o caminho contrário
da primeira: abre o olhar em direção ao ambiente
internacional da pesquisa e da ciência e moderniza-se à
medida que cresce em reconhecimento fora do País. Os últimos
investimentos feitos pela Vitae/Fundação Lampadia
(com sede em Liechtenstein) e pela Fundação Cultural
de Joinville estão dinamizando a rotina de trabalho dos
pesquisadores e melhorando as condições de acomodação
do acervo lítico, ósseo humano e faunístico,
tornando o Museu de Sambaqui de Joinville ainda mais atrativo
para cientistas de outras parte do Brasil e, como vem acontecendo
com relativa freqüência, de outros países.
O acervo que deu origem ao Masj tem aproximadamente 12 mil peças
e foi reunido por Tiburtius em locações do litoral
Sul do Paraná e do Norte de Santa Catarina entre as décadas
de 50 e 60. Mesmo sendo um arqueólogo diletante, Tiburtius
acompanhou o desmonte de diversos sambaquis, fez pesquisas em
alguns deles e, além de registrar metodicamente estas
informações, publicou muitas de suas observações
na revista alemã "Anthropos". Com a inauguração
do Masj e a transferância deste acervo do Museu Nacional
de Imigração e Colonização para o
novo prédio, pesquisadores brasileiros e estrangeiros
têm acessado o material e desenvolvido pesquisas - muitas
delas publicadas em periódicos internacionais.
Dentre estas visitas científicas, destaca-se a do arqueólogo
francês André Prous. Em 1970, antes mesmo da inauguração
do museu, o acervo do Masj foi alvo da análise do pesquisador
que, baseado nos estudos de zoólitos (minerais esculpidos
à forma de animais) brasileiros - especialmente os catarinenses
- construiu sua tese de doutorado na França. Hoje, Prous
trabalha no Museu de História Natural da UFMG, em Belo
Horizonte, e presta assessoria para o Museu do Homem, em Paris.
Treze anos depois, a professora alemã Anne Charlotte Stark
desenvolveu estudos científicos com o material de sambaqui
coletado na ilha de Espinheiros 2.
Outra visita relevante foi a do odontólogo e professor
Cleber Pereira, da UFRGS, que teve acesso ao acervo esqueletal
do Masj para análises dentárias. Pereira desenvolvia
projetos com pesquisadores brasileiros e canadenses e é
autor de um manual de craniometria usado no Brasil inteiro. O
professor Walter Neves, pesquisador do Centro de Estudos Evolutivos
Humanos da USP, veio ao Museu de Sambaqui investigar a paleogenética
dos grupos pré-históricos do litoral Sul do Brasil,
sua subsistência, atividades econômicas e sua organização
para o trabalho. Famoso por trabalhar com o crânio de Luzia
(peça que possui a mais antiga datação registrada
no Brasil: 11 mil anos), Neves tem trabalhado em cooperação
com cientistas argentinos e chilenos e publicado suas pesquisas
em revistas norte-americanas de antropologia. Hoje, com grupos
americanos e australianos, Neves discute variantes para as teses
que tentam reconstituir as rotas migratórias dos primeiros
homens americanos, lançando mão de muitas informações
obtidas no Masj.
A estreita relação entre o Masj e a USP tem favorecido
a imagem do museu de Joinville no exterior. A visita de pesquisadores
do Arizona State Museum, em 1990, rendeu um pedido de doação
de material audiovisual para divulgação do Masj
nos EUA e seus pesquisadores, surpreendidos com a estrutura,
com a organização e com os trabalhos do museu,
definiram a instituição joinvilense como exemplar
em uma conferência realizada posteriormente no Rio de Janeiro.
Do Arizona State Museum, o Masj recebeu recentemente o pedido
para acesso da pesquisadora Teresa Cadiente ao acervo, um interesse
que nasceu da recomendação da pesquisadora do Instituto
de Biociências da USP, Sabine Eggers.
O Museu de Sambaqui também está avaliando a solicitação
de acesso ao acervo do doutor José Cocilovo, da Universidad
Nacional de Rio Cuervo, na Argentina. Cocilovo, que também
trabalha no Sul do Chile com antropologia física, tem
interesse em trabalhar com a coleção esqueletal
do Masj. (GP)
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