
Personagens que acompanharam mais da metade da trajetória
de desenvolvimento do município revisitam o passado, recordam fatos
e relatam detalhes dos primeiros tempos da Cidade dos Príncipes
NA MEMÓRIA
Dirigível Hiundenburg, que mais tarde explodiria nos EUA, cruzou
os céus de Joinville nos anos 30: imagem inesquecível para
os mais antigos
Acompanhar um passeio pelo
passado de 15 cidadãos que, de uma maneira ou de outra, ajudaram
a construir a história de Joinville foi a forma que A Notícia
planejou para homenagear os 146 anos de fundação da cidade.
Com a autoridade de quem testemunhou mais da metade da
trajetória de desenvolvimento do município, eles relatam fragmentos
da história que ajudam a compreender a Joinville de hoje. A ocupação
urbana, o surgimento de indústrias, a vida política, a garra
dos agricultores, a bravura dos bombeiros, o anonimato dos primeiros socorristas
na área da saúde, a vida que fluía do rio Cachoeira
e do porto do Bucarein, a tradição do esporte são alguns
dos aspectos revisitados pelos personagens deste caderno especial.
Relembre também a seqüência de fatos
que resultaram na fundação de Joinville, em 1851, uma história
que vai desde a realeza dos então proprietários da terra onde
hoje está localizada a cidade até a coragem e determinação
dos primeiros imigrantes.
Confira ainda uma análise de um dos principais problemas
que ameaçam Joinville hoje, o desemprego, e entrevistas exclusivas
com o prefeito e com o presidente da Câmara de Vereadores sobre os
caminhos que podem levar à melhoria da qualidade de vida dos habitantes
do município.
Por fim, divirta-se com um ensaio humorístico dos
chargistas Geraldo Poerner, Carlos Horn e Sandro sobre o aniversário
da cidade.
Boa leitura!
Símbolos
Príncipe François Ferdinand Phillippe, princesa Francisca
Carolina e a barca Colon, que transportou os primeiros 117 imigrantes: personagens
de uma história que levou à fundação da cidade
146 anos atrás
Romance imperial, dote
e bravura na origem de tudo
Namoro entre príncipe francês
e princesa brasileira foi o 1º capítulo. O 2º foi a venda
da terras para senador alemão
João Francisco da Silva
Chefe de reportagem do AN Cidade
Quatorze de agosto de 1818. Nasce François
Ferdinand Phillippe Louis Marie, o terceiro filho de Louis Phillippe, Duque
de Orleans, que 12 anos depois foi sagrado rei da França. Foi o último
monarca. Reinou até 1848, quando o movimento operário derrubou
a dinastia de Orleans e instaurou a 2ª República, elegendo como
primeiro presidente Louis Bonaparte, sobrinho de Napoleão.
François Ferdinand, que, durante o reinado do pai, foi elevado
a Príncipe de Joinville, ingressou na marinha aos 16 anos. Em 1837,
chegou ao Brasil, onde, com apenas 13 anos, dom Pedro 2º equilibrava
na cabeça infantil a coroa de imperador. O francês interessou-se
mais pelas irmãs do que pelo pequeno monarca brasileiro. As princesas
Januária, 17 anos, e Francisca, 15, foram descritas como formosas
e gentis.
Começava o namoro que levaria ao casamento e ao dote que deu origem
ao nome da cidade de Joinville. Uma lei nacional disciplinava que as princesas
brasileiras somente receberiam dotes de terras se constituíssem residência
no país. Se fossem para outro país teriam direito a uma soma
em dinheiro. Porém, contrariando a legislação, Dona
Francisca recebeu parte de seu direito em moeda corrente e mais uma pequena
diferença foi acertada com uma gleba de terras na província
de Santa Catarina, distrito de São Francisco do Sul, entre os rios
Três Barras e Itapocu.
EXÍLIO E VENDA
Com a queda do rei francês, o príncipe acompanhou o pai
para o exílio na Inglaterra. Para contornar dificuldades financeiras,
cedeu em contrato parte das terras da esposa para a empresa de colonização
do senador alemão Mathias Schroeder, proprietário de linhas
de navios que tinha imenso interesse no negócio do transporte de
imigrantes, lucrativo comércio disputado por holandeses, alemães
e ingleses.
O Príncipe de Joinville encarregou seu procurador Louis François
Léonce Aubé de concluir e acompanhar a fundação
da colônia. A empresa alemã despachou o engenheiro Hermann
Guenther para escolher a área do projeto. No Rio de Janeiro, ele
embarcou para São Francisco do Sul juntamente com Aubé e seu
cozinheiro, Louis Duvoisin. Guenther estava acompanhado de Julie Engel,
com quem vivia sem formalizar a união, e com mais duas famílias
contratadas para a construção de dois casarões com
220 metros quadrados que iriam abrigar os futuros colonizadores. Eram eles
Peter Schneider,lavrador, a esposa Maria Catharina e a filha Catharina;
Ewert Sebastian von Knorring, lavrador, a esposa Augusta Sophia e a filha
Mathilde Elisabeth recém- nascida. Em 21 de maio de 1850, a bordo
do barco "Dous Irmãos", chegaram a São Francisco
.
No dia seguinte, aportaram na confluência do rio Matias com o Cachoeira,
na casa do francês M. Frontin, que tinha desistido da fracassada empreitada
do falanstério do Saí. Ali também começava uma
picada de caçadores chamada Caminho do Jarupé, que em seu
primeiro trecho para o interior fazia o mesmo percurso da atual rua 9 de
Março. Na primeira planta de Joinville, desenhada em 1852 pelo engenheiro
Banholzer e publicada em 53, ainda aparece a casa de Frontin na margem direita
do Cachoeira.
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IMAGENS HISTÓRICAS
1 4 6 anos

Pórtico da cidade, o símbolo mais conhecido de Joinville
Nome atual foi
escolhido ainda
na Alemanha
Nenhum imigrante escolheu o nome de Joinville. Que a colônia se
chamaria Dona Francisca e nela seria fundada a cidade de Joinville foi decidido
pelos financistas do projeto, em Hamburgo, para agradar ou mesmo por exigência
dos representantes do príncipes.
Com mão-de-obra contratada entre os moradores da região,
os precursores começaram áreas de cultivo para suprir as primeiros
necessidades da futura colônia. Também construíram residências
rústicas para Aubé, Guenther e as duas famílias de
colonos. No início de 1851 estava no Rio de Janeiro, a caminho de
Nova Orleans (EUA), o filho mais velho do senador Mathias Schroeder, Eduard,
que decidiu visitar o local onde brevemente chegaria a primeira leva de
imigrantes. Decepcionado com o trabalho de Guenther, Eduard demitiu-o na
hora, assumiu o comando das obras e mandou drenar caminhos com a abertura
de valas. Ampliou as derrubadas e o velho Caminho do Jurapé passou
a ser denominado Mathias-Strasse (rua Matias).

Embora a decisão dos empresários hamburgueses fosse de
fundar uma cidade com o nome de Joinville, o aglomerado inicial ganhou a
denominação de Schroedersort (lugarejo de Schroeder) e permaneceria
com este nome até a oficialização de Joinville no ano
seguinte.
No dia 9 de março de 1851, ao chegarem diante da Ilha do Mel,
os 117 passageiros da barca Colon, assustados com o futuro e desesperados
com a travessia do Atlântico onde sete deles morreram, tinham à
espera deles um lugar, embora rústico e selvagem, erguido com o propósito
definido de se construir Joinville. E eles cumpriram a missão. Com
louvor.<B> (JFS)
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